quinta-feira, outubro 25, 2018

Aqui se decidiu a História da Europa

O monte do Leão, uma colina artificial que domina o campo de batalha

Aqui se decidiu a História de todo um continente. Quem hoje percorrer as verdes e calmas ondulações destes campos de cultivo bordejados de pequenos bosques, junto à pacata vila belga de Braine-l'Alleud, terá muita dificuldade em imaginar o cenário daquele fatídico dia de Verão de 1815, quando 10.000 cadáveres se confundiam num imenso lamaçal. Há algum tempo atrás, calcei as botas e percorri o local que equivocadamente ficou na História como o da batalha de Waterloo.



O prelúdio

A batalha de Waterloo aconteceu a 18 de Junho de 1815 e selou o fim definitivo do mito da invencibilidade de Napoleão. Tendo escapado do seu exílio na ilha de Elba, a meio caminho entre a Córsega e Itália, Napoleão retomou facilmente o poder em França o que provocou uma certa confusão e algum pânico entre as potências europeias, que estavam nesse preciso momento estavam a discutir em Viena o novo mapa geopolítico europeu pós-Napoleão. 

De imediato os trabalhos foram interrompidos e uma nova aliança militar foi formada por Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria, tendo cada país ficado responsável pela mobilização de um exército de 150.000 homens para atacar a França. No entanto, só os dois primeiros estavam em condições de atacar de imediato, embora com efectivos distantes dos números acordados.

Procurando antecipar os ataques à França, Napoleão tomou a iniciativa e invadiu a Bélgica, então parte do Reino da Holanda, para atacar ingleses e prussianos e, desta forma obter também uma posição de força para negociar a paz com os restantes países. O primeiro embate, a 16 de Junho correu de feição já que os prussianos foram derrotados. Napoleão enviou uma parte do seu exército em perseguição destes e virou o grosso das suas forças para os ingleses. 

O problema é que os prussianos haviam sido derrotados mas conservaram a sua capacidade combativa. Em vez de fugirem, iludiram os seus perseguidores e começaram a dirigir-se para as posições inglesas. Tinha começado uma corrida contra o tempo.


A Batalha


Vista parcial do campo de batalha a partir do Monte do Leão, à esquerda avista-se a quinta da Belle Alliance, QG de Napoleão e, mais para lá, a aldeia de Plancenoit.


Wellington escolheu cuidadosamente o terreno para a sua batalha. Sabendo que os prussianos vinham a caminho e que sozinho dificilmente teria condições de derrotar Napoleão, preparou uma estratégia defensiva com vista a aguentar o maior tempo possível e aguardar pela chegada dos reforços. Para isso, escolheu uma linha de colinas uns 20km a Sul de Bruxelas, o Monte de São João (algo longe de Waterloo, portanto). Para reforçar ainda mais a sua posição e condicionar os ataques franceses, fortificou 3 quintas diante das suas linhas: Hougoumont, Haie Sainte e Papelotte. Para além da vantagem do terreno, Wellington teve uma ajuda preciosa da meteorologia já que a chuva que caiu durante toda a noite, transformou o terreno diante das linhas inglesas num imenso lamaçal.

Napoleão viu-se confrontado com um terreno impraticável e, mesmo sabendo que os prussianos vinham a caminho, decidiu adiar o início da batalha em 2h, para deixar o Sol secar um pouco o terreno. Por isso, foi só às 11h30 que a batalha teve início, com o ataque à quinta de Hougoumont.


Hougoumont, a batalha dentro da batalha


A quinta de Hougoumont vista de Este. São visíveis as ruínas do solar, incendiado pelo bombardeamento francês e da sua capela, única parte que se conserva de pé. Os restantes edifícios mantêm relativamente o seu aspecto do século XIX.


O ataque a Hougoumont tinha como objectivo obrigar Wellington a desviar tropas do centro para apoiar a defesa da quinta, abrindo caminho a um ataque maciço ao centro das linhas Aliadas. A resistência foi encarniçada e os defensores de Hougoumont resistiram até aos obuses incendiários com que os franceses os bombardearam. Muitos homens e cavalos morreram queimados mas a quinta resistiu, apesar de num momento crítico quase ter sido tomada quando a porta Norte foi arrombada. Num esforço supremo, um grupo de 10 escoceses conseguiu fechar as portas e todos os franceses que tinham conseguido entrar acabaram por ser mortos. Este acontecimento foi determinante no desfecho da batalha e Wellington diria mais tarde: "o sucesso da batalha de Waterloo decidiu-se com o fecho das portas de Hougoumont".


"Fechando os portões de Hougoumont", de Robert Gibb (1903). National War Museum, Edimburgo

Perante a resistência de Hougoumont, Napoleão não esperou mais e atacou mesmo assim o centro da posição inglesa. Apesar de estarem reunidas condições ideais, os franceses conseguiram por várias vezes ganhar vantagem sobre os ingleses mas, por falta de coordenação ou capacidade de reacção, essa vantagem nunca chegou a ser decisiva e os vários momentos foram sendo desperdiçados.


A chegada dos prussianos


Sem ter conseguido quebrar as linhas inglesas, Napoleão viu a situação piorar ainda mais quando às 16h30 o exército prussiano chegou e se lançou sobre o seu flanco direito, junto à localidade de Plancenoit. O exército que Napoleão tinha lançado em perseguição dos prussianos no dia anterior não tinha sido capaz de lhes travar o avanço rumo ao campo de batalha.

Apesar de tudo, Napoleão ainda viu a possibilidade da vitória no campo de batalha quando a quinta de Sante Haye, diante do centro do dispositivo britânico, foi finalmente tomada e, ao mesmo tempo, um vigoroso contra-ataque recuperou a aldeia de Plancenoit. Do centro Ney pediu reforços para acabar com as tropas ingleses mas Napoleão hesitou pois tinha receio de um contra-ataque prussiano. Resultado: o momento perdeu-se mais uma vez pois, com a presença dos prussianos a proteger-lhe o flanco, Wellington pôde daí chamar tropas para o centro e retomar o controlo da situação.

Foi por isso já quase em desespero que o imperador decidiu finalmente fazer avançar sobre os ingleses o que lhe restava como reserva: a temível Guarda Imperial.


A carga final da Guarda Imperial



Diagrama da batalha em painel interpretativo no alto do Monte do Leão. As posições dos franceses (azul), dos prussianos (verde) e do exército de Wellington (vermelho, rosa e verde claro) são bem explicadas

A Guarda Imperial não obedecia a mais ninguém senão a Napoleão, sendo uma tropa de elite formada por soldados bastante experimentados. Deve ter sido uma visão impressionante para os aliados ver avançar na sua direcção os rectângulos compactos da Guarda Imperial, com os seus estandartes inconfundíveis.

Em reacção, Wellington mandou deitar no chão 2.000 soldados que, dissimulados pela vegetação e pelo terreno, aguardaram pacientemente até a Guarda Imperial chegar "a menos de 20 passos". Levantaram-se então num salto e dispararam à queima-roupa sobre os franceses. As crónicas dizem que metade dos dois batalhões da frente foi imediatamente dizimada e que as linhas seguintes, não só se viram impossibilitadas de avançar em boa ordem, devido à acumulação dos cadáveres dos seus companheiros, como estacaram sem perceber o que tinha acontecido. 

Assim ficaram à mercê do contra-ataque maciço que se seguiu e que forçou a Guarda Imperial a recuar em total desordem. Mais que o ataque em si, foi o grito "A Guarda recua!" que se propagou pelas tropas francesas, que espalhou o pânico e selou o fim da batalha. O que se seguiu pouco mais foi que um massacre. 

Dizem as crónicas que o general Ney (que 5 anos antes tinha participado no Combate do Côa, junto a Almeida), já apeado (perdeu pelo menos 6 cavalos na batalha) e com a espada partida, reuniu ainda uma divisão e lançou-a para a batalha gritando "Venham ver como morre um Marechal de França!". Mas a morte não quis nada com ele senão quase 6 meses mais tarde, quando o próprio Ney deu ordem de disparo ao seu pelotão de fuzilamento, após ser considerado culpado de traição à pátria.

O resto, já se sabe, é História. Uma última curiosidade: a batalha ficou erradamente eternizada como de Waterloo e não do Monte de São João, por ter sido nesta vila que Wellington redigiu o seu relatório.


Vale a pena visitar o campo de batalha!



A área onde decorreu a batalha é hoje monumento nacional e qualquer alteração da paisagem é estrictamente proibida. Todo o terreno é dominado pelo impressionante Monte do Leão, um monte artificial com 40m de altura, encimado por uma enorme estátua de um leão em bronze. Por toda a parte se encontram túmulos ou memoriais, dedicados tanto aos soldados aliados como aos franceses e o que sobressai é o sentimento de homenagem à valentia e bravura com que os dois lados se bateram.

Contando com o percurso dentro de Braine-l'Alleud, a partir da estação ferroviária, fiz um circuito a pé com quase 13km e que me levou a vários locais marcantes da batalha que estão devidamente assinalados e alguns até musealizados. 

É o caso da quinta de Hougoumont onde, para além da parte expositiva, um impressionante espectáculo multimédia no celeiro da quinta dá uma boa noção da violência dos combates que aí decorreram.


As ruínas do palacete continuam visíveis no centro da quinta tal como o poço de que Victor Hugo fez um túmulo nos "Miseráveis". Várias estelas e monumentos memoriais estão dispersas pelas paredes das construções e um passeio pela área do antigo jardim revela mais uns quantos.


Túmulos ingleses em Hougoumont

Do lado de fora da quinta, um castanheiro-da-Índia centenário ergue-se junto ao que resta de outros dois. São as últimas árvores do pequeno bosque que se situava junto à quinta e que foi tomado pelos franceses para daí lançarem os seus ataques a Hougoumont. Este castanheiro é a última testemunha viva da batalha de Waterloo.


Os Castanheiros-da-Índia de Hougoumont. O terceiro a contar da esquerda é a última testemunha viva da batalha de Waterloo


Continuando o percurso, chega-se à jóia da coroa deste percurso de memória: o Memorial de 1815, um museu subterrâneo, com uma área de 1800 m2, onde os visitantes mergulham bem dentro do ambiente da batalha de Waterloo e do seu contexto social e político. O ponto alto será o filme 4D que reconstitui a batalha mas o museu vale muito mais do que só por isso.


Os protagonistas da geopolítica europeia em 1815 Reconhecem alguém?


Daí tem-se acesso ao Panorama, um edifício circular construído em 1912 com uma pintura interior a 360º. Foi construído no âmbito das comemorações do centenário da batalha.

É daqui que acedemos ao Monte do Leão. Foi erigido em 1820 para assinalar o local onde o Príncipe de Orange comandou as suas tropas e foi ferido. Demorou 3 anos a ser construído e levou à remoção de toneladas e toneladas de terra ao seu redor que modificaram significativamente o aspecto do terreno. Diz-se que tendo regressado ao local após a construção do monte, Wellington terá explodido em fúria: "Arruinaram o meu campo de batalha!".


O Memorial 1815, o Panorama e o Monte do Leão, todos visíveis na foto da esquerda para a direita


Seja como for, do seu topo, vencida a subida com 225 degraus, oferece uma vista sobre a totalidade do campo de batalha, visão que é complementada pela presença de painéis interpretativos.


A escadaria e a estrada ao longo da qual se dispuseram as linhas inglesas para Este

Descendo do monte, atravessa-se o campo aberto até à quinta da Belle Alliance, local onde Napoleão instalou o seu Quartel General, e daí prossegue-se até Plancenoit, aldeia disputada por franceses e prussianos. Seguindo a estrada, surge a quinta de Sante Haye, onde as placas-memoriais glorificam os soldados dos dois campos que aqui lutaram até à sua tomada pelos franceses, já na parte final da batalha.


A quinta de Sante Haye, a única das 3 quintas fortificadas pelos ingleses que caiu em posse dos franceses mas, infelizmente para estes últimos, demasiado tarde.

Lápides de homenagem aos soldados franceses, alemães e ingleses que combateram na quinta de Sante Haye 


Já com a tarde bem avançada, não tive escolha a não ser deixar metade do campo de batalha por explorar, tendo de regressar a Braine-l'Alleud, não sem antes aproveitar a última passagem pela sombra do Monte do Leão para beber uma cerveja local que me fez muito bem. Talvez tenha a ver com o facto de ser produzida na mesma quinta que Wellington escolheu para ser o seu hospital durante a batalha.





Para ver: Battlefield Detectives: Massacre at Waterloo

segunda-feira, outubro 15, 2018

Floresta portuguesa, um ano depois

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Setembro de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os romanos passaram pela Gardunha
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros
   - Os Castros da Serra da Gardunha

Serra da Gardunha, 2017


Foi há pouco mais de um ano que a Serra da Gardunha foi devastada pelo violento incêndio que dificilmente se apagará da memória de todos os que o viveram de perto. O heroísmo e a solidariedade da população do Fundão foram já reconhecidos e alvo de homenagem por parte da Câmara Municipal mas o mais importante, que é a recuperação e a implementação de um modelo de ordenamento e gestão da Serra da Gardunha, continua a ser uma miragem. Na Serra da Gardunha, os municípios, o ICNF, a APA e a DRABI continuam a atropelar-se na gestão do território e parece ser difícil encontrar um rumo.

Seria no entanto tremendamente injusto referir este como sendo um problema exclusivo da nossa serra quando se trata de um problema nacional crónico. Desde logo, o incêndio da Gardunha foi apenas um entre os inúmeros que em 2017 consumiram mais de 440.000 hectares, o corolário de uma década terrível em que mais de um terço da floresta portuguesa ardeu.

Este facto veio por a nu, como se ainda fosse preciso, que em Portugal não existem políticas de ordenamento florestal nem de prevenção de incêndios dignas desse nome. Pior ainda, ninguém pode afirmar que o que sucedeu em 2017 foi algo completamente inesperado. Num país em que se chega ao cúmulo de se definir oficialmente uma “época de incêndios” e já se perdeu o sentido de ridículo de que este conceito se reveste, ninguém poderia ignorar que um ano com condições climáticas mais extremas levaria inevitavelmente a este desfecho.

Poder-se-ia pensar que finalmente as lições teriam sido aprendidas mas não. Até agora, a medida mais sonante que o Governo tomou foi a promulgação de uma lei de obrigatoriedade de limpeza que, cavalgando a onda do trauma recente e empurrada pela ameaça de multas chorudas, acabou por ser nociva para a floresta portuguesa.

Por um lado, se houve um facto que para todos ficou evidente foi que as árvores autóctones são mais resistentes ao fogo que os pinheiros-bravos e eucaliptos que dominam o nosso território. No entanto, a lei tratou de situar todas as espécies ao mesmo nível o que não terá de todo desagradado a certos grupos económicos que prosperam ao ritmo do pinhal e eucaliptal e que no rescaldo dos incêndios tinham sido postos em causa.

Por outro lado, no país onde as leis são traçadas a régua e esquadro num gabinete distante da realidade, só depois do abate de árvores centenárias, espécies protegidas e até de árvores de fruto, alguém decidiu vir a terreiro explicar que afinal não era necessário cortar tudo a eito. Apesar de tudo, a criação de zonas de protecção ao redor das aldeias foi uma consequência positiva.

 Acontece que só esta questão da limpeza é tão eficaz no quadro geral como a delimitação de uma zona livre com fita de segurança ao redor de uma bomba-relógio. Continuamos todos à espera de uma lei concreta de ordenamento florestal que sirva verdadeiramente o propósito de um floresta com QUALIDADE e BIODIVERSA. A floresta que temos em Portugal é cada menos digna desse nome, antes sendo uma exploração silvícola mono-cultural intensiva cujo único objectivo é o de obter lucro o mais rápido possível.

O problema é que a nossa classe política vive refém de interesses que nada têm a ver com o interesse público e que lhe restringe a liberdade (ou a vontade?) de implementar reais medidas de fundo. Antes preferem as medidas cosméticas em embalagem populista, sabendo de antemão que todas as decisões que tomarem dificilmente serão alvo de avaliação ainda durante a vigência do seu mandato. Seja como for, a estratégia crónica de culpabilização dos antecessores oferecerá sempre uma almofada de conforto para o caso de algo correr menos bem.

Também os privados, que detêm a esmagadora maioria do território de floresta em Portugal, vivem hoje reféns da ideia, herdada do período do Estado Novo, de que a única forma de obter rendimento da floresta é através de pinheiros e eucaliptos. Quem os pode censurar quando nada foi feito a nível superior para contrariar esta ideia e a possibilidade de que obter algum rendimento, mesmo que seja uma lotaria, é melhor do que não obter absolutamente nada?

Em 2017 Portugal, com a Serra da Gardunha, ardeu. Como referi na altura, todos nós, com a nossa inacção e silêncio, fomos cúmplices. Então como agora, continua a pertencer aos cidadãos o poder de mudar o rumo dos acontecimentos e é urgente fazê-lo. A contagem decrescente recomeçou.

quinta-feira, outubro 11, 2018

Eben-Emael, o forte capaz de resistir a tudo excepto aos alemães

Entrada do forte (pelo Bloco 1)

Após a invasão alemã da 1ª Guerra Mundial, a Bélgica começou a trabalhar no reforço das suas fronteiras, um pouco à semelhança da França onde se iniciou a construção da Linha Maginot. Assim, o plano belga previu a reabilitação e modernização de vários fortes que no conflito 1914-18 tinham oferecido resistência às tropas alemãs, mas acrescentou muitos outros elementos de defesa. Entre elementos passivos (obstáculos anti-tanque, canais inundáveis, casamatas e postos de observação, entre outros) instalados um pouco por toda a parte, mas concentrados sobretudo na famosa linha KW, foi decidida a construção de 4 novos fortes para conter qualquer investida que pudesse vir da Alemanha: Tancrémont, Battice, Aubin-Neufchâteau e Ében-Émael.


Escadaria interna de acesso ao nível superior



Galeria interna. Em caso de ataque de gás, as portas blindadas estanques eram seladas e a ventilação fazia-se pelas aberturas no solo sobre as quais estavam instalados filtros de gás. O ar dentro do forte tinha uma pressão ligeiramente superior à do exterior para impedir a entrada de gás.

Este último, o maior deles todos, destinava-se a colmatar um espaço aberto que os alemães tinham usado a seu favor durante a 1ª Guerra Mundial para romper a posição fortificada de Liège. O seu objectivo era o de controlar as pontes sobre o rio Mosa na fronteira com a Holanda, junto a Maastricht, e, após a construção deste (1930-39), também de controlar o canal Alberto. 


O canal Alberto na sua bifurcação com o canal de Lanaye cujas eclusas são visíveis à direita. O canal Alberto descreve uma curva para a esquerda e o forte Eben-Emael situa-se no maciço mais à esquerda na foto.


As galerias do forte foram escavadas na montanha de tufa calcária ligando várias casamatas e pontos de observação, tudo isto complementado com fossos anti-tanques, fossos inundáveis e áreas de arame farpado. O resultado foi uma fortificação em forma de triângulo, com 750m de base e 950m de comprimento. O domínio do forte estendia-se a uma área de 75ha, algo como 150 campos de futebol. Sobre a estrutura do forte situavam-se as cúpulas de canhões, assim como algumas falsas cúpulas para iludir o inimigo, que tinham capacidade para disparar até 2100kg de projécteis por minuto a uma distância máxima de 17,5km. A organização interna do forte dispunha-se em 3 níveis

Mapa do forte com disposição das casamatas (Ma(astricht) 1 e 2, Vi(sé) 1 e 2, Mi Norte e Mi Sul), das cúpulas (CP 120, CP Norte, CP Sul) e dos Blocos de defesa de proximidade (BL I a VI, Canal Norte e Canal Sul, BL 01).
Fonte: Le Fort Eben-Emael

Não era o maior forte da Europa, essa honra cabia ao Hackenberg (recordar a nossa visita aqui), mas era um dos maiores do Velho Continente e o maior da Bélgica. Adicionalmente, o comando belga tinha destacamentos encarregues de guardar as pontes sobre o Mosa e o canal Alberto e de activar os mecanismos de auto-destruição em caso de ataque, tornando qualquer força de ataque presa fácil da artilharia do forte. O dispositivo parecia, pois, oferecer garantias ao Alto-Comando Militar belga de que se tratava de um elemento defensivo totalmente dissuasor e inexpugnável. Só que…


O ataque alemão

Reconstituição à escala real de um dos planadores utilizados no ataque.

Foi precisamente contra o Eben-Emael que os alemães deram provas da famosa eficiência que lhes mora no ADN. Conscientes de que um ataque por terra seria muito oneroso em termos de homens e materiais os alemães conceberam um plano totalmente inovador para a época. Assim, após um treino intensivo de 6 meses concebido ao que parece pelo próprio Hitler, vários planadores são lançados a partir de diferentes bases na Alemanha, tendo partido de Colónia o contingente destinado a atacar o forte. Ao mesmo tempo, soldados alemães já se tinham infiltrado na região fronteiriça vestidos à civil ou com uniformes da polícia holandesa, tendo como objectivo assegurar o controlo das pontes e evitar que explodissem. Para que a surpresa fosse completa, o ataque foi lançado antes de qualquer declaração de guerra. 

Parte superior do forte com as cúpulas de artilharia visíveis à esquerda e uma falsa cúpula visível à direita, em segundo plano

Por volta das 4h30 da manhã do dia 10 de Maio de 1940, 9 dos 11 planadores aterram sobre o forte beneficiando do único ponto fraco: os campos de futebol que os soldados belgas aí tinha feito para seu entretenimento e que assim, livres de arame farpado ou minas, foram um campo de aterragem perfeito. 

Munidos de uma arma inovadora, as cargas ocas, capaz de perfurar betão ou aço, os alemães neutralizaram em pouco mais de 15 minutos duas cúpulas e duas casamatas de artilharia, as que podiam impedir a movimentação de tropas terrestres pelas vias de invasão escolhidas, e ainda duas casamatas de defesa de proximidade, assegurando assim o controlo da parte superior do forte. Apesar de vários contra-ataques da guarnição do forte e dos disparos feitos pelos dois fortes mais próximos de Eben-Emael sobre este, os páras alemães bem entricheirados nas casamatas semi-destruídas resistiram e aguardaram pela chegada das tropas terrestres, o que aconteceu na madrugada da manhã seguinte. 


Porta blindada interior da casamata Maastricht 1 destruída por uma carga oca alemã.


Cúpula de observação de uma casamata danificada por uma carga oca. 

Finalmente, após 36 horas de combate apenas, o inexpugnável Eben-Emael rendeu-se. Este acontecimento causou ondas de choque pela Europa inteira e foi aproveitada de maneira admirável pela propaganda alemã que, pouco depois da conquista, começou a divulgar um filme recriando a tomada de Eben-Emael. O filme foi rodado no próprio forte e este foi apresentado como sendo a maior e mais poderosa fortaleza da Europa.


A visita






Interior da casamata de Artilharia Visé 2



Porta blindada da casamata Maastricht 1 vista do exterior. Em caso de abandono da casamata, era possível selar as portas (duas portas e uma persiana em aço e ainda sacos de areia) resguardando desta forma o resto da fortaleza. Os alemães resolveram o assunto aplicando uma carga oca na parte interior da porta.


Hoje o forte é visitável, mas o calendário de visitas é algo limitado pois apenas é possível fazê-lo uma vez por mês e entre Março e Novembro. A visita começa com um vídeo de apresentação que conta a história do forte, desde a sua construção até à rendição aos alemães, seguindo-se depois uma visita guiada pelas galerias subterrâneas dos dois níveis superiores (1 e 2). Esta parte é feita apenas com guia ao contrário do que acontece nas galerias do nível 0 que estão totalmente musealizadas com as diferentes valências de então: balneários, talho, enfermaria, alojamentos de oficiais, salas de jantar, entre outras. 

Percorrem-se as salas de comando, as casamatas Maastricht 1 e 2 e a Visé 2, enquanto o guia vai partilhando não só a história bem conhecida do forte como também pequenos episódios que tornam o relato bem interessante. Terminada visita interior, é possível fazer uma caminhada sobre a super-estrutura do forte, num percurso de 3km que percorre todo o seu perímetro, hoje transformado em terreno agrícola e florestal.

Vista exterior da casamata Visé 2



Torre de ventilação





O bloco II (Defesa de proximidade) visto do exterior


E para nos recompormos das emoções...

A visita a Eben-Emael não pode terminar sem provarmos um magnífico crepe salgado acompanhado por uma cerveja de produção local no restaurante situado mesmo em frente ao forte, num antigo moinho de água.


quarta-feira, outubro 03, 2018

Quem comeria bolos com esta cobertura?

O mercado semanal de Wiesbaden, na Alemanha, é um mercado simpático com uma bela diversidade de produtos, à semelhança de muitos outros mercados naquele país. Neste caso foi também uma oportunidade para comprovar o quão despudorados em termos de higiene e segurança alimentar os cidadãos alemães são quando comparados com os portugueses. 

Deixo a pergunta: qual seria o efeito da visão desta cena num dos nossos intransigentes agentes da ASAE?

Clicar na foto para ampliar


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