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quinta-feira, junho 18, 2020

Passadiços. As razões para sermos contra esta nova moda


De Norte a Sul, a moda dos passadiços está a tomar conta do país. Os slogans que os promovem invariavelmente propõem a ilusão de partir à descoberta dos segredos mais bem guardados da natureza ou o visitar da natureza em estado puro. No entanto, o que esta proliferação de passadiços está a fazer é precisamente o oposto, colocando em risco a natureza, expondo locais até agora selvagens ou pouco frequentados ao turismo de massas, com tudo o que isso implica. Mas comecemos pelo início.

A colocação de passadiços em Portugal começou na década de 1980 nas zonas costeiras, tendo como objectivo diminuir o impacto da passagem das pessoas nos ecossistemas das dunas durante a época balnear. A instalação deste tipo de equipamentos foi-se alargando, conjugando a preocupação ambiental com a vontade em criar condições de acessibilidade. A dada altura, no entanto, os passadiços começaram a ser vistos como equipamentos de recreio, tendo esta função acabado por se tornar predominante, transformando até o fenómeno dos passadiços num de oferta turística popularucha.

Em 2015, foram inaugurados os passadiços do Paiva que, aliás, são hoje uma referência para este tipo de percursos em Portugal, em todos os aspectos. No entanto, são também um claro exemplo do efeito negativo que exercem na natureza que, paradoxalmente, alegam promover. A curiosidade e o interesse gerados pela divulgação dos passadiços dos Paiva levaram a um afluxo em massa de visitantes, mais turistas da natureza que verdadeiramente caminheiros e amantes da natureza, tendo-se chegado a registar cerca de 10.000 visitantes num só dia. O impacto desta afluência no local foi terrível.

Ao longo de todo o percurso acumulou-se lixo, a vegetação foi cortada, o ruído aumentou tremendamente, juntando-se a isso o aumento da circulação automóvel, o aparecimento de vendas ambulantes e bares ilegais. Foi de tal monta que foi necessário limitar o número de entradas diárias a um máximo de 3.500 e, como não foi suficiente, o número foi reduzido para 2.500. As regras a apelar ao respeito pelo local são claras, mas, numa visita relativamente recente que fizemos ao local, ficou claro que não havia controlo além das zonas de acesso, havendo inclusive visitantes que chegaram ao cúmulo de transportar consigo altifalantes debitando os últimos sucessos dos arraiais de Verão. Apesar dos protestos de uma associação ambientalista local, parece ser claro que a aposta autárquica é na massificação turística. O anúncio com pompa e circunstância da construção da “maior ponte pedonal suspensa do Mundo” para ligar os passadiços a outro refúgio da natureza ali próximo demonstra-o.

A febre da criação de passadiços é de tal monta que até se constroem passadiços sobre trilhos pedestres já existentes, aumentando drasticamente o custo de criação do percurso e desvirtuando a experiência de proximidade com a natureza. Em suma, e salvo algumas boas excepções, propor percursos em passadiços como percursos de valorização e promoção da natureza é como criar uma linha de refeições prontas ultra-congeladas com o rótulo de “comida caseira da avó”. Chega a mais pessoas, o custo de produção e a factura ambiental são maiores, mas, definitivamente, está longe de ser aquilo que diz ser. 

Artigo publicado no boletim informativo "Papa-Léguas" nº8 2020
dos Caminheiros da Gardunha

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Os Lagos de Plitvice - Menção honrosa nos melhores trilhos

Após ter publicado o artigo sobre os 5 melhores percursos de caminhada que já fiz, algumas pessoas questionaram naturalmente os critérios de escolha e a não inclusão de alguns percursos que mereciam figurar na lista. É claro que uma escolha deste género é sempre subjectiva e quanto mais curta é a lista mais difícil é compô-la e por isso é importante definir bem os critérios de avaliação. No meu caso optei pela beleza paisagística, valor histórico-cultural, convivência com a população local, sensação de paz e libertação proporcionadas. Isto porque, quando faço uma caminhada, procuro trazer sempre comigo algo mais que a simples memória de belas paisagens. A experiência será tão mais rica quanto mais aprendermos sobre o território que percorremos. Ao mesmo tempo, tem de ser um percurso que permita instantes de contemplação pacífica, a possibilidade de nos sentarmos a apreciar a paisagem sem perturbações.

É por isso que, por exemplo, percursos como os Passadiços do Paiva nunca serão parte da minha lista de favoritos. Ter de caminhar numa fila indiana interminável, onde inclusive há grupos que fazem questão de levar altifalantes para debitar os últimos sucessos dos arraiais populares, é algo que arruina completamente a experiência e relativiza por completo a beleza da paisagem. É algo que acontece de forma recorrente quando os lugares são vítimas da sua própria popularidade e se tornam objecto de massificação turística.

Os Lagos de Plitvice


Basicamente, foi por isso que não incluí o percurso que fizemos nos Lagos de Plitvice (Plitvička Jezera) na Croácia há 4 anos mas que, muito provavelmente entraria no top 10. Trata-se de um lugar magnífico, com uma sucessão de 12 lagos no meio de uma extensa floresta, pelos quais a água flui em cascatas de diferentes espectacularides e não é à toa que este Parque Nacional, o mais antigo da Croácia, está classificado como Património da Humanidade pela UNESCO.

É possível percorrer o parque por vários trilhos sinalizados, de diferentes dificuldades, e pode-se até fazer parte do percurso num dos ferries que atravessa o lago maior. Na altura optámos por percorrer as zonas mais próximas dos lagos e aí experimentámos o efeito da massificação, com alguns "engarrafamentos" no percurso e filas para entrar nos ferries, isto apesar de a entrada no parque ser paga (se não fosse seria uma catástrofe). Uma pena. 

No entanto, houve partes que conseguimos percorrer de forma totalmente tranquila (bastava subir um pouco) e isso permitiu também apreciar da melhor forma toda a biodiversidade do local.

O facto de termos ficado alojados perto dali, numa aldeia com 6 ou 7 casas, uma antiga estância de Verão do Estado-Maior do General Tito, ajudou a enriquecer a nossa experiência. O nosso anfitrião, o fantástico Tomislav, que cozinhava todos os dias para nós, revelou-se um excelente conversador apesar de ter sido necessário ajustar o protocolo de comunicação: nós falávamos em inglês, ele falava em italiano e a comunicação era facilitada por uma bela garrafa de Dingač. Correu às mil maravilhas. Foi aliás graças a ele que ousámos aventurar-nos numa base aérea militar subterrânea abandonada. (Recordar aqui)

Aqui ficam algumas fotos:


Uma das muitas cascatas


Engarrafamento pedestre num dos passadiços

Vista mais ampla de dois lagos e das cascatas


Felizmente o nosso mau domínio do croata não nos permitiu perceber os avisos de interdição de passagem neste acesso alagado


A cascata maior

Vista de uma secção da rede de passadiços

domingo, janeiro 13, 2019

Os meus 5 melhores percursos de caminhada

1 - Caminho Inca
Peru - 43km - 4 dias - Muito difícil





Viajar até outro continente, conhecer uma cultura e uma língua e descobrir paisagens profundamente contrastantes e, no final de tudo, cumprir um sonho de criança. É o resumo do que foi viajar até ao Peru para percorrer os 43km do Trilho Inca até às ruínas de Machu Picchu.

Para percorrer este trilho foi necessário fazer reserva com vários meses de antecedência. Sendo um percurso de acesso restrito, só é possível percorre-lo devidamente enquadrado por uma agência local licenciada que, no nosso caso, foi a Enigma. Diariamente, só podem passar pelo checkpoint de entrada no trilho 500 pessoas, incluíndo o staff das agências. Esta forneceu guias, carregadores e cozinheiros que cuidaram da condução do grupo e de toda a logística da expedição, incluíndo o transporte para o início do trilho, alimentação, bilhetes de entrada em Machu Picchu e o bilhete de comboio de regresso a Cuzco.

A caminhada fez-se pelas montanhas, partindo do vale do rio Urubamba e durou 4 dias, tendo subido até aos 4.200m. Foi por isso que dedicámos alguns dias prévios à aclimatação em altitude na cidade de Cuzco. O ponto mais baixo do percurso é curiosamente a própria cidade de Machu Picchu, com 2.400m. A altitude obriga a reduzir o número de quilómetros percorridos diariamente e, podem acreditar, sente-se a falta de oxigénio em determinados pontos.


Esta diferença de altitude e o facto de se cruzarem as montanhas da cadeia andina permitiu observar uma notável transformação da floresta, desde uma vegetação mais esparsa e rara até uma luxuriante floresta quase tropical que anuncia a Amazónia. As noites foram passadas em acampamento (na primeira noite foi preciso dormir com casaco dentro do saco-cama, tal era o frio!) e valeu bem a pena acordar pela madrugada e contemplar os picos aguçados das montanhas a ser banhados pelos primeiros raios de Sol enquanto bebericávamos um chá de coca bem quentinho.




Ao longo do caminho, todo ele feito por uma antiga estrada real inca, passámos por algumas cidades incas assim como ruínas de "Tambos", os postos de descanso dos mensageiros do Império. Com as explicações pontuais dos guias ficamos também a ser muito sobre o Império Inca e a biodiversidade das montanhas. É difícil descrever a sensação que foi quando, no último dia, transpusemos a Porta do Sol e, com este nas nossas costas, contemplámos Machu Picchu a dominar os meandros do Urubamba. A arquitectura já não era no entanto uma novidade visto que, pelo caminho, já tínhamos passado pelas ruínas de 5 cidades incas.

O relato da caminhada:

Preparação da viagem:
Inca Trail Peru - Este site foi fundamental para ter noção das dificuldades e das formalidades necessárias.
A Sofia Cadilha também merece um agradecimento especial pela ajuda nas reservas de hotel


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2 - Trilho da Muralha de Adriano
Inglaterra - 140km - 6 dias - Dificuldade média


"Fortuna Vobis Adsit"





A primeira grande caminhada em terras estrangeiras foi feita percorrendo Inglaterra praticamente de costa a costa e ao longo dos vestígios da fronteira mais a Norte do Império Romano: a Muralha de Adriano. Foi uma verdadeira viagem pela história com uma belíssima paisagem como fundo.

Este percurso vai muito para além do simples pedestrianismo. Começámos na cidade de Newcastle e terminámos na pequena aldeia de Bowness-on-Solway, à vista da Escócia mas pode ser feito no sentido inverso (talvez mais fácil, dado os ventos dominantes). Este trilho nacional apresenta uma paisagem extremamente variável, desde o meio urbano de Newcastle até à bucolidade das várias quintas e aldeias, sem esquecer a magnífica paisagem do Parque Nacional de Northumberland, na secção central.


Milecastle ou, em bom tuga, um fortim de milha. Estes fortins guardavam as portas na muralha e estavam colocados a cada milha romana. 


O percurso é feito seguindo quase sempre o traçado da muralha, percorrendo trilhos abertos nos prados (onde a via está marcada pelo corte da erva), transpondo cercas através de portões basculantes de madeira ou escadotes de madeira sobre estas. Tem ainda algumas secções em alcatrão, tanto em ciclovias (Newcastle) como estradas secundárias ou vias de acesso local que podem fazer mossa mas que não chegam a 20% do total do percurso. O percurso está muito bem assinalado e é seguro.

Houve necessidade de fazer a preparação com algum tempo de antecedência, dada a escassez de alojamentos e serviços na secção central. Os B&Bs são muito confortáveis e, se for pedido de véspera, fornecem um farnel para o caminho, até porque o pequeno-almoço bem british fornece energia para boa parte do dia mas não chega para tudo. A principal dificuldade foi termos de transportar às costas mais do que aquilo que necessitávamos pois, após a caminhada, iríamos ainda permanecer mais uma semana pela Escócia.




Para quem viaja de Este para Oeste, os vestígios da muralha e estruturas adjacentes são visíveis sobretudo a partir do 2º dia, deixando de o ser ao final do quarto dia. Há no entanto muito para ver para além da muralha dado que o sistema defensivo era complementado por torres, fortins e fortes de legionários cujas ruínas foram em grande parte postas a descoberto e, no caso dos fortes, alguns têm um centro interpretativo associado. Na periferia há outros pontos de visita que valem a pena como a cidade romana de Corbridge (que nos acrescentou 13km ao percurso) ou o forte de Vindolanda em curso de escavação, a dois passos de Once Brewed. Também a cidade de Carlisle com o seu castelo justifica bem uma visita atenta.

Para nós, a caminhada terminou, tendinites à parte, com um momento de pausa sob um telheiro de madeira à vista do estuário do rio Eden, local bem apropriado para um pedido de casamento.

O relato da caminhada:

Preparação da caminhada (guia e mapa):

Site oficial:

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3 - Caminho de São Salvador (Espanha)
Espanha - 122km - 5 dias - Difícil

"Quien va a Santiago y no va al Salvador, visita al criado y olvida al señor"

Catedral de Léon

O Caminho de São Salvador ou Caminho do Salvador é geralmente visto como um percurso "satélite" dos caminhos de Santiago mas dizer isso é claramente menosprezar este percurso. Decorrendo entre Léon e Oviedo, duas cidades que vale a pena visitar, é um caminho com identidade muito própria, tendo inclusive a sua própria credencial e certificado. A passagem pela cordilheira cantábrica, revela paisagens que transmitem uma enorme paz e serenidade.

Fiz este caminho a solo ou, pelo menos, essa era a ideia inicial. Na verdade, tal como em qualquer percurso dos Caminhos de Santiago, também o Caminho do Salvador não se faz nunca sozinho mas isso não significa que padeça da massificação de que os Caminhos de Santiago são vítimas, bem pelo contrário. Os rostos dos outros caminheiros/peregrinos tornam-se rapidamente familiares e, se tivermos o espírito aberto, rapidamente se instala um ambiente de muito à-vontade.

O caminho é sobretudo feito em caminho de terra, tento também largos troços em alcatrão, sobretudo por vias secundárias ou de acesso local, e trilho de montanha. O percurso está muito bem assinalado (as dúvidas eventuais dissipam-se com recurso ao guia indicado abaixo) e sofre um pouco da heterogeneidade geral da sinalética dos Caminhos de Santiago. Pode ser perigoso durante o Inverno devido à neve e ao gelo na travessia das montanhas.


Secção entre Puerto de Pajares e Pajares

O caminho está relativamente bem servido de albergues, embora abaixo do que acontece nos Caminos de Santiago, mas em termos de serviços e alimentação já nem tanto, sobretudo quando nos embrenhamos nas montanhas. A estadia em Poladura de La Tercia obrigou a contactar previamente uma senhora da aldeia que nos preparou o jantar. Sem isso, teríamos de nos ter resumido ao que tivéssemos trazido connosco ou à máquina de vending do albergue. Há em compensação outros aspectos. Nessa aldeia, é possível comprar ovos frescos ou sidra asturiana numa quinta local. Outro local onde o acolhimento é excelente é no albergue de Benduenos. Embora fora de mão, se for combinado de véspera a responsável pelo albergue vem buscar os peregrinos ao Caminho, levando-os de volta no dia seguinte. É também uma excelente cozinheira que confecciona refeições com produtos que ela própria produz.

Nas zonas mais povoadas deste caminho, há vários estabelecimentos onde podemos parar para descansar e beber qualquer coisa e de forma geral, a bebida vem sempre acompanhada de algo para comer, não raras vezes um "pincho de tortilla". É uma boa amostra da hospitalidade destas gentes que, sobretudo para os peregrinos, se desdobra em gentilezas. Por falar em tortillas, é OBRIGATÓRIO parar no café/restaurante Bom Suceso, em frente à ermida medieval com o mesmo nome, para provar aquela que é considerada a melhor tortilla de todo o Caminho do Salvador.


A obrigatória tortilla do restaurante Bon Suceso.

À chegada a Oviedo, é obrigatório visitar o centro histórico e -claro está!- a catedral. Para além de se obter o certificado da peregrinação, vale a pena visitar o monumento e admirar as "relíquias" que fizeram a dada altura com que esta cidade, outrora capital do reino das Astúrias, fosse a cidade europeia com mais relíquias cristãs, logo atrás de Roma. São relíquias essencialmente ligadas à paixão de Cristo e à Virgem e se hoje já faltam algumas, na Idade Média era possível admirar o sudário que cobria o rosto defunto de Cristo, um pedaço da sua túnica, alguns espinhos da coroa, um pedaço da cruz, pão da última ceia, terra do santo sepulcro, uma tina das bodas de Canã, leite coalhado da Virgem, restos de "maná", madeira da vara de Moisés, uma sandália de Pedro, entre outros.

Depois, há que celebrar o fim da jornada e o admirar de tamanha panóplia de relíquias com um belo copo de sidra servido à moda das Astúrias: com a garrafa bem acima da cabeça a verter para um copo à altura da cintura.

Preparação da caminhada:
Guia - Camino del Salvador Um guia gratuito com TUDO o que é preciso saber sobre o Caminho de São Salvador, feito por um peregrino local. 5 estrelas!


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Percurso da Geira (Gerês)
Portugal/Espanha - 40km - 2 dias - Dificuldade média



O percurso da Geira é um percurso dedicado à Via Nova ou Via XVIII do Itinerário Antonino, uma antiga estrada imperial romana que ligava Astorga a Braga. Todo o percurso, excepto uma curta secção, é feito sobre o traçado desta antiga via romana que, quase 2.000 anos depois, ainda tem sinalização viária romana.

Tive a oportunidade de o fazer por duas vezes. A primeira em 2016 e a solo, tendo-o feito entre Seramil e Lobios em duas etapas, e a segunda em 2017 com os Caminheiros da Gardunha entre Seramil e Os Baños.



Embora este percurso possa ser iniciado bastante antes, recomendo o início em Seramil, no lugar da Santa Cruz, percorrendo depois uma primeira etapa até Campo do Gerês e depois partindo daqui até Os Baños, já na Galiza, numa segunda etapa. A piscina termal pública a céu aberto d'Os Baños, na margem do Rio Caldo, é a forma perfeita de terminar, descontraindo os músculos na água sulfurosa que brota da terra a 70º. Uma alternativa é continuar mais um quilómetro até Vilameá, visitando esta aldeia muito típica com os seus espigueiros e eira comunitários.

O percurso é principalmente feito em caminho de terra batida e calçada antiga, com algumas secções de alcatrão e, aqui e ali, por veredas estreitas. A via tem pendentes suaves e a dificuldade prende-se sobretudo com algumas secções mais desafiantes devido ao estado do piso. A paisagem é lindíssima, sobretudo na 2ª etapa, quando se percorre as margens da albufeira da barragem de Vilarinho das Furnas, a Mata da Albergaria e o vale cavado do Rio Caldo, já para lá da fronteira.


O interesse é exponenciado pela existência de vestígios romanos associados à via, sendo o grande destaque os marcos miliários em número invulgarmente alto, que foram recolocados nos seus lugares originais e que hoje, quase 2.000 anos depois, continuam a servir de referência de distâncias, as marcas de pedreiras e, já na Galiza as ruínas da "mansio" (estalagem romana) de Aquis Originis. Na passagem por Campo do Gerês, é obrigatório visitar o Museu da Geira, que explica de forma muito clara e rica tudo o que há para saber sobre a Via Nova. Pode-se igualmente aproveitar para visitar o Museu de Vilarinho das Furnas e a Porta do Parque Nacional da Peneda-Gerês.


Outro lugar a visitar  é o núcleo museológico da fronteira da Portela do Homem. Situado no antigo edifício alfandegário, contém vários marcos miliários e apresenta um complemento de informação sobre a via romana. Tem ainda uma pequena sala dedicada à história da fronteira entre Portugal e Espanha. Esta valência partilha o edifício com um pequeno café-restaurante.

Dado que o percurso é linear, pode haver alguma dificuldade na gestão do transporte para o regresso. A solução pela qual optei foi, à chegada de cada etapa, dirigir-me a um café para pedir contactos de táxis. Único senão, o táxi espanhol recusou levar-me a Campo do Gerês, onde eu tinha deixado o carro, pelo facto de a estrada ser de terra, deixando-me a 6km. Acabei por pedir depois boleia a uma carrinha que passava, com alguns habitantes de Campo do Gerês. Entre histórias várias, acabámos todos por ir beber umas minis.


Preparação da caminhada:
Excelente guia com descrição das curiosidades e pontos de interesse de cada milha do percurso. Custa 5€ e pode ser encomendado à cobrança junto da Câmara Municipal de Terras do Bouro pelo e-mail turismo@cm-terrasdebouro.pt.


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Rota dos 3 Países
Bélgica/Alemanha/Luxemburgo - 23km - 6 horas - Dificuldade média


Ponte dos 3 países. Na margem de cá, à esquerda da ponte fica à Bélgica e à direita o Luxemburgo. A margem mais distante é toda ela alemã.


Não é comum fazer caminhadas que, em pouco mais de 20km permitem passar por 3 países diferentes. Se juntarmos a isso florestas a perder de vista, paisagens onde o verde é a cor predominante e vários quilómetros embalados pelo som de água, temos os ingredientes fundamentais para uma excelente caminhada.

Ao chegar à Bélgica, faz amanhã um ano, uma das primeiras coisas que fiz foi inscrever-me num clube de caminhadas, o RCAE (Royal Cercle Athlétique des Étudiants). Afinal, a melhor forma de descobrir o território, neste caso num país que eu desconhecia por completo, é percorrê-lo a pé. De entre todas as caminhadas que fiz, com este grupo, esta rota por 3 países foi a que mais me impressionou.


Partindo da aldeia de Ouren, onde a pedra se mistura com o verde da floresta, o percurso é belga durante 1,5km até chegar à ponte dos 3 países onde, como o nome indica, confluem as fronteiras da Bélgica, Alemanha e Luxemburgo. É a primeira de duas travessias do rio Our, um rio cujas margens são o palco de cenário de 7km desta caminhada, sobretudo do lado luxemburguês.


Entre florestas e um pequeno circuito pelo planalto alemão, passa-se junto a uma represa construída por castores e que mostra bem a importância que estes têm na promoção da biodiversidade ao criarem zonas alagadas. O regresso ao rio Our marca a entrada no Luxemburgo e daí, percorre-se o rio até regressar à Bélgica. Para além da floresta densa, um outro aspecto fascinante é a ocorrência de registos fósseis nos vários painéis rochosos sedimentares que se encontram pelo caminho.

Vale depois a pena terminar a caminhada numa esplanada da aldeia junto ao rio. Tranquilamente podemos passear com os olhos entre a Alemanha e o Luxemburgo enquanto nos refrescamos com o que a Bélgica tem de melhor. A cerveja, pois claro.

Desbaste feito por castores. O alagamento denuncia a presença de uma barragem feita por estes mamíferos mais a jusante.

Uma última nota de curiosidade: embora a caminhada passe por 3 países, ao fazer este percurso acabei por ter uma imersão num quarto país com um sabor nostálgico de saudade. Num dos meandros do rio, já perto do final, deparei-me com uma enorme festa de trabalhadores portugueses que faziam uma churrascada à beira da água. Os ingredientes estavam lá todos: a cerveja Sagres, a máquina de café do Pingo Doce, as bifanas, uma camisola do FC Porto e uma animada música do Tony Carreira.

Mapa do percurso no Wikiloc AQUI


Este é portanto o top 5 dos meus percursos. Se eventualmente servir para vos inspirar e quiserem eventualmente percorrê-los, estejam à vontade para me contactarem para pedir dicas e conselhos. Se eventualmente já tiverem percorrido alguns deles, como foi? Partilhem a vossa experiência!

segunda-feira, outubro 15, 2018

Floresta portuguesa, um ano depois

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Setembro de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os romanos passaram pela Gardunha
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros
   - Os Castros da Serra da Gardunha

Serra da Gardunha, 2017


Foi há pouco mais de um ano que a Serra da Gardunha foi devastada pelo violento incêndio que dificilmente se apagará da memória de todos os que o viveram de perto. O heroísmo e a solidariedade da população do Fundão foram já reconhecidos e alvo de homenagem por parte da Câmara Municipal mas o mais importante, que é a recuperação e a implementação de um modelo de ordenamento e gestão da Serra da Gardunha, continua a ser uma miragem. Na Serra da Gardunha, os municípios, o ICNF, a APA e a DRABI continuam a atropelar-se na gestão do território e parece ser difícil encontrar um rumo.

Seria no entanto tremendamente injusto referir este como sendo um problema exclusivo da nossa serra quando se trata de um problema nacional crónico. Desde logo, o incêndio da Gardunha foi apenas um entre os inúmeros que em 2017 consumiram mais de 440.000 hectares, o corolário de uma década terrível em que mais de um terço da floresta portuguesa ardeu.

Este facto veio por a nu, como se ainda fosse preciso, que em Portugal não existem políticas de ordenamento florestal nem de prevenção de incêndios dignas desse nome. Pior ainda, ninguém pode afirmar que o que sucedeu em 2017 foi algo completamente inesperado. Num país em que se chega ao cúmulo de se definir oficialmente uma “época de incêndios” e já se perdeu o sentido de ridículo de que este conceito se reveste, ninguém poderia ignorar que um ano com condições climáticas mais extremas levaria inevitavelmente a este desfecho.

Poder-se-ia pensar que finalmente as lições teriam sido aprendidas mas não. Até agora, a medida mais sonante que o Governo tomou foi a promulgação de uma lei de obrigatoriedade de limpeza que, cavalgando a onda do trauma recente e empurrada pela ameaça de multas chorudas, acabou por ser nociva para a floresta portuguesa.

Por um lado, se houve um facto que para todos ficou evidente foi que as árvores autóctones são mais resistentes ao fogo que os pinheiros-bravos e eucaliptos que dominam o nosso território. No entanto, a lei tratou de situar todas as espécies ao mesmo nível o que não terá de todo desagradado a certos grupos económicos que prosperam ao ritmo do pinhal e eucaliptal e que no rescaldo dos incêndios tinham sido postos em causa.

Por outro lado, no país onde as leis são traçadas a régua e esquadro num gabinete distante da realidade, só depois do abate de árvores centenárias, espécies protegidas e até de árvores de fruto, alguém decidiu vir a terreiro explicar que afinal não era necessário cortar tudo a eito. Apesar de tudo, a criação de zonas de protecção ao redor das aldeias foi uma consequência positiva.

 Acontece que só esta questão da limpeza é tão eficaz no quadro geral como a delimitação de uma zona livre com fita de segurança ao redor de uma bomba-relógio. Continuamos todos à espera de uma lei concreta de ordenamento florestal que sirva verdadeiramente o propósito de um floresta com QUALIDADE e BIODIVERSA. A floresta que temos em Portugal é cada menos digna desse nome, antes sendo uma exploração silvícola mono-cultural intensiva cujo único objectivo é o de obter lucro o mais rápido possível.

O problema é que a nossa classe política vive refém de interesses que nada têm a ver com o interesse público e que lhe restringe a liberdade (ou a vontade?) de implementar reais medidas de fundo. Antes preferem as medidas cosméticas em embalagem populista, sabendo de antemão que todas as decisões que tomarem dificilmente serão alvo de avaliação ainda durante a vigência do seu mandato. Seja como for, a estratégia crónica de culpabilização dos antecessores oferecerá sempre uma almofada de conforto para o caso de algo correr menos bem.

Também os privados, que detêm a esmagadora maioria do território de floresta em Portugal, vivem hoje reféns da ideia, herdada do período do Estado Novo, de que a única forma de obter rendimento da floresta é através de pinheiros e eucaliptos. Quem os pode censurar quando nada foi feito a nível superior para contrariar esta ideia e a possibilidade de que obter algum rendimento, mesmo que seja uma lotaria, é melhor do que não obter absolutamente nada?

Em 2017 Portugal, com a Serra da Gardunha, ardeu. Como referi na altura, todos nós, com a nossa inacção e silêncio, fomos cúmplices. Então como agora, continua a pertencer aos cidadãos o poder de mudar o rumo dos acontecimentos e é urgente fazê-lo. A contagem decrescente recomeçou.

segunda-feira, março 12, 2018

O maior e mais antigo castanheiro do Mundo

No artigo anterior, falei aqui sobre as tradicionais secadeiras da Serra da Gardunha, que todos os anos secavam toneladas de castanhas, recolhidas pelas gentes da Gardunha, ansiando por guardar um quinto ou um sexto do que recolhiam. Em termos de números, para se ter uma ideia mais precisa, faltou dizer que, por exemplo, a secadeira do Tormentoso processava por ano cerca de 1.000 arrobas de castanhas, o equivalente a 15.000 kg, enquanto que a secadeira nova do Carcavão processava 2 moios(*) de cada vez, algo como 1800kg!

Pode parecer excessivo à luz do povoamento de castanheiros na Gardunha que hoje vemos mas houve alturas em que nesta serra se encontravam exemplares colossais, como o castanheiro grande do Alcambar ou o Castanheiro do Moio. A revista Brotéria, publicação fundada no antigo Colégio de São Fiel, deu a conhecer muitos desses muitos desses exemplares. José Germano da Cunha fala no séc XIX de um castanheiro com 18m de diâmetro do tronco, 48 na copa, dentro do qual caberiam 36 homens em pé.

Ainda hoje, na memória dos mais idosos está ainda a forma como as pessoas se abrigavam da chuva, refugiando-se dentro dos troncos ocos dos castanheiros mais velhos. Também havia quem tentasse em jeito de brincadeira o desafio de saber quantas pessoas conseguiriam abraçar um castanheiro, ao fim e ao cabo uma forma involuntária de silvoterapia.

No Europa, o Castanea sativa distribuiu-se pela zona Ocidental do continente, assum como na bacia mediterrânica, nas zonas mais temperadas, sendo uma árvore importante para a economia de alguns países. Em Itália por exemplo, há uma associação nacional que defende e promove o cultivo de castanheiro e na comuna de Sant’Alfio, na Sicília, encontra-se aquele que será o maior e mais antigo castanheiro do Mundo e, ao mesmo tempo, a maior e mais idosa árvore da Europa: o castanheiro dos 100 cavalos (Il Castagno dei Cento Cavalli). 

Esta árvore tem uma idade estimada 3600 e 4000 anos, de acordo com a informação disponível no site institucional. O Livro de Recordes do Guiness refere-a como a árvore com maior circunferência de tronco registada, com 60m de diâmetro no tronco de acordo com a medida registada no século XVIII. Actualmente está dividida em vários troncos mais estreitos, após um incêndio ocorrido em 1923 e ateado pela população local, em protestos contra uma medida de reordenamento territorial administrativo.


O castanheiro dos 100 cavalos representado por Jean-Pierre Houel, na sua obra "Voyage pittoresque des illes de Sicile, de Malte et de Lipari, 1782. Foto: Wikipédia

O seu nome deve-se, segundo uma lenda local, ao facto de a rainha de Nápoles, Joana de Aragão, no regresso de uma expedição ao Etna, ter sido surpreendida por uma violenta tempestade que a obrigou e à sua comitiva de 100 cavaleiros a procurar refúgio dentro do castanheiro. Hoje a árvore é uma das grandes atracções turísticas da região, tendo a sua importância enquanto monumento natural de grande valor simbólico sido reconhecida pela UNESCO em 2006.


O Castanheiro dos 100 cavalos na actualidade. Foto tirada daqui

Vale a pena ler: dois milhões para reabilitar zona envolvente do Castanheiro dos 100 cavalos

(*) o moio era uma medida que tanto podia ser de volume como de peso. Pela zona NO da Gardunha, equivalia a 60 alqueires, sendo que a medida do alqueire, variava de região para região, podendo representar o equivalente a entre 11 a 15kg de peso.

quinta-feira, março 09, 2017

A peregrinação das andorinhas

As andorinhas das rochas estão de regresso à Serra da Gardunha mas, à chegada, fizeram questão de parar junto à Igreja Matriz de Castelo Novo, talvez para saudar a imagem da Senhora da Penha, antes de subirem aos domínios desta. 




quarta-feira, agosto 31, 2016

Caminhada nocturna à Penha da Serra da Gardunha

Sem a paisagem para nos distrair, as caminhadas nocturnas levam-nos a concentrar a nossa atenção em pormenores que geralmente passam despercebidos. Com a chuva de estrelas anual das Perseidas como pretexto, subimos a pé até ao sítio mágico da Penha da Serra da Gardunha, passeando por um Mundo que só ao abrigo da escuridão se revela.



Com o objectivo de assistir ao espectáculo das Perseidas com o mínimo de poluição luminosa, tornando ao mesmo tempo a noite mais interessante, pusemos as mochilas às costas e saímos rumo à Penha, o epicentro das crenças e religiosidade da Serra da Gardunha que à noite ganha um interesse redobrado. Pouco passava das 22h e optámos por sair do estradão, metendo-nos pelos trilhos existentes entre a Casa do Guarda e o Posto de Vigia.



Ao chegarmos ao Posto de Vigia, no monte Cavalinho, tivemos direito a uma experiência pouco habitual. As nossas luzes "no meio do nada" tinham alarmado o vigilante que se encontrava de serviço que, querendo jogar pelo seguro, chamara entretanto a GNR. O zelo justifica-se pois aquela tinha sido a semana mais grave em termos de incêndios. Aliás, o fumo sentia-se e via-se bem ao nosso redor.



Tivemos pois de esperar pela GNR para esclarecer tudo e só depois pudemos prosseguir rumo à Penha onde, dentro das condições de visibilidade permitidas pelo fumo, pudemos admirar finalmente a chuva de estrelas.




Criaturas a coberto da noite



Aos nossos pés, é possível encontrar inúmeras pequenas criaturas que habitam a Serra da Gardunha e que só a coberto da noite se atrevem a sair. É todo um Mundo novo, que contrasta com o que se vê durante o dia e que vale a pena apreciar.



A primeira criatura a ser avistada foi uma aranha. Já tínhamos percebido que havia aqui e ali um brilho que ao início pensámos ser o reflexo da luz das lanternas na mica resultante da degradação do granito ao longo do caminho. Só quando percebemos que aquele brilho azulado era bastante peculiar e nos aproximámos um pouco mais, é que percebemos que se tratava afinal do reflexo das nossas luzes sim mas nos olhos de aranhas que nos observavam atentamente.



Tratava-se da aranha-lobo raiada, uma aranha que não produz teia, promovendo ao invés disso emboscadas às suas presas. É um animal tímido que terá tendência para fugir quando ameaçada mas, se tiver de se defender, a sua mordida pode provocar dores fortes, inchaço e em alguns casos placas de pele necrosada na zona onde mordeu.



Em zonas rurais é um precioso auxiliar já que se alimenta de insectos nocivos às culturas agrícolas.



Aranha-lobo radiada


Também comum por esta altura do ano são os encontros com os grilos de sela, uma espécie que apenas existe na Península Ibérica. De grande tamanho e, neste caso, com uma bela cor verde raiada no dorso, o seu nome provém da pequena carapaça em forma de sela junto à cabeça.

Têm um canto muito mais discreto que os tradicionais grilos pretos mas compensam pela sua beleza. A espécie em questão será um Neocallicrania miegii.


Grilo de sela.

O habitante nocturno que desperta mais emoções é sem dúvida o escorpião ou, como tradicionalmente se chama por estas bandas, o lacrau. Em Portugal apenas temos esta espécie, o Buthus occitanus que, não sendo mortal, garante 24h muito complicadas devido à dor provocada pelo seu veneno.

O que nem toda a gente sabe é que o escorpião é um aracnídeo, uma espécie de primo relativamente próximo das nossas conhecidas aranhas. Alimenta-se de insectos, aranhas e até de outros escorpiões mas só entre Abril e Outubro, não se alimentando nos meses mais frios (clica aqui para ver o confronto entre um grilo de sela e um escorpião). Apesar dos muitos mitos que existem à sua volta, o escorpião não é um bicho agressivo, apenas picando quando é atacado. 


Escorpião no caminho


Para além da cauda segmentada que termina num agulhão que serve para injectar o veneno nas presas e das suas pinças dianteiras com que as segura, uma outra particularidade dos escorpiões é a distribuição dos seus olhos. Possui dois olhos maiores na zona superior da cabeça e dois conjuntos de 3 olhos na extremidade, junto à boca. A ironia é que apesar do número de olhos, os escorpiões têm uma visão muito fraca, servindo-se muito do sentido do tacto para compensar. Há também quem defenda que os escorpiões conseguem obter informação acerca daquilo que os rodeia com o corpo inteiro, tendo em conta a elevada sensibilidade a raios UV.  


Os dois conjuntos de olhos do Buthus occitanus. (clicar na foto para ampliar)


Escorpião sob luz ultra-violeta, encontrado ontem perto do Alto da Gardunha. Transportava literalmente às costas um grilo acabado de capturar (clicar para ampliar).

sexta-feira, agosto 26, 2016

Relâmpagos sobre a Cova da Beira

O final do dia de hoje deixou no ar a ameaça de uma tempestade que se veio a confirmar após o cair da noite. Indiferente ao vento e às grossas gotas de chuva que de vez em quando caíam em grandes descargas, decidi fazer equipa com a natureza e, enquanto ela disparava o flash, eu "batia as chapas", sempre tendo Aldeia de Joanes como pano de fundo. O resultado foi bastante interessante.

O limite da tempestade que viajava para Oeste ao final da tarde . Lá ao fundo, avista-se a Serra da Estrela.



O primeiro relâmpago registado, ainda durante o dia.


Durante uma trovoada podem ocorrer vários tipos de relâmpagos, que não são mais do que descargas eléctricas entre zonas de potencial oposto (positivo e negativo). Não tendo um material condutor para circular como acontece nas nossas instalações eléctricas, a electricidade vai procurar o seu caminho entre essas zonas de diferente potencial, cujo processo de formação ainda não é bem claro. Sabe-se apenas que as cargas eléctricas acumuladas ionizam o ar, gerando canais de gás ionizado que são usados como meio condutor.

Podem ocorrer descargas horizontais ou verticais, tal como essas descargas podem acontecer apenas nas nuvens ou entre estas e o solo (nos dois sentidos). Por sorte, consegui registar alguns exemplos:



Descarga horizontal intra-nuvem.



Descargas ramificadas descendentes ligam a nuvem ao solo, gerando uma descarga súbita e muito forte (duas visíveis na imagem). 



Descargas verticais e horizontais.



Relâmpagos horizontais entre nuvens.



Com um relâmpago a acontecer mesmo por cima, na Aldeia de Joanes fez-se dia por uma fracção de segundo por volta das 23h00!

É fácil calcular a distância a que os relâmpagos ocorrem. Sabendo que a velocidade do som no ar é de cerca de 340 metros por segundo, basta contar os segundos decorridos entre o relâmpago e a chegada do som do trovão, que não é mais que a onda de choque causada pela súbita dilatação do ar devido à temperatura. Multiplicando os segundos por 340, teremos a distância aproximada a que o relâmpago aconteceu. 

É um bom exercício para fazer sobretudo se forem como eu e não resistirem a ir para a janela ou para a varanda assistir a este fantástico espectáculo.


Actualização:

Com o evoluir da noite, tivemos direito a uma nova série de relâmpagos por cima da nossa cabeça e a Noroeste:

Múltiplos relâmpagos para lá do vale do Zêzere, com a aldeia de Telhado à esquerda



Os vizinhos do lado com iluminação extra.

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