quinta-feira, janeiro 30, 2014

Os medos de Assunção Esteves (com vídeo e tradução)

No início do ano, a Rádio Renascença foi ouvir aquela que é a 2ª mais importante figura do Estado Português, a Sra Presidente da Assembleia da República, para saber quais eram os seus desejos e medos para 2014. O depoimento ficou registado na forma de um vídeo que só hoje tive oportunidade de ver.

Este vídeo, posso-vos dizer, consiste em 3'36'' de um tremendo exercício criativo de utilização da Língua Portuguesa, exercício esse que nos faz perceber que certas personalidades, como o ex-Presidente da República Jorge Sampaio e o treinador de futebol Manuel Machado, não são afinal tão especiais como nós julgávamos que eram.

Vi e revi o vídeo e, usando palavras da protagonista, devo dizer que inconsegui o percebimento pleno da mensagem, o que me remete de certa forma a um nível frustracional. Seja como for, como sou contra o egoísmo (especialmente no que toca à castração, seja ela pessoal ou colectiva), aqui fica o trecho mais saboroso do depoimento da senhora Presidente da Assembleia da República.




Transcrição e tradução

Para ajudar aqueles que também tiverem inconseguido o percebimento daquilo que Assunção Esteves tentou dizer, tomei a liberdade de fazer a transcrição das suas palavras (sem cortes):

O meu medo, eu formulá-lo-ia de modo abstracto, é o do inconseguimento, em muitos planos. Do inconseguimento desde logo de não ter possibilidade de fazer no Parlamento as reformas que quero fazer. De as fazer todas. Algumas estão no caminho. O inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivado da crise. Isto é, os momentos difíceis também nos dão oportunidades de sentirmos a nossa missão humana no Mundo. Mas também tenho medo que a crise não me permita até espaços de energia para ser mais criativa. Há sempre esse medo. É também o do não conseguimento.

E tenho medo do conseguimento ainda mais perverso: o da Europa se sentir pouco conseguida e de ela não projectar para o Mundo o seu soft power sagrado, a sua mística dos direitos, a sua religião civil da dignidade humana. Tenho medo do egoísmo. Tenho medo do egoísmo que nos deixa de certo modo castrados em termos pessoais e que nos deixa castrados em termos colectivos, que não permita aquilo que os franceses chamam réussir, o conseguimento. O conseguimento pessoal e colectivo. Tenho medo do não conseguimento.

O que em bom português se traduz por:

Tenho um certo receio de fazer asneira lá no meu trabalho, no Parlamento. Queria fazer por lá umas alterações que vi no programa televisivo "Querido mudei a casa" mas não sei se as vou conseguir fazer todas ,até porque o povo está sempre a ir lá chatear-me, queixando-se da crise, e tenho de estar sempre a mandá-los sair. Gostava de arranjar uma forma mais criativa de expulsar aqueles traquinas das galerias mas a instalação de cadeiras com sistema de ejecção iria pesar muito na factura da energia.

Por outro lado tenho medo que as coisas dêem para o torto sempre que o pessoal se junta em Bruxelas. Ainda por cima, por causa dos cortes no orçamento, tivemos de cortar nas bebidas energéticas e agora só temos Red Bull sem açúcar, que também dá power, é certo, mas um bocado mais soft. Por causa disso, alguns colegas começaram a organizar festarolas privadas. Há tempos, o Schäuble trouxe umas sobras da última Oktoberfest e fez uma festa lá no hotel mas não convidou o Passos Coelho. Este ficou tão irritado que até veio dizer que aquilo era um bando de eunucos e que mais depressa o desproveriam a ele das suas partes pudendas do que voltaria a apertar a mão àquele alemão ingrato.


domingo, janeiro 26, 2014

O que dirá o novo Código da Estrada sobre isto?


Ao regressar da Guarda descobri até na pacata aldeia de Malpique o trânsito está sujeito a engarrafamentos. Não sabendo bem o que dizem as novas regras do Código da Estrada sobre quem tem prioridade neste caso, optei pela regra da prevalência da superioridade numérica.

sexta-feira, janeiro 24, 2014

Há 30 anos atrás, o Mundo mudou

511px-Macintosh_128k_transparencyComemora-se hoje o lançamento do Macintosh pela Apple, o primeiro computador pessoal com ambiente gráfico monocromático, isto é, “a preto e branco”, e que permitia a interacção do utilizador com o sistema operativo através de um dispositivo apontador, o nosso bem conhecido “rato”. Um dos objectivos deste lançamento era contrariar a predominância da IBM no mercado de computadores pessoais, através do lançamento de um produto inovador.

Este computador tinha um processador de 8Mhz, memória RAM de 128K e não tinha disco rígido mas apenas um leitor de disquetes com 400KB de capacidade. Tinha também um monitor 9 polegadas integrado na caixa.

Como termo de comparação, basta pensar que actualmente o Windows 8, por exemplo, precisa no mínimo de um computador com um processador de 1GHz, 1GB de memória RAM e obviamente um disco rígido, este com um mínimo 20GB de espaço livre. Isto significa que será um computador com um processador cujo desempenho é 128 milhões de vezes superior (numa estimativa grosseira) e contendo 7813 vezes mais de memória RAM que o Macintosh. Em 30 anos, é obra! 

Apple_Macintosh_Desktop
Era exactamente este o aspecto do ambiente de trabalho do Macintosh 128K

A Apple promoveu o lançamento do computador através de um anúncio televisivo que evocava o filme “1984”, baseado no romance “Big Brother” de Orwell. Esse anúncio, que custou 1,5 milhões de dólares, foi realizado por Ridley Scott e estreou-se num dos intervalos do 18º “Super Bowl”, a final do campeonato nacional de futebol americano.



Uma das principais dificuldades de implantação que este computador encontrou foi precisamente a falta de programas adaptados a este novo tipo de ambiente gráfico. Um ano após o lançamento do Macintosh, a Apple lançou o Macintosh Office, um conjunto de programas de produtividade (processador de texto, folha de cálculo,…). 

Para anunciar esse lançamento, a Apple repetiu a estratégia usada no ano anterior, estreando um anúncio num dos intervalos do “Super Bowl”, só que desta vez o resultado seria adverso. Os utilizadores não gostaram de ser comparados a Lemmings, aquelas criaturinhas que as lendas urbanas pintaram como suicidas:



Imagens: Wikipédia

terça-feira, janeiro 21, 2014

As 25 piores palavras-passe!

A Splash Data Inc.divulgou na semana passada uma lista das 25 piores palavras-passe de 2013 e, segundo a empresa, a nota de maior destaque é a perda da liderança deste ranking por parte da palavra-passe "password", em detrimento de "123456", em relação à lista de 2012.



Este ranking da Splash Data, uma empresa que produz software de gestão de palavras-passe para uma variedade de plataformas, é elaborado anualmente com base na informação de ficheiros contendo compilações de palavras-passe roubadas, que são disponibilizados na Internet por hackers, servindo para consciencializar os utilizadores para a necessidade da adopção de palavras-passe robustas.

Ranking das 25 piores palavras-passe de 2013:

1. 123456
2. password
3. 12345678
4. qwerty
5. abc123
6. 123456789
7. 111111
8. 1234567
9. iloveyou
10. adobe123
11. 123123
12. sunshine
13. 1234567890
14. letmein
15. photoshop
16. 1234
17. monkey
18. shadow
19. sunshine
20. 12345
21. password1
22. princess
23. azerty
24. trustno1
25. 000000

Segundo a empresa, uma boa palavra-passe deve ter pelo menos 8 caracteres, devendo também empregar diferentes tipos de caracteres (pontuação, números e letras minúsculas e maiúsculas). No entanto, se as palavras-passe se revelarem demasiado complexas para serem memorizadas, pode-se em alternativa adoptar uma palavra-passe formada por palavras aleatórias separadas por espaços ou traço sublinhado (underscore) como por exemplo "sorriso_luz_saltar".

Também é importante evitar usar a mesma palavra-passe em diferentes contas/sites, de forma a limitar os riscos de segurança para o utilizador na eventualidade de uma quebra de segurança de um desses sites.

E vocês? Reconhecem nesta lista alguma palavra-passe que estejam actualmente a usar?

domingo, janeiro 19, 2014

A Serra da Estrela vestida de branco


Após o grande nevão de ontem que, segundo fonte dos bombeiros, levou a que o maciço central fosse evacuado (ver aqui), é esta a paisagem que hoje se pode ver, com a Serra da Estrela coroada de branco a dominar a Cova da Beira.


A Torre permanece escondida sob as nuvens mas consegue-se adivinhar como estarão as condições meteorológicas naquele local. É curioso pensar que o maciço central, nos últimos dias sob condições inóspitas, era até há pouco mais de 200 anos um local desconhecido que atraía a curiosidade de cientistas e exploradores, como foi o caso da Expedição Científica à Serra da Estrela de 1 de Agosto de 1881.

"1 de Agosto de 1881. Pelas 20 horas e 15 minutos, partia da Gare do Norte de Lisboa (Santa Apolónia) um grupo de 42 expedicionários entusiásticos com a expectativa de uma viagem exploratória à serra da Estrela, região ainda desconhecida, selvagem e, em grande parte, desabitada, que encerrava em si mistérios e mitos. Partiram sob a aclamação calorosa de numerosa assistência, de representantes do Conselho de Ministros, do presidente e do primeiro secretário-geral da Sociedade de Geografia de Lisboa, do director e de alguns lentes da Escola Médico-Cirúrgica e de um grande número de membros da imprensa e das escolas superiores. Partiram enérgicos, sabendo que iriam defrontar as forças dos elementos naturais e não as feras de África. As vinte e três carruagens transportavam homens agasalhados com camisolas de flanela, casacos de Inverno, duas mantas inglesas e, ainda, botas de tamanho descomunal. Eduardo Coelho, o correspondente e director do Diário de Notícias , ironizava, escrevendo já a partir da serra, que era "toda a lã de um rebanho em cima de nós! Pôr sobre isto revólver, para lobos, toucinho para as víboras"." in Diário de Notícias, 13 de Maio de 2012


Olhando para Oeste, para lá do Fundão que na fotografia surge em vista parcial em primeiro plano, a vista vai ainda para lá da Capinha, na extremidade da Serra do Meal Redondo. 


sexta-feira, janeiro 17, 2014

O Mundial de 66 como inspiração dos prisioneiros na Coreia do Norte

Em 1968, o navio-espião USS Pueblo da marinha dos EUA foi capturado pela marinha norte-coreana. A tripulação foi feita prisioneira e levada para Pyongyang, sendo amplamente usada pelo regime de Kim il Sung em filmes e fotografias de propaganda. Os prisioneiros iriam no entanto conseguir frustrar a propaganda através de uma fonte de inspiração inesperada: um filme do Campeonato do Mundo de futebol de 1966.


O USS Pueblo servindo actualmente como navio-museu em Pyongyang, capital da República Popular Democrática da Coreia do Norte


Em Janeiro de 1968, a marinha americana enviou o navio USS Pueblo em missão de espionagem. Disfarçado de navio de investigação oceanográfica, o objectivo do navio era fazer o levantamento da costa Norte-Coreana e interceptar transmissões. Os norte-coreanos acabaram contudo por suspeitar do navio e, apesar deste se encontrar supostamente em águas internacionais, abordaram violentamente a embarcação, capturando-a e aprisionando a tripulação. No processo um dos marinheiros do Pueblo morreu e outros 5 ficaram gravemente feridos.

Levados para Pyongyang, os membros da tripulação foram interrogados e depois utilizados para efeitos de propaganda, em fotografias e filmes que a Coreia do Norte difundia para mostrar a derrota dos agressores imperialistas.

A tripulação do Pueblo tentou encontrar uma forma de sabotar a propaganda norte-coreana e a inspiração chegou ao assistirem a um filme que recordava a chegada da selecção nacional de futebol daquele país a Londres cerca de um ano e meio antes, para aí participar no campeonato do Mundo de 1966 (do qual viriam a ser eliminados por Portugal, no "tal" jogo de Eusébio). O filme mostrava o autocarro que transportava os norte-coreanos a circular pelas ruas de Londres, sendo saudado por uma multidão com bandeiras da Coreia do Norte até que, a certa altura e em grande plano, surgiu nas imagens um cidadão inglês exibindo ostensivamente o dedo médio na direcção do autocarro.

Percebendo que os seus captores não conheciam o significado daquele gesto nada protocolar, caso contrário teria sido cortado do filme, os prisioneiros passaram a exibir o dedo médio em todos os registos de imagem de que eram alvo, de forma a passar a ideia de que as descrições que eram feitas da sua estadia na Coreia do Norte eram falsas. Quando foram questionados acerca do gesto, responderam que se tratava de um gesto típico havaiano para desejar boa sorte. Consta que, tendo achado piada, até alguns dos guardas acabaram por desejar boa sorte uns aos outros.


Dedo em riste por Angelo Strano (3º na fila de baixo) e Dale Rigby (último na fila de cima)

O truque acabou no entanto por ser traído pela revista Time, que numa reportagem denunciou que os marinheiros do Pueblo estavam na verdade a ser maltratados, pondo em evidência e explicando o uso recorrente da exibição do dedo médio.

A notícia acabou por chegar a Pyongyang e, obviamente, os norte-coreanos ficaram furiosos por terem sido enganados daquela forma. Por causa disso, tanto a tripulação como o seu tradutor norte-coreano sofreram na pele as represálias durante aquilo a que viriam a chamar de hell week, sendo continuamente espancados durante 10 dias.

Todos os marinheiros acabariam por finalmente regressar a casa após 11 meses de cativeiro mas só depois de os EUA terem oficialmente apresentado um pedido de desculpa pela alegada violação das águas territoriais norte-coreanas e pelas suas actividades de espionagem.




A ler:
E que tal umas férias na Coreia do Norte?
Acerca da exibição do dedo médio: Um arcebispo defunto pouco católico

quinta-feira, janeiro 16, 2014

John Beale, o agente tão secreto que nem a CIA conhecia

Raro é o dia em que os media não nos dão conta da descoberta de fraudes, mais ou menos elaboradas mas esta, da qual tive conhecimento há dias, tem contornos de tal dimensão que não sei se fique escandalizado ou se ria às gargalhadas. Provavelmente vou fazê-lo de forma alternada. Senhoras e senhores, apresento-vos o Sr John Beale, um nome a reter!



John Beale foi durante muitos anos da EPA (Environmental Protection Agency), a agência governamental estado-unidense de protecção ambiental, ocupando uma posição destacada dentro da organização. E o que fazia John Beale dentro da EPA? Embora ocupasse o cargo pomposo de senior policy advisor, como perito em alterações climáticas, e sendo o mais bem pago dentro da organização, John Beale pouco ou nada fazia, passando maior parte do tempo na sua casa de férias em Cape Cod, a ler ou andar de bicicleta.

Aos seus superiores, Beale apresentou a desculpa de trabalhar à paisana para a CIA, justificando as suas ausências com o facto de se deslocar em missões ao Paquistão para lidar com os talibãs, ao serviço dessa agência de espionagem, algo que a EPA nunca se deu ao trabalho de confirmar, tendo continuado a pagar o salário de Beale.

Em 2008, chegou a passar 6 meses fora da EPA e ainda apresentou facturas de despesas relativas a 5 viagens à California, alegando fazer parte de uma equipa, que agregava várias agências de segurança, em missão de segurança e protecção dos candidatos às eleições presidenciais desse ano. Por coincidência, os seus pais moravam na Califórnia.

Não satisfeito com isso, Beale foi mais longe já que, para as suas viagens ao serviço da EPA, inventou um problema de costas para poder viajar sempre em primeira classe, ficando depois hospedado em hotéis de 5 estrelas. Tendo horário reduzido e a regalia de viajar sempre em primeira classe, a Beale só faltava mesmo um pormenor para se sentir realizado profissionalmente: um lugar de estacionamento privilegiado, mesmo à porta da EPA, coisa que conseguiu alegando necessidades de saúde por ter contraído malária enquanto combatia no Vietname. Obviamente, Beale não sofria de malária e tinha estado no Vietname o mesmo número de vezes que no Paquistão, ou seja, nunca.

Contas feitas, estimou-se que Beale lesou o Estado em quase 900.000$. Tendo sido finalmente apanhado e julgado, declarou-se culpado e foi condenado a restituir essa verba ao Estado, assim como cerca de 500.000$ a título de compensação, sendo condenado ainda a 32 meses de prisão, pena que irá cumprir se o seu estado de saúde o permitir, digo eu.


John Stewart e o caso John Beale:



segunda-feira, janeiro 13, 2014

Sobre Eusébio e o Panteão Nacional

Na última semana toda a actualidade noticiosa girou em torno da morte de Eusébio da Silva Ferreira, provavelmente o melhor futebolista português de todos os tempos. Como é usual em situações que envolvam fortes reacções emocionais por parte da opinião pública, a comunicação social explorou para além do razoável esta matéria, matéria essa que também proporcionou uma oportunidade de ouro para a classe política marcar pontos junto do eleitorado. Cavalgando a onda do populismo, todas as forças partidárias abraçaram agora a nova causa nacional: levar o defunto futebolista para o Panteão Nacional, mesmo que tal não esteja de acordo com a lei.

Em primeiro lugar convém entender aquilo que é, ou supostamente devia ser, o Panteão Nacional. Embora a necessidade de criação de um Panteão Nacional "destinado para receber as cinzas dos grandes mortos depois do dia 24 de Agosto de 1820" tenha sido feita pelo Decreto de 26 de Setembro de 1836, só lhe seria definida uma localização física pela lei nº520 de 1916, destinando-lhe o "antigo e incompleto templo de Santa Engrácia" e atribuíndo a posse do edifício ao Ministério do Fomento para que ali fizesse as necessárias obras. No entanto, o edifício só seria terminado em 1966, 284 anos após o início das "obras de Santa Engrácia". A partir de 2003, passaria a dividir o estatuto de Panteão Nacional com o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde se encontram os restos mortais de D. Afonso Henriques e D.Sancho I.


O Panteão Nacional foi inaugurado com pompa e circunstância pelo regime salazarista, e para ali foram trasladados logo nesse ano os restos mortais de Almeida Garrett, João de Deus, Guerra Junqueiro, Teófilo Braga, Óscar Carmona e Sidónio Pais, ou seja, 3 escritores (no caso de João de Deus, também um pedagogo que marcou várias gerações), 2 presidentes da República e um "híbrido", pois embora Teófilo Braga tenha sido presidente da República durante alguns meses, destacou-se mais na Literatura. 

As figuras mais polémicas deste lote serão provavelmente Óscar Carmona que, pese embora a sua ilustre carreira militar, foi um dos líderes do golpe de 28 de Maio de 1926 que acabou por levar ao estabelecimento do Estado Novo, e Sidónio Pais, o Presidente-Rei como lhe chamou Fernando Pessoa, que implantou em Portugal o regime totalitário da República Nova, passando por cima da Constituição então em vigor, acabando por ser assassinado em 1918. Muito provavelmente, os restos mortais destes dois últimos cidadãos ilustres nunca teriam sido trasladados para o Panteão se isso não tivesse acontecido em pleno Estado Novo.

Seria depois preciso aguardar até 1990 para que este grupo fosse aumentado, com a deposição dos restos mortais de Humberto Delgado, o General Sem Medo mas já não foi preciso esperar tanto para que merecessem honras de Panteão Amália Rodrigues (2001), Manuel Arriaga (2004) e Aquilino Ribeiro (2007). A próxima personalidade será Sofia de Mello Breyner, ao que tudo indica já este ano.

Embora não presencialmente, estão homenageados no Panteão através de cenotáfios, ou seja, de monumentos/inscrições evocativas, as figuras de Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Nuno Álvares Pereira, Vasco da Gama e Infante D. Henrique.


Critérios definidos por lei!

Os critérios que regem a atribuição de honras de Panteão estão bem definidas pela lei 28/2000 de 29 de Novembro, que veio substituir as anteriores e, segundo a qual, "as honras do Panteão destinam-se a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade."

Ora, tendo em conta os critérios dispostos na lei, onde é que se enquadra Eusébio? Simplesmente em nenhum deles. Pelo contrário, a figura de Amália, usada como argumento em algumas opiniões pró-Eusébio como o exemplo de que nem só escritores ou políticos merecem o Panteão (a lógica de algumas opiniões até me leva a crer que a seguir a Amália e Eusébio, chegaria com naturalidade a vez da irmã Lúcia), é perfeitamente enquadrável no aspecto da expansão da cultura portuguesa e na criação artística. 

Não esqueçamos que a cantora, que tinha raízes no Fundão, tirou o fado das tascas de Lisboa e deu-o ao Mundo, sendo o grande motor do processo que redundaria na sua classificação como Património Imaterial da Humanidade em 2011, 10 anos após a morte da fadista. Nem teria sido necessário alterar a lei de forma a ser depositada no Panteão logo um ano após a sua morte, em vez dos 5 que até então eram necessários.

Para que Eusébio mereça honras de Panteão a lei teria de ser novamente alterada, o que criaria uma prática perigosa e descaracterizante, banalizante até, que seria nociva para o valor sagrado do Panteão Nacional. Eusébio foi provavelmente o melhor jogador português de todos os tempos e é justo que seja lembrado como tal, dando o seu nome a um estádio, a um museu promovido pela Federação Portuguesa de Futebol ou eternizando-o na toponímia mas levá-lo para o Panteão é excessivo. Existem muitos nomes que -esses sim!- mereciam há muito estar em Santa Engrácia. Egas Moniz, Eça de Queiróz, Fernando Pessoa e Aristides de Sousa Mendes são nomes que me ocorrem logo à partida mas muitos outros há.

Esta questão foi levantada ainda quando decorria o velório de Eusébio mas também sabemos que uma decisão importante tomada a quente pouco deverá à assertividade e à ponderação. O que se pede é que haja respeito por Eusébio e pelo Panteão Nacional.

Foto da inaguração do Panteão Nacional: Lisboa Memory Scapes

terça-feira, janeiro 07, 2014

Isto deve ter estabelecido certamente um recorde!

2 anos, 5 meses, 16 dias, 19 horas e 5 minutos depois, leram finalmente o meu e-mail! Será que isto não constitui um recorde qualquer do Livro do Guinness?


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