sexta-feira, junho 01, 2018

Liêge depois do tiroteio

Café Augustin. Foi diante deste café que tombaram as 3 vítimas mortais


O autocarro pára no semáforo. As conversas tornam-se subitamente num murmúrio, enquanto todos os passageiros olham e apontam para o mesmo ponto no exterior. É o “Café Augustin”, na esquina da rua do mesmo nome com o Boulevard de Avroy. Foi à porta deste café que, na passada Terça-feira, Benjamin Herman abateu 3 pessoas: duas agentes da polícia e um jovem estudante.

É o assunto do momento e ninguém lhe fica indiferente, embora esteja longe de ser tão traumatizante como o massacre do mercado de Natal em 2011. Ainda assim todos comentam e todos fazem a mesma pergunta: como foi possível o sistema ter falhado a este ponto? Afinal, este cidadão belga com largo cadastro criminal, estava na sua 14ª saída precária de uma pena de prisão que deveria terminar em 2020.

Na prisão, aproximou-se de radicais islâmicos e ele próprio se converteu e se radicalizou. Era pois uma questão de tempo. Assim, na sua última saída precária de 2 dias, cometeu um assalto, assassinou o seu cúmplice no mesmo e dirigiu-se na manhã de Terça-feira para Liège onde abateu 3 pessoas e feriu outras 4.

O espaço à entrada do café é agora um memorial onde as 3 vítimas mortais são homenageadas. Entre os inúmeros ramos e mensagens, percebem-se algumas mensagens de turmas do liceu Léhonie Waha que fica ali ao lado. Foi a escola que o criminoso invadiu e onde fez refém uma auxiliar de serviço que, nesta história trágica, acabou por ser a heroína de serviço.

Ao ver as pessoas a correr na rua e a gritar, esta mulher de origem marroquina preocupou-se em primeiro lugar em trancar todas as portas que levavam do hall de entrada da escola às salas de aula e ao pátio interior. Foi quando se virou para trás e se deparou com o atirador. Estava sozinha com ele. Foi nesta altura que este lhe colocou duas perguntas: “És muçulmana? Praticas o Ramadão?”. Foi a resposta afirmativa a ambas que salvou a vida a Darifa.

Entretanto, no pátio surgiam alguns professores que tentavam perceber o que se passava. Darifa fez-lhes gestos para se esconderem e depois, no desespero do momento, conseguiu ter sangue-frio suficiente para demover o atacante de tentar entrar na escola e propôs-lhe que saíssem ambos para a rua. –“Isto é uma escola. Não tens nada que estar aqui.”. Após longos minutos, Benjamin decidiu finalmente sair e saiu a disparar. Uma mancha escura no passeio indica o local onde a irracionalidade se silenciou.



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