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segunda-feira, dezembro 10, 2018

Os segredos da Penha da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 1 de Novembro de 2018 

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   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
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   - Ursos, lobos e zebros
   - Os Castros da Serra da Gardunha
   - Floresta portuguesa, um ano depois


A Penha da Gardunha, com os seus pinheiros-silvestres, vista de NE.



A Penha da Gardunha é um enorme esporão rochoso, sobranceiro à aldeia histórica de Castelo Novo, e que se destaca na paisagem da Serra da Gardunha. Contrariando um equívoco comum, a Penha não é o ponto mais alto da Gardunha já que se eleva a uma altitude de pouco mais de 1150m, bem abaixo, portanto, dos 1227m do Alto da Gardunha.

 Mais do que a sua imponência ou a magnífica paisagem que do seu topo se avista, que inclui até terras de Espanha, o que faz deste monumento natural um local tão intrigante quanto fascinante é a sua história e a transversalidade de crenças que aqui têm raízes. É justo dizer-se que a Penha constitui o pilar da religiosidade das comunidades da Serra da Gardunha e no seu topo existem ainda vestígios de construções que são o que resta do antigo santuário de Nossa Senhora da Serra.

A existência deste santuário foi justificada pela lenda de uma menina de Alcongosta que se perdeu e que acabou por ser encontrada incólume, nove dias depois, junto à cavidade conhecida hoje como Gruta. Informados pela criança que esta tinha conseguido sobreviver por ter sido alimentada pela “senhora” que ali vivia, as pessoas que a procuravam entraram nessa gruta e depararam-se com uma imagem da Virgem Maria, que depois foi baptizada como Nossa Senhora da Serra. O local passou a ser objecto de uma importante romaria anual, sempre por altura da Páscoa e, aos poucos, o santuário foi crescendo em tamanho e complexidade. Algumas capelas foram adossadas ao templo principal, nomeadamente a pequena capela do Santo Cristo (cuja pequena planta quadrada é hoje bem visível), a nova casa do ermitão foi construída para substituir a modesta construção anterior (cuja divisão bem delineada escavada na rocha é bem visível) e foram construídas vias de acesso conjugando calçada e escadarias.

Sobre este último aspecto, os Caminheiros da Gardunha identificaram há relativamente pouco tempo o segmento de 350m de escadarias da via de romaria a partir de Castelo Novo, correspondendo à descrição que dela faz o Padre Peralta no Diccionário Geographico em 1758: "ha anos, em uma ascensão que fizemos á desmantelada gruta da Senhora da Serra acima d'esta região e quasi no viso da serra, veêm-se ainda aqui e alem pequenos lanços da estreita calçada que coleando por entre rochedos e precipicios, dava aceso para a gruta da Senhora da Serra aos romeiros que saahiam d'Alpedrinha, Alcongosta e outros povos, nos bons tempos, em que parece a fé se aliava com a poesia na escolha do local para os santuários". 

A escadaria da via de romaria a partir de Castelo Novo. 


A obra “Orologia da Gardunha”, de José Inácio Cardozo, descreve uma expedição à Penha realizada a 9 de Outubro de 1846 (com os expedicionários a munirem-se de mantimentos e espingardas) e dá uma boa ideia da organização do santuário, que nessa altura já estava abandonado. Este abandono foi, ao que parece, uma consequência do excesso de fervor que as gentes que se deslocavam em romaria a este santuário imprimiam à sua devoção.

O relato de alguns episódios mostra bem que esta romaria era tudo menos monótona, referindo-se, entre “rixas indecentes e criminosas”, a cruz de prata processional das gentes de Castelo Novo, que estava toda amolgada das pedradas que tinha levado, ou ainda o episódio da destruição acidental da própria imagem de Nossa Senhora da Serra, por um grupo de moradores de Valverde, tendo esta acabado por ser substituída por uma outra imagem custeada pelas gentes do Souto da Casa.

Certo é que, procurando conter estes “excessos da fé”, primeiro proibiu-se tirar a imagem do altar para as procissões e, mais tarde, o santuário acabou mesmo por ser desactivado e demolido, tendo a imagem de Nossa Senhora da Serra sido trasladada para a Igreja Matriz de Castelo Novo, onde ainda hoje se encontra, em detrimento de Alcongosta que também reclamava para si a posse da imagem.

Uma sacralidade milenar

No entanto, a História da ocupação humana da Penha remonta a tempos muito anteriores ao do santuário da Senhora da Serra, tendo aqui sido recolhidos materiais que remontarão à Idade do Bronze. A historiografia refere ali a existência de um castro mas os vestígios parecem-nos demasiado escassos para se poder fazer tal afirmação sem que, pelo menos, se mantenham algumas reservas. É possível sim que, tendo em conta a antiguidade dos vestígios ali encontrados e a posterior criação do santuário cristão, este tenha sido um local de culto pagão já desde tempos pré-romanos e que, mais tarde, com o advento e imposição do cristianismo, terá sido cristianizado. Estaremos, pois, a falar de uma sacralidade que, apesar das transformações do espaço, se prolongou por milénios neste local!

O valor sagrado da Penha vai, apesar de tudo, bem para lá desta dualidade pagã-cristã, continuando a motivar “romarias” ao longo de todo o ano. Perscrutando as estrelas ou procurando no interior da Terra ou até dentro de si próprio as respostas às suas inquietações, muita gente continua a subir à Penha pelos vestígios de caminhos milenares, em busca dos segredos deste lugar. Por enquanto, a Penha teima egoistamente em guardar os seus segredos e, enquanto não os revela, vai-se alimentando do assombro de quem a visita.

Leitura recomendada: "A Via de Romaria ao santuário da Senhora da Serra", por David Caetano, André Mota Veiga e Mário Castro. Poster publicado nas I Jornadas de Arqueologia e Património do Museu Arqueológico do Fundão. Abril de 2017

segunda-feira, outubro 15, 2018

Floresta portuguesa, um ano depois

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Setembro de 2018 

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   - Os Castros da Serra da Gardunha

Serra da Gardunha, 2017


Foi há pouco mais de um ano que a Serra da Gardunha foi devastada pelo violento incêndio que dificilmente se apagará da memória de todos os que o viveram de perto. O heroísmo e a solidariedade da população do Fundão foram já reconhecidos e alvo de homenagem por parte da Câmara Municipal mas o mais importante, que é a recuperação e a implementação de um modelo de ordenamento e gestão da Serra da Gardunha, continua a ser uma miragem. Na Serra da Gardunha, os municípios, o ICNF, a APA e a DRABI continuam a atropelar-se na gestão do território e parece ser difícil encontrar um rumo.

Seria no entanto tremendamente injusto referir este como sendo um problema exclusivo da nossa serra quando se trata de um problema nacional crónico. Desde logo, o incêndio da Gardunha foi apenas um entre os inúmeros que em 2017 consumiram mais de 440.000 hectares, o corolário de uma década terrível em que mais de um terço da floresta portuguesa ardeu.

Este facto veio por a nu, como se ainda fosse preciso, que em Portugal não existem políticas de ordenamento florestal nem de prevenção de incêndios dignas desse nome. Pior ainda, ninguém pode afirmar que o que sucedeu em 2017 foi algo completamente inesperado. Num país em que se chega ao cúmulo de se definir oficialmente uma “época de incêndios” e já se perdeu o sentido de ridículo de que este conceito se reveste, ninguém poderia ignorar que um ano com condições climáticas mais extremas levaria inevitavelmente a este desfecho.

Poder-se-ia pensar que finalmente as lições teriam sido aprendidas mas não. Até agora, a medida mais sonante que o Governo tomou foi a promulgação de uma lei de obrigatoriedade de limpeza que, cavalgando a onda do trauma recente e empurrada pela ameaça de multas chorudas, acabou por ser nociva para a floresta portuguesa.

Por um lado, se houve um facto que para todos ficou evidente foi que as árvores autóctones são mais resistentes ao fogo que os pinheiros-bravos e eucaliptos que dominam o nosso território. No entanto, a lei tratou de situar todas as espécies ao mesmo nível o que não terá de todo desagradado a certos grupos económicos que prosperam ao ritmo do pinhal e eucaliptal e que no rescaldo dos incêndios tinham sido postos em causa.

Por outro lado, no país onde as leis são traçadas a régua e esquadro num gabinete distante da realidade, só depois do abate de árvores centenárias, espécies protegidas e até de árvores de fruto, alguém decidiu vir a terreiro explicar que afinal não era necessário cortar tudo a eito. Apesar de tudo, a criação de zonas de protecção ao redor das aldeias foi uma consequência positiva.

 Acontece que só esta questão da limpeza é tão eficaz no quadro geral como a delimitação de uma zona livre com fita de segurança ao redor de uma bomba-relógio. Continuamos todos à espera de uma lei concreta de ordenamento florestal que sirva verdadeiramente o propósito de um floresta com QUALIDADE e BIODIVERSA. A floresta que temos em Portugal é cada menos digna desse nome, antes sendo uma exploração silvícola mono-cultural intensiva cujo único objectivo é o de obter lucro o mais rápido possível.

O problema é que a nossa classe política vive refém de interesses que nada têm a ver com o interesse público e que lhe restringe a liberdade (ou a vontade?) de implementar reais medidas de fundo. Antes preferem as medidas cosméticas em embalagem populista, sabendo de antemão que todas as decisões que tomarem dificilmente serão alvo de avaliação ainda durante a vigência do seu mandato. Seja como for, a estratégia crónica de culpabilização dos antecessores oferecerá sempre uma almofada de conforto para o caso de algo correr menos bem.

Também os privados, que detêm a esmagadora maioria do território de floresta em Portugal, vivem hoje reféns da ideia, herdada do período do Estado Novo, de que a única forma de obter rendimento da floresta é através de pinheiros e eucaliptos. Quem os pode censurar quando nada foi feito a nível superior para contrariar esta ideia e a possibilidade de que obter algum rendimento, mesmo que seja uma lotaria, é melhor do que não obter absolutamente nada?

Em 2017 Portugal, com a Serra da Gardunha, ardeu. Como referi na altura, todos nós, com a nossa inacção e silêncio, fomos cúmplices. Então como agora, continua a pertencer aos cidadãos o poder de mudar o rumo dos acontecimentos e é urgente fazê-lo. A contagem decrescente recomeçou.

quinta-feira, setembro 20, 2018

Os Castros da Serra da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 8 de Agosto de 2018 

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A Penha destaca-se na crista da Serra da Gardunha

Diz a voz da tradição popular que foi entre as penedias da Serra da Gardunha que as gentes da Idanha procuraram refúgio perante a aproximação dos invasores muçulmanos, a isso se devendo a própria origem do nome de Gardunha. Embora a veracidade deste relato esteja ainda por comprovar, não deixa de ser verdade que, durante séculos e muito antes da chegada dos muçulmanos, houve quem procurasse abrigo no seio da Gardunha, não em busca de refúgio temporário, mas para aí estabelecer povoados permanentes fortemente defendidos. A estes povoados chamamos “castros” e na Gardunha conhece-se a localização de alguns.


Estes castros, também conhecidos mais a Norte como citânias ou cividades, eram povoados implantados no topo de elevações de média altitude e rodeados por algumas cinturas de muralha. Surgiram há cerca de 3000 anos no Noroeste da Península Ibérica em plena Idade do Bronze. As casas tinham uma planta circular e cobertura em colmo, estando agrupadas em núcleos familiares, separados uns dos outros por ruas de largura e traçado muito irregulares. As casas tinham um único espaço interior em cujo centro se situava a lareira. Era nesta que se cozinhava e era ao seu redor que as famílias se reuniam para comer ou para dormir.


Para além do relevo e das muralhas, também era comum reforçarem-se as defesas com com fossos e zonas de pedras fincadas, de forma a dificultar a aproximação de eventuais atacantes, fossem eles os povoados vizinhos ou não. No entanto, a localização dos castros no topo das elevações também assegurava uma função de domínio territorial, permitindo a vigilância atenta de todo o território que dali se avistava. A vigilância era muitas vezes reforçada pela construção de atalaias em locais estratégicos, para alargar o alcance visual.

Qualquer viajante que há 3000 anos passasse junto à Serra da Gardunha ou pela Cova da Beira, poderia avistar estes aglomerados de casas apinhados no topo dos montes, rodeados por impressionantes muralhas. Estas comunidades faziam da agricultura e da pastorícia as suas actividades principais de subsistência, sendo que também se dedicavam à extração mineira e ao comércio, fazendo parte de rotas comerciais que se chegavam a paragens tão longínquas como o Médio Oriente ou o Norte da Europa.

Na Serra da Gardunha, o monte de São Brás, o monte de São Roque (ou Trigais), ambos no concelho do Fundão, e o Castelo Velho, no concelho de Castelo Branco, correspondem sem sombra de dúvida a castros. Há também quem situe num castro a origem da aldeia do Alcaide. Já o lugar do Picoto, junto ao Souto da Casa, terá sido uma atalaia do castro de São Brás, permitindo-lhe estender o domínio visual até à Serra da Maúnça e para lá da Argemela, onde aliás também existiu um castro.

A Penha da Gardunha também é apontada como sendo um local onde terá existido um castro mas, quanto a nós, os vestígios aí encontrados são demasiados escassos para tal afirmação. A existência nesse local do santuário medieval dedicado à Senhora da Serra permite outra hipótese: a de aí ter existido um santuário pagão, semelhante ao do Cabeço das Fráguas entre a Guarda e o Sabugal, cujo valor sagrado terá persistido ao longo dos tempos, até ser finalmente cristianizado.

Os castros da Serra da Gardunha, juntamente com os restantes castros identificados no concelho do Fundão, são lamentavelmente ainda pouco conhecidos do público e, por isso mesmo, vítimas fáceis de atentados patrimoniais. Constituindo locais onde os valores históricos e arqueológicos se conjugam na perfeição com o valor paisagístico e natural, deveriam ser vistos como elementos estratégicos fundamentais para a valorização do território na sua oferta turística tanto cultural como natural. No concelho do Fundão tentou-se em 2004 implementar a chamada Rota dos Castros que, de grosso modo, não passou da colocação de sinalização rodoviária. Nada foi feito em concreto para valorizar os castros ou incentivar a sua preservação.

sexta-feira, julho 13, 2018

Ursos, lobos e zebros

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Julho de 2018 

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Urso-pardo, lobo ibérico e o misterioso zebro. Créditos das fotos e imagem no fim do artigo


A paisagem que nos rodeia apresenta hoje uma realidade muito diferente daquela que seria possível observar há vários séculos atrás. Se por artes mágicas pudéssemos por exemplo voltar à Idade Média, e a não ser que nos conseguíssemos abstrair de tudo o resto para fixar a nossa atenção no recorte familiar dos montes e vales, teríamos muita dificuldade em reconhecer a paisagem da nossa própria região. Logo à partida, a extensa mancha arbórea que por aqueles tempos cobria o território, feita sobretudo de árvores de folha caduca, era bem diferente das florestas bem mais pequenas da actualidade, ainda por cima constituídas em grande medida pela perniciosa harmonia mono-cultural de pinheiro-bravo que bem conhecemos.

A coberto dessa vegetação, viviam animais que hoje já não encontramos entre nós mas que naquela altura era muito comuns. Falamos do lobo-ibérico, do urso-pardo e do zebro, por exemplo. Se o primeiro conseguiu habitar na nossa região até há relativamente poucos anos, tendo os últimos exemplares da Serra da Gardunha sido avistados no início dos anos 1980 e estando a sua população hoje circunscrita ao Nordeste português, os restantes já há muito que deixaram de percorrer o nosso território. No entanto, de Norte a Sul de Portugal, e inclusive no concelho do Fundão, a sua memória persistiu na toponímia, que não raras vezes é uma fonte importante de pistas para desvendar o passado.

O urso-pardo terá, segundo alguns estudos, desaparecido da nossa região por volta do século XVII, tendo as suas populações sido gradualmente empurradas para Norte do país. Embora haja relatos de avistamentos esporádicos bem mais tardios no Norte de Portugal, a sua presença na Península Ibérica está hoje confinada a regiões montanhosas do Norte e Este de Espanha. Este animal cuja caça, a par da do javali, era muito apreciada pela nobreza portuguesa, foi alvo de várias iniciativas régias de protecção quando se constatou a redução da sua população, iniciativas que esbarraram, no entanto, no inconformismo das populações que viam neste animal uma ameaça às suas propriedades. Um dos objectos preferidos de cobiça dos ursos eram as colmeias e, para as proteger dos ávidos plantígrados, estas foram agrupadas e cercadas por muros altos e espessos de forma geralmente circular, os muros apiários. Estas estruturas eram popularmente chamadas de “muros”, “silhas” ou “malhadas”. 

Ora, como foi referido atrás, a toponímia guardou a memória do urso-pardo. Encontramos essa memória na aldeia de Vale d’Urso, freguesia do Souto da Casa (não confundir com Vale de Urso, Proença-a-Nova), e num local ermo noutra vertente da serra da Maúnça designado como “Vale da Ursa”. Curiosamente, não muito longe dali, situava-se uma Malhada que, por ser já antiga era designada como Velha, e que hoje persiste apenas no nome de uma aldeia. Estes topónimos não são raros em Portugal, e a estes devemos juntar os que incluem os termos “Osso” ou “Ossa”.

Eis alguns topónimos portugueses relacionados com a presença do urso-pardo: Vale d'Urso (Souto da Casa), Vale de Urso (Proença-a-Nova), Vale da Ursa (Serra da Maúnça, Proença-a-Nova e Algarve), Serra de Ossa (Alto Alentejo), Ursa (vários), etc.

Quanto ao zebro, trata-se de um animal que ainda hoje suscita alguma discussão. Que este equídeo existiu e proliferou na nossa região não há dúvidas. Discute-se sim o aspecto que teria, embora a tese que mais força tem seja a de que se tratava de um animal semelhante a um burro, de pêlo cinzento com uma faixa mais escura sobre o dorso e com focinho escuro. A sua pele, muito apreciada, era usada como bem transaccionável, como aliás é referido no foral de Coimbra e no de Pinhel, mas o zebro também era procurado pela sua carne. A pressão humana, materializada na caça abusiva e redução do seu habitat, sobretudo a partir do século XII, acabou por levar este animal à extinção ainda durante a Idade Média. No entanto, mais uma vez, a sua memória persistiu no nome de localidades como Zebras (Fundão) e Zebreira (Idanha-a-Nova).

No resto do território português, há mais ocorrências que recordam este equídeo como Zebral (Vieira do Minho), Zebras (Valpaços), Zebreiros (Gondomar), etc.


Por outro lado, a referência a este animal sobreviveu também no nome dos equídeos que os exploradores portugueses encontraram em abundância nas savanas africanas e que acharam parecidos com o zebro. Falamos das zebras, pois claro.

quarta-feira, junho 20, 2018

Os romanos passaram pela Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 14 de Junho de 2018 

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Momento do levantamento do achado

Foi recentemente notícia aqui no Jornal do Fundão, a descoberta de um altar romano no limite da freguesia de Alcongosta durante uma actividade dos Caminheiros da Gardunha. Uma descoberta deste género é sempre um momento feliz, sendo que essa felicidade diz respeito tanto ao sentimento que a descoberta em si inspira em quem a faz, como à conjugação de circunstâncias que permitiram que esta acontecesse.

Este altar ou ara, como é mais comum designar-se, foi encontrado junto aos vestígios da via romana que ligam Alcongosta a Alpedrinha, num local onde as marcas de actividade humana denotam uma certa persistência ao longo do tempo. Trata-se de uma peça esculpida em granito de grão fino e o cuidado no seu acabamento contrasta com uma certa irregularidade nas letras da inscrição que exibe numa das faces. Facto curioso, trata-se da ara romana encontrada a maior altitude na região.

O local do seu achado traz mais interrogações que respostas. Desde logo, estará no seu local original ou foi para aqui trazida em época posterior? A ser verdadeira a primeira hipótese, existiria por perto alguma casa ou povoado? Onde? Também o contraste o acabamento da peça e a irregularidade das letras do seu texto parece indicar que esta terá sido adquirida num local diferente daquele em que foi acrescentado o texto. Sabe-se para já que a inscrição refere o nome de uma mulher e que se trata de um nome indígena, um nome “lusitano” se quisermos falar de forma mais simplista, o que mostra que a população local estaria então bem integrada nos costumes romanos. É provável que se trate de uma inscrição funerária, uma lápide mandada lavrar após a morte desta mulher, por alguém que a estimava e que assim quis perpetuar a sua memória. 

Era costume, na época romana, construírem-se monumentos funerários para assinalar o local de sepultura dos defuntos. Podiam ser em forma de altar, podendo ser o caso deste que agora foi encontrado, mas não só. A forma do suporte das inscrições podia variar, à media da própria dimensão e monumentalidade das sepulturas. Conhecem-se muitos exemplares de inscrições funerárias ao redor da Gardunha provenientes de Castelo Novo, Alpedrinha, Donas, Souto da Casa, Vale de Prazeres e até do Fundão, estando a maior parte delas no museu arqueológico da sede do concelho. 

Um dos exemplares mais conhecidos é o da lápide que se encontra encastrada no exterior da igreja de São Pedro, no Souto da Casa, e cuja importância e antiguidade passam despercebidas a quem por ali transita. Trata-se de uma lápide que se destinaria a ser colocada na fachada de um jazigo familiar e refere três elementos de uma família de ex-escravos: pai, mãe e filha.  

É claro que nem todas as inscrições romanas encontradas na região são funerárias. Muitas das aras encontradas nos últimos anos são votivas, ou seja, eram oferendas aos deuses, pertencessem eles ao panteão romano ou não, uma vez que após a conquista romana e apesar de as populações terem abraçado os costumes dos invasores latinos, as divindades indígenas continuaram ainda assim a ser veneradas. Muitas vezes até os próprios romanos aderiam a esse culto em paralelo ao seu.

Altar dedicado a Apolo que até ao último Verão se encontrava numa casa do Casal de Santa Maria, freguesia do Telhado (ver aqui)

As aras destinavam-se a retribuir ou solicitar uma dádiva aos deuses, por vezes até a mais que um ao mesmo tempo. A pedra e a inscrição que nela era gravada não eram mais que o materializar e eternizar desse pacto estabelecido entre o mundo terreno e o divino. Este comportamento tem eco ainda hoje no cristianismo, naquilo que se designa comumente por “promessas” e que é a expressão de um certo nível de politeísmo dentro do suposto monoteísmo desta religião. Vemos esse princípio aplicado quando um crente promete oferecer algo a um santo da sua escolha em troca de uma dádiva.

Depois de gravadas, as aras eram colocadas em local de culto. Muitas delas, têm até esculpida uma concavidade na sua parte superior, o fóculo, que era o local onde eram queimadas essências ou feitas libações aos deuses. Embora hoje as vejamos como blocos monocromáticos, teriam originalmente um aspecto bem diferente, com letras e decorações pintadas.



Reconstiuição hipotética e subjectiva do aspecto original da ara, apenas para dar uma ideia do tipo de cores e do quão diferente seria originalmente.


O mesmo princípio se aplica a estátuas e edifícios. Hoje vemo-los como construções de mármore, granito ou calcário apenas com a cor do material de que são feitos mas, na verdade, na sua época de construção eram bem diferntes, decorados com uma palete de cores fortes e chamativas.

Voltando à ara que é o mote deste artigo, há ainda um longo caminho a percorrer para responder a todas as perguntas que a sua descoberta coloca e é possível que nunca se venham a ter as respostas todas. Para já, o que se sabe é que, há cerca de 2.000 anos atrás e num acto destinado à eternidade, o nome de uma mulher foi gravado em pedra. Hoje, passado todo esse tempo e nada conhecendo dessa mulher a não ser o seu nome, cá estamos nós a ajudar a perpetuar a sua memória. 

sexta-feira, maio 25, 2018

Lendas da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Abril de 2018 

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Falar do património humano da Serra da Gardunha implica necessariamente falar não apenas daquilo que é material mas de igual forma do imaterial. Neste último, enquadra-se um rico manancial de lendas e crenças que nos chegaram, transmitidas essencialmente por via oral. 

Imbuídas de uma profunda religiosidade, que se traduzia em diversos aspectos do seu dia-a-dia, as gentes da Gardunha acreditavam também na existência de diversos seres fantásticos cujos nomes, de tão repetidos ao redor das fogueiras por inúmeras gerações, acabaram por ser percebidos como uma parte banal da realidade que as rodeava, algo tão banal como os fraguedos e as árvores das encostas ao redor. 

Assim, pelos caminhos da Serra, os mesmos caminhos que as gentes trilhavam para irem de uma aldeia para a outra, caminhavam também o Diabo, a Boa-Hora e a Má-Hora e até bruxas, embora estas vivessem até despercebidas no seio das comunidades. Os cruzamentos de caminhos eram locais muito sensíveis pois eram frequentemente locais de “mau encontro”, havendo muitas vezes necessidade de os santificar com a presença de um cruzeiro, fosse ele de pedra ou madeira. 

Em praticamente todos os relatos que pudemos recolher, O Diabo ou Patilhas, como era familiarmente conhecido, é em geral um “pobre Diabo”. A sua obsessão por almas torna-o uma vítima fácil e recorrente da esperteza alheia. Tendo inventado o moinho, vê Deus apropriar-se da sua invenção ao passo que sendo o construtor da calçada que liga o santuário da Senhora da Orada à Portela, também conhecida como Cruz (lá está, num cruzamento), fica sem a alma que lhe fora prometida em troca da obra. Logo ali ao lado, embora já noutra serra, é também vítima da malícia de um sapateiro quando se encontrava no centro de um baile de bruxas, em plena Eira dos Três Termos. Apenas por uma vez a sua aparição tem consequências nefastas, ao deixar sem fala uma habitante da aldeia abandonada de Porto dos Asnos.

A Boa-Hora e a Má-Hora, por sua vez, são duas entidades enigmáticas que vagueiam silenciosas pelos caminhos. A primeira é, segundo as descrições, “branca, muito alta, como se fosse toda feita de algodão” em oposição à segunda que é “um vulto negro”. Nas entrevistas que efectuámos, algumas pessoas afirmaram a pés juntos ter visto estas duas figuras e também é conhecida a história de como, na aldeia de Casal da Serra, um homem foi perseguido até sua casa pela Má-Hora, não se tendo atrevido a sair durante vários dias. A Boa-Hora, personificação de venturas, surge no caminho como o aviso para as pessoas se porem a salvo já que, atrás de si, vem sempre a Má-Hora, a personificação do infortúnio que pode até significar a morte.

À semelhança do que já se faz noutros locais, no nosso país e não só, este manancial de lendas justifica bem a criação de roteiros temáticos, cujo valor paisagístico seja complementado com a partilha deste elementos etnográficos imateriais. Há desde logo um elemento que facilita a tarefa e que é o facto de, de forma geral, todas estas lendas estarem perfeitamente localizadas na geografia da Gardunha. Acreditamos também que é fundamental trabalhar-se no sentido de salvaguardar este acervo. Isso não passa por simplesmente plasmar os relatos em textos mas antes por registar o seu relato na primeira pessoa pelas pessoas que as viveram e ainda vivem de forma íntima, nas diferentes aldeias da Gardunha. Ainda há tempo para tal.

Para terminar, vale a pena fazer referência a uma lenda que implica seres que, hoje sim, são seres imaginários: os lobos da Gardunha. Trata-se da lenda do Penedo da Abelha e que conta a trágica história de um jovem soldado que, tendo saído da casa dos seus pais para ir visitar a sua namorada, nunca mais regressou. Conta-se que dias mais tarde apenas os seus pés terão sido encontrados, ainda dentro das botas.

Ora, foi no próprio Penedo da Abelha que, em 2004, identificámos uma inscrição para a qual o estimado Dr. Candeias da Silva avançou gentilmente uma proposta de leitura e datação. Nesta inscrição dos séculos XVI ou XVII, alguém procurou eternizar junto a uma cruz, o nome Afonso Vaz. Será esta a prova material do local de falecimento de um jovem soldado? 

Ler também: 

quinta-feira, abril 12, 2018

Os Moinhos da Serra da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Abril de 2018


Sr Raposo, o último moleiro da Gardunha ainda em actividade


Na sua longa história, as comunidades das franjas da Gardunha souberam aproveitar da melhor forma os recursos naturais desta serra para a sua economia, quase sempre, de subsistência. Para lá da sua riqueza florestal, o recurso mais valioso sempre foi a água, um bem de primeira necessidade, aproveitado igualmente para irrigar terrenos agrícolas, conquistados ao flanco da montanha à força de braços nas zonas de maior pendente, e também como fonte de energia motriz para variados equipamentos moageiros que, com o passar dos séculos, foram surgindo ao longo das linhas de água.

Na Gardunha, a distribuição destes equipamento varia em função do caudal dos cursos de água. Nas zonas periféricas mais baixas, onde os ribeiros possuem maior caudal, encontramos os lagares e as azenhas, ao passo que nas zonas mais interiores e elevadas da Serra encontramos equipamentos mais pequenos mas não menos interessantes: os moinhos de rodízio. Na Gardunha, a cota máxima em que se sabe ter existido um destes moinhos é de cerca de 900m. Embora muitas vezes sejam confundidos no nome, os moinhos de rodízio distinguem-se das azenhas pela sua menor dimensão e pela posição das rodas no interior da construção.

Sendo património familiar passado de geração em geração, não se herdava a posse física do moinho mas antes o direito e o tempo de utilização, dividindo-se o número de dias do mês pelo número de herdeiros. Saliente-se no entanto que esta regra não se aplicava apenas aos moinhos mas também a vários outros recursos e equipamentos da comunidade.

Os moinhos de rodízio terão sido introduzidos na Península Ibérica pelos romanos mas a tradição popular conta-nos uma versão distinta e sobrenatural da sua origem. A lenda conta que foram inventados pelo Diabo que, cheio de orgulho, chamou Deus para lhe mostrar aquilo que tinha acabado de criar. Este último felicitou o Diabo mas, para surpresa do inventor, chamou a atenção para o facto de faltar algo muito importante naquela obra, desenhando de seguida uma cruz sobre a mó “para moer grão e bicho não”. A marca deste acto de apropriação de propriedade industrial é ainda hoje bem visível nas mós de todos os moinhos mas a sua função é igualmente utilitária. De facto, a cruz serve de referência da posição de encaixe da mó movente na estrutura do rodízio aquando da sua de manutenção.

Este cunho religioso dos moinhos enquadra-se na ampla ritualidade inerente à produção do pão que vai desde a marcação de cruzes na massa, para garantir que a fermentação corre bem, até às cruzes insculturadas nas mós e às vezes até junto às próprias portas dos moinhos, para manter os males no exterior. Mesmo o produto final, o pão, é alvo de um respeito muito particular pois quando inadvertidamente se deixava cair, era rapidamente apanhado e beijado numa atitude de contrição.

Em relação à sua estrutura, os moinhos de rodízio estão geralmente divididos em dois compartimentos sobrepostos: o espaço da moagem na parte superior e o compartimento inferior popularmente chamado de “inferno”, onde a água faz mover o mecanismo do rodízio. Este consiste numa roda metálica que faz girar um veio vertical sobre o qual, no compartimento superior, encaixa a mó movente. O grau de moagem pode ser ajustado mediante uma alavanca, o aliviadouro, que afasta ou aproxima a as mós. Todo o sistema do rodízio apoia-se e gira sobre um pequeno seixo de quartzite, extremamente polido pela fricção e, por isso, com um mínimo de atrito.

Apesar de actualmente quase todos os equipamentos moageiros estarem abandonados e a maior parte em ruínas, há ainda alguns exemplares que se mantêm em utilização e outros, poucos, foram alvos de restauro para efeitos museológicos. No entanto, sendo o Concelho do Fundão tão rico em equipamentos moageiros de diferentes tipologias e que tiveram tamanha importância na economia das suas gentes, estranha-se que não exista uma oferta museológica que lhes dê a devida atenção. Este será um assunto a discutir num próximo artigo.

quarta-feira, março 07, 2018

As Secadeiras da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 1 de Março de 2018.(ver aqui

Secadeira do Carvalhal, Souto da Casa


As secadeiras são uma das construções mais tradicionais da Serra da Gardunha, e foram em tempos uma engrenagem fundamental num dos aspectos económicos mais importantes da região: a produção de castanha. Funcionaram de forma intensiva até há cerca de 30 anos, altura em que os incêndios, as pragas e o corte abusivo enfraqueceram irremediavelmente os soutos. 

Várias fontes atribuem aos romanos a responsabilidade pela introdução do castanheiro na Península Ibérica mas, na verdade, o registo fóssil prova que o Castanea sativa já existia pelo menos no Noroeste peninsular há cerca de 7.000 anos. Na Gardunha, reza a tradição que os castanheiros terão sido plantados por ordem de D. Dinis, em finais do séc. XIII, sendo que os soutos, com uma extensão de cerca de 14km, depressa assumiram um papel vital para as comunidades da Gardunha. 

É fácil perceber a importância que o castanheiro terá tido na subsistência destas comunidades, à semelhança do que acontecia nas geografias onde abundava. Para além da tão apreciada e muito nutritiva castanha, que lhe granjeou o epíteto de “árvore do pão”, o castanheiro fornecia também lenha para cozinhar e para aquecimento, madeira para construção de habitações e do seu mobiliário, matéria para fertilizar os solos, material para cestaria, alfaias agrícolas e até cajados de pastores. 

Os soutos, inicialmente pertença do rei, acabaram nas mãos de grandes proprietários que daí obtinham uma parte significativa dos seus rendimentos. A tarefa da recolha da castanha, na ordem das centenas de toneladas, cabia à população assalariada que, em seguida, levava o fruto para as secadeiras onde eram colocadas a secar. Depois de seca, grande parte da produção ficava na posse do proprietário, cabendo apenas uma pequena fracção àqueles que tinham recolhido o fruto, inicialmente um sexto ou um quinto

 As secadeiras eram construções em granito ou xisto, com telhado a uma ou duas águas, consoante a sua dimensão e organização. Possuíam dois pisos e tinham em geral apenas duas aberturas: uma porta e uma janela. Adossado às secadeiras ou nas imediações destas, era comum existir um espaço de armazenamento. Separando os dois pisos encontrava-se o “caniço”, sobre o qual eram despejadas as castanhas destinadas à secagem. Tratava-se de uma estrutura em madeira, constituída por pequenas tábuas ou “ripas”, suportadas por vigas transversais. As ripas eram espaçadas entre si o suficiente para, por um lado, não deixar cair as castanhas e, por outro lado, para permitir a passagem do calor proveniente das fogueiras do piso inferior. 

 O processo de secagem demorava de duas a três semanas, sendo realizado pelo efeito do calor de fogueiras brandas, sempre com recurso a lenha de castanheiro cujo fumo, dizem, “dava às castanhas um aroma e um paladar mais adocicado”. As fogueiras eram mantidas pela vigília constante daqueles que tinham as suas castanhas na secadeira nessa altura. Já secas, as castanhas eram depois descascadas, sendo para isso colocadas em cestos próprios onde eram pisadas fosse com tamancos de madeira ou, mais recentemente, com recurso a botas cardadas. As castanhas secas, ditas “castanhas piladas”, eram depois triadas para separar as de melhor qualidade para venda. As de menor calibre ou partidas destinavam-se ao sustento da população podendo ser cozidas ou usadas no tradicional “caldudo”. 


Distribuição das secadeiras inventariadas na Gardunha. Para referência, a Penha situa-se no canto superior direito da imagem. Fonte: Google Maps


Recentemente, dedicámo-nos a fazer o seu inventário na freguesia do Souto da Casa, tendo registado sete secadeiras. Haveria certamente mais ao redor da Gardunha. Das que constam deste inventário, a mais bem conservada é a Secadeira do Carvalhal, que em boa hora foi restaurada pela Junta de Freguesia do Souto da Casa. As restantes encontram-se todas em ruínas.

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