sexta-feira, agosto 26, 2016

Relâmpagos sobre a Cova da Beira

O final do dia de hoje deixou no ar a ameaça de uma tempestade que se veio a confirmar após o cair da noite. Indiferente ao vento e às grossas gotas de chuva que de vez em quando caíam em grandes descargas, decidi fazer equipa com a natureza e, enquanto ela disparava o flash, eu "batia as chapas", sempre tendo Aldeia de Joanes como pano de fundo. O resultado foi bastante interessante.

O limite da tempestade que viajava para Oeste ao final da tarde . Lá ao fundo, avista-se a Serra da Estrela.



O primeiro relâmpago registado, ainda durante o dia.


Durante uma trovoada podem ocorrer vários tipos de relâmpagos, que não são mais do que descargas eléctricas entre zonas de potencial oposto (positivo e negativo). Não tendo um material condutor para circular como acontece nas nossas instalações eléctricas, a electricidade vai procurar o seu caminho entre essas zonas de diferente potencial, cujo processo de formação ainda não é bem claro. Sabe-se apenas que as cargas eléctricas acumuladas ionizam o ar, gerando canais de gás ionizado que são usados como meio condutor.

Podem ocorrer descargas horizontais ou verticais, tal como essas descargas podem acontecer apenas nas nuvens ou entre estas e o solo (nos dois sentidos). Por sorte, consegui registar alguns exemplos:



Descarga horizontal intra-nuvem.



Descargas ramificadas descendentes ligam a nuvem ao solo, gerando uma descarga súbita e muito forte (duas visíveis na imagem). 



Descargas verticais e horizontais.



Relâmpagos horizontais entre nuvens.



Com um relâmpago a acontecer mesmo por cima, na Aldeia de Joanes fez-se dia por uma fracção de segundo por volta das 23h00!

É fácil calcular a distância a que os relâmpagos ocorrem. Sabendo que a velocidade do som no ar é de cerca de 340 metros por segundo, basta contar os segundos decorridos entre o relâmpago e a chegada do som do trovão, que não é mais que a onda de choque causada pela súbita dilatação do ar devido à temperatura. Multiplicando os segundos por 340, teremos a distância aproximada a que o relâmpago aconteceu. 

É um bom exercício para fazer sobretudo se forem como eu e não resistirem a ir para a janela ou para a varanda assistir a este fantástico espectáculo.


Actualização:

Com o evoluir da noite, tivemos direito a uma nova série de relâmpagos por cima da nossa cabeça e a Noroeste:

Múltiplos relâmpagos para lá do vale do Zêzere, com a aldeia de Telhado à esquerda



Os vizinhos do lado com iluminação extra.

quarta-feira, agosto 03, 2016

Resgate de uma ave vítima de armadilha

Ao fazer uma caminhada, encontrei uma pequena ave caída no chão, batendo desesperadamente as asas sem conseguir voar. Quando a apanhei, o motivo ficou claro: a ave fora vítima de uma armadilha e tinha as asas coladas!



Chamariz ou milheirinha, bastante debilitada


Tratava-se de uma pequena milheirinha ou chamariz, por sinal um macho, uma ave granívora muito comum no nosso território. De alguma forma, tinha conseguido escapar de uma armadilha de cola mas as penas das asas tinham ficado coladas, impossibilitando-a de voar. No momento em que a encontrei, tentava encontrar refúgio numa zona de erva mais alta, com um cão a rondá-la com curiosidade (ou seria fome?).

O uso de cola para captura de aves é uma prática ilegal mas muito comum, cujo objectivo é a captura dos pequenos pássaros tanto para coleccionismo como para venda ou consumo. A técnica consiste em cobrir um pequeno pau ou um ramo com uma substância adesiva e esperar que as aves pousem, já que estas irão ficar coladas e impossibilitadas de fugir.

Depois de recolhida sem grande dificuldade trouxe-a para casa e o primeiro desafio passou por remover a cola. Para a limpeza das penas usámos óleo vegetal -sim, o vulgar óleo alimentar!- e cotonetes, aproveitando o facto de aquela cola ser solúvel nesse material. 

Como a ave estava enfraquecida, teve de passar por um período de convalescença para ser hidratada e alimentada, nas melhores condições possíveis. Dois dias depois já dava sinais de grande energia e as asas e cauda pareciam de novo em boas condições, pelo que decidimos libertá-la.

Levámos-la para um local ermo com muitas árvores, junto a um ribeiro, e abrimos a porta da gaiola. Pareceu hesitar, confusa por aquela mudança drástica de cenário mas, fazendo pontaria à abertura, saiu como uma flecha rumo às árvores.

Que tenha mais sorte no futuro.



A agitação no momento da abertura da porta...




... antes de sair disparada. Conseguem vê-la na fotografia?


PS - Em breve voltarei ao local onde encontrei a ave para procurar as armadilhas e reunir eventuais dados para uma denúncia ao SEPNA. Esta prática das armadilhas de cola é ainda bastante corrente e constitui uma ameaça ao equilíbrio dos ecossistemas que é necessário erradicar.


Agradecimentos ao Gonçalo Elias do portal Aves de Portugal, pela ajuda na identificação da ave.


domingo, julho 31, 2016

Um forte romano no Gerês

De visita ao Parque Natural da Peneda-Gerês, decidimos explorar um pouco mais uma zona que ainda não conhecíamos, entrando em território galego. Acabou por ser uma viagem no tempo que nos levou até ao período áureo do Império Romano e a um forte de legionários hoje semi-submerso pelas águas do Lima. 

Há alguns dias atrás, decidimos regressar ao Parque Natural da Peneda-Gerês, subindo ao longo da margem esquerda do rio Lima pela "velhinha" estrada nacional 203 a partir de Ponte da Barca. Já antes tínhamos andado por estas bandas (recordar aqui e aqui) mas desta vez decidimos ir um pouco mais longe, explorando o lado galego do Parque, indo até à povoação de Bande para depois regressarmos a Portugal pela fronteira da Portela do Homem.

A paisagem que se avista neste percurso é dominada pelas cadeias montanhosas do Parque e também pelas várias albufeiras das barragens construídas ao longo do curso internacional do Lima. Não deixa no entanto de ser uma paisagem bucólica e cativante.



A Igreja Visigótica de Santa Comba de Bande

Depois de um belo e farto almoço num restaurante à beira da estrada, restaurante que não vem em guia nenhum mas que vale a pena conhecer ali ao km 52 da estrada galega 540, fizemos uma primeira paragem em Santa Comba de Bande. A aldeia mal se avista da estrada mas justifica plenamente o desvio pelo carácter das casas mais antigas e pelo seu ex-libris: a igreja visigótica de São Torcato.





A igreja visigótica de Santa Comba de Bande, com o rio Lima no horizonte



Trata-se de um templo construído no século VII (é a igreja mais antiga da Galiza), no auge do domínio visigodo, e embora o exterior tenha sido bastante modificado ao longo dos séculos, o interior mantém-se fiel ao desenho inicial. Aí é possível ver muitos altares e capitéis romanos reutilizados, assim como o sarcófago onde se encontravam os restos mortais de São Torcato, um dos discípulos de São Tiago (o de Compostela), mais tarde trasladados para Celanova.


Para motivar as pessoas a vir a esta igreja, há uma oferta especial para visitantes estreantes, cortesia de São Torcato. Tocando numa pedra específica situada junto à porta principal podem pedir-se 3 desejos que depois o santo padroeiro tratará de conceder.




Aquis Querquennis, o guardião da Via Nova


Logo ali ao lado, encontra-se um local arqueológico fantástico, tanto pela importância dos vestígios como pela beleza envolvente. Trata-se do complexo arqueológico de Aquis Querquennis que inclui, nem mais nem menos, um forte de legionários, uma estalagem, umas termas (onde ainda brota água quente) e uma povoação, tudo isto complementado por um centro interpretativo.



O caminho que outrora foi a Via Nova (a "Geira") e que hoje faz parte de um dos muitos percursos pedestres da região


O acesso ao forte faz-se por uma secção de caminho que outrora fez parte da Via Nova, a estrada romana que ligava as cidades que são actualmente Braga e Astorga e que, no lado português, é conhecido como Geira. Esta via seguia pelo vale do rio Homem e aqui passava pelo território da tribo dos Querquernos. Aliás, a presença do forte está intimamente ligada a esta via uma vez que se supõe terem sido os legionários aqui estacionados os responsáveis pela sua construção e, mais tarde, pela sua vigilância.

A situação actual dos vestígios arqueológicos é de certa forma irónica. Diz a tradição que quando os romanos comandados pelo general Décimo Júnio Bruto chegaram a estas paragens, acreditavam que o rio Limia era na verdade o mítico rio Lethes, o rio que roubava a memória a todos os que o atravessassem. Como os seus soldados se recusavam a atravessar, diz-se que o general cruzou o rio sozinho e, chegado à margem oposta, chamou individualmente os seus oficiais pelo nome (recordar aqui).

Actualmente é o Lima, aqui por acção da barragem das Conchas, que parece querer entregar os vestígios romanos ao esquecimento, pelo menos de forma sazonal. Quando chegámos, o forte estava semi-submerso, sendo apenas parcialmente visitável. Ainda assim, o que está à vista está perfeitamente identificado através da sinalética que aí foi instalada e também porque as ruínas foram alvo de várias intervenções de consolidação e recuperação.





No forte de Aquis Querquennis, construído por volta do século I e ocupado por uma coorte (cerca de 500 soldados) da Legião VII Gémina, podemos admirar os vestígios da espessa muralha de pedra e respectivas torres, assim como do fosso. Das quatro entradas originais, duas delas foram já escavadas e alvo de intervenções que nos ajudam a ter uma ligeira ideia da sua antiga imponência. No interior destacam-se os vestígios de casernas, dois celeiros, um hospital e do edifício de comando.

À volta do forte, algumas estruturas sugerem que se terá formado aqui um povoado devido ao afluxo de comerciantes, artesãos e até prestadoras de serviços afectivos, o que era muito frequente nestes casos (ver aqui). No entanto, se em alguns locais estes povoados prosperaram e até estiveram na origem de cidades que hoje conhecemos (York em Inglaterra ou León em Espanha), aqui o povoado desapareceu com o forte, encontrando-se hoje a cotas muito baixas dentro da barragem.



Vista aérea do forte. Navegando para Norte, podemos ver os vestígios da mansio e das termas



A porta principal esquerda (porta principalis sinistra) com vestígios da dupla entrada em arco ladeada por dois torreões.



Vista da porta a partir do interior com um dos grupos de casernas em primeiro plano



Vista para a porta decumana com as ruínas das casernas e de um hospital em primeiro plano




Secção ainda submersa do forte, neste caso de outro grupo de casernas. 



A estalagem e as termas

A desilusão surgiu quando quisemos ver os vestígios da Mansio de Aquis Querquennis, das termas e do povoado que estavam completamente submersos. A Mansio, uma estalagem, era uma das várias existentes ao longo deste itinerário, como era aliás habitual nas estradas romanas. Esta tinha um grande pátio aberto com um poço (e cisterna) que foi aliás o único elemento que conseguimos ver acima do nível da água. Logo abaixo da superfície também se conseguia ver o forno para cozer pão encostado a um canto de uma secção da estalagem.



O poço da cisterna da estalagem, que há quase 2000 anos atrás se encontrava num grande pátio rodeado por um muro.



Baliza indicadora da localização da Mansio. Pode-se ver o seu tamanho completo neste link



Em primeiro plano é possível ver, sob as águas, a forma quadrangular do forno.


Não podendo seguir o caminho devido à água, entrámos num pequeno trilho florestal para chegar ao local onde se encontram os vestígios das termas. Com as ruínas submersas, valeu pela beleza e tranquilidade daquele recanto. Apesar de já terem passado quase dois milénios, ainda é possível banharmos-nos nas águas termais tal como os romanos faziam, embora apenas quando o nível da água da barragem o permite, o que não era o caso. Ainda assim, no local pudemos ver uma fonte de água quente sulfurosa que brota a cerca de 50 graus e que é canalizada para os antigos tanques. [Clicar aqui para ver imagens destes tanques]




A água sulfurosa escapando de um tubo junto às termas romanas


A Via Nova, uma auto-estrada romana no Gerês

A Via Nova ou via XVIII, conhecida no lado português como Geira, é um dos ex-libris do Parque Natural da Peneda-Gerês (o nome Geira não deixa de ser curioso já que significa porção de terreno lavrada por uma junta de bois). Esta via fez outrora parte do sistema viário romano principal, ligando as importantes cidades de Bracara Augusta, a actual Braga, a Asturica Augusta, a actual Astorga, e veio responder às necessidades comerciais e sociais do NO peninsular a partir do final século I, que as estradas existentes já não conseguia suprir. Serviu por exemplo para escoar o ouro extraído na região de Las Medulas. A sua zona de influência alcançava também a importante cidade de Lucus Augusti (Lugo).

Concentração de marcos miliários já em território galego, na margem do rio Caldo



Pode-se dizer que este tipo de via romana foi percursor das actuais auto-estradas já que, para além de não passar pelas povoações que havia ao longo das regiões que atravessa, desenvolvia-se um sistema viário secundário para ligar esses povoados à Via Nova, e também porque ao longo do seu traçado se implementavam serviços de apoio ao viajante (Cursus Publicus): as Mansio (estalagens) e as Mutatio (estações de muda de cavalos). 


A Via Nova tinha uma extensão de 215 milhas romanas (1 milha = 1000 passos) o que corresponde a cerca de 318 km, sendo que para assinalar cada milha eram instalados pilares em pedra com indicação de distância a partir da origem (neste caso, Bracara), os chamados marcos miliários. Ora o que é surpreendente é a quantidade de marcos miliários encontrados ao longo da Via Nova: cerca de 280 (à volta de 90 no Gerês). Se tivermos em conta que no conjunto do território da Hispania estão recenseados cerca de 500 marcos miliários, este número diz bem do quão invulgar é esta abundância!

Actualmente é possível percorrer a secção da Geira/Via Nova no PNPG a pé, entre as milhas XII e XL, já no lado galego, sendo este percurso um verdadeiro museu ao ar livre. Em breve lá iremos.



sábado, julho 09, 2016

Sabem onde fica este poço?


Embora pareça tratar-se apenas de um poço com um problema grave de fuga, na verdade há muito mais para dizer sobre ele e sobre este local. Sabem onde fica este poço? Uma pista: o rio em questão é um dos muitos rios que cruzam o nosso território vindos do país vizinho.

segunda-feira, janeiro 04, 2016

Assim começou 2016

Foi com uma caminhada nocturna a solo na Serra da Gardunha, entre Alpedrinha e Alcongosta, com uma chuvinha miudinha a desencorajar o passo lento e um nevoeiro cerrado que tornava a noite ainda mais escura, que comecei o ano de 2016.

À chegada a Alcongosta, com a luz do dia a despertar finalmente, soube bem a paragem obrigatória no centro da aldeia, no estabelecimento do Sr Luís, para descansar um pouco e beber um café, isto enquanto aguardava pelo grupo que se haveria de juntar a mim para o regresso a Alpedrinha.


A palavra "Gardunha" foi a que mais usei no Facebook em 2015. Nada mais justo que seja ela também a primeira protagonista de 2016.



Início do percurso em Alpedrinha, aqui na subida junto ao Palácio do Picadeiro


A sombra do caminheiro, projectada pela iluminação do Palácio do Picadeiro.


Pela calçada antiga, junto à capela de S.Sebastião, já na saída da vila.


Na Gardunha, foi sempre à luz da lanterna, demasiado curta no seu alcance devido à chuvinha e ao nevoeiro.


Chegada a Alcongosta, já com a luz da aurora.


Regresso a Alpedrinha, agora já com companhia.


As sinuosidades da Via Antiga. Romana, medieval ou moderna, que interessa? É um dos percursos mais bonitos da Gardunha.


Obrigado 2015! Seja bem-vindo 2016!

Terminou 2015, um ano que deixa fantásticas recordações, das quais a viagem ao Peru com a caminhada pelos Andes até Machu Picchu será sem dúvida um dos pontos mais altos (recordar aqui). Foi também em 2015 que fui incumbido da responsabilidade vitalícia de apadrinhar uma sobrinha simplesmente linda (carga genética a funcionar!) e, até agora, tem sido uma experiência extremamente gratificante. 

Entre os desafios proporcionados pela presidência dos Caminheiros da Gardunha, os do primeiro ano da nova actividade profissional, que levaram a uma valorização curricular e pessoal inesperadas e, finalmente, o facto de fazer parte da comissão de festas da aldeia da minha infância, posso dizer que o ano foi bastante preenchido, apesar de ter sobrado pouco tempo livre para dedicar a projectos mais pessoais.

Contas feitas, foi um ano memorável!

2016 será ano de fecho ciclos e início de outros. Será um ano que trará consigo o tempo de dedicar energias aos projectos que até agora têm vindo a ser adiados e cujos desafios aguardo ansiosamente.

O melhor da chegada de um novo ano é sem dúvida o renovar de energias que traz consigo. Refresca-se a determinação e tudo o que fica para trás passa a ser um precioso património de aprendizagem que nos guia no que está para vir. As resoluções de ano novo são o compromisso simbólico, que assumimos com nós mesmos, de repensar caminhos, de decidir direcções que levam a novos objectivos.

Seja muito bem-vindo 2016! Feliz ano novo para todos!


segunda-feira, dezembro 28, 2015

Star Wars, o Despertar da Força mercantilista do blockbuster

Na semana passada fui até ao cinema para assistir ao último filme da saga Guerra das Estrelas, o Despertar da Força. Confesso que estava bastante curioso, não fosse eu um fã de longa data da série cujo entusiasmo se manteve apesar dos recentes 3 filmes da série terem sido assim um tanto fraquinhos. Pensei para comigo "O George Lucas esteve 16 anos sem pegar nisto, é natural que tenha ficado um bocado enferrujado", e de facto o último filme da "prequela" acabou por ser bastante melhor que os anteriores. Interpretei isto como um bom sinal e ignorei o facto de a Disney ter entretanto deitado as unhas à Lucasfilms.

Quando as luzes se apagaram e apareceu o título "Star Wars", acompanhado por aquela música apoteótica tão familiar e seguido pelo desenrolar do texto introdutório, até me arrepiei e o miúdo traquina que um dia fez da carreira de Jedi um plano de vida reavivou-se de novo em mim para pensar com os seus botões: "Isto até é capaz de correr bem", sem perceber que tinha acabado de assistir à parte mais consistente do filme.

O que se seguiu foi uma surpresa sombria: a produção tinha sucumbido à tentação do lado negro da Força mercantilista do blockbuster. Ao longo de 135 minutos, J.J.Abrams e sus muchachos seguem a mesma receita já vista em tempos recentes: sem coragem para inventar uma história nova decidem pegar em personagens novas para as enfiar à força numa embalagem narrativa cheia de clichés dos filmes anteriores, polvilhando a coisa com relações entre os novos protagonistas e os antigos.



Os diálogos são resumidos ao indispensável para manter um certo fio narrativo, dando às personagens um tratamento terrivelmente superficial. Há pessoas que desenvolvem uma relação de amor platónico só porque deram literalmente umas cambalhotas na areia mas o caso mais gritante é o de um casal separado que falhou estrondosamente no seu papel educativo, criando um filho que é um perfeito estupor choramingas, e que se reencontra após muitos anos tendo uma conversa em que a frase mais emotiva é "havia alturas em que me irritavas um bocado".

Imagem: Hitfix.com


E aquela do grande-mestre que se exilou, para expiar a sua culpa em solidão, mas que deixou um mapa dividido em dois bocados, sendo que a maior parte ficou enfiada num dróide deprimido?

Depois, para disfarçar a fragilidade narrativa, junta-se o ingrediente principal desta infame receita: cenas incessantes de acção, com velocidade vertiginosa, raios laser por todos os lados e explosões, muitas e grandes explosões.

Não contentes com isto tudo, Abrams e a sua trupe decidiram atacar os dogmas sagrados do conceito Star Wars, dando a entender que isso de se ser Jedi é uma coisa que afinal não exige anos de aprendizagem. Qualquer sucateira aprende os mistérios da Força em coisa de 10 minutos, sem se esforçar muito e qualquer funcionário de saneamento básico é tão hábil com um sabre de luz como com um desentupidor de sanitas.

É portanto um filme com uma narrativa fraca mas visualmente apelativo, que se recomenda a quem tiver alguma afinidade com a saga mas também a quem apeteça relaxar, no final de uma árdua jornada laboral, dando a oportunidade aos seus neurónios de usufruírem de 135 minutos de inactividade. Também é nítido que a Disney apostou grande parte das fichas no merchandising à volta do filme e que começou a ser disponibilizado muito antes da estreia, para desta forma criar interesse em relação ao filme. Basicamente aquilo que o McDonalds faz em relação aos happy meals: sem substância nenhuma e com a bonecada a ser o mais interessante do produto.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Paris não desiste de continuar a brilhar

Paris vista a partir das torres da catedral de Nôtre Dame. 


Passou já um mês desde que a cidade de Paris foi palco de um ataque terrorista coordenado que fez correr sangue em vários pontos da capital. Desde então, a capital francesa tem vivido em estado de alerta permanente, sob medidas excepcionais de segurança. Os parisienses procuram viver normalmente a sua rotina diária mas há uma tensão latente que se sente ainda no ar e que nos foi possível perceber na última semana, aquando da nossa estadia na Cidade-Luz.

Definitivamente, Paris não se rendeu. A cidade continua a viver e a brilhar intensamente, tanto no frenesim habitual do vai-e-vem dos seus habitantes, como no seu pulsar artístico e cultural. As ruas não deixaram de se encher com as suas tradicionais iluminações e actividades de Natal, entre as quais o emblemático mercado de Natal dos Champs Elysées.

Contudo, nota-se uma certa inquietação. Um nervosismo à flor da pele que os parisienses procuram disfarçar ou até ignorar, concentrando-se na sua rotina diária. Na rua, basta um grito ou um som mais alto para interromper o som da multidão por alguns segundos. Os parisienses olham em volta procurando identificar a origem do som, retomando logo de seguida aquilo que estavam a fazer.


O Sacré-Coeur, em Montmartre


Para além do trauma que os últimos atentados deixaram, a cidade foi palco da COP 21, a Conferência das Alterações Climáticas promovida pelas Nações Unidas. Razões mais que suficientes para deixar os responsáveis pela segurança da capital francesa com os nervos em franja, até porque como já se sabe, este tipo de evento catalisa sempre à sua volta manifestações em modos pouco urbanos. 

Actualmente, ao entrarmos em qualquer espaço de acesso público mais relevante, sejam superfícies comerciais, monumentos ou espaços culturais, já sabemos o que nos espera e a rotina vai-se entranhando. Há que abrir o casaco, abrir as bolsas e submeter-se a detectores de explosivos ou de metais. Em muitos locais a segurança assemelha-se à de um aeroporto. As entradas são sempre controladas e, em alguns locais como as torres da Catedral de Notre Dame, o número de visitantes em simultâneo foi reduzido. Segundo uma das funcionárias, chegavam a ter cerca de 1.500 visitantes diários mas hoje o número, ainda sem dados oficiais, andará muito abaixo disso. 


O exército de guarda na emblemática Place du Tertre, ponto de encontro de inúmeros artistas


Junto a estes locais, encontramos polícia e até o exército, com as suas automáticas e capacete debaixo dos braços. Estes elementos enquadram-se no plano Vigipirate, o dispositivo concertado de segurança, actualmente no seu estado de alerta máximo, que tem mobilizado todas as forças de segurança do país.

Apesar de no início tudo nos parecer impressionante, depressa acabámos por nos habituar até porque o comportamento dos próprios parisienses a isso induz, denotando uma relativa boa disposição. Nas ruas, as esplanadas continuam a encher-se, vendo-se animadas tertúlias à volta de mesas com cafés ou inevitáveis copos de vinho. Aos balcões colocados na rua, diante dos cafés e das tão típicas boulangeries, servem-se crepes e um dos ex-libris da época natalícia: o vinho quente. Também por ser nesta época, as pessoas acotovelam-se diante das montras das grandes galerias comerciais Lafayette e Printemps, que fazem as delícias de miúdos e graúdos.


A magia das montras das Galerias Lafayette, onde os autómatos e video walls fazem as delícias das crianças mas não só. 


Subimos à Torre Eiffel para contemplarmos a vista nocturna da cidade, fomos ao Louvre, às Torres de Notre Dame, ao Arco do Triunfo. Percorremos os Champs Elysées para cima e para baixo várias vezes, fomos a Montmartre e até ao Panteão onde, para nossa surpresa, constatámos que os franceses ainda não atingiram o nosso nível civilizacional, limitando-se a depositar por lá apenas os restos mortais de personalidades das Letras, das Ciências e estadistas. 


A Câmara Municipal de Paris, para lá da Ponte d'Arcole


A Torre Eiffel, encimada pela luz radiada dos seus holofotes



Acabou no entanto por ser a visita ao Arco do Triunfo a experiência mais memorável da nossa experiência parisiense, não necessariamente pelos motivos esperados. Basta dizer que só à 4ª tentativa conseguimos finalmente subir ao topo do Arco.



Arco do Triunfo. À 4ª foi de vez!




O Arco do Triunfo ocupado pela Greenpeace!

O Arco do Triunfo é uma construção monumental, iniciada durante o período napoleónico para eternizar a glória da Grande Armée mas a campanha russa e a campanha peninsular (que conhecemos como "Invasões Francesas") acabaram por ditar o canto do cisne desta empreitada, e só mais tarde, já na monarquia e com um espírito mais conciliatório, seria terminada. Situa-se no centro de uma gigantesca rotunda que serve de cabeça à avenida dos Champs Elysées, uma artéria cujos mais de 2km de extensão ainda sentimos nas pernas.

É possível aceder ao monumento e subir até ao seu topo, acedendo primeiro à rotunda por uma passagem subterrânea e subindo em seguida por uma escadaria em caracol, até ao terraço no cimo do Arco. Ora, se o acesso à rotunda é livre e permanente, já a subida não o é, devendo ser feita mediante o pagamento de um bilhete e tendo como horário de encerramento as 22h30. Foi precisamente neste horário que esteve a génese da nossa saga.

Na primeira tentativa chegámos ao Arco às 22h em ponto, apenas para sermos confrontados, pela boca de funcionários intransigentes, com o facto de que a entrada teria no máximo de ser às 21h45, ou seja, 45 minutos antes da hora de fecho. Conformados mas não desanimados, decidimos adiar a visita para o dia seguinte. 

Eram pois 21h do dia seguinte quando chegámos novamente ao Arco, desta vez para nos depararmos com uma porta fechada, com um aviso colado a dizer que, excepcionalmente, nesse dia tinham encerrado às 20h30. Tivemos mais uma vez de nos conformar mas não desanimámos muito. Pelo menos não o suficiente para desistirmos da visita.

Decidimos dar um dia de intervalo para, na Sexta-feira, os apanharmos de surpresa logo pela manhã. Já que não tínhamos conseguido a visita nocturna, teríamos pelo menos o privilégio de ver a cidade durante o dia.

Foi com esse pensamento em mente que, a meio da manhã de Sexta-feira, emergimos da estação de metropolitano diante do Arco do Triunfo... para nos depararmos com um cenário de absoluto caos. Vários activistas da organização ecologista Greenpeace tinham decidido levar a cabo uma manifestação audaciosa: desenhar um gigantesco Sol na rotunda do Arco do Triunfo, apelando à utilização de fontes de energia renováveis.

Vários deles, que no momento em que chegámos estavam a ser perseguidos e detidos pela polícia, tinham circulado repetidas vezes pela rotunda em bicicleta, tendo um recipiente de cada lado que ia derramando uma tinta amarela sobre o pavimento. A ideia era que o trânsito espalhasse a tinta, desenhando-se assim um enorme Sol na rotunda e avenidas que daí irradiavam (ver aqui!)

Não contentes, vários destes activistas conseguiram subir ao topo do Arco (resta saber como), com equipamento de montanhismo e tinham-se suspendido daí exibindo mensagens dirigidas ao presidente francês, François Hollande. Só após algumas horas a polícia conseguiu deter estes últimos activistas, pondo finalmente fim à manifestação da Greenpeace.


"M. Hollande renouvelez l'énergie!", Sr Hollande, renove a energia


Não, não foi luz verde para uma corrida urbana. Trata-se simplesmente de uma perseguição policial que terminou com a detenção da determinada activista da Greenpeace



Os activistas que foram impedidos pela polícia de desfraldar uma tarja-gigante sob o Arco do Triunfo aqui a deixarem a rotunda.


O estado do piso após a passagem de centenas de veículos. Cliquem aqui para admirarem o resultado visto do ar

Da nossa parte, embora simpatizando com a causa pela qual protestavam, não deixámos de achar aborrecida a mensagem "Arco do Triunfo fechado por razões técnicas" que era visível na porta fechada de acesso à rotunda.

Ainda assim, fizemos uso da nossa inesgotável teimosia e, à noite, na nossa quarta tentativa, lá conseguimos finalmente aceder ao topo do Arco, para a nossa última visão da cidade de Paris antes do regresso a Portugal. Não se pode dizer que não tenha valido a pena, não acham?



terça-feira, dezembro 15, 2015

Nascer do Sol, algures sobre Espanha...

... a alguns quilómetros de altitude. Lá em baixo, as montanhas (provavelmente de Navarra) formam uma barragem transbordada pelas nuvens, como se de uma torrente furiosa se tratasse.




sábado, dezembro 05, 2015

Há 10 anos, a Europa reuniu-se no Fundão para celebrar o Natal

Pose de alguns participantes no Pelourinho do Fundão


Há 10 anos atrás, a Europa reuniu-se no Fundão para celebrar o Natal. Tratou-se da 14ª Edição dos Natais da Europa, um festival anual criado pela Associação Europeia de Escolas de Hotelaria e Turismo (AEHT) e que, desde 1988, é organizado por uma escola de hotelaria e turismo membro dessa associação.



Em 2005, coube à Escola de Hotelaria e Turismo do Fundão, na altura INFTUR-Fundão e hoje falecida,  a responsabilidade de organizar o festival. Para que esta iniciativa pudesse ser um sucesso, houve uma mobilização total da escola, reforçada com colegas da escola-mãe de Coimbra, e uma grande colaboração por parte de empresas e entidades do Fundão e arredores.



Começou oficialmente a 3 de Dezembro, com um desfile de todas as escolas participantes da escola até à Câmara Municipal, para a recepção oficial a cargo do então vice-presidente da Câmara, Carlos São Martinho, seguindo-se o regresso à escola para o simbólico cortar da fita que abriu a exposição.



Início do desfile


Já no regresso, a animação pelo grupo folclórico e etnográfico "Amigos do Fundão"


O Pavilhão Multiusos, então apenas ocupado pela escola e no 1º andar, foi dividido em várias áreas distintas. A principal, ao centro, era dominada por uma enorme tenda verde, pendendo do tecto para formar uma gigantesca árvore de Natal, à volta da qual se distribuíam os pavilhões onde cada escola expôs um pouco de si e das tradições natalícias do seu país.  Outro sector foi destinado ao tradicional espectáculo, no qual cada escola pisou o palco para apresentar uma peça de teatro, dança ou canto, e outro sector ainda ficou reservado para o espaço de cozinha, onde todas as escolas confeccionaram o grande buffet europeu.


Os espaços de exposição e a grande tenda, em forma de árvore de Natal


O interior da tenda durante o buffet europeu. É difícil dizer o que estava melhor entre tantos pratos


Aspecto da área das cozinhas, espaço onde actualmente está instalada a Altran





O convívio luso-austríaco aqui a dar nota do espírito que marcou os Natais da Europa. Muita animação e boa disposição.

Na grande tenda seria dois dias depois servido o buffet confeccionado por todas as escolas de hotelaria. E não eram poucas! Para além de Portugal, onde para além da anfitriã do Fundão contávamos também com a escola de Praia da Vitória (Açores), tinham vindo representações de França, Luxemburgo, Itália, Áustria, Albânia, Eslovénia, Dinamarca, Suécia, Polacos e Húngaros, tendo vindo de alguns países mais que uma escola também. 



Recordo particularmente o trabalho que foi conseguir trazer a Albânia, então a sair de um período conturbado. Foram precisos vários contactos através da embaixada francesa em Tirana e um rol de formalidades burocráticas. "É outra vez o gajo de Portugal!", chegou-se a ouvir do outro lado da linha.



Ao longo dos 4 dias que o festival durou, houve tempo para levar os participantes a visitar Alpedrinha, Monsanto e Idanha-a-Velha, por exemplo, assim como alguns estabelecimentos hoteleiros de referência na região. Todos ficaram a conhecer a nossa gastronomia (a palavra "bacalhau" tornou-se bem conhecida de todos), as nossas tradições e muito da nossa história e cultura.



Missa a evocar a tradição da "missa do galo", presidida pelo falecido padre Barreiros.


O madeiro "a fingir" que só foi possível com a colaboração da Junta de Freguesia, que forneceu os troncos, um pneu do meu defunto "Caetanomobile" e um garrafão de gasóleo que entrava em acção apenas quando os visitantes estrangeiros estavam por perto. Segundo a minha estimada mãe, digno de registo foi apenas o facto de ter conseguido manter a minha camisa limpinha durante todo o processo.


Os Natais da Europa de 2005 culminaram numa grande gala realizada no ex-hotel Príncipe da Beira onde, simbolicamente, o Fundão passou o testemunho à escola de Orebro, Suécia, para a organização da edição seguinte.


Contas feitas, a iniciativa foi um sucesso, merecendo rasgados elogios por parte da direcção da AEHT e de Jorge Umbelino, então à frente do Instituto Nacional de Formação Turística (o INFTUR, mais tarde integrado no Turismo de Portugal).



O elenco da peça de teatro. Com o argumento e o cenário decididos no próprio dia, e com os ensaios cronometrados pelo aproximar da hora, acabou por ser a peça mais aplaudida. Nada mau!

Recordo com satisfação o empenho de uma das melhores equipas em que já tive o privilégio de trabalhar, formada pessoas de generosidade e coração sem igual, as grandes noitadas de preparação das actividades do dia seguinte, e a azáfama constante durante o dia.



Valeu a pena!

Para mais informações:
Resumo da 14ª edição dos Natais da Europa no site da AEHT:


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