quarta-feira, maio 30, 2018

O "não" à Eutanásia e a legitimidade que nos assiste

A discussão durante os últimos dias foi intensa e ontem, finalmente, a proposta de despenalização da eutanásia, ou melhor, as 4 propostas foram a votos na Assembleia da República, sendo que a proposta do PS foi reprovada por apenas 5 votos. Este resultado acaba por ser surpreendente, especialmente tendo em conta a posição do Partido Comunista que votou contra.

Resultado da votação para cada proposta (o documento de cada proposta está disponível no link):

PAN (link) 102 a favor, 116 contra, 11 abstenções
PS (link) 110 a favor, 115 contra, 4 abstenções
BE (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções
PEV (link) 104 a favor, 117 contra, 8 abstenções

Dizem aqueles que eram contra a despenalização, que este resultado mostra que a sociedade portuguesa não quer a eutanásia. É uma completa falácia. A sociedade portuguesa está representada no parlamento por interposta pessoa e, nesta matéria em particular, aquilo a que se assistiu foi a uma expressão das convicções morais pessoais de cada deputado, quando lhes foi dada essa liberdade pelos seus partidos pois, de outro modo, valeu a vontade dos partidos. 

Para a sociedade portuguesa ser ouvida, esta questão deveria ter sido referendada mas, como li algures, “a sociedade portuguesa ainda não tem maturidade para discutir este tipo de questões”. Esclarecedor e contraditório. Portanto, 

Fiquei triste por este resultado pois assumo-me como sendo a favor da eutanásia e do suicídio medicamente assistido, que são práticas diferentes com o mesmo objectivo de antecipar a morte. No entanto, também defendo que o Estado não se pode nunca demitir da sua função social e é da sua responsabilidade fazer com que o desespero e o sofrimento possam ser atenuados de tal forma que o recurso à antecipação da morte seja uma via o menos desejável possível. Isso passa por uma aposta clara no reforço dos cuidados paliativos, algo que até agora não tem acontecido. Aliás - suprema ironia! -, muitos dos que agora exigem o reforço nesta vertente de cuidados hospitalares, são os mesmos que, há uns tempos atrás, promoveram cortes drásticos no financiamento do nosso sistema de saúde. 

Há também muito para dizer sobre as campanhas e discussões que se desenrolaram até ao dia de ontem. Quer-me parecer que muita gente não percebeu exactamente o que estava em causa nem compreendeu o que era isto da eutanásia. Parecia haver pessoas convencidas de que, com a aprovação da eutanásia, se iria assistir ao abater sistemático de doentes pelo país fora ou, no mínimo, que esta iria passar a ser uma prática médica do quotidiano das unidades de saúde. 

Isto também terá sido promovido pelo tom e argumentos de certas campanhas que pareciam apostar claramente na propagação do medo e da desinformação em proveito daquilo que defendiam, o que aliás é uma prática recorrente. Frases como “A eutanásia mata!” acompanhada de uma imagem lúgubre e “Por favor não matem os velhinhos” no cartaz de uma das pessoas que ontem se manifestaram diante do Parlamento, são claros indicadores do nível de esclarecimento que foi promovido.


Exemplo de campanha falaciosa e de desonestidade intelectual. A mensagem que se procura passar é que a eutanásia pode vir a ser uma imposição que não depende da vontade expressa de cada um. Lutar contra a eutanásia torna-se pois uma luta pela própria sobrevivência. 


Houve até uma subtil campanha que traçou um paralelo entre esta eutanásia e o abate de animais em canis, como se estas realidades pudessem sequer ser comparáveis. 

Clamou-se pelo respeito pela vida, alegou-se que toda a vida é sagrada, que tirar vidas é errado. Desconsiderou-se algo que estava aqui em causa que era o direito a uma morte digna e o respeito por uma decisão pessoal que apenas diz respeito a quem a toma.

Tentemos colocar-nos na pele de alguém que, acamado e totalmente dependente, sofre de uma doença incurável e com sintomas que se traduzem num sofrimento contínuo que lhe condiciona totalmente toda e qualquer interacção com o mundo ao seu redor. Vai definhando aos poucos, nesta lenta agonia, sob o olhar da sua família que irá guardar esta visão como a última recordação do seu ente querido.

O desespero e o sofrimento, que nada consegue atenuar, são tais que o alívio da morte se afigura como a única solução viável para lhe pôr cobro. A pessoa não quer sofrer mais e não quer que a família partilhe do seu sofrimento. Pede para morrer, para partir com tranquilidade e com dignidade.

Que moralidade tenho eu, que nem tenho ideia do que ele sofre, para lhe vedar essa opção? Que legitimidade tenho eu para lhe dizer Não, meu caro. Eu acho que todas as vidas são sagradas e toda as vidas devem ser salvaguardadas por isso aguenta e continua a sofrer. A tua dignidade está salvaguardada pela recordação que os teus familiares têm de como tu eras antes de ficares nesse estado. Não gosto de te ver sofrer mas não tens outro remédio. Agora fica aí e aguenta-te enquanto eu vou lá para fora ver as montas, beber copos com os amigos e viver a minha vidinha tranquilamente. Ainda por cima não tenho de suportar a visão de ti nesse estado.

Outra pergunta que eu faço é se alguém se deu sequer ao trabalho de ler as propostas de lei ou se se limitaram a ler os títulos das notícias partilhadas com frases fortes nas redes sociais. O passado recente faz-me suspeitar que se tratou sobretudo do 2º caso.

Ora, o que as propostas de lei diziam é que a eutanásia teria de ser uma decisão do próprio e que essa decisão teria de ser consciente, isto é, teria de ser uma decisão actual, séria, livre e esclarecida:


Por outro lado, a aceitação do pedido teria de seguir um processo de avaliação clínica implicando o parecer de um médico orientar, de um especialista na doença de que padeceria o doente e no parecer de um especialista em psiquiatria. Se todos os pareceres fossem positivos, então o processo seguiria para uma Comissão de Verificação e Avaliação a quem caberia depois a decisão final.

Poderá haver ainda alterações a fazer mas este modelo, parece-me, impediria decisões e acções tomadas com demasiada ligeireza. Por outro lado, havendo já países em que a eutanásia é legal, é sempre possível analisar essas realidades de forma a avaliar e corrigir as suas fragilidades.

Para já, a eutanásia foi colocada na gaveta, provavelmente até às próximas eleições legislativas de 2019. O ardor do debate sobre este tema vai também diluir-se, assim como a vontade manifestada por inúmeros cidadãos e grupos políticos em reforçar o investimento em cuidados paliativos como alternativa moralmente correcta à eutanásia.

Por enquanto, resta aos doentes em sofrimento aguentar-se, à espera que lhes proporcionem uma solução que resolva o seu sofrimento, seja ela qual for.

sexta-feira, maio 25, 2018

Lendas da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Abril de 2018 

 Artigos anteriores:
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem



Falar do património humano da Serra da Gardunha implica necessariamente falar não apenas daquilo que é material mas de igual forma do imaterial. Neste último, enquadra-se um rico manancial de lendas e crenças que nos chegaram, transmitidas essencialmente por via oral. 

Imbuídas de uma profunda religiosidade, que se traduzia em diversos aspectos do seu dia-a-dia, as gentes da Gardunha acreditavam também na existência de diversos seres fantásticos cujos nomes, de tão repetidos ao redor das fogueiras por inúmeras gerações, acabaram por ser percebidos como uma parte banal da realidade que as rodeava, algo tão banal como os fraguedos e as árvores das encostas ao redor. 

Assim, pelos caminhos da Serra, os mesmos caminhos que as gentes trilhavam para irem de uma aldeia para a outra, caminhavam também o Diabo, a Boa-Hora e a Má-Hora e até bruxas, embora estas vivessem até despercebidas no seio das comunidades. Os cruzamentos de caminhos eram locais muito sensíveis pois eram frequentemente locais de “mau encontro”, havendo muitas vezes necessidade de os santificar com a presença de um cruzeiro, fosse ele de pedra ou madeira. 

Em praticamente todos os relatos que pudemos recolher, O Diabo ou Patilhas, como era familiarmente conhecido, é em geral um “pobre Diabo”. A sua obsessão por almas torna-o uma vítima fácil e recorrente da esperteza alheia. Tendo inventado o moinho, vê Deus apropriar-se da sua invenção ao passo que sendo o construtor da calçada que liga o santuário da Senhora da Orada à Portela, também conhecida como Cruz (lá está, num cruzamento), fica sem a alma que lhe fora prometida em troca da obra. Logo ali ao lado, embora já noutra serra, é também vítima da malícia de um sapateiro quando se encontrava no centro de um baile de bruxas, em plena Eira dos Três Termos. Apenas por uma vez a sua aparição tem consequências nefastas, ao deixar sem fala uma habitante da aldeia abandonada de Porto dos Asnos.

A Boa-Hora e a Má-Hora, por sua vez, são duas entidades enigmáticas que vagueiam silenciosas pelos caminhos. A primeira é, segundo as descrições, “branca, muito alta, como se fosse toda feita de algodão” em oposição à segunda que é “um vulto negro”. Nas entrevistas que efectuámos, algumas pessoas afirmaram a pés juntos ter visto estas duas figuras e também é conhecida a história de como, na aldeia de Casal da Serra, um homem foi perseguido até sua casa pela Má-Hora, não se tendo atrevido a sair durante vários dias. A Boa-Hora, personificação de venturas, surge no caminho como o aviso para as pessoas se porem a salvo já que, atrás de si, vem sempre a Má-Hora, a personificação do infortúnio que pode até significar a morte.

À semelhança do que já se faz noutros locais, no nosso país e não só, este manancial de lendas justifica bem a criação de roteiros temáticos, cujo valor paisagístico seja complementado com a partilha deste elementos etnográficos imateriais. Há desde logo um elemento que facilita a tarefa e que é o facto de, de forma geral, todas estas lendas estarem perfeitamente localizadas na geografia da Gardunha. Acreditamos também que é fundamental trabalhar-se no sentido de salvaguardar este acervo. Isso não passa por simplesmente plasmar os relatos em textos mas antes por registar o seu relato na primeira pessoa pelas pessoas que as viveram e ainda vivem de forma íntima, nas diferentes aldeias da Gardunha. Ainda há tempo para tal.

Para terminar, vale a pena fazer referência a uma lenda que implica seres que, hoje sim, são seres imaginários: os lobos da Gardunha. Trata-se da lenda do Penedo da Abelha e que conta a trágica história de um jovem soldado que, tendo saído da casa dos seus pais para ir visitar a sua namorada, nunca mais regressou. Conta-se que dias mais tarde apenas os seus pés terão sido encontrados, ainda dentro das botas.

Ora, foi no próprio Penedo da Abelha que, em 2004, identificámos uma inscrição para a qual o estimado Dr. Candeias da Silva avançou gentilmente uma proposta de leitura e datação. Nesta inscrição dos séculos XVI ou XVII, alguém procurou eternizar junto a uma cruz, o nome Afonso Vaz. Será esta a prova material do local de falecimento de um jovem soldado? 

Ler também: 

segunda-feira, maio 07, 2018

A importância da liderança no rendimento de uma equipa

Nota prévia: este artigo não é sobre futebol mas sim o tema da importância de uma liderança positiva no rendimento de uma equipa para atingir os objectivos que lhes são propostos. 



A conquista do campeonato nacional de futebol pelo Futebol Clube do Porto fica inevitavelmente marcada pelo desempenho do seu treinador Sérgio Conceição, naquilo que foi um exercício de liderança digno de compêndios.

Não vou aqui dissecar a maior ou menor correcção das suas decisões técnicas mas merece sem dúvida ser assinalada a forma como dirigiu o seu grupo de trabalho, sobretudo se tivermos em conta as condições extremamente difíceis em que assumiu o seu cargo. Um verdadeiro caso de estudo para qualquer manual de liderança de equipas.

Convém não esquecer que, quando foi anunciado como treinador do Porto, foi olhado com uma certa desconfiança, o que não era de admirar dada a pouca expressão do seu currículo. Por outro lado, as severas restrições orçamentais, impostas pela UEFA, impediam a contratação de novos jogadores, obrigando à incorporação de activos que se encontravam cedidos a outros clubes e que, ainda por cima, não estavam motivados para regressar, devido às más experiências que tinham tido aquando da sua última passagem pelo Porto.

E o que fez Sérgio Conceição? Aquilo que qualquer verdadeiro líder, digno desse nome, deve fazer de forma a mobilizar a equipa ao seu redor para atingir os objectivos pretendidos:


  • fez com que os jogadores se sentissem valorizados no seio do grupo e no projecto da época e fê-los acreditar nas suas capacidades
     
  • definiu objectivos ambiciosos para a temporada e fez os seus jogadores acreditarem convictamente que tinham capacidade para os alcançar
     
  • motivou de tal forma os jogadores que conseguiu maximizar o potencial de cada um deles, aumentando de forma notável o seu nível de rendimento
     
  • geriu exemplarmente os conflitos, pondo o grupo acima de qualquer laivo de individualismo, não olhando a nomes nem currículos. Sanados os conflitos, a coesão da equipa nunca foi beliscada e os jogadores reintegrados continuaram comprometidos com o grupo
     
  • deu sempre a cara pela equipa e assumiu sempre as responsabilidades dos insucessos, acabando por ser o filtro de pressões externas de que a equipa precisava para se concentrar apenas no trabalho
     
  • Por outro lado, geriu muito bem as relações públicas, mantendo sempre um discurso coerente e convicto, o que ajudou a reforçar a sua imagem de liderança tanto para o exterior como para o próprio grupo de trabalho.

É certo que em alguns momentos cruciais, houve uma pontinha de sorte que fez a diferença mas, já o diz o adágio popular, a sorte sorri aos audazes. Por outro lado, não é menos verdade que, mesmo que não tivesse conseguido alcançar o objectivo principal, o título de campeão, a qualidade de trabalho desenvolvido seria inquestionável. É necessário ter em conta os recursos que lhe foram postos à disposição, especialmente se compararmos com os da concorrência ou até com os dos seus próprios antecessores.

Sérgio Conceição soube demonstrar de forma inequívoca o impacto que uma liderança forte e positiva pode ter num grupo de trabalho e na maximização das capacidades dos seus elementos. Soube demonstrar claramente aquilo que define um líder como antítese de um vulgar patrão.


Sérgio Conceição foi, enquanto futebolista, jogador das camadas jovens da Académica e do FCPorto, tendo depois passado enquanto profissional por Leça, Felgueiras, FCPorto, Lázio, Parma, Inter de Milão, Standard de Liège e tendo terminado carreira no PAOK da Grécia após uma breve passagem pelo Koweit.

Enquanto treinador principal passou pelo Olhanense, Académica, Sporting de Braga, Vitória de Guimarães e Nantes, antes de chegar ao FCPorto. Conquistou esta época o primeiro título oficial da sua carreira.

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