Mostrar mensagens com a etiqueta Demência Colectiva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Demência Colectiva. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, junho 18, 2020

Passadiços. As razões para sermos contra esta nova moda


De Norte a Sul, a moda dos passadiços está a tomar conta do país. Os slogans que os promovem invariavelmente propõem a ilusão de partir à descoberta dos segredos mais bem guardados da natureza ou o visitar da natureza em estado puro. No entanto, o que esta proliferação de passadiços está a fazer é precisamente o oposto, colocando em risco a natureza, expondo locais até agora selvagens ou pouco frequentados ao turismo de massas, com tudo o que isso implica. Mas comecemos pelo início.

A colocação de passadiços em Portugal começou na década de 1980 nas zonas costeiras, tendo como objectivo diminuir o impacto da passagem das pessoas nos ecossistemas das dunas durante a época balnear. A instalação deste tipo de equipamentos foi-se alargando, conjugando a preocupação ambiental com a vontade em criar condições de acessibilidade. A dada altura, no entanto, os passadiços começaram a ser vistos como equipamentos de recreio, tendo esta função acabado por se tornar predominante, transformando até o fenómeno dos passadiços num de oferta turística popularucha.

Em 2015, foram inaugurados os passadiços do Paiva que, aliás, são hoje uma referência para este tipo de percursos em Portugal, em todos os aspectos. No entanto, são também um claro exemplo do efeito negativo que exercem na natureza que, paradoxalmente, alegam promover. A curiosidade e o interesse gerados pela divulgação dos passadiços dos Paiva levaram a um afluxo em massa de visitantes, mais turistas da natureza que verdadeiramente caminheiros e amantes da natureza, tendo-se chegado a registar cerca de 10.000 visitantes num só dia. O impacto desta afluência no local foi terrível.

Ao longo de todo o percurso acumulou-se lixo, a vegetação foi cortada, o ruído aumentou tremendamente, juntando-se a isso o aumento da circulação automóvel, o aparecimento de vendas ambulantes e bares ilegais. Foi de tal monta que foi necessário limitar o número de entradas diárias a um máximo de 3.500 e, como não foi suficiente, o número foi reduzido para 2.500. As regras a apelar ao respeito pelo local são claras, mas, numa visita relativamente recente que fizemos ao local, ficou claro que não havia controlo além das zonas de acesso, havendo inclusive visitantes que chegaram ao cúmulo de transportar consigo altifalantes debitando os últimos sucessos dos arraiais de Verão. Apesar dos protestos de uma associação ambientalista local, parece ser claro que a aposta autárquica é na massificação turística. O anúncio com pompa e circunstância da construção da “maior ponte pedonal suspensa do Mundo” para ligar os passadiços a outro refúgio da natureza ali próximo demonstra-o.

A febre da criação de passadiços é de tal monta que até se constroem passadiços sobre trilhos pedestres já existentes, aumentando drasticamente o custo de criação do percurso e desvirtuando a experiência de proximidade com a natureza. Em suma, e salvo algumas boas excepções, propor percursos em passadiços como percursos de valorização e promoção da natureza é como criar uma linha de refeições prontas ultra-congeladas com o rótulo de “comida caseira da avó”. Chega a mais pessoas, o custo de produção e a factura ambiental são maiores, mas, definitivamente, está longe de ser aquilo que diz ser. 

Artigo publicado no boletim informativo "Papa-Léguas" nº8 2020
dos Caminheiros da Gardunha

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Para se integrar, jovem sírio convida desconhecidos a jantar em sua casa


Tem 30 anos e é natural da cidade de Alepo. Rami é um refugiado sírio que fugiu do seu país e se instalou em Liège na Bélgica. Procurando integrar-se na sociedade e conhecer pessoas, Rami lançou uma página no Facebook na qual, semanalmente, convidava 10 pessoas a ir jantar a sua casa, para provar pratos típicos da Síria.

A iniciativa teve sucesso e a página rapidamente chegou aos 1.000 likes. Infelizmente, a ameaça de controlos por parte da AFSCA, a ASAE belga, levaram a melhor e Rami acabou por fechar a sua página e desistir da iniciativa embora, como referiu, não tivesse nenhum propósito comercial. Fica o gesto.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Porque calaram Marine Le Pen?

0 minutos para Marine Le Pen na Web Summit de 2018
(Foto tirada daqui)

Afinal Marine le Pen já não vai participar na Web Summit 2018 como oradora. Isto acontece na sequência de toda a polémica que o anúncio do convite despoletou, com a organização SOS Racismo e o Bloco de Esquerda a consitituirem-se como as vozes de protesto mais sonantes, e o Governo português a reforçar que a responsabilidade do convite era toda da organização o evento.

Certo é que com ou sem pressão do Governo (que eu acredito que tenha havido), o convite foi mesmo retirado e Marine Le Pen já não estará presente na Web Summit 2018, levando a que tenham sido cometidas duas asneiras em vez de apenas uma

Em primeiro lugar, há que questionar o que fazia Le Pen como oradora no Web Summit visto que se trata de um evento que está ligado à Tecnologia, ao contrário por exemplo das TED Talks. Poderemos eventualmente supor que dá sempre jeito ter le Pen à mão para passar dados caso a rede Wireless falhe  mas, brincadeiras à parte, este evento tem-se sempre pautado por uma certa tendência para o mediatismo na escolha dos seus convidados. Lembrem-se que Nigel Farage foi orador em 2017 e não consta que seja grande especialista em tecnologia, sendo antes conhecido por ser muito bom em armar confusões épicas e depois fugir como se não fosse nada com ele. Que dizer também de Luís Figo e Ronaldinho?

Por outro lado, Le Pen advoga uma política de extrema-direita, na qual os nacionalistas e fascistas mais radicais se revêem totalmente. Ora, não sejamos anjinhos. Sabemos já, pelas lições de História, onde leva este caminho e temos de perceber porque é que a máxima "Fascismo nunca mais!" é mais que uma frase bonita que é moda usar por alturas do 25 de Abril, sabendo que em Portugal o fascismo foi apesar de tudo muito mais brando que noutras paragens da Europa. 

A Web Summit foi no mínimo infeliz ao convidá-la mostrando não perceber o que representa a ideia de fascismo em Portugal e, claramente, subestimou a onda de choque que o anúncio da sua vinda iria provocar. Queriam jogar com a polémica mas não esperavam que chegasse ao ponto a que chegou. 

No entanto, tinham toda a legitimidade em convidá-la para ela falar do que quisesse e certamente teria alguns fãs à sua espera, entre eles vários PNR's e saudosistas de Salazar, a quem o que fazia falta era terem realmente vivido o salazarismo. Em Portugal a Constituição proibe as organizações fascistas (pelos vistos excepto se por cosmética o nome referir "renovação" em vez de "fascismo") mas não proibe que se fale dele, contra ou a favor. É a ironia do princípio da liberdade de expressão. Dupla ironia se tivermos em conta a posição das correntes fascistas em relação à liberdade de expressão. 

Seja como for, feito o convite, não restava outra opção a Patrick Cosgrave senão assumir a responsabilidade do mesmo e mantê-lo. 

Tendo retirado o convite, a Web Summit fez de Marine Le Pen uma vítima e passou a ideia da existência de um certo nível de censura em Portugal. Se o tivesse mantido, teria sido uma excelente oportunidade para a maioria dos portugueses mostrar o que pensa do fascismo, boicotando a intervenção de Marine Le Pen ou manifestando-se contra ela, com todo o fôlego que os ventos de Abril permitissem. 

terça-feira, julho 31, 2018

Dar armas a crianças com 3 anos? Só na America

Sacha Baron Cohen já nos habituou aos seus programas televisivos e filmes que se traduzem num caldo de vergonha alheia e polémica pela forma como expõe cruamente os podres da sociedade estado-unidense, geralmente intepretando personagens com as quais engana diversas personalidades incautas que julgam estar diante de uma personagem real. O seu mais recente trabalho é a série "Who is America?" onde Baron Cohen põe a nu alguns dos lugares físicos e mentais mais obscuros de uma nação, começando por abordar a eterna polémica do livre acesso a armas e os recorrentes tiroteios nas escolas.


Sacha Baron Cohen como Erran Morad, especialista em contra-terrorismo


Fazendo-se passar por um agente anti-terrorista israelita, Baron Cohen entrevista Philip Van Cleave, presidente da Liga de Defesa dos Cidadãos da Virgínia, fazendo-o acreditar que em Israel existe um programa ao abrigo do qual as crianças são ensinadas a usar armas a partir dos 3 anos para defenderem a sua escola de muçulmanos. A reacção de entusiamo da parte de Van Cleave é ficar de queixo caído, chegando inclusive a afirmar que as crianças mais jovens "ainda não desenvolveram consciência. Ainda estão a aprender a diferença entre certo e errado" e que, por isso, "podem ser soldados muito eficazes".

O clímax desta primeira entrevista é quando Cohen consegue convencer Van Cleave a gravar um programa infantil para ensinar âs crianças como usar armas:


"Lembrem-se de apontar a boca do Cachorrinho Pistola..."



"... para o meio do homem mau"


Larry Pratt director executivo da associação dos Portadores de Armas da América, um grupo lobbyista com um discurso extremamente "musculado", é o segundo entrevistado no programa. Usando Pratt como "cunha", Cohen consegue convencer alguns senadores e ex-senadores, assim como o próprio Pratt, a participarem num anúncio de promoção do programa "Kinder Guardians", para armar crianças na escola.


As crianças de tenra idande são puras e não corrompidas por fake news ou homossexualidade


O que é interessante na retórica de Pratt, é a a forma como liga subtilmente o seu anti-islamismo aos tiroteios nas escolas, quando refere que as crianças podem conseguir reagir instintivamente ao ouvirem "Allahuh Akbar", isto apesar de esses tiroteios não serem perpetrados por extremistas islâmicos mas sim por cidadãos "com problemas mentais", ou seja, a classificação em que se encaixam todos os terroristas que não são extremistas islâmicos.

Mais uma vez, Sacha Baron Cohen consegue transmitir-nos uma visão inquietante dos Estados Unidos da América, onde os preconceitos religiosos e raciais estão profundamente enraízados na sociedade e o anti-extremismo se torna ele próprio uma forma de extremismo.

O 1º episódio da série pode ser visto aqui:


sexta-feira, julho 20, 2018

Como identificar falsas notícias


A comunicação social é hoje bem diferente daquilo que era há alguns anos, sobretudo pelo sucesso alcançado pelas redes sociais, de que o Facebook é um dos melhores exemplos. As redes de partilha de informação deixaram de se apoiar exclusivamente nos mass media clássicos (imprensa, rádio e televisão) e passaram a ter nas redes sociais um pilar importantíssimo. A informação propaga-se hoje a um ritmo elevadíssimo e, no meio deste turbilhão com um nível competitivo inédito, os agentes noticiosos "oficiais" debatem-se com a necessidade diária de serem os primeiros a obter e divulgar as notícias. Em consequência:

  • O tempo dispendido para validar a credibilidade dos factos apresentados na notícia é menor

  • A deontologia é muitas vezes desconsiderada face à urgência de mostrar trabalho e garantir leitores/audiência

  • Há um efeito "cascata" em que se um agente noticioso publica uma notícia inédita, validada ou não, muitos outros vão atrás e reproduzem-na, partindo do princípio que foi validada na fonte

Esta precipitação é de tal monta que, por vezes, até artigos satíricos são partilhados como sendo verdadeiros. Lembram-se de quando a cadeia televisiva RT difundiu a notícia de como a Roménia tinha enviado ajuda para o Tahiti em vez do Haiti? [Ver aqui]




Por outro lado, nas redes sociais cada utilizador tornou-se um agente noticioso não oficial, partilhando publicações que vai encontrado no seu "feed" de informações, cronologia se preferirem. O problema é que a validação da sua fiabilidade é geralmente nula e reveste-se de várias particularidades:


  • Não há obrigação deontológica de validar a credibilidade dos factos

  • As partilhas são sempre influenciadas pelas convicções e preconceitos de cada um e são motivadas, ou seja, estamos pré-condicionados para tomar como credíveis todas as notícias que vão de encontro às nossas convicções e preconceitos. 

  • As partilhas são motivadas pela necessidade viciante de obter "Likes", no fundo, de se sentir importante no seio da "comunidade virtual"

  • O fascínio do sensacionalismo, a pressa em obter "Likes", e, por vezes, uma certa preguiça, fazem com que a partilha se faça de forma precipitada, apenas com base na leitura do título e poucas vezes se lê, como sempre deveria acontecer, o corpo da notícia

  • A partilha raramente avalia as motivações políticas ou sociais de quem publicou originalmente a notícia


Todo este conjunto de factores cria o eco-sistema ideal para o surgimento e proliferação de notícias falsas ou, "como se diz em americano", as Fake News. Esta é uma praga que infesta a sociedade de informação actualmente e frequentemente ultrapassam, em termos de alcance, a verdade dos factos. Por outro lado, quando se descobre que uma notícia é falsa, o alcance do seu desmentido é irrisório quando comparado com o alcance que a notícia atingiu inicialmente. Porquê? Porque, desprovido que é de sensacionalismo, a motivação para a partilha de um desmentido é muito menor.


Cada um é responsável por aquilo que partilha!

De facto, mesmo que não sejamos autores de uma determinada notícia falsa, o facto de a partilharmos torna-nos parcialmente responsáveis pela sua existência e pelas suas consequências, que em casos extremos podem ser trágicas. 

Um caso que ficou célebre foi o do Pizzagate, nos Estados Unidos no qual, devido a um boato que se tornou viral, um homem invadiu uma pizaria e disparou vários tiros porque acreditava que esta era o local de tráfico de crianças por pedófilos ligados ao partido democrático [Ver aqui].

No Brasil, um rumor que se tornou viral, levou ao linchamento de uma mulher que tinha sido transformada numa raptora e abusadora de crianças. [Ver aqui]

As falsas notícias que mais frequentemente vejo serem partilhadas têm a ver com:
  • conteúdos raciais
  • conteúdos religiosos
  • conteúdos políticos
  • teorias da conspiração

Os actos de vandalismo de um grupo de hooligans adeptos do Basileia (na Suíça) transformou-se em supostos actos de violência por parte de muçulmanos que queriam impor o respeito pelo Ramadão em Birmingham, no Reino Unido [imagem tirada daqui]

Quando vemos uma notícia que provoca em nós uma reacção emocional, o primeiro impulso será de a partilhar imediatamente. É precisamente nesse momento que devemos ter a capacidade de refrear esse impulso e de colocar a questão fundamental: "Será que isto é verdade?"


Como identificar notícias falsas?

Quando me deparo com uma notícia partilhada que chame de alguma forma a minha atenção pelo seu título e que levante algumas suspeitas, sigo sempre o mesmo método de avaliação:
  1. Abrir e ler a notícia. O título está em harmonia com o seu conteúdo? Cita fontes? Aproveitem também para verificar a data da publicação.

  2. Analisar o site em que está publicada. É um site fiável? Qual é o sentido geral das suas publicações (pode ser satírico, política ou religiosamente tendencioso, ...)?

  3. Fazer uma pesquisa pelas fontes citadas. Existem? São quem a notícia diz serem?

  4. Procurar a notícia noutras fontes de informação, nomeadamente em sites informativos credíveis, como canais de televisão ou jornais on-line. Se não encontrarmos a notícia em nenhum deles, será bastante suspeito.

  5. Partir do princípio que a notícia é falsa e pesquisar no Google como se assim fosse. Usando o exemplo dos hooligans suíços que atrás referi, o método que usei para descobrir que se tratava de fake news foi simplesmente o de fazer uma pesquisa no Google com os termos "Ramadan riot Birmingham fake" ("Ramadão tumulto Birmingham falso")
  6. Copiar uma frase da notícia suspeita e pesquisá-la, colocando-a entre aspas, no Google
  7. Suspeitar de todas as partilhas que sejam acompanhadas de frases como "Esta publicação está a ser censurada! Partilhem antes que o Youtube ou Facebook elimine este artigo outra vez!"

Claro que nem todas as partilhas são de artigos. Muitas vezes são fotografias acompanhadas de uma descrição e é mais difícil verificar a origem desta. 

O caso bem conhecido de uma imagem partilhada com falsa descrição. Tornou-se viral por representar supostamente o êxodo de europeus para África durante a II Guerra Mundial mas, na verdade, representa a fuga de dezenas de milhares de albaneses para Itália nos anos 1990. [Imagem tirada daqui]


Diferentes imagens com a mesma credibilidade:

Uma frase atribuída a Catarina Martins e publicada no Jornal Expresso que, pelos vistos, na semana em questão foi publicado... à Quarta-feira! Uma pesquisa no Expresso on-line não deixa dúvidas quanto à não-existência desta frase.


O cartão de Fernando da Silva Pais, director da Pide, foi transformado no "cartão de informador" de Cavaco Silva


Neste cartão de membro da FNLA, a identidade de Peter McAleese foi substituída pela de Manuel Alegre


No entanto também há formas de despistar a sua credibilidade, sendo a mais simples a de fazer uma pesquisa de imagens no Google
  1. Abrir a imagem num novo separador (Botão direito do rato - Abrir em novo separador) e copiar o endereço da imagem da barra de endereços do nosso navegador
     
  2. Fazer uma pesquisa de imagens no Google, pesquisando pelo endereço da imagem. O Google vai procurar imagens visualmente semelhantes e apresentar os sites onde elas se encontram. Se os factos da partilha forem falsos, será possível encontrar na lista de resultados o seu contexto original ou o desmentido da falsa legenda.

É claro que haverá partilhas cuja veracidade será difícil de validar mesmo com todas estas etapas de verificação mas garanto que a grande maioria das falsas notícias será facilmente detectada desta forma. Dá algum trabalho mas vale a pena até porque, como referi atrás, cada um de nós é responsável por aquilo que partilha, tanto pela sua veracidade como pelas suas consequências.

Já agora, para terminar, gostava também de ter algum feedback vosso. Quais são as formas de verificação da veracidade das notícias que utilizam? Acham que esta lista é completa ou falta alguma coisa?



quarta-feira, julho 04, 2018

Mundial 2018 - Bandeiras na janela arriscam multa

À semelhança do que vai acontecendo um pouco por todo o lado nos países que participam no campeonato do Mundo de futebol que está a decorrer na Rússia, também na Bélgica se avistam bandeiras tricolores penduradas no exterior das casas e carros, sendo que nestes últimos, até há acessórios bastante curiosos que lhes dão um certo aspecto diabólico.

Ora, para aproveitar este assomo de fervor patriótico momentâneo, a "Jupiler", uma marca de cerveja belga, decidiu investir forte em termos de marketing e mudou temporariamente o nome para "Belgium". Ao mesmo tempo, lançou uma campanha de oferta de brindes, nos quais se inclui uma bandeira com referência à sua marca. Como é lógico, esta bandeira começou a concorrer com as bandeiras "oficiais" em termos de exibição no exterior das casas e tudo parecia estar bem encaminhado para um Mundial de pleno fervor patriótico da "Gallia Belgica". Só que não.





Subitamente, vários especialistas de direito fiscal começaram a alertar para a possibilidade de os cidadãos que têm essas bandeiras da Jupiler expostas no exterior das suas casas poderem pagar uma multa que pode ir até aos 50 euros. Ao que parece, certos municípios impõem uma taxa sobre exposição publicitária e as ditas bandeiras são efectivamente publicidade. Inclusive, o partido nacionalista Flamengo tem vindo a contestar o facto de se estar a promover com estas bandeiras uma marca de cerveja... valónia.

Também certos acessórios para automóveis têm sido motivo de ameaça de multa mas por parte da polícia, visando especialmente as capas para retrovisores. O motivo aqui é simplesmente o facto a redução da visibilidade pôr em causa a segurança na circulação rodoviária.





quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Não, a lei que permite a entrada de animais em restaurantes não é o 1º sinal do fim do Mundo.

Imagem tirada daqui

"Após o ribombar das trombetas celestes, o chão irá fender-se derramando sobre a terra legiões de animais famintos e sarnosos que irão invadir os restaurantes, condenando à fome e à intromissão de pêlos, em partes insuspeitas e recônditas do corpo, todos os seres humanos aí presentes.

É desta forma que é encarada nas redes sociais, esse lugar de indignações instantâneas e seguidistas, quiçá com algum exagero da minha parte, a perspectiva da entrada em vigor da lei que irá permitir a entrada de animais de companhia em estabelecimentos de restauração

A receita é sempre a mesma: a aquisição de informação fica-se pela leitura do título de uma notícia, na maior parte das vezes já inquinada por uma certa dose sensacionalismo e falta de rigor, com vista a obter "cliques", e de pronto se faz a sua partilha, juntando-lhe uma série de palavras "robustas", plenas de indignação.

Nas redes sociais, parece que as pessoas perderam a capacidade de ter um certo nível de pensamento crítico e, pior ainda, parecem ter perdido a capacidade para debater assuntos com alguma urbanidade. Basta uma opinião contrária à de alguém para este último desfilar um rol de adjetivos pouco abonatórios dirigidos a quem ousou discordar. Os exemplos são mais que muitos e poderão ter a ver com a sensação de impunidade e protecção que é dada por estarem escondidos por um ecrã.

Depois, no que diz respeito às leis, há sempre um argumento de contraditório que teima em vir à superfície: “Tanta coisa tão importante para legislar e perdem tempo com estas coisas!”. Um bom exemplo disto é a onda indignação geral, com um certo teor de islamofobia, é certo, que se gerou perante inúmeras iniciativas de ajuda a refugiados, que fugiam à guerra na Síria. O argumento principal era que “em vez de se ajudarem os sem-abrigo, estamos a trazer estas pessoas para viverem às nossas custas!”. Então muito preocupadas com os sem-abrigo, seria interessante averiguar quantas destas pessoas se mexeram desde então para os ajudar ou até, sendo picuinhas, quantas delas desviam o olhar quando passam por eles na rua para evitar dar umas moeditas.

Também parece generalizada a ideia de que a Assembleia da República dedicou dias inteiros das suas sessões à aprovação desta lei o que não pode estar mais longe da verdade. Basta ir consultar a documentação disponível no site da Assembleia da República para perceber isso, em vez de nos ficarmos com os pacotes sintéticos de indignação instantânea do Facebook.

Caros concidadãos, se acham que há coisas mais importantes MEXAM-SE! Criem petições, aborreçam os deputados que elegeram para a Assembleia da República. Não fiquem sentadinhos à espera que as mudanças caiam do céu. A cidadania, não se esqueçam, não se esgota nas mesas de voto. É, pelo contrário, um exercício que deve praticado ao longo de um período de 4 anos. Mas adiante.


O que diz afinal a lei que foi aprovada?

Voltando ao tema de abertura, o que diz afinal a lei que foi aprovada na sequência de uma proposta do PAN? 

Não, também não é isto que vai acontecer:



e não, também não vai ser o apocalipse da invasão animal com a chegada dos 4 binómios cinotécnicos do apocalipse como está a ser pintado. 



Em termos gerais, deixa de proibir taxativamente a entrada de animais de companhia em espaços de restauração, excepção feita a cães-guia como até agora acontecia, conferindo aos proprietários a prerrogativa da escolha de permitirem ou não essa entrada.

Ainda assim:

- Essa permissão ou não será dada a conhecer mediante a afixação de um dístico na entrada dos estabelecimentos (como acontecia com a permissão ou não de fumadores). Na ausência do dístico assume-se que a entrada é permitida;

- Os proprietários podem definir um limite de animais dentro do estabelecimento;

- Os animais terão de estar presos com trela curta, não podendo circular livremente

- O proprietário pode definir uma área específica para a permanência de animais em vez de permitir a sua presença em todo o espaço


Percebido? Espalhem a palavra!

Ah! Já agora, senhores donos de animais, porque há regras de civismo que são de observância obrigatória, não tentem aproveitar-se desta lei alegando que agora ninguém pode proibir a entrada de animais. Também será conveniente que os cães estejam treinados para não terem comportamentos que incomodem as restantes pessoas e animais. As regras de civismo aplicam-se a todos embora em Portugal muitas vezes tenha tristemente de ser imposto por lei.


segunda-feira, dezembro 28, 2015

Star Wars, o Despertar da Força mercantilista do blockbuster

Na semana passada fui até ao cinema para assistir ao último filme da saga Guerra das Estrelas, o Despertar da Força. Confesso que estava bastante curioso, não fosse eu um fã de longa data da série cujo entusiasmo se manteve apesar dos recentes 3 filmes da série terem sido assim um tanto fraquinhos. Pensei para comigo "O George Lucas esteve 16 anos sem pegar nisto, é natural que tenha ficado um bocado enferrujado", e de facto o último filme da "prequela" acabou por ser bastante melhor que os anteriores. Interpretei isto como um bom sinal e ignorei o facto de a Disney ter entretanto deitado as unhas à Lucasfilms.

Quando as luzes se apagaram e apareceu o título "Star Wars", acompanhado por aquela música apoteótica tão familiar e seguido pelo desenrolar do texto introdutório, até me arrepiei e o miúdo traquina que um dia fez da carreira de Jedi um plano de vida reavivou-se de novo em mim para pensar com os seus botões: "Isto até é capaz de correr bem", sem perceber que tinha acabado de assistir à parte mais consistente do filme.

O que se seguiu foi uma surpresa sombria: a produção tinha sucumbido à tentação do lado negro da Força mercantilista do blockbuster. Ao longo de 135 minutos, J.J.Abrams e sus muchachos seguem a mesma receita já vista em tempos recentes: sem coragem para inventar uma história nova decidem pegar em personagens novas para as enfiar à força numa embalagem narrativa cheia de clichés dos filmes anteriores, polvilhando a coisa com relações entre os novos protagonistas e os antigos.



Os diálogos são resumidos ao indispensável para manter um certo fio narrativo, dando às personagens um tratamento terrivelmente superficial. Há pessoas que desenvolvem uma relação de amor platónico só porque deram literalmente umas cambalhotas na areia mas o caso mais gritante é o de um casal separado que falhou estrondosamente no seu papel educativo, criando um filho que é um perfeito estupor choramingas, e que se reencontra após muitos anos tendo uma conversa em que a frase mais emotiva é "havia alturas em que me irritavas um bocado".

Imagem: Hitfix.com


E aquela do grande-mestre que se exilou, para expiar a sua culpa em solidão, mas que deixou um mapa dividido em dois bocados, sendo que a maior parte ficou enfiada num dróide deprimido?

Depois, para disfarçar a fragilidade narrativa, junta-se o ingrediente principal desta infame receita: cenas incessantes de acção, com velocidade vertiginosa, raios laser por todos os lados e explosões, muitas e grandes explosões.

Não contentes com isto tudo, Abrams e a sua trupe decidiram atacar os dogmas sagrados do conceito Star Wars, dando a entender que isso de se ser Jedi é uma coisa que afinal não exige anos de aprendizagem. Qualquer sucateira aprende os mistérios da Força em coisa de 10 minutos, sem se esforçar muito e qualquer funcionário de saneamento básico é tão hábil com um sabre de luz como com um desentupidor de sanitas.

É portanto um filme com uma narrativa fraca mas visualmente apelativo, que se recomenda a quem tiver alguma afinidade com a saga mas também a quem apeteça relaxar, no final de uma árdua jornada laboral, dando a oportunidade aos seus neurónios de usufruírem de 135 minutos de inactividade. Também é nítido que a Disney apostou grande parte das fichas no merchandising à volta do filme e que começou a ser disponibilizado muito antes da estreia, para desta forma criar interesse em relação ao filme. Basicamente aquilo que o McDonalds faz em relação aos happy meals: sem substância nenhuma e com a bonecada a ser o mais interessante do produto.

quarta-feira, julho 30, 2014

Memórias de Verdun - 100º aniversário do início da I Guerra Mundial

Numa altura em que se assinala o 100 aniversário do início da I Guerra Mundial, recordo a minha visita a Verdun, então palco de uma encarniçada batalha que durou 10 meses e vitimou quase 700.000 soldados mas que hoje enverga o epíteto de "Capital Mundial da Paz". Este é um túmulo colectivo gigantesco no qual estão sepultados não só soldados mas também povoações e os sonhos de várias gerações. 

A Batalha de Verdun

Uma aldeia de Verdun. Antes e depois.
A Batalha de Verdun é o paradigma da irracionalidade de quem decidiu e dirigiu a I Guerra Mundial. Quando a mobilização geral foi decretada em cada país à medida que as declarações de guerra se iam sucedendo, todos os soldados, comandantes e governantes estavam convencidos de terem a razão e a superioridade do seu lado e de que estariam de regresso a casa antes do Natal. Só que a guerra mudou, prolongou-se, tornou-se uma trituradora de corpos e em 1916 não se via o seu fim.

Usando a racionalidade dos números, o general alemão Falkenhein propôs um plano simples pela sua lógica: se os alemães tinham mais soldados que os franceses, então numa batalha de atrito, havendo igual número de baixas em ambos os lados, os vencedores seriam inevitavelmente os alemães. Escolheu-se o palco para pôr em prática este plano: seria Verdun, espinho cravado na frente de batalha e local sagrado do ideário nacional da França, como Guimarães o é para Portugal. 

A 21 de Fevereiro iniciou-se o ataque alemão com fogo concentrado de 1200 peças de artilharia sobre 10km das linhas francesas. Em 2 dias apenas, caíram sobre o estas mais de 2 milhões de projécteis! Decidido a não ceder, o general Pétain ordenou a resistência a todo o preço, celebrizando a frase "Não passarão!", isto apesar de fortalezas-chave da região terem sido tomadas, algumas delas sem resistência, tal era a desorganização.

Fazendo de Verdun um prelúdio de Estalinegrado, reforços foram sendo continuamente enviados para a linha da frente através da única via de comunicação que não tinha sido cortada pelos alemães, a estrada que receberia a partir daí o nome de "Via Sagrada". Um veículo com tropas a 14 segundos, segundo dizem.

10 meses depois, após inúmeros avanços e recuos, tinham sido restabelecidas de grosso modo as posições do início da batalha. Por nada, tinham morrido cerca de 350.000 franceses e 320.000 alemães e várias povoações tinham sido apagadas do mapa para sempre.

A necrópole e o ossário de Douaumont

Partindo de Douaumont, local dominado pela torre do Ossário, descobre-se a Necrópole Nacional, formada pelo grupo principal de sepulturas individuais e por outros grupos mais pequenos e memoriais que se encontram dispersos um pouco por todo o lado. A torre tem a forma de um projéctil de artilharia e à noite funciona como farol simbólico, sendo visível a muitos quilómetros de distância. Do seu topo domina-se o cenário do antigo campo de batalha

Ao todo e sem distinção de nacionalidades ou religiões encontram-se no ossário restos de cerca de 130.000 soldados recolhidos no campo de batalha até muito depois do fim da Guerra. Sepulturas individuais são mais de 16.000. É difícil explicar o peso que se sente especialmente neste local mas também em cada memorial ou sepultura que se descobre no silêncio da floresta que rodeia o local.

Vista do edifício principal do Ossário para lá do cemitério.


O edifício do Ossário, simbolizando a forma como os soldados franceses deram o peito às balas, formando a barreira que deteve os alemães.


Outra vista do cemitério


Outra ainda


Metade do cemitério vista do alto da torre do Ossário. Há 98 anos atrás todo este cenário era uma paisagem lunar, pintada em cinza e castanho e os bosques tinham desaparecido.

Uma volta pelas redondezas

Partindo do Ossário, sem nenhum objectivo concreto, caminhei pelos bosques dos arredores durante algumas horas. A primeira coisa que notei foi a irregularidade do terreno devido às marcas, já algo esmorecidas, do bombardeamento indiscriminado a que esta zona foi sujeita.
Marcas de crateras sobre uma fortificação subterrânea da qual se avista um respiradouro já bastante exposto.

No meio da vegetação, tropeça-se frequentemente em ferro e betão. É preciso ter em conta que esta era uma região fortificada e que o espaço entre os fortes principais estava preenchido com fortins, abrigos e trincheiras.

A fortificação de Thiaumont é bom um exemplo disso. Situada no ponto máximo do avanço alemão, esta fortificação mudou de mãos mais de 20 vezes antes de ser definitivamente reconquistada em Outubro de 1916. Já pouco sobrava da sua estrutura nessa altura.


Campânula de observação em aço da fortificação de Thiaumont, arrancada da sua base pelo impacto directo de um projéctil de artilharia. 


Outro aspecto da fortificação de Thiaumont, com dois monumentos em memória de soldados que aí perderam a vida.


Um abrigo de infantaria semi-enterrado mostra o resultado do impacto directo de um projéctil de artilharia. A espessa couraça de betão armado foi insuficiente para proteger os soldados que ali estavam abrigados.

Mais à frente um conjunto de 4 respiradouros chamou a minha atenção. Tratava-se do "Abrigo das 4 chaminés", destinado a acolher temporariamente feridos antes de serem enviados para a rectaguarda e a proporcionar abrigo e descanso aos soldados. Não chegou a ser conquistado pelos alemães, pelo menos não inteiramente já que a dada altura, os alemães conseguiram estabelecer uma posição sobre o abrigo que albergava no seu interior muitos soldados franceses.

Os relatos dão conta desse momento delicado. Tendo tomado posição sobre o abrigo, os alemães começaram a lançar granadas e gás pelos respiradouros e tentaram entrar pelas duas entradas do abrigo. Encurralados, os franceses acederam fogueiras sob as chaminés e junto das escadarias para tentar fazer sair o gás pela acção do ar quente e ripostaram com as suas espingardas e metralhadoras às investidas alemãs.

Nem todos tinham infelizmente máscaras de gás e aqueles que as tinham tiveram de ver os seus camaradas agonizar no chão frio das galerias. Os alemães acabaram por ser desalojados pela artilharia francesa que se encontrava no monte oposto e que, ao aperceber-se da situação, disparou sobre o abrigo.


Uma das quatro "chaminés"


Uma das duas entradas do abrigo flanqueadas por sua vez por duas casamatas


Embora o aspecto e os avisos de segurança fossem desencorajadores, a curiosidade foi mais forte e acabei por me aventurar no interior do abrigo


No interior a escuridão é total. Sem lanterna, avancei graças ao flash da máquina fotográfica.


As galerias onde se acumulavam os soldados franceses

O Forte de Douaumont

O forte de Douaumont antes e depois da batalha
Construído para, em conjunto com os fortes próximos de Vaux e Souville servir de ferrolho da região fortificada de Verdun, o caso do forte de Douaumont é bem a prova da desorganização do exército francês perante a ofensiva alemã de 1916, tendo sido tomado sem esforço 4 dias depois do início da ofensiva.

Perante o maciço ataque alemão, o forte que tinha capacidade para 800 homens encontrava-se apenas guarnecido com 60 que, sem conhecimento da situação operacional e sem qualquer comunicação com o restante dispositivo de defesa, se limitavam a disparar os poucos canhões sobre alvos pré-estabelecidos antes dos combates.

Um pequeno grupo de alemães que tinha conseguido escalar a escarpa e chegar ao fosso do forte, percebeu que não havia grande oposição e voltou atrás para chamar reforços. A pequena guarnição foi apanhada de surpresa e rendeu-se sem oposição. 

Em Outubro, o forte voltaria a mudar de mãos sem oferecer resistência quando, após um violento incêndio no seu interior provocados por projécteis de artilharia que tinham conseguido perfurar a sua espessa couraça, os poucos alemães que haviam ficado para trás foram surpreendidos por soldados marroquinos do exército francês e renderam-se por sua vez.


O corpo central do forte em 2007 


A torre eclipsante de canhão de 155mm.


Corredor de acesso ao interior do forte, com chicane de metralhadoras (os dois muros com abertura no centro)


Secção selada após uma explosão provocada por um lança-chamas. Atrás da parede ficaram sepultados quase 700 alemães mortos por essa explosão.

As aldeias "mortas pela França"

Outros monumentos existentes nas redondezas recordam que as vítimas da guerra não são apenas militares. No sector de Verdun a batalha apagou do mapa nada mais nada menos que 9 localidades, 6 das quais nunca voltariam a ser construídas em parte pela dimensão da destruição mas também pela poluição provocada pelas munições utilizadas e pelo risco de existência de projécteis por detonar (ver 1ª imagem deste artigo).

Visitei dois locais onde outrora tinham existido aldeias. A primeira foi Fleury-devant-Douaumont, aldeia que antes da batalha tinha mais de 422 habitantes e que no decurso desta mudou de mãos 16 vezes, tendo por isso ficado em completa ruína. Hoje o local consiste essencialmente numa floresta cujo solo, onde abundam vestígios de materiais de construção, é extremamente irregular devido às crateras resultantes dos constantes bombardeamentos. O único edifício que ali se encontra é a capela de Nossa Senhora da Europa e a povoação continua a ser sede de comuna e tem também um maire (presidente de Câmara), nomeado a título simbólico, embora não tenha qualquer habitante. 


Marco junto à estrada recorda a aldeia desaparecida de Fleury-devant-Douaumont. Este marco foi construído com recurso a restos das casas da aldeia.

No local onde outrora se situavam os principais edifícios da aldeia, encontram-se pequenos marcos a recordar esse facto, neste caso o edifício que servia de câmara municipal e escola. 

 Indicação da orientação da antiga Rua de São Nicolau. No solo irregular são visíveis os restos de materiais de construção daquilo que foi outrora a aldeia.



A outra aldeia que visitei foi a de Douaumont, situada em frente ao forte com o mesmo nome, cuja recordação se fez pela colocação de marcos com os nomes dos habitantes e respectivas profissões ao longo da estrada. Também os edifícios mais importantes e as fontes são evocadas nesta alameda de memórias.

Uma capela, único edifício actualmente existente no local, ergue-se para assinalar o local onde outrora existiu a igreja da aldeia e é aqui que anualmente, no 2º Domingo de Outubro, se realiza uma missa em memória dos caídos à qual assistem os descendentes dos antigos habitantes de Douaumont.


Entrada em Douaumont, outra "aldeia morta pela França"



A rua onde se recordam alguns dos seus 288 habitantes

Em memória do Sr. Théophile Lamorlette, tecelão de profissão.


A Trincheira das Baionetas, da lenda à realidade

A certa altura fui parar a um memorial invulgar, a Trincheira das Baionetas. Trata-se de uma estrutura em betão armado construída por iniciativa estado-unidense como memorial em honra dos soldados mortos na I Guerra Mundial neste local como refere a inscrição sobre a entrada.

"Em memória dos soldados franceses que dormem de pé com a espingarda na mão nesta trincheira, (pel)os seus irmãos da América"

Um panfleto que tinha recolhido num museu ali perto conta a história desta trincheira. Os soldados franceses estavam aqui prontos, com a espingarda na mão, para carregarem sobre os alemães quando um tiro certeiro de artilharia alemã os enterrou vivos, deixando apenas as baionetas expostas como marcas de uma sepultura imprevista.

Na verdade a história é muito menos heróica e situa-se num nível diferente de tragédia. Tratava-se afinal de uma vala comum na qual foram enterrados alguns soldados, tendo as espingardas sido usadas para marcar o local de enterramento de cada um deles. A evocação heróica e patriótica da valentia dos soldados franceses encarregou-se depois de dar um tom romântico à história.


As sepulturas da Trincheira das Baionetas. Estas últimas entretanto já desapareceram e apenas se vê a ponta da espingarda perto de cada cruz. Ao todos havia nesta vala 21 soldados. 14 foram trasladados para a necrópole de Douaumont.

O memorial não é só local de morte mas também de vida, tendo em conta a pequena colónia de morcegos que aqui encontrou as condições ideais para se abrigar.

Outros monumentos

Como referi, na região de Verdun abundam os locais de memória dos que tombaram durante a I Guerra Mundial. É claro que Verdun é um local emblemático pelo seu significado na construção da identidade francesa e por isso terá um valor simbólico acrescido mas também é importante referir que não faltam cemitérios e monumentos noutras paragens do Nordeste. Isto para não falar dos monumentos em honra dos mortos da I Guerra que existem em praticamente todas as localidades de França, com maior ou menor modéstia, aos quais foi depois acrescentada a referência aos mortos da II Guerra.

Dos memoriais que encontrei à volta do Ossário, eis os que me pareceram mais interessantes:


Monumento em memória dos 28.000 soldados muçulmanos mortos em combate, principalmente forças coloniais magrebinas e senegalesas. Construído em apenas 3 meses de 2006, foi no entanto necessário proceder previamente à desminagem do terreno. Nesse trabalho foram encontradas 219 munições (balas, obuses e granadas) assim como os restos mortais de um soldado cuja identidade (e religião) se desconhece.



Inaugurado em 1938, o memorial domina a secção do cemitério onde estão sepultados alguns dos muitos soldados judeus caídos no campo de batalha. Judeus e muçulmanos morreram e foram aqui sepultados de igual forma e não constam que se dêem mal.



Monumento a André Thome, deputado que abdicou da possibilidade de não ser incorporado conferida pelo seu estatuto de político para se voluntariar para a frente de combate. Morreu em Verdun a 10 de Março de 1916 com 36 anos de idade.



Monumento a André Maginot, deputado de Bar-le-Duc e ministro, que se alistou voluntariamente como soldado raso tendo sido ferido num joelho em combate. Como Ministro da Guerra, foi grande defensor da construção de uma fronteira fortificada com a Alemanha que viria a ser chamada de Linha Maginot. De pouco serviria durante a II Guerra Mundial (ver aqui artigo sobre a visita ao impressionante forte Hackenberg).


Um covilhanense morto em Verdun

Nos arquivos do Ministério da Defesa de França, é possível encontrar uma relação dos soldados mortos em Verdun. Entre eles encontram-se muitos portugueses mas um deles chamou-me a atenção. Trata-se de um tal de Jean Georges Haudecoeur, cabo do 165º Regimento de Infantaria, falecido no hospital militar de Verdun na sequência de ferimentos sofridos em combate 4 em Setembro de 1914, portanto logo nos primeiros combates da I Guerra. Curiosamente, embora tenha um nome francês, o registo de óbito aponta-o como tendo nascido em Portugal, mais precisamente em "Covilhan". 



Imagem aérea: Fórum AR15.com, Strange Military
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...