quinta-feira, agosto 23, 2018

Blegny - Descida ao coração negro da Terra

O poço nº1 de Blegny

"Vou contar-vos uma história.". É com estas palavras que António Vicente começa a visita que dali a instantes nos há-de levar ao coração negro da Terra. Estamos na antiga mina de carvão de Blegny, praticamente à vista de Liège e hoje classificada pela UNESCO como património da Humanidade. 

Estas eram uma das inúmeras minas de carvão da Bélgica (só na província de Liège contam-se mais de 80 e as escombreiras são uma marca na paisagem), concentradas sobretudo na Valónia. Foram exploradas entre o século XV e 31 de Março de 1980, tendo sido a última mina de carvão belga a encerrar na sequência da crise provocada pelo menor preço do carvão de outras paragens e pelo advento do petróleo como fonte de energia.



Escombreiras na margem oposta do Mosa, junto a Herstal


A lenda de Houllos ou a origem da hulha

O carvão era, no entanto, já conhecido desde a Idade Média, podendo ser encontrado em afloramentos à superfície. A lenda diz que o conhecimento do carvão foi dado por um anjo a um modesto ferreiro, de seu nome Houllos, que não tinha forma de acender a sua forja. O anjo mandou Houllos subir ao monte Saint-Martin, hoje no coração de Liège, e abrir um buraco com 3 pés de profundidade pois ali encontraria uma rocha negra que em seguida deveria partir e queimar na sua forja. Assim terá começado a ser usada a "houille", em português "hulha", perpetuando o nome deste ferreiro.
Alguns investigadores sugerem que o anjo da história não era um "Angelus" mas um "Anglus", um inglês, território no qual o carvão já era explorado desde o século IX. Talvez o "anjo" e Houllos fossem a mesma pessoa: um ferreiro inglês em viagem que encontrou em Liège o mineral que lhe era tão familiar.


A descida à Mina


António aproxima-se da grade do poço nº1 e chama o elevador. É um elevador de dois andares pelos quais divide o grupo. Fechada a grade, dá a ordem de descida a 30 metros e mergulhamos na escuridão. As galerias da mina descem a até 500m mas a visita só chega aos 60m. As galerias abaixo estão actualmente inundadas o que não é de estranhar pela abundância de água na região e até pelo facto de estarmos abaixo do nível do rio Mosa

Chegamos à primeira galeria e as crianças reunem-se à volta do nosso guia que faz questão de esclarecer: -"Não estudei para guia. Sou mineiro. Por isso aquilo que vos vou contar é uma história de como era a vida na mina.". Pega em seguida no capacete e mostra-o: -"Uso este capacete há 40 anos e por várias vezes me salvou a vida. Quando eu saía da mina, tirava o capacete e o que é que vocês acham que eu lhe dizia?". Uma das crianças arrisca: -"Obrigado?". Com um sorriso, António confirma que a resposta está certa e tira do bolso um pequeno pedaço de carvão dando-o ao miúdo: -"Acertaste. Aqui tens a tua recompensa. Guarda-o bem no teu bolso porque isso é muito precioso. É ouro negro". Apressa-se em seguida a sossegar as outras crianças: -"Não se preocupem. Vou precisar da ajuda de todos e por isso vai haver um pedaço de carvão para toda a gente.". 

António Vicente, revela-se um comunicador nato e, com a sua voz branda, revela um jeito especial para cativar os visitantes, especialmente as crianças. Tem uma vida ligada às minas que começou nas Minas da Panasqueira quando tinha 14 anos. Deixou depois Portugal, há mais de 40 anos, para vir trabalhar para as minas na Bélgica. Só trabalhou em Blegny já perto do fecho desta mina pois antes estava noutro complexo mineiro na Flandres. 

-"Quando entrávamos na mina todos tínhamos medo. Por isso cantávamos no elevador para espantar o medo. Estávamos debaixo da terra durante 8 horas seguidas e sabíamos bem o perigo que corríamos.", conta-nos António. De acordo com o seu relato, nas minas da Flandres onde trabalhou chegou a descer abaixo dos 1.000 metros! -"Demorávamos quase uma hora a chegar à nossa galeria. Àquela profundidade a temperatura subia acima dos 40º e por isso, mal chegávamos, tirávamos a roupa e trabalhávamos em cuecas. O calor era terrível e havia quem bebesse 10L de água durante o turno."


As condições desumanas de trabalho


A visita vai prosseguindo enquanto António mostra as estreitas aberturas em que os mineiros se metiam rastejando para extrair o carvão, antes de nos encaminhar para uma galeria que desce aos 60m. Ao mesmo tempo, vai explicando as técnicas de colocação de explosivos e demonstrando o funcionamento do equipamento pneumático de perfuração. O barulho é ensurdecedor. -"Imaginem agora, ouvir este barulho durante 8h seguidas e respirar a poeira toda, para além do calor que se sentia.". As doenças dos mineiros decorrentes das condições de trabalho são bem conhecidas e variaram ao longo dos séculos: tuberculose, ancilostomíase, antracose, artrose, surdez, nistagmo e silicose. -"Por isso é que os mineiros se podiam reformar ao fim de 25 anos de serviço", diz-nos. Ficamos também a saber que nas minas chegaram a trabalhar mulheres e crianças, antes de a legislação as ter remetido a trabalho à superfície.



Sobre os perigos é suscinto -"Podíamos atingir um lençol de água, uma bolsa de gás, podia-nos cair uma pedra em cima. Havia algumas pessoas que não conseguiam lidar com o medo e se auto-mutilavam para poderem sair da mina mas também havia um espírito muito solidário e encorajavamos-nos uns aos outros.". Os sistemas de alarme eram rudimentares mas fundamentais para quem os sabia interpretar: para o gás havia canários e mais tarde lanternas de detecção e para os desmoronamentos os ratos eram o melhor alerta pois fugiam em pânico ao pressentirem a iminência da tragédia. 

Mas os mineiros não eram os únicos a sofrer na mina. Antes da introdução das máquinas de tracção a diesel, que para além das vantagens trouxeram também o lado negativo das emissões de monóxido de carbono, eram usados cavalos: -"Entravam na mina e não voltavam a sair. Passavam aqui a vida. Quando já estavam velhos e cegos por causa da falta de luz, eram levados finalmente para a superfície e guardados em estábulos onde eram alimentados e tratados até morrerem.". 


Muitas nacionalidades mas todos mineiros

Nas minas trabalhavam várias nacionalidades: -"Éramos de várias nacionalidades diferentes mas dentro da mina não há racismo. Todos aprendemos a comunicar uns com os outros e todos dependíamos uns dos outros. Com os italianos era mais fácil porque eles falam com as mãos", brinca, mas o que é facto é que tivemos oportunidade de o ouvir falar italiano com um colega antes da visita. Um produto da camaradagem dentro da mina. -"A minha equipa era de 5 pessoas, todas de nacionalidades diferentes mas aprendemos a comunicar uns com os outros. Havia um grande espírito de camaradagem".

Os italianos eram a nacionalidade mais representada nas minas belgas, sobretudo após o fim da II Guerra Mundial, quando o seu país estava destruído e não havia emprego enquanto as minas de carvão belga estavam extremamente carentes de mão-de-obra. -"Vieram aos milhares e sofreram muito dentro das minas, coitados" confidencia-nos António. "Depois do Bois du Cazier, deixaram de vir". António refere-se à tragédia da mina de Bois du Cazier que, em 1956 e na sequência de um incêndio, vitimou 262 mineiros, 136 dos quais italianos. Na altura, um terço dos mineiros da Bélgica eram de nacionalidade italiana. 


Subida à Lavaria



Chegados ao fim da galeria, António chama de novo o elevador e desta vez subimos 12 metros acima do nível do solo, directamente para a lavaria onde a primeira visão é uma imagem de Santa Bárbara, padroeira dos mineiros. Era a ela que os mineiros vinham pedir protecção antes de descer à mina e também agradecer na saída. 



A visita termina com um espectáculo de luzes e música na lavaria e uma reflexão do nosso mineiro-guia: -"A minha vida foi passada nas minas. Vi muita coisa, boa e má, e vivi um espírito de camaradagem maravilhoso. Trabalhávamos em conjunto e quando, ao fim do trabalho voltávamos à superfície vínhamos todos negros, todos iguais. Chamavam-nos "Gueules noires" (Bocas negras) e que orgulho sentíamos de sermos assim chamados! É isso que guardo da mina, é isso que quero sobretudo partilhar, é a história que quero contar. O mau que vivi, nunca gostei de partilhar nem quando chegava a casa. Guardo para mim."



Despedimos-nos de António depois de bebermos um café, bem à maneira portuguesa. Temos de voltar a Liège e ele tem já outro grupo à espera. Vemo-lo dirigir-se para o local de início da visita com a mesma alegria e aquele brilho no olhar com que nos recebeu. No bolso leva os seus pedaços de ouro negro para dar à criançada. Vai contar mais uma vez a história.

sexta-feira, agosto 17, 2018

A cidade de Dinant, entre o belo e o surreal

Vista do centro da cidade de Dinant. Na margem oposta, a margem esquerda do Mosa, é possível ver a "Maison Leffe", que alberga o museu desta conhecida cerveja de abadia belga. Em primeiro plano, a torre sineira da Igreja de Nossa Senhora de Dinant.



Dinant é uma cidade encravada num vale cavado do rio Mosa, esticando-se ao longo das margens do rio e respectivos afluentes. Esta pequena cidade tem uma história milenar que começa entre o fim da Antiguidade e o início da Idade Média, tendo feito parte do Principado de Liège como cidade fronteiriça. Os domínios dos arqui-rivais do Principado, os Duques de Borgonha, começavam logo na margem oposta do rio Mosa, facto que sempre gerou inúmeras e até trágicos conflitos.

A cidade tornou-se célebre pela mestria do trabalho em latão e cobre pelos seus artesãos, facto que fez da cidade uma povoação riquíssima, mas este estado de graça chegou ao fim quando os "dinandiers" decidiram provocar o Duque de Borgonha e, pela calada da noite, foram à margem oposta deixar uma efígie enforcada do filho do duque. Sabendo como esta malta de sangue azul se melindra com mau gosto da ralé, foi muito má ideia. 

Não só Dinant foi cercada por Carlos o Temerário, o herdeiro do Duque, como a cidade foi totalmente incendiada e a população, a que não foi morta nos combates ou executada no rescaldo, foi obrigada a mudar-se. Acabaria no entanto por voltar, anos mais tarde, recuperando um pouco do passado glorioso da cidade, embora longe do fulgor de então.

Ainda houve mais uns quantos cercos e a cidade ainda sofreu muito nos séculos que se seguiram mas foi preciso esperar até ao século XX para que a dimensão da tragédia fosse de novo terrível. Foi em Agosto de 1914, cerca de duas semanas após a invasão da Bélgica, quando os exércitos alemães finalmente chegaram a Dinant. A defesa da cidade tinha sido confiada aos exércitos franceses (entre uns quais um jovem oficial chamado Charles de Gaulle), que aqui foram resistindo durante duas semanas às sucessivas investidas germânicas. A 23 de Agosto os alemães tomaram finalmente Dinant e em atitude de represália executaram sumariamente quase 700 civis (o mais novo tinha 3 anos, o mais velho 88) e deportaram mais de 400. 


A fortaleza holandesa do século XIX, a igreja colegial e a ponte Charles de Gaulle, assim chamada por o futuro presidente francês aqui ter sido ferido durante os combates de Agosto de 1914. A grande torre sineira com bolbo (século XVI) destinava-se inicialmente a ser construida sobre a ponte mas os receios de que esta não suportasse o peso da estrutura levaram a que fosse construída sobre a igreja colegial.



Vale a pena subir até à fortaleza, seja pela escadaria íngreme ou pelo teleférico, pois a vista é magnífica. Contudo, um dos sítios que tornam a visita inesquecível fica precisamente dentro da estrutura: trata-se do abrigo desmoronado, um abrigo de combate que tombou por inteiro durante os bombardeamentos mais recentes. O resultado é um espaço que provoca desorientação e falta de equilíbrio pela informação visual enganadora que captamos. 



Para além da sua história e dos seus monumentos, entre os quais a fortaleza holandesa do século XIX e a igreja colegial são ex-libris, Dinant é também conhecida por ser o local de nascimento de Adolphe Sax, o inventor do saxofone que está omnipresente na estatuária pelas ruas da cidade. É também aqui que se produz a Leffe, numa antiga abadia junto ao curso de água com esse nome, uma das mais conhecidas cervejas belgas.


O interior da igreja colegial de Nossa Senhora de Dinant, um templo gótico que alberga as relíquias de São Perpétuo, padroeiro da cidade.



Estátua e museu de Adolphe Sax, inventor do saxofone, na rua Sax


Por sorte, visitei Dinant no dia 15 de Agosto, um dia que é marcado por muitas e rijas festas pela Bélgica. Não só encontrei uma enorme feira tipo Feira da Ladra pelas ruas principais da cidade, numa e noutra margem do Mosa, como ainda pude assistir à "Regata das Banheiras" anual, um cortejo de jangadas alegóricas pelo rio no qual os cidadãos podem dar largas à sua imaginação.

O resultado é este:

















quinta-feira, agosto 16, 2018

Porque calaram Marine Le Pen?

0 minutos para Marine Le Pen na Web Summit de 2018
(Foto tirada daqui)

Afinal Marine le Pen já não vai participar na Web Summit 2018 como oradora. Isto acontece na sequência de toda a polémica que o anúncio do convite despoletou, com a organização SOS Racismo e o Bloco de Esquerda a consitituirem-se como as vozes de protesto mais sonantes, e o Governo português a reforçar que a responsabilidade do convite era toda da organização o evento.

Certo é que com ou sem pressão do Governo (que eu acredito que tenha havido), o convite foi mesmo retirado e Marine Le Pen já não estará presente na Web Summit 2018, levando a que tenham sido cometidas duas asneiras em vez de apenas uma

Em primeiro lugar, há que questionar o que fazia Le Pen como oradora no Web Summit visto que se trata de um evento que está ligado à Tecnologia, ao contrário por exemplo das TED Talks. Poderemos eventualmente supor que dá sempre jeito ter le Pen à mão para passar dados caso a rede Wireless falhe  mas, brincadeiras à parte, este evento tem-se sempre pautado por uma certa tendência para o mediatismo na escolha dos seus convidados. Lembrem-se que Nigel Farage foi orador em 2017 e não consta que seja grande especialista em tecnologia, sendo antes conhecido por ser muito bom em armar confusões épicas e depois fugir como se não fosse nada com ele. Que dizer também de Luís Figo e Ronaldinho?

Por outro lado, Le Pen advoga uma política de extrema-direita, na qual os nacionalistas e fascistas mais radicais se revêem totalmente. Ora, não sejamos anjinhos. Sabemos já, pelas lições de História, onde leva este caminho e temos de perceber porque é que a máxima "Fascismo nunca mais!" é mais que uma frase bonita que é moda usar por alturas do 25 de Abril, sabendo que em Portugal o fascismo foi apesar de tudo muito mais brando que noutras paragens da Europa. 

A Web Summit foi no mínimo infeliz ao convidá-la mostrando não perceber o que representa a ideia de fascismo em Portugal e, claramente, subestimou a onda de choque que o anúncio da sua vinda iria provocar. Queriam jogar com a polémica mas não esperavam que chegasse ao ponto a que chegou. 

No entanto, tinham toda a legitimidade em convidá-la para ela falar do que quisesse e certamente teria alguns fãs à sua espera, entre eles vários PNR's e saudosistas de Salazar, a quem o que fazia falta era terem realmente vivido o salazarismo. Em Portugal a Constituição proibe as organizações fascistas (pelos vistos excepto se por cosmética o nome referir "renovação" em vez de "fascismo") mas não proibe que se fale dele, contra ou a favor. É a ironia do princípio da liberdade de expressão. Dupla ironia se tivermos em conta a posição das correntes fascistas em relação à liberdade de expressão. 

Seja como for, feito o convite, não restava outra opção a Patrick Cosgrave senão assumir a responsabilidade do mesmo e mantê-lo. 

Tendo retirado o convite, a Web Summit fez de Marine Le Pen uma vítima e passou a ideia da existência de um certo nível de censura em Portugal. Se o tivesse mantido, teria sido uma excelente oportunidade para a maioria dos portugueses mostrar o que pensa do fascismo, boicotando a intervenção de Marine Le Pen ou manifestando-se contra ela, com todo o fôlego que os ventos de Abril permitissem. 

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