quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Para se integrar, jovem sírio convida desconhecidos a jantar em sua casa


Tem 30 anos e é natural da cidade de Alepo. Rami é um refugiado sírio que fugiu do seu país e se instalou em Liège na Bélgica. Procurando integrar-se na sociedade e conhecer pessoas, Rami lançou uma página no Facebook na qual, semanalmente, convidava 10 pessoas a ir jantar a sua casa, para provar pratos típicos da Síria.

A iniciativa teve sucesso e a página rapidamente chegou aos 1.000 likes. Infelizmente, a ameaça de controlos por parte da AFSCA, a ASAE belga, levaram a melhor e Rami acabou por fechar a sua página e desistir da iniciativa embora, como referiu, não tivesse nenhum propósito comercial. Fica o gesto.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

O primeiro BUG da história da informática

Hoje em dia, o termo bug é recorrentemente usado no universo da informática para designar uma anomalia num programa que resulta num comportamento inesperado por parte do sistema. O que pouca gente conhece é a origem da utilização deste termo que, num contexto computacional e traduzido à letra, significa "insecto".

Para descobrir a história por trás do "bug", temos de recuar até 1945, quando a II Guerra Mundial caminhava para o fim. A guerra tinha tido tanto de bárbaro como de promoção de desenvolvimento científico, especialmente no que à informática diz respeito pois, para auxiliar cálculos balísticos e também para descodificar mensagens cifradas do inimigo, surgiram os primeiros computadores: o Colossus em Inglaterra (ler aqui "O dia em que o preconceito levou um génio ao suicídio") e a série Mark nos EUA. 

Fonte: National Museum of American History

Eram então computadores bem diferentes dos actuais, não só pela sua dimensão como pela sua capacidade de processamento. Basta dizer que temos hoje nos nossos bolsos, na forma de smartphones, uma capacidade de processamento incrivelmente superior à daqueles computadores dos anos 1940 que ocupavam salas inteiras.

Foi no computador Mark II, a 9 de Setembro de 1945, que o primeiro bug foi encontrado, tendo o acontecimento ficado registado no diário de operação da máquina às 15h45. Tratou-se de uma traça, que faleceu sem glória no interior da máquina, tendo sido removida e colada com fita adesiva na própria página do diário.


O primeiro BUG da história da computação
Fonte: Naval History and Heritage Command

Ficou registado: "Relé nº70, painel F. (Traça) no relé. Primeiro caso real de descoberta de um bug.". Este diário encontra-se em exposição no Museu do Computador no centro de Guerra Naval em Dahlgren, Virgínia (EUA).


quarta-feira, janeiro 16, 2019

Os Lagos de Plitvice - Menção honrosa nos melhores trilhos

Após ter publicado o artigo sobre os 5 melhores percursos de caminhada que já fiz, algumas pessoas questionaram naturalmente os critérios de escolha e a não inclusão de alguns percursos que mereciam figurar na lista. É claro que uma escolha deste género é sempre subjectiva e quanto mais curta é a lista mais difícil é compô-la e por isso é importante definir bem os critérios de avaliação. No meu caso optei pela beleza paisagística, valor histórico-cultural, convivência com a população local, sensação de paz e libertação proporcionadas. Isto porque, quando faço uma caminhada, procuro trazer sempre comigo algo mais que a simples memória de belas paisagens. A experiência será tão mais rica quanto mais aprendermos sobre o território que percorremos. Ao mesmo tempo, tem de ser um percurso que permita instantes de contemplação pacífica, a possibilidade de nos sentarmos a apreciar a paisagem sem perturbações.

É por isso que, por exemplo, percursos como os Passadiços do Paiva nunca serão parte da minha lista de favoritos. Ter de caminhar numa fila indiana interminável, onde inclusive há grupos que fazem questão de levar altifalantes para debitar os últimos sucessos dos arraiais populares, é algo que arruina completamente a experiência e relativiza por completo a beleza da paisagem. É algo que acontece de forma recorrente quando os lugares são vítimas da sua própria popularidade e se tornam objecto de massificação turística.

Os Lagos de Plitvice


Basicamente, foi por isso que não incluí o percurso que fizemos nos Lagos de Plitvice (Plitvička Jezera) na Croácia há 4 anos mas que, muito provavelmente entraria no top 10. Trata-se de um lugar magnífico, com uma sucessão de 12 lagos no meio de uma extensa floresta, pelos quais a água flui em cascatas de diferentes espectacularides e não é à toa que este Parque Nacional, o mais antigo da Croácia, está classificado como Património da Humanidade pela UNESCO.

É possível percorrer o parque por vários trilhos sinalizados, de diferentes dificuldades, e pode-se até fazer parte do percurso num dos ferries que atravessa o lago maior. Na altura optámos por percorrer as zonas mais próximas dos lagos e aí experimentámos o efeito da massificação, com alguns "engarrafamentos" no percurso e filas para entrar nos ferries, isto apesar de a entrada no parque ser paga (se não fosse seria uma catástrofe). Uma pena. 

No entanto, houve partes que conseguimos percorrer de forma totalmente tranquila (bastava subir um pouco) e isso permitiu também apreciar da melhor forma toda a biodiversidade do local.

O facto de termos ficado alojados perto dali, numa aldeia com 6 ou 7 casas, uma antiga estância de Verão do Estado-Maior do General Tito, ajudou a enriquecer a nossa experiência. O nosso anfitrião, o fantástico Tomislav, que cozinhava todos os dias para nós, revelou-se um excelente conversador apesar de ter sido necessário ajustar o protocolo de comunicação: nós falávamos em inglês, ele falava em italiano e a comunicação era facilitada por uma bela garrafa de Dingač. Correu às mil maravilhas. Foi aliás graças a ele que ousámos aventurar-nos numa base aérea militar subterrânea abandonada. (Recordar aqui)

Aqui ficam algumas fotos:


Uma das muitas cascatas


Engarrafamento pedestre num dos passadiços

Vista mais ampla de dois lagos e das cascatas


Felizmente o nosso mau domínio do croata não nos permitiu perceber os avisos de interdição de passagem neste acesso alagado


A cascata maior

Vista de uma secção da rede de passadiços

domingo, janeiro 13, 2019

Os meus 5 melhores percursos de caminhada

1 - Caminho Inca
Peru - 43km - 4 dias - Muito difícil





Viajar até outro continente, conhecer uma cultura e uma língua e descobrir paisagens profundamente contrastantes e, no final de tudo, cumprir um sonho de criança. É o resumo do que foi viajar até ao Peru para percorrer os 43km do Trilho Inca até às ruínas de Machu Picchu.

Para percorrer este trilho foi necessário fazer reserva com vários meses de antecedência. Sendo um percurso de acesso restrito, só é possível percorre-lo devidamente enquadrado por uma agência local licenciada que, no nosso caso, foi a Enigma. Diariamente, só podem passar pelo checkpoint de entrada no trilho 500 pessoas, incluíndo o staff das agências. Esta forneceu guias, carregadores e cozinheiros que cuidaram da condução do grupo e de toda a logística da expedição, incluíndo o transporte para o início do trilho, alimentação, bilhetes de entrada em Machu Picchu e o bilhete de comboio de regresso a Cuzco.

A caminhada fez-se pelas montanhas, partindo do vale do rio Urubamba e durou 4 dias, tendo subido até aos 4.200m. Foi por isso que dedicámos alguns dias prévios à aclimatação em altitude na cidade de Cuzco. O ponto mais baixo do percurso é curiosamente a própria cidade de Machu Picchu, com 2.400m. A altitude obriga a reduzir o número de quilómetros percorridos diariamente e, podem acreditar, sente-se a falta de oxigénio em determinados pontos.


Esta diferença de altitude e o facto de se cruzarem as montanhas da cadeia andina permitiu observar uma notável transformação da floresta, desde uma vegetação mais esparsa e rara até uma luxuriante floresta quase tropical que anuncia a Amazónia. As noites foram passadas em acampamento (na primeira noite foi preciso dormir com casaco dentro do saco-cama, tal era o frio!) e valeu bem a pena acordar pela madrugada e contemplar os picos aguçados das montanhas a ser banhados pelos primeiros raios de Sol enquanto bebericávamos um chá de coca bem quentinho.




Ao longo do caminho, todo ele feito por uma antiga estrada real inca, passámos por algumas cidades incas assim como ruínas de "Tambos", os postos de descanso dos mensageiros do Império. Com as explicações pontuais dos guias ficamos também a ser muito sobre o Império Inca e a biodiversidade das montanhas. É difícil descrever a sensação que foi quando, no último dia, transpusemos a Porta do Sol e, com este nas nossas costas, contemplámos Machu Picchu a dominar os meandros do Urubamba. A arquitectura já não era no entanto uma novidade visto que, pelo caminho, já tínhamos passado pelas ruínas de 5 cidades incas.

O relato da caminhada:

Preparação da viagem:
Inca Trail Peru - Este site foi fundamental para ter noção das dificuldades e das formalidades necessárias.
A Sofia Cadilha também merece um agradecimento especial pela ajuda nas reservas de hotel


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2 - Trilho da Muralha de Adriano
Inglaterra - 140km - 6 dias - Dificuldade média


"Fortuna Vobis Adsit"





A primeira grande caminhada em terras estrangeiras foi feita percorrendo Inglaterra praticamente de costa a costa e ao longo dos vestígios da fronteira mais a Norte do Império Romano: a Muralha de Adriano. Foi uma verdadeira viagem pela história com uma belíssima paisagem como fundo.

Este percurso vai muito para além do simples pedestrianismo. Começámos na cidade de Newcastle e terminámos na pequena aldeia de Bowness-on-Solway, à vista da Escócia mas pode ser feito no sentido inverso (talvez mais fácil, dado os ventos dominantes). Este trilho nacional apresenta uma paisagem extremamente variável, desde o meio urbano de Newcastle até à bucolidade das várias quintas e aldeias, sem esquecer a magnífica paisagem do Parque Nacional de Northumberland, na secção central.


Milecastle ou, em bom tuga, um fortim de milha. Estes fortins guardavam as portas na muralha e estavam colocados a cada milha romana. 


O percurso é feito seguindo quase sempre o traçado da muralha, percorrendo trilhos abertos nos prados (onde a via está marcada pelo corte da erva), transpondo cercas através de portões basculantes de madeira ou escadotes de madeira sobre estas. Tem ainda algumas secções em alcatrão, tanto em ciclovias (Newcastle) como estradas secundárias ou vias de acesso local que podem fazer mossa mas que não chegam a 20% do total do percurso. O percurso está muito bem assinalado e é seguro.

Houve necessidade de fazer a preparação com algum tempo de antecedência, dada a escassez de alojamentos e serviços na secção central. Os B&Bs são muito confortáveis e, se for pedido de véspera, fornecem um farnel para o caminho, até porque o pequeno-almoço bem british fornece energia para boa parte do dia mas não chega para tudo. A principal dificuldade foi termos de transportar às costas mais do que aquilo que necessitávamos pois, após a caminhada, iríamos ainda permanecer mais uma semana pela Escócia.




Para quem viaja de Este para Oeste, os vestígios da muralha e estruturas adjacentes são visíveis sobretudo a partir do 2º dia, deixando de o ser ao final do quarto dia. Há no entanto muito para ver para além da muralha dado que o sistema defensivo era complementado por torres, fortins e fortes de legionários cujas ruínas foram em grande parte postas a descoberto e, no caso dos fortes, alguns têm um centro interpretativo associado. Na periferia há outros pontos de visita que valem a pena como a cidade romana de Corbridge (que nos acrescentou 13km ao percurso) ou o forte de Vindolanda em curso de escavação, a dois passos de Once Brewed. Também a cidade de Carlisle com o seu castelo justifica bem uma visita atenta.

Para nós, a caminhada terminou, tendinites à parte, com um momento de pausa sob um telheiro de madeira à vista do estuário do rio Eden, local bem apropriado para um pedido de casamento.

O relato da caminhada:

Preparação da caminhada (guia e mapa):

Site oficial:

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3 - Caminho de São Salvador (Espanha)
Espanha - 122km - 5 dias - Difícil

"Quien va a Santiago y no va al Salvador, visita al criado y olvida al señor"

Catedral de Léon

O Caminho de São Salvador ou Caminho do Salvador é geralmente visto como um percurso "satélite" dos caminhos de Santiago mas dizer isso é claramente menosprezar este percurso. Decorrendo entre Léon e Oviedo, duas cidades que vale a pena visitar, é um caminho com identidade muito própria, tendo inclusive a sua própria credencial e certificado. A passagem pela cordilheira cantábrica, revela paisagens que transmitem uma enorme paz e serenidade.

Fiz este caminho a solo ou, pelo menos, essa era a ideia inicial. Na verdade, tal como em qualquer percurso dos Caminhos de Santiago, também o Caminho do Salvador não se faz nunca sozinho mas isso não significa que padeça da massificação de que os Caminhos de Santiago são vítimas, bem pelo contrário. Os rostos dos outros caminheiros/peregrinos tornam-se rapidamente familiares e, se tivermos o espírito aberto, rapidamente se instala um ambiente de muito à-vontade.

O caminho é sobretudo feito em caminho de terra, tento também largos troços em alcatrão, sobretudo por vias secundárias ou de acesso local, e trilho de montanha. O percurso está muito bem assinalado (as dúvidas eventuais dissipam-se com recurso ao guia indicado abaixo) e sofre um pouco da heterogeneidade geral da sinalética dos Caminhos de Santiago. Pode ser perigoso durante o Inverno devido à neve e ao gelo na travessia das montanhas.


Secção entre Puerto de Pajares e Pajares

O caminho está relativamente bem servido de albergues, embora abaixo do que acontece nos Caminos de Santiago, mas em termos de serviços e alimentação já nem tanto, sobretudo quando nos embrenhamos nas montanhas. A estadia em Poladura de La Tercia obrigou a contactar previamente uma senhora da aldeia que nos preparou o jantar. Sem isso, teríamos de nos ter resumido ao que tivéssemos trazido connosco ou à máquina de vending do albergue. Há em compensação outros aspectos. Nessa aldeia, é possível comprar ovos frescos ou sidra asturiana numa quinta local. Outro local onde o acolhimento é excelente é no albergue de Benduenos. Embora fora de mão, se for combinado de véspera a responsável pelo albergue vem buscar os peregrinos ao Caminho, levando-os de volta no dia seguinte. É também uma excelente cozinheira que confecciona refeições com produtos que ela própria produz.

Nas zonas mais povoadas deste caminho, há vários estabelecimentos onde podemos parar para descansar e beber qualquer coisa e de forma geral, a bebida vem sempre acompanhada de algo para comer, não raras vezes um "pincho de tortilla". É uma boa amostra da hospitalidade destas gentes que, sobretudo para os peregrinos, se desdobra em gentilezas. Por falar em tortillas, é OBRIGATÓRIO parar no café/restaurante Bom Suceso, em frente à ermida medieval com o mesmo nome, para provar aquela que é considerada a melhor tortilla de todo o Caminho do Salvador.


A obrigatória tortilla do restaurante Bon Suceso.

À chegada a Oviedo, é obrigatório visitar o centro histórico e -claro está!- a catedral. Para além de se obter o certificado da peregrinação, vale a pena visitar o monumento e admirar as "relíquias" que fizeram a dada altura com que esta cidade, outrora capital do reino das Astúrias, fosse a cidade europeia com mais relíquias cristãs, logo atrás de Roma. São relíquias essencialmente ligadas à paixão de Cristo e à Virgem e se hoje já faltam algumas, na Idade Média era possível admirar o sudário que cobria o rosto defunto de Cristo, um pedaço da sua túnica, alguns espinhos da coroa, um pedaço da cruz, pão da última ceia, terra do santo sepulcro, uma tina das bodas de Canã, leite coalhado da Virgem, restos de "maná", madeira da vara de Moisés, uma sandália de Pedro, entre outros.

Depois, há que celebrar o fim da jornada e o admirar de tamanha panóplia de relíquias com um belo copo de sidra servido à moda das Astúrias: com a garrafa bem acima da cabeça a verter para um copo à altura da cintura.

Preparação da caminhada:
Guia - Camino del Salvador Um guia gratuito com TUDO o que é preciso saber sobre o Caminho de São Salvador, feito por um peregrino local. 5 estrelas!


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Percurso da Geira (Gerês)
Portugal/Espanha - 40km - 2 dias - Dificuldade média



O percurso da Geira é um percurso dedicado à Via Nova ou Via XVIII do Itinerário Antonino, uma antiga estrada imperial romana que ligava Astorga a Braga. Todo o percurso, excepto uma curta secção, é feito sobre o traçado desta antiga via romana que, quase 2.000 anos depois, ainda tem sinalização viária romana.

Tive a oportunidade de o fazer por duas vezes. A primeira em 2016 e a solo, tendo-o feito entre Seramil e Lobios em duas etapas, e a segunda em 2017 com os Caminheiros da Gardunha entre Seramil e Os Baños.



Embora este percurso possa ser iniciado bastante antes, recomendo o início em Seramil, no lugar da Santa Cruz, percorrendo depois uma primeira etapa até Campo do Gerês e depois partindo daqui até Os Baños, já na Galiza, numa segunda etapa. A piscina termal pública a céu aberto d'Os Baños, na margem do Rio Caldo, é a forma perfeita de terminar, descontraindo os músculos na água sulfurosa que brota da terra a 70º. Uma alternativa é continuar mais um quilómetro até Vilameá, visitando esta aldeia muito típica com os seus espigueiros e eira comunitários.

O percurso é principalmente feito em caminho de terra batida e calçada antiga, com algumas secções de alcatrão e, aqui e ali, por veredas estreitas. A via tem pendentes suaves e a dificuldade prende-se sobretudo com algumas secções mais desafiantes devido ao estado do piso. A paisagem é lindíssima, sobretudo na 2ª etapa, quando se percorre as margens da albufeira da barragem de Vilarinho das Furnas, a Mata da Albergaria e o vale cavado do Rio Caldo, já para lá da fronteira.


O interesse é exponenciado pela existência de vestígios romanos associados à via, sendo o grande destaque os marcos miliários em número invulgarmente alto, que foram recolocados nos seus lugares originais e que hoje, quase 2.000 anos depois, continuam a servir de referência de distâncias, as marcas de pedreiras e, já na Galiza as ruínas da "mansio" (estalagem romana) de Aquis Originis. Na passagem por Campo do Gerês, é obrigatório visitar o Museu da Geira, que explica de forma muito clara e rica tudo o que há para saber sobre a Via Nova. Pode-se igualmente aproveitar para visitar o Museu de Vilarinho das Furnas e a Porta do Parque Nacional da Peneda-Gerês.


Outro lugar a visitar  é o núcleo museológico da fronteira da Portela do Homem. Situado no antigo edifício alfandegário, contém vários marcos miliários e apresenta um complemento de informação sobre a via romana. Tem ainda uma pequena sala dedicada à história da fronteira entre Portugal e Espanha. Esta valência partilha o edifício com um pequeno café-restaurante.

Dado que o percurso é linear, pode haver alguma dificuldade na gestão do transporte para o regresso. A solução pela qual optei foi, à chegada de cada etapa, dirigir-me a um café para pedir contactos de táxis. Único senão, o táxi espanhol recusou levar-me a Campo do Gerês, onde eu tinha deixado o carro, pelo facto de a estrada ser de terra, deixando-me a 6km. Acabei por pedir depois boleia a uma carrinha que passava, com alguns habitantes de Campo do Gerês. Entre histórias várias, acabámos todos por ir beber umas minis.


Preparação da caminhada:
Excelente guia com descrição das curiosidades e pontos de interesse de cada milha do percurso. Custa 5€ e pode ser encomendado à cobrança junto da Câmara Municipal de Terras do Bouro pelo e-mail turismo@cm-terrasdebouro.pt.


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Rota dos 3 Países
Bélgica/Alemanha/Luxemburgo - 23km - 6 horas - Dificuldade média


Ponte dos 3 países. Na margem de cá, à esquerda da ponte fica à Bélgica e à direita o Luxemburgo. A margem mais distante é toda ela alemã.


Não é comum fazer caminhadas que, em pouco mais de 20km permitem passar por 3 países diferentes. Se juntarmos a isso florestas a perder de vista, paisagens onde o verde é a cor predominante e vários quilómetros embalados pelo som de água, temos os ingredientes fundamentais para uma excelente caminhada.

Ao chegar à Bélgica, faz amanhã um ano, uma das primeiras coisas que fiz foi inscrever-me num clube de caminhadas, o RCAE (Royal Cercle Athlétique des Étudiants). Afinal, a melhor forma de descobrir o território, neste caso num país que eu desconhecia por completo, é percorrê-lo a pé. De entre todas as caminhadas que fiz, com este grupo, esta rota por 3 países foi a que mais me impressionou.


Partindo da aldeia de Ouren, onde a pedra se mistura com o verde da floresta, o percurso é belga durante 1,5km até chegar à ponte dos 3 países onde, como o nome indica, confluem as fronteiras da Bélgica, Alemanha e Luxemburgo. É a primeira de duas travessias do rio Our, um rio cujas margens são o palco de cenário de 7km desta caminhada, sobretudo do lado luxemburguês.


Entre florestas e um pequeno circuito pelo planalto alemão, passa-se junto a uma represa construída por castores e que mostra bem a importância que estes têm na promoção da biodiversidade ao criarem zonas alagadas. O regresso ao rio Our marca a entrada no Luxemburgo e daí, percorre-se o rio até regressar à Bélgica. Para além da floresta densa, um outro aspecto fascinante é a ocorrência de registos fósseis nos vários painéis rochosos sedimentares que se encontram pelo caminho.

Vale depois a pena terminar a caminhada numa esplanada da aldeia junto ao rio. Tranquilamente podemos passear com os olhos entre a Alemanha e o Luxemburgo enquanto nos refrescamos com o que a Bélgica tem de melhor. A cerveja, pois claro.

Desbaste feito por castores. O alagamento denuncia a presença de uma barragem feita por estes mamíferos mais a jusante.

Uma última nota de curiosidade: embora a caminhada passe por 3 países, ao fazer este percurso acabei por ter uma imersão num quarto país com um sabor nostálgico de saudade. Num dos meandros do rio, já perto do final, deparei-me com uma enorme festa de trabalhadores portugueses que faziam uma churrascada à beira da água. Os ingredientes estavam lá todos: a cerveja Sagres, a máquina de café do Pingo Doce, as bifanas, uma camisola do FC Porto e uma animada música do Tony Carreira.

Mapa do percurso no Wikiloc AQUI


Este é portanto o top 5 dos meus percursos. Se eventualmente servir para vos inspirar e quiserem eventualmente percorrê-los, estejam à vontade para me contactarem para pedir dicas e conselhos. Se eventualmente já tiverem percorrido alguns deles, como foi? Partilhem a vossa experiência!

segunda-feira, dezembro 10, 2018

Os segredos da Penha da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 1 de Novembro de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros
   - Os Castros da Serra da Gardunha
   - Floresta portuguesa, um ano depois


A Penha da Gardunha, com os seus pinheiros-silvestres, vista de NE.



A Penha da Gardunha é um enorme esporão rochoso, sobranceiro à aldeia histórica de Castelo Novo, e que se destaca na paisagem da Serra da Gardunha. Contrariando um equívoco comum, a Penha não é o ponto mais alto da Gardunha já que se eleva a uma altitude de pouco mais de 1150m, bem abaixo, portanto, dos 1227m do Alto da Gardunha.

 Mais do que a sua imponência ou a magnífica paisagem que do seu topo se avista, que inclui até terras de Espanha, o que faz deste monumento natural um local tão intrigante quanto fascinante é a sua história e a transversalidade de crenças que aqui têm raízes. É justo dizer-se que a Penha constitui o pilar da religiosidade das comunidades da Serra da Gardunha e no seu topo existem ainda vestígios de construções que são o que resta do antigo santuário de Nossa Senhora da Serra.

A existência deste santuário foi justificada pela lenda de uma menina de Alcongosta que se perdeu e que acabou por ser encontrada incólume, nove dias depois, junto à cavidade conhecida hoje como Gruta. Informados pela criança que esta tinha conseguido sobreviver por ter sido alimentada pela “senhora” que ali vivia, as pessoas que a procuravam entraram nessa gruta e depararam-se com uma imagem da Virgem Maria, que depois foi baptizada como Nossa Senhora da Serra. O local passou a ser objecto de uma importante romaria anual, sempre por altura da Páscoa e, aos poucos, o santuário foi crescendo em tamanho e complexidade. Algumas capelas foram adossadas ao templo principal, nomeadamente a pequena capela do Santo Cristo (cuja pequena planta quadrada é hoje bem visível), a nova casa do ermitão foi construída para substituir a modesta construção anterior (cuja divisão bem delineada escavada na rocha é bem visível) e foram construídas vias de acesso conjugando calçada e escadarias.

Sobre este último aspecto, os Caminheiros da Gardunha identificaram há relativamente pouco tempo o segmento de 350m de escadarias da via de romaria a partir de Castelo Novo, correspondendo à descrição que dela faz o Padre Peralta no Diccionário Geographico em 1758: "ha anos, em uma ascensão que fizemos á desmantelada gruta da Senhora da Serra acima d'esta região e quasi no viso da serra, veêm-se ainda aqui e alem pequenos lanços da estreita calçada que coleando por entre rochedos e precipicios, dava aceso para a gruta da Senhora da Serra aos romeiros que saahiam d'Alpedrinha, Alcongosta e outros povos, nos bons tempos, em que parece a fé se aliava com a poesia na escolha do local para os santuários". 

A escadaria da via de romaria a partir de Castelo Novo. 


A obra “Orologia da Gardunha”, de José Inácio Cardozo, descreve uma expedição à Penha realizada a 9 de Outubro de 1846 (com os expedicionários a munirem-se de mantimentos e espingardas) e dá uma boa ideia da organização do santuário, que nessa altura já estava abandonado. Este abandono foi, ao que parece, uma consequência do excesso de fervor que as gentes que se deslocavam em romaria a este santuário imprimiam à sua devoção.

O relato de alguns episódios mostra bem que esta romaria era tudo menos monótona, referindo-se, entre “rixas indecentes e criminosas”, a cruz de prata processional das gentes de Castelo Novo, que estava toda amolgada das pedradas que tinha levado, ou ainda o episódio da destruição acidental da própria imagem de Nossa Senhora da Serra, por um grupo de moradores de Valverde, tendo esta acabado por ser substituída por uma outra imagem custeada pelas gentes do Souto da Casa.

Certo é que, procurando conter estes “excessos da fé”, primeiro proibiu-se tirar a imagem do altar para as procissões e, mais tarde, o santuário acabou mesmo por ser desactivado e demolido, tendo a imagem de Nossa Senhora da Serra sido trasladada para a Igreja Matriz de Castelo Novo, onde ainda hoje se encontra, em detrimento de Alcongosta que também reclamava para si a posse da imagem.

Uma sacralidade milenar

No entanto, a História da ocupação humana da Penha remonta a tempos muito anteriores ao do santuário da Senhora da Serra, tendo aqui sido recolhidos materiais que remontarão à Idade do Bronze. A historiografia refere ali a existência de um castro mas os vestígios parecem-nos demasiado escassos para se poder fazer tal afirmação sem que, pelo menos, se mantenham algumas reservas. É possível sim que, tendo em conta a antiguidade dos vestígios ali encontrados e a posterior criação do santuário cristão, este tenha sido um local de culto pagão já desde tempos pré-romanos e que, mais tarde, com o advento e imposição do cristianismo, terá sido cristianizado. Estaremos, pois, a falar de uma sacralidade que, apesar das transformações do espaço, se prolongou por milénios neste local!

O valor sagrado da Penha vai, apesar de tudo, bem para lá desta dualidade pagã-cristã, continuando a motivar “romarias” ao longo de todo o ano. Perscrutando as estrelas ou procurando no interior da Terra ou até dentro de si próprio as respostas às suas inquietações, muita gente continua a subir à Penha pelos vestígios de caminhos milenares, em busca dos segredos deste lugar. Por enquanto, a Penha teima egoistamente em guardar os seus segredos e, enquanto não os revela, vai-se alimentando do assombro de quem a visita.

Leitura recomendada: "A Via de Romaria ao santuário da Senhora da Serra", por David Caetano, André Mota Veiga e Mário Castro. Poster publicado nas I Jornadas de Arqueologia e Património do Museu Arqueológico do Fundão. Abril de 2017

quinta-feira, outubro 25, 2018

Aqui se decidiu a História da Europa

O monte do Leão, uma colina artificial que domina o campo de batalha

Aqui se decidiu a História de todo um continente. Quem hoje percorrer as verdes e calmas ondulações destes campos de cultivo bordejados de pequenos bosques, junto à pacata vila belga de Braine-l'Alleud, terá muita dificuldade em imaginar o cenário daquele fatídico dia de Verão de 1815, quando 10.000 cadáveres se confundiam num imenso lamaçal. Há algum tempo atrás, calcei as botas e percorri o local que equivocadamente ficou na História como o da batalha de Waterloo.



O prelúdio

A batalha de Waterloo aconteceu a 18 de Junho de 1815 e selou o fim definitivo do mito da invencibilidade de Napoleão. Tendo escapado do seu exílio na ilha de Elba, a meio caminho entre a Córsega e Itália, Napoleão retomou facilmente o poder em França o que provocou uma certa confusão e algum pânico entre as potências europeias, que estavam nesse preciso momento estavam a discutir em Viena o novo mapa geopolítico europeu pós-Napoleão. 

De imediato os trabalhos foram interrompidos e uma nova aliança militar foi formada por Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria, tendo cada país ficado responsável pela mobilização de um exército de 150.000 homens para atacar a França. No entanto, só os dois primeiros estavam em condições de atacar de imediato, embora com efectivos distantes dos números acordados.

Procurando antecipar os ataques à França, Napoleão tomou a iniciativa e invadiu a Bélgica, então parte do Reino da Holanda, para atacar ingleses e prussianos e, desta forma obter também uma posição de força para negociar a paz com os restantes países. O primeiro embate, a 16 de Junho correu de feição já que os prussianos foram derrotados. Napoleão enviou uma parte do seu exército em perseguição destes e virou o grosso das suas forças para os ingleses. 

O problema é que os prussianos haviam sido derrotados mas conservaram a sua capacidade combativa. Em vez de fugirem, iludiram os seus perseguidores e começaram a dirigir-se para as posições inglesas. Tinha começado uma corrida contra o tempo.


A Batalha


Vista parcial do campo de batalha a partir do Monte do Leão, à esquerda avista-se a quinta da Belle Alliance, QG de Napoleão e, mais para lá, a aldeia de Plancenoit.


Wellington escolheu cuidadosamente o terreno para a sua batalha. Sabendo que os prussianos vinham a caminho e que sozinho dificilmente teria condições de derrotar Napoleão, preparou uma estratégia defensiva com vista a aguentar o maior tempo possível e aguardar pela chegada dos reforços. Para isso, escolheu uma linha de colinas uns 20km a Sul de Bruxelas, o Monte de São João (algo longe de Waterloo, portanto). Para reforçar ainda mais a sua posição e condicionar os ataques franceses, fortificou 3 quintas diante das suas linhas: Hougoumont, Haie Sainte e Papelotte. Para além da vantagem do terreno, Wellington teve uma ajuda preciosa da meteorologia já que a chuva que caiu durante toda a noite, transformou o terreno diante das linhas inglesas num imenso lamaçal.

Napoleão viu-se confrontado com um terreno impraticável e, mesmo sabendo que os prussianos vinham a caminho, decidiu adiar o início da batalha em 2h, para deixar o Sol secar um pouco o terreno. Por isso, foi só às 11h30 que a batalha teve início, com o ataque à quinta de Hougoumont.


Hougoumont, a batalha dentro da batalha


A quinta de Hougoumont vista de Este. São visíveis as ruínas do solar, incendiado pelo bombardeamento francês e da sua capela, única parte que se conserva de pé. Os restantes edifícios mantêm relativamente o seu aspecto do século XIX.


O ataque a Hougoumont tinha como objectivo obrigar Wellington a desviar tropas do centro para apoiar a defesa da quinta, abrindo caminho a um ataque maciço ao centro das linhas Aliadas. A resistência foi encarniçada e os defensores de Hougoumont resistiram até aos obuses incendiários com que os franceses os bombardearam. Muitos homens e cavalos morreram queimados mas a quinta resistiu, apesar de num momento crítico quase ter sido tomada quando a porta Norte foi arrombada. Num esforço supremo, um grupo de 10 escoceses conseguiu fechar as portas e todos os franceses que tinham conseguido entrar acabaram por ser mortos. Este acontecimento foi determinante no desfecho da batalha e Wellington diria mais tarde: "o sucesso da batalha de Waterloo decidiu-se com o fecho das portas de Hougoumont".


"Fechando os portões de Hougoumont", de Robert Gibb (1903). National War Museum, Edimburgo

Perante a resistência de Hougoumont, Napoleão não esperou mais e atacou mesmo assim o centro da posição inglesa. Apesar de estarem reunidas condições ideais, os franceses conseguiram por várias vezes ganhar vantagem sobre os ingleses mas, por falta de coordenação ou capacidade de reacção, essa vantagem nunca chegou a ser decisiva e os vários momentos foram sendo desperdiçados.


A chegada dos prussianos


Sem ter conseguido quebrar as linhas inglesas, Napoleão viu a situação piorar ainda mais quando às 16h30 o exército prussiano chegou e se lançou sobre o seu flanco direito, junto à localidade de Plancenoit. O exército que Napoleão tinha lançado em perseguição dos prussianos no dia anterior não tinha sido capaz de lhes travar o avanço rumo ao campo de batalha.

Apesar de tudo, Napoleão ainda viu a possibilidade da vitória no campo de batalha quando a quinta de Sante Haye, diante do centro do dispositivo britânico, foi finalmente tomada e, ao mesmo tempo, um vigoroso contra-ataque recuperou a aldeia de Plancenoit. Do centro Ney pediu reforços para acabar com as tropas ingleses mas Napoleão hesitou pois tinha receio de um contra-ataque prussiano. Resultado: o momento perdeu-se mais uma vez pois, com a presença dos prussianos a proteger-lhe o flanco, Wellington pôde daí chamar tropas para o centro e retomar o controlo da situação.

Foi por isso já quase em desespero que o imperador decidiu finalmente fazer avançar sobre os ingleses o que lhe restava como reserva: a temível Guarda Imperial.


A carga final da Guarda Imperial



Diagrama da batalha em painel interpretativo no alto do Monte do Leão. As posições dos franceses (azul), dos prussianos (verde) e do exército de Wellington (vermelho, rosa e verde claro) são bem explicadas

A Guarda Imperial não obedecia a mais ninguém senão a Napoleão, sendo uma tropa de elite formada por soldados bastante experimentados. Deve ter sido uma visão impressionante para os aliados ver avançar na sua direcção os rectângulos compactos da Guarda Imperial, com os seus estandartes inconfundíveis.

Em reacção, Wellington mandou deitar no chão 2.000 soldados que, dissimulados pela vegetação e pelo terreno, aguardaram pacientemente até a Guarda Imperial chegar "a menos de 20 passos". Levantaram-se então num salto e dispararam à queima-roupa sobre os franceses. As crónicas dizem que metade dos dois batalhões da frente foi imediatamente dizimada e que as linhas seguintes, não só se viram impossibilitadas de avançar em boa ordem, devido à acumulação dos cadáveres dos seus companheiros, como estacaram sem perceber o que tinha acontecido. 

Assim ficaram à mercê do contra-ataque maciço que se seguiu e que forçou a Guarda Imperial a recuar em total desordem. Mais que o ataque em si, foi o grito "A Guarda recua!" que se propagou pelas tropas francesas, que espalhou o pânico e selou o fim da batalha. O que se seguiu pouco mais foi que um massacre. 

Dizem as crónicas que o general Ney (que 5 anos antes tinha participado no Combate do Côa, junto a Almeida), já apeado (perdeu pelo menos 6 cavalos na batalha) e com a espada partida, reuniu ainda uma divisão e lançou-a para a batalha gritando "Venham ver como morre um Marechal de França!". Mas a morte não quis nada com ele senão quase 6 meses mais tarde, quando o próprio Ney deu ordem de disparo ao seu pelotão de fuzilamento, após ser considerado culpado de traição à pátria.

O resto, já se sabe, é História. Uma última curiosidade: a batalha ficou erradamente eternizada como de Waterloo e não do Monte de São João, por ter sido nesta vila que Wellington redigiu o seu relatório.


Vale a pena visitar o campo de batalha!



A área onde decorreu a batalha é hoje monumento nacional e qualquer alteração da paisagem é estrictamente proibida. Todo o terreno é dominado pelo impressionante Monte do Leão, um monte artificial com 40m de altura, encimado por uma enorme estátua de um leão em bronze. Por toda a parte se encontram túmulos ou memoriais, dedicados tanto aos soldados aliados como aos franceses e o que sobressai é o sentimento de homenagem à valentia e bravura com que os dois lados se bateram.

Contando com o percurso dentro de Braine-l'Alleud, a partir da estação ferroviária, fiz um circuito a pé com quase 13km e que me levou a vários locais marcantes da batalha que estão devidamente assinalados e alguns até musealizados. 

É o caso da quinta de Hougoumont onde, para além da parte expositiva, um impressionante espectáculo multimédia no celeiro da quinta dá uma boa noção da violência dos combates que aí decorreram.


As ruínas do palacete continuam visíveis no centro da quinta tal como o poço de que Victor Hugo fez um túmulo nos "Miseráveis". Várias estelas e monumentos memoriais estão dispersas pelas paredes das construções e um passeio pela área do antigo jardim revela mais uns quantos.


Túmulos ingleses em Hougoumont

Do lado de fora da quinta, um castanheiro-da-Índia centenário ergue-se junto ao que resta de outros dois. São as últimas árvores do pequeno bosque que se situava junto à quinta e que foi tomado pelos franceses para daí lançarem os seus ataques a Hougoumont. Este castanheiro é a última testemunha viva da batalha de Waterloo.


Os Castanheiros-da-Índia de Hougoumont. O terceiro a contar da esquerda é a última testemunha viva da batalha de Waterloo


Continuando o percurso, chega-se à jóia da coroa deste percurso de memória: o Memorial de 1815, um museu subterrâneo, com uma área de 1800 m2, onde os visitantes mergulham bem dentro do ambiente da batalha de Waterloo e do seu contexto social e político. O ponto alto será o filme 4D que reconstitui a batalha mas o museu vale muito mais do que só por isso.


Os protagonistas da geopolítica europeia em 1815 Reconhecem alguém?


Daí tem-se acesso ao Panorama, um edifício circular construído em 1912 com uma pintura interior a 360º. Foi construído no âmbito das comemorações do centenário da batalha.

É daqui que acedemos ao Monte do Leão. Foi erigido em 1820 para assinalar o local onde o Príncipe de Orange comandou as suas tropas e foi ferido. Demorou 3 anos a ser construído e levou à remoção de toneladas e toneladas de terra ao seu redor que modificaram significativamente o aspecto do terreno. Diz-se que tendo regressado ao local após a construção do monte, Wellington terá explodido em fúria: "Arruinaram o meu campo de batalha!".


O Memorial 1815, o Panorama e o Monte do Leão, todos visíveis na foto da esquerda para a direita


Seja como for, do seu topo, vencida a subida com 225 degraus, oferece uma vista sobre a totalidade do campo de batalha, visão que é complementada pela presença de painéis interpretativos.


A escadaria e a estrada ao longo da qual se dispuseram as linhas inglesas para Este

Descendo do monte, atravessa-se o campo aberto até à quinta da Belle Alliance, local onde Napoleão instalou o seu Quartel General, e daí prossegue-se até Plancenoit, aldeia disputada por franceses e prussianos. Seguindo a estrada, surge a quinta de Sante Haye, onde as placas-memoriais glorificam os soldados dos dois campos que aqui lutaram até à sua tomada pelos franceses, já na parte final da batalha.


A quinta de Sante Haye, a única das 3 quintas fortificadas pelos ingleses que caiu em posse dos franceses mas, infelizmente para estes últimos, demasiado tarde.

Lápides de homenagem aos soldados franceses, alemães e ingleses que combateram na quinta de Sante Haye 


Já com a tarde bem avançada, não tive escolha a não ser deixar metade do campo de batalha por explorar, tendo de regressar a Braine-l'Alleud, não sem antes aproveitar a última passagem pela sombra do Monte do Leão para beber uma cerveja local que me fez muito bem. Talvez tenha a ver com o facto de ser produzida na mesma quinta que Wellington escolheu para ser o seu hospital durante a batalha.





Para ver: Battlefield Detectives: Massacre at Waterloo
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