quarta-feira, junho 20, 2018

Os romanos passaram pela Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 14 de Junho de 2018 

Artigos anteriores: 
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   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
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Momento do levantamento do achado

Foi recentemente notícia aqui no Jornal do Fundão, a descoberta de um altar romano no limite da freguesia de Alcongosta durante uma actividade dos Caminheiros da Gardunha. Uma descoberta deste género é sempre um momento feliz, sendo que essa felicidade diz respeito tanto ao sentimento que a descoberta em si inspira em quem a faz, como à conjugação de circunstâncias que permitiram que esta acontecesse.

Este altar ou ara, como é mais comum designar-se, foi encontrado junto aos vestígios da via romana que ligam Alcongosta a Alpedrinha, num local onde as marcas de actividade humana denotam uma certa persistência ao longo do tempo. Trata-se de uma peça esculpida em granito de grão fino e o cuidado no seu acabamento contrasta com uma certa irregularidade nas letras da inscrição que exibe numa das faces. Facto curioso, trata-se da ara romana encontrada a maior altitude na região.

O local do seu achado traz mais interrogações que respostas. Desde logo, estará no seu local original ou foi para aqui trazida em época posterior? A ser verdadeira a primeira hipótese, existiria por perto alguma casa ou povoado? Onde? Também o contraste o acabamento da peça e a irregularidade das letras do seu texto parece indicar que esta terá sido adquirida num local diferente daquele em que foi acrescentado o texto. Sabe-se para já que a inscrição refere o nome de uma mulher e que se trata de um nome indígena, um nome “lusitano” se quisermos falar de forma mais simplista, o que mostra que a população local estaria então bem integrada nos costumes romanos. É provável que se trate de uma inscrição funerária, uma lápide mandada lavrar após a morte desta mulher, por alguém que a estimava e que assim quis perpetuar a sua memória. 

Era costume, na época romana, construírem-se monumentos funerários para assinalar o local de sepultura dos defuntos. Podiam ser em forma de altar, podendo ser o caso deste que agora foi encontrado, mas não só. A forma do suporte das inscrições podia variar, à media da própria dimensão e monumentalidade das sepulturas. Conhecem-se muitos exemplares de inscrições funerárias ao redor da Gardunha provenientes de Castelo Novo, Alpedrinha, Donas, Souto da Casa, Vale de Prazeres e até do Fundão, estando a maior parte delas no museu arqueológico da sede do concelho. 

Um dos exemplares mais conhecidos é o da lápide que se encontra encastrada no exterior da igreja de São Pedro, no Souto da Casa, e cuja importância e antiguidade passam despercebidas a quem por ali transita. Trata-se de uma lápide que se destinaria a ser colocada na fachada de um jazigo familiar e refere três elementos de uma família de ex-escravos: pai, mãe e filha.  

É claro que nem todas as inscrições romanas encontradas na região são funerárias. Muitas das aras encontradas nos últimos anos são votivas, ou seja, eram oferendas aos deuses, pertencessem eles ao panteão romano ou não, uma vez que após a conquista romana e apesar de as populações terem abraçado os costumes dos invasores latinos, as divindades indígenas continuaram ainda assim a ser veneradas. Muitas vezes até os próprios romanos aderiam a esse culto em paralelo ao seu.

Altar dedicado a Apolo que até ao último Verão se encontrava numa casa do Casal de Santa Maria, freguesia do Telhado (ver aqui)

As aras destinavam-se a retribuir ou solicitar uma dádiva aos deuses, por vezes até a mais que um ao mesmo tempo. A pedra e a inscrição que nela era gravada não eram mais que o materializar e eternizar desse pacto estabelecido entre o mundo terreno e o divino. Este comportamento tem eco ainda hoje no cristianismo, naquilo que se designa comumente por “promessas” e que é a expressão de um certo nível de politeísmo dentro do suposto monoteísmo desta religião. Vemos esse princípio aplicado quando um crente promete oferecer algo a um santo da sua escolha em troca de uma dádiva.

Depois de gravadas, as aras eram colocadas em local de culto. Muitas delas, têm até esculpida uma concavidade na sua parte superior, o fóculo, que era o local onde eram queimadas essências ou feitas libações aos deuses. Embora hoje as vejamos como blocos monocromáticos, teriam originalmente um aspecto bem diferente, com letras e decorações pintadas.



Reconstiuição hipotética e subjectiva do aspecto original da ara, apenas para dar uma ideia do tipo de cores e do quão diferente seria originalmente.


O mesmo princípio se aplica a estátuas e edifícios. Hoje vemo-los como construções de mármore, granito ou calcário apenas com a cor do material de que são feitos mas, na verdade, na sua época de construção eram bem diferntes, decorados com uma palete de cores fortes e chamativas.

Voltando à ara que é o mote deste artigo, há ainda um longo caminho a percorrer para responder a todas as perguntas que a sua descoberta coloca e é possível que nunca se venham a ter as respostas todas. Para já, o que se sabe é que, há cerca de 2.000 anos atrás e num acto destinado à eternidade, o nome de uma mulher foi gravado em pedra. Hoje, passado todo esse tempo e nada conhecendo dessa mulher a não ser o seu nome, cá estamos nós a ajudar a perpetuar a sua memória. 

sexta-feira, junho 01, 2018

Liêge depois do tiroteio

Café Augustin. Foi diante deste café que tombaram as 3 vítimas mortais


O autocarro pára no semáforo. As conversas tornam-se subitamente num murmúrio, enquanto todos os passageiros olham e apontam para o mesmo ponto no exterior. É o “Café Augustin”, na esquina da rua do mesmo nome com o Boulevard de Avroy. Foi à porta deste café que, na passada Terça-feira, Benjamin Herman abateu 3 pessoas: duas agentes da polícia e um jovem estudante.

É o assunto do momento e ninguém lhe fica indiferente, embora esteja longe de ser tão traumatizante como o massacre do mercado de Natal em 2011. Ainda assim todos comentam e todos fazem a mesma pergunta: como foi possível o sistema ter falhado a este ponto? Afinal, este cidadão belga com largo cadastro criminal, estava na sua 14ª saída precária de uma pena de prisão que deveria terminar em 2020.

Na prisão, aproximou-se de radicais islâmicos e ele próprio se converteu e se radicalizou. Era pois uma questão de tempo. Assim, na sua última saída precária de 2 dias, cometeu um assalto, assassinou o seu cúmplice no mesmo e dirigiu-se na manhã de Terça-feira para Liège onde abateu 3 pessoas e feriu outras 4.

O espaço à entrada do café é agora um memorial onde as 3 vítimas mortais são homenageadas. Entre os inúmeros ramos e mensagens, percebem-se algumas mensagens de turmas do liceu Léhonie Waha que fica ali ao lado. Foi a escola que o criminoso invadiu e onde fez refém uma auxiliar de serviço que, nesta história trágica, acabou por ser a heroína de serviço.

Ao ver as pessoas a correr na rua e a gritar, esta mulher de origem marroquina preocupou-se em primeiro lugar em trancar todas as portas que levavam do hall de entrada da escola às salas de aula e ao pátio interior. Foi quando se virou para trás e se deparou com o atirador. Estava sozinha com ele. Foi nesta altura que este lhe colocou duas perguntas: “És muçulmana? Praticas o Ramadão?”. Foi a resposta afirmativa a ambas que salvou a vida a Darifa.

Entretanto, no pátio surgiam alguns professores que tentavam perceber o que se passava. Darifa fez-lhes gestos para se esconderem e depois, no desespero do momento, conseguiu ter sangue-frio suficiente para demover o atacante de tentar entrar na escola e propôs-lhe que saíssem ambos para a rua. –“Isto é uma escola. Não tens nada que estar aqui.”. Após longos minutos, Benjamin decidiu finalmente sair e saiu a disparar. Uma mancha escura no passeio indica o local onde a irracionalidade se silenciou.



quarta-feira, maio 30, 2018

O "não" à Eutanásia e a legitimidade que nos assiste

A discussão durante os últimos dias foi intensa e ontem, finalmente, a proposta de despenalização da eutanásia, ou melhor, as 4 propostas foram a votos na Assembleia da República, sendo que a proposta do PS foi reprovada por apenas 5 votos. Este resultado acaba por ser surpreendente, especialmente tendo em conta a posição do Partido Comunista que votou contra.

Resultado da votação para cada proposta (o documento de cada proposta está disponível no link):

PAN (link) 102 a favor, 116 contra, 11 abstenções
PS (link) 110 a favor, 115 contra, 4 abstenções
BE (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções
PEV (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções

Dizem aqueles que eram contra a despenalização, que este resultado mostra que a sociedade portuguesa não quer a eutanásia. É uma completa falácia. A sociedade portuguesa está representada no parlamento por interposta pessoa e, nesta matéria em particular, aquilo a que se assistiu foi a uma expressão das convicções morais pessoais de cada deputado, quando lhes foi dada essa liberdade pelos seus partidos pois, de outro modo, valeu a vontade dos partidos. 

Para a sociedade portuguesa ser ouvida, esta questão deveria ter sido referendada mas, como li algures, “a sociedade portuguesa ainda não tem maturidade para discutir este tipo de questões”. Esclarecedor e contraditório. Portanto, 

Fiquei triste por este resultado pois assumo-me como sendo a favor da eutanásia e do suicídio medicamente assistido, que são práticas diferentes com o mesmo objectivo de antecipar a morte. No entanto, também defendo que o Estado não se pode nunca demitir da sua função social e é da sua responsabilidade fazer com que o desespero e o sofrimento possam ser atenuados de tal forma que o recurso à antecipação da morte seja uma via o menos desejável possível. Isso passa por uma aposta clara no reforço dos cuidados paliativos, algo que até agora não tem acontecido. Aliás - suprema ironia! -, muitos dos que agora exigem o reforço nesta vertente de cuidados hospitalares, são os mesmos que, há uns tempos atrás, promoveram cortes drásticos no financiamento do nosso sistema de saúde. 

Há também muito para dizer sobre as campanhas e discussões que se desenrolaram até ao dia de ontem. Quer-me parecer que muita gente não percebeu exactamente o que estava em causa nem compreendeu o que era isto da eutanásia. Parecia haver pessoas convencidas de que, com a aprovação da eutanásia, se iria assistir ao abater sistemático de doentes pelo país fora ou, no mínimo, que esta iria passar a ser uma prática médica do quotidiano das unidades de saúde. 

Isto também terá sido promovido pelo tom e argumentos de certas campanhas que pareciam apostar claramente na propagação do medo e da desinformação em proveito daquilo que defendiam, o que aliás é uma prática recorrente. Frases como “A eutanásia mata!” acompanhada de uma imagem lúgubre e “Por favor não matem os velhinhos” no cartaz de uma das pessoas que ontem se manifestaram diante do Parlamento, são claros indicadores do nível de esclarecimento que foi promovido.


Exemplo de campanha falaciosa e de desonestidade intelectual. A mensagem que se procura passar é que a eutanásia pode vir a ser uma imposição que não depende da vontade expressa de cada um. Lutar contra a eutanásia torna-se pois uma luta pela própria sobrevivência. 


Houve até uma subtil campanha que traçou um paralelo entre esta eutanásia e o abate de animais em canis, como se estas realidades pudessem sequer ser comparáveis. 

Clamou-se pelo respeito pela vida, alegou-se que toda a vida é sagrada, que tirar vidas é errado. Desconsiderou-se algo que estava aqui em causa que era o direito a uma morte digna e o respeito por uma decisão pessoal que apenas diz respeito a quem a toma.

Tentemos colocar-nos na pele de alguém que, acamado e totalmente dependente, sofre de uma doença incurável e com sintomas que se traduzem num sofrimento contínuo que lhe condiciona totalmente toda e qualquer interacção com o mundo ao seu redor. Vai definhando aos poucos, nesta lenta agonia, sob o olhar da sua família que irá guardar esta visão como a última recordação do seu ente querido.

O desespero e o sofrimento, que nada consegue atenuar, são tais que o alívio da morte se afigura como a única solução viável para lhe pôr cobro. A pessoa não quer sofrer mais e não quer que a família partilhe do seu sofrimento. Pede para morrer, para partir com tranquilidade e com dignidade.

Que moralidade tenho eu, que nem tenho ideia do que ele sofre, para lhe vedar essa opção? Que legitimidade tenho eu para lhe dizer Não, meu caro. Eu acho que todas as vidas são sagradas e toda as vidas devem ser salvaguardadas por isso aguenta e continua a sofrer. A tua dignidade está salvaguardada pela recordação que os teus familiares têm de como tu eras antes de ficares nesse estado. Não gosto de te ver sofrer mas não tens outro remédio. Agora fica aí e aguenta-te enquanto eu vou lá para fora ver as montas, beber copos com os amigos e viver a minha vidinha tranquilamente. Ainda por cima não tenho de suportar a visão de ti nesse estado.

Outra pergunta que eu faço é se alguém se deu sequer ao trabalho de ler as propostas de lei ou se se limitaram a ler os títulos das notícias partilhadas com frases fortes nas redes sociais. O passado recente faz-me suspeitar que se tratou sobretudo do 2º caso.

Ora, o que as propostas de lei diziam é que a eutanásia teria de ser uma decisão do próprio e que essa decisão teria de ser consciente, isto é, teria de ser uma decisão actual, séria, livre e esclarecida:


Por outro lado, a aceitação do pedido teria de seguir um processo de avaliação clínica implicando o parecer de um médico orientar, de um especialista na doença de que padeceria o doente e no parecer de um especialista em psiquiatria. Se todos os pareceres fossem positivos, então o processo seguiria para uma Comissão de Verificação e Avaliação a quem caberia depois a decisão final.

Poderá haver ainda alterações a fazer mas este modelo, parece-me, impediria decisões e acções tomadas com demasiada ligeireza. Por outro lado, havendo já países em que a eutanásia é legal, é sempre possível analisar essas realidades de forma a avaliar e corrigir as suas fragilidades.

Para já, a eutanásia foi colocada na gaveta, provavelmente até às próximas eleições legislativas de 2019. O ardor do debate sobre este tema vai também diluir-se, assim como a vontade manifestada por inúmeros cidadãos e grupos políticos em reforçar o investimento em cuidados paliativos como alternativa moralmente correcta à eutanásia.

Por enquanto, resta aos doentes em sofrimento aguentar-se, à espera que lhes proporcionem uma solução que resolva o seu sofrimento, seja ela qual for.

sexta-feira, maio 25, 2018

Lendas da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Abril de 2018 

 Artigos anteriores:
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem



Falar do património humano da Serra da Gardunha implica necessariamente falar não apenas daquilo que é material mas de igual forma do imaterial. Neste último, enquadra-se um rico manancial de lendas e crenças que nos chegaram, transmitidas essencialmente por via oral. 

Imbuídas de uma profunda religiosidade, que se traduzia em diversos aspectos do seu dia-a-dia, as gentes da Gardunha acreditavam também na existência de diversos seres fantásticos cujos nomes, de tão repetidos ao redor das fogueiras por inúmeras gerações, acabaram por ser percebidos como uma parte banal da realidade que as rodeava, algo tão banal como os fraguedos e as árvores das encostas ao redor. 

Assim, pelos caminhos da Serra, os mesmos caminhos que as gentes trilhavam para irem de uma aldeia para a outra, caminhavam também o Diabo, a Boa-Hora e a Má-Hora e até bruxas, embora estas vivessem até despercebidas no seio das comunidades. Os cruzamentos de caminhos eram locais muito sensíveis pois eram frequentemente locais de “mau encontro”, havendo muitas vezes necessidade de os santificar com a presença de um cruzeiro, fosse ele de pedra ou madeira. 

Em praticamente todos os relatos que pudemos recolher, O Diabo ou Patilhas, como era familiarmente conhecido, é em geral um “pobre Diabo”. A sua obsessão por almas torna-o uma vítima fácil e recorrente da esperteza alheia. Tendo inventado o moinho, vê Deus apropriar-se da sua invenção ao passo que sendo o construtor da calçada que liga o santuário da Senhora da Orada à Portela, também conhecida como Cruz (lá está, num cruzamento), fica sem a alma que lhe fora prometida em troca da obra. Logo ali ao lado, embora já noutra serra, é também vítima da malícia de um sapateiro quando se encontrava no centro de um baile de bruxas, em plena Eira dos Três Termos. Apenas por uma vez a sua aparição tem consequências nefastas, ao deixar sem fala uma habitante da aldeia abandonada de Porto dos Asnos.

A Boa-Hora e a Má-Hora, por sua vez, são duas entidades enigmáticas que vagueiam silenciosas pelos caminhos. A primeira é, segundo as descrições, “branca, muito alta, como se fosse toda feita de algodão” em oposição à segunda que é “um vulto negro”. Nas entrevistas que efectuámos, algumas pessoas afirmaram a pés juntos ter visto estas duas figuras e também é conhecida a história de como, na aldeia de Casal da Serra, um homem foi perseguido até sua casa pela Má-Hora, não se tendo atrevido a sair durante vários dias. A Boa-Hora, personificação de venturas, surge no caminho como o aviso para as pessoas se porem a salvo já que, atrás de si, vem sempre a Má-Hora, a personificação do infortúnio que pode até significar a morte.

À semelhança do que já se faz noutros locais, no nosso país e não só, este manancial de lendas justifica bem a criação de roteiros temáticos, cujo valor paisagístico seja complementado com a partilha deste elementos etnográficos imateriais. Há desde logo um elemento que facilita a tarefa e que é o facto de, de forma geral, todas estas lendas estarem perfeitamente localizadas na geografia da Gardunha. Acreditamos também que é fundamental trabalhar-se no sentido de salvaguardar este acervo. Isso não passa por simplesmente plasmar os relatos em textos mas antes por registar o seu relato na primeira pessoa pelas pessoas que as viveram e ainda vivem de forma íntima, nas diferentes aldeias da Gardunha. Ainda há tempo para tal.

Para terminar, vale a pena fazer referência a uma lenda que implica seres que, hoje sim, são seres imaginários: os lobos da Gardunha. Trata-se da lenda do Penedo da Abelha e que conta a trágica história de um jovem soldado que, tendo saído da casa dos seus pais para ir visitar a sua namorada, nunca mais regressou. Conta-se que dias mais tarde apenas os seus pés terão sido encontrados, ainda dentro das botas.

Ora, foi no próprio Penedo da Abelha que, em 2004, identificámos uma inscrição para a qual o estimado Dr. Candeias da Silva avançou gentilmente uma proposta de leitura e datação. Nesta inscrição dos séculos XVI ou XVII, alguém procurou eternizar junto a uma cruz, o nome Afonso Vaz. Será esta a prova material do local de falecimento de um jovem soldado? 

Ler também: 

segunda-feira, maio 07, 2018

A importância da liderança no rendimento de uma equipa

Nota prévia: este artigo não é sobre futebol mas sim o tema da importância de uma liderança positiva no rendimento de uma equipa para atingir os objectivos que lhes são propostos. 



A conquista do campeonato nacional de futebol pelo Futebol Clube do Porto fica inevitavelmente marcada pelo desempenho do seu treinador Sérgio Conceição, naquilo que foi um exercício de liderança digno de compêndios.

Não vou aqui dissecar a maior ou menor correcção das suas decisões técnicas mas merece sem dúvida ser assinalada a forma como dirigiu o seu grupo de trabalho, sobretudo se tivermos em conta as condições extremamente difíceis em que assumiu o seu cargo. Um verdadeiro caso de estudo para qualquer manual de liderança de equipas.

Convém não esquecer que, quando foi anunciado como treinador do Porto, foi olhado com uma certa desconfiança, o que não era de admirar dada a pouca expressão do seu currículo. Por outro lado, as severas restrições orçamentais, impostas pela UEFA, impediam a contratação de novos jogadores, obrigando à incorporação de activos que se encontravam cedidos a outros clubes e que, ainda por cima, não estavam motivados para regressar, devido às más experiências que tinham tido aquando da sua última passagem pelo Porto.

E o que fez Sérgio Conceição? Aquilo que qualquer verdadeiro líder, digno desse nome, deve fazer de forma a mobilizar a equipa ao seu redor para atingir os objectivos pretendidos:


  • fez com que os jogadores se sentissem valorizados no seio do grupo e no projecto da época e fê-los acreditar nas suas capacidades
     
  • definiu objectivos ambiciosos para a temporada e fez os seus jogadores acreditarem convictamente que tinham capacidade para os alcançar
     
  • motivou de tal forma os jogadores que conseguiu maximizar o potencial de cada um deles, aumentando de forma notável o seu nível de rendimento
     
  • geriu exemplarmente os conflitos, pondo o grupo acima de qualquer laivo de individualismo, não olhando a nomes nem currículos. Sanados os conflitos, a coesão da equipa nunca foi beliscada e os jogadores reintegrados continuaram comprometidos com o grupo
     
  • deu sempre a cara pela equipa e assumiu sempre as responsabilidades dos insucessos, acabando por ser o filtro de pressões externas de que a equipa precisava para se concentrar apenas no trabalho
     
  • Por outro lado, geriu muito bem as relações públicas, mantendo sempre um discurso coerente e convicto, o que ajudou a reforçar a sua imagem de liderança tanto para o exterior como para o próprio grupo de trabalho.

É certo que em alguns momentos cruciais, houve uma pontinha de sorte que fez a diferença mas, já o diz o adágio popular, a sorte sorri aos audazes. Por outro lado, não é menos verdade que, mesmo que não tivesse conseguido alcançar o objectivo principal, o título de campeão, a qualidade de trabalho desenvolvido seria inquestionável. É necessário ter em conta os recursos que lhe foram postos à disposição, especialmente se compararmos com os da concorrência ou até com os dos seus próprios antecessores.

Sérgio Conceição soube demonstrar de forma inequívoca o impacto que uma liderança forte e positiva pode ter num grupo de trabalho e na maximização das capacidades dos seus elementos. Soube demonstrar claramente aquilo que define um líder como antítese de um vulgar patrão.


Sérgio Conceição foi, enquanto futebolista, jogador das camadas jovens da Académica e do FCPorto, tendo depois passado enquanto profissional por Leça, Felgueiras, FCPorto, Lázio, Parma, Inter de Milão, Standard de Liège e tendo terminado carreira no PAOK da Grécia após uma breve passagem pelo Koweit.

Enquanto treinador principal passou pelo Olhanense, Académica, Sporting de Braga, Vitória de Guimarães e Nantes, antes de chegar ao FCPorto. Conquistou esta época o primeiro título oficial da sua carreira.

segunda-feira, abril 23, 2018

A controvérsia das podas radicais também na Bélgica

De há uns anos a esta parte, tornou-se frequente ver árvores na via pública que foram alvo de uma poda dita "radical".  Trata-se de uma intervenção que bem se poderia chamar poda à Luís XVI, uma vez que as árvores são pura e simplesmente decapitadas e as consequências não são meramente estéticas.

Este tipo de prática coloca em risco a própria sobrevivência das árvores, que são obrigadas a recorrer a todas as suas reservas energéticas e nutrientes que puderem obter para conseguir recuperar o seu vigor. Se a árvore não tiver acesso a essas fontes de energia fatalmente morre. Temos muitos exemplos disso no Fundão e ao redor e a prática tem gerado alguma contestação e não é só em Portugal.

Árvore junto à N238 em 2004


A mesma árvore alvo de poda radical em 2009. A árvore acabou por morrer, juntamente com outra de porte idêntico mesmo ao lado.


Há dias, ao passear por alguns parques da cidade belga de Liège, deparei-me com algumas ávores mortas que, ainda assim, tinham sido deixadas de pé no seu local de sempre. A razão para tal é o facto de, agora que estavam mortas, serem a base para todo um novo eco-sistema saprófita (organismos que se alimentam de madeira morta).


Uma delas chamou-me particularmente a atenção. Tratava-se de uma árvore cujo perímetro tinha sido delimitado por uma cerca e junto à qual se encontrava um painel informativo dizia o seguinte:




"Árvore morta de interesse biológico

Esta árvore morta ainda de pé serve de substrato para o desenvolvimento do complexo saprófita (musgos, fungos e insectos que decompõem a madeira para se alimentarem dela).

A árvore foi sumariamente podada para indicar que não se tratou de um esquecimento dos serviços técnicos comunais NEM DE UMA PODA RADICAL"

Sobressai aqui a preocupação em fazer saber que a árvore não morreu em resultado de uma poda radical. 

quinta-feira, abril 12, 2018

Os Moinhos da Serra da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Abril de 2018


Sr Raposo, o último moleiro da Gardunha ainda em actividade


Na sua longa história, as comunidades das franjas da Gardunha souberam aproveitar da melhor forma os recursos naturais desta serra para a sua economia, quase sempre, de subsistência. Para lá da sua riqueza florestal, o recurso mais valioso sempre foi a água, um bem de primeira necessidade, aproveitado igualmente para irrigar terrenos agrícolas, conquistados ao flanco da montanha à força de braços nas zonas de maior pendente, e também como fonte de energia motriz para variados equipamentos moageiros que, com o passar dos séculos, foram surgindo ao longo das linhas de água.

Na Gardunha, a distribuição destes equipamento varia em função do caudal dos cursos de água. Nas zonas periféricas mais baixas, onde os ribeiros possuem maior caudal, encontramos os lagares e as azenhas, ao passo que nas zonas mais interiores e elevadas da Serra encontramos equipamentos mais pequenos mas não menos interessantes: os moinhos de rodízio. Na Gardunha, a cota máxima em que se sabe ter existido um destes moinhos é de cerca de 900m. Embora muitas vezes sejam confundidos no nome, os moinhos de rodízio distinguem-se das azenhas pela sua menor dimensão e pela posição das rodas no interior da construção.

Sendo património familiar passado de geração em geração, não se herdava a posse física do moinho mas antes o direito e o tempo de utilização, dividindo-se o número de dias do mês pelo número de herdeiros. Saliente-se no entanto que esta regra não se aplicava apenas aos moinhos mas também a vários outros recursos e equipamentos da comunidade.

Os moinhos de rodízio terão sido introduzidos na Península Ibérica pelos romanos mas a tradição popular conta-nos uma versão distinta e sobrenatural da sua origem. A lenda conta que foram inventados pelo Diabo que, cheio de orgulho, chamou Deus para lhe mostrar aquilo que tinha acabado de criar. Este último felicitou o Diabo mas, para surpresa do inventor, chamou a atenção para o facto de faltar algo muito importante naquela obra, desenhando de seguida uma cruz sobre a mó “para moer grão e bicho não”. A marca deste acto de apropriação de propriedade industrial é ainda hoje bem visível nas mós de todos os moinhos mas a sua função é igualmente utilitária. De facto, a cruz serve de referência da posição de encaixe da mó movente na estrutura do rodízio aquando da sua de manutenção.

Este cunho religioso dos moinhos enquadra-se na ampla ritualidade inerente à produção do pão que vai desde a marcação de cruzes na massa, para garantir que a fermentação corre bem, até às cruzes insculturadas nas mós e às vezes até junto às próprias portas dos moinhos, para manter os males no exterior. Mesmo o produto final, o pão, é alvo de um respeito muito particular pois quando inadvertidamente se deixava cair, era rapidamente apanhado e beijado numa atitude de contrição.

Em relação à sua estrutura, os moinhos de rodízio estão geralmente divididos em dois compartimentos sobrepostos: o espaço da moagem na parte superior e o compartimento inferior popularmente chamado de “inferno”, onde a água faz mover o mecanismo do rodízio. Este consiste numa roda metálica que faz girar um veio vertical sobre o qual, no compartimento superior, encaixa a mó movente. O grau de moagem pode ser ajustado mediante uma alavanca, o aliviadouro, que afasta ou aproxima a as mós. Todo o sistema do rodízio apoia-se e gira sobre um pequeno seixo de quartzite, extremamente polido pela fricção e, por isso, com um mínimo de atrito.

Apesar de actualmente quase todos os equipamentos moageiros estarem abandonados e a maior parte em ruínas, há ainda alguns exemplares que se mantêm em utilização e outros, poucos, foram alvos de restauro para efeitos museológicos. No entanto, sendo o Concelho do Fundão tão rico em equipamentos moageiros de diferentes tipologias e que tiveram tamanha importância na economia das suas gentes, estranha-se que não exista uma oferta museológica que lhes dê a devida atenção. Este será um assunto a discutir num próximo artigo.

segunda-feira, abril 09, 2018

A trágica história do forte de Loncin


A entrada do forte de Loncin. A destruição das casamatas da entrada é apenas um prenúncio do que se encontra no interior.



Monumento aos mortos que ficaram sepultados no interior do forte.



A tranquilidade da paisagem que hoje rodeia as ruínas do forte de Loncin contrasta com a história pesada e trágica do local. Este forte, situado a cerca de 7km do centro de Liège, foi um dos 12 fortes  construídos em 1888 para formar a posição fortificada de Liège, formando um círculo de protecção ao redor da cidade (recordar aqui). 

Esta posição fortificada fazia parte da estratégia nacional belga, posta em prática após o conflito Franco-Prussiano de 1870, para assegurar a inviolabilidade do seu estatuto de neutralidade em caso de novo conflito entre os seus vizinhos.  Assim, a posição fortificada de Antuérpia fechava a entrada a tropas vindas de Inglaterra, a cintura de Namur trancava a fronteira com a França enquanto Liège dissuadia qualquer avanço vindo da Alemanha. 

Com o início da I Guerra Mundial a 28 de Julho de 1914, a Bélgica começou a preparar a sua defesa. À volta dos fortes e num raio de 600m, as sebes e as árvores foram cortadas e as casas foram destruídas, tudo com o objectivo de criar uma zona de total visibilidade que também não oferecesse abrigo ao inimigo. Linhas telefónicas foram entretanto colocadas entre os fortes e as torres de igreja mais próximas que iriam servir de postos de observação.  

A 2 de Agosto, alegando que a França se preparava para atravessar o território belga para a atacar, a Alemanha enviou um ultimato à Bélgica exigindo a autorização de passagem dos exércitos alemães para atacar a França. Perante a recusa do rei Alberto 1º, a Alemanha declarou então guerra à Bélgica e a invasão teve início a 4 de Agosto. 

A inesperada resistência belga, protagonizada pelos fortes, obrigou os alemães a triplicar as tropas envolvidas e a trazer a sua artilharia mais pesada a partir de 10 de Agosto. Foi aqui que as coisas se precipitaram. Um a um, os fortes belgas foram caindo. Construídos em betão simples, não armado, estavam preparados para resistir a obuses de até 210mm, os maiores conhecidos em 1888, mas não aos de 420mm que os novos canhões alemães, os famosos "Grande Bertha", conseguiam disparar. 

O obus de 420mm, em cima do seu cartucho. O projéctil de 800kg era disparado numa trajectória pronunciada que podia levá-lo a abater-se sobre o seu alvo após uma queda livre de 2km.

Por outro lado, havia erros de concepção nos fortes. Em caso de bombardeamento cerrado, as latrinas, cozinha, padaria e talho ficavam inacessíveis já que por questão de orçamento não tinha sido construído um acesso coberto as estas instalações situadas na contra-escarpa. Isto, juntamente com a falta de sistemas de ventilação (excepto em Loncin), fez com que o agravamento das condições sanitárias dentro dos fortes precipitasse a sua rendição.


O ataque ao forte de Loncin

Cúpula de artilharia de canhão duplo de 120mm

O forte de Loncin foi construído em forma de triângulo isósceles, com a base com 300m de comprimento. O corpo central do conjunto, a zona das torres de artilharia, estava rodeado por um fosso de 8 metros de largo e 4 de altura e na contra-escarpa do forte, em cada ângulo, possuía casamatas equipadas com canhões de 57mm para defesa de proximidade contra infantaria, tivesse o inimigo conseguido invadir o fosso. Para esse efeito, havia munições anti-infantaria, com projécteis cujo invólucro se desfazia após o disparo, libertando inúmeras esferas de chumbo que se espalhavam e varriam a infantaria inimiga. 


Maquete do forte de Loncin. É visível a forma triangular do forte e o seu maciço central em betão, com as cúpulas de artilharia. As de canhões de 57mm para defesa em proximidade e as de maior calibre para atingir objectivos a um máximo de 8,5km. Entre a entrada e a cúpula central de 150mm situava-se a posição do farol, capaz de iluminar a paisagem numa distância de até 3km. Imagem obtida aqui


Ângulo do fosso. Ao centro situa-se o corpo principal do forte, contendo casernas, paióis e posições de tiro. À direita, na contra-escarpa de entrada, situavam-se as instalações sanitárias, padaria, etc. 

Situado numa posição estratégica, controlando a estrada e o caminho-de-ferro que levavam a Bruxelas, o forte de Loncin era também um dos 6 maiores fortes de Liège e o mais avançado. Para além de ser comandado por um oficial por quem os soldados tinham uma admiração e obediência cegas, foi para aqui que o comando da posição fortificada de Liège se retirou nos primeiros dias da batalha. Loncin começou a ser atacado a partir do dia 7 de Agosto mas antes, o comandante do forte reuniu todos os seus 530 homens no fosso da entrada e fê-los jurar que se bateriam até ao último homem

O forte foi resistindo mas, com a queda dos outros fortes, começou a concentrar sobre si o grosso dos tiros da artilharia alemã. Tendo perdido todos os seus postos de observação e sem comunicação com o resto das forças belgas, o forte começou a sofrer aquele que viria a ser o bombardeamento final às 16h do dia 14 de Agosto e que despejaria sobre Loncin cerca de 15.000 obuses

Aos poucos, os soldados tiveram de se refugiar cada vez mais no interior do forte. Para piorar a situação, o gerador eléctrico avariou devido à obstrução da chaminé e, para além da falta de iluminação, a partir daí assegurada por modestos candeeiros de petróleo que se apagavam com as trepidações das explosões, o ar começou a tornar-se irrespirável. Em consequência disso, numa das casamatas de protecção do fosso, todos os soldados que aí operavam um canhão de 57mm morreram asfixiados após receberem ordens para não arredarem pé, perante a iminência do avanço da infantaria alemã. 


O interior da galeria principal do forte, onde os soldados se refugiaram à espera do ataque final alemão. Ao fundo, vê-se o início da secção que colapsou às 17h20 do dia 15 de Agosto.

Foi finalmente às 17h20, hora que ficou terrivelmente marcada na memória local, que um obus de 420mm, disparado a cerca de 8km de distância, trespassou a couraça já danificada do forte e se enfiou num dos paióis do forte, fazendo explodir as 12 toneladas de explosivos aí armazenadas. A explosão arrasou o forte, matando instantaneamente 350 homens e fazendo até saltar as cúpulas de artilharia do seu sítio. Os poucos soldados que conseguiram sair, concentraram-se no fosso, junto à casamata da cabeça, onde montaram uma última resistência até serem abatidos pela infantaria alemã que finalmente tinha avançado. 

O resultado da explosão do paiol. Neste local uma placa assinala o local de sepultamento de 250 soldados nunca recuperados.


O interior da casamata de protecção do fosso de entrada e o local onde o sub-oficial Albrecht e os seus homens morreram asfixiados pelos gases das explosões. A abertura inferior era aquela onde se encontrava o canhão de 57mm. A abertura superior destinava-se a permitir a entrada de ar mas não se previu que o ar exterior pudesse estar tão viciado. As fendas são o resultado da explosão do paiol.

Uma das cúpulas de artilharia de 210mm, a de maior calibre do forte, saltou do seu lugar devido ao sopro da explosão nas galerias do forte e ficou virada ao contrário. O que se vê na imagem é na verdade a estrutura interna da cúpula e a abertura por onde os obuses era carregados no canhão.

Os feridos que foram capturados e tratados pelos alemães, acabaram por receber destes um tratamento de profundo respeito, em reconhecimento pela forma valiosa como se tinham batido. O comandante das forças alemãs, por exemplo, fez questão de ir visitar o comandante do forte de Loncin ao hospital onde este recuperava dos ferimentos para o saudar.


O que resta

Actualmente o forte é gerido por uma associação sem fins lucrativos que aí organiza visitas guiadas. É esta associação que também gere o museu e adaptou as galerias não danificadas do forte para serem visitáveis. Tive ontem o privilégio de ser conduzido pelo Pierre, alguém que, conforme me confidenciou, começou por ser apenas um visitante do forte mas se sentiu de tal maneira ligado ao local que acabou por se tornar guia voluntário. Certo é que ao longo de mais de 2h30 me conseguiu manter interessado e até fascinado pelos relatos de todos os episódios que facilmente consegue situar no espaço do forte. 

O meu esmerado guia, diante da entrada do forte de Loncin que conserva ainda marcas bem visíveis do bombardeamento alemão. Atrás, na galeria de acesso, a protecção era reforçada por meio de uma ponte amovível que deslizava lateralmente, deixando aberto um fosso de 4m de profundidade.


A necrópole de Loncin, onde dezenas de soldados estão sepultados. Muitos deles tinham sido honrosamente enterrados pelos alemães num cemitério fora do forte, no preciso local onde hoje se situa o estacionamento dos visitantes.

O forte foi entretanto elevado a Necrópole Nacional e a casamata de cabeça do forte foi transformada em cripta, tendo aí sido inumados os restos mortais dos soldados entretanto encontrados, algo que ainda está longe de ter terminado uma vez que que, ainda em 2007, uma operação de desminagem levada a cabo pelo Exército permitiu retirar dos escombros não só 3500 obuses mas também os restos de 25 soldados, dos quais 4 foram identificados. Todos foram transferidos para a cripta. Muitos capítulos da história deste forte ainda estão em aberto.  

quarta-feira, março 28, 2018

O museu subterrâneo de Liège

Praça de São Lamberto, o coração de Liège. Hoje coexistem aqui o impressionante palácio dos Príncipes-Bispos, uma estação de autocarros e, do lado oposto da praça, um centro comercial. No centro, várias colunas metálicas evocam a desaparecida catedral de São Lamberto e sob a praça esconde-se o Archeoforum.



Muitos daqueles que hoje atravessam a Praça de Saint Lambert, situada no centro de Liège e dominada pelo imponente palácio dos Príncipes-Bispos, estão longe de adivinhar que sob o pavimento deste lugar se esconde praticamente toda a história da cidade

Para lá da entrada algo discreta e descendo uma série de degraus, entramos no Archeoforum, um museu subterrâneo que nos conta de maneira singular a história de Liège, desde a Pré-História, quando o espaço da actual cidade era uma larga planície pantanosa, onde o hoje desaparecido rio Legia se encontrava com os múltiplos braços do rio Mosa. Antes de falarmos no Archeoforum convém no entanto conhecer um pouco da história da cidade.


A entrada do Archeoforum


Ao lado da entrada do Archeoforum, encontra-se o memorial das vítimas do atentado no Mercado de Natal de 2011 (ver aqui)



A turbulenta história de Liège



Sabe-se pelos vestígios encontrados no local que houve presença humana desde o Paleolítico. Certamente, grupos de humanos terão aqui vindo para caçar os animais que faziam parte da vasta biodiversidade local.

É no entanto da época romana que se conhecem os vestígios de uma presença humana permanente, embora modesta, na forma de grande edifício rectangular com termas, talvez parte de uma villa. Em torno desta fixaram-se gradualmente mais habitantes, gerando um pequeno aglomerado até que, por volta do ano 700, se deu um evento que iria para sempre marcar o destino de Liège: o assassinato de São Lamberto, bispo de Maastricht.

Vendo que os fiéis vinham em grande número prestar homenagem e rezar no local onde Lamberto fora assassinado, o seu sucessor ordenou a construção de uma igreja no local, para aí serem colocados os restos mortais de Lamberto. Numa prova de que o negócio da fé é um negócio bem rentável, as sistemáticas peregrinações a este local vieram contribuir para que o pequeno núcleo de casas fosse gradualmente crescendo, até se transformar numa grande cidade.

Apesar de ter sido saqueada duas vezes pelos vikings e, como se não bastasse, ainda tivesse sofrido um raide húngaro, a cidade prosperou e tornou-se sede de bispado e um importante centro religioso e cultural, tanto que chegou a ser apelidada de Atenas do Norte. No século X, Liège torna-se capital de um principado independente, governado pelos bispos, mantendo no entanto a sua ligação ao Sacro Império Romano Germânico. A igreja de São Lamberto, agora com o palácio dos príncipes-bispos como vizinho, vai evoluir para uma grande catedral gótica no século XII.

A história do principado não foi sempre pacífica. Um bom exemplo disso foi o que sucedeu no século XV quando, num conflito criado pela sucessão do príncipe-bispo, a população da cidade escorraçou o bispo que tinha sido colocado no trono pelos pouco simpáticos vizinhos Borgonheses. O Duque de Borgonha, Carlos o Temerário, não ficou muito agradado e, por conseguinte, atacou e arrasou a cidade, deixando apenas as igrejas de pé. No entanto, em jeito de compensação, mandou fazer um relicário com a sua imagem, segurando uma cápsula onde foi guardado um osso da mão de São Lamberto. A cidade sobreviveu no entanto a esta tragédia e alguns anos depois voltou a recuperar o seu fulgor.

O principado chegaria ao fim com a Revolução Francesa, com eco em Liège onde a população abraçou de forma entusiástica os ideais revolucionários. No decorrer da chamada Revolução de Liège, a população atacou o palácio dos príncipes-bispos e arrasou a catedral. Liège, com o seu território, foi integrada no novo departamento francês do Ourthe. Após o período napoleónico, Liège passou a fazer parte da Holanda até que, pouco tempo depois, se tornou parte da Bélgica independente.


O Archeoforum, da Pré-História ao século XX


São os vestígios desta longa história que se encontram no Archeoforum que, para além do museu, que contém um espaço para exposições temporárias e sala de eventos, é também um estaleiro de pesquisas arqueológicas ainda em curso.

As primeiras descobertas foram feitas no início do século XX, durante a abertura de valas para trabalhos de saneamento. Os vestígios foram preservados e, desde então, as investigações ainda não terminaram.



Alguns objectos avulsos junto a uma fotografia das primeiras escavações arqueológicas na Praça. O aspecto de estaleiro do museu salta logo à vista.



Galeria com ilustrações que mostram o desenvolvimento de Liège ao longo do tempo



As estruturas postas a descoberto, os muros do edifício romano, o local onde Lamberto terá sido assassinado e a imponente catedral gótica arrasada em 1789, podem aqui ser admiradas. A baixa altura do tecto, que obriga os visitantes a ter cuidado em algumas passagens, foi aproveitada para aí instalar luzes coloridas que ajudam a distinguir os diferentes muros. Por exemplo, os muros romanos são assinalados a vermelho, enquanto que a catedral gótica está identificada a azul.



As luzes vermelhas seguem e assinalam o alinhamento dos muros romanos. As luzes verdes marcam a localização das construções da catedral românica dos séculos X/XI



Ao longo do percurso, devidamente explicado pelo livro-guia ou iPad entregues na recepção, encontram-se vitrinas com alguns do objectos exumados nesse local.




De forma a transmitir a noção de que a História é algo que não se resume ao estudo do passado, os vestígios expostos vão desde o Paleolítico até ao século XX. Tem-se assim a clara noção de que a musealização da História não se deve restringir de forma redutora a cronologias recuadas mas, pelo contrário, deve pôr em evidência a continuidade temporal que liga aquilo que é hoje a nossa realidade com o passado mais remoto, estabelecendo de forma clara uma ligação identitária.

O preço de entrada é de apenas 7€ e digo apenas porque, para além da visita ao Archeoforum, com um pequeno livro-guia de oferta (não o iPad, infelizmente), o bilhete ainda permite aos visitantes visitar o tesouro da catedral de São Paulo, a igreja que substituiu a catedral de São Lamberto como sede de bispado de Liège. Vale bem a pena.



São Lamberto, o santo guardado em pedaços


Perto daqui, na Catedral actual, a Igreja de São Paulo, cuja torre sineira foi construída no século XIX com materiais da torre destruída da catedral primitiva, encontram-se os restos mortais de São Lamberto dispersos em vários recipientes. Desde a arca que "contém a maior parte" do santo, segundo um guia local, até ao famoso relicário de Carlos o Temerário, que contém uma falange, e o impressionante busto-relicário que contém parte do crânio do santo.

Não é que Lamberto tenha tido uma morte tão violenta que tenha ficado em pedaços. Foi violenta, na medida em que faleceu vítima de um golpe de lança na cabeça desferido a partir do tecto mas, com o correr dos séculos, os seus restos mortais foram sendo distribuídos por relicários.

Em relação ao motivo que levou ao seu assassinato, a tradição diz que São Lamberto morreu por ter recusado reconhecer a relação adúltera do prefeito do palácio, algo equivalente entre um primeiro-ministro e um vice-chefe de estado, do reino franco da Austrásia. Na verdade, morreu porque uma família rival decidiu atentar contra a sua. Sendo Lamberto uma figura importante, tornou-se um alvo privilegiado.


Arca tumular com "maior parte" dos restos mortais de São Lamberto



Relicário de Carlos o Temerário. O duque de Borgonha é representado ajoelhado e segurando a cápsula contendo a falange de São Lamberto, sendo apadrinhado por São Jorge (a figura em pé).



O Busto-Relicário de São Lamberto, feito por um artífice de Aachen antes de 1512. Contém um pedaço do crânio do santo.



Vale a pena visitar:

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