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segunda-feira, dezembro 10, 2018

Os segredos da Penha da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 1 de Novembro de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros
   - Os Castros da Serra da Gardunha
   - Floresta portuguesa, um ano depois


A Penha da Gardunha, com os seus pinheiros-silvestres, vista de NE.



A Penha da Gardunha é um enorme esporão rochoso, sobranceiro à aldeia histórica de Castelo Novo, e que se destaca na paisagem da Serra da Gardunha. Contrariando um equívoco comum, a Penha não é o ponto mais alto da Gardunha já que se eleva a uma altitude de pouco mais de 1150m, bem abaixo, portanto, dos 1227m do Alto da Gardunha.

 Mais do que a sua imponência ou a magnífica paisagem que do seu topo se avista, que inclui até terras de Espanha, o que faz deste monumento natural um local tão intrigante quanto fascinante é a sua história e a transversalidade de crenças que aqui têm raízes. É justo dizer-se que a Penha constitui o pilar da religiosidade das comunidades da Serra da Gardunha e no seu topo existem ainda vestígios de construções que são o que resta do antigo santuário de Nossa Senhora da Serra.

A existência deste santuário foi justificada pela lenda de uma menina de Alcongosta que se perdeu e que acabou por ser encontrada incólume, nove dias depois, junto à cavidade conhecida hoje como Gruta. Informados pela criança que esta tinha conseguido sobreviver por ter sido alimentada pela “senhora” que ali vivia, as pessoas que a procuravam entraram nessa gruta e depararam-se com uma imagem da Virgem Maria, que depois foi baptizada como Nossa Senhora da Serra. O local passou a ser objecto de uma importante romaria anual, sempre por altura da Páscoa e, aos poucos, o santuário foi crescendo em tamanho e complexidade. Algumas capelas foram adossadas ao templo principal, nomeadamente a pequena capela do Santo Cristo (cuja pequena planta quadrada é hoje bem visível), a nova casa do ermitão foi construída para substituir a modesta construção anterior (cuja divisão bem delineada escavada na rocha é bem visível) e foram construídas vias de acesso conjugando calçada e escadarias.

Sobre este último aspecto, os Caminheiros da Gardunha identificaram há relativamente pouco tempo o segmento de 350m de escadarias da via de romaria a partir de Castelo Novo, correspondendo à descrição que dela faz o Padre Peralta no Diccionário Geographico em 1758: "ha anos, em uma ascensão que fizemos á desmantelada gruta da Senhora da Serra acima d'esta região e quasi no viso da serra, veêm-se ainda aqui e alem pequenos lanços da estreita calçada que coleando por entre rochedos e precipicios, dava aceso para a gruta da Senhora da Serra aos romeiros que saahiam d'Alpedrinha, Alcongosta e outros povos, nos bons tempos, em que parece a fé se aliava com a poesia na escolha do local para os santuários". 

A escadaria da via de romaria a partir de Castelo Novo. 


A obra “Orologia da Gardunha”, de José Inácio Cardozo, descreve uma expedição à Penha realizada a 9 de Outubro de 1846 (com os expedicionários a munirem-se de mantimentos e espingardas) e dá uma boa ideia da organização do santuário, que nessa altura já estava abandonado. Este abandono foi, ao que parece, uma consequência do excesso de fervor que as gentes que se deslocavam em romaria a este santuário imprimiam à sua devoção.

O relato de alguns episódios mostra bem que esta romaria era tudo menos monótona, referindo-se, entre “rixas indecentes e criminosas”, a cruz de prata processional das gentes de Castelo Novo, que estava toda amolgada das pedradas que tinha levado, ou ainda o episódio da destruição acidental da própria imagem de Nossa Senhora da Serra, por um grupo de moradores de Valverde, tendo esta acabado por ser substituída por uma outra imagem custeada pelas gentes do Souto da Casa.

Certo é que, procurando conter estes “excessos da fé”, primeiro proibiu-se tirar a imagem do altar para as procissões e, mais tarde, o santuário acabou mesmo por ser desactivado e demolido, tendo a imagem de Nossa Senhora da Serra sido trasladada para a Igreja Matriz de Castelo Novo, onde ainda hoje se encontra, em detrimento de Alcongosta que também reclamava para si a posse da imagem.

Uma sacralidade milenar

No entanto, a História da ocupação humana da Penha remonta a tempos muito anteriores ao do santuário da Senhora da Serra, tendo aqui sido recolhidos materiais que remontarão à Idade do Bronze. A historiografia refere ali a existência de um castro mas os vestígios parecem-nos demasiado escassos para se poder fazer tal afirmação sem que, pelo menos, se mantenham algumas reservas. É possível sim que, tendo em conta a antiguidade dos vestígios ali encontrados e a posterior criação do santuário cristão, este tenha sido um local de culto pagão já desde tempos pré-romanos e que, mais tarde, com o advento e imposição do cristianismo, terá sido cristianizado. Estaremos, pois, a falar de uma sacralidade que, apesar das transformações do espaço, se prolongou por milénios neste local!

O valor sagrado da Penha vai, apesar de tudo, bem para lá desta dualidade pagã-cristã, continuando a motivar “romarias” ao longo de todo o ano. Perscrutando as estrelas ou procurando no interior da Terra ou até dentro de si próprio as respostas às suas inquietações, muita gente continua a subir à Penha pelos vestígios de caminhos milenares, em busca dos segredos deste lugar. Por enquanto, a Penha teima egoistamente em guardar os seus segredos e, enquanto não os revela, vai-se alimentando do assombro de quem a visita.

Leitura recomendada: "A Via de Romaria ao santuário da Senhora da Serra", por David Caetano, André Mota Veiga e Mário Castro. Poster publicado nas I Jornadas de Arqueologia e Património do Museu Arqueológico do Fundão. Abril de 2017

quinta-feira, setembro 20, 2018

Os Castros da Serra da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 8 de Agosto de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os romanos passaram pela Gardunha
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros

A Penha destaca-se na crista da Serra da Gardunha

Diz a voz da tradição popular que foi entre as penedias da Serra da Gardunha que as gentes da Idanha procuraram refúgio perante a aproximação dos invasores muçulmanos, a isso se devendo a própria origem do nome de Gardunha. Embora a veracidade deste relato esteja ainda por comprovar, não deixa de ser verdade que, durante séculos e muito antes da chegada dos muçulmanos, houve quem procurasse abrigo no seio da Gardunha, não em busca de refúgio temporário, mas para aí estabelecer povoados permanentes fortemente defendidos. A estes povoados chamamos “castros” e na Gardunha conhece-se a localização de alguns.


Estes castros, também conhecidos mais a Norte como citânias ou cividades, eram povoados implantados no topo de elevações de média altitude e rodeados por algumas cinturas de muralha. Surgiram há cerca de 3000 anos no Noroeste da Península Ibérica em plena Idade do Bronze. As casas tinham uma planta circular e cobertura em colmo, estando agrupadas em núcleos familiares, separados uns dos outros por ruas de largura e traçado muito irregulares. As casas tinham um único espaço interior em cujo centro se situava a lareira. Era nesta que se cozinhava e era ao seu redor que as famílias se reuniam para comer ou para dormir.


Para além do relevo e das muralhas, também era comum reforçarem-se as defesas com com fossos e zonas de pedras fincadas, de forma a dificultar a aproximação de eventuais atacantes, fossem eles os povoados vizinhos ou não. No entanto, a localização dos castros no topo das elevações também assegurava uma função de domínio territorial, permitindo a vigilância atenta de todo o território que dali se avistava. A vigilância era muitas vezes reforçada pela construção de atalaias em locais estratégicos, para alargar o alcance visual.

Qualquer viajante que há 3000 anos passasse junto à Serra da Gardunha ou pela Cova da Beira, poderia avistar estes aglomerados de casas apinhados no topo dos montes, rodeados por impressionantes muralhas. Estas comunidades faziam da agricultura e da pastorícia as suas actividades principais de subsistência, sendo que também se dedicavam à extração mineira e ao comércio, fazendo parte de rotas comerciais que se chegavam a paragens tão longínquas como o Médio Oriente ou o Norte da Europa.

Na Serra da Gardunha, o monte de São Brás, o monte de São Roque (ou Trigais), ambos no concelho do Fundão, e o Castelo Velho, no concelho de Castelo Branco, correspondem sem sombra de dúvida a castros. Há também quem situe num castro a origem da aldeia do Alcaide. Já o lugar do Picoto, junto ao Souto da Casa, terá sido uma atalaia do castro de São Brás, permitindo-lhe estender o domínio visual até à Serra da Maúnça e para lá da Argemela, onde aliás também existiu um castro.

A Penha da Gardunha também é apontada como sendo um local onde terá existido um castro mas, quanto a nós, os vestígios aí encontrados são demasiados escassos para tal afirmação. A existência nesse local do santuário medieval dedicado à Senhora da Serra permite outra hipótese: a de aí ter existido um santuário pagão, semelhante ao do Cabeço das Fráguas entre a Guarda e o Sabugal, cujo valor sagrado terá persistido ao longo dos tempos, até ser finalmente cristianizado.

Os castros da Serra da Gardunha, juntamente com os restantes castros identificados no concelho do Fundão, são lamentavelmente ainda pouco conhecidos do público e, por isso mesmo, vítimas fáceis de atentados patrimoniais. Constituindo locais onde os valores históricos e arqueológicos se conjugam na perfeição com o valor paisagístico e natural, deveriam ser vistos como elementos estratégicos fundamentais para a valorização do território na sua oferta turística tanto cultural como natural. No concelho do Fundão tentou-se em 2004 implementar a chamada Rota dos Castros que, de grosso modo, não passou da colocação de sinalização rodoviária. Nada foi feito em concreto para valorizar os castros ou incentivar a sua preservação.

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