segunda-feira, julho 27, 2015

Aqui é sempre Janeiro.


Num fim-de-semana que nos levou a percorrer a fronteira entre os concelhos do Fundão, Pampilhosa da Serra e Oleiros, detivemos-nos numa pequena subida, integrada na Grande Rota do Zêzere, a contemplar a aldeia de Janeiro de Cima e o seu parque fluvial. Trata-se de uma simpática povoação, integrada na rede das Aldeias do Xisto, que merece bem uma visita.

sexta-feira, julho 10, 2015

Serra da Gardunha - 0h00


Na noite passada, fomos até ao coração da Serra da Gardunha, percorrendo mais de 10km (ida e volta) entre o Natura Glamping (Casa do Guarda de Alcongosta) e a mítica Penha. 

A abóbada celeste estava fantástica mas o que acabou por chamar mais a nossa atenção foi a agitação dos insectos ao longo do caminho, desde pirilampos a louva-a-deus, passando pelos inevitáveis mosquitos e grilos-de-sela. Aliás, estes últimos eram às centenas.

Mas não só com insectos foram os nossos encontros. Um outro habitante da Gardunha também fez questão de se deixar ver: o "lacrau", como popularmente se chama o escorpião da espécie Buthus occitanus. 

Com tanta movimentação no caminho, inevitavelmente teria de haver confrontos. Vimos grilos a comer grilos e escorpiões a comer escorpiões mas, digno de registo, foi assistir à investida de um dos escorpiões sobre um grilo, com uma picada fulminante da sua cauda. 

Tendo garantido o seu jantar, assistimos ao esforço do escorpião em carregar a presa para a devorar em sítio mais recatado. Dadas as características das espécies, o jantar terá sido coisa para durar mais de 2h mas, para alguém que de Outubro a Março não se alimenta, este bicharoco merece apreciar longamente o seu repasto.



segunda-feira, abril 06, 2015

Toponímia invulgar na Cidade Invicta


Numa rua mais estreita, bem pertinho dos Aliados, é possível encontrar esta curiosa placa toponímica que evoca os notáveis feitos do nosso vice-primeiro-ministro. É impossível não admirar a paciência do autor anónimo, tanto na elaboração (os desenhos estão bem elaborados) como na colocação deste pequeno painel. 

segunda-feira, janeiro 19, 2015

Pelos trilhos nevados da Serra da Gardunha

Após uma noite tempestuosa, o Domingo amanheceu aqui pelo Fundão com um ar um bocado tristonho, cheio de nevoeiro e algo chuvoso. Apesar das condições pouco convidativas, a tentação de subir à Gardunha (que se adivinhava coberta de neve) foi demasiado forte e por isso, às 8 da manhã, fizemos-nos ao caminho. O percurso, com uma extensão de 17km, levou-nos ao alto do Cavalinho na crista da Serra da Gardunha e foi simplesmente fantástico, isto apesar das dificuldades colocadas pelas condições meteorológicas e do terreno. À nossa frente, o nevoeiro foi revelando a pouco e pouco imagens excepcionais que partilho aqui com vocês. Ora espreitem lá:

Calçada antiga de Alcongosta.

Para além de indicarem distâncias, estas placas sugerem também as condições climatéricas dos locais apontados.


Revelador das condições climatéricas extremas da noite anterior, as árvores e demais vegetação estavam completamente envoltas em gelo, como se fossem construções de cristal.


No entanto, nem todas as árvores conseguiram resistir ao excesso de peso.


Um pinheiro completamente congelado. À medida que avançámos, era possível ouvir aqui e ali o som de ramos a partir e a cair por causa do peso. Aliás, os ramos caídos foram uma constante ao longo do caminho.


Um pequeno charco que escapou à congelação.


Um pássaro petrificado no meio da neve e do gelo.


Vareta de gelo despontando do solo.


O "Mr Burns", que guarda o trilho de acesso ao Cavalinho, sob a neve. Lembram-se desta imagem no blogue dos Caminheiros da Gardunha? (ver aqui).


Um dos corajosos caminheiros!


Quase a chegar ao posto de vigia no alto do Cavalinho.


O posto de vigia ricamente decorado. 


A inevitável fotografia em pose triunfal, junto ao ponto mais alto do alto do Cavalinho, com um esforço suplementar para mostrar indiferença perante o vento cortante que se fazia sentir.


"Este café sabe que nem ginjas!"


Outro pequeno grupo de pinheiros congelados, já no início do caminho de regresso.


Mais pinheiros, estes mais expostos às intempéries, com sinais de outros nevões e fenómenos de congelação que levaram os ramos a quebrar.


Zona florestal junto à Casa do Guarda


Já perto da Calçada Antiga, encontrámos finalmente os javalis que se tinham mostrado demasiado tímidos aquando da nossa primeira passagem. Partilhámos com 3 deles o resto do nosso reforço alimentar. Um quarto, vá-se lá saber porquê, desceu a encosta em passo de corrida, desferiu uma cabeçada na rede soltando um grito e, no mesmo passo com que chegou, voltou a subir a encosta e desapareceu.

Todos os pormenores sobre este trilho serão publicados esta semana no blogue dos Caminheiros da Gardunha. Não percam.

quarta-feira, dezembro 31, 2014

Bari e o túmulo do Pai Natal

Apesar de termos chegado já de noite, acabámos por ficar agradavelmente surpreendidos pelo ambiente e pelas ruas reluzentes, estreitas e sinuosas do centro histórico. Foi uma experiência nada condizente com os avisos e recomendações de segurança que encontrámos em vários guias que falam desta cidade. Como se isto não bastasse, ainda tivemos direito a visitar o túmulo do Pai Natal, literalmente o centro de produção de um negócio muito pouco convencional. Sejam bem-vindos a Bari!



O castelo Normando-Suábio de Bari, A cidade tem uma história bem atribulada, tendo sido dominada por romanos, ostrogodos, bizantinos, lombardos, normandos, suábios (hoje parte da Alemanha), aragoneses, silicianos, e por aí fora. No que toca andar de mão em mão, a cidade e o seu castelo dão um bailinho às pombinhas da Catrina.



Despedimos-nos de Cassino e da sua abadia rumo a Bari. A primeira parte da viagem foi feita em comboio regional, no qual testemunhámos a frenética discussão do revisor com dois passageiros prevaricadores. Nesta discussão num italiano com sotaque insondável, bem à moda da região napolitana, pudemos testemunhar parte do vasto manancial de gestos que os cidadãos da "Bota europeia" usam para se fazerem entender. Dizem os entendidos que é possível contabilizar 250 gestos diferentes numa discussão entre italianos eloquentes. Nós podemos dizer que vimos um bom número deles.

A partir de Caserta, uma espécie de Entroncamento no Norte de Nápoles, prosseguimos a viagem noutro comboio, o Frecciargento, uma espécie de intercidades que, para além de ser mais confortável e ter um bem cuidado vagão de cafetaria, tinha também ecrãs que exibiam informação sobre o percurso, mostrando a localização instantânea do comboio num mapa, informação sobre a próxima estação (informação meteorológica e ainda sobre horários dos próximos comboios a sair dessa estação.), para além de outras informações.

Já em Bari (com um atraso de uma hora) uma caminhada de alguns minutos levou-nos até ao centro histórico onde se situava o B&B no qual iríamos passar a noite. O quarto situava-se no R/C da casa, com acesso directo para a rua, sendo muito bem cuidado e tendo uma porta interior "normal" e uma porta exterior espessa em aço reforçado, com fechadura de segurança, que nos deixou algures entre o seguro e o claustrofóbico. 


A Velha Bari



Aspecto nocturno das ruas da Bari Velha. Uma rede labiríntica de ruas que desembocam em pequenas pracetas de forma irregular.



Entrada bastante convidativa no centro histórico pela Via Benedetto Petrone. 



Uma peculiaridade de Bari reside no facto de um pouco por todo o lado se encontrarem altares que são alvo de grande devoção, quase como se fossem os santos protectores do lugar.


Bari está dividida em duas zonas completamente diferentes. Por um lado temos a enorme zona residencial construída segundo uma monótona planta ortogonal no séc XIX (quando Napoleão mandava na cidade) e, por outro lado, temos a medieval Bari Vecchia que é simplesmente encantadora. As casas e o pavimento são feitos do mesmo calcário e a sinuosidade das ruas, as passagens em galerias e o facto de a iluminação deste verdadeiro labirinto não ser demasiado forte confere-lhe um encanto muito próprio. 

Ainda por cima nem sequer fomos assaltados, o que é agradável. Não deixámos no entanto de viver a sensação de estarmos a mais em determinados locais, como aquelas pracetas onde as conversas animadas cessavam subitamente e toda a gente ficava a olhar fixamente para nós. A zona mais movimentada da Bari Vecchia é feita de duas praças, Ferrarese e Mercantile, onde se concentram bares e restaurantes.



O pelourinho de Bari, na Piazza Mercantile, aqui conhecido como Coluna da Justiça ou Coluna da Infâmia. A tradição local diz que os caloteiros era aqui acorrentados e obrigados a ficarem sentados em cima do leão, expostos à vergonha e aos géneros alimentares fora do prazo de validade.

Embora as praças e parte das ruas sejam zona pedestre, convém estarmos sempre atentos porque, a qualquer momento, pode surgir uma bicicleta, uma vespa ou motorizada em alta velocidade. 

Nunca sabemos o que esperar e convém fazer um amplo uso dos sentidos, como o que fizemos naquele episódio em que procurámos instintivamente a protecção de uma escadaria, perante a aproximação do ronco ameaçador de um motor que parecia próprio de uma moto de alta cilindrada mas que, afinal, não passava de uma micro-motorizada circulando a 20km/h, em esforço extremo por transportar duas crianças com menos de 10 anos, respectivamente piloto e passageiro.


Piazza del Ferrarese, onde está exposta uma das entradas romanas da cidade. 


A basílica e o túmulo do Pai Natal!


A basílica de São Nicolau, construída a partir de 1086, durante o período em que os normandos, vindos do Noroeste de França, dominaram o sul de Itália, Sicília e parte do Norte de África.



A Basílica de São Nicolau é dedicada ao santo que está na origem da figura do Pai Natal. Construído em 1086, este templo românico guarda os restos mortais de São Nicolau ou pelo menos a maior parte dos restos. É que, se em geral as relíquias de santos têm o dom da multiplicação, as relíquias de São Nicolau foram protagonistas do fenómeno da divisão.

Em poucas palavras, Nicolau era bispo de Myra, hoje Demre, na costa Sul da Turquia, cidade onde foi sepultado. Reputado como santo milagreiro, tanto em vida como após a morte, as relíquias do santo fizeram da cidade um popular centro de peregrinação.

Infelizmente para os fiéis e os que deles lucravam, os turcos começaram a ameaçar a cidade, tendo a sua posse mudado várias vezes de mãos entre estes, que eram muçulmanos, e os bizantinos, que eram cristãos. A questão da segurança dos restos mortais do santo começou a ser discutida e foi neste contexto que um grupo de marinheiros de Bari conseguiu chegar ao túmulo, de forma bastante subreptícia, e piamente subtraiu todos os ossos a que conseguiu deitar as mãos, regressando imediatamente e em ritmo acelerado a Bari.

Isto desagradou profundamente a Veneza, a outra cidade que cobiçava as relíquias do santo (devido ao seu valor religioso e não pelo facto de poder ser uma boa fonte de rendimentos, claro!), e foi por isso que os venezianos não descansaram enquanto não passaram por Myra, para recolherem o resto dos fragmentos que tinham ficado no túmulo

Estudos científicos recentes comprovaram esta história, tendo ficado provado que as relíquias de Veneza e as de Bari pertenceram à mesma pessoa, um homem falecido aos 60 anos com cerca de 1,68m de altura e que tinha a característica distintiva de ter o nariz partido (ver aqui).

Voltando às relíquias de Bari, após a sua deposição no túmulo, constatou-se com alegria que delas era espontaneamente produzido um líquido, algo que já acontecia no túmulo de Myra. De então para cá, este líquido chamado Maná passou a ser vendido aos peregrinos em pequenos frascos, podendo ainda hoje ser adquiridos na própria basílica. 

Dizem as más línguas, próprias de quem não acredita no Pai Natal, que os 50ml de Maná, solenemente extraídos todos os anos a 9 de Maio, podem ser explicados pelo fenómeno físico da capilaridade, até porque a fórmula química deste fluido milagroso é H2O.



Ícone ortodoxo de São Nicolau com ofertas e pedidos por escrito aos seus pés. O valor total das ofertas varia conforme a taxa de câmbio.

Sendo um santo com um currículo impressionante, afinal São Nicolau é patrono das crianças, tanoeiros, peregrinos, notários, advogados, juízes, marinheiros, pescadores, mercadores, radialistas, falsamente acusados, ladrões arrependidos, produtores de cerveja, farmacêuticos arqueiros e penhoristas, e é também venerado nos vários ramos do cristianismo, houve necessidade de permitir a devida veneração ortodoxa na basílica. Por esse motivo, sob o altar-mor, a cripta onde se encontra o santo foi transformada numa capela ortodoxa que, pelo que pudemos ver, é bastante concorrida.



A capela-cripta ortodoxa de São Nicolau, sob o altar-mor da basílica católica.


A praia do Pão e do Tomate


Pelos que vimos no porto de Bari, há pescadores mais sofisticados que outros.


Cumprida a visita cultural, decidimos experimentar a água do Adriático e fomos até à praia mais próxima, popularmente conhecida por praia do Pão e Tomate. Trata-se de uma pequena praia perto do centro da cidade à qual afluem por tradição as famílias de Bari para passar as suas tardes, embora não necessariamente para banhos dado que até há relativamente pouco tempo estes eram ocasionalmente interditados devido a contaminações da água. Coisa do passado, segundo as autoridades da cidade e se elas o dizem, é porque deve ser verdade. O curioso nome da praia deriva da merenda típica de qualquer família italiana que se preze e que consiste em pão com tomate.

Embora sem pão e sem tomate, aproveitámos para dar um rápido mergulho e a água estava até bem agradável. Outro facto agradável é que também aqui não fomos assaltados, ao contrário dos avisos nesse sentido por parte de alguns guias.



O embarque

Com o fim do dia, chegou também o fim da nossa estadia em Itália. Por isso, recuperámos a nossa bagagem no B&B e seguimos rumo ao porto para apanhar o ferry que nos iria transportar até ao nosso próximo destino, no outro lado do Adriático, ponto de partida para um périplo que nos levaria a percorrer 3 países diferentes.



A última visão de Bari.


A seguir: o país que deixou o Banco Central Europeu com uma certa azia e a cidade-mártir que hoje é Património da Humanidade.

sábado, dezembro 27, 2014

Monte Cassino, o monte que custou mais de 140 vidas por metro

A cidade de Cassino é uma cidade pacata, situada à sombra de um castelo recém-restaurado e de um outro imponente edifício do qual, quando o ruído da cidade o permite, se ouvem as badaladas de um sino. Trata-se da abadia de Monte Cassino, um edifício cujo nome se tornou tristemente célebre pela encarniçada batalha que ali se travou entre as forças especiais alemãs e as tropas aliadas durante a II Guerra Mundial.


A nova cidade de Cassino, construída um pouco a Sudoeste da antiga povoação que, juntamente com o castelo, foi literalmente arrasada durante a II Guerra Mundial.


O plano era viajar até Bari, na costa do Adriático mas decidimos incluir uma etapa na nossa viagem, pernoitando em Cassino, uma pacata cidade no extremo da região da Lázio. A viagem fez-se de comboio e ficámos bastante surpreendidos com a qualidade de serviço. Como não podia deixar de ser, a viagem não poderia ser isenta de sobressaltos e, já quase no final da viagem, percebemos que deveríamos ter validado os nossos bilhetes nas máquinas disponibilizadas para o efeito ainda em Roma. Felizmente, fizemos a viagem em absoluta tranquilidade sem que nenhum revisor tivesse aparecido para nos cumprimentar.

Chegados a Cassino, encontrámos uma cidade que nos pareceu algo desordenada o que acaba até por ser compreensível dado o passado recente da cidade. Após termos vencido a distância a partir da estação, chegámos ao nosso hotel (ver aqui) onde fomos recebidos pela funcionária de hotel mais efusiva e extrovertida que alguma vez havíamos encontrado em semelhante posição. Com um delicioso inglês enfiado à força numa forma italiana, descreveu-nos com um discurso entusiasmado que poderíamos encontrar em Cassino.

Aproveitando o pouco tempo de luz que ainda tínhamos e já que ficava mesmo ali ao lado, decidimos fazer uma rápida caminhada até ao castelo próximo, embrenhando-nos numa estreita estrada asfaltada monte acima, pelo meio da floresta. A dada altura, ouvimos acima de nós evidentes sons de movimento que pareciam acompanhar-nos e, no momento em que a estrada descrevia uma curva em cotovelo, fomos surpreendidos pela aparição de um javali.


O primeiro javali que avistámos e que desconhecia que as regras de confrontação com um ser humano ditam que se ponha a milhas o quanto antes. Posso dizer hoje que, em Setembro de 2014, derrotei um javali no "jogo do sério".

Quando finalmente decidiu fugir, foi seguido quase de imediato por outros dois, acabando por desaparecer na floresta. Entretanto começava a escurecer e vimos-nos forçados a desistir da nossa ida ao castelo, regressando à cidade que pouco tinha para nos oferecer. O mais emocionante da noite na cidade acabou por ser a nossa tentativa de reconstruir a bicicleta de um ciclista que, movido a álcool, se estatelou à nossa frente, fazendo com que várias peças da sua montada ficassem espalhadas na calçada.

O dia seguinte seria bem mais interessante, com a visita logo pela manhã à abadia de Monte Cassino.


A Abadia de Monte Cassino, o monumento-fénix


A partir de uma praça de Cassino onde existe uma igreja que parece uma unidade fabril, avista-se a abadia de Monte Cassino lá no alto. 

Quem conhece a História da II Guerra Mundial, terá com toda a certeza ouvido falar da abadia de Monte Cassino e de como esta abadia, fundada por São Bento no século VI no local onde existia um templo dedicado a Apolo, foi palco de uma das mais duras batalhas desse conflito.

A invasão aliada de Itália começou em 1943, menos de um ano antes do desembarque na Normandia, facto que o rei italiano aproveitou para fazer lavagem de cara do seu país no conflito, mandando prender Mussolini e assinando a paz com os Aliados, Quem não achou piada a isto foi Hitler que deu ordem para que as suas tropas ocupassem o território italiano. Como Mussolini foi entretanto libertado por comandos alemães e fundou um novo estado italiano no Norte, passou a haver tropas italianas ao lado dos alemães e também ao lado dos Aliados. Uma bela confusão, como devem imaginar.

À medida que os Aliados iam avançando para Norte, a resistência ia sendo cada vez mais tenaz, já que os alemães iam construindo linhas defensivas umas atrás das outras nas zonas montanhosas do centro de Itália. Uma delas, a Linha Gustav, tinha um ponto nevrálgico na região de Cassino.

Como os monges beneditinos de Monte Cassino não queriam envolver a sua abadia no conflito, negociaram com os alemães e, segundo consta, estes concordaram em não ocupar Monte Cassino. Melhor ainda, ofereceram-se para transportar os tesouros culturais da abadia para a segurança do Vaticano. Dizem no entanto as más línguas que o número de camiões que saiu da abadia, carregados com os preciosos livros, quadros e outras obras de arte, foi significativamente maior que o número de camiões que efectivamente chegou ao Vaticano. Há até quem diga que 15 caixas serviram de presente de aniversário ao infame Göering. 



A memória da destruição no museu da abadia


Imobilizados diante da Linha Gustav, os Aliados começaram a acreditar que, se não havia artilharia, haveria pelo menos um posto de observação nazi na abadia. Pelo sim pelo não, foram largadas sobre o edifício beneditino mais de 1.150 toneladas de bombas, reduzindo a abadia a um monte de escombros que rapidamente -então sim!- foi ocupado pelos para-quedistas alemães. Só passados 3 meses, à custa de milhares de vidas, o monte seria finalmente conquistado.

O cemitério polaco, num monte próximo. Aos soldados do exército da Polónia coube o feito de serem os primeiros a chegar ao topo do Monte Cassino, pondo assim fim a 4 meses de combate. Considerando que o monte tem 520m de altitude e que a batalha custou a vida a mais 74.000 soldados (Aliados e alemães) antes do topo ser atingido, temos portanto um custo por metro de mais de 140 vidas.

Após a guerra, a abadia seria reconstruída, sendo os custos suportados na totalidade pelo estado italiano. O edifício actual é pois praticamente idêntico ao que foi destruído durante a guerra, vendo-se apenas aqui e ali um ou outro pormenor inacabado.

A nave central da reconstruída igreja da abadia em cujo tecto ainda estão por pintar as cenas que o decoravam antes da II Guerra Mundial


A Abadia hoje

Sobre a porta da abadia (na qual não entram os turistas) está gravada de forma bem visível a palavra "Paz".

A Abadia funciona ainda hoje como tal mas também como museu e local de peregrinação, já que aí se encontram as relíquias de São Bento e Santa Escolástica, religiosamente guardadas (o termo é aqui perfeitamente aplicado) numa pequena arca de pedra, sob o altar-mor da igreja. Outra opinião têm os monges da abadia de Fleury, em França, que garantem estarem ali e não em Cassino as relíquias de São Bento. Contudo, conhecemos bem a capacidade que as relíquias de santos têm de se multiplicarem como se gozassem da capacidade de mitose. De outra forma, ao contrário do que hoje acontece, com todos os pedaços da cruz em que Jesus Cristo foi crucificado que estão espalhados pelo Mundo católico, não seria possível construir um navio. Também da virgem Maria existem aqui relíquias, na forma de um pedaço do seu véu e de uma pequena pedra que terá vindo do seu túmulo. Coisas da fé.

O museu tem muito mais do que apenas objectos ligados à religião. Tem também uma bela colecção de arqueologia com peças não só provenientes de Cassino (antiga cidade romana de Casinum) e do Monte, mas adquiridas noutras paragens. 

No final do percurso, os visitantes passam por uma loja de recordações e ainda de produtos supostamente fabricados no local. Foi aí que adquirimos um licor dito "típico dos monges de Monte Cassino" que fez sensação no jantar em que foi servido no nosso regresso a Portugal. Já que duvido que alguém se volte a atrever a bebê-lo, talvez dê para desentupir canos.



A vinha da abadia. Espero que o vinho seja melhor que o "licor típico dos monges de Monte Cassino".


Terminada a visita, esperámos pelo autocarro que nos iria levar de regresso à cidade mas mal sabíamos a emoção que iria ser a descida até Cassino. Circulando a uma velocidade vertiginosa, buzinando a cada curva em que entrava em contra-mão, aquele condutor parecia possuído pelo Demo. Em menos de um fósforo, estávamos de novo na cidade onde apanhámos o comboio rumo a Bari, a nossa última etapa italiana.

Os bilhetes por validar da viagem Roma-Cassino, acabaram por ser oferecidos à nossa funcionária de hotel favorita que, bem à sua maneira, nos agradeceu efusivamente.

A seguir: no túmulo do Pai Natal

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Roma, a cidade eterna!


Criança que se preze gostaria de ir à Disneylândia. Eu, nos meus tempos de Escola Primária, queria era ir a Roma, sobretudo a partir do momento em que comecei a ler uns livros de História que contavam o épico (e vão) desaguisado de um pastor serrano chamado Viriato com as temíveis legiões romanas. A visita que finalmente fiz à cidade eterna, ainda mais especial por ter sido sob o pretexto de lua-de-mel, fez-me descobrir uma cidade capaz de provocar crises de algo semelhante a uma hiperglicemia monumental a quem aprecia especialmente o património cultural, mas não só. Roma tem muito mais que se lhe diga!


Chegámos ao aeroporto da Portela algo desconfiados. Afinal, o voo que nos estava destinado era da TAP e esta companhia aérea tinha estado nas últimas semanas ligada a casos sucessivos de atraso de voos. Chegando em cima da hora, uma funcionária stressada levou-nos até ao balcão de check-in alertando-nos para o facto de o voo estar na iminência de fechar. Ainda estaríamos afinal meia hora à espera que a porta de embarque abrisse, para embarcarmos no velhinho Fokker 100 no qual viajaríamos até Roma, sentados entre jogadores da selecção italiana de hóquei em campo.

Em Roma, depressa descobrimos que é muito difícil sentirmos-nos sozinhos naquelas ruas apinhadas, não pelo movimento das pessoas mas antes pela quantidade de indivíduos que nos abordam, na tentativa de vender gadgets de todo o tipo, visitas guiadas, bebidas geladas (era Verão ainda) ou simplesmente para obter dinheiro sem dar nada em troca.

No que toca à circulação, os peões encontram em Roma condutores com um estilo de condução muito arrojado. Atravessar as ruas numa passadeira sem semáforos é um verdadeiro desafio e qualquer peão que se detenha junto à passadeira, na esperança que os condutores parem para lhe ceder a passagem, melhor fará em ir buscar uma cadeira para se sentar, já que arrisca ficar ali muito tempo. O segredo é avançar e olhar os condutores nos olhos e, acima de tudo, nunca hesitar já que isso fará com que os condutores percam todo o respeito pelo peão. Ser peão em Roma é uma constante prova de macheza.

Os transportes públicos no centro de Roma resumem-se essencialmente a autocarro e táxi, já que o metropolitano, constrangido pela riqueza patrimonial do subsolo romano, não pode chegar ao coração da cidade. O principal problema foi conseguir perceber a intrincada malha das linhas de autocarro e, pior ainda, conseguir associar o nome das paragens às ruas. Adquirimos um passe que nos dava acesso grátis ou reduzido aos monumentos e nos permitia também viajar gratuitamente nos autocarros da cidade. O pior foi quando no último dia, já com o passe expirado e quando procurávamos chegar à estação de comboios para prosseguir viagem para Sul, entrámos num autocarro sem máquina dispensadora de bilhetes e o condutor, com o modo de simpatia desligado, nos informou que não vendia bilhetes. À minha pergunta de "Então como fazemos? Podemos ir na mesma?" limitou-se a virar a cara para o lado. Como quem cala consente, lá fizemos a viagem de borla até à estação de Roma Termini.

Quanto à comida, uma das primeiras coisas que aprendi a dizer foi "senza formaggio", que é como quem diz "se faz favor, não incluam os meus pratos nessa mania generalizada de incluir queijo em tudo aquilo que se ingere, que isso é coisa que abomino". Aquilo é gente que, se for preciso e não prestarmos atenção, até no café são capazes de enfiar queijo. Seja como for, lá sobrevivi e acabei até por ter até excelentes surpresas gastronómicas e até fiquei fã de um restaurante situado no Trastevere, uma simpática zona na margem direita do Tibre. Dos gelados nem vale a pena falar. Provámos tudo aquilo que era humanamente possível e os que sobraram não tinham pior aspecto.


Ponte para a Ilha Tiberina, uma pequena ilha do Tibre no centro de Roma.

Piazza de Santa Maria, no Trastevere 



Apesar do queijo, têm sentido de humor estes romanos


Nas nossas deambulações pela capital italiana, sabendo de antemão que seria impossível ver tudo o que há para ver num ano, quanto mais num punhado de dias como era o nosso caso, decidimos optar por alguns locais mais emblemáticos.



A entrada para a Praça de São Pedro, no centro da qual se ergue o obelisco egípcio em granito que outrora estava no centro do Circo de Nero, não muito longe do local actual. Mudou-se para aqui no final do século XVI. 


O Vaticano, já se sabe, é o sublimar da humildade e recato pregados nas margens do Jordão por Jesus Cristo mas ao contrário. Não fomos à Basílica até porque, uma vez que já vimos o filme "Anjos e Demónios" repetidas vezes já conhecemos bem o edifício por dentro e por fora. Visitámos sim o museu do Vaticano, percorrendo as galerias cheias de estátuas de deuses e imperadores da Roma Antiga "coladas" a pedestais que nada têm a ver com elas (muitos dos pedestais são até inscrições funerárias!), estátuas essas que, por vergonha do papa Clemente XIII, tiveram as suas partes pudendas cuidadosa e inclementemente tapadas por folhas de figueira. A passos tantos demos por nós nos antigos aposentos papais cujas paredes estão cobertas pelas pinturas dos grandes mestres e acabámos na Capela Sistina onde a voz nasalada de um segurança se fazia persistentemente ouvir em alto e bom som pelos altifalantes, apelando ao silêncio.


Pátio no complexo de palácios do Vaticano, com a escultura contemporânea "Esfera dentro da esfera".

Bem mais interessante, do ponto de vista arqueológico, acabaria por ser o Museu do Capitólio, situado naquilo que foi durante a antiguidade o arquivo geral de Roma, então capital do Mundo conhecido.

Como não podia deixar de ser, já que a razão de estarmos em Roma estava ligada à Muralha deste imperador, não pudemos deixar de visitar o mausoléu do imperador Adriano, hoje bastante transformado e rebaptizado de Castel Sant'Angelo. Se hoje é impressionante, como seria então na altura da sua construção, com as paredes revestidas a mármore e letras douradas e com a ciclópica estátua que recebia as oferendas e rezas dos visitantes ao imperador defunto?

Rampa helicoidal dentro do Castel Sant'Angelo através da qual se acedia à câmara sepulcral do mausoléu de Adriano. Por aqui passou o cortejo fúnebre do imperador na sua última viagem.


Pelas ruas mais sinuosas e modestas chegámos à Piazza Navona cuja planta reproduz na perfeição a arena do Estádio de Domiciano e cujos edifícios circundantes foram construídos sobre as bancadas deste. Numa das ruas adjacentes, ouvia-se bem alto a música da festa de um casamento judeu que decorria num dos terraços e que parecia bem animada.

Piazza Navona cuja forma denuncia a planta da arena do Estádio de Domiciano.


O Panteão de Roma também mereceu a nossa visita. Trata-se de um magnífico edifício, provavelmente o mais bem conservado do Império Romano (foi construído no reinado de Augusto e reconstruído pelo "nosso" Adriano 100 anos mais tarde) e que, se outrora foi dedicado aos principais deuses do panteão romano, hoje encontra-se tranformado na igreja de Santa Maria e Mártires. Alberga também os túmulos de várias personalidades relevantes, desde artistas do Renascimento até dois reis de Itália, que são diligentemente velados por associações monárquicas italianas, para fúria dos republicanos.


Até ao século XIX, a cúpula do Panteão era a maior cúpula do Mundo. A 40m de altura, o óculo com 9m de diâmetro ilumina o espaço de uma forma muito particular.


Ali perto, a Fonte de Trevi encontrava-se infelizmente em obras mas a visita era permitida através de uma passadeira metálica que não destoava dos muitos andaimes. Para não privar os turistas do romântico gesto de atirar uma moeda para a fonte, a mesma onde o Dan Brown afogou um cardeal pretendente ao trono da Santa Sé, foi disponibilizado de forma provisória um tanque para o efeito. Se os turistas querem atirar moedas, para quê dificultar-lhe a tarefa?


À volta da Fonte de Trevi abundam as lojas e os vendedores de rua, como este vendedor de castanhas.

Partindo do Capitólio, junto ao qual ficámos alojados, percorremos a distância que nos separava do Coliseu, ao longo da rua que separa as ruínas do fórum do mercado de Trajano. O Coliseu ou, mais correctamente, o Anfiteatro Flaviano, foi construído com as receitas provenientes do saque de Jerusalém no ano 70. A propaganda posterior fez deste sítio um local icónico do martírio de cristãos mas, ao que parece, os números foram bastante exagerados.

Vista para o último andar do Coliseu, onde se situava o "camarote imperial". Para se deslocarem ao Coliseu e evitar contactos indesejáveis com a plebe, os imperadores usavam um túnel conhecido como Túnel de Cómodo (o tal que fez a vida negra a Russel Crowe no filme "Gladiador"). A cobertura têxtil do Coliseu era manobrada por marinheiros, habituados que estavam a manipular as velas das suas galeras.


A complexidade dos mecanismos desta arena permitia elevar em pouco tempo, através de alçapões, sistemas de roldanas e elevadores, diversos elementos de cenário, animais, gladiadores. A dada altura, a arena podia até ser transformada em palco de recriação de batalhas navais históricas através da sua inundação. Quanto aos espectadores, que podiam ser entre 50.000 a 80.000 (as opiniões dividem-se), ir aos jogos era um ritual obrigatório. Os lugares eram distribuídos de acordo com a posição social e também não era raro haver situações de pugilato entre adeptos de diferentes gladiadores. Ainda bem que evoluímos bastante desde esses tempos.


À saída, uma simpática senhora chinesa veio inadvertidamente para cima de mim executando um estranho bailado. Fiquei tão impressionado que procurei logo ficar também nas fotos que a família lhe ia tirando. No final, quando se apercebeu da minha presença, retribuiu com um "Obrigado". Uma simpatia.

Pela Via Appia Antiga


O último dia em Roma foi parcialmente dedicado a percorrer parte da Via Appia antiga, aquela que terá sido provavelmente a primeira auto-estrada da História. Esta via construída em 312 a.C. tinha como objectivo facilitar o trânsito entre as cidades de Roma e Cápua, tendo mais tarde sido prolongada até à cidade de Brindisi, na costa adriática. Para além da perfeição da obra (diz-se que a estrada era tão perfeita que as pedras pareciam ter nascido juntas e terá sido a primeira via em que se usou um ligante de cal para selar as juntas), o que torna a obra notável é o seu traçada rectilíneo na primeira centena de quilómetros. Começa com um primeiro troço de 36km após o qual, com um desvio de apenas 2º (!!) começa outro de 62km até à actual cidade de Tarracina, o que faz deste, ainda hoje, o mais longo troço viário em linha recta da Europa!

A Porta San Sebastiano, antiga Porta Appia das muralhas aurelianas (construídas por ordem do imperador Aureliano no século III), atrás das quais se encontra um arco triunfal. As paredes desta porta estão cobertas de graffitis feitos ao longo dos séculos desde a sua construção.


Partindo das Termas de Caracala, saímos do perímetro de Roma pelas portas de São Sebastião, antiga Porta Appia, das muralhas aurelianas. Os primeiros quilómetros, até começar efectivamente o lajeado, não são particularmente interessantes, já que a via é hoje uma estrada estreita sem passeios e bastante movimentada mas, a dada altura, o trânsito é desviado para a Via Appia Nuova e então sim, pode-se caminhar descontraidamente.

Ao longo da via os monumentos funerários sucedem-se, uns mais monumentais, outros mais modestos, tendo alguns sido reaproveitados quer em construções antigas, como fortificações, quer em moradias que ainda hoje são habitadas. O monumento funerário mais imponente é sem dúvida o mausoléu de Cecília Metela.


Um monumento funerário reaproveitado como extensão de uma vivenda contemporânea.

Apesar de se tratar de um valiosíssimo monumento protegido por lei e integrado num parque criado para aumentar o âmbito de protecção, assistimos a muitos atentados ao longo do percurso. Nos muros das várias vivendas (de proprietários "remediados", como diria o primeiro-ministro português) distinguem-se fragmentos de cerâmica e elementos arquitectónicos antigo reaproveitados e -pasme-se!- sobre a via circulam veículos, apesar da expressa proibição.


Sim, há ali um sinal que parece ser de sentido proibido, sublinhado por um boneco representando um polícia. Em Itália, pelos vistos, este sinal deve significar alguma obrigatoriedade de circulação.


Fomos caminhando até a noite cair e percebermos que éramos os únicos a circular por ali. Com a ajuda de um pequeno mapa, descobrimos um pequeno caminho rural através do qual, iluminados pela luz da Lua, fomos parar a um subúrbio onde apanhámos um autocarro de volta a Roma. Ficou a outra metade do percurso da Via Appia por percorrer, infelizmente.


O fim do nosso percurso pela Via Appia: o portão de entrada da Villa dos Quintili, um magnífico palácio do século II que foi de tal forma alvo da cobiça do imperador Cómodo (outra vez!) que os seus proprietários acabaram por ser acidentalmente executados. As ruínas são de tal dimensão que o local chegou a ser chamado de Velha Roma quando a memória da sua origem se perdeu.

No dia seguinte chegou finalmente a hora de nos despedirmos da cidade eterna, prosseguindo a nossa viagem para Sudeste, tendo como primeira etapa Cassino e a sua famosa abadia. O melhor estava ainda para vir.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...