segunda-feira, janeiro 04, 2016

Assim começou 2016

Foi com uma caminhada nocturna a solo na Serra da Gardunha, entre Alpedrinha e Alcongosta, com uma chuvinha miudinha a desencorajar o passo lento e um nevoeiro cerrado que tornava a noite ainda mais escura, que comecei o ano de 2016.

À chegada a Alcongosta, com a luz do dia a despertar finalmente, soube bem a paragem obrigatória no centro da aldeia, no estabelecimento do Sr Luís, para descansar um pouco e beber um café, isto enquanto aguardava pelo grupo que se haveria de juntar a mim para o regresso a Alpedrinha.


A palavra "Gardunha" foi a que mais usei no Facebook em 2015. Nada mais justo que seja ela também a primeira protagonista de 2016.



Início do percurso em Alpedrinha, aqui na subida junto ao Palácio do Picadeiro


A sombra do caminheiro, projectada pela iluminação do Palácio do Picadeiro.


Pela calçada antiga, junto à capela de S.Sebastião, já na saída da vila.


Na Gardunha, foi sempre à luz da lanterna, demasiado curta no seu alcance devido à chuvinha e ao nevoeiro.


Chegada a Alcongosta, já com a luz da aurora.


Regresso a Alpedrinha, agora já com companhia.


As sinuosidades da Via Antiga. Romana, medieval ou moderna, que interessa? É um dos percursos mais bonitos da Gardunha.


Obrigado 2015! Seja bem-vindo 2016!

Terminou 2015, um ano que deixa fantásticas recordações, das quais a viagem ao Peru com a caminhada pelos Andes até Machu Picchu será sem dúvida um dos pontos mais altos (recordar aqui). Foi também em 2015 que fui incumbido da responsabilidade vitalícia de apadrinhar uma sobrinha simplesmente linda (carga genética a funcionar!) e, até agora, tem sido uma experiência extremamente gratificante. 

Entre os desafios proporcionados pela presidência dos Caminheiros da Gardunha, os do primeiro ano da nova actividade profissional, que levaram a uma valorização curricular e pessoal inesperadas e, finalmente, o facto de fazer parte da comissão de festas da aldeia da minha infância, posso dizer que o ano foi bastante preenchido, apesar de ter sobrado pouco tempo livre para dedicar a projectos mais pessoais.

Contas feitas, foi um ano memorável!

2016 será ano de fecho ciclos e início de outros. Será um ano que trará consigo o tempo de dedicar energias aos projectos que até agora têm vindo a ser adiados e cujos desafios aguardo ansiosamente.

O melhor da chegada de um novo ano é sem dúvida o renovar de energias que traz consigo. Refresca-se a determinação e tudo o que fica para trás passa a ser um precioso património de aprendizagem que nos guia no que está para vir. As resoluções de ano novo são o compromisso simbólico, que assumimos com nós mesmos, de repensar caminhos, de decidir direcções que levam a novos objectivos.

Seja muito bem-vindo 2016! Feliz ano novo para todos!


segunda-feira, dezembro 28, 2015

Star Wars, o Despertar da Força mercantilista do blockbuster

Na semana passada fui até ao cinema para assistir ao último filme da saga Guerra das Estrelas, o Despertar da Força. Confesso que estava bastante curioso, não fosse eu um fã de longa data da série cujo entusiasmo se manteve apesar dos recentes 3 filmes da série terem sido assim um tanto fraquinhos. Pensei para comigo "O George Lucas esteve 16 anos sem pegar nisto, é natural que tenha ficado um bocado enferrujado", e de facto o último filme da "prequela" acabou por ser bastante melhor que os anteriores. Interpretei isto como um bom sinal e ignorei o facto de a Disney ter entretanto deitado as unhas à Lucasfilms.

Quando as luzes se apagaram e apareceu o título "Star Wars", acompanhado por aquela música apoteótica tão familiar e seguido pelo desenrolar do texto introdutório, até me arrepiei e o miúdo traquina que um dia fez da carreira de Jedi um plano de vida reavivou-se de novo em mim para pensar com os seus botões: "Isto até é capaz de correr bem", sem perceber que tinha acabado de assistir à parte mais consistente do filme.

O que se seguiu foi uma surpresa sombria: a produção tinha sucumbido à tentação do lado negro da Força mercantilista do blockbuster. Ao longo de 135 minutos, J.J.Abrams e sus muchachos seguem a mesma receita já vista em tempos recentes: sem coragem para inventar uma história nova decidem pegar em personagens novas para as enfiar à força numa embalagem narrativa cheia de clichés dos filmes anteriores, polvilhando a coisa com relações entre os novos protagonistas e os antigos.



Os diálogos são resumidos ao indispensável para manter um certo fio narrativo, dando às personagens um tratamento terrivelmente superficial. Há pessoas que desenvolvem uma relação de amor platónico só porque deram literalmente umas cambalhotas na areia mas o caso mais gritante é o de um casal separado que falhou estrondosamente no seu papel educativo, criando um filho que é um perfeito estupor choramingas, e que se reencontra após muitos anos tendo uma conversa em que a frase mais emotiva é "havia alturas em que me irritavas um bocado".

Imagem: Hitfix.com


E aquela do grande-mestre que se exilou, para expiar a sua culpa em solidão, mas que deixou um mapa dividido em dois bocados, sendo que a maior parte ficou enfiada num dróide deprimido?

Depois, para disfarçar a fragilidade narrativa, junta-se o ingrediente principal desta infame receita: cenas incessantes de acção, com velocidade vertiginosa, raios laser por todos os lados e explosões, muitas e grandes explosões.

Não contentes com isto tudo, Abrams e a sua trupe decidiram atacar os dogmas sagrados do conceito Star Wars, dando a entender que isso de se ser Jedi é uma coisa que afinal não exige anos de aprendizagem. Qualquer sucateira aprende os mistérios da Força em coisa de 10 minutos, sem se esforçar muito e qualquer funcionário de saneamento básico é tão hábil com um sabre de luz como com um desentupidor de sanitas.

É portanto um filme com uma narrativa fraca mas visualmente apelativo, que se recomenda a quem tiver alguma afinidade com a saga mas também a quem apeteça relaxar, no final de uma árdua jornada laboral, dando a oportunidade aos seus neurónios de usufruírem de 135 minutos de inactividade. Também é nítido que a Disney apostou grande parte das fichas no merchandising à volta do filme e que começou a ser disponibilizado muito antes da estreia, para desta forma criar interesse em relação ao filme. Basicamente aquilo que o McDonalds faz em relação aos happy meals: sem substância nenhuma e com a bonecada a ser o mais interessante do produto.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Paris não desiste de continuar a brilhar

Paris vista a partir das torres da catedral de Nôtre Dame. 


Passou já um mês desde que a cidade de Paris foi palco de um ataque terrorista coordenado que fez correr sangue em vários pontos da capital. Desde então, a capital francesa tem vivido em estado de alerta permanente, sob medidas excepcionais de segurança. Os parisienses procuram viver normalmente a sua rotina diária mas há uma tensão latente que se sente ainda no ar e que nos foi possível perceber na última semana, aquando da nossa estadia na Cidade-Luz.

Definitivamente, Paris não se rendeu. A cidade continua a viver e a brilhar intensamente, tanto no frenesim habitual do vai-e-vem dos seus habitantes, como no seu pulsar artístico e cultural. As ruas não deixaram de se encher com as suas tradicionais iluminações e actividades de Natal, entre as quais o emblemático mercado de Natal dos Champs Elysées.

Contudo, nota-se uma certa inquietação. Um nervosismo à flor da pele que os parisienses procuram disfarçar ou até ignorar, concentrando-se na sua rotina diária. Na rua, basta um grito ou um som mais alto para interromper o som da multidão por alguns segundos. Os parisienses olham em volta procurando identificar a origem do som, retomando logo de seguida aquilo que estavam a fazer.


O Sacré-Coeur, em Montmartre


Para além do trauma que os últimos atentados deixaram, a cidade foi palco da COP 21, a Conferência das Alterações Climáticas promovida pelas Nações Unidas. Razões mais que suficientes para deixar os responsáveis pela segurança da capital francesa com os nervos em franja, até porque como já se sabe, este tipo de evento catalisa sempre à sua volta manifestações em modos pouco urbanos. 

Actualmente, ao entrarmos em qualquer espaço de acesso público mais relevante, sejam superfícies comerciais, monumentos ou espaços culturais, já sabemos o que nos espera e a rotina vai-se entranhando. Há que abrir o casaco, abrir as bolsas e submeter-se a detectores de explosivos ou de metais. Em muitos locais a segurança assemelha-se à de um aeroporto. As entradas são sempre controladas e, em alguns locais como as torres da Catedral de Notre Dame, o número de visitantes em simultâneo foi reduzido. Segundo uma das funcionárias, chegavam a ter cerca de 1.500 visitantes diários mas hoje o número, ainda sem dados oficiais, andará muito abaixo disso. 


O exército de guarda na emblemática Place du Tertre, ponto de encontro de inúmeros artistas


Junto a estes locais, encontramos polícia e até o exército, com as suas automáticas e capacete debaixo dos braços. Estes elementos enquadram-se no plano Vigipirate, o dispositivo concertado de segurança, actualmente no seu estado de alerta máximo, que tem mobilizado todas as forças de segurança do país.

Apesar de no início tudo nos parecer impressionante, depressa acabámos por nos habituar até porque o comportamento dos próprios parisienses a isso induz, denotando uma relativa boa disposição. Nas ruas, as esplanadas continuam a encher-se, vendo-se animadas tertúlias à volta de mesas com cafés ou inevitáveis copos de vinho. Aos balcões colocados na rua, diante dos cafés e das tão típicas boulangeries, servem-se crepes e um dos ex-libris da época natalícia: o vinho quente. Também por ser nesta época, as pessoas acotovelam-se diante das montras das grandes galerias comerciais Lafayette e Printemps, que fazem as delícias de miúdos e graúdos.


A magia das montras das Galerias Lafayette, onde os autómatos e video walls fazem as delícias das crianças mas não só. 


Subimos à Torre Eiffel para contemplarmos a vista nocturna da cidade, fomos ao Louvre, às Torres de Notre Dame, ao Arco do Triunfo. Percorremos os Champs Elysées para cima e para baixo várias vezes, fomos a Montmartre e até ao Panteão onde, para nossa surpresa, constatámos que os franceses ainda não atingiram o nosso nível civilizacional, limitando-se a depositar por lá apenas os restos mortais de personalidades das Letras, das Ciências e estadistas. 


A Câmara Municipal de Paris, para lá da Ponte d'Arcole


A Torre Eiffel, encimada pela luz radiada dos seus holofotes



Acabou no entanto por ser a visita ao Arco do Triunfo a experiência mais memorável da nossa experiência parisiense, não necessariamente pelos motivos esperados. Basta dizer que só à 4ª tentativa conseguimos finalmente subir ao topo do Arco.



Arco do Triunfo. À 4ª foi de vez!




O Arco do Triunfo ocupado pela Greenpeace!

O Arco do Triunfo é uma construção monumental, iniciada durante o período napoleónico para eternizar a glória da Grande Armée mas a campanha russa e a campanha peninsular (que conhecemos como "Invasões Francesas") acabaram por ditar o canto do cisne desta empreitada, e só mais tarde, já na monarquia e com um espírito mais conciliatório, seria terminada. Situa-se no centro de uma gigantesca rotunda que serve de cabeça à avenida dos Champs Elysées, uma artéria cujos mais de 2km de extensão ainda sentimos nas pernas.

É possível aceder ao monumento e subir até ao seu topo, acedendo primeiro à rotunda por uma passagem subterrânea e subindo em seguida por uma escadaria em caracol, até ao terraço no cimo do Arco. Ora, se o acesso à rotunda é livre e permanente, já a subida não o é, devendo ser feita mediante o pagamento de um bilhete e tendo como horário de encerramento as 22h30. Foi precisamente neste horário que esteve a génese da nossa saga.

Na primeira tentativa chegámos ao Arco às 22h em ponto, apenas para sermos confrontados, pela boca de funcionários intransigentes, com o facto de que a entrada teria no máximo de ser às 21h45, ou seja, 45 minutos antes da hora de fecho. Conformados mas não desanimados, decidimos adiar a visita para o dia seguinte. 

Eram pois 21h do dia seguinte quando chegámos novamente ao Arco, desta vez para nos depararmos com uma porta fechada, com um aviso colado a dizer que, excepcionalmente, nesse dia tinham encerrado às 20h30. Tivemos mais uma vez de nos conformar mas não desanimámos muito. Pelo menos não o suficiente para desistirmos da visita.

Decidimos dar um dia de intervalo para, na Sexta-feira, os apanharmos de surpresa logo pela manhã. Já que não tínhamos conseguido a visita nocturna, teríamos pelo menos o privilégio de ver a cidade durante o dia.

Foi com esse pensamento em mente que, a meio da manhã de Sexta-feira, emergimos da estação de metropolitano diante do Arco do Triunfo... para nos depararmos com um cenário de absoluto caos. Vários activistas da organização ecologista Greenpeace tinham decidido levar a cabo uma manifestação audaciosa: desenhar um gigantesco Sol na rotunda do Arco do Triunfo, apelando à utilização de fontes de energia renováveis.

Vários deles, que no momento em que chegámos estavam a ser perseguidos e detidos pela polícia, tinham circulado repetidas vezes pela rotunda em bicicleta, tendo um recipiente de cada lado que ia derramando uma tinta amarela sobre o pavimento. A ideia era que o trânsito espalhasse a tinta, desenhando-se assim um enorme Sol na rotunda e avenidas que daí irradiavam (ver aqui!)

Não contentes, vários destes activistas conseguiram subir ao topo do Arco (resta saber como), com equipamento de montanhismo e tinham-se suspendido daí exibindo mensagens dirigidas ao presidente francês, François Hollande. Só após algumas horas a polícia conseguiu deter estes últimos activistas, pondo finalmente fim à manifestação da Greenpeace.


"M. Hollande renouvelez l'énergie!", Sr Hollande, renove a energia


Não, não foi luz verde para uma corrida urbana. Trata-se simplesmente de uma perseguição policial que terminou com a detenção da determinada activista da Greenpeace



Os activistas que foram impedidos pela polícia de desfraldar uma tarja-gigante sob o Arco do Triunfo aqui a deixarem a rotunda.


O estado do piso após a passagem de centenas de veículos. Cliquem aqui para admirarem o resultado visto do ar

Da nossa parte, embora simpatizando com a causa pela qual protestavam, não deixámos de achar aborrecida a mensagem "Arco do Triunfo fechado por razões técnicas" que era visível na porta fechada de acesso à rotunda.

Ainda assim, fizemos uso da nossa inesgotável teimosia e, à noite, na nossa quarta tentativa, lá conseguimos finalmente aceder ao topo do Arco, para a nossa última visão da cidade de Paris antes do regresso a Portugal. Não se pode dizer que não tenha valido a pena, não acham?



terça-feira, dezembro 15, 2015

Nascer do Sol, algures sobre Espanha...

... a alguns quilómetros de altitude. Lá em baixo, as montanhas (provavelmente de Navarra) formam uma barragem transbordada pelas nuvens, como se de uma torrente furiosa se tratasse.




sábado, dezembro 05, 2015

Há 10 anos, a Europa reuniu-se no Fundão para celebrar o Natal

Pose de alguns participantes no Pelourinho do Fundão


Há 10 anos atrás, a Europa reuniu-se no Fundão para celebrar o Natal. Tratou-se da 14ª Edição dos Natais da Europa, um festival anual criado pela Associação Europeia de Escolas de Hotelaria e Turismo (AEHT) e que, desde 1988, é organizado por uma escola de hotelaria e turismo membro dessa associação.



Em 2005, coube à Escola de Hotelaria e Turismo do Fundão, na altura INFTUR-Fundão e hoje falecida,  a responsabilidade de organizar o festival. Para que esta iniciativa pudesse ser um sucesso, houve uma mobilização total da escola, reforçada com colegas da escola-mãe de Coimbra, e uma grande colaboração por parte de empresas e entidades do Fundão e arredores.



Começou oficialmente a 3 de Dezembro, com um desfile de todas as escolas participantes da escola até à Câmara Municipal, para a recepção oficial a cargo do então vice-presidente da Câmara, Carlos São Martinho, seguindo-se o regresso à escola para o simbólico cortar da fita que abriu a exposição.



Início do desfile


Já no regresso, a animação pelo grupo folclórico e etnográfico "Amigos do Fundão"


O Pavilhão Multiusos, então apenas ocupado pela escola e no 1º andar, foi dividido em várias áreas distintas. A principal, ao centro, era dominada por uma enorme tenda verde, pendendo do tecto para formar uma gigantesca árvore de Natal, à volta da qual se distribuíam os pavilhões onde cada escola expôs um pouco de si e das tradições natalícias do seu país.  Outro sector foi destinado ao tradicional espectáculo, no qual cada escola pisou o palco para apresentar uma peça de teatro, dança ou canto, e outro sector ainda ficou reservado para o espaço de cozinha, onde todas as escolas confeccionaram o grande buffet europeu.


Os espaços de exposição e a grande tenda, em forma de árvore de Natal


O interior da tenda durante o buffet europeu. É difícil dizer o que estava melhor entre tantos pratos


Aspecto da área das cozinhas, espaço onde actualmente está instalada a Altran





O convívio luso-austríaco aqui a dar nota do espírito que marcou os Natais da Europa. Muita animação e boa disposição.

Na grande tenda seria dois dias depois servido o buffet confeccionado por todas as escolas de hotelaria. E não eram poucas! Para além de Portugal, onde para além da anfitriã do Fundão contávamos também com a escola de Praia da Vitória (Açores), tinham vindo representações de França, Luxemburgo, Itália, Áustria, Albânia, Eslovénia, Dinamarca, Suécia, Polacos e Húngaros, tendo vindo de alguns países mais que uma escola também. 



Recordo particularmente o trabalho que foi conseguir trazer a Albânia, então a sair de um período conturbado. Foram precisos vários contactos através da embaixada francesa em Tirana e um rol de formalidades burocráticas. "É outra vez o gajo de Portugal!", chegou-se a ouvir do outro lado da linha.



Ao longo dos 4 dias que o festival durou, houve tempo para levar os participantes a visitar Alpedrinha, Monsanto e Idanha-a-Velha, por exemplo, assim como alguns estabelecimentos hoteleiros de referência na região. Todos ficaram a conhecer a nossa gastronomia (a palavra "bacalhau" tornou-se bem conhecida de todos), as nossas tradições e muito da nossa história e cultura.



Missa a evocar a tradição da "missa do galo", presidida pelo falecido padre Barreiros.


O madeiro "a fingir" que só foi possível com a colaboração da Junta de Freguesia, que forneceu os troncos, um pneu do meu defunto "Caetanomobile" e um garrafão de gasóleo que entrava em acção apenas quando os visitantes estrangeiros estavam por perto. Segundo a minha estimada mãe, digno de registo foi apenas o facto de ter conseguido manter a minha camisa limpinha durante todo o processo.


Os Natais da Europa de 2005 culminaram numa grande gala realizada no ex-hotel Príncipe da Beira onde, simbolicamente, o Fundão passou o testemunho à escola de Orebro, Suécia, para a organização da edição seguinte.


Contas feitas, a iniciativa foi um sucesso, merecendo rasgados elogios por parte da direcção da AEHT e de Jorge Umbelino, então à frente do Instituto Nacional de Formação Turística (o INFTUR, mais tarde integrado no Turismo de Portugal).



O elenco da peça de teatro. Com o argumento e o cenário decididos no próprio dia, e com os ensaios cronometrados pelo aproximar da hora, acabou por ser a peça mais aplaudida. Nada mau!

Recordo com satisfação o empenho de uma das melhores equipas em que já tive o privilégio de trabalhar, formada pessoas de generosidade e coração sem igual, as grandes noitadas de preparação das actividades do dia seguinte, e a azáfama constante durante o dia.



Valeu a pena!

Para mais informações:
Resumo da 14ª edição dos Natais da Europa no site da AEHT:


terça-feira, dezembro 01, 2015

Željava - Nos subterrâneos da mais avançada base aérea da Guerra Fria

Numa zona mais recôndita dos Balcãs, na fronteira entre a Croácia e a Bósnia, situa-se o que resta da base aérea de Željava. Herança militar do marechal Tito e, à época da sua construção, provavelmente a base aérea mais avançada do Mundo, a base foi destruída e abandonada em 1992. Hoje ainda é possível ver as marcas dessa guerra, tanto nos edifícios destruídos como nos campos de minas que cercam o local. Há um ano atrás, aproveitando a nossa passagem pela zona, aventurámos-nos nos nas instalações e subterrâneos de Željava. Eis o relato dessa visita.

Já tínhamos passado por Herceg Novi (Montenegro), Dubrovnik, Mostar (Bósnia) e Split quando decidimos ir até ao Parque Nacional dos Lagos de Plitvice, uma das jóias da Croácia classificada como Património da Humanidade.

Ficámos alojados na "House Izvor" em Čujića Krčevina, um pequeno lugarejo à entrada do Parque, formado por meia dúzia de casas, nem todas habitadas. Como viríamos a saber depois, tinha sido em tempos zona de férias de um dos generais mais destacados da Jugoslávia, que ali vinha passar as suas férias juntamente com o seu staff.


Čujića Krčevina, um pequeno lugarejo na orla da floresta do Parque Nacional dos Lagos de Plitvice, outrora zona de férias de um destacado general do regime de Tito


Tomislav, o nosso anfitrião, cedo se revelou uma pessoa extremamente interessante, tanto pela sua história de vida como pela vasta cultura que demonstrou possuir. Durante a nossa estadia foi sempre ele que cozinhou, privilegiando produtos da sua horta e cogumelos apanhados na floresta ao redor da casa.


O nosso amigo Tomislav, um homem com uma vasta cultura que nos ensinou muito sobre a Croácia e a própria região de Plitvice. Trabalhava num hotel na região da Istria, uma das zonas mais turísticas do país, até que se fartou da agitação daquela vida e comprou este terreno, para o qual veio morar com a sua caravana. Os filhos e a esposa ficaram na Istria, onde Tomislav os reencontra quando não há hóspedes para alojar. Acabou por construir um bungalow e uma casa, alugando agora quartos a turistas que aqui acorrem todos os anos. É impossível não ter saudades daquelas conversas anglo-italianas e dos seus cozinhados.


Depois de uma bela noite de descanso, acordámos no dia seguinte prontos para percorrer o Parque de Plitvice, experiência que se revelou assombrosa, tal a beleza do lugar e o trabalho que foi feito para o valorizar. Mas sobre isto falaremos no próximo artigo.

Depois de passarmos maior parte do dia no Parque e uma vez que tínhamos carro, já no regresso decidimos fazer um desvio quase até à fronteira com a Bósnia, que não ficava muito longe. Tínhamos ficado a saber por acaso que existia por ali uma antiga base aérea abandonada, que se caracterizava por ter sido parcialmente construída no subsolo e decidimos ir satisfazer a nossa curiosidade.

Tomámos a estrada rumo a Bihać, na Bósnia, e não tardou muito para que chegássemos a Koreničko, a aldeia que se situa junto à antiga base aérea de Željava.


A primeira visita a Željava

A estrada para Bihać, que na altura estava em vias de ser asfaltada

O percurso até à base aérea foi um pouco inquietante. Tanto na aldeia de Ličko Petrovo como em Koreničko, esta já em terrenos da base, as marcas da guerra são mais que evidentes. Casas abandonadas, marcas de incêndios e buracos de balas nas fachadas e o olhar desconfiado dos habitantes que paravam para olhar para nós contribuíam para um ambiente um pouco sinistro.

Além do mais, foi precisamente nesta zona que, em 1991, começou a guerra que os croatas chamam de Guerra Patriótica e os sérvios conhecem simplesmente como Guerra da Croácia, quando milícias sérvias se revoltaram e abateram a tiro um polícia croata. Josip Jović é oficialmente considerado como a primeira baixa da guerra. Dado que a região tinha uma larga fatia de população sérvia, foi integrada na auto-proclamada República Sérvia de Krajina e, até à sua dissolução em 1995, foi palco de furiosos combates.


Casa em Ličko Petrovo com marcas de incêndio sobre as janelas do 1º piso



Outra casa em Ličko Petrovo, esta com várias marcas de balas


Parámos o carro à entrada da base e começámos a nossa exploração a pé. Em frente ao antigo portão, destacava-se da vegetação a carcaça de um antigo avião de transporte de pessoal, um Dakota C47. Passando por baixo deste, descobrimos que havia mais dois aviões semi-dissimulados pela floresta que tentava retomar o seu espaço. Tratava-se de dois aviões que depois ficámos a saber serem de fabrico americano. Eram dois Thunderjet F-84G, aviões mono-jacto que se tornaram muito populares após a 2ª Guerra Mundial, sendo até amplamente usados por Portugal na Guerra do Ultramar. A força aérea jugoslava teve mais de 230 destes aparelhos até 1974, altura em que foram retirados de serviço.



O Dakota C-47, um avião de transporte de pessoal abandonado em Željava



O símbolo inconfundível da Força Aérea Jugoslava sob a asa de um F-84G Thunderjet



A experimentar o (des)conforto do cockpit do F-84G



A alavanca de ejecção do piloto



O Dakota e o outro caça Thunderjet



Pormenor da exaustão do jato do F-84G


A Ana observando atentamente os pormenores da fuselagem do Dakota, até se aperceber que  caminhar em zonas pouco pisadas poderia ser uma ideia pouco saudável.


Depois de perdermos algum tempo com os aviões, passámos o portão e entrámos na zona dos edifícios de superfície da base: casernas, oficinas, campos de treino, etc. O cenário era desolador e não se via nem ouvia nada a não ser o vento nas árvores e um ou outro pássaro. Fomos percorrendo as antigas ruas entre os edifícios, entrando em alguns para tentar perceber a que se destinavam, já que os poucos letreiros de pouca utilidade eram, já que o nosso croata estava algo enferrujado.




Um dos edifícios da base



Uma chaminé despontando entre as copas das árvores



A via principal de acesso à zona edificada da base



Outro edifício de propósito desconhecido



As garagens da base



Sobre uma das portas, um letreiro "službeni ulaz", entrada dos oficiais (obrigado pela tradução Tomislav!)



A antiga área de treino físico





Finalmente a confirmação de que não era mesmo boa ideia caminhar em zonas pouco pisadas: um aviso de campo minado, uma das terríveis e persistentes heranças da guerra (ver aqui). Esta zona fortemente minada, usada como campo de treino para cães farejadores de explosivos, oferece um real risco de vida. Há alguns anos atrás, um oficial bósnio que por aqui procurava cogumelos, morreu após pisar uma destas minas.

Após mais de uma hora a deambular pela base, não tínhamos encontrado quaisquer indícios das supostas instalações subterrâneas. Dado que começava já a escurecer e um pouco desiludidos, decidimos que era hora de regressar a Čujića Krčevina. Estávamos convencidos que a visita à base aérea seria certamente uma boa forma de alimentar a conversa com o nosso anfitrião à hora de jantar. Estávamos longe de adivinhar a surpresa que nos aguardava.

Nessa noite, à hora de jantar e visto que éramos os únicos hóspedes, Tomislav juntou-se a nós numa conversa em que se percorreu o passado distante e recente da Croácia e se fizeram as inevitáveis comparações entre os nossos países.

Para facilitar ao máximo a comunicação, Tomislav falava em italiano e nós retorquíamos em inglês. À medida que aquele maravilhoso Dingać ia sendo vertido nos nossos copos, veio à baila o tema de Željava. Surpreendido por sabermos da existência da base, o nosso anfitrião tirou um dossier de uma gaveta e, sobre a mesa, expôs fotografias e plantas da base. Apoiado nesse material, forneceu-nos uma descrição pormenorizada da base, incluindo a localização da portas das instalações subterrâneas.

Decidimos por isso regressar a Željava no dia seguinte, agora equipados com uma lanterna cedida pelo Tomislav.



A segunda visita a Željava

No dia seguinte, regressámos a Željava pela estrada já nossa conhecida só que desta vez, em vez de pararmos na entrada da base, prosseguimos por uma estreita estrada de serviço. Depois de percorrermos cerca de 1,5km, a vegetação já não permitia a passagem do carro, pelo que continuámos a pé, até um antigo checkpoint do qual ainda existe uma cancela. Passado este posto de controlo, pisámos finalmente a pista nº 4 da base aérea. À nossa frente, a grande planície era interrompida pela elevação abrupta da montanha Plješevica, no sopé da qual se abriam duas das quatro entradas da base.




A cancela do checkpoint de acesso à base


À esquerda a pista nº4, ao centro a pista nº 3 e à direita a pista nº5



As portas de acesso ao interior da base, cujos túneis foram construídos no coração da montanha


Entusiasmados pela perspectiva de podermos explorar aqueles subterrâneos de uma das mais importantes bases do tempo da Guerra Fria, decidimos aventurar-nos pela porta nº1. Com a planta vista na véspera ainda na memória, sabíamos que o túnel iria descrever um arco até à porta nº2. A única preocupação da Ana era a possibilidade de nos depararmos com um urso dentro dos túneis, dado que estes animais existiam pela região em estado selvagem. Para a tranquilizar, apanhei do chão o pau mais ameaçador e resistente que encontrei e entreguei-lho. Não me pareceu mais confiante mas ainda assim lá entrámos no coração da montanha e no interior da base de Željava, o orgulho da outrora poderosíssima Força Aérea Jugoslava.




O aspecto exterior da porta nº1



O túnel de amortecimento de explosões nucleares do acesso nº1, bastante danificado pela explosão de 1992.


Uma obra-prima da engenharia militar

O interior de Zeljava quando a base ainda funcionava
Fonte: http://www.zeljava-lybi.com/

O interior de Zeljava quando a base ainda funcionava
Fonte: http://www.zeljava-lybi.com/


A base militar de Željava  foi construída no mais perfeito segredo entre 1957 e 1965, designada simples e misteriosamente por Objekat 505, o Objecto 505. Custou na altura 6.000 milhões de dólares, equivalente hoje em dia a aproximadamente o triplo dos orçamentos militares anuais da Croácia e da Sérvia somados. Diz-se até que anos houve em que concentrou sobre si cerca de 25% do Orçamento de Estado.

A base integrava-se num sistema de defesa vital da federação jusgolava, formado pela articulação de estações de radar de longo alcance com forças de resposta e intervenção rápida. No topo da montanha, existem ainda restos de uma importante estação de radar mas só mesmo em veículo TT se consegue lá chegar. Na altura, esta base era considerada uma das mais avançadas do Mundo, um título bem adequado para um equipamento pertencente à 4ª força militar mais poderosa do planeta.

Na base estavam estacionadas duas esquadrilhas de ataque e uma de reconhecimento e diz-se que os túneis poderiam albergar cerca de 100 aviões de combate, todos eles os temíveis Mig-21, o que não é de todo improvável embora, por razões funcionáveis, fossem certamente menos. A base dispunha, como já referi, de 4 saídas capazes de lançar caças para as 5 pistas exteriores, o que lhe conferia uma capacidade de resposta tremenda. O controlo do movimento dos aviões era feito a partir de uma torre de controlo mais semelhante a um bunker, na encosta da montanha, acessível por elevador a partir do interior da base.

O facto de ser subterrânea garantia já por si uma excelente protecção mas os túneis de entrada especialmente preparados e as espessas portas blindadas permitiam à base resistir ao impacto directo de uma bomba nuclear de 20 quilo-toneladas, o equivalente à bomba de Nagasaki. Com as portas fechadas, a base podia ser hermeticamente selada e, ainda por cima, pressurizada, o que inviabilizava também qualquer tentativa de ataque com armas químicas.

Os armazéns tinham capacidade para guardar mantimentos suficientes para 30 dias o que, aliado ao facto de ter uma fonte de água subterrânea e fornecimento de combustível a partir de um depósito situado a mais de 20km, através de condutas enterradas bem fundo, permitia que a base pudesse continuar a operar isoladamente durante largo período. Só a messe tinha capacidade para 1.000 pessoas!

O fim da base chegou com a desagregação da Jugoslávia, durante a década de 1990. Tendo sido inicialmente ocupada pelo exército federal, composto essencialmente por sérvios e montenegrinos, aquando da retirada deste as pistas foram destruídas, mediante a colocação de explosivos em locais pré-existentes e destinados a esse efeito (numa lógica de auto-destruição).

Mais tarde, já em 1992, o local foi ocupado pelas forças paramilitares da auto-proclamada República Sérvia de Krajina. Perante o avanço das reorganizadas forças croatas, os sérvios retiraram mais uma vez mas não sem antes detonarem 56 toneladas de TNT nos túneis de Željava, selando e pressurizando previamente a base para aumentar ainda mais o efeito da deflagração. A explosão foi tão forte que foi ouvida na cidade Bósnia de Bihać, a cerca de 20km dali. Diz-se também que saiu fumo da base durante vários meses.

Após o fim da guerra, que terminou com a total fragmentação da Jugoslávia, o destino da base ficou traçado. Com duas das pistas situadas em território bósnio, a base não pôde ser novamente ocupada militarmente, devido ao estipulado nos acordos de paz. Há actualmente planos para fazer daquele um aeroporto regional mas, para já, nada de concreto.

Nos subterrâneos

Apesar da lanterna, à qual juntámos a luz dos telemóveis, era difícil perscrutar aquela escuridão. Passada a primeira porta blindada ou, melhor dizendo, o que resta dela, o ambiente é assombroso. Sem ver nada para além de 20m à nossa frente, os únicos sons que se ouviam em todo aquele negrume eram os nossos passos e o esporádico gotejar da água em parte incerta. Tudo isto reverberava nos túneis contribuindo para um cenário inquietante.


O que resta da porta blindada completamente destruída de dentro para fora.



Rumo à escuridão!


À direita e à esquerda iam surgindo algumas passagens, levando às centrais eléctricas, oficinas e unidades de ar condicionado. 

Após longos minutos chegámos à intersecção com outro túnel, muito maior que aquele que tínhamos percorrido, sendo até difícil ver o tecto. Acresce a isto o facto de todas as paredes estarem negras devido à explosão de 1992 e, ainda por cima, em algumas zonas dos túneis se formar uma neblina que dá ao lugar uma aura ainda mais fantasmagórica.




Acesso a uma das estações geradoras de electricidade.



A neblina no interior dos túneis. Fantasmagórico!



Zona de sanitários, completamente destruída.

Porta intermédia de acesso ao túnel principal. A forma do acesso, para permitir a passagem dos aviões, resistiu à explosão de 1992 mas a porta propriamente dita não teve a mesma sorte, sobrando pouco menos de metade dela.


Entretanto chegámos finalmente à porta blindada do acesso nº2, junto à qual encontrámos um antigo depósito de rockets e bombas. Esta porta não estava tão danificada como a anterior pelo que foi possível apreciar a sua forma de T invertido, destinada a deixar passar os aviões no menor espaço possível. Na parede ao seu lado via-se também o espaço para o qual esta porta deslizava quando era aberta.




Acesso à área de teste e manutenção dos rockets e bombas, junto à porta.



Espaço para o qual deslizava a porta blindada quando aberta.



Depósito de bombas e rockets, junto à entrada nº2


Continuámos a caminhar em direcção à luz ténue que já se conseguia avistar e chegámos ao túnel curvo da entrada, construído para amortecer o efeito de uma explosão nuclear, impedindo o impacto directo com a porta blindada da base (vejam a planta abaixo para perceberem do que falo).

Passámos o acesso exterior, também ele em forma de T invertido e estávamos finalmente fora da base. 



Túnel em curva, para amortecer a força de uma explosão nuclear, desviando a força da deflagração da porta blindada interior. Algo que já tínhamos visto por exemplo no Forte de Hackenberg da Linha Maginot (recordar aqui)



Quase a sair da base...



Finalmente cá fora. O acesso nº2 está nitidamente em melhor estado que o nº1.



A porta exterior nº2



Planta parcial da base. Clicar sobre a imagem para ver a planta completa.



Ficámos com pena de não estarmos melhor preparados já que não sabíamos que o acesso ao interior da base era tão fácil. Ficaram por ver cerca de 2/3 das instalações, desde o núcleo em estrela ao centro de comando, passando pelo elevador de acesso à torre de controlo mas não era sensato arriscar mais do que já tínhamos feito até ali.

O pouco que vimos serviu no entanto para termos uma ideia da dimensão e nível de excelência desta base que teve um fim trágico num período também ele trágico da história da Europa. É de facto, como referiu alguém, um verdadeiro monumento à engenharia e... estupidez humana.

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