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segunda-feira, dezembro 10, 2018

Os segredos da Penha da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 1 de Novembro de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros
   - Os Castros da Serra da Gardunha
   - Floresta portuguesa, um ano depois


A Penha da Gardunha, com os seus pinheiros-silvestres, vista de NE.



A Penha da Gardunha é um enorme esporão rochoso, sobranceiro à aldeia histórica de Castelo Novo, e que se destaca na paisagem da Serra da Gardunha. Contrariando um equívoco comum, a Penha não é o ponto mais alto da Gardunha já que se eleva a uma altitude de pouco mais de 1150m, bem abaixo, portanto, dos 1227m do Alto da Gardunha.

 Mais do que a sua imponência ou a magnífica paisagem que do seu topo se avista, que inclui até terras de Espanha, o que faz deste monumento natural um local tão intrigante quanto fascinante é a sua história e a transversalidade de crenças que aqui têm raízes. É justo dizer-se que a Penha constitui o pilar da religiosidade das comunidades da Serra da Gardunha e no seu topo existem ainda vestígios de construções que são o que resta do antigo santuário de Nossa Senhora da Serra.

A existência deste santuário foi justificada pela lenda de uma menina de Alcongosta que se perdeu e que acabou por ser encontrada incólume, nove dias depois, junto à cavidade conhecida hoje como Gruta. Informados pela criança que esta tinha conseguido sobreviver por ter sido alimentada pela “senhora” que ali vivia, as pessoas que a procuravam entraram nessa gruta e depararam-se com uma imagem da Virgem Maria, que depois foi baptizada como Nossa Senhora da Serra. O local passou a ser objecto de uma importante romaria anual, sempre por altura da Páscoa e, aos poucos, o santuário foi crescendo em tamanho e complexidade. Algumas capelas foram adossadas ao templo principal, nomeadamente a pequena capela do Santo Cristo (cuja pequena planta quadrada é hoje bem visível), a nova casa do ermitão foi construída para substituir a modesta construção anterior (cuja divisão bem delineada escavada na rocha é bem visível) e foram construídas vias de acesso conjugando calçada e escadarias.

Sobre este último aspecto, os Caminheiros da Gardunha identificaram há relativamente pouco tempo o segmento de 350m de escadarias da via de romaria a partir de Castelo Novo, correspondendo à descrição que dela faz o Padre Peralta no Diccionário Geographico em 1758: "ha anos, em uma ascensão que fizemos á desmantelada gruta da Senhora da Serra acima d'esta região e quasi no viso da serra, veêm-se ainda aqui e alem pequenos lanços da estreita calçada que coleando por entre rochedos e precipicios, dava aceso para a gruta da Senhora da Serra aos romeiros que saahiam d'Alpedrinha, Alcongosta e outros povos, nos bons tempos, em que parece a fé se aliava com a poesia na escolha do local para os santuários". 

A escadaria da via de romaria a partir de Castelo Novo. 


A obra “Orologia da Gardunha”, de José Inácio Cardozo, descreve uma expedição à Penha realizada a 9 de Outubro de 1846 (com os expedicionários a munirem-se de mantimentos e espingardas) e dá uma boa ideia da organização do santuário, que nessa altura já estava abandonado. Este abandono foi, ao que parece, uma consequência do excesso de fervor que as gentes que se deslocavam em romaria a este santuário imprimiam à sua devoção.

O relato de alguns episódios mostra bem que esta romaria era tudo menos monótona, referindo-se, entre “rixas indecentes e criminosas”, a cruz de prata processional das gentes de Castelo Novo, que estava toda amolgada das pedradas que tinha levado, ou ainda o episódio da destruição acidental da própria imagem de Nossa Senhora da Serra, por um grupo de moradores de Valverde, tendo esta acabado por ser substituída por uma outra imagem custeada pelas gentes do Souto da Casa.

Certo é que, procurando conter estes “excessos da fé”, primeiro proibiu-se tirar a imagem do altar para as procissões e, mais tarde, o santuário acabou mesmo por ser desactivado e demolido, tendo a imagem de Nossa Senhora da Serra sido trasladada para a Igreja Matriz de Castelo Novo, onde ainda hoje se encontra, em detrimento de Alcongosta que também reclamava para si a posse da imagem.

Uma sacralidade milenar

No entanto, a História da ocupação humana da Penha remonta a tempos muito anteriores ao do santuário da Senhora da Serra, tendo aqui sido recolhidos materiais que remontarão à Idade do Bronze. A historiografia refere ali a existência de um castro mas os vestígios parecem-nos demasiado escassos para se poder fazer tal afirmação sem que, pelo menos, se mantenham algumas reservas. É possível sim que, tendo em conta a antiguidade dos vestígios ali encontrados e a posterior criação do santuário cristão, este tenha sido um local de culto pagão já desde tempos pré-romanos e que, mais tarde, com o advento e imposição do cristianismo, terá sido cristianizado. Estaremos, pois, a falar de uma sacralidade que, apesar das transformações do espaço, se prolongou por milénios neste local!

O valor sagrado da Penha vai, apesar de tudo, bem para lá desta dualidade pagã-cristã, continuando a motivar “romarias” ao longo de todo o ano. Perscrutando as estrelas ou procurando no interior da Terra ou até dentro de si próprio as respostas às suas inquietações, muita gente continua a subir à Penha pelos vestígios de caminhos milenares, em busca dos segredos deste lugar. Por enquanto, a Penha teima egoistamente em guardar os seus segredos e, enquanto não os revela, vai-se alimentando do assombro de quem a visita.

Leitura recomendada: "A Via de Romaria ao santuário da Senhora da Serra", por David Caetano, André Mota Veiga e Mário Castro. Poster publicado nas I Jornadas de Arqueologia e Património do Museu Arqueológico do Fundão. Abril de 2017

quarta-feira, junho 20, 2018

Os romanos passaram pela Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 14 de Junho de 2018 

Artigos anteriores: 
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Momento do levantamento do achado

Foi recentemente notícia aqui no Jornal do Fundão, a descoberta de um altar romano no limite da freguesia de Alcongosta durante uma actividade dos Caminheiros da Gardunha. Uma descoberta deste género é sempre um momento feliz, sendo que essa felicidade diz respeito tanto ao sentimento que a descoberta em si inspira em quem a faz, como à conjugação de circunstâncias que permitiram que esta acontecesse.

Este altar ou ara, como é mais comum designar-se, foi encontrado junto aos vestígios da via romana que ligam Alcongosta a Alpedrinha, num local onde as marcas de actividade humana denotam uma certa persistência ao longo do tempo. Trata-se de uma peça esculpida em granito de grão fino e o cuidado no seu acabamento contrasta com uma certa irregularidade nas letras da inscrição que exibe numa das faces. Facto curioso, trata-se da ara romana encontrada a maior altitude na região.

O local do seu achado traz mais interrogações que respostas. Desde logo, estará no seu local original ou foi para aqui trazida em época posterior? A ser verdadeira a primeira hipótese, existiria por perto alguma casa ou povoado? Onde? Também o contraste o acabamento da peça e a irregularidade das letras do seu texto parece indicar que esta terá sido adquirida num local diferente daquele em que foi acrescentado o texto. Sabe-se para já que a inscrição refere o nome de uma mulher e que se trata de um nome indígena, um nome “lusitano” se quisermos falar de forma mais simplista, o que mostra que a população local estaria então bem integrada nos costumes romanos. É provável que se trate de uma inscrição funerária, uma lápide mandada lavrar após a morte desta mulher, por alguém que a estimava e que assim quis perpetuar a sua memória. 

Era costume, na época romana, construírem-se monumentos funerários para assinalar o local de sepultura dos defuntos. Podiam ser em forma de altar, podendo ser o caso deste que agora foi encontrado, mas não só. A forma do suporte das inscrições podia variar, à media da própria dimensão e monumentalidade das sepulturas. Conhecem-se muitos exemplares de inscrições funerárias ao redor da Gardunha provenientes de Castelo Novo, Alpedrinha, Donas, Souto da Casa, Vale de Prazeres e até do Fundão, estando a maior parte delas no museu arqueológico da sede do concelho. 

Um dos exemplares mais conhecidos é o da lápide que se encontra encastrada no exterior da igreja de São Pedro, no Souto da Casa, e cuja importância e antiguidade passam despercebidas a quem por ali transita. Trata-se de uma lápide que se destinaria a ser colocada na fachada de um jazigo familiar e refere três elementos de uma família de ex-escravos: pai, mãe e filha.  

É claro que nem todas as inscrições romanas encontradas na região são funerárias. Muitas das aras encontradas nos últimos anos são votivas, ou seja, eram oferendas aos deuses, pertencessem eles ao panteão romano ou não, uma vez que após a conquista romana e apesar de as populações terem abraçado os costumes dos invasores latinos, as divindades indígenas continuaram ainda assim a ser veneradas. Muitas vezes até os próprios romanos aderiam a esse culto em paralelo ao seu.

Altar dedicado a Apolo que até ao último Verão se encontrava numa casa do Casal de Santa Maria, freguesia do Telhado (ver aqui)

As aras destinavam-se a retribuir ou solicitar uma dádiva aos deuses, por vezes até a mais que um ao mesmo tempo. A pedra e a inscrição que nela era gravada não eram mais que o materializar e eternizar desse pacto estabelecido entre o mundo terreno e o divino. Este comportamento tem eco ainda hoje no cristianismo, naquilo que se designa comumente por “promessas” e que é a expressão de um certo nível de politeísmo dentro do suposto monoteísmo desta religião. Vemos esse princípio aplicado quando um crente promete oferecer algo a um santo da sua escolha em troca de uma dádiva.

Depois de gravadas, as aras eram colocadas em local de culto. Muitas delas, têm até esculpida uma concavidade na sua parte superior, o fóculo, que era o local onde eram queimadas essências ou feitas libações aos deuses. Embora hoje as vejamos como blocos monocromáticos, teriam originalmente um aspecto bem diferente, com letras e decorações pintadas.



Reconstiuição hipotética e subjectiva do aspecto original da ara, apenas para dar uma ideia do tipo de cores e do quão diferente seria originalmente.


O mesmo princípio se aplica a estátuas e edifícios. Hoje vemo-los como construções de mármore, granito ou calcário apenas com a cor do material de que são feitos mas, na verdade, na sua época de construção eram bem diferntes, decorados com uma palete de cores fortes e chamativas.

Voltando à ara que é o mote deste artigo, há ainda um longo caminho a percorrer para responder a todas as perguntas que a sua descoberta coloca e é possível que nunca se venham a ter as respostas todas. Para já, o que se sabe é que, há cerca de 2.000 anos atrás e num acto destinado à eternidade, o nome de uma mulher foi gravado em pedra. Hoje, passado todo esse tempo e nada conhecendo dessa mulher a não ser o seu nome, cá estamos nós a ajudar a perpetuar a sua memória. 

segunda-feira, março 06, 2017

Argemela de novo em risco - Recordando uma reportagem de 2003

O monte da Argemela está novamente na ordem do dia pelos piores motivos, a perspectiva da destruição das suas encostas por uma exploração mineira a céu aberto que terá um impacto irremediável na paisagem e recursos hídricos. Na Internet foi já aberta uma petição dirigida aos Ministros do Ambiente e da Economia para travar este processo. Poderão encontrá-la (e assiná-la, já agora) neste link: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT84767

Já no início deste século o local fora danificado durante os trabalhos de abertura de um caminho, que rasgou parte do sistema de muralhas do castro que ali existe e que, mais tarde, foi novamente danificado pela exploração mineira da Unizel, que ali se instalou para explorar feldspato, abrindo um rombo na encosta.

Foi precisamente na véspera do início desta exploração de feldspato que me desloquei até ao monte da Argemela para visitar as escavações arqueológicas de emergência que ali decorriam, na tentativa de delimitar o sítio arqueológico. O resultado foi a reportagem que se segue e que na altura foi publicada no portal ArqueoBeira:


ArqueoBeira - 11 de Julho de 2003
Castro da Argemela (Fundão/Covilhã)


Terminaram as escavações de emergência


Alexandre Valinho e Miguel Serra em pleno trabalho - ArqueoBeira 2003

Terminaram no passado domingo dia 6 de Julho os trabalhos de prospecção de emergência no Castro da Argemela. Estes trabalhos, inseridos no projecto dirigido pela Drª Raquel Vilaça sobre o estudo da ocupação pré-romana na Beira Interior, duraram cerca de uma semana e foram executados pela empresa de arqueologia Palimpsesto - Preservação e Estudo do Património Cultural Lda. Esta intervenção deveu-se à necessidade urgente de delimitar este importante sítio arqueológico, para evitar que a exploração mineira prevista para este monte, o pudesse vir a destruir.

Na zona, está prevista para breve uma exploração mineira a cargo da empresa Unizel. Aparentemente, sob o monte da Argemela, existe um extenso filão de feldspato, mineral que esta empresa explora também na Turquia.

Em conversa com os Drs Alexandre Valinho, Miguel Serra e Eduardo Porfírio, que dirigiu os trabalhos no local, procurámos conhecer um pouco mais a natureza dos trabalhos e aquilo que reveleram.

Vala de sondagem que colocou a descoberto parte da 2ª muralha do castro - ArqueoBeira 2003

Os trabalhos, efectuados no perímetro da "acrópole", consistiram na abertura de 5 valas de sondagem, 4 com 4mx2m e uma, esta adjacente à 1ª linha de muralha, com 8mx2m.

"Os nossos trabalhos visam essencialmente estabelecer uma linha de protecção para o castro, procurando evitar ao máximo que os trabalhos de mineração previstos para a zona, tenham impacto sobre este sítio que já foi muito maltratado" - Afirma Miguel Serra, continuando: "Na parte da muralha que pusemos a descoberto, podemos ver que esta consiste apenas em pedra sobreposta, pelo que trabalhos envolvendo maquinaria pesada ou explosivos poderiam provocar um desmoronamento. Repare que aqui (apontando para uma parte exposta) ela até já apresenta sinais de desmoronamento."


Eduardo Porfírio, director da escavação - ArqueoBeira 2003

Estas sondagens que poderiam eventualmente revelar a existência de estruturas ou vestígios nada produziram: "Essencialmente, procurámos saber se existiam estruturas fora desta linha de muralhas, o que não parece acontecer" - afirma Serra.

Sobre o castro, diz-nos Valinho que "Para além disso, seria necessário confirmar se a alegada 3ª cintura de muralha existe mesmo, ou se é apenas um talude de antigas explorações mineiras. Não deixa de ser atípico que com tanta marca de mineração, não existam informações mais concretas na memória colectiva das comunidades circundantes, acerca deste local.".

De acordo com Alexandre Valinho "Os vestígios encontrados resumem-se a alguns fragmentos de cerâmica, que apontam para uma ocupação durante o Bronze Final ou mesmo Calcolítico".

Sobre o estado de conservação do castro, as opiniões mostram cautela, procurando não alimentar demasiadas expectativas. Alexandre Valinho afirma ainda assim que "é bom ver que, pelo menos esta parte da muralha que não foi arrasada pelos bulldozers, se encontra num estado razoável." Sobre a existência de mais vestígios, afirma que "só futuros trabalhos poderão dissipar essas dúvidas." Uma cautela justificada, se tivermos em conta que o castro foi muito maltratado ao longo dos anos, com a abertura de vários caminhos por bulldozers que sistematicamente rasgaram as cinturas de muralha para a abertura de caminhos e por sondagens geotécnicas em diversas zonas do castro.


A origem

Só recentemente começou a vir a público alguma luz sobre a origem deste local que na tradição popular mistura lusitanos, romanos, visigodos e árabes em histórias de guerras, torturas e nobreza.

Os fragmentos de cerâmica encontrados e o aparelho da muralha sugerem uma ocupação que se terá situado em 3 épocas distintas, com início no Calcolítico, algures no 3º milénio a.C., não existindo no entanto provas que confirmem que essa ocupação tenha sido contínua.

Os escassos vestigios encontrados confirmam uma ocupação no Calcolítico e no Bronze Final, sendo que a muralha se pode situar pelo seu aparelho como pertencendo aos Sécs IX ou X a.C..

"A localização do castro, dominando toda a paisagem envolvente, poderá indiciar uma ocupação da Idade do Bronze, em que este tipo de localização era padrão. Na Idade do Ferro, havia uma maior preocupação em dominar principalmente o rio." - Diz Alexandre Valinho


Os atentados

O castro da Argemela foi durante muitos anos vítima da ignorância e desleixo das pessoas a quem de direito cabia zelar pela sua preservação.

Sob o solo, existem grandes riquezas minerais, facto que aliado à exploração das encostas circundantes por uma empresa de celulose, levou a que a pressão sobre o castro pusesse em risco a sua existência.

Por várias vezes, na imprensa regional, se puderam ler notícias de destruição das muralhas, à medida que sistematicamente estas iam sendo derrubadas por bulldozers que abriam caminhos.

Não sendo mencionado como sítio arqueológico no PDM quer do concelho do Fundão, quer no concelho da Covilhã, os trabalhos no local, não eram acompanhados por arqueólogos o que ajudava a que os vestígios por demais evidentes (acumulação de enormes quantidades de pedra solta e fragmentos de cerâmica) fossem simplesmente ignorados.


A classificação que tardou

O último acto de destruição no castro, no ano de 2002, fez finalmente despertar as consciências. Manuel Frexes, presidente recém eleito da Câmara Municipal do Fundão, deslocou-se de imediato ao local para averiguar in situ o resultado da destruição.

De imediato, foram accionados os necessários mecanismos que, pouco tempo depois, resultaram na classificação do Castro da Argemela como Imóvel de Interesse Municipal pela Câmara Municipal do Fundão.

Resta agora esperar que os futuros trabalhos neste local, possam trazer mais alguma luz sobre a história do castro, para que na nossa imaginação se voltem a erguer as muralhas que outrora dominaram o vale do Zêzere.

terça-feira, outubro 25, 2016

Os misteriosos Fornos dos Mouros da Serra da Maúnça

A crista da Maúnça, com a aldeia do Açor à direita. 

A Serra da Maúnça está condenada a servir de fronteira. Quando caminhamos pela sua crista, o mais provável é que estejamos a caminhar sobre a linha que separa o concelho do Fundão do concelho de Castelo Branco. Chegou a ser até fronteira de um terceiro, o de Sarzedas que, apesar de hoje estar incorporado no da capital de Distrito, ficou preservado na toponímia de um dos locais de maior simbolismo da Maúnça: a Eira dos 3 Termos. 

Por esta Serra passaram inúmeros soldados nos tempos das Invasões Napoleónicas e muitos não chegaram sequer a deixá-la (conta-se que de uma só vez ficaram lá mais de 200 da Grande Armée). Desse tempo sobram nomes como os "Valados", o "cemitério dos franceses" e diz-se até que o intrigante fenómeno da Eira dos 3 Termos (ver aqui) será uma herança visível desse tempo.

Há num entanto outro mistério bem menos conhecido por explicar mas a que o povo já sentenciou a idade. Trata-se dos "Fornos dos Mouros", cavidades abertas nas rochas com uma finalidade desconhecida. Num deles, o que fica no concelho de Castelo Branco, a voz popular ousou até imaginar uma cama: "a Cama da Moura".



O Forno dos Mouros, que na sua parte superior terá a "Cama da Moura".
Foto de 2005

Esta cavidade foi aberta numa rocha em forma de esporão e o seu diâmetro é de quase 50cm. No interior, forma uma câmara onde cabe uma pessoa de cócoras. A referência é a de um indivíduo com a mesma altura do autor deste blogue mas com diâmetro de cintura versão 2005.




A rocha vista de um pouco mais longe. Foto de 2005

Embora um dos "fornos" tenha apenas uma cavidade e outro tenha duas, há várias semelhanças no local escolhido para a sua implantação. Em ambos os casos existe esporão rochoso visível ao longe e situam-se também junto a uma linha de água. Quanto às aberturas, nunca estão viradas para as partes superior ou inferior do vale, tendo pelo contrário uma orientação oblíqua. Será por acaso ou terá havido uma intenção propositada?


O esporão rochoso do outro "Forno dos Mouros", visível na encosta Este.



Só de perto se percebe o grande afloramento rochoso escondido pela vegetação



As duas cavidades, de menor dimensão (dois palmos de diâmetro) sob uma depressão da rocha. Terá havido intenção nesta simetria?


Não há, como referi, uma explicação sobre o propósito destes "fornos dos mouros", tendo pelo contrário recolhido muitas expressões de surpresa e desconhecimento. Há no entanto duas teorias abalizadas sobre o assunto. Uma delas sugere que se trataria de uma espécie de "cofres" proto-históricos, portanto pré-romanos, destinados a guardar bens preciosos. A outra, mais recente, sugere que se trataria de santuários rupestres, feitos para adorar uma qualquer divindade por ora sem forma nem nome. 

No que a mistérios diz respeito, a Serra da Maúnça parece de facto não querer ficar atrás da sua vizinha Gardunha.

domingo, julho 31, 2016

Um forte romano no Gerês

De visita ao Parque Natural da Peneda-Gerês, decidimos explorar um pouco mais uma zona que ainda não conhecíamos, entrando em território galego. Acabou por ser uma viagem no tempo que nos levou até ao período áureo do Império Romano e a um forte de legionários hoje semi-submerso pelas águas do Lima. 

Há alguns dias atrás, decidimos regressar ao Parque Natural da Peneda-Gerês, subindo ao longo da margem esquerda do rio Lima pela "velhinha" estrada nacional 203 a partir de Ponte da Barca. Já antes tínhamos andado por estas bandas (recordar aqui e aqui) mas desta vez decidimos ir um pouco mais longe, explorando o lado galego do Parque, indo até à povoação de Bande para depois regressarmos a Portugal pela fronteira da Portela do Homem.

A paisagem que se avista neste percurso é dominada pelas cadeias montanhosas do Parque e também pelas várias albufeiras das barragens construídas ao longo do curso internacional do Lima. Não deixa no entanto de ser uma paisagem bucólica e cativante.



A Igreja Visigótica de Santa Comba de Bande

Depois de um belo e farto almoço num restaurante à beira da estrada, restaurante que não vem em guia nenhum mas que vale a pena conhecer ali ao km 52 da estrada galega 540, fizemos uma primeira paragem em Santa Comba de Bande. A aldeia mal se avista da estrada mas justifica plenamente o desvio pelo carácter das casas mais antigas e pelo seu ex-libris: a igreja visigótica de São Torcato.





A igreja visigótica de Santa Comba de Bande, com o rio Lima no horizonte



Trata-se de um templo construído no século VII (é a igreja mais antiga da Galiza), no auge do domínio visigodo, e embora o exterior tenha sido bastante modificado ao longo dos séculos, o interior mantém-se fiel ao desenho inicial. Aí é possível ver muitos altares e capitéis romanos reutilizados, assim como o sarcófago onde se encontravam os restos mortais de São Torcato, um dos discípulos de São Tiago (o de Compostela), mais tarde trasladados para Celanova.


Para motivar as pessoas a vir a esta igreja, há uma oferta especial para visitantes estreantes, cortesia de São Torcato. Tocando numa pedra específica situada junto à porta principal podem pedir-se 3 desejos que depois o santo padroeiro tratará de conceder.




Aquis Querquennis, o guardião da Via Nova


Logo ali ao lado, encontra-se um local arqueológico fantástico, tanto pela importância dos vestígios como pela beleza envolvente. Trata-se do complexo arqueológico de Aquis Querquennis que inclui, nem mais nem menos, um forte de legionários, uma estalagem, umas termas (onde ainda brota água quente) e uma povoação, tudo isto complementado por um centro interpretativo.



O caminho que outrora foi a Via Nova (a "Geira") e que hoje faz parte de um dos muitos percursos pedestres da região


O acesso ao forte faz-se por uma secção de caminho que outrora fez parte da Via Nova, a estrada romana que ligava as cidades que são actualmente Braga e Astorga e que, no lado português, é conhecido como Geira. Esta via seguia pelo vale do rio Homem e aqui passava pelo território da tribo dos Querquernos. Aliás, a presença do forte está intimamente ligada a esta via uma vez que se supõe terem sido os legionários aqui estacionados os responsáveis pela sua construção e, mais tarde, pela sua vigilância.

A situação actual dos vestígios arqueológicos é de certa forma irónica. Diz a tradição que quando os romanos comandados pelo general Décimo Júnio Bruto chegaram a estas paragens, acreditavam que o rio Limia era na verdade o mítico rio Lethes, o rio que roubava a memória a todos os que o atravessassem. Como os seus soldados se recusavam a atravessar, diz-se que o general cruzou o rio sozinho e, chegado à margem oposta, chamou individualmente os seus oficiais pelo nome (recordar aqui).

Actualmente é o Lima, aqui por acção da barragem das Conchas, que parece querer entregar os vestígios romanos ao esquecimento, pelo menos de forma sazonal. Quando chegámos, o forte estava semi-submerso, sendo apenas parcialmente visitável. Ainda assim, o que está à vista está perfeitamente identificado através da sinalética que aí foi instalada e também porque as ruínas foram alvo de várias intervenções de consolidação e recuperação.





No forte de Aquis Querquennis, construído por volta do século I e ocupado por uma coorte (cerca de 500 soldados) da Legião VII Gémina, podemos admirar os vestígios da espessa muralha de pedra e respectivas torres, assim como do fosso. Das quatro entradas originais, duas delas foram já escavadas e alvo de intervenções que nos ajudam a ter uma ligeira ideia da sua antiga imponência. No interior destacam-se os vestígios de casernas, dois celeiros, um hospital e do edifício de comando.

À volta do forte, algumas estruturas sugerem que se terá formado aqui um povoado devido ao afluxo de comerciantes, artesãos e até prestadoras de serviços afectivos, o que era muito frequente nestes casos (ver aqui). No entanto, se em alguns locais estes povoados prosperaram e até estiveram na origem de cidades que hoje conhecemos (York em Inglaterra ou León em Espanha), aqui o povoado desapareceu com o forte, encontrando-se hoje a cotas muito baixas dentro da barragem.



Vista aérea do forte. Navegando para Norte, podemos ver os vestígios da mansio e das termas



A porta principal esquerda (porta principalis sinistra) com vestígios da dupla entrada em arco ladeada por dois torreões.



Vista da porta a partir do interior com um dos grupos de casernas em primeiro plano



Vista para a porta decumana com as ruínas das casernas e de um hospital em primeiro plano




Secção ainda submersa do forte, neste caso de outro grupo de casernas. 



A estalagem e as termas

A desilusão surgiu quando quisemos ver os vestígios da Mansio de Aquis Querquennis, das termas e do povoado que estavam completamente submersos. A Mansio, uma estalagem, era uma das várias existentes ao longo deste itinerário, como era aliás habitual nas estradas romanas. Esta tinha um grande pátio aberto com um poço (e cisterna) que foi aliás o único elemento que conseguimos ver acima do nível da água. Logo abaixo da superfície também se conseguia ver o forno para cozer pão encostado a um canto de uma secção da estalagem.



O poço da cisterna da estalagem, que há quase 2000 anos atrás se encontrava num grande pátio rodeado por um muro.



Baliza indicadora da localização da Mansio. Pode-se ver o seu tamanho completo neste link



Em primeiro plano é possível ver, sob as águas, a forma quadrangular do forno.


Não podendo seguir o caminho devido à água, entrámos num pequeno trilho florestal para chegar ao local onde se encontram os vestígios das termas. Com as ruínas submersas, valeu pela beleza e tranquilidade daquele recanto. Apesar de já terem passado quase dois milénios, ainda é possível banharmos-nos nas águas termais tal como os romanos faziam, embora apenas quando o nível da água da barragem o permite, o que não era o caso. Ainda assim, no local pudemos ver uma fonte de água quente sulfurosa que brota a cerca de 50 graus e que é canalizada para os antigos tanques. [Clicar aqui para ver imagens destes tanques]




A água sulfurosa escapando de um tubo junto às termas romanas


A Via Nova, uma auto-estrada romana no Gerês

A Via Nova ou via XVIII, conhecida no lado português como Geira, é um dos ex-libris do Parque Natural da Peneda-Gerês (o nome Geira não deixa de ser curioso já que significa porção de terreno lavrada por uma junta de bois). Esta via fez outrora parte do sistema viário romano principal, ligando as importantes cidades de Bracara Augusta, a actual Braga, a Asturica Augusta, a actual Astorga, e veio responder às necessidades comerciais e sociais do NO peninsular a partir do final século I, que as estradas existentes já não conseguia suprir. Serviu por exemplo para escoar o ouro extraído na região de Las Medulas. A sua zona de influência alcançava também a importante cidade de Lucus Augusti (Lugo).

Concentração de marcos miliários já em território galego, na margem do rio Caldo



Pode-se dizer que este tipo de via romana foi percursor das actuais auto-estradas já que, para além de não passar pelas povoações que havia ao longo das regiões que atravessa, desenvolvia-se um sistema viário secundário para ligar esses povoados à Via Nova, e também porque ao longo do seu traçado se implementavam serviços de apoio ao viajante (Cursus Publicus): as Mansio (estalagens) e as Mutatio (estações de muda de cavalos). 


A Via Nova tinha uma extensão de 215 milhas romanas (1 milha = 1000 passos) o que corresponde a cerca de 318 km, sendo que para assinalar cada milha eram instalados pilares em pedra com indicação de distância a partir da origem (neste caso, Bracara), os chamados marcos miliários. Ora o que é surpreendente é a quantidade de marcos miliários encontrados ao longo da Via Nova: cerca de 280 (à volta de 90 no Gerês). Se tivermos em conta que no conjunto do território da Hispania estão recenseados cerca de 500 marcos miliários, este número diz bem do quão invulgar é esta abundância!

Actualmente é possível percorrer a secção da Geira/Via Nova no PNPG a pé, entre as milhas XII e XL, já no lado galego, sendo este percurso um verdadeiro museu ao ar livre. Em breve lá iremos.



sábado, julho 09, 2016

Sabem onde fica este poço?


Embora pareça tratar-se apenas de um poço com um problema grave de fuga, na verdade há muito mais para dizer sobre ele e sobre este local. Sabem onde fica este poço? Uma pista: o rio em questão é um dos muitos rios que cruzam o nosso território vindos do país vizinho.

quarta-feira, dezembro 31, 2014

Bari e o túmulo do Pai Natal

Apesar de termos chegado já de noite, acabámos por ficar agradavelmente surpreendidos pelo ambiente e pelas ruas reluzentes, estreitas e sinuosas do centro histórico. Foi uma experiência nada condizente com os avisos e recomendações de segurança que encontrámos em vários guias que falam desta cidade. Como se isto não bastasse, ainda tivemos direito a visitar o túmulo do Pai Natal, literalmente o centro de produção de um negócio muito pouco convencional. Sejam bem-vindos a Bari!



O castelo Normando-Suábio de Bari, A cidade tem uma história bem atribulada, tendo sido dominada por romanos, ostrogodos, bizantinos, lombardos, normandos, suábios (hoje parte da Alemanha), aragoneses, silicianos, e por aí fora. No que toca andar de mão em mão, a cidade e o seu castelo dão um bailinho às pombinhas da Catrina.



Despedimos-nos de Cassino e da sua abadia rumo a Bari. A primeira parte da viagem foi feita em comboio regional, no qual testemunhámos a frenética discussão do revisor com dois passageiros prevaricadores. Nesta discussão num italiano com sotaque insondável, bem à moda da região napolitana, pudemos testemunhar parte do vasto manancial de gestos que os cidadãos da "Bota europeia" usam para se fazerem entender. Dizem os entendidos que é possível contabilizar 250 gestos diferentes numa discussão entre italianos eloquentes. Nós podemos dizer que vimos um bom número deles.

A partir de Caserta, uma espécie de Entroncamento no Norte de Nápoles, prosseguimos a viagem noutro comboio, o Frecciargento, uma espécie de intercidades que, para além de ser mais confortável e ter um bem cuidado vagão de cafetaria, tinha também ecrãs que exibiam informação sobre o percurso, mostrando a localização instantânea do comboio num mapa, informação sobre a próxima estação (informação meteorológica e ainda sobre horários dos próximos comboios a sair dessa estação.), para além de outras informações.

Já em Bari (com um atraso de uma hora) uma caminhada de alguns minutos levou-nos até ao centro histórico onde se situava o B&B no qual iríamos passar a noite. O quarto situava-se no R/C da casa, com acesso directo para a rua, sendo muito bem cuidado e tendo uma porta interior "normal" e uma porta exterior espessa em aço reforçado, com fechadura de segurança, que nos deixou algures entre o seguro e o claustrofóbico. 


A Velha Bari



Aspecto nocturno das ruas da Bari Velha. Uma rede labiríntica de ruas que desembocam em pequenas pracetas de forma irregular.



Entrada bastante convidativa no centro histórico pela Via Benedetto Petrone. 



Uma peculiaridade de Bari reside no facto de um pouco por todo o lado se encontrarem altares que são alvo de grande devoção, quase como se fossem os santos protectores do lugar.


Bari está dividida em duas zonas completamente diferentes. Por um lado temos a enorme zona residencial construída segundo uma monótona planta ortogonal no séc XIX (quando Napoleão mandava na cidade) e, por outro lado, temos a medieval Bari Vecchia que é simplesmente encantadora. As casas e o pavimento são feitos do mesmo calcário e a sinuosidade das ruas, as passagens em galerias e o facto de a iluminação deste verdadeiro labirinto não ser demasiado forte confere-lhe um encanto muito próprio. 

Ainda por cima nem sequer fomos assaltados, o que é agradável. Não deixámos no entanto de viver a sensação de estarmos a mais em determinados locais, como aquelas pracetas onde as conversas animadas cessavam subitamente e toda a gente ficava a olhar fixamente para nós. A zona mais movimentada da Bari Vecchia é feita de duas praças, Ferrarese e Mercantile, onde se concentram bares e restaurantes.



O pelourinho de Bari, na Piazza Mercantile, aqui conhecido como Coluna da Justiça ou Coluna da Infâmia. A tradição local diz que os caloteiros era aqui acorrentados e obrigados a ficarem sentados em cima do leão, expostos à vergonha e aos géneros alimentares fora do prazo de validade.

Embora as praças e parte das ruas sejam zona pedestre, convém estarmos sempre atentos porque, a qualquer momento, pode surgir uma bicicleta, uma vespa ou motorizada em alta velocidade. 

Nunca sabemos o que esperar e convém fazer um amplo uso dos sentidos, como o que fizemos naquele episódio em que procurámos instintivamente a protecção de uma escadaria, perante a aproximação do ronco ameaçador de um motor que parecia próprio de uma moto de alta cilindrada mas que, afinal, não passava de uma micro-motorizada circulando a 20km/h, em esforço extremo por transportar duas crianças com menos de 10 anos, respectivamente piloto e passageiro.


Piazza del Ferrarese, onde está exposta uma das entradas romanas da cidade. 


A basílica e o túmulo do Pai Natal!


A basílica de São Nicolau, construída a partir de 1086, durante o período em que os normandos, vindos do Noroeste de França, dominaram o sul de Itália, Sicília e parte do Norte de África.



A Basílica de São Nicolau é dedicada ao santo que está na origem da figura do Pai Natal. Construído em 1086, este templo românico guarda os restos mortais de São Nicolau ou pelo menos a maior parte dos restos. É que, se em geral as relíquias de santos têm o dom da multiplicação, as relíquias de São Nicolau foram protagonistas do fenómeno da divisão.

Em poucas palavras, Nicolau era bispo de Myra, hoje Demre, na costa Sul da Turquia, cidade onde foi sepultado. Reputado como santo milagreiro, tanto em vida como após a morte, as relíquias do santo fizeram da cidade um popular centro de peregrinação.

Infelizmente para os fiéis e os que deles lucravam, os turcos começaram a ameaçar a cidade, tendo a sua posse mudado várias vezes de mãos entre estes, que eram muçulmanos, e os bizantinos, que eram cristãos. A questão da segurança dos restos mortais do santo começou a ser discutida e foi neste contexto que um grupo de marinheiros de Bari conseguiu chegar ao túmulo, de forma bastante subreptícia, e piamente subtraiu todos os ossos a que conseguiu deitar as mãos, regressando imediatamente e em ritmo acelerado a Bari.

Isto desagradou profundamente a Veneza, a outra cidade que cobiçava as relíquias do santo (devido ao seu valor religioso e não pelo facto de poder ser uma boa fonte de rendimentos, claro!), e foi por isso que os venezianos não descansaram enquanto não passaram por Myra, para recolherem o resto dos fragmentos que tinham ficado no túmulo

Estudos científicos recentes comprovaram esta história, tendo ficado provado que as relíquias de Veneza e as de Bari pertenceram à mesma pessoa, um homem falecido aos 60 anos com cerca de 1,68m de altura e que tinha a característica distintiva de ter o nariz partido (ver aqui).

Voltando às relíquias de Bari, após a sua deposição no túmulo, constatou-se com alegria que delas era espontaneamente produzido um líquido, algo que já acontecia no túmulo de Myra. De então para cá, este líquido chamado Maná passou a ser vendido aos peregrinos em pequenos frascos, podendo ainda hoje ser adquiridos na própria basílica. 

Dizem as más línguas, próprias de quem não acredita no Pai Natal, que os 50ml de Maná, solenemente extraídos todos os anos a 9 de Maio, podem ser explicados pelo fenómeno físico da capilaridade, até porque a fórmula química deste fluido milagroso é H2O.



Ícone ortodoxo de São Nicolau com ofertas e pedidos por escrito aos seus pés. O valor total das ofertas varia conforme a taxa de câmbio.

Sendo um santo com um currículo impressionante, afinal São Nicolau é patrono das crianças, tanoeiros, peregrinos, notários, advogados, juízes, marinheiros, pescadores, mercadores, radialistas, falsamente acusados, ladrões arrependidos, produtores de cerveja, farmacêuticos arqueiros e penhoristas, e é também venerado nos vários ramos do cristianismo, houve necessidade de permitir a devida veneração ortodoxa na basílica. Por esse motivo, sob o altar-mor, a cripta onde se encontra o santo foi transformada numa capela ortodoxa que, pelo que pudemos ver, é bastante concorrida.



A capela-cripta ortodoxa de São Nicolau, sob o altar-mor da basílica católica.


A praia do Pão e do Tomate


Pelos que vimos no porto de Bari, há pescadores mais sofisticados que outros.


Cumprida a visita cultural, decidimos experimentar a água do Adriático e fomos até à praia mais próxima, popularmente conhecida por praia do Pão e Tomate. Trata-se de uma pequena praia perto do centro da cidade à qual afluem por tradição as famílias de Bari para passar as suas tardes, embora não necessariamente para banhos dado que até há relativamente pouco tempo estes eram ocasionalmente interditados devido a contaminações da água. Coisa do passado, segundo as autoridades da cidade e se elas o dizem, é porque deve ser verdade. O curioso nome da praia deriva da merenda típica de qualquer família italiana que se preze e que consiste em pão com tomate.

Embora sem pão e sem tomate, aproveitámos para dar um rápido mergulho e a água estava até bem agradável. Outro facto agradável é que também aqui não fomos assaltados, ao contrário dos avisos nesse sentido por parte de alguns guias.



O embarque

Com o fim do dia, chegou também o fim da nossa estadia em Itália. Por isso, recuperámos a nossa bagagem no B&B e seguimos rumo ao porto para apanhar o ferry que nos iria transportar até ao nosso próximo destino, no outro lado do Adriático, ponto de partida para um périplo que nos levaria a percorrer 3 países diferentes.



A última visão de Bari.


A seguir: o país que deixou o Banco Central Europeu com uma certa azia e a cidade-mártir que hoje é Património da Humanidade.

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