terça-feira, julho 31, 2018

Dar armas a crianças com 3 anos? Só na America

Sacha Baron Cohen já nos habituou aos seus programas televisivos e filmes que se traduzem num caldo de vergonha alheia e polémica pela forma como expõe cruamente os podres da sociedade estado-unidense, geralmente intepretando personagens com as quais engana diversas personalidades incautas que julgam estar diante de uma personagem real. O seu mais recente trabalho é a série "Who is America?" onde Baron Cohen põe a nu alguns dos lugares físicos e mentais mais obscuros de uma nação, começando por abordar a eterna polémica do livre acesso a armas e os recorrentes tiroteios nas escolas.


Sacha Baron Cohen como Erran Morad, especialista em contra-terrorismo


Fazendo-se passar por um agente anti-terrorista israelita, Baron Cohen entrevista Philip Van Cleave, presidente da Liga de Defesa dos Cidadãos da Virgínia, fazendo-o acreditar que em Israel existe um programa ao abrigo do qual as crianças são ensinadas a usar armas a partir dos 3 anos para defenderem a sua escola de muçulmanos. A reacção de entusiamo da parte de Van Cleave é ficar de queixo caído, chegando inclusive a afirmar que as crianças mais jovens "ainda não desenvolveram consciência. Ainda estão a aprender a diferença entre certo e errado" e que, por isso, "podem ser soldados muito eficazes".

O clímax desta primeira entrevista é quando Cohen consegue convencer Van Cleave a gravar um programa infantil para ensinar âs crianças como usar armas:


"Lembrem-se de apontar a boca do Cachorrinho Pistola..."



"... para o meio do homem mau"


Larry Pratt director executivo da associação dos Portadores de Armas da América, um grupo lobbyista com um discurso extremamente "musculado", é o segundo entrevistado no programa. Usando Pratt como "cunha", Cohen consegue convencer alguns senadores e ex-senadores, assim como o próprio Pratt, a participarem num anúncio de promoção do programa "Kinder Guardians", para armar crianças na escola.


As crianças de tenra idande são puras e não corrompidas por fake news ou homossexualidade


O que é interessante na retórica de Pratt, é a a forma como liga subtilmente o seu anti-islamismo aos tiroteios nas escolas, quando refere que as crianças podem conseguir reagir instintivamente ao ouvirem "Allahuh Akbar", isto apesar de esses tiroteios não serem perpetrados por extremistas islâmicos mas sim por cidadãos "com problemas mentais", ou seja, a classificação em que se encaixam todos os terroristas que não são extremistas islâmicos.

Mais uma vez, Sacha Baron Cohen consegue transmitir-nos uma visão inquietante dos Estados Unidos da América, onde os preconceitos religiosos e raciais estão profundamente enraízados na sociedade e o anti-extremismo se torna ele próprio uma forma de extremismo.

O 1º episódio da série pode ser visto aqui:


segunda-feira, julho 23, 2018

Aqui só vivem mulheres viúvas ou solteiras

Entrada Sul do Begijnhof de Bruges

São "bairros" residenciais muito peculiares pois, desde a Idade Média, a sua população é formada apenas por mulheres viúvas ou solteiras que aceitaram o seu celibato e se estabeleceram em pequenas comunidades auto-suficientes. Trata-se dos Begijnhof flamengos (Béguinages em francês) e, pela sua integridade e autenticidade, 13 deles foram inscritos pela UNESCO na lista do Património da Humanidade.

Brugge ou Bruges, conforme seja dito em flamengo ou francês, é uma cidade fora-de-série pela beleza que oferece a sua diversidade arquitectónica magnificamente bem conservada e também devido aos vários canais que atravessam o tecido urbano. Isto permite-lhe ter 3 referências na lista de Património da Humanidade da Unesco: o seu centro histórico, a sua torre-campanário e o Begijnhof Ten Wijngaerde, o bairro fundado em 1245 para albergar mulheres viúvas ou solteiras. 

Este tipo de comunidades de mulheres emancipadas surgiu em plena Idade Média, a partir do século XIII e, apesar de praticarem uma vida religiosa, não formavam ordens religiosas propriamente ditas já que, a qualquer momento, as mulheres podia decidir sair, fosse para casar ou não. Certo é que, enquanto fossem membros da comunidade, tinham de trabalhar para o sustento da mesma.



Entrada das casas da ala Norte. Todas as casas têm ainda um largo quintal nas traseiras

Em Bruges, o Begijnhof "da vinha" consiste numa trintena de casas, quinhentistas e seiscentistas, articuladas em torno de um enorme pátio central. O acesso só pode ser feito por 2 portões, os mesmos que, durante séculos, se fechavam à noite para manter as mulheres em segurança. Junto a ambos, vários letreiros apelam para que os visitantes guardem silêncio, de forma a respeitar a paz do local.  Num dos extremos do pátio, ergue-se uma igreja dedicada a Santa Isabel e o seu aspecto actual data de 1700, quando a primitiva igreja gótica foi modificada para abraçar o estilo barroco. 



Pátio central e ala Oeste

Os ares que sopraram da Revolução Francesa foram a primeira machada nos Begijnhof que, apesar de tudo, ainda foram reconstituidos no período napoleónico. Ainda sobreviveram cerca de 100 anos tendo depois conhecido sortes diferentes. O de Bruges passou a ser gerido pela ordem religiosa das freiras beneditinas em 1927, sendo fundido com o convento desta ordem erguido paredes-meias. Actualmente, a par da presença das beneditinas, ainda conserva parcialmente a sua função original, albergando mulheres laicas, algumas delas idosas.



Reconstituição de um quarto na casa-museu

O pátio central e a igreja são visitáveis de forma gratuita. Já a casa-museu, que recria uma casa típica do Begijnhof  no século XVI, é visitável pela módica quantia de 2 euros.

sexta-feira, julho 20, 2018

Como identificar falsas notícias


A comunicação social é hoje bem diferente daquilo que era há alguns anos, sobretudo pelo sucesso alcançado pelas redes sociais, de que o Facebook é um dos melhores exemplos. As redes de partilha de informação deixaram de se apoiar exclusivamente nos mass media clássicos (imprensa, rádio e televisão) e passaram a ter nas redes sociais um pilar importantíssimo. A informação propaga-se hoje a um ritmo elevadíssimo e, no meio deste turbilhão com um nível competitivo inédito, os agentes noticiosos "oficiais" debatem-se com a necessidade diária de serem os primeiros a obter e divulgar as notícias. Em consequência:

  • O tempo dispendido para validar a credibilidade dos factos apresentados na notícia é menor

  • A deontologia é muitas vezes desconsiderada face à urgência de mostrar trabalho e garantir leitores/audiência

  • Há um efeito "cascata" em que se um agente noticioso publica uma notícia inédita, validada ou não, muitos outros vão atrás e reproduzem-na, partindo do princípio que foi validada na fonte

Esta precipitação é de tal monta que, por vezes, até artigos satíricos são partilhados como sendo verdadeiros. Lembram-se de quando a cadeia televisiva RT difundiu a notícia de como a Roménia tinha enviado ajuda para o Tahiti em vez do Haiti? [Ver aqui]




Por outro lado, nas redes sociais cada utilizador tornou-se um agente noticioso não oficial, partilhando publicações que vai encontrado no seu "feed" de informações, cronologia se preferirem. O problema é que a validação da sua fiabilidade é geralmente nula e reveste-se de várias particularidades:


  • Não há obrigação deontológica de validar a credibilidade dos factos

  • As partilhas são sempre influenciadas pelas convicções e preconceitos de cada um e são motivadas, ou seja, estamos pré-condicionados para tomar como credíveis todas as notícias que vão de encontro às nossas convicções e preconceitos. 

  • As partilhas são motivadas pela necessidade viciante de obter "Likes", no fundo, de se sentir importante no seio da "comunidade virtual"

  • O fascínio do sensacionalismo, a pressa em obter "Likes", e, por vezes, uma certa preguiça, fazem com que a partilha se faça de forma precipitada, apenas com base na leitura do título e poucas vezes se lê, como sempre deveria acontecer, o corpo da notícia

  • A partilha raramente avalia as motivações políticas ou sociais de quem publicou originalmente a notícia


Todo este conjunto de factores cria o eco-sistema ideal para o surgimento e proliferação de notícias falsas ou, "como se diz em americano", as Fake News. Esta é uma praga que infesta a sociedade de informação actualmente e frequentemente ultrapassam, em termos de alcance, a verdade dos factos. Por outro lado, quando se descobre que uma notícia é falsa, o alcance do seu desmentido é irrisório quando comparado com o alcance que a notícia atingiu inicialmente. Porquê? Porque, desprovido que é de sensacionalismo, a motivação para a partilha de um desmentido é muito menor.


Cada um é responsável por aquilo que partilha!

De facto, mesmo que não sejamos autores de uma determinada notícia falsa, o facto de a partilharmos torna-nos parcialmente responsáveis pela sua existência e pelas suas consequências, que em casos extremos podem ser trágicas. 

Um caso que ficou célebre foi o do Pizzagate, nos Estados Unidos no qual, devido a um boato que se tornou viral, um homem invadiu uma pizaria e disparou vários tiros porque acreditava que esta era o local de tráfico de crianças por pedófilos ligados ao partido democrático [Ver aqui].

No Brasil, um rumor que se tornou viral, levou ao linchamento de uma mulher que tinha sido transformada numa raptora e abusadora de crianças. [Ver aqui]

As falsas notícias que mais frequentemente vejo serem partilhadas têm a ver com:
  • conteúdos raciais
  • conteúdos religiosos
  • conteúdos políticos
  • teorias da conspiração

Os actos de vandalismo de um grupo de hooligans adeptos do Basileia (na Suíça) transformou-se em supostos actos de violência por parte de muçulmanos que queriam impor o respeito pelo Ramadão em Birmingham, no Reino Unido [imagem tirada daqui]

Quando vemos uma notícia que provoca em nós uma reacção emocional, o primeiro impulso será de a partilhar imediatamente. É precisamente nesse momento que devemos ter a capacidade de refrear esse impulso e de colocar a questão fundamental: "Será que isto é verdade?"


Como identificar notícias falsas?

Quando me deparo com uma notícia partilhada que chame de alguma forma a minha atenção pelo seu título e que levante algumas suspeitas, sigo sempre o mesmo método de avaliação:
  1. Abrir e ler a notícia. O título está em harmonia com o seu conteúdo? Cita fontes? Aproveitem também para verificar a data da publicação.

  2. Analisar o site em que está publicada. É um site fiável? Qual é o sentido geral das suas publicações (pode ser satírico, política ou religiosamente tendencioso, ...)?

  3. Fazer uma pesquisa pelas fontes citadas. Existem? São quem a notícia diz serem?

  4. Procurar a notícia noutras fontes de informação, nomeadamente em sites informativos credíveis, como canais de televisão ou jornais on-line. Se não encontrarmos a notícia em nenhum deles, será bastante suspeito.

  5. Partir do princípio que a notícia é falsa e pesquisar no Google como se assim fosse. Usando o exemplo dos hooligans suíços que atrás referi, o método que usei para descobrir que se tratava de fake news foi simplesmente o de fazer uma pesquisa no Google com os termos "Ramadan riot Birmingham fake" ("Ramadão tumulto Birmingham falso")
  6. Copiar uma frase da notícia suspeita e pesquisá-la, colocando-a entre aspas, no Google
  7. Suspeitar de todas as partilhas que sejam acompanhadas de frases como "Esta publicação está a ser censurada! Partilhem antes que o Youtube ou Facebook elimine este artigo outra vez!"

Claro que nem todas as partilhas são de artigos. Muitas vezes são fotografias acompanhadas de uma descrição e é mais difícil verificar a origem desta. 

O caso bem conhecido de uma imagem partilhada com falsa descrição. Tornou-se viral por representar supostamente o êxodo de europeus para África durante a II Guerra Mundial mas, na verdade, representa a fuga de dezenas de milhares de albaneses para Itália nos anos 1990. [Imagem tirada daqui]


Diferentes imagens com a mesma credibilidade:

Uma frase atribuída a Catarina Martins e publicada no Jornal Expresso que, pelos vistos, na semana em questão foi publicado... à Quarta-feira! Uma pesquisa no Expresso on-line não deixa dúvidas quanto à não-existência desta frase.


O cartão de Fernando da Silva Pais, director da Pide, foi transformado no "cartão de informador" de Cavaco Silva


Neste cartão de membro da FNLA, a identidade de Peter McAleese foi substituída pela de Manuel Alegre


No entanto também há formas de despistar a sua credibilidade, sendo a mais simples a de fazer uma pesquisa de imagens no Google
  1. Abrir a imagem num novo separador (Botão direito do rato - Abrir em novo separador) e copiar o endereço da imagem da barra de endereços do nosso navegador
     
  2. Fazer uma pesquisa de imagens no Google, pesquisando pelo endereço da imagem. O Google vai procurar imagens visualmente semelhantes e apresentar os sites onde elas se encontram. Se os factos da partilha forem falsos, será possível encontrar na lista de resultados o seu contexto original ou o desmentido da falsa legenda.

É claro que haverá partilhas cuja veracidade será difícil de validar mesmo com todas estas etapas de verificação mas garanto que a grande maioria das falsas notícias será facilmente detectada desta forma. Dá algum trabalho mas vale a pena até porque, como referi atrás, cada um de nós é responsável por aquilo que partilha, tanto pela sua veracidade como pelas suas consequências.

Já agora, para terminar, gostava também de ter algum feedback vosso. Quais são as formas de verificação da veracidade das notícias que utilizam? Acham que esta lista é completa ou falta alguma coisa?



segunda-feira, julho 16, 2018

14 de Julho, Dia Nacional de França... na Bélgica

Liège, 14 de Julho de 2018

Liège, ou melhor dizendo a Valónia, tem uma ligação muito estreita com a França. É a consequência de uma História feita de proximidade, especialmente do período da Revolução Francesa que teve eco na chamada Revolução de Liège que, não só pôs termo ao Principado de Liège governado pelos príncipes-bispos, como ainda resultou na integração do seu território na França, com o nome de Departamento do Ourte (do nome do 2º maior rio da região: o Ourthe já que em França já existia um departamento do Mosa). De salientar que esta integração foi decidida por voto popular em 1793.


Espaço para publicação de editais públicos do Departamento do Ourte.


Devido a essa proximidade, o 14 de Julho, o dia nacional de França, é celebrado em Liège com pompa e circunstância com um grande fogo de artificio seguido de um grande arraial com música, comes e bebes à beira do Mosa, onde as bandeiras francesas se destacam.

Desta vez contudo, parece que o ânimo para a festa não era muito, quiçá devido à desilusão nacional que foi a derrota da selecção belga de futebol diante da França alguns dias antes. Isso foi visível quando, numa pausa do fogo de artifício, uma rapariga que passava gritou "Viva a França! Vivam os franceses!" e a resposta ter sido o silêncio absoluto quebrado aqui e ali por um comentário menos simpático ou uma gargalhada perante o atrevimento.


Um encontro com um clube de Castelo Branco

Seja como for, festa é festa e, sendo assim, o arraial encheu-se para o concerto que se seguiu ao fogo de artifício. Ora, coincidência das coincidências, dei de caras com um grupo de dezenas de jovens ginastas com t-shirts a dizer "Portugal". Pedido de esclarecimento atendido, fiquei a saber que se tratava de parte da representação portuguesa no Eurogym, um meeting bianual de ginástica para ginastas com idades entre os 12 e os 18 anos, que decorre esta semana em Liège, mas o mais curioso é que neste grupo estava representado o Albi Gym, de Castelo Branco, sendo que a responsável com que falei era fundanense. Para a edição deste ano são esperados cerca de 5000 jovens, sendo que Portugal é o país com a maior representação: cerca de 600 jovens atletas.

sexta-feira, julho 13, 2018

Ursos, lobos e zebros

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Julho de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os romanos passaram pela Gardunha
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha


Urso-pardo, lobo ibérico e o misterioso zebro. Créditos das fotos e imagem no fim do artigo


A paisagem que nos rodeia apresenta hoje uma realidade muito diferente daquela que seria possível observar há vários séculos atrás. Se por artes mágicas pudéssemos por exemplo voltar à Idade Média, e a não ser que nos conseguíssemos abstrair de tudo o resto para fixar a nossa atenção no recorte familiar dos montes e vales, teríamos muita dificuldade em reconhecer a paisagem da nossa própria região. Logo à partida, a extensa mancha arbórea que por aqueles tempos cobria o território, feita sobretudo de árvores de folha caduca, era bem diferente das florestas bem mais pequenas da actualidade, ainda por cima constituídas em grande medida pela perniciosa harmonia mono-cultural de pinheiro-bravo que bem conhecemos.

A coberto dessa vegetação, viviam animais que hoje já não encontramos entre nós mas que naquela altura era muito comuns. Falamos do lobo-ibérico, do urso-pardo e do zebro, por exemplo. Se o primeiro conseguiu habitar na nossa região até há relativamente poucos anos, tendo os últimos exemplares da Serra da Gardunha sido avistados no início dos anos 1980 e estando a sua população hoje circunscrita ao Nordeste português, os restantes já há muito que deixaram de percorrer o nosso território. No entanto, de Norte a Sul de Portugal, e inclusive no concelho do Fundão, a sua memória persistiu na toponímia, que não raras vezes é uma fonte importante de pistas para desvendar o passado.

O urso-pardo terá, segundo alguns estudos, desaparecido da nossa região por volta do século XVII, tendo as suas populações sido gradualmente empurradas para Norte do país. Embora haja relatos de avistamentos esporádicos bem mais tardios no Norte de Portugal, a sua presença na Península Ibérica está hoje confinada a regiões montanhosas do Norte e Este de Espanha. Este animal cuja caça, a par da do javali, era muito apreciada pela nobreza portuguesa, foi alvo de várias iniciativas régias de protecção quando se constatou a redução da sua população, iniciativas que esbarraram, no entanto, no inconformismo das populações que viam neste animal uma ameaça às suas propriedades. Um dos objectos preferidos de cobiça dos ursos eram as colmeias e, para as proteger dos ávidos plantígrados, estas foram agrupadas e cercadas por muros altos e espessos de forma geralmente circular, os muros apiários. Estas estruturas eram popularmente chamadas de “muros”, “silhas” ou “malhadas”. 

Ora, como foi referido atrás, a toponímia guardou a memória do urso-pardo. Encontramos essa memória na aldeia de Vale d’Urso, freguesia do Souto da Casa (não confundir com Vale de Urso, Proença-a-Nova), e num local ermo noutra vertente da serra da Maúnça designado como “Vale da Ursa”. Curiosamente, não muito longe dali, situava-se uma Malhada que, por ser já antiga era designada como Velha, e que hoje persiste apenas no nome de uma aldeia. Estes topónimos não são raros em Portugal, e a estes devemos juntar os que incluem os termos “Osso” ou “Ossa”.

Eis alguns topónimos portugueses relacionados com a presença do urso-pardo: Vale d'Urso (Souto da Casa), Vale de Urso (Proença-a-Nova), Vale da Ursa (Serra da Maúnça, Proença-a-Nova e Algarve), Serra de Ossa (Alto Alentejo), Ursa (vários), etc.

Quanto ao zebro, trata-se de um animal que ainda hoje suscita alguma discussão. Que este equídeo existiu e proliferou na nossa região não há dúvidas. Discute-se sim o aspecto que teria, embora a tese que mais força tem seja a de que se tratava de um animal semelhante a um burro, de pêlo cinzento com uma faixa mais escura sobre o dorso e com focinho escuro. A sua pele, muito apreciada, era usada como bem transaccionável, como aliás é referido no foral de Coimbra e no de Pinhel, mas o zebro também era procurado pela sua carne. A pressão humana, materializada na caça abusiva e redução do seu habitat, sobretudo a partir do século XII, acabou por levar este animal à extinção ainda durante a Idade Média. No entanto, mais uma vez, a sua memória persistiu no nome de localidades como Zebras (Fundão) e Zebreira (Idanha-a-Nova).

No resto do território português, há mais ocorrências que recordam este equídeo como Zebral (Vieira do Minho), Zebras (Valpaços), Zebreiros (Gondomar), etc.


Por outro lado, a referência a este animal sobreviveu também no nome dos equídeos que os exploradores portugueses encontraram em abundância nas savanas africanas e que acharam parecidos com o zebro. Falamos das zebras, pois claro.

quinta-feira, julho 05, 2018

Pequenos gestos empresariais em prol do ambiente

Corrida anual das empresas do Parque Científico na sua passagem pela sede da EVS.


Trabalhar na sede da EVS , um edifício que recentemente foi eleito o melhor Office Space da Bélgica, tem vindo a revelar-se uma experiência extremamente gratificante. Para além do desafio profissional que constitui, afinal estamos a falar de uma empresa que tem entre os seus clientes alguns nomes relativamente conhecidos como a UEFA, Netflix ou Facebook e que forneceu os equipamentos para produção e transmissão dos jogos do actual campeonato do Mundo de futebol, é impossível não apreciar um local onde é posta em prática uma consciência empresarial invulgar.

Isso caracteriza-se por uma grande preocupação em proporcionar as melhores condições possíveis aos seus trabalhadores (horário flexível para permitir prática desportiva, protocolos com ginásios ou clubes desportivos, balneários, sala para sestas, cafetarias onde tudo o que sai das máquinas de vending de café é gratuito, fruta fresca e sopa gratuitas, eventos regulares de convívio entre funcionários, etc...) e também por um tremendo esforço para obter o máximo de eficiência energética  e implementar uma política de responsabilidade ambiental.


Canecas para reduzir a quantidade de resíduos de plástico e uma máquina de vending que disponibiliza bebidas à base de café com selo "Fair Trade" (ver aqui)


Ora é precisamente este último aspecto em particular que quero destacar. A responsabilidade ambiental não só é exercida como procura-se que seja incutida em cada trabalhador e tudo através de pequenos pormenores que fazem toda a diferença. Para além de os caixotes de lixo existentes nas zonas comuns promoverem a triagem dos resíduos para recolha selectiva, também no que diz respeito ao consumo das bebidas quentes se luta para reduzir o consumo de copos de plástico. Isso é feito através da disponibilização de canecas em cerâmica aos funcionários. Ao chegarem pela manhã, podem pegar numa caneca e usá-la durante o dia inteiro, devolvendo-a no final do dia para que seja lavada. As máquinas de vending, as que ainda distribuem copos de plástico, também estão equipadas com sensores que detectam a presença de uma caneca e, sendo o caso, não disponibilizam o copo. 

Numa altura em que tanto se discute a importância de reduzir a quantidade de plástico deitado ao lixo, este é sem dúvida um excelente exemplo a seguir, até porque, como está escrito nas canecas,  "A mug a day, keeps the plastic away" (Uma caneca por dia, mantém o plástico à distància).

quarta-feira, julho 04, 2018

Mundial 2018 - Bandeiras na janela arriscam multa

À semelhança do que vai acontecendo um pouco por todo o lado nos países que participam no campeonato do Mundo de futebol que está a decorrer na Rússia, também na Bélgica se avistam bandeiras tricolores penduradas no exterior das casas e carros, sendo que nestes últimos, até há acessórios bastante curiosos que lhes dão um certo aspecto diabólico.

Ora, para aproveitar este assomo de fervor patriótico momentâneo, a "Jupiler", uma marca de cerveja belga, decidiu investir forte em termos de marketing e mudou temporariamente o nome para "Belgium". Ao mesmo tempo, lançou uma campanha de oferta de brindes, nos quais se inclui uma bandeira com referência à sua marca. Como é lógico, esta bandeira começou a concorrer com as bandeiras "oficiais" em termos de exibição no exterior das casas e tudo parecia estar bem encaminhado para um Mundial de pleno fervor patriótico da "Gallia Belgica". Só que não.





Subitamente, vários especialistas de direito fiscal começaram a alertar para a possibilidade de os cidadãos que têm essas bandeiras da Jupiler expostas no exterior das suas casas poderem pagar uma multa que pode ir até aos 50 euros. Ao que parece, certos municípios impõem uma taxa sobre exposição publicitária e as ditas bandeiras são efectivamente publicidade. Inclusive, o partido nacionalista Flamengo tem vindo a contestar o facto de se estar a promover com estas bandeiras uma marca de cerveja... valónia.

Também certos acessórios para automóveis têm sido motivo de ameaça de multa mas por parte da polícia, visando especialmente as capas para retrovisores. O motivo aqui é simplesmente o facto a redução da visibilidade pôr em causa a segurança na circulação rodoviária.





quarta-feira, junho 20, 2018

Os romanos passaram pela Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 14 de Junho de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha

Momento do levantamento do achado

Foi recentemente notícia aqui no Jornal do Fundão, a descoberta de um altar romano no limite da freguesia de Alcongosta durante uma actividade dos Caminheiros da Gardunha. Uma descoberta deste género é sempre um momento feliz, sendo que essa felicidade diz respeito tanto ao sentimento que a descoberta em si inspira em quem a faz, como à conjugação de circunstâncias que permitiram que esta acontecesse.

Este altar ou ara, como é mais comum designar-se, foi encontrado junto aos vestígios da via romana que ligam Alcongosta a Alpedrinha, num local onde as marcas de actividade humana denotam uma certa persistência ao longo do tempo. Trata-se de uma peça esculpida em granito de grão fino e o cuidado no seu acabamento contrasta com uma certa irregularidade nas letras da inscrição que exibe numa das faces. Facto curioso, trata-se da ara romana encontrada a maior altitude na região.

O local do seu achado traz mais interrogações que respostas. Desde logo, estará no seu local original ou foi para aqui trazida em época posterior? A ser verdadeira a primeira hipótese, existiria por perto alguma casa ou povoado? Onde? Também o contraste o acabamento da peça e a irregularidade das letras do seu texto parece indicar que esta terá sido adquirida num local diferente daquele em que foi acrescentado o texto. Sabe-se para já que a inscrição refere o nome de uma mulher e que se trata de um nome indígena, um nome “lusitano” se quisermos falar de forma mais simplista, o que mostra que a população local estaria então bem integrada nos costumes romanos. É provável que se trate de uma inscrição funerária, uma lápide mandada lavrar após a morte desta mulher, por alguém que a estimava e que assim quis perpetuar a sua memória. 

Era costume, na época romana, construírem-se monumentos funerários para assinalar o local de sepultura dos defuntos. Podiam ser em forma de altar, podendo ser o caso deste que agora foi encontrado, mas não só. A forma do suporte das inscrições podia variar, à media da própria dimensão e monumentalidade das sepulturas. Conhecem-se muitos exemplares de inscrições funerárias ao redor da Gardunha provenientes de Castelo Novo, Alpedrinha, Donas, Souto da Casa, Vale de Prazeres e até do Fundão, estando a maior parte delas no museu arqueológico da sede do concelho. 

Um dos exemplares mais conhecidos é o da lápide que se encontra encastrada no exterior da igreja de São Pedro, no Souto da Casa, e cuja importância e antiguidade passam despercebidas a quem por ali transita. Trata-se de uma lápide que se destinaria a ser colocada na fachada de um jazigo familiar e refere três elementos de uma família de ex-escravos: pai, mãe e filha.  

É claro que nem todas as inscrições romanas encontradas na região são funerárias. Muitas das aras encontradas nos últimos anos são votivas, ou seja, eram oferendas aos deuses, pertencessem eles ao panteão romano ou não, uma vez que após a conquista romana e apesar de as populações terem abraçado os costumes dos invasores latinos, as divindades indígenas continuaram ainda assim a ser veneradas. Muitas vezes até os próprios romanos aderiam a esse culto em paralelo ao seu.

Altar dedicado a Apolo que até ao último Verão se encontrava numa casa do Casal de Santa Maria, freguesia do Telhado (ver aqui)

As aras destinavam-se a retribuir ou solicitar uma dádiva aos deuses, por vezes até a mais que um ao mesmo tempo. A pedra e a inscrição que nela era gravada não eram mais que o materializar e eternizar desse pacto estabelecido entre o mundo terreno e o divino. Este comportamento tem eco ainda hoje no cristianismo, naquilo que se designa comumente por “promessas” e que é a expressão de um certo nível de politeísmo dentro do suposto monoteísmo desta religião. Vemos esse princípio aplicado quando um crente promete oferecer algo a um santo da sua escolha em troca de uma dádiva.

Depois de gravadas, as aras eram colocadas em local de culto. Muitas delas, têm até esculpida uma concavidade na sua parte superior, o fóculo, que era o local onde eram queimadas essências ou feitas libações aos deuses. Embora hoje as vejamos como blocos monocromáticos, teriam originalmente um aspecto bem diferente, com letras e decorações pintadas.



Reconstiuição hipotética e subjectiva do aspecto original da ara, apenas para dar uma ideia do tipo de cores e do quão diferente seria originalmente.


O mesmo princípio se aplica a estátuas e edifícios. Hoje vemo-los como construções de mármore, granito ou calcário apenas com a cor do material de que são feitos mas, na verdade, na sua época de construção eram bem diferntes, decorados com uma palete de cores fortes e chamativas.

Voltando à ara que é o mote deste artigo, há ainda um longo caminho a percorrer para responder a todas as perguntas que a sua descoberta coloca e é possível que nunca se venham a ter as respostas todas. Para já, o que se sabe é que, há cerca de 2.000 anos atrás e num acto destinado à eternidade, o nome de uma mulher foi gravado em pedra. Hoje, passado todo esse tempo e nada conhecendo dessa mulher a não ser o seu nome, cá estamos nós a ajudar a perpetuar a sua memória. 

sexta-feira, junho 01, 2018

Liêge depois do tiroteio

Café Augustin. Foi diante deste café que tombaram as 3 vítimas mortais


O autocarro pára no semáforo. As conversas tornam-se subitamente num murmúrio, enquanto todos os passageiros olham e apontam para o mesmo ponto no exterior. É o “Café Augustin”, na esquina da rua do mesmo nome com o Boulevard de Avroy. Foi à porta deste café que, na passada Terça-feira, Benjamin Herman abateu 3 pessoas: duas agentes da polícia e um jovem estudante.

É o assunto do momento e ninguém lhe fica indiferente, embora esteja longe de ser tão traumatizante como o massacre do mercado de Natal em 2011. Ainda assim todos comentam e todos fazem a mesma pergunta: como foi possível o sistema ter falhado a este ponto? Afinal, este cidadão belga com largo cadastro criminal, estava na sua 14ª saída precária de uma pena de prisão que deveria terminar em 2020.

Na prisão, aproximou-se de radicais islâmicos e ele próprio se converteu e se radicalizou. Era pois uma questão de tempo. Assim, na sua última saída precária de 2 dias, cometeu um assalto, assassinou o seu cúmplice no mesmo e dirigiu-se na manhã de Terça-feira para Liège onde abateu 3 pessoas e feriu outras 4.

O espaço à entrada do café é agora um memorial onde as 3 vítimas mortais são homenageadas. Entre os inúmeros ramos e mensagens, percebem-se algumas mensagens de turmas do liceu Léhonie Waha que fica ali ao lado. Foi a escola que o criminoso invadiu e onde fez refém uma auxiliar de serviço que, nesta história trágica, acabou por ser a heroína de serviço.

Ao ver as pessoas a correr na rua e a gritar, esta mulher de origem marroquina preocupou-se em primeiro lugar em trancar todas as portas que levavam do hall de entrada da escola às salas de aula e ao pátio interior. Foi quando se virou para trás e se deparou com o atirador. Estava sozinha com ele. Foi nesta altura que este lhe colocou duas perguntas: “És muçulmana? Praticas o Ramadão?”. Foi a resposta afirmativa a ambas que salvou a vida a Darifa.

Entretanto, no pátio surgiam alguns professores que tentavam perceber o que se passava. Darifa fez-lhes gestos para se esconderem e depois, no desespero do momento, conseguiu ter sangue-frio suficiente para demover o atacante de tentar entrar na escola e propôs-lhe que saíssem ambos para a rua. –“Isto é uma escola. Não tens nada que estar aqui.”. Após longos minutos, Benjamin decidiu finalmente sair e saiu a disparar. Uma mancha escura no passeio indica o local onde a irracionalidade se silenciou.



quarta-feira, maio 30, 2018

O "não" à Eutanásia e a legitimidade que nos assiste

A discussão durante os últimos dias foi intensa e ontem, finalmente, a proposta de despenalização da eutanásia, ou melhor, as 4 propostas foram a votos na Assembleia da República, sendo que a proposta do PS foi reprovada por apenas 5 votos. Este resultado acaba por ser surpreendente, especialmente tendo em conta a posição do Partido Comunista que votou contra.

Resultado da votação para cada proposta (o documento de cada proposta está disponível no link):

PAN (link) 102 a favor, 116 contra, 11 abstenções
PS (link) 110 a favor, 115 contra, 4 abstenções
BE (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções
PEV (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções

Dizem aqueles que eram contra a despenalização, que este resultado mostra que a sociedade portuguesa não quer a eutanásia. É uma completa falácia. A sociedade portuguesa está representada no parlamento por interposta pessoa e, nesta matéria em particular, aquilo a que se assistiu foi a uma expressão das convicções morais pessoais de cada deputado, quando lhes foi dada essa liberdade pelos seus partidos pois, de outro modo, valeu a vontade dos partidos. 

Para a sociedade portuguesa ser ouvida, esta questão deveria ter sido referendada mas, como li algures, “a sociedade portuguesa ainda não tem maturidade para discutir este tipo de questões”. Esclarecedor e contraditório. Portanto, 

Fiquei triste por este resultado pois assumo-me como sendo a favor da eutanásia e do suicídio medicamente assistido, que são práticas diferentes com o mesmo objectivo de antecipar a morte. No entanto, também defendo que o Estado não se pode nunca demitir da sua função social e é da sua responsabilidade fazer com que o desespero e o sofrimento possam ser atenuados de tal forma que o recurso à antecipação da morte seja uma via o menos desejável possível. Isso passa por uma aposta clara no reforço dos cuidados paliativos, algo que até agora não tem acontecido. Aliás - suprema ironia! -, muitos dos que agora exigem o reforço nesta vertente de cuidados hospitalares, são os mesmos que, há uns tempos atrás, promoveram cortes drásticos no financiamento do nosso sistema de saúde. 

Há também muito para dizer sobre as campanhas e discussões que se desenrolaram até ao dia de ontem. Quer-me parecer que muita gente não percebeu exactamente o que estava em causa nem compreendeu o que era isto da eutanásia. Parecia haver pessoas convencidas de que, com a aprovação da eutanásia, se iria assistir ao abater sistemático de doentes pelo país fora ou, no mínimo, que esta iria passar a ser uma prática médica do quotidiano das unidades de saúde. 

Isto também terá sido promovido pelo tom e argumentos de certas campanhas que pareciam apostar claramente na propagação do medo e da desinformação em proveito daquilo que defendiam, o que aliás é uma prática recorrente. Frases como “A eutanásia mata!” acompanhada de uma imagem lúgubre e “Por favor não matem os velhinhos” no cartaz de uma das pessoas que ontem se manifestaram diante do Parlamento, são claros indicadores do nível de esclarecimento que foi promovido.


Exemplo de campanha falaciosa e de desonestidade intelectual. A mensagem que se procura passar é que a eutanásia pode vir a ser uma imposição que não depende da vontade expressa de cada um. Lutar contra a eutanásia torna-se pois uma luta pela própria sobrevivência. 


Houve até uma subtil campanha que traçou um paralelo entre esta eutanásia e o abate de animais em canis, como se estas realidades pudessem sequer ser comparáveis. 

Clamou-se pelo respeito pela vida, alegou-se que toda a vida é sagrada, que tirar vidas é errado. Desconsiderou-se algo que estava aqui em causa que era o direito a uma morte digna e o respeito por uma decisão pessoal que apenas diz respeito a quem a toma.

Tentemos colocar-nos na pele de alguém que, acamado e totalmente dependente, sofre de uma doença incurável e com sintomas que se traduzem num sofrimento contínuo que lhe condiciona totalmente toda e qualquer interacção com o mundo ao seu redor. Vai definhando aos poucos, nesta lenta agonia, sob o olhar da sua família que irá guardar esta visão como a última recordação do seu ente querido.

O desespero e o sofrimento, que nada consegue atenuar, são tais que o alívio da morte se afigura como a única solução viável para lhe pôr cobro. A pessoa não quer sofrer mais e não quer que a família partilhe do seu sofrimento. Pede para morrer, para partir com tranquilidade e com dignidade.

Que moralidade tenho eu, que nem tenho ideia do que ele sofre, para lhe vedar essa opção? Que legitimidade tenho eu para lhe dizer Não, meu caro. Eu acho que todas as vidas são sagradas e toda as vidas devem ser salvaguardadas por isso aguenta e continua a sofrer. A tua dignidade está salvaguardada pela recordação que os teus familiares têm de como tu eras antes de ficares nesse estado. Não gosto de te ver sofrer mas não tens outro remédio. Agora fica aí e aguenta-te enquanto eu vou lá para fora ver as montas, beber copos com os amigos e viver a minha vidinha tranquilamente. Ainda por cima não tenho de suportar a visão de ti nesse estado.

Outra pergunta que eu faço é se alguém se deu sequer ao trabalho de ler as propostas de lei ou se se limitaram a ler os títulos das notícias partilhadas com frases fortes nas redes sociais. O passado recente faz-me suspeitar que se tratou sobretudo do 2º caso.

Ora, o que as propostas de lei diziam é que a eutanásia teria de ser uma decisão do próprio e que essa decisão teria de ser consciente, isto é, teria de ser uma decisão actual, séria, livre e esclarecida:


Por outro lado, a aceitação do pedido teria de seguir um processo de avaliação clínica implicando o parecer de um médico orientar, de um especialista na doença de que padeceria o doente e no parecer de um especialista em psiquiatria. Se todos os pareceres fossem positivos, então o processo seguiria para uma Comissão de Verificação e Avaliação a quem caberia depois a decisão final.

Poderá haver ainda alterações a fazer mas este modelo, parece-me, impediria decisões e acções tomadas com demasiada ligeireza. Por outro lado, havendo já países em que a eutanásia é legal, é sempre possível analisar essas realidades de forma a avaliar e corrigir as suas fragilidades.

Para já, a eutanásia foi colocada na gaveta, provavelmente até às próximas eleições legislativas de 2019. O ardor do debate sobre este tema vai também diluir-se, assim como a vontade manifestada por inúmeros cidadãos e grupos políticos em reforçar o investimento em cuidados paliativos como alternativa moralmente correcta à eutanásia.

Por enquanto, resta aos doentes em sofrimento aguentar-se, à espera que lhes proporcionem uma solução que resolva o seu sofrimento, seja ela qual for.

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