quinta-feira, outubro 25, 2018

Aqui se decidiu a História da Europa

O monte do Leão, uma colina artificial que domina o campo de batalha

Aqui se decidiu a História de todo um continente. Quem hoje percorrer as verdes e calmas ondulações destes campos de cultivo bordejados de pequenos bosques, junto à pacata vila belga de Braine-l'Alleud, terá muita dificuldade em imaginar o cenário daquele fatídico dia de Verão de 1815, quando 10.000 cadáveres se confundiam num imenso lamaçal. Há algum tempo atrás, calcei as botas e percorri o local que equivocadamente ficou na História como o da batalha de Waterloo.



O prelúdio

A batalha de Waterloo aconteceu a 18 de Junho de 1815 e selou o fim definitivo do mito da invencibilidade de Napoleão. Tendo escapado do seu exílio na ilha de Elba, a meio caminho entre a Córsega e Itália, Napoleão retomou facilmente o poder em França o que provocou uma certa confusão e algum pânico entre as potências europeias, que estavam nesse preciso momento estavam a discutir em Viena o novo mapa geopolítico europeu pós-Napoleão. 

De imediato os trabalhos foram interrompidos e uma nova aliança militar foi formada por Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria, tendo cada país ficado responsável pela mobilização de um exército de 150.000 homens para atacar a França. No entanto, só os dois primeiros estavam em condições de atacar de imediato, embora com efectivos distantes dos números acordados.

Procurando antecipar os ataques à França, Napoleão tomou a iniciativa e invadiu a Bélgica, então parte do Reino da Holanda, para atacar ingleses e prussianos e, desta forma obter também uma posição de força para negociar a paz com os restantes países. O primeiro embate, a 16 de Junho correu de feição já que os prussianos foram derrotados. Napoleão enviou uma parte do seu exército em perseguição destes e virou o grosso das suas forças para os ingleses. 

O problema é que os prussianos haviam sido derrotados mas conservaram a sua capacidade combativa. Em vez de fugirem, iludiram os seus perseguidores e começaram a dirigir-se para as posições inglesas. Tinha começado uma corrida contra o tempo.


A Batalha


Vista parcial do campo de batalha a partir do Monte do Leão, à esquerda avista-se a quinta da Belle Alliance, QG de Napoleão e, mais para lá, a aldeia de Plancenoit.


Wellington escolheu cuidadosamente o terreno para a sua batalha. Sabendo que os prussianos vinham a caminho e que sozinho dificilmente teria condições de derrotar Napoleão, preparou uma estratégia defensiva com vista a aguentar o maior tempo possível e aguardar pela chegada dos reforços. Para isso, escolheu uma linha de colinas uns 20km a Sul de Bruxelas, o Monte de São João (algo longe de Waterloo, portanto). Para reforçar ainda mais a sua posição e condicionar os ataques franceses, fortificou 3 quintas diante das suas linhas: Hougoumont, Haie Sainte e Papelotte. Para além da vantagem do terreno, Wellington teve uma ajuda preciosa da meteorologia já que a chuva que caiu durante toda a noite, transformou o terreno diante das linhas inglesas num imenso lamaçal.

Napoleão viu-se confrontado com um terreno impraticável e, mesmo sabendo que os prussianos vinham a caminho, decidiu adiar o início da batalha em 2h, para deixar o Sol secar um pouco o terreno. Por isso, foi só às 11h30 que a batalha teve início, com o ataque à quinta de Hougoumont.


Hougoumont, a batalha dentro da batalha


A quinta de Hougoumont vista de Este. São visíveis as ruínas do solar, incendiado pelo bombardeamento francês e da sua capela, única parte que se conserva de pé. Os restantes edifícios mantêm relativamente o seu aspecto do século XIX.


O ataque a Hougoumont tinha como objectivo obrigar Wellington a desviar tropas do centro para apoiar a defesa da quinta, abrindo caminho a um ataque maciço ao centro das linhas Aliadas. A resistência foi encarniçada e os defensores de Hougoumont resistiram até aos obuses incendiários com que os franceses os bombardearam. Muitos homens e cavalos morreram queimados mas a quinta resistiu, apesar de num momento crítico quase ter sido tomada quando a porta Norte foi arrombada. Num esforço supremo, um grupo de 10 escoceses conseguiu fechar as portas e todos os franceses que tinham conseguido entrar acabaram por ser mortos. Este acontecimento foi determinante no desfecho da batalha e Wellington diria mais tarde: "o sucesso da batalha de Waterloo decidiu-se com o fecho das portas de Hougoumont".


"Fechando os portões de Hougoumont", de Robert Gibb (1903). National War Museum, Edimburgo

Perante a resistência de Hougoumont, Napoleão não esperou mais e atacou mesmo assim o centro da posição inglesa. Apesar de estarem reunidas condições ideais, os franceses conseguiram por várias vezes ganhar vantagem sobre os ingleses mas, por falta de coordenação ou capacidade de reacção, essa vantagem nunca chegou a ser decisiva e os vários momentos foram sendo desperdiçados.


A chegada dos prussianos


Sem ter conseguido quebrar as linhas inglesas, Napoleão viu a situação piorar ainda mais quando às 16h30 o exército prussiano chegou e se lançou sobre o seu flanco direito, junto à localidade de Plancenoit. O exército que Napoleão tinha lançado em perseguição dos prussianos no dia anterior não tinha sido capaz de lhes travar o avanço rumo ao campo de batalha.

Apesar de tudo, Napoleão ainda viu a possibilidade da vitória no campo de batalha quando a quinta de Sante Haye, diante do centro do dispositivo britânico, foi finalmente tomada e, ao mesmo tempo, um vigoroso contra-ataque recuperou a aldeia de Plancenoit. Do centro Ney pediu reforços para acabar com as tropas ingleses mas Napoleão hesitou pois tinha receio de um contra-ataque prussiano. Resultado: o momento perdeu-se mais uma vez pois, com a presença dos prussianos a proteger-lhe o flanco, Wellington pôde daí chamar tropas para o centro e retomar o controlo da situação.

Foi por isso já quase em desespero que o imperador decidiu finalmente fazer avançar sobre os ingleses o que lhe restava como reserva: a temível Guarda Imperial.


A carga final da Guarda Imperial



Diagrama da batalha em painel interpretativo no alto do Monte do Leão. As posições dos franceses (azul), dos prussianos (verde) e do exército de Wellington (vermelho, rosa e verde claro) são bem explicadas

A Guarda Imperial não obedecia a mais ninguém senão a Napoleão, sendo uma tropa de elite formada por soldados bastante experimentados. Deve ter sido uma visão impressionante para os aliados ver avançar na sua direcção os rectângulos compactos da Guarda Imperial, com os seus estandartes inconfundíveis.

Em reacção, Wellington mandou deitar no chão 2.000 soldados que, dissimulados pela vegetação e pelo terreno, aguardaram pacientemente até a Guarda Imperial chegar "a menos de 20 passos". Levantaram-se então num salto e dispararam à queima-roupa sobre os franceses. As crónicas dizem que metade dos dois batalhões da frente foi imediatamente dizimada e que as linhas seguintes, não só se viram impossibilitadas de avançar em boa ordem, devido à acumulação dos cadáveres dos seus companheiros, como estacaram sem perceber o que tinha acontecido. 

Assim ficaram à mercê do contra-ataque maciço que se seguiu e que forçou a Guarda Imperial a recuar em total desordem. Mais que o ataque em si, foi o grito "A Guarda recua!" que se propagou pelas tropas francesas, que espalhou o pânico e selou o fim da batalha. O que se seguiu pouco mais foi que um massacre. 

Dizem as crónicas que o general Ney (que 5 anos antes tinha participado no Combate do Côa, junto a Almeida), já apeado (perdeu pelo menos 6 cavalos na batalha) e com a espada partida, reuniu ainda uma divisão e lançou-a para a batalha gritando "Venham ver como morre um Marechal de França!". Mas a morte não quis nada com ele senão quase 6 meses mais tarde, quando o próprio Ney deu ordem de disparo ao seu pelotão de fuzilamento, após ser considerado culpado de traição à pátria.

O resto, já se sabe, é História. Uma última curiosidade: a batalha ficou erradamente eternizada como de Waterloo e não do Monte de São João, por ter sido nesta vila que Wellington redigiu o seu relatório.


Vale a pena visitar o campo de batalha!



A área onde decorreu a batalha é hoje monumento nacional e qualquer alteração da paisagem é estrictamente proibida. Todo o terreno é dominado pelo impressionante Monte do Leão, um monte artificial com 40m de altura, encimado por uma enorme estátua de um leão em bronze. Por toda a parte se encontram túmulos ou memoriais, dedicados tanto aos soldados aliados como aos franceses e o que sobressai é o sentimento de homenagem à valentia e bravura com que os dois lados se bateram.

Contando com o percurso dentro de Braine-l'Alleud, a partir da estação ferroviária, fiz um circuito a pé com quase 13km e que me levou a vários locais marcantes da batalha que estão devidamente assinalados e alguns até musealizados. 

É o caso da quinta de Hougoumont onde, para além da parte expositiva, um impressionante espectáculo multimédia no celeiro da quinta dá uma boa noção da violência dos combates que aí decorreram.


As ruínas do palacete continuam visíveis no centro da quinta tal como o poço de que Victor Hugo fez um túmulo nos "Miseráveis". Várias estelas e monumentos memoriais estão dispersas pelas paredes das construções e um passeio pela área do antigo jardim revela mais uns quantos.


Túmulos ingleses em Hougoumont

Do lado de fora da quinta, um castanheiro-da-Índia centenário ergue-se junto ao que resta de outros dois. São as últimas árvores do pequeno bosque que se situava junto à quinta e que foi tomado pelos franceses para daí lançarem os seus ataques a Hougoumont. Este castanheiro é a última testemunha viva da batalha de Waterloo.


Os Castanheiros-da-Índia de Hougoumont. O terceiro a contar da esquerda é a última testemunha viva da batalha de Waterloo


Continuando o percurso, chega-se à jóia da coroa deste percurso de memória: o Memorial de 1815, um museu subterrâneo, com uma área de 1800 m2, onde os visitantes mergulham bem dentro do ambiente da batalha de Waterloo e do seu contexto social e político. O ponto alto será o filme 4D que reconstitui a batalha mas o museu vale muito mais do que só por isso.


Os protagonistas da geopolítica europeia em 1815 Reconhecem alguém?


Daí tem-se acesso ao Panorama, um edifício circular construído em 1912 com uma pintura interior a 360º. Foi construído no âmbito das comemorações do centenário da batalha.

É daqui que acedemos ao Monte do Leão. Foi erigido em 1820 para assinalar o local onde o Príncipe de Orange comandou as suas tropas e foi ferido. Demorou 3 anos a ser construído e levou à remoção de toneladas e toneladas de terra ao seu redor que modificaram significativamente o aspecto do terreno. Diz-se que tendo regressado ao local após a construção do monte, Wellington terá explodido em fúria: "Arruinaram o meu campo de batalha!".


O Memorial 1815, o Panorama e o Monte do Leão, todos visíveis na foto da esquerda para a direita


Seja como for, do seu topo, vencida a subida com 225 degraus, oferece uma vista sobre a totalidade do campo de batalha, visão que é complementada pela presença de painéis interpretativos.


A escadaria e a estrada ao longo da qual se dispuseram as linhas inglesas para Este

Descendo do monte, atravessa-se o campo aberto até à quinta da Belle Alliance, local onde Napoleão instalou o seu Quartel General, e daí prossegue-se até Plancenoit, aldeia disputada por franceses e prussianos. Seguindo a estrada, surge a quinta de Sante Haye, onde as placas-memoriais glorificam os soldados dos dois campos que aqui lutaram até à sua tomada pelos franceses, já na parte final da batalha.


A quinta de Sante Haye, a única das 3 quintas fortificadas pelos ingleses que caiu em posse dos franceses mas, infelizmente para estes últimos, demasiado tarde.

Lápides de homenagem aos soldados franceses, alemães e ingleses que combateram na quinta de Sante Haye 


Já com a tarde bem avançada, não tive escolha a não ser deixar metade do campo de batalha por explorar, tendo de regressar a Braine-l'Alleud, não sem antes aproveitar a última passagem pela sombra do Monte do Leão para beber uma cerveja local que me fez muito bem. Talvez tenha a ver com o facto de ser produzida na mesma quinta que Wellington escolheu para ser o seu hospital durante a batalha.





Para ver: Battlefield Detectives: Massacre at Waterloo

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