segunda-feira, janeiro 30, 2017

Pela Serra da Estrela com neve. Muita neve!

Com tudo a postos para participar numa caminhada organizada que iria percorrer o maciço central da Serra da Estrela, a notícia do adiamento devido ao agravamento das condições climatéricas foi uma tremenda desilusão. A Estrela é um território do qual conheço muito pouco para além dos circuitos turísticos habituais e estava em pulgas para ir caminhar por aqueles fraguedos, ainda por cima com neve.

Apesar das circunstâncias, o apelo da caminhada acabou por ser mais forte e, contando com a companhia do Nuno que partilhava da mesma motivação, rumámos a Manteigas bem cedinho para percorrer o vale glaciar e para assim "matar o vício".

O objectivo estava definido: subir o curso do Zêzere, pela GR-33, até perto ao Covão da Ametade e daí subir à Nave de Santo António, local onde faríamos uma pausa para descanso e almoço, reavaliando a situação para decidir se o regresso a Manteigas se faria pelo mesmo caminho ou pela crista da vertente direita do vale glaciar.

O Zêzere, sensivelmente a meio do vale glaciar.

A subida do vale glaciar não foi difícil, exceptuando a secção superior onde foi preciso vencer as barreiras que os arbustos tombados, esmagados pelo peso da neve, iam criando. Não tardou muito para que chegássemos à estrada, junto ao Covão da Ametade, e, a partir daí, ao limite da Nave de Santo António.

Após a primeira secção florestal do trilho, uma pausa para avaliar a distância percorrida desde Manteigas, no extremo do vale


A segunda secção do trilho na floresta, com as árvores a parecer dançarem sob a luz


O limiar da nave de Santo António

Entrando na Nave de Santo António, a camada de neve cada vez mais espessa reservava-nos algumas armadilhas que descobrimos da pior maneira. Por exemplo, a dada altura, a minha perna direita afundou-se na neve até à altura da virilha e -pior!- descobri que por baixo daquela neve toda havia um curso de água bem gelada. Depois da sensação de mil agulhas a espetarem-se-me no pé, depressa deixei de o sentir.

Felizmente, o pequeno refúgio da Nave de Santo António estava já perto e abrigámos-nos no seu interior, para recuperamos energias e para tentarmos tratar do problema dos pés molhados. Afinal, faltava ainda percorrer cerca de 13km e caminhar na neve com calçado encharcado não é nada agradável. A coisa remediou-se com um par extra de meias que viajava na mochila e uns sacos de plástico para congelação (irónico, eu sei) a servir de barreira entre as meias e as botas. Ainda assim, demorou algum tempo até voltarmos a sentir os pés.


O Covão da Ametade, junto à nascente do Zêzere, visto ao longe

Faltava agora percorrer a crista do vale glaciar, naquela que seria a secção mais difícil da caminhada devido à espessa camada de neve que cobria o caminho. Tratava-se de neve arrastada e acumulada pelo vento, portanto muito macia e formando uma espécie de ondas, com uma espessura à altura da nossa cintura que dificultava -e de que maneira!- a nossa progressão, até porque também não tínhamos raquetes de neve.

A solução passou por nos desviarmos do percurso previsto sempre que necessário, subindo na encosta para zonas de menor acumulação de neve, e regressar (por vezes em modo "sku") ao caminho só quando este já parecia transitável. Foram uns bem longos e extenuantes 3,5km! 

O Nuno, com os pés, canelas e joelhos bem fresquinhos, a mostrar como se abre caminho através da neve com muita determinação.

A partir da proximidade da Lagoa Seca, finalmente a uma cota mais baixa, as condições do terreno melhoraram significativamente. Tínhamos contudo gasto muita energia e tempo na luta contra a neve e ainda havia muito para percorrer. Aconteceu entretanto uma situação caricata quando, antes da Lagoa Seca, encontrámos uma placa que indicava a distância até Manteigas e, quilómetro e meio à frente, outra placa indicava que a distância até essa vila tinha aumentado... quilómetro e meio. Felizmente tínhamos a certeza do nosso rumo.


Um último olhar para trás, para a depressão da Nave de Santo António

Foi pois já sem luz que chegámos a Manteigas, com uma frescura física e uma desenvoltura de movimentos dignas de nos garantir um lugar de figurantes na série The Walking Dead. Apesar do cansaço, ficou uma sensação gratificante pelo nossa capacidade de superação, num percurso que, no meu rol de caminhadas de maior dificuldade, entrou directamente para o top-3, a par desta e desta.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Sobre os que escaparam em fumo ao Holocausto

Comemora-se hoje o 72º aniversário da libertação do campo de morte de Auschwitz pelas tropas soviéticas, data que foi escolhida pela ONU como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto".

É chocante verificar que hoje em dia, apesar do esmagador peso das evidências, quem queira apagar ou negar esta que foi uma das maiores atrocidades da História, e é por isso que é importante evocar neste dia a memória das suas vítimas. Não foi o único acto continuado de barbárie cometido durante a última Guerra Mundial, é verdade, e nem todos os seus responsáveis foram julgados como mereciam, pois até do lado dos vencedores houve criminosos de guerra que escaparam incólumes.

Por vezes é difícil sentir o peso deste episódio negro da Humanidade, sobretudo quando as pessoas desaparecidas se tornam vulgares números sem rosto, nas páginas de um livro de história. É difícil imaginar que essas vítimas foram pessoas absolutamente normais, com família, casas, empregos, sonhos e inquietações, que foram sacrificados em nome do irracional, tornados bodes expiatórios dos males das nações. Todos terão morrido com a mesma pergunta em mente: "Porquê?".

Recentemente, estive em Amesterdão e aproveitei para visitar o museu Anne Frank, talvez a mais célebre vítima do Holocausto apesar de nada ter que a distinga de todas as outras. Ao percorrer aquelas escadarias e entrar no Anexo Secreto, a secção da casa que se escondia para lá de uma porta dissimulada por uma estante com livros, e ao perceber que aquele espaço exíguo acolheu 8 pessoas durante mais de 2 anos sem nunca terem saído à rua, é impossível não sentir o peso da realidade. Isso e um enorme vazio, tão vazio como aquelas divisões que assim foram deixadas pelos nazis na sua rusga fatal.


O acesso ao Anexo Secreto, na casa de Anne Frank

Em 2005, por mero acaso, tive a oportunidade de jantar com uma sobrevivente judia da II Guerra Mundial. À medida que a conversa decorria, fiquei a conhecer a sua história e a forma como tinha conseguido escapar à perseguição: escondida no sótão de pessoas amigas. Isto em Lyon, território de "caça" do infame Klaus Barbie, a quem a História garantiu o cognome de "O Carniceiro".

- "E o resto da sua família?", perguntei eu. -"Não estavam escondidos consigo?"

Baixou os olhos para o prato e respondeu num tom mais baixo: -"Não. A minha família saiu em fumo pelas chaminés dos campos de concentração."

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Da palavra do ano aos perigosos muçulmanos, passando pelas caneladas do Pepe

"Geringonça" foi eleita a palavra do ano, numa iniciativa que a Porto Editora tem vindo a promover desde 2009 e que põe a votação um conjunto de palavras, supostamente mais usadas e recolhidas pela análise de frequência e distribuição de uso, inclusive nas pesquisas nos dicionários desta editora. Portanto, em vez de meterem também a palavra "ignorância" na lista, metem palavras de que muita gente desconhecia o significado. 

Conhecida a votação, há que dar mérito a Paulo Portas, conselheiro da Mota Engil, que no queixume do seu apeamento do poder deu visibilidade à palavra vencedora. Paulo Portas parece aliás ter o dom de fornecer palavras à Porto Editora já que, no concurso de 2013, "Irrevogável" foi uma das palavras a concurso. 

Olhando para a lista de palavras deste ano, fico surpreendido por ver "racismo" num modesto 7º lugar e por não ver "xenofobia", "terrorismo" ou "refugiado" na lista, dado que 2016 foi um ano de muita discussão à volta da questão dos refugiados e da automática e persistente conotação com o terrorismo que lhes foi feita. E que dizer da vitória de Donald Trump nas Presidenciais dos EUA, que fez da xenofobia um dos pilares da sua campanha? De repente todos os muçulmanos passaram a terroristas. 

Sempre que oiço comentários de rotulagem automática de terrorista ou, a outra tese de sanguessugas sociais, a tudo o que é muçulmano, só por se atrever a ser muçulmano e estar fora do seu país de origem, recordo-me sempre de um episódio que vivi há alguns anos.


Torcer pela vitória de Portugal, em nome de Alá

Estávamos em Junho de 2010, com o campeonato do Mundo de futebol a decorrer na África do Sul ao som das vuvuzelas. Portugal estava a poucos dias de disputar com o Brasil um jogo que decidia o apuramento para os oitavos de final da prova.

Na altura, tive de me deslocar a Castelo Branco, para uma intervenção nas instalações de um cliente da empresa onde eu então trabalhava. Como ainda tinha algum tempo, parei na área de serviço de Castelo Branco para beber um café, já que ainda não tinha atingido a quota normal de cafeína para aquela hora do dia. Enquanto bebia o café, aproveitei para ir assistindo ao resumo dos últimos jogos do Mundial que nesse momento passavam na televisão.

Foi nessa altura que entraram na cafetaria alguns indivíduos de tez mais escura, o mais velho com turbante e barba comprida. Precisamente este último quedou-se junto a mim, também a assistir ao resumo dos jogos. O futebol tem muito de irracional mas consegue ao mesmo tempo ser uma ponte entre pessoas e foi precisamente isso que aconteceu.

A dada altura o homem virou-se para mim e, num português rudimentar mas esforçado, afirmou: -"O jogo de Portugal com o Brasil vai ser um grande jogo. Quero que Portugal ganhe e vou rezar para que isso aconteça." e colocando as mãos em jeito de súplica aos céus, rematou com -"Insha'Allah!" ("se Deus/Alá quiser"). Esta interpelação acabou por ser o mote para uma breve conversa sobre futebol. 

Depois de algumas considerações mais, fiquei curioso e quis saber um pouco sobre a sua vida, de onde viera e em que trabalhava. Fiquei a saber que era paquistanês, - muçulmano, pois claro!- e que, ele e os seus filhos, tinham vindo para Portugal para trabalhar como operários de construção civil porque a vida no Paquistão era muito difícil. Perguntei-lhe estava a gostar de Portugal e há quanto tempo tinha chegado ao nosso país, ao que me respondeu afirmativamente e que chegara havia já dois anos.

Respondi-lhe de forma ligeira -"Dois anos? Então já é português!"

Instantaneamente, seu rosto abriu-se num largo e radiante sorriso e, dando-me leves mas sentidas palmadas nas costas, limitou-se a repetir -"Obrigado. Obrigado. Muito obrigado" enquanto me fitava com emoção no olhar. Pouco mais disse, limitando-se a ficar ao meu lado em silêncio, ambos olhando para a televisão. Terminei o café e despedimos-nos, desejando mutuamente felicidades.

Alguns dias mais tarde, Portugal e Brasil empataram a zero. Foi um jogo sem grande história mas que aumentou em muito as despesas da comitiva brasileira em produtos farmacêuticos, tal deve ter sido a quantidade de Hirudoid necessária para tratar das recordações, deixadas com afinco pelo Pepe, nas canelas dos nossos irmãos de além-Atlântico. Ambos os países se apuraram, felizmente.

Escusado será dizer que no fim do jogo me lembrei do Hassan, o paquistanês que viera para Portugal em busca de trabalho e de uma vida melhor, para quem ser chamado de português era um motivo de imensa satisfação.

sábado, dezembro 31, 2016

A Torre da Serra da Estrela em 1904


In Ilustração Portugueza, nº52 de 31 de Outubro de 1904 (ao que parece, numa Segunda-feira)

Salta à vista a falta de acabamento da "Torre" e a ausência de sacos de plástico e restos de trenós deixados pelos turistas.

Atendimento prioritário - O civismo imposto por lei


Entrou em vigor a lei que impõe regras de atendimento prioritário no sector privado, à semelhança do que já existia no sector público. A partir de agora, as empresas e instituições do sector privado estão obrigados por lei a dar prioridade no atendimento a idosos, deficientes, grávidas e pessoas com crianças de colo (e não crianças ao colo, que é um conceito ligeiramente diferente).

Embora já houvesse um conjunto de boas práticas em vigor em determinados estabelecimentos, como a existência de caixas de prioridade em hipermercados, o cumprimento destas regras de civismo era algo arbitrário, em função do humor e da ética de funcionários e demais clientes.

Não deixa no entanto de ser algo triste que um conjunto de boas práticas cívicas, que devia resultar da educação de cada um, tenha de ser imposto por lei. A verdaed é que esta é uma questão cultural e basta estar um pouco mais atento no dia-a-dia para perceber que a insensibilidade para com as pessoas que agora são objecto desta lei é frequente.

Lembro-me por exemplo daquela senhora que, cheia de pressa, estacionou de forma a ocupar logo dois lugares reservados a pessoas com deficiências. A única deficiência que se lhe percebia era meramente moral e talvez possamos por aí dar-lhe um desconto. Ou então aquelas pessoas que, percebendo que se encontrava uma grávida na fila para pagar, optaram por fingir que não a viram para não perderem a sua vez.

O facto de ser uma questão cultural é facilmente perceptível se compararmos a nossa realidade com a de outros países. Por exemplo, há alguns meses viajámos até Amesterdão, estando a Ana gravidíssima. A atenção e o cuidado que lhe eram sistematicamente dirigidos em transportes públicos ou estabelecimentos comerciais era de tal ordem que ela chegava a sentir-se mal por isso.

Seja como for, pode ser que esta lei sirva criar hábitos cívicos nas pessoas. Vai haver abusos? Claro que vai. Quem não se lembra dos tão emblemáticos e falados casos de pessoas que pediam crianças "emprestadas" a familiares para entrarem na Expo 98? Veja-se também os casos mencionados neste link. Creio no entanto que esta lei, com mais ou menos casos, acabará por ter um certo efeito pedagógico nos cidadãos, mesmo que venha a dar muito que falar. Só é pena ter tido de ser criada.

terça-feira, outubro 25, 2016

Os misteriosos Fornos dos Mouros da Serra da Maúnça

A crista da Maúnça, com a aldeia do Açor à direita. 

A Serra da Maúnça está condenada a servir de fronteira. Quando caminhamos pela sua crista, o mais provável é que estejamos a caminhar sobre a linha que separa o concelho do Fundão do concelho de Castelo Branco. Chegou a ser até fronteira de um terceiro, o de Sarzedas que, apesar de hoje estar incorporado no da capital de Distrito, ficou preservado na toponímia de um dos locais de maior simbolismo da Maúnça: a Eira dos 3 Termos. 

Por esta Serra passaram inúmeros soldados nos tempos das Invasões Napoleónicas e muitos não chegaram sequer a deixá-la (conta-se que de uma só vez ficaram lá mais de 200 da Grande Armée). Desse tempo sobram nomes como os "Valados", o "cemitério dos franceses" e diz-se até que o intrigante fenómeno da Eira dos 3 Termos (ver aqui) será uma herança visível desse tempo.

Há num entanto outro mistério bem menos conhecido por explicar mas a que o povo já sentenciou a idade. Trata-se dos "Fornos dos Mouros", cavidades abertas nas rochas com uma finalidade desconhecida. Num deles, o que fica no concelho de Castelo Branco, a voz popular ousou até imaginar uma cama: "a Cama da Moura".



O Forno dos Mouros, que na sua parte superior terá a "Cama da Moura".
Foto de 2005

Esta cavidade foi aberta numa rocha em forma de esporão e o seu diâmetro é de quase 50cm. No interior, forma uma câmara onde cabe uma pessoa de cócoras. A referência é a de um indivíduo com a mesma altura do autor deste blogue mas com diâmetro de cintura versão 2005.




A rocha vista de um pouco mais longe. Foto de 2005

Embora um dos "fornos" tenha apenas uma cavidade e outro tenha duas, há várias semelhanças no local escolhido para a sua implantação. Em ambos os casos existe esporão rochoso visível ao longe e situam-se também junto a uma linha de água. Quanto às aberturas, nunca estão viradas para as partes superior ou inferior do vale, tendo pelo contrário uma orientação oblíqua. Será por acaso ou terá havido uma intenção propositada?


O esporão rochoso do outro "Forno dos Mouros", visível na encosta Este.



Só de perto se percebe o grande afloramento rochoso escondido pela vegetação



As duas cavidades, de menor dimensão (dois palmos de diâmetro) sob uma depressão da rocha. Terá havido intenção nesta simetria?


Não há, como referi, uma explicação sobre o propósito destes "fornos dos mouros", tendo pelo contrário recolhido muitas expressões de surpresa e desconhecimento. Há no entanto duas teorias abalizadas sobre o assunto. Uma delas sugere que se trataria de uma espécie de "cofres" proto-históricos, portanto pré-romanos, destinados a guardar bens preciosos. A outra, mais recente, sugere que se trataria de santuários rupestres, feitos para adorar uma qualquer divindade por ora sem forma nem nome. 

No que a mistérios diz respeito, a Serra da Maúnça parece de facto não querer ficar atrás da sua vizinha Gardunha.

quarta-feira, agosto 31, 2016

Caminhada nocturna à Penha da Serra da Gardunha

Sem a paisagem para nos distrair, as caminhadas nocturnas levam-nos a concentrar a nossa atenção em pormenores que geralmente passam despercebidos. Com a chuva de estrelas anual das Perseidas como pretexto, subimos a pé até ao sítio mágico da Penha da Serra da Gardunha, passeando por um Mundo que só ao abrigo da escuridão se revela.



Com o objectivo de assistir ao espectáculo das Perseidas com o mínimo de poluição luminosa, tornando ao mesmo tempo a noite mais interessante, pusemos as mochilas às costas e saímos rumo à Penha, o epicentro das crenças e religiosidade da Serra da Gardunha que à noite ganha um interesse redobrado. Pouco passava das 22h e optámos por sair do estradão, metendo-nos pelos trilhos existentes entre a Casa do Guarda e o Posto de Vigia.



Ao chegarmos ao Posto de Vigia, no monte Cavalinho, tivemos direito a uma experiência pouco habitual. As nossas luzes "no meio do nada" tinham alarmado o vigilante que se encontrava de serviço que, querendo jogar pelo seguro, chamara entretanto a GNR. O zelo justifica-se pois aquela tinha sido a semana mais grave em termos de incêndios. Aliás, o fumo sentia-se e via-se bem ao nosso redor.



Tivemos pois de esperar pela GNR para esclarecer tudo e só depois pudemos prosseguir rumo à Penha onde, dentro das condições de visibilidade permitidas pelo fumo, pudemos admirar finalmente a chuva de estrelas.




Criaturas a coberto da noite



Aos nossos pés, é possível encontrar inúmeras pequenas criaturas que habitam a Serra da Gardunha e que só a coberto da noite se atrevem a sair. É todo um Mundo novo, que contrasta com o que se vê durante o dia e que vale a pena apreciar.



A primeira criatura a ser avistada foi uma aranha. Já tínhamos percebido que havia aqui e ali um brilho que ao início pensámos ser o reflexo da luz das lanternas na mica resultante da degradação do granito ao longo do caminho. Só quando percebemos que aquele brilho azulado era bastante peculiar e nos aproximámos um pouco mais, é que percebemos que se tratava afinal do reflexo das nossas luzes sim mas nos olhos de aranhas que nos observavam atentamente.



Tratava-se da aranha-lobo raiada, uma aranha que não produz teia, promovendo ao invés disso emboscadas às suas presas. É um animal tímido que terá tendência para fugir quando ameaçada mas, se tiver de se defender, a sua mordida pode provocar dores fortes, inchaço e em alguns casos placas de pele necrosada na zona onde mordeu.



Em zonas rurais é um precioso auxiliar já que se alimenta de insectos nocivos às culturas agrícolas.



Aranha-lobo radiada


Também comum por esta altura do ano são os encontros com os grilos de sela, uma espécie que apenas existe na Península Ibérica. De grande tamanho e, neste caso, com uma bela cor verde raiada no dorso, o seu nome provém da pequena carapaça em forma de sela junto à cabeça.

Têm um canto muito mais discreto que os tradicionais grilos pretos mas compensam pela sua beleza. A espécie em questão será um Neocallicrania miegii.


Grilo de sela.

O habitante nocturno que desperta mais emoções é sem dúvida o escorpião ou, como tradicionalmente se chama por estas bandas, o lacrau. Em Portugal apenas temos esta espécie, o Buthus occitanus que, não sendo mortal, garante 24h muito complicadas devido à dor provocada pelo seu veneno.

O que nem toda a gente sabe é que o escorpião é um aracnídeo, uma espécie de primo relativamente próximo das nossas conhecidas aranhas. Alimenta-se de insectos, aranhas e até de outros escorpiões mas só entre Abril e Outubro, não se alimentando nos meses mais frios (clica aqui para ver o confronto entre um grilo de sela e um escorpião). Apesar dos muitos mitos que existem à sua volta, o escorpião não é um bicho agressivo, apenas picando quando é atacado. 


Escorpião no caminho


Para além da cauda segmentada que termina num agulhão que serve para injectar o veneno nas presas e das suas pinças dianteiras com que as segura, uma outra particularidade dos escorpiões é a distribuição dos seus olhos. Possui dois olhos maiores na zona superior da cabeça e dois conjuntos de 3 olhos na extremidade, junto à boca. A ironia é que apesar do número de olhos, os escorpiões têm uma visão muito fraca, servindo-se muito do sentido do tacto para compensar. Há também quem defenda que os escorpiões conseguem obter informação acerca daquilo que os rodeia com o corpo inteiro, tendo em conta a elevada sensibilidade a raios UV.  


Os dois conjuntos de olhos do Buthus occitanus. (clicar na foto para ampliar)


Escorpião sob luz ultra-violeta, encontrado ontem perto do Alto da Gardunha. Transportava literalmente às costas um grilo acabado de capturar (clicar para ampliar).

sexta-feira, agosto 26, 2016

Relâmpagos sobre a Cova da Beira

O final do dia de hoje deixou no ar a ameaça de uma tempestade que se veio a confirmar após o cair da noite. Indiferente ao vento e às grossas gotas de chuva que de vez em quando caíam em grandes descargas, decidi fazer equipa com a natureza e, enquanto ela disparava o flash, eu "batia as chapas", sempre tendo Aldeia de Joanes como pano de fundo. O resultado foi bastante interessante.

O limite da tempestade que viajava para Oeste ao final da tarde . Lá ao fundo, avista-se a Serra da Estrela.



O primeiro relâmpago registado, ainda durante o dia.


Durante uma trovoada podem ocorrer vários tipos de relâmpagos, que não são mais do que descargas eléctricas entre zonas de potencial oposto (positivo e negativo). Não tendo um material condutor para circular como acontece nas nossas instalações eléctricas, a electricidade vai procurar o seu caminho entre essas zonas de diferente potencial, cujo processo de formação ainda não é bem claro. Sabe-se apenas que as cargas eléctricas acumuladas ionizam o ar, gerando canais de gás ionizado que são usados como meio condutor.

Podem ocorrer descargas horizontais ou verticais, tal como essas descargas podem acontecer apenas nas nuvens ou entre estas e o solo (nos dois sentidos). Por sorte, consegui registar alguns exemplos:



Descarga horizontal intra-nuvem.



Descargas ramificadas descendentes ligam a nuvem ao solo, gerando uma descarga súbita e muito forte (duas visíveis na imagem). 



Descargas verticais e horizontais.



Relâmpagos horizontais entre nuvens.



Com um relâmpago a acontecer mesmo por cima, na Aldeia de Joanes fez-se dia por uma fracção de segundo por volta das 23h00!

É fácil calcular a distância a que os relâmpagos ocorrem. Sabendo que a velocidade do som no ar é de cerca de 340 metros por segundo, basta contar os segundos decorridos entre o relâmpago e a chegada do som do trovão, que não é mais que a onda de choque causada pela súbita dilatação do ar devido à temperatura. Multiplicando os segundos por 340, teremos a distância aproximada a que o relâmpago aconteceu. 

É um bom exercício para fazer sobretudo se forem como eu e não resistirem a ir para a janela ou para a varanda assistir a este fantástico espectáculo.


Actualização:

Com o evoluir da noite, tivemos direito a uma nova série de relâmpagos por cima da nossa cabeça e a Noroeste:

Múltiplos relâmpagos para lá do vale do Zêzere, com a aldeia de Telhado à esquerda



Os vizinhos do lado com iluminação extra.

quarta-feira, agosto 03, 2016

Resgate de uma ave vítima de armadilha

Ao fazer uma caminhada, encontrei uma pequena ave caída no chão, batendo desesperadamente as asas sem conseguir voar. Quando a apanhei, o motivo ficou claro: a ave fora vítima de uma armadilha e tinha as asas coladas!



Chamariz ou milheirinha, bastante debilitada


Tratava-se de uma pequena milheirinha ou chamariz, por sinal um macho, uma ave granívora muito comum no nosso território. De alguma forma, tinha conseguido escapar de uma armadilha de cola mas as penas das asas tinham ficado coladas, impossibilitando-a de voar. No momento em que a encontrei, tentava encontrar refúgio numa zona de erva mais alta, com um cão a rondá-la com curiosidade (ou seria fome?).

O uso de cola para captura de aves é uma prática ilegal mas muito comum, cujo objectivo é a captura dos pequenos pássaros tanto para coleccionismo como para venda ou consumo. A técnica consiste em cobrir um pequeno pau ou um ramo com uma substância adesiva e esperar que as aves pousem, já que estas irão ficar coladas e impossibilitadas de fugir.

Depois de recolhida sem grande dificuldade trouxe-a para casa e o primeiro desafio passou por remover a cola. Para a limpeza das penas usámos óleo vegetal -sim, o vulgar óleo alimentar!- e cotonetes, aproveitando o facto de aquela cola ser solúvel nesse material. 

Como a ave estava enfraquecida, teve de passar por um período de convalescença para ser hidratada e alimentada, nas melhores condições possíveis. Dois dias depois já dava sinais de grande energia e as asas e cauda pareciam de novo em boas condições, pelo que decidimos libertá-la.

Levámos-la para um local ermo com muitas árvores, junto a um ribeiro, e abrimos a porta da gaiola. Pareceu hesitar, confusa por aquela mudança drástica de cenário mas, fazendo pontaria à abertura, saiu como uma flecha rumo às árvores.

Que tenha mais sorte no futuro.



A agitação no momento da abertura da porta...




... antes de sair disparada. Conseguem vê-la na fotografia?


PS - Em breve voltarei ao local onde encontrei a ave para procurar as armadilhas e reunir eventuais dados para uma denúncia ao SEPNA. Esta prática das armadilhas de cola é ainda bastante corrente e constitui uma ameaça ao equilíbrio dos ecossistemas que é necessário erradicar.


Agradecimentos ao Gonçalo Elias do portal Aves de Portugal, pela ajuda na identificação da ave.


domingo, julho 31, 2016

Um forte romano no Gerês

De visita ao Parque Natural da Peneda-Gerês, decidimos explorar um pouco mais uma zona que ainda não conhecíamos, entrando em território galego. Acabou por ser uma viagem no tempo que nos levou até ao período áureo do Império Romano e a um forte de legionários hoje semi-submerso pelas águas do Lima. 

Há alguns dias atrás, decidimos regressar ao Parque Natural da Peneda-Gerês, subindo ao longo da margem esquerda do rio Lima pela "velhinha" estrada nacional 203 a partir de Ponte da Barca. Já antes tínhamos andado por estas bandas (recordar aqui e aqui) mas desta vez decidimos ir um pouco mais longe, explorando o lado galego do Parque, indo até à povoação de Bande para depois regressarmos a Portugal pela fronteira da Portela do Homem.

A paisagem que se avista neste percurso é dominada pelas cadeias montanhosas do Parque e também pelas várias albufeiras das barragens construídas ao longo do curso internacional do Lima. Não deixa no entanto de ser uma paisagem bucólica e cativante.



A Igreja Visigótica de Santa Comba de Bande

Depois de um belo e farto almoço num restaurante à beira da estrada, restaurante que não vem em guia nenhum mas que vale a pena conhecer ali ao km 52 da estrada galega 540, fizemos uma primeira paragem em Santa Comba de Bande. A aldeia mal se avista da estrada mas justifica plenamente o desvio pelo carácter das casas mais antigas e pelo seu ex-libris: a igreja visigótica de São Torcato.





A igreja visigótica de Santa Comba de Bande, com o rio Lima no horizonte



Trata-se de um templo construído no século VII (é a igreja mais antiga da Galiza), no auge do domínio visigodo, e embora o exterior tenha sido bastante modificado ao longo dos séculos, o interior mantém-se fiel ao desenho inicial. Aí é possível ver muitos altares e capitéis romanos reutilizados, assim como o sarcófago onde se encontravam os restos mortais de São Torcato, um dos discípulos de São Tiago (o de Compostela), mais tarde trasladados para Celanova.


Para motivar as pessoas a vir a esta igreja, há uma oferta especial para visitantes estreantes, cortesia de São Torcato. Tocando numa pedra específica situada junto à porta principal podem pedir-se 3 desejos que depois o santo padroeiro tratará de conceder.




Aquis Querquennis, o guardião da Via Nova


Logo ali ao lado, encontra-se um local arqueológico fantástico, tanto pela importância dos vestígios como pela beleza envolvente. Trata-se do complexo arqueológico de Aquis Querquennis que inclui, nem mais nem menos, um forte de legionários, uma estalagem, umas termas (onde ainda brota água quente) e uma povoação, tudo isto complementado por um centro interpretativo.



O caminho que outrora foi a Via Nova (a "Geira") e que hoje faz parte de um dos muitos percursos pedestres da região


O acesso ao forte faz-se por uma secção de caminho que outrora fez parte da Via Nova, a estrada romana que ligava as cidades que são actualmente Braga e Astorga e que, no lado português, é conhecido como Geira. Esta via seguia pelo vale do rio Homem e aqui passava pelo território da tribo dos Querquernos. Aliás, a presença do forte está intimamente ligada a esta via uma vez que se supõe terem sido os legionários aqui estacionados os responsáveis pela sua construção e, mais tarde, pela sua vigilância.

A situação actual dos vestígios arqueológicos é de certa forma irónica. Diz a tradição que quando os romanos comandados pelo general Décimo Júnio Bruto chegaram a estas paragens, acreditavam que o rio Limia era na verdade o mítico rio Lethes, o rio que roubava a memória a todos os que o atravessassem. Como os seus soldados se recusavam a atravessar, diz-se que o general cruzou o rio sozinho e, chegado à margem oposta, chamou individualmente os seus oficiais pelo nome (recordar aqui).

Actualmente é o Lima, aqui por acção da barragem das Conchas, que parece querer entregar os vestígios romanos ao esquecimento, pelo menos de forma sazonal. Quando chegámos, o forte estava semi-submerso, sendo apenas parcialmente visitável. Ainda assim, o que está à vista está perfeitamente identificado através da sinalética que aí foi instalada e também porque as ruínas foram alvo de várias intervenções de consolidação e recuperação.





No forte de Aquis Querquennis, construído por volta do século I e ocupado por uma coorte (cerca de 500 soldados) da Legião VII Gémina, podemos admirar os vestígios da espessa muralha de pedra e respectivas torres, assim como do fosso. Das quatro entradas originais, duas delas foram já escavadas e alvo de intervenções que nos ajudam a ter uma ligeira ideia da sua antiga imponência. No interior destacam-se os vestígios de casernas, dois celeiros, um hospital e do edifício de comando.

À volta do forte, algumas estruturas sugerem que se terá formado aqui um povoado devido ao afluxo de comerciantes, artesãos e até prestadoras de serviços afectivos, o que era muito frequente nestes casos (ver aqui). No entanto, se em alguns locais estes povoados prosperaram e até estiveram na origem de cidades que hoje conhecemos (York em Inglaterra ou León em Espanha), aqui o povoado desapareceu com o forte, encontrando-se hoje a cotas muito baixas dentro da barragem.



Vista aérea do forte. Navegando para Norte, podemos ver os vestígios da mansio e das termas



A porta principal esquerda (porta principalis sinistra) com vestígios da dupla entrada em arco ladeada por dois torreões.



Vista da porta a partir do interior com um dos grupos de casernas em primeiro plano



Vista para a porta decumana com as ruínas das casernas e de um hospital em primeiro plano




Secção ainda submersa do forte, neste caso de outro grupo de casernas. 



A estalagem e as termas

A desilusão surgiu quando quisemos ver os vestígios da Mansio de Aquis Querquennis, das termas e do povoado que estavam completamente submersos. A Mansio, uma estalagem, era uma das várias existentes ao longo deste itinerário, como era aliás habitual nas estradas romanas. Esta tinha um grande pátio aberto com um poço (e cisterna) que foi aliás o único elemento que conseguimos ver acima do nível da água. Logo abaixo da superfície também se conseguia ver o forno para cozer pão encostado a um canto de uma secção da estalagem.



O poço da cisterna da estalagem, que há quase 2000 anos atrás se encontrava num grande pátio rodeado por um muro.



Baliza indicadora da localização da Mansio. Pode-se ver o seu tamanho completo neste link



Em primeiro plano é possível ver, sob as águas, a forma quadrangular do forno.


Não podendo seguir o caminho devido à água, entrámos num pequeno trilho florestal para chegar ao local onde se encontram os vestígios das termas. Com as ruínas submersas, valeu pela beleza e tranquilidade daquele recanto. Apesar de já terem passado quase dois milénios, ainda é possível banharmos-nos nas águas termais tal como os romanos faziam, embora apenas quando o nível da água da barragem o permite, o que não era o caso. Ainda assim, no local pudemos ver uma fonte de água quente sulfurosa que brota a cerca de 50 graus e que é canalizada para os antigos tanques. [Clicar aqui para ver imagens destes tanques]




A água sulfurosa escapando de um tubo junto às termas romanas


A Via Nova, uma auto-estrada romana no Gerês

A Via Nova ou via XVIII, conhecida no lado português como Geira, é um dos ex-libris do Parque Natural da Peneda-Gerês (o nome Geira não deixa de ser curioso já que significa porção de terreno lavrada por uma junta de bois). Esta via fez outrora parte do sistema viário romano principal, ligando as importantes cidades de Bracara Augusta, a actual Braga, a Asturica Augusta, a actual Astorga, e veio responder às necessidades comerciais e sociais do NO peninsular a partir do final século I, que as estradas existentes já não conseguia suprir. Serviu por exemplo para escoar o ouro extraído na região de Las Medulas. A sua zona de influência alcançava também a importante cidade de Lucus Augusti (Lugo).

Concentração de marcos miliários já em território galego, na margem do rio Caldo



Pode-se dizer que este tipo de via romana foi percursor das actuais auto-estradas já que, para além de não passar pelas povoações que havia ao longo das regiões que atravessa, desenvolvia-se um sistema viário secundário para ligar esses povoados à Via Nova, e também porque ao longo do seu traçado se implementavam serviços de apoio ao viajante (Cursus Publicus): as Mansio (estalagens) e as Mutatio (estações de muda de cavalos). 


A Via Nova tinha uma extensão de 215 milhas romanas (1 milha = 1000 passos) o que corresponde a cerca de 318 km, sendo que para assinalar cada milha eram instalados pilares em pedra com indicação de distância a partir da origem (neste caso, Bracara), os chamados marcos miliários. Ora o que é surpreendente é a quantidade de marcos miliários encontrados ao longo da Via Nova: cerca de 280 (à volta de 90 no Gerês). Se tivermos em conta que no conjunto do território da Hispania estão recenseados cerca de 500 marcos miliários, este número diz bem do quão invulgar é esta abundância!

Actualmente é possível percorrer a secção da Geira/Via Nova no PNPG a pé, entre as milhas XII e XL, já no lado galego, sendo este percurso um verdadeiro museu ao ar livre. Em breve lá iremos.



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