segunda-feira, outubro 15, 2018

Floresta portuguesa, um ano depois

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Setembro de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os romanos passaram pela Gardunha
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros
   - Os Castros da Serra da Gardunha

Serra da Gardunha, 2017


Foi há pouco mais de um ano que a Serra da Gardunha foi devastada pelo violento incêndio que dificilmente se apagará da memória de todos os que o viveram de perto. O heroísmo e a solidariedade da população do Fundão foram já reconhecidos e alvo de homenagem por parte da Câmara Municipal mas o mais importante, que é a recuperação e a implementação de um modelo de ordenamento e gestão da Serra da Gardunha, continua a ser uma miragem. Na Serra da Gardunha, os municípios, o ICNF, a APA e a DRABI continuam a atropelar-se na gestão do território e parece ser difícil encontrar um rumo.

Seria no entanto tremendamente injusto referir este como sendo um problema exclusivo da nossa serra quando se trata de um problema nacional crónico. Desde logo, o incêndio da Gardunha foi apenas um entre os inúmeros que em 2017 consumiram mais de 440.000 hectares, o corolário de uma década terrível em que mais de um terço da floresta portuguesa ardeu.

Este facto veio por a nu, como se ainda fosse preciso, que em Portugal não existem políticas de ordenamento florestal nem de prevenção de incêndios dignas desse nome. Pior ainda, ninguém pode afirmar que o que sucedeu em 2017 foi algo completamente inesperado. Num país em que se chega ao cúmulo de se definir oficialmente uma “época de incêndios” e já se perdeu o sentido de ridículo de que este conceito se reveste, ninguém poderia ignorar que um ano com condições climáticas mais extremas levaria inevitavelmente a este desfecho.

Poder-se-ia pensar que finalmente as lições teriam sido aprendidas mas não. Até agora, a medida mais sonante que o Governo tomou foi a promulgação de uma lei de obrigatoriedade de limpeza que, cavalgando a onda do trauma recente e empurrada pela ameaça de multas chorudas, acabou por ser nociva para a floresta portuguesa.

Por um lado, se houve um facto que para todos ficou evidente foi que as árvores autóctones são mais resistentes ao fogo que os pinheiros-bravos e eucaliptos que dominam o nosso território. No entanto, a lei tratou de situar todas as espécies ao mesmo nível o que não terá de todo desagradado a certos grupos económicos que prosperam ao ritmo do pinhal e eucaliptal e que no rescaldo dos incêndios tinham sido postos em causa.

Por outro lado, no país onde as leis são traçadas a régua e esquadro num gabinete distante da realidade, só depois do abate de árvores centenárias, espécies protegidas e até de árvores de fruto, alguém decidiu vir a terreiro explicar que afinal não era necessário cortar tudo a eito. Apesar de tudo, a criação de zonas de protecção ao redor das aldeias foi uma consequência positiva.

 Acontece que só esta questão da limpeza é tão eficaz no quadro geral como a delimitação de uma zona livre com fita de segurança ao redor de uma bomba-relógio. Continuamos todos à espera de uma lei concreta de ordenamento florestal que sirva verdadeiramente o propósito de um floresta com QUALIDADE e BIODIVERSA. A floresta que temos em Portugal é cada menos digna desse nome, antes sendo uma exploração silvícola mono-cultural intensiva cujo único objectivo é o de obter lucro o mais rápido possível.

O problema é que a nossa classe política vive refém de interesses que nada têm a ver com o interesse público e que lhe restringe a liberdade (ou a vontade?) de implementar reais medidas de fundo. Antes preferem as medidas cosméticas em embalagem populista, sabendo de antemão que todas as decisões que tomarem dificilmente serão alvo de avaliação ainda durante a vigência do seu mandato. Seja como for, a estratégia crónica de culpabilização dos antecessores oferecerá sempre uma almofada de conforto para o caso de algo correr menos bem.

Também os privados, que detêm a esmagadora maioria do território de floresta em Portugal, vivem hoje reféns da ideia, herdada do período do Estado Novo, de que a única forma de obter rendimento da floresta é através de pinheiros e eucaliptos. Quem os pode censurar quando nada foi feito a nível superior para contrariar esta ideia e a possibilidade de que obter algum rendimento, mesmo que seja uma lotaria, é melhor do que não obter absolutamente nada?

Em 2017 Portugal, com a Serra da Gardunha, ardeu. Como referi na altura, todos nós, com a nossa inacção e silêncio, fomos cúmplices. Então como agora, continua a pertencer aos cidadãos o poder de mudar o rumo dos acontecimentos e é urgente fazê-lo. A contagem decrescente recomeçou.

quinta-feira, outubro 11, 2018

Eben-Emael, o forte capaz de resistir a tudo excepto aos alemães

Entrada do forte (pelo Bloco 1)

Após a invasão alemã da 1ª Guerra Mundial, a Bélgica começou a trabalhar no reforço das suas fronteiras, um pouco à semelhança da França onde se iniciou a construção da Linha Maginot. Assim, o plano belga previu a reabilitação e modernização de vários fortes que no conflito 1914-18 tinham oferecido resistência às tropas alemãs, mas acrescentou muitos outros elementos de defesa. Entre elementos passivos (obstáculos anti-tanque, canais inundáveis, casamatas e postos de observação, entre outros) instalados um pouco por toda a parte, mas concentrados sobretudo na famosa linha KW, foi decidida a construção de 4 novos fortes para conter qualquer investida que pudesse vir da Alemanha: Tancrémont, Battice, Aubin-Neufchâteau e Ében-Émael.


Escadaria interna de acesso ao nível superior



Galeria interna. Em caso de ataque de gás, as portas blindadas estanques eram seladas e a ventilação fazia-se pelas aberturas no solo sobre as quais estavam instalados filtros de gás. O ar dentro do forte tinha uma pressão ligeiramente superior à do exterior para impedir a entrada de gás.

Este último, o maior deles todos, destinava-se a colmatar um espaço aberto que os alemães tinham usado a seu favor durante a 1ª Guerra Mundial para romper a posição fortificada de Liège. O seu objectivo era o de controlar as pontes sobre o rio Mosa na fronteira com a Holanda, junto a Maastricht, e, após a construção deste (1930-39), também de controlar o canal Alberto. 


O canal Alberto na sua bifurcação com o canal de Lanaye cujas eclusas são visíveis à direita. O canal Alberto descreve uma curva para a esquerda e o forte Eben-Emael situa-se no maciço mais à esquerda na foto.


As galerias do forte foram escavadas na montanha de tufa calcária ligando várias casamatas e pontos de observação, tudo isto complementado com fossos anti-tanques, fossos inundáveis e áreas de arame farpado. O resultado foi uma fortificação em forma de triângulo, com 750m de base e 950m de comprimento. O domínio do forte estendia-se a uma área de 75ha, algo como 150 campos de futebol. Sobre a estrutura do forte situavam-se as cúpulas de canhões, assim como algumas falsas cúpulas para iludir o inimigo, que tinham capacidade para disparar até 2100kg de projécteis por minuto a uma distância máxima de 17,5km. A organização interna do forte dispunha-se em 3 níveis

Mapa do forte com disposição das casamatas (Ma(astricht) 1 e 2, Vi(sé) 1 e 2, Mi Norte e Mi Sul), das cúpulas (CP 120, CP Norte, CP Sul) e dos Blocos de defesa de proximidade (BL I a VI, Canal Norte e Canal Sul, BL 01).
Fonte: Le Fort Eben-Emael

Não era o maior forte da Europa, essa honra cabia ao Hackenberg (recordar a nossa visita aqui), mas era um dos maiores do Velho Continente e o maior da Bélgica. Adicionalmente, o comando belga tinha destacamentos encarregues de guardar as pontes sobre o Mosa e o canal Alberto e de activar os mecanismos de auto-destruição em caso de ataque, tornando qualquer força de ataque presa fácil da artilharia do forte. O dispositivo parecia, pois, oferecer garantias ao Alto-Comando Militar belga de que se tratava de um elemento defensivo totalmente dissuasor e inexpugnável. Só que…


O ataque alemão

Reconstituição à escala real de um dos planadores utilizados no ataque.

Foi precisamente contra o Eben-Emael que os alemães deram provas da famosa eficiência que lhes mora no ADN. Conscientes de que um ataque por terra seria muito oneroso em termos de homens e materiais os alemães conceberam um plano totalmente inovador para a época. Assim, após um treino intensivo de 6 meses concebido ao que parece pelo próprio Hitler, vários planadores são lançados a partir de diferentes bases na Alemanha, tendo partido de Colónia o contingente destinado a atacar o forte. Ao mesmo tempo, soldados alemães já se tinham infiltrado na região fronteiriça vestidos à civil ou com uniformes da polícia holandesa, tendo como objectivo assegurar o controlo das pontes e evitar que explodissem. Para que a surpresa fosse completa, o ataque foi lançado antes de qualquer declaração de guerra. 

Parte superior do forte com as cúpulas de artilharia visíveis à esquerda e uma falsa cúpula visível à direita, em segundo plano

Por volta das 4h30 da manhã do dia 10 de Maio de 1940, 9 dos 11 planadores aterram sobre o forte beneficiando do único ponto fraco: os campos de futebol que os soldados belgas aí tinha feito para seu entretenimento e que assim, livres de arame farpado ou minas, foram um campo de aterragem perfeito. 

Munidos de uma arma inovadora, as cargas ocas, capaz de perfurar betão ou aço, os alemães neutralizaram em pouco mais de 15 minutos duas cúpulas e duas casamatas de artilharia, as que podiam impedir a movimentação de tropas terrestres pelas vias de invasão escolhidas, e ainda duas casamatas de defesa de proximidade, assegurando assim o controlo da parte superior do forte. Apesar de vários contra-ataques da guarnição do forte e dos disparos feitos pelos dois fortes mais próximos de Eben-Emael sobre este, os páras alemães bem entricheirados nas casamatas semi-destruídas resistiram e aguardaram pela chegada das tropas terrestres, o que aconteceu na madrugada da manhã seguinte. 


Porta blindada interior da casamata Maastricht 1 destruída por uma carga oca alemã.


Cúpula de observação de uma casamata danificada por uma carga oca. 

Finalmente, após 36 horas de combate apenas, o inexpugnável Eben-Emael rendeu-se. Este acontecimento causou ondas de choque pela Europa inteira e foi aproveitada de maneira admirável pela propaganda alemã que, pouco depois da conquista, começou a divulgar um filme recriando a tomada de Eben-Emael. O filme foi rodado no próprio forte e este foi apresentado como sendo a maior e mais poderosa fortaleza da Europa.


A visita






Interior da casamata de Artilharia Visé 2



Porta blindada da casamata Maastricht 1 vista do exterior. Em caso de abandono da casamata, era possível selar as portas (duas portas e uma persiana em aço e ainda sacos de areia) resguardando desta forma o resto da fortaleza. Os alemães resolveram o assunto aplicando uma carga oca na parte interior da porta.


Hoje o forte é visitável, mas o calendário de visitas é algo limitado pois apenas é possível fazê-lo uma vez por mês e entre Março e Novembro. A visita começa com um vídeo de apresentação que conta a história do forte, desde a sua construção até à rendição aos alemães, seguindo-se depois uma visita guiada pelas galerias subterrâneas dos dois níveis superiores (1 e 2). Esta parte é feita apenas com guia ao contrário do que acontece nas galerias do nível 0 que estão totalmente musealizadas com as diferentes valências de então: balneários, talho, enfermaria, alojamentos de oficiais, salas de jantar, entre outras. 

Percorrem-se as salas de comando, as casamatas Maastricht 1 e 2 e a Visé 2, enquanto o guia vai partilhando não só a história bem conhecida do forte como também pequenos episódios que tornam o relato bem interessante. Terminada visita interior, é possível fazer uma caminhada sobre a super-estrutura do forte, num percurso de 3km que percorre todo o seu perímetro, hoje transformado em terreno agrícola e florestal.

Vista exterior da casamata Visé 2



Torre de ventilação





O bloco II (Defesa de proximidade) visto do exterior


E para nos recompormos das emoções...

A visita a Eben-Emael não pode terminar sem provarmos um magnífico crepe salgado acompanhado por uma cerveja de produção local no restaurante situado mesmo em frente ao forte, num antigo moinho de água.


quarta-feira, outubro 03, 2018

Quem comeria bolos com esta cobertura?

O mercado semanal de Wiesbaden, na Alemanha, é um mercado simpático com uma bela diversidade de produtos, à semelhança de muitos outros mercados naquele país. Neste caso foi também uma oportunidade para comprovar o quão despudorados em termos de higiene e segurança alimentar os cidadãos alemães são quando comparados com os portugueses. 

Deixo a pergunta: qual seria o efeito da visão desta cena num dos nossos intransigentes agentes da ASAE?

Clicar na foto para ampliar


quinta-feira, setembro 20, 2018

Os Castros da Serra da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 8 de Agosto de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os romanos passaram pela Gardunha
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros

A Penha destaca-se na crista da Serra da Gardunha

Diz a voz da tradição popular que foi entre as penedias da Serra da Gardunha que as gentes da Idanha procuraram refúgio perante a aproximação dos invasores muçulmanos, a isso se devendo a própria origem do nome de Gardunha. Embora a veracidade deste relato esteja ainda por comprovar, não deixa de ser verdade que, durante séculos e muito antes da chegada dos muçulmanos, houve quem procurasse abrigo no seio da Gardunha, não em busca de refúgio temporário, mas para aí estabelecer povoados permanentes fortemente defendidos. A estes povoados chamamos “castros” e na Gardunha conhece-se a localização de alguns.


Estes castros, também conhecidos mais a Norte como citânias ou cividades, eram povoados implantados no topo de elevações de média altitude e rodeados por algumas cinturas de muralha. Surgiram há cerca de 3000 anos no Noroeste da Península Ibérica em plena Idade do Bronze. As casas tinham uma planta circular e cobertura em colmo, estando agrupadas em núcleos familiares, separados uns dos outros por ruas de largura e traçado muito irregulares. As casas tinham um único espaço interior em cujo centro se situava a lareira. Era nesta que se cozinhava e era ao seu redor que as famílias se reuniam para comer ou para dormir.


Para além do relevo e das muralhas, também era comum reforçarem-se as defesas com com fossos e zonas de pedras fincadas, de forma a dificultar a aproximação de eventuais atacantes, fossem eles os povoados vizinhos ou não. No entanto, a localização dos castros no topo das elevações também assegurava uma função de domínio territorial, permitindo a vigilância atenta de todo o território que dali se avistava. A vigilância era muitas vezes reforçada pela construção de atalaias em locais estratégicos, para alargar o alcance visual.

Qualquer viajante que há 3000 anos passasse junto à Serra da Gardunha ou pela Cova da Beira, poderia avistar estes aglomerados de casas apinhados no topo dos montes, rodeados por impressionantes muralhas. Estas comunidades faziam da agricultura e da pastorícia as suas actividades principais de subsistência, sendo que também se dedicavam à extração mineira e ao comércio, fazendo parte de rotas comerciais que se chegavam a paragens tão longínquas como o Médio Oriente ou o Norte da Europa.

Na Serra da Gardunha, o monte de São Brás, o monte de São Roque (ou Trigais), ambos no concelho do Fundão, e o Castelo Velho, no concelho de Castelo Branco, correspondem sem sombra de dúvida a castros. Há também quem situe num castro a origem da aldeia do Alcaide. Já o lugar do Picoto, junto ao Souto da Casa, terá sido uma atalaia do castro de São Brás, permitindo-lhe estender o domínio visual até à Serra da Maúnça e para lá da Argemela, onde aliás também existiu um castro.

A Penha da Gardunha também é apontada como sendo um local onde terá existido um castro mas, quanto a nós, os vestígios aí encontrados são demasiados escassos para tal afirmação. A existência nesse local do santuário medieval dedicado à Senhora da Serra permite outra hipótese: a de aí ter existido um santuário pagão, semelhante ao do Cabeço das Fráguas entre a Guarda e o Sabugal, cujo valor sagrado terá persistido ao longo dos tempos, até ser finalmente cristianizado.

Os castros da Serra da Gardunha, juntamente com os restantes castros identificados no concelho do Fundão, são lamentavelmente ainda pouco conhecidos do público e, por isso mesmo, vítimas fáceis de atentados patrimoniais. Constituindo locais onde os valores históricos e arqueológicos se conjugam na perfeição com o valor paisagístico e natural, deveriam ser vistos como elementos estratégicos fundamentais para a valorização do território na sua oferta turística tanto cultural como natural. No concelho do Fundão tentou-se em 2004 implementar a chamada Rota dos Castros que, de grosso modo, não passou da colocação de sinalização rodoviária. Nada foi feito em concreto para valorizar os castros ou incentivar a sua preservação.

quinta-feira, agosto 23, 2018

Blegny - Descida ao coração negro da Terra

O poço nº1 de Blegny

"Vou contar-vos uma história.". É com estas palavras que António Vicente começa a visita que dali a instantes nos há-de levar ao coração negro da Terra. Estamos na antiga mina de carvão de Blegny, praticamente à vista de Liège e hoje classificada pela UNESCO como património da Humanidade. 

Estas eram uma das inúmeras minas de carvão da Bélgica (só na província de Liège contam-se mais de 80 e as escombreiras são uma marca na paisagem), concentradas sobretudo na Valónia. Foram exploradas entre o século XV e 31 de Março de 1980, tendo sido a última mina de carvão belga a encerrar na sequência da crise provocada pelo menor preço do carvão de outras paragens e pelo advento do petróleo como fonte de energia.



Escombreiras na margem oposta do Mosa, junto a Herstal


A lenda de Houllos ou a origem da hulha

O carvão era, no entanto, já conhecido desde a Idade Média, podendo ser encontrado em afloramentos à superfície. A lenda diz que o conhecimento do carvão foi dado por um anjo a um modesto ferreiro, de seu nome Houllos, que não tinha forma de acender a sua forja. O anjo mandou Houllos subir ao monte Saint-Martin, hoje no coração de Liège, e abrir um buraco com 3 pés de profundidade pois ali encontraria uma rocha negra que em seguida deveria partir e queimar na sua forja. Assim terá começado a ser usada a "houille", em português "hulha", perpetuando o nome deste ferreiro.
Alguns investigadores sugerem que o anjo da história não era um "Angelus" mas um "Anglus", um inglês, território no qual o carvão já era explorado desde o século IX. Talvez o "anjo" e Houllos fossem a mesma pessoa: um ferreiro inglês em viagem que encontrou em Liège o mineral que lhe era tão familiar.


A descida à Mina


António aproxima-se da grade do poço nº1 e chama o elevador. É um elevador de dois andares pelos quais divide o grupo. Fechada a grade, dá a ordem de descida a 30 metros e mergulhamos na escuridão. As galerias da mina descem a até 500m mas a visita só chega aos 60m. As galerias abaixo estão actualmente inundadas o que não é de estranhar pela abundância de água na região e até pelo facto de estarmos abaixo do nível do rio Mosa

Chegamos à primeira galeria e as crianças reunem-se à volta do nosso guia que faz questão de esclarecer: -"Não estudei para guia. Sou mineiro. Por isso aquilo que vos vou contar é uma história de como era a vida na vida.". Pega em seguida no capacete e mostra-o: -"Uso este capacete há 40 anos e por várias vezes me salvou a vida. Quando eu saía da mina, tirava o capacete e o que é que vocês acham que eu lhe dizia?". Uma das crianças arrisca: -"Obrigado?". Com um sorriso, António confirma que a resposta está certa e tira do bolso um pequeno pedaço de carvão dando-o ao miúdo: -"Acertaste. Aqui tens a tua recompensa. Guarda-o bem no teu bolso porque isso é muito precioso. É ouro negro". Apressa-se em seguida a sossegar as outras crianças: -"Não se preocupem. Vou precisar da ajuda de todos e por isso vai haver um pedaço de carvão para toda a gente.". 

António Vicente, revela-se um comunicador nato e, com a sua voz branda, revela um jeito especial para cativar os visitantes, especialmente as crianças. Tem uma vida ligada às minas que começou nas Minas da Panasqueira quando tinha 14 anos. Deixou depois Portugal, há mais de 40 anos, para vir trabalhar para as minas na Bélgica. Só trabalhou em Blegny já perto do fecho desta mina pois antes estava noutro complexo mineiro na Flandres. 

-"Quando entrávamos na mina todos tínhamos medo. Por isso cantávamos no elevador para espantar o medo. Estávamos debaixo da terra durante 8 horas seguidas e sabíamos bem o perigo que corríamos.", conta-nos António. De acordo com o seu relato, nas minas da Flandres onde trabalhou chegou a descer abaixo dos 1.000 metros! -"Demorávamos quase uma hora a chegar à nossa galeria. Àquela profundidade a temperatura subia acima dos 40º e por isso, mal chegávamos, tirávamos a roupa e trabalhávamos em cuecas. O calor era terrível e havia quem bebesse 10L de água durante o turno."


As condições desumanas de trabalho


A visita vai prosseguindo enquanto António mostra as estreitas aberturas em que os mineiros se metiam rastejando para extrair o carvão, antes de nos encaminhar para uma galeria que desce aos 60m. Ao mesmo tempo, vai explicando as técnicas de colocação de explosivos e demonstrando o funcionamento do equipamento pneumático de perfuração. O barulho é ensurdecedor. -"Imaginem agora, ouvir este barulho durante 8h seguidas e respirar a poeira toda, para além do calor que se sentia.". As doenças dos mineiros decorrentes das condições de trabalho são bem conhecidas e variaram ao longo dos séculos: tuberculose, ancilostomíase, antracose, artrose, surdez, nistagmo e silicose. -"Por isso é que os mineiros se podiam reformar ao fim de 25 anos de serviço", diz-nos. Ficamos também a saber que nas minas chegaram a trabalhar mulheres e crianças, antes de a legislação as  remetido a trabalho à superfície.



Sobre os perigos é suscinto -"Podíamos atingir um lençol de água, uma bolsa de gás, podia-nos cair uma pedra em cima. Havia algumas pessoas que não conseguiam lidar com o medo e se auto-mutilavam para poderem sair da mina mas também havia um espírito muito solidário e encorajavamos-nos uns aos outros.". Os sistemas de alarme eram rudimentares mas fundamentais para quem os sabia interpretar: para o gás havia canários e mais tarde lanternas de detecção e para os desmoronamentos os ratos eram o melhor alerta pois fugiam em pânico ao pressentirem a iminência da tragédia. 

Mas os mineiros não eram os únicos a sofrer na mina. Antes da introdução das máquinas de tracção a diesel, que para além das vantagens trouxeram também o lado negativo das emissões de monóxido de carbono, eram usados cavalos: -"Entravam na mina e não voltavam a sair. Passavam aqui a vida. Quando já estavam velhos e cegos por causa da falta de luz, eram levados finalmente para a superfície e guardados em estábulos onde eram alimentados e tratados até morrerem.". 


Muitas nacionalidades mas todos mineiros

Nas minas trabalhavam várias nacionalidades: -"Éramos de várias nacionalidades diferentes mas dentro da mina não há racismo. Todos aprendemos a comunicar uns com os outros e todos dependíamos uns dos outros. Com os italianos era mais fácil porque eles falam com as mãos", brinca, mas o que é facto é que tivemos oportunidade de o ouvir falar italiano com um colega antes da visita. Um produto da camaradagem dentro da mina. -"A minha equipa era de 5 pessoas, todas de nacionalidades diferentes mas aprendemos a comunicar uns com os outros. Havia um grande espírito de camaradagem".

Os italianos eram a nacionalidade mais representada nas minas belgas, sobretudo após o fim da II Guerra Mundial, quando o seu país estava destruído e não havia emprego enquanto as minas de carvão belga estavam extremamente carentes de mão-de-obra. -"Vieram aos milhares e sofreram muito dentro das minas, coitados" confidencia-nos António. "Depois do Bois du Cazier, deixaram de vir". António refere-se à tragédia da mina de Bois du Cazier que, em 1956 e na sequência de um incêndio, vitimou 262 mineiros, 136 dos quais italianos. Na altura, um terço dos mineiros da Bélgica eram de nacionalidade italiana. 


Subida à Lavaria



Chegados ao fim da galeria, António chama de novo o elevador e desta vez subimos 12 metros acima do nível do solo, directamente para a lavaria onde a primeira visão é uma imagem de Santa Bárbara, padroeira dos mineiros. Era a ela que os mineiros vinham pedir protecção antes de descer à mina e também agradecer na saída. 



A visita termina com um espectáculo de luzes e música na lavaria e uma reflexão do nosso mineiro-guia: -"A minha vida foi passada nas minas. Vi muita coisa, boa e má, e vivi um espírito de camaradagem maravilhoso. Trabalhávamos em conjunto e quando, ao fim do trabalho voltávamos à superfície vínhamos todos negros, todos iguais. Chamavam-nos "Gueules noires" (Bocas negras) e que orgulho sentíamos de sermos assim chamados! É isso que guardo da mina, é isso que quero sobretudo partilhar, é a história que quero contar. O mau que vivi, nunca gostei de partilhar nem quando chegava a casa. Guardo para mim."



Despedimos-nos de António depois de bebermos um café, bem à maneira portuguesa. Temos de voltar a Liège e ele tem já outro grupo à espera. Vemo-lo dirigir-se para o local de início da visita com a mesma alegria e aquele brilho no olhar com que nos recebeu. No bolso leva os seus pedaços de ouro negro para dar à criançada. Vai contar mais uma vez a história.

sexta-feira, agosto 17, 2018

A cidade de Dinant, entre o belo e o surreal

Vista do centro da cidade de Dinant. Na margem oposta, a margem esquerda do Mosa, é possível ver a "Maison Leffe", que alberga o museu desta conhecida cerveja de abadia belga. Em primeiro plano, a torre sineira da Igreja de Nossa Senhora de Dinant.



Dinant é uma cidade encravada num vale cavado do rio Mosa, esticando-se ao longo das margens do rio e respectivos afluentes. Esta pequena cidade tem uma história milenar que começa entre o fim da Antiguidade e o início da Idade Média, tendo feito parte do Principado de Liège como cidade fronteiriça. Os domínios dos arqui-rivais do Principado, os Duques de Borgonha, começavam logo na margem oposta do rio Mosa, facto que sempre gerou inúmeras e até trágicos conflitos.

A cidade tornou-se célebre pela mestria do trabalho em latão e cobre pelos seus artesãos, facto que fez da cidade uma povoação riquíssima, mas este estado de graça chegou ao fim quando os "dinandiers" decidiram provocar o Duque de Borgonha e, pela calada da noite, foram à margem oposta deixar uma efígie enforcada do filho do duque. Sabendo como esta malta de sangue azul se melindra com mau gosto da ralé, foi muito má ideia. 

Não só Dinant foi cercada por Carlos o Temerário, o herdeiro do Duque, como a cidade foi totalmente incendiada e a população, a que não foi morta nos combates ou executada no rescaldo, foi obrigada a mudar-se. Acabaria no entanto por voltar, anos mais tarde, recuperando um pouco do passado glorioso da cidade, embora longe do fulgor de então.

Ainda houve mais uns quantos cercos e a cidade ainda sofreu muito nos séculos que se seguiram mas foi preciso esperar até ao século XX para que a dimensão da tragédia fosse de novo terrível. Foi em Agosto de 1914, cerca de duas semanas após a invasão da Bélgica, quando os exércitos alemães finalmente chegaram a Dinant. A defesa da cidade tinha sido confiada aos exércitos franceses (entre uns quais um jovem oficial chamado Charles de Gaulle), que aqui foram resistindo durante duas semanas às sucessivas investidas germânicas. A 23 de Agosto os alemães tomaram finalmente Dinant e em atitude de represália executaram sumariamente quase 700 civis (o mais novo tinha 3 anos, o mais velho 88) e deportaram mais de 400. 


A fortaleza holandesa do século XIX, a igreja colegial e a ponte Charles de Gaulle, assim chamada por o futuro presidente francês aqui ter sido ferido durante os combates de Agosto de 1914. A grande torre sineira com bolbo (século XVI) destinava-se inicialmente a ser construida sobre a ponte mas os receios de que esta não suportasse o peso da estrutura levaram a que fosse construída sobre a igreja colegial.



Vale a pena subir até à fortaleza, seja pela escadaria íngreme ou pelo teleférico, pois a vista é magnífica. Contudo, um dos sítios que tornam a visita inesquecível fica precisamente dentro da estrutura: trata-se do abrigo desmoronado, um abrigo de combate que tombou por inteiro durante os bombardeamentos mais recentes. O resultado é um espaço que provoca desorientação e falta de equilíbrio pela informação visual enganadora que captamos. 



Para além da sua história e dos seus monumentos, entre os quais a fortaleza holandesa do século XIX e a igreja colegial são ex-libris, Dinant é também conhecida por ser o local de nascimento de Adolphe Sax, o inventor do saxofone que está omnipresente na estatuária pelas ruas da cidade. É também aqui que se produz a Leffe, numa antiga abadia junto ao curso de água com esse nome, uma das mais conhecidas cervejas belgas.


O interior da igreja colegial de Nossa Senhora de Dinant, um templo gótico que alberga as relíquias de São Perpétuo, padroeiro da cidade.



Estátua e museu de Adolphe Sax, inventor do saxofone, na rua Sax


Por sorte, visitei Dinant no dia 15 de Agosto, um dia que é marcado por muitas e rijas festas pela Bélgica. Não só encontrei uma enorme feira tipo Feira da Ladra pelas ruas principais da cidade, numa e noutra margem do Mosa, como ainda pude assistir à "Regata das Banheiras" anual, um cortejo de jangadas alegóricas pelo rio no qual os cidadãos podem dar largas à sua imaginação.

O resultado é este:

















quinta-feira, agosto 16, 2018

Porque calaram Marine Le Pen?

0 minutos para Marine Le Pen na Web Summit de 2018
(Foto tirada daqui)

Afinal Marine le Pen já não vai participar na Web Summit 2018 como oradora. Isto acontece na sequência de toda a polémica que o anúncio do convite despoletou, com a organização SOS Racismo e o Bloco de Esquerda a consitituirem-se como as vozes de protesto mais sonantes, e o Governo português a reforçar que a responsabilidade do convite era toda da organização o evento.

Certo é que com ou sem pressão do Governo (que eu acredito que tenha havido), o convite foi mesmo retirado e Marine Le Pen já não estará presente na Web Summit 2018, levando a que tenham sido cometidas duas asneiras em vez de apenas uma

Em primeiro lugar, há que questionar o que fazia Le Pen como oradora no Web Summit visto que se trata de um evento que está ligado à Tecnologia, ao contrário por exemplo das TED Talks. Poderemos eventualmente supor que dá sempre jeito ter le Pen à mão para passar dados caso a rede Wireless falhe  mas, brincadeiras à parte, este evento tem-se sempre pautado por uma certa tendência para o mediatismo na escolha dos seus convidados. Lembrem-se que Nigel Farage foi orador em 2017 e não consta que seja grande especialista em tecnologia, sendo antes conhecido por ser muito bom em armar confusões épicas e depois fugir como se não fosse nada com ele. Que dizer também de Luís Figo e Ronaldinho?

Por outro lado, Le Pen advoga uma política de extrema-direita, na qual os nacionalistas e fascistas mais radicais se revêem totalmente. Ora, não sejamos anjinhos. Sabemos já, pelas lições de História, onde leva este caminho e temos de perceber porque é que a máxima "Fascismo nunca mais!" é mais que uma frase bonita que é moda usar por alturas do 25 de Abril, sabendo que em Portugal o fascismo foi apesar de tudo muito mais brando que noutras paragens da Europa. 

A Web Summit foi no mínimo infeliz ao convidá-la mostrando não perceber o que representa a ideia de fascismo em Portugal e, claramente, subestimou a onda de choque que o anúncio da sua vinda iria provocar. Queriam jogar com a polémica mas não esperavam que chegasse ao ponto a que chegou. 

No entanto, tinham toda a legitimidade em convidá-la para ela falar do que quisesse e certamente teria alguns fãs à sua espera, entre eles vários PNR's e saudosistas de Salazar, a quem o que fazia falta era terem realmente vivido o salazarismo. Em Portugal a Constituição proibe as organizações fascistas (pelos vistos excepto se por cosmética o nome referir "renovação" em vez de "fascismo") mas não proibe que se fale dele, contra ou a favor. É a ironia do princípio da liberdade de expressão. Dupla ironia se tivermos em conta a posição das correntes fascistas em relação à liberdade de expressão. 

Seja como for, feito o convite, não restava outra opção a Patrick Cosgrave senão assumir a responsabilidade do mesmo e mantê-lo. 

Tendo retirado o convite, a Web Summit fez de Marine Le Pen uma vítima e passou a ideia da existência de um certo nível de censura em Portugal. Se o tivesse mantido, teria sido uma excelente oportunidade para a maioria dos portugueses mostrar o que pensa do fascismo, boicotando a intervenção de Marine Le Pen ou manifestando-se contra ela, com todo o fôlego que os ventos de Abril permitissem. 

terça-feira, julho 31, 2018

Dar armas a crianças com 3 anos? Só na America

Sacha Baron Cohen já nos habituou aos seus programas televisivos e filmes que se traduzem num caldo de vergonha alheia e polémica pela forma como expõe cruamente os podres da sociedade estado-unidense, geralmente intepretando personagens com as quais engana diversas personalidades incautas que julgam estar diante de uma personagem real. O seu mais recente trabalho é a série "Who is America?" onde Baron Cohen põe a nu alguns dos lugares físicos e mentais mais obscuros de uma nação, começando por abordar a eterna polémica do livre acesso a armas e os recorrentes tiroteios nas escolas.


Sacha Baron Cohen como Erran Morad, especialista em contra-terrorismo


Fazendo-se passar por um agente anti-terrorista israelita, Baron Cohen entrevista Philip Van Cleave, presidente da Liga de Defesa dos Cidadãos da Virgínia, fazendo-o acreditar que em Israel existe um programa ao abrigo do qual as crianças são ensinadas a usar armas a partir dos 3 anos para defenderem a sua escola de muçulmanos. A reacção de entusiamo da parte de Van Cleave é ficar de queixo caído, chegando inclusive a afirmar que as crianças mais jovens "ainda não desenvolveram consciência. Ainda estão a aprender a diferença entre certo e errado" e que, por isso, "podem ser soldados muito eficazes".

O clímax desta primeira entrevista é quando Cohen consegue convencer Van Cleave a gravar um programa infantil para ensinar âs crianças como usar armas:


"Lembrem-se de apontar a boca do Cachorrinho Pistola..."



"... para o meio do homem mau"


Larry Pratt director executivo da associação dos Portadores de Armas da América, um grupo lobbyista com um discurso extremamente "musculado", é o segundo entrevistado no programa. Usando Pratt como "cunha", Cohen consegue convencer alguns senadores e ex-senadores, assim como o próprio Pratt, a participarem num anúncio de promoção do programa "Kinder Guardians", para armar crianças na escola.


As crianças de tenra idande são puras e não corrompidas por fake news ou homossexualidade


O que é interessante na retórica de Pratt, é a a forma como liga subtilmente o seu anti-islamismo aos tiroteios nas escolas, quando refere que as crianças podem conseguir reagir instintivamente ao ouvirem "Allahuh Akbar", isto apesar de esses tiroteios não serem perpetrados por extremistas islâmicos mas sim por cidadãos "com problemas mentais", ou seja, a classificação em que se encaixam todos os terroristas que não são extremistas islâmicos.

Mais uma vez, Sacha Baron Cohen consegue transmitir-nos uma visão inquietante dos Estados Unidos da América, onde os preconceitos religiosos e raciais estão profundamente enraízados na sociedade e o anti-extremismo se torna ele próprio uma forma de extremismo.

O 1º episódio da série pode ser visto aqui:


segunda-feira, julho 23, 2018

Aqui só vivem mulheres viúvas ou solteiras

Entrada Sul do Begijnhof de Bruges

São "bairros" residenciais muito peculiares pois, desde a Idade Média, a sua população é formada apenas por mulheres viúvas ou solteiras que aceitaram o seu celibato e se estabeleceram em pequenas comunidades auto-suficientes. Trata-se dos Begijnhof flamengos (Béguinages em francês) e, pela sua integridade e autenticidade, 13 deles foram inscritos pela UNESCO na lista do Património da Humanidade.

Brugge ou Bruges, conforme seja dito em flamengo ou francês, é uma cidade fora-de-série pela beleza que oferece a sua diversidade arquitectónica magnificamente bem conservada e também devido aos vários canais que atravessam o tecido urbano. Isto permite-lhe ter 3 referências na lista de Património da Humanidade da Unesco: o seu centro histórico, a sua torre-campanário e o Begijnhof Ten Wijngaerde, o bairro fundado em 1245 para albergar mulheres viúvas ou solteiras. 

Este tipo de comunidades de mulheres emancipadas surgiu em plena Idade Média, a partir do século XIII e, apesar de praticarem uma vida religiosa, não formavam ordens religiosas propriamente ditas já que, a qualquer momento, as mulheres podia decidir sair, fosse para casar ou não. Certo é que, enquanto fossem membros da comunidade, tinham de trabalhar para o sustento da mesma.



Entrada das casas da ala Norte. Todas as casas têm ainda um largo quintal nas traseiras

Em Bruges, o Begijnhof "da vinha" consiste numa trintena de casas, quinhentistas e seiscentistas, articuladas em torno de um enorme pátio central. O acesso só pode ser feito por 2 portões, os mesmos que, durante séculos, se fechavam à noite para manter as mulheres em segurança. Junto a ambos, vários letreiros apelam para que os visitantes guardem silêncio, de forma a respeitar a paz do local.  Num dos extremos do pátio, ergue-se uma igreja dedicada a Santa Isabel e o seu aspecto actual data de 1700, quando a primitiva igreja gótica foi modificada para abraçar o estilo barroco. 



Pátio central e ala Oeste

Os ares que sopraram da Revolução Francesa foram a primeira machada nos Begijnhof que, apesar de tudo, ainda foram reconstituidos no período napoleónico. Ainda sobreviveram cerca de 100 anos tendo depois conhecido sortes diferentes. O de Bruges passou a ser gerido pela ordem religiosa das freiras beneditinas em 1927, sendo fundido com o convento desta ordem erguido paredes-meias. Actualmente, a par da presença das beneditinas, ainda conserva parcialmente a sua função original, albergando mulheres laicas, algumas delas idosas.



Reconstituição de um quarto na casa-museu

O pátio central e a igreja são visitáveis de forma gratuita. Já a casa-museu, que recria uma casa típica do Begijnhof  no século XVI, é visitável pela módica quantia de 2 euros.
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