sexta-feira, dezembro 04, 2020

Já há neve na Gardunha

Os efeitos da massa de ar polar que nos decidiu visitar já se estão a fazer sentir. Após uma noite de vento muito forte, a descida abrupta da temperatura e a precipitação trouxeram de novo a neve a muitas zonas do nosso país. A Gardunha, como não podia deixar de ser, não foi excepção como esta manhã pudemos verificar após nos termos arriscado a subir até próximo dos 1.000m. Por precaução, dado que as condições meteorológicas eram severas (temperatura negativa, vento forte e continuação de queda de neve), não subimos mais.

Embora ainda não haja muita acumulação, o cenário da Gardunha vestida de branco já enche a vista. Veremos o que nos trazem as próximas horas.

Galeria fotográfica (clicar nas fotos para ampliar).
















quarta-feira, novembro 25, 2020

A árvore da paz


Gingko bilobas em Aldeia de Joanes
(clicar nas fotos para ampliar)

Por norma, sou contra a aparente falta de critério das autarquias na escolha das espécies de árvores para plantação em locais públicos, sobretudo quando as espécies autóctones são preteridas em favor de espécies exóticas que nada têm a ver com a geografia local. 

Neste caso, contudo, e mesmo que a escolha tenha eventualmente sido aleatória, este conjunto de árvores é muito interessante pela antiguidade desta espécie na Terra e também pelo simbolismo da sua ligação a um dos episódios mais tristes da História da Humanidade.

Este é um grupo de Gingko bilobas e foi plantado na localidade de Aldeia de Joanes, junto à estrada nacional nº 343. É uma espécie originária do Sudeste da China, único local do Mundo onde crescem em estado selvagem. Trata-se também de uma das espécies vivas mais antigas do planeta, existindo no registo fóssil de há cerca de 200 milhões de anos.

É também considerada um símbolo da paz e de longevidade por vários motivos. Um deles é o facto de 6 Gingko bilobas terem sobrevivido à explosão da bomba atómica em Hiroshima. Ainda estão vivos hoje (ver aqui). Outro motivo é o facto de os exemplares mais antigos desta árvore terem hoje cerca de 3.000 anos havendo inclusive estudos que sugerem que a longevidade da árvore é teoricamente infinita.

Neste grupo da Aldeia de Joanes, há pelo que percebi dois exemplares fêmea, sendo o restante machos. Isto é perceptível pelos pequeno frutos alaranjados que as fêmeas produzem. O Outono é a época em que estas árvores mais emprestam fulgor à paisagem, com as folhas, em forma de pequenos leques, a adquirirem uma intensa tonalidade amarela, tanto nas copas como nos tapetes que se vão formando sob as árvores.

Esta árvore é também usada para efeitos medicinais acreditando-se que ajuda nos processos de memória e cognição, embora haja quem discuta a sua real eficácia, assim como na cozinha tradicional chinesa.

quarta-feira, outubro 07, 2020

O castelo de Castelo Novo


Torre sineira e pano de muralha, prolongado pela cortina metálica contemporânea

Hoje, dia 7 de Outubro, celebra-se o Dia Nacional dos Castelos. A imagem que temos destas construções é algo romantizada, remetendo para os imponentes castelos medievais que o cinema e a literatura promovem. Também os restauros que foram feitos nos dois últimos séculos contribuíram para essa imagem ao reedificarem os castelos não com base em matéria factual mas antes em função da subjectividade e da sensibilidade dos autores dos projectos. 

Contudo, a tipologia dos castelos é muito variada e evoluiu grandemente ao longo do tempo, desde as fortificações "low cost" dos primórdios da Idade Média, em taipa ou madeira, até aos castelos mais tardios, com sistemas de fortificações complexos que incluíam barbacãs, alambores, torres albarrãs, matacães entre outros.

O castelo de Castelo Novo

Foto: Pedro Brito: 

Para assinalar este dia, evocamos aqui o castelo de Castelo Novo, a única fortificação medieval existente na Serra da Gardunha.

A tradição diz que o povoamento da hoje aldeia histórica de Castelo Novo sucedeu ao do Castelo Velho, situado mais acima na Gardunha, devido a uma praga de formigas. Esta é aliás uma explicação recorrente na voz do povo para explicar a relação entre povoados e ruínas que lhe sejam próximas e, quando não são formigas, a culpa recai inevitavelmente sobre os gafanhotos.

Castelo Novo recebeu foral em 1202, tendo sido doada aos Templários que trataram de construir ali um castelo que, embora modesto quando comparado com os mais próximos, integrava o dispositivo de vigilância e defesa fronteiriça desta parte do reino contra as incursões dos vizinhos leoneses e castelhanos. 

É no século XIV que a história do castelo vai viver os seus episódios conturbados ao ser atacado e destruído pelos castelhanos durante as Guerras Fernandinas. Com a paz promovida por D. João I, o castelo foi reconstruído e transformado em residência do comendador da Ordem de Cristo, herdeira da Ordem do Templo. Foi-lhe também acrescentada a torre que depois se tornaria sineira e que hoje se destaca na aldeia (com a bem posterior adição do relógio, claro).

O foral de Castelo Novo seria confirmado por D.Manuel I em 1501 mas depois, lentamente, a vila começou a entrar em declínio e o castelo entrou em progressiva degradação. Acabou abandonado e a servir de pedreira para as construções da aldeia.

Em boa hora foi alvo de escavações arqueológicas, entre 2002 e 2004, que recuperaram a história esquecida deste castelo. O processo de consolidação e de criação de estruturas para a visitação que se lhe seguiram vieram devolver-lhe alguma dignidade e fazer hoje do castelo de Castelo Novo um marco na paisagem da vertente Sul da Gardunha que merece ser visitado. A localização da aldeia história, coroada pela torre sineira e restos da torre de menagem do castelo, abraçada pela Serra da Gardunha no local onde se ergue a majestosa Penha, tornam a visita obrigatória. 

quinta-feira, junho 18, 2020

Passadiços. As razões para sermos contra esta nova moda


De Norte a Sul, a moda dos passadiços está a tomar conta do país. Os slogans que os promovem invariavelmente propõem a ilusão de partir à descoberta dos segredos mais bem guardados da natureza ou o visitar da natureza em estado puro. No entanto, o que esta proliferação de passadiços está a fazer é precisamente o oposto, colocando em risco a natureza, expondo locais até agora selvagens ou pouco frequentados ao turismo de massas, com tudo o que isso implica. Mas comecemos pelo início.

A colocação de passadiços em Portugal começou na década de 1980 nas zonas costeiras, tendo como objectivo diminuir o impacto da passagem das pessoas nos ecossistemas das dunas durante a época balnear. A instalação deste tipo de equipamentos foi-se alargando, conjugando a preocupação ambiental com a vontade em criar condições de acessibilidade. A dada altura, no entanto, os passadiços começaram a ser vistos como equipamentos de recreio, tendo esta função acabado por se tornar predominante, transformando até o fenómeno dos passadiços num de oferta turística popularucha.

Em 2015, foram inaugurados os passadiços do Paiva que, aliás, são hoje uma referência para este tipo de percursos em Portugal, em todos os aspectos. No entanto, são também um claro exemplo do efeito negativo que exercem na natureza que, paradoxalmente, alegam promover. A curiosidade e o interesse gerados pela divulgação dos passadiços dos Paiva levaram a um afluxo em massa de visitantes, mais turistas da natureza que verdadeiramente caminheiros e amantes da natureza, tendo-se chegado a registar cerca de 10.000 visitantes num só dia. O impacto desta afluência no local foi terrível.

Ao longo de todo o percurso acumulou-se lixo, a vegetação foi cortada, o ruído aumentou tremendamente, juntando-se a isso o aumento da circulação automóvel, o aparecimento de vendas ambulantes e bares ilegais. Foi de tal monta que foi necessário limitar o número de entradas diárias a um máximo de 3.500 e, como não foi suficiente, o número foi reduzido para 2.500. As regras a apelar ao respeito pelo local são claras, mas, numa visita relativamente recente que fizemos ao local, ficou claro que não havia controlo além das zonas de acesso, havendo inclusive visitantes que chegaram ao cúmulo de transportar consigo altifalantes debitando os últimos sucessos dos arraiais de Verão. Apesar dos protestos de uma associação ambientalista local, parece ser claro que a aposta autárquica é na massificação turística. O anúncio com pompa e circunstância da construção da “maior ponte pedonal suspensa do Mundo” para ligar os passadiços a outro refúgio da natureza ali próximo demonstra-o.

A febre da criação de passadiços é de tal monta que até se constroem passadiços sobre trilhos pedestres já existentes, aumentando drasticamente o custo de criação do percurso e desvirtuando a experiência de proximidade com a natureza. Em suma, e salvo algumas boas excepções, propor percursos em passadiços como percursos de valorização e promoção da natureza é como criar uma linha de refeições prontas ultra-congeladas com o rótulo de “comida caseira da avó”. Chega a mais pessoas, o custo de produção e a factura ambiental são maiores, mas, definitivamente, está longe de ser aquilo que diz ser. 

Artigo publicado no boletim informativo "Papa-Léguas" nº8 2020
dos Caminheiros da Gardunha
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