segunda-feira, dezembro 10, 2018

Os segredos da Penha da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 1 de Novembro de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros
   - Os Castros da Serra da Gardunha
   - Floresta portuguesa, um ano depois


A Penha da Gardunha, com os seus pinheiros-silvestres, vista de NE.



A Penha da Gardunha é um enorme esporão rochoso, sobranceiro à aldeia histórica de Castelo Novo, e que se destaca na paisagem da Serra da Gardunha. Contrariando um equívoco comum, a Penha não é o ponto mais alto da Gardunha já que se eleva a uma altitude de pouco mais de 1150m, bem abaixo, portanto, dos 1227m do Alto da Gardunha.

 Mais do que a sua imponência ou a magnífica paisagem que do seu topo se avista, que inclui até terras de Espanha, o que faz deste monumento natural um local tão intrigante quanto fascinante é a sua história e a transversalidade de crenças que aqui têm raízes. É justo dizer-se que a Penha constitui o pilar da religiosidade das comunidades da Serra da Gardunha e no seu topo existem ainda vestígios de construções que são o que resta do antigo santuário de Nossa Senhora da Serra.

A existência deste santuário foi justificada pela lenda de uma menina de Alcongosta que se perdeu e que acabou por ser encontrada incólume, nove dias depois, junto à cavidade conhecida hoje como Gruta. Informados pela criança que esta tinha conseguido sobreviver por ter sido alimentada pela “senhora” que ali vivia, as pessoas que a procuravam entraram nessa gruta e depararam-se com uma imagem da Virgem Maria, que depois foi baptizada como Nossa Senhora da Serra. O local passou a ser objecto de uma importante romaria anual, sempre por altura da Páscoa e, aos poucos, o santuário foi crescendo em tamanho e complexidade. Algumas capelas foram adossadas ao templo principal, nomeadamente a pequena capela do Santo Cristo (cuja pequena planta quadrada é hoje bem visível), a nova casa do ermitão foi construída para substituir a modesta construção anterior (cuja divisão bem delineada escavada na rocha é bem visível) e foram construídas vias de acesso conjugando calçada e escadarias.

Sobre este último aspecto, os Caminheiros da Gardunha identificaram há relativamente pouco tempo o segmento de 350m de escadarias da via de romaria a partir de Castelo Novo, correspondendo à descrição que dela faz o Padre Peralta no Diccionário Geographico em 1758: "ha anos, em uma ascensão que fizemos á desmantelada gruta da Senhora da Serra acima d'esta região e quasi no viso da serra, veêm-se ainda aqui e alem pequenos lanços da estreita calçada que coleando por entre rochedos e precipicios, dava aceso para a gruta da Senhora da Serra aos romeiros que saahiam d'Alpedrinha, Alcongosta e outros povos, nos bons tempos, em que parece a fé se aliava com a poesia na escolha do local para os santuários". 

A escadaria da via de romaria a partir de Castelo Novo. 


A obra “Orologia da Gardunha”, de José Inácio Cardozo, descreve uma expedição à Penha realizada a 9 de Outubro de 1846 (com os expedicionários a munirem-se de mantimentos e espingardas) e dá uma boa ideia da organização do santuário, que nessa altura já estava abandonado. Este abandono foi, ao que parece, uma consequência do excesso de fervor que as gentes que se deslocavam em romaria a este santuário imprimiam à sua devoção.

O relato de alguns episódios mostra bem que esta romaria era tudo menos monótona, referindo-se, entre “rixas indecentes e criminosas”, a cruz de prata processional das gentes de Castelo Novo, que estava toda amolgada das pedradas que tinha levado, ou ainda o episódio da destruição acidental da própria imagem de Nossa Senhora da Serra, por um grupo de moradores de Valverde, tendo esta acabado por ser substituída por uma outra imagem custeada pelas gentes do Souto da Casa.

Certo é que, procurando conter estes “excessos da fé”, primeiro proibiu-se tirar a imagem do altar para as procissões e, mais tarde, o santuário acabou mesmo por ser desactivado e demolido, tendo a imagem de Nossa Senhora da Serra sido trasladada para a Igreja Matriz de Castelo Novo, onde ainda hoje se encontra, em detrimento de Alcongosta que também reclamava para si a posse da imagem.

Uma sacralidade milenar

No entanto, a História da ocupação humana da Penha remonta a tempos muito anteriores ao do santuário da Senhora da Serra, tendo aqui sido recolhidos materiais que remontarão à Idade do Bronze. A historiografia refere ali a existência de um castro mas os vestígios parecem-nos demasiado escassos para se poder fazer tal afirmação sem que, pelo menos, se mantenham algumas reservas. É possível sim que, tendo em conta a antiguidade dos vestígios ali encontrados e a posterior criação do santuário cristão, este tenha sido um local de culto pagão já desde tempos pré-romanos e que, mais tarde, com o advento e imposição do cristianismo, terá sido cristianizado. Estaremos, pois, a falar de uma sacralidade que, apesar das transformações do espaço, se prolongou por milénios neste local!

O valor sagrado da Penha vai, apesar de tudo, bem para lá desta dualidade pagã-cristã, continuando a motivar “romarias” ao longo de todo o ano. Perscrutando as estrelas ou procurando no interior da Terra ou até dentro de si próprio as respostas às suas inquietações, muita gente continua a subir à Penha pelos vestígios de caminhos milenares, em busca dos segredos deste lugar. Por enquanto, a Penha teima egoistamente em guardar os seus segredos e, enquanto não os revela, vai-se alimentando do assombro de quem a visita.

Leitura recomendada: "A Via de Romaria ao santuário da Senhora da Serra", por David Caetano, André Mota Veiga e Mário Castro. Poster publicado nas I Jornadas de Arqueologia e Património do Museu Arqueológico do Fundão. Abril de 2017

quinta-feira, outubro 25, 2018

Aqui se decidiu a História da Europa

O monte do Leão, uma colina artificial que domina o campo de batalha

Aqui se decidiu a História de todo um continente. Quem hoje percorrer as verdes e calmas ondulações destes campos de cultivo bordejados de pequenos bosques, junto à pacata vila belga de Braine-l'Alleud, terá muita dificuldade em imaginar o cenário daquele fatídico dia de Verão de 1815, quando 10.000 cadáveres se confundiam num imenso lamaçal. Há algum tempo atrás, calcei as botas e percorri o local que equivocadamente ficou na História como o da batalha de Waterloo.



O prelúdio

A batalha de Waterloo aconteceu a 18 de Junho de 1815 e selou o fim definitivo do mito da invencibilidade de Napoleão. Tendo escapado do seu exílio na ilha de Elba, a meio caminho entre a Córsega e Itália, Napoleão retomou facilmente o poder em França o que provocou uma certa confusão e algum pânico entre as potências europeias, que estavam nesse preciso momento estavam a discutir em Viena o novo mapa geopolítico europeu pós-Napoleão. 

De imediato os trabalhos foram interrompidos e uma nova aliança militar foi formada por Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria, tendo cada país ficado responsável pela mobilização de um exército de 150.000 homens para atacar a França. No entanto, só os dois primeiros estavam em condições de atacar de imediato, embora com efectivos distantes dos números acordados.

Procurando antecipar os ataques à França, Napoleão tomou a iniciativa e invadiu a Bélgica, então parte do Reino da Holanda, para atacar ingleses e prussianos e, desta forma obter também uma posição de força para negociar a paz com os restantes países. O primeiro embate, a 16 de Junho correu de feição já que os prussianos foram derrotados. Napoleão enviou uma parte do seu exército em perseguição destes e virou o grosso das suas forças para os ingleses. 

O problema é que os prussianos haviam sido derrotados mas conservaram a sua capacidade combativa. Em vez de fugirem, iludiram os seus perseguidores e começaram a dirigir-se para as posições inglesas. Tinha começado uma corrida contra o tempo.


A Batalha


Vista parcial do campo de batalha a partir do Monte do Leão, à esquerda avista-se a quinta da Belle Alliance, QG de Napoleão e, mais para lá, a aldeia de Plancenoit.


Wellington escolheu cuidadosamente o terreno para a sua batalha. Sabendo que os prussianos vinham a caminho e que sozinho dificilmente teria condições de derrotar Napoleão, preparou uma estratégia defensiva com vista a aguentar o maior tempo possível e aguardar pela chegada dos reforços. Para isso, escolheu uma linha de colinas uns 20km a Sul de Bruxelas, o Monte de São João (algo longe de Waterloo, portanto). Para reforçar ainda mais a sua posição e condicionar os ataques franceses, fortificou 3 quintas diante das suas linhas: Hougoumont, Haie Sainte e Papelotte. Para além da vantagem do terreno, Wellington teve uma ajuda preciosa da meteorologia já que a chuva que caiu durante toda a noite, transformou o terreno diante das linhas inglesas num imenso lamaçal.

Napoleão viu-se confrontado com um terreno impraticável e, mesmo sabendo que os prussianos vinham a caminho, decidiu adiar o início da batalha em 2h, para deixar o Sol secar um pouco o terreno. Por isso, foi só às 11h30 que a batalha teve início, com o ataque à quinta de Hougoumont.


Hougoumont, a batalha dentro da batalha


A quinta de Hougoumont vista de Este. São visíveis as ruínas do solar, incendiado pelo bombardeamento francês e da sua capela, única parte que se conserva de pé. Os restantes edifícios mantêm relativamente o seu aspecto do século XIX.


O ataque a Hougoumont tinha como objectivo obrigar Wellington a desviar tropas do centro para apoiar a defesa da quinta, abrindo caminho a um ataque maciço ao centro das linhas Aliadas. A resistência foi encarniçada e os defensores de Hougoumont resistiram até aos obuses incendiários com que os franceses os bombardearam. Muitos homens e cavalos morreram queimados mas a quinta resistiu, apesar de num momento crítico quase ter sido tomada quando a porta Norte foi arrombada. Num esforço supremo, um grupo de 10 escoceses conseguiu fechar as portas e todos os franceses que tinham conseguido entrar acabaram por ser mortos. Este acontecimento foi determinante no desfecho da batalha e Wellington diria mais tarde: "o sucesso da batalha de Waterloo decidiu-se com o fecho das portas de Hougoumont".


"Fechando os portões de Hougoumont", de Robert Gibb (1903). National War Museum, Edimburgo

Perante a resistência de Hougoumont, Napoleão não esperou mais e atacou mesmo assim o centro da posição inglesa. Apesar de estarem reunidas condições ideais, os franceses conseguiram por várias vezes ganhar vantagem sobre os ingleses mas, por falta de coordenação ou capacidade de reacção, essa vantagem nunca chegou a ser decisiva e os vários momentos foram sendo desperdiçados.


A chegada dos prussianos


Sem ter conseguido quebrar as linhas inglesas, Napoleão viu a situação piorar ainda mais quando às 16h30 o exército prussiano chegou e se lançou sobre o seu flanco direito, junto à localidade de Plancenoit. O exército que Napoleão tinha lançado em perseguição dos prussianos no dia anterior não tinha sido capaz de lhes travar o avanço rumo ao campo de batalha.

Apesar de tudo, Napoleão ainda viu a possibilidade da vitória no campo de batalha quando a quinta de Sante Haye, diante do centro do dispositivo britânico, foi finalmente tomada e, ao mesmo tempo, um vigoroso contra-ataque recuperou a aldeia de Plancenoit. Do centro Ney pediu reforços para acabar com as tropas ingleses mas Napoleão hesitou pois tinha receio de um contra-ataque prussiano. Resultado: o momento perdeu-se mais uma vez pois, com a presença dos prussianos a proteger-lhe o flanco, Wellington pôde daí chamar tropas para o centro e retomar o controlo da situação.

Foi por isso já quase em desespero que o imperador decidiu finalmente fazer avançar sobre os ingleses o que lhe restava como reserva: a temível Guarda Imperial.


A carga final da Guarda Imperial



Diagrama da batalha em painel interpretativo no alto do Monte do Leão. As posições dos franceses (azul), dos prussianos (verde) e do exército de Wellington (vermelho, rosa e verde claro) são bem explicadas

A Guarda Imperial não obedecia a mais ninguém senão a Napoleão, sendo uma tropa de elite formada por soldados bastante experimentados. Deve ter sido uma visão impressionante para os aliados ver avançar na sua direcção os rectângulos compactos da Guarda Imperial, com os seus estandartes inconfundíveis.

Em reacção, Wellington mandou deitar no chão 2.000 soldados que, dissimulados pela vegetação e pelo terreno, aguardaram pacientemente até a Guarda Imperial chegar "a menos de 20 passos". Levantaram-se então num salto e dispararam à queima-roupa sobre os franceses. As crónicas dizem que metade dos dois batalhões da frente foi imediatamente dizimada e que as linhas seguintes, não só se viram impossibilitadas de avançar em boa ordem, devido à acumulação dos cadáveres dos seus companheiros, como estacaram sem perceber o que tinha acontecido. 

Assim ficaram à mercê do contra-ataque maciço que se seguiu e que forçou a Guarda Imperial a recuar em total desordem. Mais que o ataque em si, foi o grito "A Guarda recua!" que se propagou pelas tropas francesas, que espalhou o pânico e selou o fim da batalha. O que se seguiu pouco mais foi que um massacre. 

Dizem as crónicas que o general Ney (que 5 anos antes tinha participado no Combate do Côa, junto a Almeida), já apeado (perdeu pelo menos 6 cavalos na batalha) e com a espada partida, reuniu ainda uma divisão e lançou-a para a batalha gritando "Venham ver como morre um Marechal de França!". Mas a morte não quis nada com ele senão quase 6 meses mais tarde, quando o próprio Ney deu ordem de disparo ao seu pelotão de fuzilamento, após ser considerado culpado de traição à pátria.

O resto, já se sabe, é História. Uma última curiosidade: a batalha ficou erradamente eternizada como de Waterloo e não do Monte de São João, por ter sido nesta vila que Wellington redigiu o seu relatório.


Vale a pena visitar o campo de batalha!



A área onde decorreu a batalha é hoje monumento nacional e qualquer alteração da paisagem é estrictamente proibida. Todo o terreno é dominado pelo impressionante Monte do Leão, um monte artificial com 40m de altura, encimado por uma enorme estátua de um leão em bronze. Por toda a parte se encontram túmulos ou memoriais, dedicados tanto aos soldados aliados como aos franceses e o que sobressai é o sentimento de homenagem à valentia e bravura com que os dois lados se bateram.

Contando com o percurso dentro de Braine-l'Alleud, a partir da estação ferroviária, fiz um circuito a pé com quase 13km e que me levou a vários locais marcantes da batalha que estão devidamente assinalados e alguns até musealizados. 

É o caso da quinta de Hougoumont onde, para além da parte expositiva, um impressionante espectáculo multimédia no celeiro da quinta dá uma boa noção da violência dos combates que aí decorreram.


As ruínas do palacete continuam visíveis no centro da quinta tal como o poço de que Victor Hugo fez um túmulo nos "Miseráveis". Várias estelas e monumentos memoriais estão dispersas pelas paredes das construções e um passeio pela área do antigo jardim revela mais uns quantos.


Túmulos ingleses em Hougoumont

Do lado de fora da quinta, um castanheiro-da-Índia centenário ergue-se junto ao que resta de outros dois. São as últimas árvores do pequeno bosque que se situava junto à quinta e que foi tomado pelos franceses para daí lançarem os seus ataques a Hougoumont. Este castanheiro é a última testemunha viva da batalha de Waterloo.


Os Castanheiros-da-Índia de Hougoumont. O terceiro a contar da esquerda é a última testemunha viva da batalha de Waterloo


Continuando o percurso, chega-se à jóia da coroa deste percurso de memória: o Memorial de 1815, um museu subterrâneo, com uma área de 1800 m2, onde os visitantes mergulham bem dentro do ambiente da batalha de Waterloo e do seu contexto social e político. O ponto alto será o filme 4D que reconstitui a batalha mas o museu vale muito mais do que só por isso.


Os protagonistas da geopolítica europeia em 1815 Reconhecem alguém?


Daí tem-se acesso ao Panorama, um edifício circular construído em 1912 com uma pintura interior a 360º. Foi construído no âmbito das comemorações do centenário da batalha.

É daqui que acedemos ao Monte do Leão. Foi erigido em 1820 para assinalar o local onde o Príncipe de Orange comandou as suas tropas e foi ferido. Demorou 3 anos a ser construído e levou à remoção de toneladas e toneladas de terra ao seu redor que modificaram significativamente o aspecto do terreno. Diz-se que tendo regressado ao local após a construção do monte, Wellington terá explodido em fúria: "Arruinaram o meu campo de batalha!".


O Memorial 1815, o Panorama e o Monte do Leão, todos visíveis na foto da esquerda para a direita


Seja como for, do seu topo, vencida a subida com 225 degraus, oferece uma vista sobre a totalidade do campo de batalha, visão que é complementada pela presença de painéis interpretativos.


A escadaria e a estrada ao longo da qual se dispuseram as linhas inglesas para Este

Descendo do monte, atravessa-se o campo aberto até à quinta da Belle Alliance, local onde Napoleão instalou o seu Quartel General, e daí prossegue-se até Plancenoit, aldeia disputada por franceses e prussianos. Seguindo a estrada, surge a quinta de Sante Haye, onde as placas-memoriais glorificam os soldados dos dois campos que aqui lutaram até à sua tomada pelos franceses, já na parte final da batalha.


A quinta de Sante Haye, a única das 3 quintas fortificadas pelos ingleses que caiu em posse dos franceses mas, infelizmente para estes últimos, demasiado tarde.

Lápides de homenagem aos soldados franceses, alemães e ingleses que combateram na quinta de Sante Haye 


Já com a tarde bem avançada, não tive escolha a não ser deixar metade do campo de batalha por explorar, tendo de regressar a Braine-l'Alleud, não sem antes aproveitar a última passagem pela sombra do Monte do Leão para beber uma cerveja local que me fez muito bem. Talvez tenha a ver com o facto de ser produzida na mesma quinta que Wellington escolheu para ser o seu hospital durante a batalha.





Para ver: Battlefield Detectives: Massacre at Waterloo

segunda-feira, outubro 15, 2018

Floresta portuguesa, um ano depois

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Setembro de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os romanos passaram pela Gardunha
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   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
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Serra da Gardunha, 2017


Foi há pouco mais de um ano que a Serra da Gardunha foi devastada pelo violento incêndio que dificilmente se apagará da memória de todos os que o viveram de perto. O heroísmo e a solidariedade da população do Fundão foram já reconhecidos e alvo de homenagem por parte da Câmara Municipal mas o mais importante, que é a recuperação e a implementação de um modelo de ordenamento e gestão da Serra da Gardunha, continua a ser uma miragem. Na Serra da Gardunha, os municípios, o ICNF, a APA e a DRABI continuam a atropelar-se na gestão do território e parece ser difícil encontrar um rumo.

Seria no entanto tremendamente injusto referir este como sendo um problema exclusivo da nossa serra quando se trata de um problema nacional crónico. Desde logo, o incêndio da Gardunha foi apenas um entre os inúmeros que em 2017 consumiram mais de 440.000 hectares, o corolário de uma década terrível em que mais de um terço da floresta portuguesa ardeu.

Este facto veio por a nu, como se ainda fosse preciso, que em Portugal não existem políticas de ordenamento florestal nem de prevenção de incêndios dignas desse nome. Pior ainda, ninguém pode afirmar que o que sucedeu em 2017 foi algo completamente inesperado. Num país em que se chega ao cúmulo de se definir oficialmente uma “época de incêndios” e já se perdeu o sentido de ridículo de que este conceito se reveste, ninguém poderia ignorar que um ano com condições climáticas mais extremas levaria inevitavelmente a este desfecho.

Poder-se-ia pensar que finalmente as lições teriam sido aprendidas mas não. Até agora, a medida mais sonante que o Governo tomou foi a promulgação de uma lei de obrigatoriedade de limpeza que, cavalgando a onda do trauma recente e empurrada pela ameaça de multas chorudas, acabou por ser nociva para a floresta portuguesa.

Por um lado, se houve um facto que para todos ficou evidente foi que as árvores autóctones são mais resistentes ao fogo que os pinheiros-bravos e eucaliptos que dominam o nosso território. No entanto, a lei tratou de situar todas as espécies ao mesmo nível o que não terá de todo desagradado a certos grupos económicos que prosperam ao ritmo do pinhal e eucaliptal e que no rescaldo dos incêndios tinham sido postos em causa.

Por outro lado, no país onde as leis são traçadas a régua e esquadro num gabinete distante da realidade, só depois do abate de árvores centenárias, espécies protegidas e até de árvores de fruto, alguém decidiu vir a terreiro explicar que afinal não era necessário cortar tudo a eito. Apesar de tudo, a criação de zonas de protecção ao redor das aldeias foi uma consequência positiva.

 Acontece que só esta questão da limpeza é tão eficaz no quadro geral como a delimitação de uma zona livre com fita de segurança ao redor de uma bomba-relógio. Continuamos todos à espera de uma lei concreta de ordenamento florestal que sirva verdadeiramente o propósito de um floresta com QUALIDADE e BIODIVERSA. A floresta que temos em Portugal é cada menos digna desse nome, antes sendo uma exploração silvícola mono-cultural intensiva cujo único objectivo é o de obter lucro o mais rápido possível.

O problema é que a nossa classe política vive refém de interesses que nada têm a ver com o interesse público e que lhe restringe a liberdade (ou a vontade?) de implementar reais medidas de fundo. Antes preferem as medidas cosméticas em embalagem populista, sabendo de antemão que todas as decisões que tomarem dificilmente serão alvo de avaliação ainda durante a vigência do seu mandato. Seja como for, a estratégia crónica de culpabilização dos antecessores oferecerá sempre uma almofada de conforto para o caso de algo correr menos bem.

Também os privados, que detêm a esmagadora maioria do território de floresta em Portugal, vivem hoje reféns da ideia, herdada do período do Estado Novo, de que a única forma de obter rendimento da floresta é através de pinheiros e eucaliptos. Quem os pode censurar quando nada foi feito a nível superior para contrariar esta ideia e a possibilidade de que obter algum rendimento, mesmo que seja uma lotaria, é melhor do que não obter absolutamente nada?

Em 2017 Portugal, com a Serra da Gardunha, ardeu. Como referi na altura, todos nós, com a nossa inacção e silêncio, fomos cúmplices. Então como agora, continua a pertencer aos cidadãos o poder de mudar o rumo dos acontecimentos e é urgente fazê-lo. A contagem decrescente recomeçou.

quinta-feira, outubro 11, 2018

Eben-Emael, o forte capaz de resistir a tudo excepto aos alemães

Entrada do forte (pelo Bloco 1)

Após a invasão alemã da 1ª Guerra Mundial, a Bélgica começou a trabalhar no reforço das suas fronteiras, um pouco à semelhança da França onde se iniciou a construção da Linha Maginot. Assim, o plano belga previu a reabilitação e modernização de vários fortes que no conflito 1914-18 tinham oferecido resistência às tropas alemãs, mas acrescentou muitos outros elementos de defesa. Entre elementos passivos (obstáculos anti-tanque, canais inundáveis, casamatas e postos de observação, entre outros) instalados um pouco por toda a parte, mas concentrados sobretudo na famosa linha KW, foi decidida a construção de 4 novos fortes para conter qualquer investida que pudesse vir da Alemanha: Tancrémont, Battice, Aubin-Neufchâteau e Ében-Émael.


Escadaria interna de acesso ao nível superior



Galeria interna. Em caso de ataque de gás, as portas blindadas estanques eram seladas e a ventilação fazia-se pelas aberturas no solo sobre as quais estavam instalados filtros de gás. O ar dentro do forte tinha uma pressão ligeiramente superior à do exterior para impedir a entrada de gás.

Este último, o maior deles todos, destinava-se a colmatar um espaço aberto que os alemães tinham usado a seu favor durante a 1ª Guerra Mundial para romper a posição fortificada de Liège. O seu objectivo era o de controlar as pontes sobre o rio Mosa na fronteira com a Holanda, junto a Maastricht, e, após a construção deste (1930-39), também de controlar o canal Alberto. 


O canal Alberto na sua bifurcação com o canal de Lanaye cujas eclusas são visíveis à direita. O canal Alberto descreve uma curva para a esquerda e o forte Eben-Emael situa-se no maciço mais à esquerda na foto.


As galerias do forte foram escavadas na montanha de tufa calcária ligando várias casamatas e pontos de observação, tudo isto complementado com fossos anti-tanques, fossos inundáveis e áreas de arame farpado. O resultado foi uma fortificação em forma de triângulo, com 750m de base e 950m de comprimento. O domínio do forte estendia-se a uma área de 75ha, algo como 150 campos de futebol. Sobre a estrutura do forte situavam-se as cúpulas de canhões, assim como algumas falsas cúpulas para iludir o inimigo, que tinham capacidade para disparar até 2100kg de projécteis por minuto a uma distância máxima de 17,5km. A organização interna do forte dispunha-se em 3 níveis

Mapa do forte com disposição das casamatas (Ma(astricht) 1 e 2, Vi(sé) 1 e 2, Mi Norte e Mi Sul), das cúpulas (CP 120, CP Norte, CP Sul) e dos Blocos de defesa de proximidade (BL I a VI, Canal Norte e Canal Sul, BL 01).
Fonte: Le Fort Eben-Emael

Não era o maior forte da Europa, essa honra cabia ao Hackenberg (recordar a nossa visita aqui), mas era um dos maiores do Velho Continente e o maior da Bélgica. Adicionalmente, o comando belga tinha destacamentos encarregues de guardar as pontes sobre o Mosa e o canal Alberto e de activar os mecanismos de auto-destruição em caso de ataque, tornando qualquer força de ataque presa fácil da artilharia do forte. O dispositivo parecia, pois, oferecer garantias ao Alto-Comando Militar belga de que se tratava de um elemento defensivo totalmente dissuasor e inexpugnável. Só que…


O ataque alemão

Reconstituição à escala real de um dos planadores utilizados no ataque.

Foi precisamente contra o Eben-Emael que os alemães deram provas da famosa eficiência que lhes mora no ADN. Conscientes de que um ataque por terra seria muito oneroso em termos de homens e materiais os alemães conceberam um plano totalmente inovador para a época. Assim, após um treino intensivo de 6 meses concebido ao que parece pelo próprio Hitler, vários planadores são lançados a partir de diferentes bases na Alemanha, tendo partido de Colónia o contingente destinado a atacar o forte. Ao mesmo tempo, soldados alemães já se tinham infiltrado na região fronteiriça vestidos à civil ou com uniformes da polícia holandesa, tendo como objectivo assegurar o controlo das pontes e evitar que explodissem. Para que a surpresa fosse completa, o ataque foi lançado antes de qualquer declaração de guerra. 

Parte superior do forte com as cúpulas de artilharia visíveis à esquerda e uma falsa cúpula visível à direita, em segundo plano

Por volta das 4h30 da manhã do dia 10 de Maio de 1940, 9 dos 11 planadores aterram sobre o forte beneficiando do único ponto fraco: os campos de futebol que os soldados belgas aí tinha feito para seu entretenimento e que assim, livres de arame farpado ou minas, foram um campo de aterragem perfeito. 

Munidos de uma arma inovadora, as cargas ocas, capaz de perfurar betão ou aço, os alemães neutralizaram em pouco mais de 15 minutos duas cúpulas e duas casamatas de artilharia, as que podiam impedir a movimentação de tropas terrestres pelas vias de invasão escolhidas, e ainda duas casamatas de defesa de proximidade, assegurando assim o controlo da parte superior do forte. Apesar de vários contra-ataques da guarnição do forte e dos disparos feitos pelos dois fortes mais próximos de Eben-Emael sobre este, os páras alemães bem entricheirados nas casamatas semi-destruídas resistiram e aguardaram pela chegada das tropas terrestres, o que aconteceu na madrugada da manhã seguinte. 


Porta blindada interior da casamata Maastricht 1 destruída por uma carga oca alemã.


Cúpula de observação de uma casamata danificada por uma carga oca. 

Finalmente, após 36 horas de combate apenas, o inexpugnável Eben-Emael rendeu-se. Este acontecimento causou ondas de choque pela Europa inteira e foi aproveitada de maneira admirável pela propaganda alemã que, pouco depois da conquista, começou a divulgar um filme recriando a tomada de Eben-Emael. O filme foi rodado no próprio forte e este foi apresentado como sendo a maior e mais poderosa fortaleza da Europa.


A visita






Interior da casamata de Artilharia Visé 2



Porta blindada da casamata Maastricht 1 vista do exterior. Em caso de abandono da casamata, era possível selar as portas (duas portas e uma persiana em aço e ainda sacos de areia) resguardando desta forma o resto da fortaleza. Os alemães resolveram o assunto aplicando uma carga oca na parte interior da porta.


Hoje o forte é visitável, mas o calendário de visitas é algo limitado pois apenas é possível fazê-lo uma vez por mês e entre Março e Novembro. A visita começa com um vídeo de apresentação que conta a história do forte, desde a sua construção até à rendição aos alemães, seguindo-se depois uma visita guiada pelas galerias subterrâneas dos dois níveis superiores (1 e 2). Esta parte é feita apenas com guia ao contrário do que acontece nas galerias do nível 0 que estão totalmente musealizadas com as diferentes valências de então: balneários, talho, enfermaria, alojamentos de oficiais, salas de jantar, entre outras. 

Percorrem-se as salas de comando, as casamatas Maastricht 1 e 2 e a Visé 2, enquanto o guia vai partilhando não só a história bem conhecida do forte como também pequenos episódios que tornam o relato bem interessante. Terminada visita interior, é possível fazer uma caminhada sobre a super-estrutura do forte, num percurso de 3km que percorre todo o seu perímetro, hoje transformado em terreno agrícola e florestal.

Vista exterior da casamata Visé 2



Torre de ventilação





O bloco II (Defesa de proximidade) visto do exterior


E para nos recompormos das emoções...

A visita a Eben-Emael não pode terminar sem provarmos um magnífico crepe salgado acompanhado por uma cerveja de produção local no restaurante situado mesmo em frente ao forte, num antigo moinho de água.


quarta-feira, outubro 03, 2018

Quem comeria bolos com esta cobertura?

O mercado semanal de Wiesbaden, na Alemanha, é um mercado simpático com uma bela diversidade de produtos, à semelhança de muitos outros mercados naquele país. Neste caso foi também uma oportunidade para comprovar o quão despudorados em termos de higiene e segurança alimentar os cidadãos alemães são quando comparados com os portugueses. 

Deixo a pergunta: qual seria o efeito da visão desta cena num dos nossos intransigentes agentes da ASAE?

Clicar na foto para ampliar


quinta-feira, setembro 20, 2018

Os Castros da Serra da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 8 de Agosto de 2018 

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A Penha destaca-se na crista da Serra da Gardunha

Diz a voz da tradição popular que foi entre as penedias da Serra da Gardunha que as gentes da Idanha procuraram refúgio perante a aproximação dos invasores muçulmanos, a isso se devendo a própria origem do nome de Gardunha. Embora a veracidade deste relato esteja ainda por comprovar, não deixa de ser verdade que, durante séculos e muito antes da chegada dos muçulmanos, houve quem procurasse abrigo no seio da Gardunha, não em busca de refúgio temporário, mas para aí estabelecer povoados permanentes fortemente defendidos. A estes povoados chamamos “castros” e na Gardunha conhece-se a localização de alguns.


Estes castros, também conhecidos mais a Norte como citânias ou cividades, eram povoados implantados no topo de elevações de média altitude e rodeados por algumas cinturas de muralha. Surgiram há cerca de 3000 anos no Noroeste da Península Ibérica em plena Idade do Bronze. As casas tinham uma planta circular e cobertura em colmo, estando agrupadas em núcleos familiares, separados uns dos outros por ruas de largura e traçado muito irregulares. As casas tinham um único espaço interior em cujo centro se situava a lareira. Era nesta que se cozinhava e era ao seu redor que as famílias se reuniam para comer ou para dormir.


Para além do relevo e das muralhas, também era comum reforçarem-se as defesas com com fossos e zonas de pedras fincadas, de forma a dificultar a aproximação de eventuais atacantes, fossem eles os povoados vizinhos ou não. No entanto, a localização dos castros no topo das elevações também assegurava uma função de domínio territorial, permitindo a vigilância atenta de todo o território que dali se avistava. A vigilância era muitas vezes reforçada pela construção de atalaias em locais estratégicos, para alargar o alcance visual.

Qualquer viajante que há 3000 anos passasse junto à Serra da Gardunha ou pela Cova da Beira, poderia avistar estes aglomerados de casas apinhados no topo dos montes, rodeados por impressionantes muralhas. Estas comunidades faziam da agricultura e da pastorícia as suas actividades principais de subsistência, sendo que também se dedicavam à extração mineira e ao comércio, fazendo parte de rotas comerciais que se chegavam a paragens tão longínquas como o Médio Oriente ou o Norte da Europa.

Na Serra da Gardunha, o monte de São Brás, o monte de São Roque (ou Trigais), ambos no concelho do Fundão, e o Castelo Velho, no concelho de Castelo Branco, correspondem sem sombra de dúvida a castros. Há também quem situe num castro a origem da aldeia do Alcaide. Já o lugar do Picoto, junto ao Souto da Casa, terá sido uma atalaia do castro de São Brás, permitindo-lhe estender o domínio visual até à Serra da Maúnça e para lá da Argemela, onde aliás também existiu um castro.

A Penha da Gardunha também é apontada como sendo um local onde terá existido um castro mas, quanto a nós, os vestígios aí encontrados são demasiados escassos para tal afirmação. A existência nesse local do santuário medieval dedicado à Senhora da Serra permite outra hipótese: a de aí ter existido um santuário pagão, semelhante ao do Cabeço das Fráguas entre a Guarda e o Sabugal, cujo valor sagrado terá persistido ao longo dos tempos, até ser finalmente cristianizado.

Os castros da Serra da Gardunha, juntamente com os restantes castros identificados no concelho do Fundão, são lamentavelmente ainda pouco conhecidos do público e, por isso mesmo, vítimas fáceis de atentados patrimoniais. Constituindo locais onde os valores históricos e arqueológicos se conjugam na perfeição com o valor paisagístico e natural, deveriam ser vistos como elementos estratégicos fundamentais para a valorização do território na sua oferta turística tanto cultural como natural. No concelho do Fundão tentou-se em 2004 implementar a chamada Rota dos Castros que, de grosso modo, não passou da colocação de sinalização rodoviária. Nada foi feito em concreto para valorizar os castros ou incentivar a sua preservação.

quinta-feira, agosto 23, 2018

Blegny - Descida ao coração negro da Terra

O poço nº1 de Blegny

"Vou contar-vos uma história.". É com estas palavras que António Vicente começa a visita que dali a instantes nos há-de levar ao coração negro da Terra. Estamos na antiga mina de carvão de Blegny, praticamente à vista de Liège e hoje classificada pela UNESCO como património da Humanidade. 

Estas eram uma das inúmeras minas de carvão da Bélgica (só na província de Liège contam-se mais de 80 e as escombreiras são uma marca na paisagem), concentradas sobretudo na Valónia. Foram exploradas entre o século XV e 31 de Março de 1980, tendo sido a última mina de carvão belga a encerrar na sequência da crise provocada pelo menor preço do carvão de outras paragens e pelo advento do petróleo como fonte de energia.



Escombreiras na margem oposta do Mosa, junto a Herstal


A lenda de Houllos ou a origem da hulha

O carvão era, no entanto, já conhecido desde a Idade Média, podendo ser encontrado em afloramentos à superfície. A lenda diz que o conhecimento do carvão foi dado por um anjo a um modesto ferreiro, de seu nome Houllos, que não tinha forma de acender a sua forja. O anjo mandou Houllos subir ao monte Saint-Martin, hoje no coração de Liège, e abrir um buraco com 3 pés de profundidade pois ali encontraria uma rocha negra que em seguida deveria partir e queimar na sua forja. Assim terá começado a ser usada a "houille", em português "hulha", perpetuando o nome deste ferreiro.
Alguns investigadores sugerem que o anjo da história não era um "Angelus" mas um "Anglus", um inglês, território no qual o carvão já era explorado desde o século IX. Talvez o "anjo" e Houllos fossem a mesma pessoa: um ferreiro inglês em viagem que encontrou em Liège o mineral que lhe era tão familiar.


A descida à Mina


António aproxima-se da grade do poço nº1 e chama o elevador. É um elevador de dois andares pelos quais divide o grupo. Fechada a grade, dá a ordem de descida a 30 metros e mergulhamos na escuridão. As galerias da mina descem a até 500m mas a visita só chega aos 60m. As galerias abaixo estão actualmente inundadas o que não é de estranhar pela abundância de água na região e até pelo facto de estarmos abaixo do nível do rio Mosa

Chegamos à primeira galeria e as crianças reunem-se à volta do nosso guia que faz questão de esclarecer: -"Não estudei para guia. Sou mineiro. Por isso aquilo que vos vou contar é uma história de como era a vida na vida.". Pega em seguida no capacete e mostra-o: -"Uso este capacete há 40 anos e por várias vezes me salvou a vida. Quando eu saía da mina, tirava o capacete e o que é que vocês acham que eu lhe dizia?". Uma das crianças arrisca: -"Obrigado?". Com um sorriso, António confirma que a resposta está certa e tira do bolso um pequeno pedaço de carvão dando-o ao miúdo: -"Acertaste. Aqui tens a tua recompensa. Guarda-o bem no teu bolso porque isso é muito precioso. É ouro negro". Apressa-se em seguida a sossegar as outras crianças: -"Não se preocupem. Vou precisar da ajuda de todos e por isso vai haver um pedaço de carvão para toda a gente.". 

António Vicente, revela-se um comunicador nato e, com a sua voz branda, revela um jeito especial para cativar os visitantes, especialmente as crianças. Tem uma vida ligada às minas que começou nas Minas da Panasqueira quando tinha 14 anos. Deixou depois Portugal, há mais de 40 anos, para vir trabalhar para as minas na Bélgica. Só trabalhou em Blegny já perto do fecho desta mina pois antes estava noutro complexo mineiro na Flandres. 

-"Quando entrávamos na mina todos tínhamos medo. Por isso cantávamos no elevador para espantar o medo. Estávamos debaixo da terra durante 8 horas seguidas e sabíamos bem o perigo que corríamos.", conta-nos António. De acordo com o seu relato, nas minas da Flandres onde trabalhou chegou a descer abaixo dos 1.000 metros! -"Demorávamos quase uma hora a chegar à nossa galeria. Àquela profundidade a temperatura subia acima dos 40º e por isso, mal chegávamos, tirávamos a roupa e trabalhávamos em cuecas. O calor era terrível e havia quem bebesse 10L de água durante o turno."


As condições desumanas de trabalho


A visita vai prosseguindo enquanto António mostra as estreitas aberturas em que os mineiros se metiam rastejando para extrair o carvão, antes de nos encaminhar para uma galeria que desce aos 60m. Ao mesmo tempo, vai explicando as técnicas de colocação de explosivos e demonstrando o funcionamento do equipamento pneumático de perfuração. O barulho é ensurdecedor. -"Imaginem agora, ouvir este barulho durante 8h seguidas e respirar a poeira toda, para além do calor que se sentia.". As doenças dos mineiros decorrentes das condições de trabalho são bem conhecidas e variaram ao longo dos séculos: tuberculose, ancilostomíase, antracose, artrose, surdez, nistagmo e silicose. -"Por isso é que os mineiros se podiam reformar ao fim de 25 anos de serviço", diz-nos. Ficamos também a saber que nas minas chegaram a trabalhar mulheres e crianças, antes de a legislação as  remetido a trabalho à superfície.



Sobre os perigos é suscinto -"Podíamos atingir um lençol de água, uma bolsa de gás, podia-nos cair uma pedra em cima. Havia algumas pessoas que não conseguiam lidar com o medo e se auto-mutilavam para poderem sair da mina mas também havia um espírito muito solidário e encorajavamos-nos uns aos outros.". Os sistemas de alarme eram rudimentares mas fundamentais para quem os sabia interpretar: para o gás havia canários e mais tarde lanternas de detecção e para os desmoronamentos os ratos eram o melhor alerta pois fugiam em pânico ao pressentirem a iminência da tragédia. 

Mas os mineiros não eram os únicos a sofrer na mina. Antes da introdução das máquinas de tracção a diesel, que para além das vantagens trouxeram também o lado negativo das emissões de monóxido de carbono, eram usados cavalos: -"Entravam na mina e não voltavam a sair. Passavam aqui a vida. Quando já estavam velhos e cegos por causa da falta de luz, eram levados finalmente para a superfície e guardados em estábulos onde eram alimentados e tratados até morrerem.". 


Muitas nacionalidades mas todos mineiros

Nas minas trabalhavam várias nacionalidades: -"Éramos de várias nacionalidades diferentes mas dentro da mina não há racismo. Todos aprendemos a comunicar uns com os outros e todos dependíamos uns dos outros. Com os italianos era mais fácil porque eles falam com as mãos", brinca, mas o que é facto é que tivemos oportunidade de o ouvir falar italiano com um colega antes da visita. Um produto da camaradagem dentro da mina. -"A minha equipa era de 5 pessoas, todas de nacionalidades diferentes mas aprendemos a comunicar uns com os outros. Havia um grande espírito de camaradagem".

Os italianos eram a nacionalidade mais representada nas minas belgas, sobretudo após o fim da II Guerra Mundial, quando o seu país estava destruído e não havia emprego enquanto as minas de carvão belga estavam extremamente carentes de mão-de-obra. -"Vieram aos milhares e sofreram muito dentro das minas, coitados" confidencia-nos António. "Depois do Bois du Cazier, deixaram de vir". António refere-se à tragédia da mina de Bois du Cazier que, em 1956 e na sequência de um incêndio, vitimou 262 mineiros, 136 dos quais italianos. Na altura, um terço dos mineiros da Bélgica eram de nacionalidade italiana. 


Subida à Lavaria



Chegados ao fim da galeria, António chama de novo o elevador e desta vez subimos 12 metros acima do nível do solo, directamente para a lavaria onde a primeira visão é uma imagem de Santa Bárbara, padroeira dos mineiros. Era a ela que os mineiros vinham pedir protecção antes de descer à mina e também agradecer na saída. 



A visita termina com um espectáculo de luzes e música na lavaria e uma reflexão do nosso mineiro-guia: -"A minha vida foi passada nas minas. Vi muita coisa, boa e má, e vivi um espírito de camaradagem maravilhoso. Trabalhávamos em conjunto e quando, ao fim do trabalho voltávamos à superfície vínhamos todos negros, todos iguais. Chamavam-nos "Gueules noires" (Bocas negras) e que orgulho sentíamos de sermos assim chamados! É isso que guardo da mina, é isso que quero sobretudo partilhar, é a história que quero contar. O mau que vivi, nunca gostei de partilhar nem quando chegava a casa. Guardo para mim."



Despedimos-nos de António depois de bebermos um café, bem à maneira portuguesa. Temos de voltar a Liège e ele tem já outro grupo à espera. Vemo-lo dirigir-se para o local de início da visita com a mesma alegria e aquele brilho no olhar com que nos recebeu. No bolso leva os seus pedaços de ouro negro para dar à criançada. Vai contar mais uma vez a história.

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