sexta-feira, abril 09, 2021

Entretanto, em Atenas...

 


...vai um grande rebuliço à volta do Sócrates.

terça-feira, março 09, 2021

Fauna da Serra da Gardunha (I)


GINETA (Ginetta ginetta) ou GATO-TOIRÃO

Data de registo: 01/03/2021 
Hora de registo: 05:55

A história de como este pequeno carnívoro chegou ao continente europeu é ainda alvo de especulação. Se há quem defenda que a gineta terá entrado na Península Ibérica quando estreito de Gibraltar ainda não tinha sido aberto pela movimentação das placas tectónicas, outros defendem uma hipótese bem mais recente. De facto, acredita-se que tenham sido os árabes a trazer consigo a gineta como animal de estimação, acabando alguns animais por se soltar e por povoar o território peninsular,  o Sul de França e a Itália. Em Portugal é o mamífero carnívoro com maior distribuição em território continental.

A sua pelagem é cinzenta com manchas brancas e a cauda é espessa e listrada. Tem hábitos nocturnos ou crepusculares, refugiando-se em cavidades ou silvados durante o dia. Alimenta-se principalmente de pequenos mamíferos (ratos e outros), mas se for preciso também se alimenta de aves, insectos ou frutos, dependendo muito da época do ano ou da disponibilidade de recursos.


sexta-feira, dezembro 04, 2020

Já há neve na Gardunha

Os efeitos da massa de ar polar que nos decidiu visitar já se estão a fazer sentir. Após uma noite de vento muito forte, a descida abrupta da temperatura e a precipitação trouxeram de novo a neve a muitas zonas do nosso país. A Gardunha, como não podia deixar de ser, não foi excepção como esta manhã pudemos verificar após nos termos arriscado a subir até próximo dos 1.000m. Por precaução, dado que as condições meteorológicas eram severas (temperatura negativa, vento forte e continuação de queda de neve), não subimos mais.

Embora ainda não haja muita acumulação, o cenário da Gardunha vestida de branco já enche a vista. Veremos o que nos trazem as próximas horas.

Galeria fotográfica (clicar nas fotos para ampliar).
















quarta-feira, novembro 25, 2020

A árvore da paz


Gingko bilobas em Aldeia de Joanes
(clicar nas fotos para ampliar)

Por norma, sou contra a aparente falta de critério das autarquias na escolha das espécies de árvores para plantação em locais públicos, sobretudo quando as espécies autóctones são preteridas em favor de espécies exóticas que nada têm a ver com a geografia local. 

Neste caso, contudo, e mesmo que a escolha tenha eventualmente sido aleatória, este conjunto de árvores é muito interessante pela antiguidade desta espécie na Terra e também pelo simbolismo da sua ligação a um dos episódios mais tristes da História da Humanidade.

Este é um grupo de Gingko bilobas e foi plantado na localidade de Aldeia de Joanes, junto à estrada nacional nº 343. É uma espécie originária do Sudeste da China, único local do Mundo onde crescem em estado selvagem. Trata-se também de uma das espécies vivas mais antigas do planeta, existindo no registo fóssil de há cerca de 200 milhões de anos.

É também considerada um símbolo da paz e de longevidade por vários motivos. Um deles é o facto de 6 Gingko bilobas terem sobrevivido à explosão da bomba atómica em Hiroshima. Ainda estão vivos hoje (ver aqui). Outro motivo é o facto de os exemplares mais antigos desta árvore terem hoje cerca de 3.000 anos havendo inclusive estudos que sugerem que a longevidade da árvore é teoricamente infinita.

Neste grupo da Aldeia de Joanes, há pelo que percebi dois exemplares fêmea, sendo o restante machos. Isto é perceptível pelos pequeno frutos alaranjados que as fêmeas produzem. O Outono é a época em que estas árvores mais emprestam fulgor à paisagem, com as folhas, em forma de pequenos leques, a adquirirem uma intensa tonalidade amarela, tanto nas copas como nos tapetes que se vão formando sob as árvores.

Esta árvore é também usada para efeitos medicinais acreditando-se que ajuda nos processos de memória e cognição, embora haja quem discuta a sua real eficácia, assim como na cozinha tradicional chinesa.

quarta-feira, outubro 07, 2020

O castelo de Castelo Novo


Torre sineira e pano de muralha, prolongado pela cortina metálica contemporânea

Hoje, dia 7 de Outubro, celebra-se o Dia Nacional dos Castelos. A imagem que temos destas construções é algo romantizada, remetendo para os imponentes castelos medievais que o cinema e a literatura promovem. Também os restauros que foram feitos nos dois últimos séculos contribuíram para essa imagem ao reedificarem os castelos não com base em matéria factual mas antes em função da subjectividade e da sensibilidade dos autores dos projectos. 

Contudo, a tipologia dos castelos é muito variada e evoluiu grandemente ao longo do tempo, desde as fortificações "low cost" dos primórdios da Idade Média, em taipa ou madeira, até aos castelos mais tardios, com sistemas de fortificações complexos que incluíam barbacãs, alambores, torres albarrãs, matacães entre outros.

O castelo de Castelo Novo

Foto: Pedro Brito: 

Para assinalar este dia, evocamos aqui o castelo de Castelo Novo, a única fortificação medieval existente na Serra da Gardunha.

A tradição diz que o povoamento da hoje aldeia histórica de Castelo Novo sucedeu ao do Castelo Velho, situado mais acima na Gardunha, devido a uma praga de formigas. Esta é aliás uma explicação recorrente na voz do povo para explicar a relação entre povoados e ruínas que lhe sejam próximas e, quando não são formigas, a culpa recai inevitavelmente sobre os gafanhotos.

Castelo Novo recebeu foral em 1202, tendo sido doada aos Templários que trataram de construir ali um castelo que, embora modesto quando comparado com os mais próximos, integrava o dispositivo de vigilância e defesa fronteiriça desta parte do reino contra as incursões dos vizinhos leoneses e castelhanos. 

É no século XIV que a história do castelo vai viver os seus episódios conturbados ao ser atacado e destruído pelos castelhanos durante as Guerras Fernandinas. Com a paz promovida por D. João I, o castelo foi reconstruído e transformado em residência do comendador da Ordem de Cristo, herdeira da Ordem do Templo. Foi-lhe também acrescentada a torre que depois se tornaria sineira e que hoje se destaca na aldeia (com a bem posterior adição do relógio, claro).

O foral de Castelo Novo seria confirmado por D.Manuel I em 1501 mas depois, lentamente, a vila começou a entrar em declínio e o castelo entrou em progressiva degradação. Acabou abandonado e a servir de pedreira para as construções da aldeia.

Em boa hora foi alvo de escavações arqueológicas, entre 2002 e 2004, que recuperaram a história esquecida deste castelo. O processo de consolidação e de criação de estruturas para a visitação que se lhe seguiram vieram devolver-lhe alguma dignidade e fazer hoje do castelo de Castelo Novo um marco na paisagem da vertente Sul da Gardunha que merece ser visitado. A localização da aldeia história, coroada pela torre sineira e restos da torre de menagem do castelo, abraçada pela Serra da Gardunha no local onde se ergue a majestosa Penha, tornam a visita obrigatória. 

quinta-feira, junho 18, 2020

Passadiços. As razões para sermos contra esta nova moda


De Norte a Sul, a moda dos passadiços está a tomar conta do país. Os slogans que os promovem invariavelmente propõem a ilusão de partir à descoberta dos segredos mais bem guardados da natureza ou o visitar da natureza em estado puro. No entanto, o que esta proliferação de passadiços está a fazer é precisamente o oposto, colocando em risco a natureza, expondo locais até agora selvagens ou pouco frequentados ao turismo de massas, com tudo o que isso implica. Mas comecemos pelo início.

A colocação de passadiços em Portugal começou na década de 1980 nas zonas costeiras, tendo como objectivo diminuir o impacto da passagem das pessoas nos ecossistemas das dunas durante a época balnear. A instalação deste tipo de equipamentos foi-se alargando, conjugando a preocupação ambiental com a vontade em criar condições de acessibilidade. A dada altura, no entanto, os passadiços começaram a ser vistos como equipamentos de recreio, tendo esta função acabado por se tornar predominante, transformando até o fenómeno dos passadiços num de oferta turística popularucha.

Em 2015, foram inaugurados os passadiços do Paiva que, aliás, são hoje uma referência para este tipo de percursos em Portugal, em todos os aspectos. No entanto, são também um claro exemplo do efeito negativo que exercem na natureza que, paradoxalmente, alegam promover. A curiosidade e o interesse gerados pela divulgação dos passadiços dos Paiva levaram a um afluxo em massa de visitantes, mais turistas da natureza que verdadeiramente caminheiros e amantes da natureza, tendo-se chegado a registar cerca de 10.000 visitantes num só dia. O impacto desta afluência no local foi terrível.

Ao longo de todo o percurso acumulou-se lixo, a vegetação foi cortada, o ruído aumentou tremendamente, juntando-se a isso o aumento da circulação automóvel, o aparecimento de vendas ambulantes e bares ilegais. Foi de tal monta que foi necessário limitar o número de entradas diárias a um máximo de 3.500 e, como não foi suficiente, o número foi reduzido para 2.500. As regras a apelar ao respeito pelo local são claras, mas, numa visita relativamente recente que fizemos ao local, ficou claro que não havia controlo além das zonas de acesso, havendo inclusive visitantes que chegaram ao cúmulo de transportar consigo altifalantes debitando os últimos sucessos dos arraiais de Verão. Apesar dos protestos de uma associação ambientalista local, parece ser claro que a aposta autárquica é na massificação turística. O anúncio com pompa e circunstância da construção da “maior ponte pedonal suspensa do Mundo” para ligar os passadiços a outro refúgio da natureza ali próximo demonstra-o.

A febre da criação de passadiços é de tal monta que até se constroem passadiços sobre trilhos pedestres já existentes, aumentando drasticamente o custo de criação do percurso e desvirtuando a experiência de proximidade com a natureza. Em suma, e salvo algumas boas excepções, propor percursos em passadiços como percursos de valorização e promoção da natureza é como criar uma linha de refeições prontas ultra-congeladas com o rótulo de “comida caseira da avó”. Chega a mais pessoas, o custo de produção e a factura ambiental são maiores, mas, definitivamente, está longe de ser aquilo que diz ser. 

Artigo publicado no boletim informativo "Papa-Léguas" nº8 2020
dos Caminheiros da Gardunha

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Para se integrar, jovem sírio convida desconhecidos a jantar em sua casa


Tem 30 anos e é natural da cidade de Alepo. Rami é um refugiado sírio que fugiu do seu país e se instalou em Liège na Bélgica. Procurando integrar-se na sociedade e conhecer pessoas, Rami lançou uma página no Facebook na qual, semanalmente, convidava 10 pessoas a ir jantar a sua casa, para provar pratos típicos da Síria.

A iniciativa teve sucesso e a página rapidamente chegou aos 1.000 likes. Infelizmente, a ameaça de controlos por parte da AFSCA, a ASAE belga, levaram a melhor e Rami acabou por fechar a sua página e desistir da iniciativa embora, como referiu, não tivesse nenhum propósito comercial. Fica o gesto.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

O primeiro BUG da história da informática

Hoje em dia, o termo bug é recorrentemente usado no universo da informática para designar uma anomalia num programa que resulta num comportamento inesperado por parte do sistema. O que pouca gente conhece é a origem da utilização deste termo que, num contexto computacional e traduzido à letra, significa "insecto".

Para descobrir a história por trás do "bug", temos de recuar até 1945, quando a II Guerra Mundial caminhava para o fim. A guerra tinha tido tanto de bárbaro como de promoção de desenvolvimento científico, especialmente no que à informática diz respeito pois, para auxiliar cálculos balísticos e também para descodificar mensagens cifradas do inimigo, surgiram os primeiros computadores: o Colossus em Inglaterra (ler aqui "O dia em que o preconceito levou um génio ao suicídio") e a série Mark nos EUA. 

Fonte: National Museum of American History

Eram então computadores bem diferentes dos actuais, não só pela sua dimensão como pela sua capacidade de processamento. Basta dizer que temos hoje nos nossos bolsos, na forma de smartphones, uma capacidade de processamento incrivelmente superior à daqueles computadores dos anos 1940 que ocupavam salas inteiras.

Foi no computador Mark II, a 9 de Setembro de 1945, que o primeiro bug foi encontrado, tendo o acontecimento ficado registado no diário de operação da máquina às 15h45. Tratou-se de uma traça, que faleceu sem glória no interior da máquina, tendo sido removida e colada com fita adesiva na própria página do diário.


O primeiro BUG da história da computação
Fonte: Naval History and Heritage Command

Ficou registado: "Relé nº70, painel F. (Traça) no relé. Primeiro caso real de descoberta de um bug.". Este diário encontra-se em exposição no Museu do Computador no centro de Guerra Naval em Dahlgren, Virgínia (EUA).


quarta-feira, janeiro 16, 2019

Os Lagos de Plitvice - Menção honrosa nos melhores trilhos

Após ter publicado o artigo sobre os 5 melhores percursos de caminhada que já fiz, algumas pessoas questionaram naturalmente os critérios de escolha e a não inclusão de alguns percursos que mereciam figurar na lista. É claro que uma escolha deste género é sempre subjectiva e quanto mais curta é a lista mais difícil é compô-la e por isso é importante definir bem os critérios de avaliação. No meu caso optei pela beleza paisagística, valor histórico-cultural, convivência com a população local, sensação de paz e libertação proporcionadas. Isto porque, quando faço uma caminhada, procuro trazer sempre comigo algo mais que a simples memória de belas paisagens. A experiência será tão mais rica quanto mais aprendermos sobre o território que percorremos. Ao mesmo tempo, tem de ser um percurso que permita instantes de contemplação pacífica, a possibilidade de nos sentarmos a apreciar a paisagem sem perturbações.

É por isso que, por exemplo, percursos como os Passadiços do Paiva nunca serão parte da minha lista de favoritos. Ter de caminhar numa fila indiana interminável, onde inclusive há grupos que fazem questão de levar altifalantes para debitar os últimos sucessos dos arraiais populares, é algo que arruina completamente a experiência e relativiza por completo a beleza da paisagem. É algo que acontece de forma recorrente quando os lugares são vítimas da sua própria popularidade e se tornam objecto de massificação turística.

Os Lagos de Plitvice


Basicamente, foi por isso que não incluí o percurso que fizemos nos Lagos de Plitvice (Plitvička Jezera) na Croácia há 4 anos mas que, muito provavelmente entraria no top 10. Trata-se de um lugar magnífico, com uma sucessão de 12 lagos no meio de uma extensa floresta, pelos quais a água flui em cascatas de diferentes espectacularides e não é à toa que este Parque Nacional, o mais antigo da Croácia, está classificado como Património da Humanidade pela UNESCO.

É possível percorrer o parque por vários trilhos sinalizados, de diferentes dificuldades, e pode-se até fazer parte do percurso num dos ferries que atravessa o lago maior. Na altura optámos por percorrer as zonas mais próximas dos lagos e aí experimentámos o efeito da massificação, com alguns "engarrafamentos" no percurso e filas para entrar nos ferries, isto apesar de a entrada no parque ser paga (se não fosse seria uma catástrofe). Uma pena. 

No entanto, houve partes que conseguimos percorrer de forma totalmente tranquila (bastava subir um pouco) e isso permitiu também apreciar da melhor forma toda a biodiversidade do local.

O facto de termos ficado alojados perto dali, numa aldeia com 6 ou 7 casas, uma antiga estância de Verão do Estado-Maior do General Tito, ajudou a enriquecer a nossa experiência. O nosso anfitrião, o fantástico Tomislav, que cozinhava todos os dias para nós, revelou-se um excelente conversador apesar de ter sido necessário ajustar o protocolo de comunicação: nós falávamos em inglês, ele falava em italiano e a comunicação era facilitada por uma bela garrafa de Dingač. Correu às mil maravilhas. Foi aliás graças a ele que ousámos aventurar-nos numa base aérea militar subterrânea abandonada. (Recordar aqui)

Aqui ficam algumas fotos:


Uma das muitas cascatas


Engarrafamento pedestre num dos passadiços

Vista mais ampla de dois lagos e das cascatas


Felizmente o nosso mau domínio do croata não nos permitiu perceber os avisos de interdição de passagem neste acesso alagado


A cascata maior

Vista de uma secção da rede de passadiços

domingo, janeiro 13, 2019

Os meus 5 melhores percursos de caminhada

1 - Caminho Inca
Peru - 43km - 4 dias - Muito difícil





Viajar até outro continente, conhecer uma cultura e uma língua e descobrir paisagens profundamente contrastantes e, no final de tudo, cumprir um sonho de criança. É o resumo do que foi viajar até ao Peru para percorrer os 43km do Trilho Inca até às ruínas de Machu Picchu.

Para percorrer este trilho foi necessário fazer reserva com vários meses de antecedência. Sendo um percurso de acesso restrito, só é possível percorre-lo devidamente enquadrado por uma agência local licenciada que, no nosso caso, foi a Enigma. Diariamente, só podem passar pelo checkpoint de entrada no trilho 500 pessoas, incluíndo o staff das agências. Esta forneceu guias, carregadores e cozinheiros que cuidaram da condução do grupo e de toda a logística da expedição, incluíndo o transporte para o início do trilho, alimentação, bilhetes de entrada em Machu Picchu e o bilhete de comboio de regresso a Cuzco.

A caminhada fez-se pelas montanhas, partindo do vale do rio Urubamba e durou 4 dias, tendo subido até aos 4.200m. Foi por isso que dedicámos alguns dias prévios à aclimatação em altitude na cidade de Cuzco. O ponto mais baixo do percurso é curiosamente a própria cidade de Machu Picchu, com 2.400m. A altitude obriga a reduzir o número de quilómetros percorridos diariamente e, podem acreditar, sente-se a falta de oxigénio em determinados pontos.


Esta diferença de altitude e o facto de se cruzarem as montanhas da cadeia andina permitiu observar uma notável transformação da floresta, desde uma vegetação mais esparsa e rara até uma luxuriante floresta quase tropical que anuncia a Amazónia. As noites foram passadas em acampamento (na primeira noite foi preciso dormir com casaco dentro do saco-cama, tal era o frio!) e valeu bem a pena acordar pela madrugada e contemplar os picos aguçados das montanhas a ser banhados pelos primeiros raios de Sol enquanto bebericávamos um chá de coca bem quentinho.




Ao longo do caminho, todo ele feito por uma antiga estrada real inca, passámos por algumas cidades incas assim como ruínas de "Tambos", os postos de descanso dos mensageiros do Império. Com as explicações pontuais dos guias ficamos também a ser muito sobre o Império Inca e a biodiversidade das montanhas. É difícil descrever a sensação que foi quando, no último dia, transpusemos a Porta do Sol e, com este nas nossas costas, contemplámos Machu Picchu a dominar os meandros do Urubamba. A arquitectura já não era no entanto uma novidade visto que, pelo caminho, já tínhamos passado pelas ruínas de 5 cidades incas.

O relato da caminhada:

Preparação da viagem:
Inca Trail Peru - Este site foi fundamental para ter noção das dificuldades e das formalidades necessárias.
A Sofia Cadilha também merece um agradecimento especial pela ajuda nas reservas de hotel


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2 - Trilho da Muralha de Adriano
Inglaterra - 140km - 6 dias - Dificuldade média


"Fortuna Vobis Adsit"





A primeira grande caminhada em terras estrangeiras foi feita percorrendo Inglaterra praticamente de costa a costa e ao longo dos vestígios da fronteira mais a Norte do Império Romano: a Muralha de Adriano. Foi uma verdadeira viagem pela história com uma belíssima paisagem como fundo.

Este percurso vai muito para além do simples pedestrianismo. Começámos na cidade de Newcastle e terminámos na pequena aldeia de Bowness-on-Solway, à vista da Escócia mas pode ser feito no sentido inverso (talvez mais fácil, dado os ventos dominantes). Este trilho nacional apresenta uma paisagem extremamente variável, desde o meio urbano de Newcastle até à bucolidade das várias quintas e aldeias, sem esquecer a magnífica paisagem do Parque Nacional de Northumberland, na secção central.


Milecastle ou, em bom tuga, um fortim de milha. Estes fortins guardavam as portas na muralha e estavam colocados a cada milha romana. 


O percurso é feito seguindo quase sempre o traçado da muralha, percorrendo trilhos abertos nos prados (onde a via está marcada pelo corte da erva), transpondo cercas através de portões basculantes de madeira ou escadotes de madeira sobre estas. Tem ainda algumas secções em alcatrão, tanto em ciclovias (Newcastle) como estradas secundárias ou vias de acesso local que podem fazer mossa mas que não chegam a 20% do total do percurso. O percurso está muito bem assinalado e é seguro.

Houve necessidade de fazer a preparação com algum tempo de antecedência, dada a escassez de alojamentos e serviços na secção central. Os B&Bs são muito confortáveis e, se for pedido de véspera, fornecem um farnel para o caminho, até porque o pequeno-almoço bem british fornece energia para boa parte do dia mas não chega para tudo. A principal dificuldade foi termos de transportar às costas mais do que aquilo que necessitávamos pois, após a caminhada, iríamos ainda permanecer mais uma semana pela Escócia.




Para quem viaja de Este para Oeste, os vestígios da muralha e estruturas adjacentes são visíveis sobretudo a partir do 2º dia, deixando de o ser ao final do quarto dia. Há no entanto muito para ver para além da muralha dado que o sistema defensivo era complementado por torres, fortins e fortes de legionários cujas ruínas foram em grande parte postas a descoberto e, no caso dos fortes, alguns têm um centro interpretativo associado. Na periferia há outros pontos de visita que valem a pena como a cidade romana de Corbridge (que nos acrescentou 13km ao percurso) ou o forte de Vindolanda em curso de escavação, a dois passos de Once Brewed. Também a cidade de Carlisle com o seu castelo justifica bem uma visita atenta.

Para nós, a caminhada terminou, tendinites à parte, com um momento de pausa sob um telheiro de madeira à vista do estuário do rio Eden, local bem apropriado para um pedido de casamento.

O relato da caminhada:

Preparação da caminhada (guia e mapa):

Site oficial:

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3 - Caminho de São Salvador (Espanha)
Espanha - 122km - 5 dias - Difícil

"Quien va a Santiago y no va al Salvador, visita al criado y olvida al señor"

Catedral de Léon

O Caminho de São Salvador ou Caminho do Salvador é geralmente visto como um percurso "satélite" dos caminhos de Santiago mas dizer isso é claramente menosprezar este percurso. Decorrendo entre Léon e Oviedo, duas cidades que vale a pena visitar, é um caminho com identidade muito própria, tendo inclusive a sua própria credencial e certificado. A passagem pela cordilheira cantábrica, revela paisagens que transmitem uma enorme paz e serenidade.

Fiz este caminho a solo ou, pelo menos, essa era a ideia inicial. Na verdade, tal como em qualquer percurso dos Caminhos de Santiago, também o Caminho do Salvador não se faz nunca sozinho mas isso não significa que padeça da massificação de que os Caminhos de Santiago são vítimas, bem pelo contrário. Os rostos dos outros caminheiros/peregrinos tornam-se rapidamente familiares e, se tivermos o espírito aberto, rapidamente se instala um ambiente de muito à-vontade.

O caminho é sobretudo feito em caminho de terra, tento também largos troços em alcatrão, sobretudo por vias secundárias ou de acesso local, e trilho de montanha. O percurso está muito bem assinalado (as dúvidas eventuais dissipam-se com recurso ao guia indicado abaixo) e sofre um pouco da heterogeneidade geral da sinalética dos Caminhos de Santiago. Pode ser perigoso durante o Inverno devido à neve e ao gelo na travessia das montanhas.


Secção entre Puerto de Pajares e Pajares

O caminho está relativamente bem servido de albergues, embora abaixo do que acontece nos Caminos de Santiago, mas em termos de serviços e alimentação já nem tanto, sobretudo quando nos embrenhamos nas montanhas. A estadia em Poladura de La Tercia obrigou a contactar previamente uma senhora da aldeia que nos preparou o jantar. Sem isso, teríamos de nos ter resumido ao que tivéssemos trazido connosco ou à máquina de vending do albergue. Há em compensação outros aspectos. Nessa aldeia, é possível comprar ovos frescos ou sidra asturiana numa quinta local. Outro local onde o acolhimento é excelente é no albergue de Benduenos. Embora fora de mão, se for combinado de véspera a responsável pelo albergue vem buscar os peregrinos ao Caminho, levando-os de volta no dia seguinte. É também uma excelente cozinheira que confecciona refeições com produtos que ela própria produz.

Nas zonas mais povoadas deste caminho, há vários estabelecimentos onde podemos parar para descansar e beber qualquer coisa e de forma geral, a bebida vem sempre acompanhada de algo para comer, não raras vezes um "pincho de tortilla". É uma boa amostra da hospitalidade destas gentes que, sobretudo para os peregrinos, se desdobra em gentilezas. Por falar em tortillas, é OBRIGATÓRIO parar no café/restaurante Bom Suceso, em frente à ermida medieval com o mesmo nome, para provar aquela que é considerada a melhor tortilla de todo o Caminho do Salvador.


A obrigatória tortilla do restaurante Bon Suceso.

À chegada a Oviedo, é obrigatório visitar o centro histórico e -claro está!- a catedral. Para além de se obter o certificado da peregrinação, vale a pena visitar o monumento e admirar as "relíquias" que fizeram a dada altura com que esta cidade, outrora capital do reino das Astúrias, fosse a cidade europeia com mais relíquias cristãs, logo atrás de Roma. São relíquias essencialmente ligadas à paixão de Cristo e à Virgem e se hoje já faltam algumas, na Idade Média era possível admirar o sudário que cobria o rosto defunto de Cristo, um pedaço da sua túnica, alguns espinhos da coroa, um pedaço da cruz, pão da última ceia, terra do santo sepulcro, uma tina das bodas de Canã, leite coalhado da Virgem, restos de "maná", madeira da vara de Moisés, uma sandália de Pedro, entre outros.

Depois, há que celebrar o fim da jornada e o admirar de tamanha panóplia de relíquias com um belo copo de sidra servido à moda das Astúrias: com a garrafa bem acima da cabeça a verter para um copo à altura da cintura.

Preparação da caminhada:
Guia - Camino del Salvador Um guia gratuito com TUDO o que é preciso saber sobre o Caminho de São Salvador, feito por um peregrino local. 5 estrelas!


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Percurso da Geira (Gerês)
Portugal/Espanha - 40km - 2 dias - Dificuldade média



O percurso da Geira é um percurso dedicado à Via Nova ou Via XVIII do Itinerário Antonino, uma antiga estrada imperial romana que ligava Astorga a Braga. Todo o percurso, excepto uma curta secção, é feito sobre o traçado desta antiga via romana que, quase 2.000 anos depois, ainda tem sinalização viária romana.

Tive a oportunidade de o fazer por duas vezes. A primeira em 2016 e a solo, tendo-o feito entre Seramil e Lobios em duas etapas, e a segunda em 2017 com os Caminheiros da Gardunha entre Seramil e Os Baños.



Embora este percurso possa ser iniciado bastante antes, recomendo o início em Seramil, no lugar da Santa Cruz, percorrendo depois uma primeira etapa até Campo do Gerês e depois partindo daqui até Os Baños, já na Galiza, numa segunda etapa. A piscina termal pública a céu aberto d'Os Baños, na margem do Rio Caldo, é a forma perfeita de terminar, descontraindo os músculos na água sulfurosa que brota da terra a 70º. Uma alternativa é continuar mais um quilómetro até Vilameá, visitando esta aldeia muito típica com os seus espigueiros e eira comunitários.

O percurso é principalmente feito em caminho de terra batida e calçada antiga, com algumas secções de alcatrão e, aqui e ali, por veredas estreitas. A via tem pendentes suaves e a dificuldade prende-se sobretudo com algumas secções mais desafiantes devido ao estado do piso. A paisagem é lindíssima, sobretudo na 2ª etapa, quando se percorre as margens da albufeira da barragem de Vilarinho das Furnas, a Mata da Albergaria e o vale cavado do Rio Caldo, já para lá da fronteira.


O interesse é exponenciado pela existência de vestígios romanos associados à via, sendo o grande destaque os marcos miliários em número invulgarmente alto, que foram recolocados nos seus lugares originais e que hoje, quase 2.000 anos depois, continuam a servir de referência de distâncias, as marcas de pedreiras e, já na Galiza as ruínas da "mansio" (estalagem romana) de Aquis Originis. Na passagem por Campo do Gerês, é obrigatório visitar o Museu da Geira, que explica de forma muito clara e rica tudo o que há para saber sobre a Via Nova. Pode-se igualmente aproveitar para visitar o Museu de Vilarinho das Furnas e a Porta do Parque Nacional da Peneda-Gerês.


Outro lugar a visitar  é o núcleo museológico da fronteira da Portela do Homem. Situado no antigo edifício alfandegário, contém vários marcos miliários e apresenta um complemento de informação sobre a via romana. Tem ainda uma pequena sala dedicada à história da fronteira entre Portugal e Espanha. Esta valência partilha o edifício com um pequeno café-restaurante.

Dado que o percurso é linear, pode haver alguma dificuldade na gestão do transporte para o regresso. A solução pela qual optei foi, à chegada de cada etapa, dirigir-me a um café para pedir contactos de táxis. Único senão, o táxi espanhol recusou levar-me a Campo do Gerês, onde eu tinha deixado o carro, pelo facto de a estrada ser de terra, deixando-me a 6km. Acabei por pedir depois boleia a uma carrinha que passava, com alguns habitantes de Campo do Gerês. Entre histórias várias, acabámos todos por ir beber umas minis.


Preparação da caminhada:
Excelente guia com descrição das curiosidades e pontos de interesse de cada milha do percurso. Custa 5€ e pode ser encomendado à cobrança junto da Câmara Municipal de Terras do Bouro pelo e-mail turismo@cm-terrasdebouro.pt.


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Rota dos 3 Países
Bélgica/Alemanha/Luxemburgo - 23km - 6 horas - Dificuldade média


Ponte dos 3 países. Na margem de cá, à esquerda da ponte fica à Bélgica e à direita o Luxemburgo. A margem mais distante é toda ela alemã.


Não é comum fazer caminhadas que, em pouco mais de 20km permitem passar por 3 países diferentes. Se juntarmos a isso florestas a perder de vista, paisagens onde o verde é a cor predominante e vários quilómetros embalados pelo som de água, temos os ingredientes fundamentais para uma excelente caminhada.

Ao chegar à Bélgica, faz amanhã um ano, uma das primeiras coisas que fiz foi inscrever-me num clube de caminhadas, o RCAE (Royal Cercle Athlétique des Étudiants). Afinal, a melhor forma de descobrir o território, neste caso num país que eu desconhecia por completo, é percorrê-lo a pé. De entre todas as caminhadas que fiz, com este grupo, esta rota por 3 países foi a que mais me impressionou.


Partindo da aldeia de Ouren, onde a pedra se mistura com o verde da floresta, o percurso é belga durante 1,5km até chegar à ponte dos 3 países onde, como o nome indica, confluem as fronteiras da Bélgica, Alemanha e Luxemburgo. É a primeira de duas travessias do rio Our, um rio cujas margens são o palco de cenário de 7km desta caminhada, sobretudo do lado luxemburguês.


Entre florestas e um pequeno circuito pelo planalto alemão, passa-se junto a uma represa construída por castores e que mostra bem a importância que estes têm na promoção da biodiversidade ao criarem zonas alagadas. O regresso ao rio Our marca a entrada no Luxemburgo e daí, percorre-se o rio até regressar à Bélgica. Para além da floresta densa, um outro aspecto fascinante é a ocorrência de registos fósseis nos vários painéis rochosos sedimentares que se encontram pelo caminho.

Vale depois a pena terminar a caminhada numa esplanada da aldeia junto ao rio. Tranquilamente podemos passear com os olhos entre a Alemanha e o Luxemburgo enquanto nos refrescamos com o que a Bélgica tem de melhor. A cerveja, pois claro.

Desbaste feito por castores. O alagamento denuncia a presença de uma barragem feita por estes mamíferos mais a jusante.

Uma última nota de curiosidade: embora a caminhada passe por 3 países, ao fazer este percurso acabei por ter uma imersão num quarto país com um sabor nostálgico de saudade. Num dos meandros do rio, já perto do final, deparei-me com uma enorme festa de trabalhadores portugueses que faziam uma churrascada à beira da água. Os ingredientes estavam lá todos: a cerveja Sagres, a máquina de café do Pingo Doce, as bifanas, uma camisola do FC Porto e uma animada música do Tony Carreira.

Mapa do percurso no Wikiloc AQUI


Este é portanto o top 5 dos meus percursos. Se eventualmente servir para vos inspirar e quiserem eventualmente percorrê-los, estejam à vontade para me contactarem para pedir dicas e conselhos. Se eventualmente já tiverem percorrido alguns deles, como foi? Partilhem a vossa experiência!

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