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quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Para se integrar, jovem sírio convida desconhecidos a jantar em sua casa


Tem 30 anos e é natural da cidade de Alepo. Rami é um refugiado sírio que fugiu do seu país e se instalou em Liège na Bélgica. Procurando integrar-se na sociedade e conhecer pessoas, Rami lançou uma página no Facebook na qual, semanalmente, convidava 10 pessoas a ir jantar a sua casa, para provar pratos típicos da Síria.

A iniciativa teve sucesso e a página rapidamente chegou aos 1.000 likes. Infelizmente, a ameaça de controlos por parte da AFSCA, a ASAE belga, levaram a melhor e Rami acabou por fechar a sua página e desistir da iniciativa embora, como referiu, não tivesse nenhum propósito comercial. Fica o gesto.

sexta-feira, agosto 17, 2018

A cidade de Dinant, entre o belo e o surreal

Vista do centro da cidade de Dinant. Na margem oposta, a margem esquerda do Mosa, é possível ver a "Maison Leffe", que alberga o museu desta conhecida cerveja de abadia belga. Em primeiro plano, a torre sineira da Igreja de Nossa Senhora de Dinant.



Dinant é uma cidade encravada num vale cavado do rio Mosa, esticando-se ao longo das margens do rio e respectivos afluentes. Esta pequena cidade tem uma história milenar que começa entre o fim da Antiguidade e o início da Idade Média, tendo feito parte do Principado de Liège como cidade fronteiriça. Os domínios dos arqui-rivais do Principado, os Duques de Borgonha, começavam logo na margem oposta do rio Mosa, facto que sempre gerou inúmeras e até trágicos conflitos.

A cidade tornou-se célebre pela mestria do trabalho em latão e cobre pelos seus artesãos, facto que fez da cidade uma povoação riquíssima, mas este estado de graça chegou ao fim quando os "dinandiers" decidiram provocar o Duque de Borgonha e, pela calada da noite, foram à margem oposta deixar uma efígie enforcada do filho do duque. Sabendo como esta malta de sangue azul se melindra com mau gosto da ralé, foi muito má ideia. 

Não só Dinant foi cercada por Carlos o Temerário, o herdeiro do Duque, como a cidade foi totalmente incendiada e a população, a que não foi morta nos combates ou executada no rescaldo, foi obrigada a mudar-se. Acabaria no entanto por voltar, anos mais tarde, recuperando um pouco do passado glorioso da cidade, embora longe do fulgor de então.

Ainda houve mais uns quantos cercos e a cidade ainda sofreu muito nos séculos que se seguiram mas foi preciso esperar até ao século XX para que a dimensão da tragédia fosse de novo terrível. Foi em Agosto de 1914, cerca de duas semanas após a invasão da Bélgica, quando os exércitos alemães finalmente chegaram a Dinant. A defesa da cidade tinha sido confiada aos exércitos franceses (entre uns quais um jovem oficial chamado Charles de Gaulle), que aqui foram resistindo durante duas semanas às sucessivas investidas germânicas. A 23 de Agosto os alemães tomaram finalmente Dinant e em atitude de represália executaram sumariamente quase 700 civis (o mais novo tinha 3 anos, o mais velho 88) e deportaram mais de 400. 


A fortaleza holandesa do século XIX, a igreja colegial e a ponte Charles de Gaulle, assim chamada por o futuro presidente francês aqui ter sido ferido durante os combates de Agosto de 1914. A grande torre sineira com bolbo (século XVI) destinava-se inicialmente a ser construida sobre a ponte mas os receios de que esta não suportasse o peso da estrutura levaram a que fosse construída sobre a igreja colegial.



Vale a pena subir até à fortaleza, seja pela escadaria íngreme ou pelo teleférico, pois a vista é magnífica. Contudo, um dos sítios que tornam a visita inesquecível fica precisamente dentro da estrutura: trata-se do abrigo desmoronado, um abrigo de combate que tombou por inteiro durante os bombardeamentos mais recentes. O resultado é um espaço que provoca desorientação e falta de equilíbrio pela informação visual enganadora que captamos. 



Para além da sua história e dos seus monumentos, entre os quais a fortaleza holandesa do século XIX e a igreja colegial são ex-libris, Dinant é também conhecida por ser o local de nascimento de Adolphe Sax, o inventor do saxofone que está omnipresente na estatuária pelas ruas da cidade. É também aqui que se produz a Leffe, numa antiga abadia junto ao curso de água com esse nome, uma das mais conhecidas cervejas belgas.


O interior da igreja colegial de Nossa Senhora de Dinant, um templo gótico que alberga as relíquias de São Perpétuo, padroeiro da cidade.



Estátua e museu de Adolphe Sax, inventor do saxofone, na rua Sax


Por sorte, visitei Dinant no dia 15 de Agosto, um dia que é marcado por muitas e rijas festas pela Bélgica. Não só encontrei uma enorme feira tipo Feira da Ladra pelas ruas principais da cidade, numa e noutra margem do Mosa, como ainda pude assistir à "Regata das Banheiras" anual, um cortejo de jangadas alegóricas pelo rio no qual os cidadãos podem dar largas à sua imaginação.

O resultado é este:

















segunda-feira, julho 16, 2018

14 de Julho, Dia Nacional de França... na Bélgica

Liège, 14 de Julho de 2018

Liège, ou melhor dizendo a Valónia, tem uma ligação muito estreita com a França. É a consequência de uma História feita de proximidade, especialmente do período da Revolução Francesa que teve eco na chamada Revolução de Liège que, não só pôs termo ao Principado de Liège governado pelos príncipes-bispos, como ainda resultou na integração do seu território na França, com o nome de Departamento do Ourte (do nome do 2º maior rio da região: o Ourthe já que em França já existia um departamento do Mosa). De salientar que esta integração foi decidida por voto popular em 1793.


Espaço para publicação de editais públicos do Departamento do Ourte.


Devido a essa proximidade, o 14 de Julho, o dia nacional de França, é celebrado em Liège com pompa e circunstância com um grande fogo de artificio seguido de um grande arraial com música, comes e bebes à beira do Mosa, onde as bandeiras francesas se destacam.

Desta vez contudo, parece que o ânimo para a festa não era muito, quiçá devido à desilusão nacional que foi a derrota da selecção belga de futebol diante da França alguns dias antes. Isso foi visível quando, numa pausa do fogo de artifício, uma rapariga que passava gritou "Viva a França! Vivam os franceses!" e a resposta ter sido o silêncio absoluto quebrado aqui e ali por um comentário menos simpático ou uma gargalhada perante o atrevimento.


Um encontro com um clube de Castelo Branco

Seja como for, festa é festa e, sendo assim, o arraial encheu-se para o concerto que se seguiu ao fogo de artifício. Ora, coincidência das coincidências, dei de caras com um grupo de dezenas de jovens ginastas com t-shirts a dizer "Portugal". Pedido de esclarecimento atendido, fiquei a saber que se tratava de parte da representação portuguesa no Eurogym, um meeting bianual de ginástica para ginastas com idades entre os 12 e os 18 anos, que decorre esta semana em Liège, mas o mais curioso é que neste grupo estava representado o Albi Gym, de Castelo Branco, sendo que a responsável com que falei era fundanense. Para a edição deste ano são esperados cerca de 5000 jovens, sendo que Portugal é o país com a maior representação: cerca de 600 jovens atletas.

sexta-feira, junho 01, 2018

Liêge depois do tiroteio

Café Augustin. Foi diante deste café que tombaram as 3 vítimas mortais


O autocarro pára no semáforo. As conversas tornam-se subitamente num murmúrio, enquanto todos os passageiros olham e apontam para o mesmo ponto no exterior. É o “Café Augustin”, na esquina da rua do mesmo nome com o Boulevard de Avroy. Foi à porta deste café que, na passada Terça-feira, Benjamin Herman abateu 3 pessoas: duas agentes da polícia e um jovem estudante.

É o assunto do momento e ninguém lhe fica indiferente, embora esteja longe de ser tão traumatizante como o massacre do mercado de Natal em 2011. Ainda assim todos comentam e todos fazem a mesma pergunta: como foi possível o sistema ter falhado a este ponto? Afinal, este cidadão belga com largo cadastro criminal, estava na sua 14ª saída precária de uma pena de prisão que deveria terminar em 2020.

Na prisão, aproximou-se de radicais islâmicos e ele próprio se converteu e se radicalizou. Era pois uma questão de tempo. Assim, na sua última saída precária de 2 dias, cometeu um assalto, assassinou o seu cúmplice no mesmo e dirigiu-se na manhã de Terça-feira para Liège onde abateu 3 pessoas e feriu outras 4.

O espaço à entrada do café é agora um memorial onde as 3 vítimas mortais são homenageadas. Entre os inúmeros ramos e mensagens, percebem-se algumas mensagens de turmas do liceu Léhonie Waha que fica ali ao lado. Foi a escola que o criminoso invadiu e onde fez refém uma auxiliar de serviço que, nesta história trágica, acabou por ser a heroína de serviço.

Ao ver as pessoas a correr na rua e a gritar, esta mulher de origem marroquina preocupou-se em primeiro lugar em trancar todas as portas que levavam do hall de entrada da escola às salas de aula e ao pátio interior. Foi quando se virou para trás e se deparou com o atirador. Estava sozinha com ele. Foi nesta altura que este lhe colocou duas perguntas: “És muçulmana? Praticas o Ramadão?”. Foi a resposta afirmativa a ambas que salvou a vida a Darifa.

Entretanto, no pátio surgiam alguns professores que tentavam perceber o que se passava. Darifa fez-lhes gestos para se esconderem e depois, no desespero do momento, conseguiu ter sangue-frio suficiente para demover o atacante de tentar entrar na escola e propôs-lhe que saíssem ambos para a rua. –“Isto é uma escola. Não tens nada que estar aqui.”. Após longos minutos, Benjamin decidiu finalmente sair e saiu a disparar. Uma mancha escura no passeio indica o local onde a irracionalidade se silenciou.



segunda-feira, abril 23, 2018

A controvérsia das podas radicais também na Bélgica

De há uns anos a esta parte, tornou-se frequente ver árvores na via pública que foram alvo de uma poda dita "radical".  Trata-se de uma intervenção que bem se poderia chamar poda à Luís XVI, uma vez que as árvores são pura e simplesmente decapitadas e as consequências não são meramente estéticas.

Este tipo de prática coloca em risco a própria sobrevivência das árvores, que são obrigadas a recorrer a todas as suas reservas energéticas e nutrientes que puderem obter para conseguir recuperar o seu vigor. Se a árvore não tiver acesso a essas fontes de energia fatalmente morre. Temos muitos exemplos disso no Fundão e ao redor e a prática tem gerado alguma contestação e não é só em Portugal.

Árvore junto à N238 em 2004


A mesma árvore alvo de poda radical em 2009. A árvore acabou por morrer, juntamente com outra de porte idêntico mesmo ao lado.


Há dias, ao passear por alguns parques da cidade belga de Liège, deparei-me com algumas ávores mortas que, ainda assim, tinham sido deixadas de pé no seu local de sempre. A razão para tal é o facto de, agora que estavam mortas, serem a base para todo um novo eco-sistema saprófita (organismos que se alimentam de madeira morta).


Uma delas chamou-me particularmente a atenção. Tratava-se de uma árvore cujo perímetro tinha sido delimitado por uma cerca e junto à qual se encontrava um painel informativo dizia o seguinte:




"Árvore morta de interesse biológico

Esta árvore morta ainda de pé serve de substrato para o desenvolvimento do complexo saprófita (musgos, fungos e insectos que decompõem a madeira para se alimentarem dela).

A árvore foi sumariamente podada para indicar que não se tratou de um esquecimento dos serviços técnicos comunais NEM DE UMA PODA RADICAL"

Sobressai aqui a preocupação em fazer saber que a árvore não morreu em resultado de uma poda radical. 

segunda-feira, abril 09, 2018

A trágica história do forte de Loncin


A entrada do forte de Loncin. A destruição das casamatas da entrada é apenas um prenúncio do que se encontra no interior.



Monumento aos mortos que ficaram sepultados no interior do forte.



A tranquilidade da paisagem que hoje rodeia as ruínas do forte de Loncin contrasta com a história pesada e trágica do local. Este forte, situado a cerca de 7km do centro de Liège, foi um dos 12 fortes  construídos em 1888 para formar a posição fortificada de Liège, formando um círculo de protecção ao redor da cidade (recordar aqui). 

Esta posição fortificada fazia parte da estratégia nacional belga, posta em prática após o conflito Franco-Prussiano de 1870, para assegurar a inviolabilidade do seu estatuto de neutralidade em caso de novo conflito entre os seus vizinhos.  Assim, a posição fortificada de Antuérpia fechava a entrada a tropas vindas de Inglaterra, a cintura de Namur trancava a fronteira com a França enquanto Liège dissuadia qualquer avanço vindo da Alemanha. 

Com o início da I Guerra Mundial a 28 de Julho de 1914, a Bélgica começou a preparar a sua defesa. À volta dos fortes e num raio de 600m, as sebes e as árvores foram cortadas e as casas foram destruídas, tudo com o objectivo de criar uma zona de total visibilidade que também não oferecesse abrigo ao inimigo. Linhas telefónicas foram entretanto colocadas entre os fortes e as torres de igreja mais próximas que iriam servir de postos de observação.  

A 2 de Agosto, alegando que a França se preparava para atravessar o território belga para a atacar, a Alemanha enviou um ultimato à Bélgica exigindo a autorização de passagem dos exércitos alemães para atacar a França. Perante a recusa do rei Alberto 1º, a Alemanha declarou então guerra à Bélgica e a invasão teve início a 4 de Agosto. 

A inesperada resistência belga, protagonizada pelos fortes, obrigou os alemães a triplicar as tropas envolvidas e a trazer a sua artilharia mais pesada a partir de 10 de Agosto. Foi aqui que as coisas se precipitaram. Um a um, os fortes belgas foram caindo. Construídos em betão simples, não armado, estavam preparados para resistir a obuses de até 210mm, os maiores conhecidos em 1888, mas não aos de 420mm que os novos canhões alemães, os famosos "Grande Bertha", conseguiam disparar. 

O obus de 420mm, em cima do seu cartucho. O projéctil de 800kg era disparado numa trajectória pronunciada que podia levá-lo a abater-se sobre o seu alvo após uma queda livre de 2km.

Por outro lado, havia erros de concepção nos fortes. Em caso de bombardeamento cerrado, as latrinas, cozinha, padaria e talho ficavam inacessíveis já que por questão de orçamento não tinha sido construído um acesso coberto as estas instalações situadas na contra-escarpa. Isto, juntamente com a falta de sistemas de ventilação (excepto em Loncin), fez com que o agravamento das condições sanitárias dentro dos fortes precipitasse a sua rendição.


O ataque ao forte de Loncin

Cúpula de artilharia de canhão duplo de 120mm

O forte de Loncin foi construído em forma de triângulo isósceles, com a base com 300m de comprimento. O corpo central do conjunto, a zona das torres de artilharia, estava rodeado por um fosso de 8 metros de largo e 4 de altura e na contra-escarpa do forte, em cada ângulo, possuía casamatas equipadas com canhões de 57mm para defesa de proximidade contra infantaria, tivesse o inimigo conseguido invadir o fosso. Para esse efeito, havia munições anti-infantaria, com projécteis cujo invólucro se desfazia após o disparo, libertando inúmeras esferas de chumbo que se espalhavam e varriam a infantaria inimiga. 


Maquete do forte de Loncin. É visível a forma triangular do forte e o seu maciço central em betão, com as cúpulas de artilharia. As de canhões de 57mm para defesa em proximidade e as de maior calibre para atingir objectivos a um máximo de 8,5km. Entre a entrada e a cúpula central de 150mm situava-se a posição do farol, capaz de iluminar a paisagem numa distância de até 3km. Imagem obtida aqui


Ângulo do fosso. Ao centro situa-se o corpo principal do forte, contendo casernas, paióis e posições de tiro. À direita, na contra-escarpa de entrada, situavam-se as instalações sanitárias, padaria, etc. 

Situado numa posição estratégica, controlando a estrada e o caminho-de-ferro que levavam a Bruxelas, o forte de Loncin era também um dos 6 maiores fortes de Liège e o mais avançado. Para além de ser comandado por um oficial por quem os soldados tinham uma admiração e obediência cegas, foi para aqui que o comando da posição fortificada de Liège se retirou nos primeiros dias da batalha. Loncin começou a ser atacado a partir do dia 7 de Agosto mas antes, o comandante do forte reuniu todos os seus 530 homens no fosso da entrada e fê-los jurar que se bateriam até ao último homem

O forte foi resistindo mas, com a queda dos outros fortes, começou a concentrar sobre si o grosso dos tiros da artilharia alemã. Tendo perdido todos os seus postos de observação e sem comunicação com o resto das forças belgas, o forte começou a sofrer aquele que viria a ser o bombardeamento final às 16h do dia 14 de Agosto e que despejaria sobre Loncin cerca de 15.000 obuses

Aos poucos, os soldados tiveram de se refugiar cada vez mais no interior do forte. Para piorar a situação, o gerador eléctrico avariou devido à obstrução da chaminé e, para além da falta de iluminação, a partir daí assegurada por modestos candeeiros de petróleo que se apagavam com as trepidações das explosões, o ar começou a tornar-se irrespirável. Em consequência disso, numa das casamatas de protecção do fosso, todos os soldados que aí operavam um canhão de 57mm morreram asfixiados após receberem ordens para não arredarem pé, perante a iminência do avanço da infantaria alemã. 


O interior da galeria principal do forte, onde os soldados se refugiaram à espera do ataque final alemão. Ao fundo, vê-se o início da secção que colapsou às 17h20 do dia 15 de Agosto.

Foi finalmente às 17h20, hora que ficou terrivelmente marcada na memória local, que um obus de 420mm, disparado a cerca de 8km de distância, trespassou a couraça já danificada do forte e se enfiou num dos paióis do forte, fazendo explodir as 12 toneladas de explosivos aí armazenadas. A explosão arrasou o forte, matando instantaneamente 350 homens e fazendo até saltar as cúpulas de artilharia do seu sítio. Os poucos soldados que conseguiram sair, concentraram-se no fosso, junto à casamata da cabeça, onde montaram uma última resistência até serem abatidos pela infantaria alemã que finalmente tinha avançado. 

O resultado da explosão do paiol. Neste local uma placa assinala o local de sepultamento de 250 soldados nunca recuperados.


O interior da casamata de protecção do fosso de entrada e o local onde o sub-oficial Albrecht e os seus homens morreram asfixiados pelos gases das explosões. A abertura inferior era aquela onde se encontrava o canhão de 57mm. A abertura superior destinava-se a permitir a entrada de ar mas não se previu que o ar exterior pudesse estar tão viciado. As fendas são o resultado da explosão do paiol.

Uma das cúpulas de artilharia de 210mm, a de maior calibre do forte, saltou do seu lugar devido ao sopro da explosão nas galerias do forte e ficou virada ao contrário. O que se vê na imagem é na verdade a estrutura interna da cúpula e a abertura por onde os obuses era carregados no canhão.

Os feridos que foram capturados e tratados pelos alemães, acabaram por receber destes um tratamento de profundo respeito, em reconhecimento pela forma valiosa como se tinham batido. O comandante das forças alemãs, por exemplo, fez questão de ir visitar o comandante do forte de Loncin ao hospital onde este recuperava dos ferimentos para o saudar.


O que resta

Actualmente o forte é gerido por uma associação sem fins lucrativos que aí organiza visitas guiadas. É esta associação que também gere o museu e adaptou as galerias não danificadas do forte para serem visitáveis. Tive ontem o privilégio de ser conduzido pelo Pierre, alguém que, conforme me confidenciou, começou por ser apenas um visitante do forte mas se sentiu de tal maneira ligado ao local que acabou por se tornar guia voluntário. Certo é que ao longo de mais de 2h30 me conseguiu manter interessado e até fascinado pelos relatos de todos os episódios que facilmente consegue situar no espaço do forte. 

O meu esmerado guia, diante da entrada do forte de Loncin que conserva ainda marcas bem visíveis do bombardeamento alemão. Atrás, na galeria de acesso, a protecção era reforçada por meio de uma ponte amovível que deslizava lateralmente, deixando aberto um fosso de 4m de profundidade.


A necrópole de Loncin, onde dezenas de soldados estão sepultados. Muitos deles tinham sido honrosamente enterrados pelos alemães num cemitério fora do forte, no preciso local onde hoje se situa o estacionamento dos visitantes.

O forte foi entretanto elevado a Necrópole Nacional e a casamata de cabeça do forte foi transformada em cripta, tendo aí sido inumados os restos mortais dos soldados entretanto encontrados, algo que ainda está longe de ter terminado uma vez que que, ainda em 2007, uma operação de desminagem levada a cabo pelo Exército permitiu retirar dos escombros não só 3500 obuses mas também os restos de 25 soldados, dos quais 4 foram identificados. Todos foram transferidos para a cripta. Muitos capítulos da história deste forte ainda estão em aberto.  

quarta-feira, março 28, 2018

O museu subterrâneo de Liège

Praça de São Lamberto, o coração de Liège. Hoje coexistem aqui o impressionante palácio dos Príncipes-Bispos, uma estação de autocarros e, do lado oposto da praça, um centro comercial. No centro, várias colunas metálicas evocam a desaparecida catedral de São Lamberto e sob a praça esconde-se o Archeoforum.



Muitos daqueles que hoje atravessam a Praça de Saint Lambert, situada no centro de Liège e dominada pelo imponente palácio dos Príncipes-Bispos, estão longe de adivinhar que sob o pavimento deste lugar se esconde praticamente toda a história da cidade

Para lá da entrada algo discreta e descendo uma série de degraus, entramos no Archeoforum, um museu subterrâneo que nos conta de maneira singular a história de Liège, desde a Pré-História, quando o espaço da actual cidade era uma larga planície pantanosa, onde o hoje desaparecido rio Legia se encontrava com os múltiplos braços do rio Mosa. Antes de falarmos no Archeoforum convém no entanto conhecer um pouco da história da cidade.


A entrada do Archeoforum


Ao lado da entrada do Archeoforum, encontra-se o memorial das vítimas do atentado no Mercado de Natal de 2011 (ver aqui)



A turbulenta história de Liège



Sabe-se pelos vestígios encontrados no local que houve presença humana desde o Paleolítico. Certamente, grupos de humanos terão aqui vindo para caçar os animais que faziam parte da vasta biodiversidade local.

É no entanto da época romana que se conhecem os vestígios de uma presença humana permanente, embora modesta, na forma de grande edifício rectangular com termas, talvez parte de uma villa. Em torno desta fixaram-se gradualmente mais habitantes, gerando um pequeno aglomerado até que, por volta do ano 700, se deu um evento que iria para sempre marcar o destino de Liège: o assassinato de São Lamberto, bispo de Maastricht.

Vendo que os fiéis vinham em grande número prestar homenagem e rezar no local onde Lamberto fora assassinado, o seu sucessor ordenou a construção de uma igreja no local, para aí serem colocados os restos mortais de Lamberto. Numa prova de que o negócio da fé é um negócio bem rentável, as sistemáticas peregrinações a este local vieram contribuir para que o pequeno núcleo de casas fosse gradualmente crescendo, até se transformar numa grande cidade.

Apesar de ter sido saqueada duas vezes pelos vikings e, como se não bastasse, ainda tivesse sofrido um raide húngaro, a cidade prosperou e tornou-se sede de bispado e um importante centro religioso e cultural, tanto que chegou a ser apelidada de Atenas do Norte. No século X, Liège torna-se capital de um principado independente, governado pelos bispos, mantendo no entanto a sua ligação ao Sacro Império Romano Germânico. A igreja de São Lamberto, agora com o palácio dos príncipes-bispos como vizinho, vai evoluir para uma grande catedral gótica no século XII.

A história do principado não foi sempre pacífica. Um bom exemplo disso foi o que sucedeu no século XV quando, num conflito criado pela sucessão do príncipe-bispo, a população da cidade escorraçou o bispo que tinha sido colocado no trono pelos pouco simpáticos vizinhos Borgonheses. O Duque de Borgonha, Carlos o Temerário, não ficou muito agradado e, por conseguinte, atacou e arrasou a cidade, deixando apenas as igrejas de pé. No entanto, em jeito de compensação, mandou fazer um relicário com a sua imagem, segurando uma cápsula onde foi guardado um osso da mão de São Lamberto. A cidade sobreviveu no entanto a esta tragédia e alguns anos depois voltou a recuperar o seu fulgor.

O principado chegaria ao fim com a Revolução Francesa, com eco em Liège onde a população abraçou de forma entusiástica os ideais revolucionários. No decorrer da chamada Revolução de Liège, a população atacou o palácio dos príncipes-bispos e arrasou a catedral. Liège, com o seu território, foi integrada no novo departamento francês do Ourthe. Após o período napoleónico, Liège passou a fazer parte da Holanda até que, pouco tempo depois, se tornou parte da Bélgica independente.


O Archeoforum, da Pré-História ao século XX


São os vestígios desta longa história que se encontram no Archeoforum que, para além do museu, que contém um espaço para exposições temporárias e sala de eventos, é também um estaleiro de pesquisas arqueológicas ainda em curso.

As primeiras descobertas foram feitas no início do século XX, durante a abertura de valas para trabalhos de saneamento. Os vestígios foram preservados e, desde então, as investigações ainda não terminaram.



Alguns objectos avulsos junto a uma fotografia das primeiras escavações arqueológicas na Praça. O aspecto de estaleiro do museu salta logo à vista.



Galeria com ilustrações que mostram o desenvolvimento de Liège ao longo do tempo



As estruturas postas a descoberto, os muros do edifício romano, o local onde Lamberto terá sido assassinado e a imponente catedral gótica arrasada em 1789, podem aqui ser admiradas. A baixa altura do tecto, que obriga os visitantes a ter cuidado em algumas passagens, foi aproveitada para aí instalar luzes coloridas que ajudam a distinguir os diferentes muros. Por exemplo, os muros romanos são assinalados a vermelho, enquanto que a catedral gótica está identificada a azul.



As luzes vermelhas seguem e assinalam o alinhamento dos muros romanos. As luzes verdes marcam a localização das construções da catedral românica dos séculos X/XI



Ao longo do percurso, devidamente explicado pelo livro-guia ou iPad entregues na recepção, encontram-se vitrinas com alguns do objectos exumados nesse local.




De forma a transmitir a noção de que a História é algo que não se resume ao estudo do passado, os vestígios expostos vão desde o Paleolítico até ao século XX. Tem-se assim a clara noção de que a musealização da História não se deve restringir de forma redutora a cronologias recuadas mas, pelo contrário, deve pôr em evidência a continuidade temporal que liga aquilo que é hoje a nossa realidade com o passado mais remoto, estabelecendo de forma clara uma ligação identitária.

O preço de entrada é de apenas 7€ e digo apenas porque, para além da visita ao Archeoforum, com um pequeno livro-guia de oferta (não o iPad, infelizmente), o bilhete ainda permite aos visitantes visitar o tesouro da catedral de São Paulo, a igreja que substituiu a catedral de São Lamberto como sede de bispado de Liège. Vale bem a pena.



São Lamberto, o santo guardado em pedaços


Perto daqui, na Catedral actual, a Igreja de São Paulo, cuja torre sineira foi construída no século XIX com materiais da torre destruída da catedral primitiva, encontram-se os restos mortais de São Lamberto dispersos em vários recipientes. Desde a arca que "contém a maior parte" do santo, segundo um guia local, até ao famoso relicário de Carlos o Temerário, que contém uma falange, e o impressionante busto-relicário que contém parte do crânio do santo.

Não é que Lamberto tenha tido uma morte tão violenta que tenha ficado em pedaços. Foi violenta, na medida em que faleceu vítima de um golpe de lança na cabeça desferido a partir do tecto mas, com o correr dos séculos, os seus restos mortais foram sendo distribuídos por relicários.

Em relação ao motivo que levou ao seu assassinato, a tradição diz que São Lamberto morreu por ter recusado reconhecer a relação adúltera do prefeito do palácio, algo equivalente entre um primeiro-ministro e um vice-chefe de estado, do reino franco da Austrásia. Na verdade, morreu porque uma família rival decidiu atentar contra a sua. Sendo Lamberto uma figura importante, tornou-se um alvo privilegiado.


Arca tumular com "maior parte" dos restos mortais de São Lamberto



Relicário de Carlos o Temerário. O duque de Borgonha é representado ajoelhado e segurando a cápsula contendo a falange de São Lamberto, sendo apadrinhado por São Jorge (a figura em pé).



O Busto-Relicário de São Lamberto, feito por um artífice de Aachen antes de 1512. Contém um pedaço do crânio do santo.



Vale a pena visitar:

sexta-feira, março 02, 2018

A cintura fortificada de Liège - O forte de Embourg



De forma depreciativa, pelo passado bélico de séculos do seu actual território, costumava-se dizer que a Bélgica era o "Boulevard Paris-Berlim". De facto, pelas suas características, o território belga sempre foi visto como a via ideal para qualquer ofensiva francesa contra a Alemanha ou vice-versa. Após a guerra franco-prussiana de 1870-71, as autoridades belgas decidiram contrariar esta tendência e reforçar defensivamente a região ao redor de duas cidades de grande importância estratégica, Namur e Liège, com a construção de cinturas de fortes ao seu redor.

Entre 1888 e 1892, foram construídos nada mais nada menos que 12 fortes ao redor de Liège, visando trancar a região a futuras invasões. Na cidade propriamente dita, foi construído um forte imponente, a Cidadela, sendo complementado com outro forte na margem direita do Mosa: o forte de Chartreuse.

Infelizmente, como a História nos ensinou, o nível tecnológico dos fortes desta região sempre chegou com uma guerra de atraso e, quando se deu a Batalha de Liège na abertura da ofensiva ocidental alemã em Agosto de 1914, as estruturas de betão simples (não armado) não conseguiram resistir à artilharia pesada germânica. Alguns fortes foram pura e simplesmente apagados da paisagem pela artilharia, sepultando as tropas que os guarneciam.

Ainda assim, a resistência de Liège durou 12 dias, muito acima do esperado pelos alemães, que contavam com uma rápida vitória no sector, garantindo um tempo precioso para que os franceses preparassem a sua defesa. O reconhecimento deste feito mereceu a condecoração de Liège com a Legião de Honra francesa.

Antes da Segunda Guerra Mundial, alguns fortes foram reconfigurados e reapetrechados e a região militar foi reforçada com 4 novos fortes. Apesar de tudo, mais uma vez, pouca resistência conseguiram oferecer à "Wermacht".

Embora os fortes apresentem hoje estados de conservação e utilização bem diferentes, decidi percorrê-los a todos, começando arbitrariamente pelo Forte de Embourg. Os restantes serão percorridos ao longo do ano.


O Forte de Embourg

A cintura fortificada de Liège. O forte de Embourg está assinalado a azul.


O Forte de Embourg visava fechar o vale do Ourthe, no sector Sul / Sudeste. Actualmente é mantido por uma associação sem fins lucrativos que realiza visitas guiadas ao seu interior, onde aliás foi implementado um museu reputado de muito interessante.



Acesso ao forte de Embourg, com alguns vestígios de defesa passiva anti-tanque


"Blockhaus" de protecção da entrada, com abertura de tiro de canhão ou metralhadora e abertura para largada de granadas (à direita)

Infelizmente, no dia da nossa visita e ao contrário do anunciado, o forte manteve-se fechado pelo que tivemos de nos contentar com uma pequena visita à parte superior das fortificações. Felizmente, nem tudo foi mau e encontrámos à porta uma habitante local, a senhora Vin Coenen, muito envolvida na gestão do forte,  que aceitou acompanhar-nos e falar um pouco sobre Embourg.

Com Vin Coenen na entrada do forte.


O ataque alemão de 1914

Os fortes de Liège e as tropas de intervalo ofereceram uma feroz resistência ao ataque alemão de 6 de Agosto de 1914, ocorrido apesar de a Bélgica ter declarado a sua neutralidade no conflito. Perante a inesperada resistência belga, os alemães foram forçados a duplicar os efectivos envolvidos no ataque e a utilisar os seus famosos canhões "Grande Bertha", com um calibre de 420mm. Ora os fortes, como disse, tinham várias limitações, entre elas, a mais grave, o facto de terem sido construídos em betão não armado, permitindo-lhes resistir ao impacto de obuses com um calibre máximo de 210mm. Escusado será dizer que o efeito do bombardeamento contínuo foi devastador. Por outro lado, os canhões dos fortes utilisavam pólvora negra, que produzia um fumo asfixiante. Após várias horas a disparar, o ar no interior dos fortes tornava-se irrespirável.

O forte de Embourg foi bombardeado sem parar durante mais de 24h, entre 12 e 13 de Agosto, acabando por se render.

A germanofobia do pós-guerra e a heróica resistência de Liège foram bem evidenciadas pelos franceses. Assim, o café dito "Viennois" foi rebaptizado de "café Liègois", para evitar referências à capital austríaca e, por outro lado, a rua e a estação de Berlim, em Paris, foram rebaptizadas de rua e estação de Liège, respectivamente e a raça canina pastor-alemão passou a ser conhecida por pastor-belga. Finalmente, à cidade de Liège foi atribuída a Legião de Honra francesa.


O ataque alemão de 1940

O forte foi o primeiro forte de Liège a entrar em contacto com as tropas alemãs, no início da batalha da Bélgica. O forte tinha dois grupos de soldados em rotação. Vin conta-nos que o seu pai estava no destacamento em repouso na aldeia ali ao lado e que, quando chegaram as notícias do ataque, recebeu ordem para retirar para uma linha defensiva longe do forte. Este ultimo acabaria por se render 5 dias mais tarde, sem possibilidades de resistir ou receber apoio. O pai de Vin acabaria mais tarde por ser capturado em França e passou vários meses como prisioneiro de Guerra na Alemanha antes de voltar a casa.

Quanto ao forte, ocupado agora pelos alemães, foi alvo de várias obras de melhoramento para o tornar mais resistente e eficaz. O que hoje se vê é o resultado desses melhoramentos.


O acesso de infantaria no maciço central superior do forte

Posição de tiro de infantaria na parte superior do forte

Espaço anteriormente ocupado por uma cúpula de artilharia


Vista do fosso e, à direita, do maciço central do forte

Uma ligação a Portugal

Ao saber que somos portugueses, Vin exclama -"Tenho excelentes recordações dos portugueses!" e conta-nos porquê. Após o regresso do pai, acabaram por deixar a Bélgica rumo ao Congo Belga (actual R.D. do Congo) onde ficaram até ao fim do conflito, após o que decidiram regressar à Bélgica. O meio de transporte escolhido foi o barco que, por proximidade e por conselho de vários amigos, decidiram ir apanhar em Luanda, o que implicava uma viagem de carro pelo interior africano. 

Ora acontece que na fronteira os amigos que os acompanhavam foram impedidos de prosseguir, obrigando a família de Vin a continuar sozinha. A dada altura perderam-se e, chegados a uma localidade cujo nome se perdeu da memória, foram acolhidos por um casal de portugueses que os convidou a jantar e pernoitar em sua casa.

Na altura com 6 anos, Vin já não se recorda qual foi a ementa do jantar. Lembra-se apenas da sobremesa: leite creme com canela. -"Os portugueses põem canela em tudo, não é? Estava tão bom, tão bom...!".

Com as indicações certas, seguiram viagem no dia seguinte e finalmente regressaram a Liège. O pai de Vin foi reincorporado no exército e destacado para Aachen, no sector inglês da Alemanha ocupada. Do que viveu ficaram-lhe poucas memórias mas bem vivas: a cidade em ruínas e a vida que levavam no quartel. "A cidade estava toda destruída. Era horrível. Mas nós, lá no quartel vivíamos bem. Tínhamos escolas, cinema, piscina,... Eram mundos diferentes."

Despedimo-nos, com alguma frustração por não podermos visitar o interior do forte mas, ficou desde logo combinado que voltaríamos quando este estivesse aberto em permanência. Ficou muito por conhecer sobre o forte de Embourg.

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