terça-feira, agosto 25, 2015

Postais de Viana do Castelo - Sra d'Agonia 2015

Houve chuva e vento e até ameaça de tourada mas nem isso conseguiu evitar que a Romaria da Sra d'Agonia voltasse a encher a cidade de Viana do Castelo com música, cor, animação e (muita!) gente para celebrar as tradições únicas desta região. Embora este ano não tenhamos podido participar na procissão ao mar como no ano passado (recordar aqui), foi extremamente gratificante rever família e amigos e esticar as pernas entre o a cidade e o monte de Santa Luzia.

Aqui ficam alguns registos desses dois dias:


Junto ao santuário do Sagrado Coração de Jesus, no monte de Santa Luzia, os fotógrafos "do antigamente" continuam a marcar presença. 


Pode não parecer, pelo manto de nevoeiro que coroava o santuário, mas estamos em Agosto. Por estes lados há um ditado que diz que "quando Santa Luzia tem touca (o nevoeiro) vem água e não é pouca". Cumpriu-se.


Na Praça da República, a azáfama era grande. Balões, brinquedos, cadeiras, tudo se vende durante as festas. Foi fascinante ver também a capacidade de adaptação do negócio quando, às primeiras gotas de uma grande chuvada, uma bancada deste género deu em pouco menos de 5 minutos lugar a um belo mostruário de guarda-chuvas. Quando no Domingo as nuvens ainda só ameaçavam, um comerciante passou por nós e, porque o negócio dos guarda-chuvas não corria muito bem, soltou uma praga: "Havia de chover que era para aprenderem". A "touca" de santa Luzia não falha, principalmente se tiver uma praga de cigano a ajudar. 




Um dos ex-libris da romaria é a Revista de Gigantones e Cabeçudos na qual, secundados pelo vários grupos de "Zés Pereiras", estas figuras se passeiam pela Praça da República, dançando ao som dos bombos.



Com a chegada dos Gigantones e Cabeçudos, terminou a actuação da Banda Clube Pardilhoense sob a direcção sempre enérgica do maestro Martinho.



A praça da República sempre cheia para assistir à Revista dos Gigantones e Cabeçudos.



À noite, todos os lugares eram bons para assistir ao desfile de Zés Pereiras, ranchos folclóricos e demais grupos que animaram a festa ao longo dos vários dias, entre a estação de caminhos-de-ferro e o jardim da marginal.



Viana é isto.


quarta-feira, agosto 19, 2015

À descoberta de Beja!

Até agora, Beja era pouco mais que aquele aglomerado de casas que se avistava a partir da N18, sempre sem merecer uma paragem, e que sabíamos estar dotado de um moderno aeroporto, no qual às vezes até aterram aviões. E que tinha a Ovibeja, claro! Desta vez, aproveitando uma demorada viagem pelo Alentejo, houve finalmente tempo para parar em Beja e conhecer uma cidade que, a pouco e pouco, começa a valorizar e dar a conhecer um património de excelência.

A chegada a Beja fez-se já ao final da tarde, quando o calor abrasador do dia começa a dar lugar ao vento frio da noite, que indica que chegou a hora de trocar a manga curta por agasalhos mais confortáveis. Check-in feito no nosso alojamento, saímos para jantar e percorrer o centro histórico da cidade. Entretanto já tínhamos sido avisados que, sendo Domingo à noite, iríamos ter dificuldade em encontrar alguma coisa aberta e, já que no dia seguinte era Segunda-feira, nenhum museu iria estar aberto. Foi portanto uma sensação agridoce esta de sermos recebidos em Beja com grande simpatia e de, ao mesmo tempo, termos levado duas bofetadas psicológicas.

Assim, foi um centro histórico quase deserto o que encontrámos mas que serviu, ainda assim, para aguçar o apetite para um passeio mais atento no dia seguinte.

O castelo de Beja, com a torre de menagem em evidência.


Acesso à Praça da República, a praça central do centro histórico.


Pelas ruas de Pax Iulia

No dia seguinte, apesar de sabermos que os museus estavam fechados, decidimos começar o passeio precisamente pela zona do Museu Regional de Beja, não fosse dar-se o caso de este excepcionalmente estar aberto. Neste caso a teimosia não compensou. Mesmo assim, por alívio de consciência, insistimos em percorrer mais umas dezenas de metros até ao Núcleo Museológico da Rua do Sembrano, ali mesmo ao lado, onde acabámos por ter mais sorte. Aliás, até superou as expectativas.

Alertado pela nossa presença (não confirmo nem desminto um eventual ar de súplica), o homem que se encontrava atrás do balcão da entrada abriu-nos a porta e convidou-nos a entrar. Enquanto nos dava as boas-vindas, explicou-nos que o espaço estava de facto fechado à Segunda-feira mas, já que ele estava ali e ainda tinha serviço para fazer, não lhe custava nada deixar-nos visitar o sítio. Pela demonstração de simpatia e disponibilidade, vai daqui um grande abraço para o Sr. José Silva, um exemplo a seguir na promoção da sua cidade pela arte de bem receber.

Mas afinal, que sítio é este, o da rua do Sembrano? Nada mais nada menos que um espaço museológico que resultou da descoberta no local, durante obras efectuadas numa casa particular no final da década de 1980, de um conjunto de estruturas sobrepostas, cuja datação vai desde a Idade Contemporânea até à Pré-História! Foi aliás, graças a esta descoberta, que se ficou a saber que Beja é muito mais antiga do que se pensava, sendo muito anterior à Pax Iulia, romana. 

Todas as estruturas foram postas a descobertas e protegidas com um piso em acrílico, de forma a poderem ser admiradas, enquanto os objectos mais importantes foram expostos em vitrinas. Percorre-se assim, a olho nu, a milenar História da cidade de Beja. 


O Núcleo Museológico da rua do Sembrano


Os restos da larga muralha da Idade do Ferro (a partir dos séculos IX ou VIII a.C.) sobre os quais foram construídos edifícios romanos. Esta construção provou em definitivo a existência de uma povoação anterior à chegada dos romanos.


Feitas as despedidas, dirigimos-nos novamente até à Praça da República, para a admirarmos à luz do dia e também para bebermos um café. Aí, demos de caras com o pelourinho ou, melhor dizendo, com uma réplica aqui recolocada após a anterior ter sido destruída por um automóvel há 14 anos atrás. O pelourinho encontra-se hoje em dia completamente cercado pelo mobiliário de uma esplanada e desprovido dos 3 degraus octogonais que formavam a sua base, um triste cenário para um monumento que simboliza a autoridade municipal de uma cidade e que merecia mais respeito. 

O pelourinho e a esplanada ou "como admirar de perto um monumento nacional enquanto eventualmente se bebe um café, dependendo da disposição dos proprietários do estabelecimento".


Quem não teve respeito por nós foram os proprietários da esplanada que não se dignaram a aparecer, o que nos levou a desistir e a mudar para a esplanada seguinte... onde tivemos a mesma sorte! Das duas uma: ou em Beja também se pratica a "hora da siesta" e esta ocorre entre as 11h e as 12h, ficando os estabelecimentos abertos porque isto é tudo gente de confiança, ou há de facto ainda uma certa falta de tacto na arte de saber receber em alguns estabelecimentos da cidade. Como isto de negar café a quem dele precisa é um agravo que levamos a peito, acabámos mesmo por desistir e prosseguimos a nossa caminhada até ao Castelo.



Entrada para o hospital da Misericórdia, a caminho do castelo


O Castelo de Beja, recordista da Península Ibérica

Na visita ao Castelo tivemos boas e más surpresas. Começando pelas más, a torre de menagem que, segundo dizem é do alto dos seus 40 metros a torre de menagem mais alta da Península Ibérica (ocorre-me um certo sentimento patriótico-Freudiano), estava fechada ao público e envolvida por andaimes e redes de protecção. Ao que parece, um varandim da torre ruiu no ano passado e esta foi alvo de uma intervenção de emergência, aguardando agora obras de reparação e consolidação e não se sabendo ainda quando voltará a abrir ao público.

Para piorar ainda mais o nosso cenário de desilusão, também a cafetaria do castelo estava fechada, isto porque a menina que la trabalha estava de férias. 

Tivemos de nos contentar em admirar os muros da imponente fortaleza que mostram ainda alguns elementos romanos, como o arco de porta ainda de pé no exterior. 

O castelo visto de fora, com a sua torre de menagem em grande evidência, tal como o arco da porta de construção romana.

Felizmente para nós, soubemos que no interior do hospital da Misericórdia, construído no século XV por aquele que haveria de ser o nosso rei D.Manuel, o primeiro de seu nome, havia uma cafetaria em funcionamento. Não hesitámos portanto em entrar no edifício para -finalmente!- podermos beber o café que o vício já exigia havia já algumas horas e que nos foi servido por uma senhora extremamente simpática.

No interior do Hospital da Misericórdia de Beja.


Da Judiaria à Mouraria, acabando no Fórum de Pax Iulia

Reposto o nível esperado de cafeína para aquela hora do dia, seguimos ao longo da muralha da cidade, percorrendo respectivamente as antigas Judiaria e Mouraria, ambas com casas baixas e ruas em traçado sinuoso. Uma outra Beja dentro de Beja que vale a pena visitar.

A meio caminho, deu ainda para admirar a Porta de Avis, uma das várias portas da antiga cerca medieval que tem como particularidade, à semelhança da porta junto ao castelo, o facto de ser de origem romana.

A nota negativa vai para o Jardim da Mouraria, um espaço com ar relativamente recente que se encontra ao abandono, seco e cheio de lixo.

A Judiaria de Beja


O arco romano da Porta de Avis


Um recanto da Mouraria de Beja que convida ao convívio


Uma rua da Mouraria

Antes de deixarmos a cidade, houve ainda tempo para dar um salto até às escavações arqueológicas actualmente a decorrer na rua da Moeda, onde foi encontrado o que resta daquele que será o maior templo romano até hoje encontrado em território português e um dos maiores da Península Ibérica. Esta e outras estruturas faziam parte do Fórum, o centro cívico e religioso da Pax Iulia romana. 

Para este local está projectada a construção do Centro de Arqueologia e Artes de Beja, local que implicará a recuperação e requalificação dos edifícios circundantes e que colocará em evidência os vestígios arqueológicos do local. A coisa promete!


Foi pois com um sentimento de que ficou muito para ver que deixámos Beja, rumo à Costa Vicentina. É também precisamente por esse motivo que inevitavelmente voltaremos à cidade, uma cidade que começa lentamente a valorizar e mostrar aos visitantes um património de excelência e que já merece ser visitada... apesar de ser complicado fazer com que nos sirvam um café.

terça-feira, agosto 04, 2015

Um postal de Beja

Na Mouraria de Beja

Beja é uma cidade que não conhecíamos e da qual guardámos excelentes recordações. Irá por isso merecer um novo artigo em breve.

segunda-feira, julho 27, 2015

Aqui é sempre Janeiro.


Num fim-de-semana que nos levou a percorrer a fronteira entre os concelhos do Fundão, Pampilhosa da Serra e Oleiros, detivemos-nos numa pequena subida, integrada na Grande Rota do Zêzere, a contemplar a aldeia de Janeiro de Cima e o seu parque fluvial. Trata-se de uma simpática povoação, integrada na rede das Aldeias do Xisto, que merece bem uma visita.

sexta-feira, julho 10, 2015

Serra da Gardunha - 0h00


Na noite passada, fomos até ao coração da Serra da Gardunha, percorrendo mais de 10km (ida e volta) entre o Natura Glamping (Casa do Guarda de Alcongosta) e a mítica Penha. 

A abóbada celeste estava fantástica mas o que acabou por chamar mais a nossa atenção foi a agitação dos insectos ao longo do caminho, desde pirilampos a louva-a-deus, passando pelos inevitáveis mosquitos e grilos-de-sela. Aliás, estes últimos eram às centenas.

Mas não só com insectos foram os nossos encontros. Um outro habitante da Gardunha também fez questão de se deixar ver: o "lacrau", como popularmente se chama o escorpião da espécie Buthus occitanus. 

Com tanta movimentação no caminho, inevitavelmente teria de haver confrontos. Vimos grilos a comer grilos e escorpiões a comer escorpiões mas, digno de registo, foi assistir à investida de um dos escorpiões sobre um grilo, com uma picada fulminante da sua cauda. 

Tendo garantido o seu jantar, assistimos ao esforço do escorpião em carregar a presa para a devorar em sítio mais recatado. Dadas as características das espécies, o jantar terá sido coisa para durar mais de 2h mas, para alguém que de Outubro a Março não se alimenta, este bicharoco merece apreciar longamente o seu repasto.



segunda-feira, abril 06, 2015

Toponímia invulgar na Cidade Invicta


Numa rua mais estreita, bem pertinho dos Aliados, é possível encontrar esta curiosa placa toponímica que evoca os notáveis feitos do nosso vice-primeiro-ministro. É impossível não admirar a paciência do autor anónimo, tanto na elaboração (os desenhos estão bem elaborados) como na colocação deste pequeno painel. 

segunda-feira, janeiro 19, 2015

Pelos trilhos nevados da Serra da Gardunha

Após uma noite tempestuosa, o Domingo amanheceu aqui pelo Fundão com um ar um bocado tristonho, cheio de nevoeiro e algo chuvoso. Apesar das condições pouco convidativas, a tentação de subir à Gardunha (que se adivinhava coberta de neve) foi demasiado forte e por isso, às 8 da manhã, fizemos-nos ao caminho. O percurso, com uma extensão de 17km, levou-nos ao alto do Cavalinho na crista da Serra da Gardunha e foi simplesmente fantástico, isto apesar das dificuldades colocadas pelas condições meteorológicas e do terreno. À nossa frente, o nevoeiro foi revelando a pouco e pouco imagens excepcionais que partilho aqui com vocês. Ora espreitem lá:

Calçada antiga de Alcongosta.

Para além de indicarem distâncias, estas placas sugerem também as condições climatéricas dos locais apontados.


Revelador das condições climatéricas extremas da noite anterior, as árvores e demais vegetação estavam completamente envoltas em gelo, como se fossem construções de cristal.


No entanto, nem todas as árvores conseguiram resistir ao excesso de peso.


Um pinheiro completamente congelado. À medida que avançámos, era possível ouvir aqui e ali o som de ramos a partir e a cair por causa do peso. Aliás, os ramos caídos foram uma constante ao longo do caminho.


Um pequeno charco que escapou à congelação.


Um pássaro petrificado no meio da neve e do gelo.


Vareta de gelo despontando do solo.


O "Mr Burns", que guarda o trilho de acesso ao Cavalinho, sob a neve. Lembram-se desta imagem no blogue dos Caminheiros da Gardunha? (ver aqui).


Um dos corajosos caminheiros!


Quase a chegar ao posto de vigia no alto do Cavalinho.


O posto de vigia ricamente decorado. 


A inevitável fotografia em pose triunfal, junto ao ponto mais alto do alto do Cavalinho, com um esforço suplementar para mostrar indiferença perante o vento cortante que se fazia sentir.


"Este café sabe que nem ginjas!"


Outro pequeno grupo de pinheiros congelados, já no início do caminho de regresso.


Mais pinheiros, estes mais expostos às intempéries, com sinais de outros nevões e fenómenos de congelação que levaram os ramos a quebrar.


Zona florestal junto à Casa do Guarda


Já perto da Calçada Antiga, encontrámos finalmente os javalis que se tinham mostrado demasiado tímidos aquando da nossa primeira passagem. Partilhámos com 3 deles o resto do nosso reforço alimentar. Um quarto, vá-se lá saber porquê, desceu a encosta em passo de corrida, desferiu uma cabeçada na rede soltando um grito e, no mesmo passo com que chegou, voltou a subir a encosta e desapareceu.

Todos os pormenores sobre este trilho serão publicados esta semana no blogue dos Caminheiros da Gardunha. Não percam.

quarta-feira, dezembro 31, 2014

Bari e o túmulo do Pai Natal

Apesar de termos chegado já de noite, acabámos por ficar agradavelmente surpreendidos pelo ambiente e pelas ruas reluzentes, estreitas e sinuosas do centro histórico. Foi uma experiência nada condizente com os avisos e recomendações de segurança que encontrámos em vários guias que falam desta cidade. Como se isto não bastasse, ainda tivemos direito a visitar o túmulo do Pai Natal, literalmente o centro de produção de um negócio muito pouco convencional. Sejam bem-vindos a Bari!



O castelo Normando-Suábio de Bari, A cidade tem uma história bem atribulada, tendo sido dominada por romanos, ostrogodos, bizantinos, lombardos, normandos, suábios (hoje parte da Alemanha), aragoneses, silicianos, e por aí fora. No que toca andar de mão em mão, a cidade e o seu castelo dão um bailinho às pombinhas da Catrina.



Despedimos-nos de Cassino e da sua abadia rumo a Bari. A primeira parte da viagem foi feita em comboio regional, no qual testemunhámos a frenética discussão do revisor com dois passageiros prevaricadores. Nesta discussão num italiano com sotaque insondável, bem à moda da região napolitana, pudemos testemunhar parte do vasto manancial de gestos que os cidadãos da "Bota europeia" usam para se fazerem entender. Dizem os entendidos que é possível contabilizar 250 gestos diferentes numa discussão entre italianos eloquentes. Nós podemos dizer que vimos um bom número deles.

A partir de Caserta, uma espécie de Entroncamento no Norte de Nápoles, prosseguimos a viagem noutro comboio, o Frecciargento, uma espécie de intercidades que, para além de ser mais confortável e ter um bem cuidado vagão de cafetaria, tinha também ecrãs que exibiam informação sobre o percurso, mostrando a localização instantânea do comboio num mapa, informação sobre a próxima estação (informação meteorológica e ainda sobre horários dos próximos comboios a sair dessa estação.), para além de outras informações.

Já em Bari (com um atraso de uma hora) uma caminhada de alguns minutos levou-nos até ao centro histórico onde se situava o B&B no qual iríamos passar a noite. O quarto situava-se no R/C da casa, com acesso directo para a rua, sendo muito bem cuidado e tendo uma porta interior "normal" e uma porta exterior espessa em aço reforçado, com fechadura de segurança, que nos deixou algures entre o seguro e o claustrofóbico. 


A Velha Bari



Aspecto nocturno das ruas da Bari Velha. Uma rede labiríntica de ruas que desembocam em pequenas pracetas de forma irregular.



Entrada bastante convidativa no centro histórico pela Via Benedetto Petrone. 



Uma peculiaridade de Bari reside no facto de um pouco por todo o lado se encontrarem altares que são alvo de grande devoção, quase como se fossem os santos protectores do lugar.


Bari está dividida em duas zonas completamente diferentes. Por um lado temos a enorme zona residencial construída segundo uma monótona planta ortogonal no séc XIX (quando Napoleão mandava na cidade) e, por outro lado, temos a medieval Bari Vecchia que é simplesmente encantadora. As casas e o pavimento são feitos do mesmo calcário e a sinuosidade das ruas, as passagens em galerias e o facto de a iluminação deste verdadeiro labirinto não ser demasiado forte confere-lhe um encanto muito próprio. 

Ainda por cima nem sequer fomos assaltados, o que é agradável. Não deixámos no entanto de viver a sensação de estarmos a mais em determinados locais, como aquelas pracetas onde as conversas animadas cessavam subitamente e toda a gente ficava a olhar fixamente para nós. A zona mais movimentada da Bari Vecchia é feita de duas praças, Ferrarese e Mercantile, onde se concentram bares e restaurantes.



O pelourinho de Bari, na Piazza Mercantile, aqui conhecido como Coluna da Justiça ou Coluna da Infâmia. A tradição local diz que os caloteiros era aqui acorrentados e obrigados a ficarem sentados em cima do leão, expostos à vergonha e aos géneros alimentares fora do prazo de validade.

Embora as praças e parte das ruas sejam zona pedestre, convém estarmos sempre atentos porque, a qualquer momento, pode surgir uma bicicleta, uma vespa ou motorizada em alta velocidade. 

Nunca sabemos o que esperar e convém fazer um amplo uso dos sentidos, como o que fizemos naquele episódio em que procurámos instintivamente a protecção de uma escadaria, perante a aproximação do ronco ameaçador de um motor que parecia próprio de uma moto de alta cilindrada mas que, afinal, não passava de uma micro-motorizada circulando a 20km/h, em esforço extremo por transportar duas crianças com menos de 10 anos, respectivamente piloto e passageiro.


Piazza del Ferrarese, onde está exposta uma das entradas romanas da cidade. 


A basílica e o túmulo do Pai Natal!


A basílica de São Nicolau, construída a partir de 1086, durante o período em que os normandos, vindos do Noroeste de França, dominaram o sul de Itália, Sicília e parte do Norte de África.



A Basílica de São Nicolau é dedicada ao santo que está na origem da figura do Pai Natal. Construído em 1086, este templo românico guarda os restos mortais de São Nicolau ou pelo menos a maior parte dos restos. É que, se em geral as relíquias de santos têm o dom da multiplicação, as relíquias de São Nicolau foram protagonistas do fenómeno da divisão.

Em poucas palavras, Nicolau era bispo de Myra, hoje Demre, na costa Sul da Turquia, cidade onde foi sepultado. Reputado como santo milagreiro, tanto em vida como após a morte, as relíquias do santo fizeram da cidade um popular centro de peregrinação.

Infelizmente para os fiéis e os que deles lucravam, os turcos começaram a ameaçar a cidade, tendo a sua posse mudado várias vezes de mãos entre estes, que eram muçulmanos, e os bizantinos, que eram cristãos. A questão da segurança dos restos mortais do santo começou a ser discutida e foi neste contexto que um grupo de marinheiros de Bari conseguiu chegar ao túmulo, de forma bastante subreptícia, e piamente subtraiu todos os ossos a que conseguiu deitar as mãos, regressando imediatamente e em ritmo acelerado a Bari.

Isto desagradou profundamente a Veneza, a outra cidade que cobiçava as relíquias do santo (devido ao seu valor religioso e não pelo facto de poder ser uma boa fonte de rendimentos, claro!), e foi por isso que os venezianos não descansaram enquanto não passaram por Myra, para recolherem o resto dos fragmentos que tinham ficado no túmulo

Estudos científicos recentes comprovaram esta história, tendo ficado provado que as relíquias de Veneza e as de Bari pertenceram à mesma pessoa, um homem falecido aos 60 anos com cerca de 1,68m de altura e que tinha a característica distintiva de ter o nariz partido (ver aqui).

Voltando às relíquias de Bari, após a sua deposição no túmulo, constatou-se com alegria que delas era espontaneamente produzido um líquido, algo que já acontecia no túmulo de Myra. De então para cá, este líquido chamado Maná passou a ser vendido aos peregrinos em pequenos frascos, podendo ainda hoje ser adquiridos na própria basílica. 

Dizem as más línguas, próprias de quem não acredita no Pai Natal, que os 50ml de Maná, solenemente extraídos todos os anos a 9 de Maio, podem ser explicados pelo fenómeno físico da capilaridade, até porque a fórmula química deste fluido milagroso é H2O.



Ícone ortodoxo de São Nicolau com ofertas e pedidos por escrito aos seus pés. O valor total das ofertas varia conforme a taxa de câmbio.

Sendo um santo com um currículo impressionante, afinal São Nicolau é patrono das crianças, tanoeiros, peregrinos, notários, advogados, juízes, marinheiros, pescadores, mercadores, radialistas, falsamente acusados, ladrões arrependidos, produtores de cerveja, farmacêuticos arqueiros e penhoristas, e é também venerado nos vários ramos do cristianismo, houve necessidade de permitir a devida veneração ortodoxa na basílica. Por esse motivo, sob o altar-mor, a cripta onde se encontra o santo foi transformada numa capela ortodoxa que, pelo que pudemos ver, é bastante concorrida.



A capela-cripta ortodoxa de São Nicolau, sob o altar-mor da basílica católica.


A praia do Pão e do Tomate


Pelos que vimos no porto de Bari, há pescadores mais sofisticados que outros.


Cumprida a visita cultural, decidimos experimentar a água do Adriático e fomos até à praia mais próxima, popularmente conhecida por praia do Pão e Tomate. Trata-se de uma pequena praia perto do centro da cidade à qual afluem por tradição as famílias de Bari para passar as suas tardes, embora não necessariamente para banhos dado que até há relativamente pouco tempo estes eram ocasionalmente interditados devido a contaminações da água. Coisa do passado, segundo as autoridades da cidade e se elas o dizem, é porque deve ser verdade. O curioso nome da praia deriva da merenda típica de qualquer família italiana que se preze e que consiste em pão com tomate.

Embora sem pão e sem tomate, aproveitámos para dar um rápido mergulho e a água estava até bem agradável. Outro facto agradável é que também aqui não fomos assaltados, ao contrário dos avisos nesse sentido por parte de alguns guias.



O embarque

Com o fim do dia, chegou também o fim da nossa estadia em Itália. Por isso, recuperámos a nossa bagagem no B&B e seguimos rumo ao porto para apanhar o ferry que nos iria transportar até ao nosso próximo destino, no outro lado do Adriático, ponto de partida para um périplo que nos levaria a percorrer 3 países diferentes.



A última visão de Bari.


A seguir: o país que deixou o Banco Central Europeu com uma certa azia e a cidade-mártir que hoje é Património da Humanidade.

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