sexta-feira, maio 30, 2014

A última luz da semana

Aconchegante cobertor de nuvens sobre os contrafortes da Serra da Estrela, no último pôr-do-Sol da semana laboral. Bom fim-de-semana!

quarta-feira, maio 28, 2014

Turismo em Setúbal não passa de conversa para inglês ver

Qualquer turista não lusófono que procure informações no site da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa ficará no mínimo desconcertado com aquilo que lhe é apresentado. Como se não bastasse o facto de apresentar apenas informação nas páginas em português -a maioria das páginas em outras línguas estão vazias-, se um visitante anglófono tentar obter alguma informação na sua língua sobre o que há para ver e fazer na península de Setúbal, ficará com a impressão que o fenómeno do turismo nessa região se resume a "blá blá".

Isto provoca alguma estranheza se tivermos em conta que a ERT-RL se apresenta (na página em português, obviamente) como uma entidade com "a missão de valorização e desenvolvimento das potencialidades turísticas da Área Regional de Turismo de Lisboa". Olhando para o site, fica-se com a impressão que isto não passa de conversa... para inglês ver.


Europeias 2014 - Da histórica derrota da AP à trágica vitória do PS

Se dúvidas houvesse, os cidadãos europeus deram uma prova cabal daquilo que sentem em relação à actual União Europeia, bem longe de ser a tal "Europa solidária" apregoada por muitos, incluindo o nosso primeiro-ministro.


Fartos uns de uma Europa que só lhes impõe austeridade, desiludidos outros com uma Europa que não é aquilo que lhes foi prometido, pelo Velho Continente fora os cidadãos fizeram aquilo que se faz quando se tem a cabeça quente: tiveram atitudes extremas mas também mostraram aquilo que é o poder do voto. Abalaram os alicerces da alternância partidária e enviaram uma mensagem bem forte: esta não é a Europa que se pretende e os habitués do palco político não se podem sentir seguros nos seus cadeirões pois há alternativas a considerar, mesmo que isso signifique trilhar um caminho muito perigoso. 



Contudo o sintoma mais evidente do desencanto e da descrença acabou por ser a elevadíssima abstenção, excepto nos países onde o voto é obrigatório. Sendo esta a forma de protesto (quando o é porque o comodismo disfarçado de protesto é também uma realidade), será a que menos incomoda os políticos-residentes do sistema. Fica bem lamentar a abstenção, é claro, mas desde que os militantes continuem a votar, tudo bem. 

Portugal alinhando orgulhosamente no top 10 da abstenção


No jogo da abstenção vs radicalização, em França deu-se o grande evento da noite. Não só a abstenção baixou em relação a 2009 como, ainda por cima, os eleitores optaram por dar a vitória à Frente Nacional, um partido extremista que soube capitalizar o profundo descontentamento dos franceses para com uma política governativa que é o oposto daquilo que lhes foi prometido por Hollande (parece familia?). Conhecidos pelas suas ideias cuja formulação não exige em geral a utilização de grande quantidade de neurónios, nesta campanha conseguiram superar todas as expectativas ao declararem em surdina que o problema da imigração pode ser resolvido pelo vírus Ébola.

 
*Traduzido do "Ebolês"


Este advento dos partidos com uma ideologia extremista abjecta fez soar os alarmes por toda a Europa e fez tremer os alicerces das instituições europeias na nova capital Bruxelas-Berlim. Servirá para os eurocratas e donos dos grandes interesses económicos reverem a sua escala de prioridades ou será este o primeiro sinal do fim da União?


Por cá, fez-se o elogio do ridículo

Por cá, como não podia deixar de ser, a noite foi de vitórias retumbantes e de derrotas inconsequentes, pelo menos na boca dos actores da noite. 

Uma amizade que promete dar que falar, sobretudo à luz da "histórica vitória do PS"

O PS congratulou-se pela sua grande vitória e sobretudo pela derrota histórica da direita, apesar de ter sido uma vitória de que nenhum militante socialista se pode orgulhar. É certo que a dita Aliança Portugal perdeu mais de meio milhão de votos em relação a 2009, considerando em conjunto os resultados dos dois partidos nessas eleições. Contudo, o PS não fez melhor que ganhar cerca de 90.000 votos, salientando o evidente: os portugueses não consideram o PS como alternativa e nem o PS se comportou como tal desde que foi substituído no poder pelo binómio PSD-CDS. É irónico pensar que a histórica derrota da direita pode muito bem levar à substituição de José "Pirro" Seguro.

Na sede da Aliança, os rostos fechados não mentiam quanto ao impacto deste fraquíssimo resultado e o único aspecto positivo salientado nos vários discursos foi o de não ter sido ainda pior. Nos discursos monocórdicos, em que o fim de cada frase foi marcado por palmas muito frouxas, fechou-se o ciclo das Europeias com uma novidade em relação à campanha: ninguém culpou desta vez José Sócrates pela crise de votos da Aliança. O cenário anímico só não é mais negro porque, segundo consta, sobraram algumas garrafas de Murganheira para afogar as mágoas.

"Com nojo ou sem nojo, levámos uma grande cabazada!"

Enquanto a CDU prossegue a sua gradual subida eleitoral, desta vez com um candidato que fez furor entre o eleitorado feminino, e já anuncia a apresentação de uma moção de censura ao Governo que terá o destino de todas as outras (nem que o PSD e o CDS tenham de recorrer novamente à disciplina de voto),  já o Bloco de Esquerda continua em queda livre, confirmando que boa parte da sua credibilidade saiu com Louçã, Drago e Rosas. Não basta ser do contra só porque sim.

O grande protagonista da noite acabou mesmo por ser Marinho Pinto cujo estilo brigão-irascível-populista valeu ao MPT uma estrondosa subida de mais de 200.000 votos e uma inédita eleição de um deputado para o Parlamento Europeu (dois de acordo com as últimas notícias.). A adesão do eleitorado a esta candidatura foi de tal ordem que correm boatos de que até a Manuela Moura Guedes votou no MPT.  Será que vamos em breve ver Marinho Pinto noutras lides eleitorais? 

Imagens: Terra dos Espantos, Courrier International, Ed Ward, RFI

segunda-feira, maio 19, 2014

E já lá vão 9 anos!


Por pouco, quase nem me apercebia. Então não é que este blogue comemora hoje nem mais nem menos que o seu 9º aniversário? Desde 2005, muitas linhas aqui foram "batidas", algumas vezes com uma certa dose de inspiração e noutras sem pés nem cabeça, mas este facto não deixa de ser assinalável.

Desde a sua criação, este blogue cresceu, evoluiu. Tendo começado como blogue colectivo, individualizou-se e transformou-se num blogue pessoal. Através dele desabafei, partilhei e aprendi. Conheci pessoas fantásticas, algumas das quais são hoje grandes amigos, mas também ganhei alguns fanáticos perseguidores algo chatinhos mas que, ao fim e ao cabo, acabaram por tornar esta aventura mais interessante e, claro está, ajudaram a cultivar a minha capacidade de tolerância.

A todos vocês, fãs incondicionais e outros que não são tão apreciadores quanto isso, visitantes assíduos e outros que vieram aqui parar por acidente, colaboradores ocasionais, ex-colaboradores, comentadores e "partilhadores", à Ana que, com muita paciência, aceita aqueles momentos em que dedico mais atenção ao monitor do computador do que a ela, o meu muito obrigado por tornarem esta aventura tão gratificante.

Que comece então a contagem para o 10º aniversário!

quinta-feira, maio 15, 2014

Porque até uma aldeia pode ter o seu arranha-céus

Quando olhei para este edifício, pensei estar a olhar para um genuíno Sócrates, dadas as semelhanças na tipologia e no enquadramento com outros projectos assinados por este famoso engenheiro civil na região da Guarda (ver aqui). Não me foi no entanto possível confirmar as minhas suspeitas, até porque não sou propriamente um entendido na matéria. Este edifício pode ser encontrado na aldeia de Rendo (Sabugal) e é a prova de que até uma aldeia pode ter o seu arranha-céus. À devida escala, claro.



terça-feira, maio 13, 2014

MIURA, um conto de Miguel Torga



Fez um esforço. Embora ardesse numa chama de fúria, tentou refrear os nervos e medir com a calma possível a situação. Estava, pois, encurralado, impedido de dar um passo, à espera de que lhe chegasse a vez! Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão! Irreprimível, uma onda de calor tapou-lhe o entendimento por um segundo. 

O corpo, inchado de raiva, empurrou as paredes do cubículo, num desespero de Sansão. Nada. Os muros eram resistentes, à prova de quanta força e quanta justa indignação pudesse haver. os homens, só assim: ou montados em cavalos velozes e defendidos por arame farpado, ou com sebes de cimento armado entre eles e a razão dos mais... Palmas e música lá fora. O Malhado dava gozo às senhorias... Um frémito de revolta arrepiou-lhe o pêlo. Dali a nada, ele. Ele, Miura, o rei da campina! 

A multidão calou-se. Começou a ouvir-se, sedante, nostálgico, o som grosso e pacífico das chocas. A planície!... O descampado infinito, loiro de sol e trigo... O ilimitado redil das noites luarentas, com bocas mudas, limpas, a ruminar o tempo... A fornalha escaldante, sedenta, desesperante, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro. Novamente o silêncio. Depois, ao lado, passos incertos de quem entra vencido e humilhado no primeiro buraco... Refrescou as ventas com a língua húmida e tentou regressar ao paraíso perdido.


 A planície... Um som fino de corneta. Estremeceu. Seria agora? Teria chegado, enfim, a sua vez? Não chegara. Foi a porta da esquerda que se abriu, e o rugido soturno que veio a seguir era do Bronco. Sem querer, cresceu outra vez quanto pôde para as paredes estreitas do cárcere. Mas a indignação e os músculos deram em pedra fria. A planície... O bebedoiro da Terra-Velha, fresco, com água limpa a espelhar os olhos... Assobios. O Bronco não fazia bem o papel... Um toque estranho, triste, calou a praça e rarefez o curro. Rápida e vaga, a sombra do companheiro passou-lhe pela vista turva. Apertou-se-lhe o coração. Que seria? Palmas, música, gritos. Um largo espaço assim, com o mundo inteiro a vibrar para além da prisão. 

Algum tempo depois, novamente o silêncio e novamente as notas lúgubres do clarim. Todo inteiro a escutar o dobre a finados, abrasado de não sabia que lume, Miura tentava em vão encontrar no instinto confuso o destino do amigo. Subitamente, abriu-se-lhe sobre o dorso um alçapão, e uma ferroada fina, funda, entrou-lhe na carne viva. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto. Desgraçadamente, não podia nada. O senhor homem sabia bem quando e como as fazia. Mas por que razão o espetava daquela maneira? Três pancadas secas na porta, um rumor de tranca que cede, uma fresta que se alargou, deram-lhe num relance a explicação do enigma da agressão: chegara a sua vez. Nova picada no lombo.


 - Miura! Cornudo!


 Dum salto todo muscular, quase de voo, estava na arena. Pronto! A tremer como varas verdes, de cólera e de angústia, olhou à volta. Um tapume redondo e, do lado de lá, gente, gente, sem acabar. Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. Urinou sem querer. Gritos da multidão. Que papel ia representar? Que se pedia do seu ódio? Hesitante, um tipo magro, doirado, entrou no redondel. Olhou-o a frio. Que força traria no rosto mirrado, nas mãos amarelas, para se atrever assim a transpor a barreira? 

A figura franzina avançou. Admirado, Miura olhava aquela fragilidade de dois pés. Olhava-a sem pestanejar, olímpica e ansiosamente. Com ar de quem joga a vida, o manequim de lantejoulas caminhava sempre. E, quando Miura o tinha já à distância dum arranco, e ainda sem compreender olhava um tal heroísmo, enfatuadamente o outro bateu o pé direito no chão e gritou:


 - Eh! boi! Eh! toiro!


 A multidão dava palmas.


 - Eh! boi! Eh! toiro!


 Tinha de ser. Já que desejavam tão ardentemente o fruto da sua fúria, ei-lo. Mas o homem que visou, que atacou de frente, cheio de lealdade, inesperadamente transfigurou-se na confusão de uma nuvem vermelha, onde o ímpeto das hastes aguçadas se quebrou desiludido. Cego daquele ludíbrio, tornou a avançar. E foi uma torrente de energia ofendida que se pôs em movimento. Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor. Mais palmas ao dançarino. Parou. Assim nada o poderia salvar. 

À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. Não. Era preciso ver calmamente. Que a sua raiva atingisse ao menos o alvo. O espectro doirado lá estava sempre. Pequenino, com ar de troça, olhava-o como se olhasse um brinquedo inofensivo. Silêncio. Esperou. O homem ia desafiá-lo certamente outra vez. Tal e qual. Inteiramente confiado, senhor de si, veio vindo, veio vindo, até lhe não poder sair do domínio dos chifres. Agora! De novo, porém, a nuvem vermelha apareceu. E de novo Miura gastou nela a explosão da sua dor. Palmas, gritos. 

Desesperado, tornou a escarvar o chão, agora com as patas e com os galhos. O homem! Mas o inimigo não desistia. Talvez para exaltar a própria vaidade, aparentava dar-lhe mais oportunidades. Lá vinha todo empertigado, a apontar dois pequenos paus coloridos, e a gritar como há pouco:


 - Eh! toiro! Eh! boi!


 Sem lhe dar tempo, com quanta alma pôde, lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos! Não trazia. E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas, as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole. Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados. Passada a bruma que se lhe fez nos olhos, relanceou a vista pela plateia. Então?! Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio. 

Lá levavam o moribundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante doirado. Esperou. Se vinha sem a capa enfeitiçada, sem o diabólico farrapo que o cegava e lhe perturbava o entendimento, morria. Mas o outro estava escudado. Apesar disso, avançou. Avançou e bateu, como sempre, em algodão. Voltou à carga. O corpo fino do toureiro, porém, fugia-lhe por artes infernais. Protestos da assistência. Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda. Humilhado, com o sangue a ferver-lhe nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. Miura, joguete nas mãos dum zé-ninguém!

 Num ímpeto, sem dar tempo ao inimigo, caiu sobre ele. Mas quê! Como um gamo, o miserável saltava a vedação. Desesperado, espetou os chifres na tábua dura, em direcção à barriga do fugitivo, que arquejava ainda do outro lado. Sangue e suor corriam-lhe pelo lombo abaixo. Ouviu uma voz que o chamava. Quem seria? Voltou-se. Mas era um novo palhaço, que trazia também a nuvem, agora pequena e triangular. Mesmo assim, quase sem tino e a saber que era em vão que avançava, avançou. Deu, como sempre na miragem enganadora. Renovou a investida. Iludido, outra vez. Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação? 

Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor. Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento? Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque. Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?! Calada, a lâmina oferecia-se inteira. Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.


Imagens: Grupo de Libertação Animal, RTP - Grandes Livros

quarta-feira, maio 07, 2014

O mágico monte de São Martinho

No último Sábado tive finalmente a oportunidade de visitar o Monte de São Martinho, junto a Castelo Branco, aquele que é um dos vértices do "triângulo arqueológico" da capital de distrito e de onde vieram algumas das peças mais importantes do Museu Francisco Tavares Proença Júnior. Uma dessas peças, a estela-menir de São Martinho, acompanhou mesmo o grupo na caminhada. Foi apenas uma das várias surpresas da jornada. 

A capela da Senhora Santa Ana, o ponto de partida.

O passeio promovido pela Sociedade dos Amigos do Museu FTPJ começou junto à Capela da Senhora Santa Ana, uma bela capela situada sobre uma estação arqueológica romana, à semelhança daquilo que acontece a muitos templos cristãos que encontramos em locais isolados. A caminhada foi conduzida por Pedro Salvado, Francisco Henriques e Joaquim Baptista, este último um velho conhecido da blogosfera (ver aqui) que finalmente tive o prazer de conhecer pessoalmente.

Conhecedores como poucos desta região e da sua arqueologia, foram descrevendo aos participantes a história deste triângulo cujos vértices assentam no santuário da Senhora de Mércoles, no castelo templário da cidade e no monte de São Martinho. Trata-se de uma história que começou a sair da obscuridade da lenda quando o jovem Francisco Tavares Proença Júnior, a cuja família pertenciam as terras entre Santa Ana e São Martinho, aqui realizou uma série de escavações arqueológicas na transição do século XIX para o século XX.

Paragem para mais um capítulo da história da região


O antigo arraial agrícola da família Tavares Proença, datado de 1891.

O último esforço antes da chegada ao Monte de São Martinho


Os mistérios do monte de São Martinho



Este monte que se destaca na paisagem é um local onde o sagrado sobreviveu e se foi transformando ao longo de milénios. O fundador do Museu FTPJ foi o primeiro a investigar este local, tendo aqui identificado a suposta muralha de um castro, para além de ter descoberto sete altares romanos, dois menires e uma estela-menir, esta última o resultado do reaproveitamento de um menir (pré-histórico) para, alguns milénios depois, criar uma estela de exaltação da figura de um guerreiro numa cena de caça. Estruturas romanas, uma moeda islâmica do ano 770 e uma capela que já existia no século XIV ajudam a dar uma ideia da persistência da ocupação humana do local.

A peculiar capela de São Martinho, com a cúpula na cabeceira.  


A capela de São Martinho apresenta uma arquitectura muito peculiar, destacando-se a cúpula da cabeceira. Comparando-a com outros exemplares do Sul do país e tendo em conta a prova da presença islâmica no local, a ideia de que poderá tratar-se do reaproveitamento de um morábito, um local de oração do Islão, faz todo o sentido.

Este local sempre teve um elevado valor sagrado ao longo dos milénios e, já cristianizado, o seu orago tornou-se muito popular, sendo reputado pelos seus poderes curativos. No século XIX relatava-se ainda uma tradição muito curiosa: quando alguém padecia de algum mal, vinha em peregrinação até à capela de São Martinho trazendo consigo um molho de alhos e um pão de farinha branca para oferecer ao santo. Consagrada a oferenda, o peregrino deveria depois voltar a levá-la consigo, oferecendo-a à primeira pessoa que encontrasse pelo caminho, restando-lhe depois esperar pela cura dos seus males.

Pormenor de uma pintura sob o altar vazio. O motivo dos três círculos repete-se na calçada diante do templo, tratando-se de uma representação da Trindade.



A vista a partir do marco geodésico, datado do século XIX, é deslumbrante.



Passagem pelo local onde uma campanha de escavações pôs a descoberto estruturas de época romana.


Uma perspectiva diferente de Castelo Branco e do castelo templário.



A Estela-menir de São Martinho

A surpresa maior do passeio foi o transporte até ao monte de São Martinho de uma réplica da famosa estela-menir, descoberta como referi por Francisco Tavares Proença Júnior em 1903, algures entre o topo do monte e o arraial agrícola da sua família. Embora não tão pesada quanto a original, foi preciso ainda um esforço considerável para a colocar na sua posição. Teria sido muito mais fácil se alguém da comitiva tivesse caído no caldeirão da poção mágica durante a infância, à semelhança do Obélix.

Trata-se, como referi atrás, de um menir construído no Neolítico, algures por volta de 3.800 a.C., tendo sido reaproveitado no final da Idade do Bronze, algures por volta de 1.000 a.C., para fazer dele uma estela de guerreiro. O significado e função destas estelas são ainda tema de debate, dividindo-se as opiniões entre marcos funerários dedicados a nobres guerreiros (no local de sepultura ou como homenagem póstuma colocada local diferente), marcos de limite territorial de tribos ou povoados ou até de marcos de rotas de transumância. 

O que distingue esta peça de todas as outras é a peculiaridade da cena de caça que nela está inscrita, algo que a distingue de todas as outras peças do género encontradas até hoje. Nela, um guerreiro devidamente armado e equipado, dispara o seu arco para o alto, na direcção de vários animais entre os quais se identificam cervos e aves. 



A estela-menir. É possível ver a figura de um guerreiro, devidamente armado, disparando o seu arco para o alto, na direcção de vários animais. A forma fálica do monólito é por demais evidente, tendo sido evidenciada até a forma da glande no seu topo.


Com o advento do cristianismo, as antigas religiões assumidamente politeístas foram alvo de intensa perseguição, tendo os seus locais de culto e dias religiosos sido cristianizados. Ora, apesar do facto de a estela-menir ser já bastante anterior à romanização desta região, constata-se que não escapou à cristianização, tendo-lhe sido gravada uma pequena cruz no seu topo.

Segundo Pedro Salvado e Francisco Henriques, é bem possível que este tipo de peças tivesse continuado a ter um valor sagrado durante a própria romanização, tendo sido modificados, partidos e derrubados por altura da cristianização. A cruz gravada na estela-menir pode ser um indício de que, mesmo após tanto tempo, aquando da chegada do cristianismo as pessoas teriam ainda o hábito de tocar no topo da peça, fosse para trazer sorte ou invocar fertilidade. A Igreja terá pois querido com isto tornar a peça "impotente" já que desta forma as pessoas passaram a tocar no símbolo cristão. A peça acabaria mais tarde por ser derrubada, à semelhança de muitas outras no Sul do país.
  

A inevitável foto de grupo.


Esta iniciativa, inédita à luz daquilo que sei, foi sem dúvida uma excelente ideia. É certo que este tipo de peças fica salvaguardado quando colocado na segurança de um museu mas há uma componente de interpretação na paisagem que se perde. O seu simbolismo dissolve-se. Se é importante manter os originais a salvo de roubo ou vandalismo, porque não devolver à paisagem réplicas como esta, valorizando assim tanto o local como a peça em si e, mais importante, permitindo que os visitantes percebam a íntima relação entre os dois?

segunda-feira, maio 05, 2014

Taça de Portugal de futsal 2013/14 - As imagens da festa


Histórico e de um notável simbolismo. É o que me ocorre dizer em relação à vitória da equipa de futsal da Associação Desportiva do Fundão na Taça de Portugal 2013/14, após derrotar na prova os dois grandes de Lisboa, numa espécie de brado de inconformismo do Interior em relação à capital que tanto nos tem maltratado.

O trajecto da Desportiva começou em Janeiro logo de forma auspiciosa quando foi a Loures eliminar o Sporting num jogo que se decidiu em grandes penalidades por 3-1 a favor da equipa do Fundão, após uma igualdade a 4 golos no final do prolongamento. Seguiram-se as equipas do Portela e do Unidos Pinheirense, ambas da II Divisão e eliminadas por 6-4 e 3-2 respectivamente, facto que garantiu o apuramento para a "final four" realizada no último fim-de-semana em Oliveira de Azeméis.

Aí, diante de uma bela falange de apoio, o Fundão venceu de forma dramática o Módicus por 2-1, com o golo da vitória a ser marcado no último segundo, seguindo-se a grande final com o Benfica, que não foi capaz de contrariar a garra da equipa fundanense.

A Associação Desportiva do Fundão torna-se assim o primeiro clube do Interior a conseguir conquistar uma prova desportiva de topo em termos nacionais, numa modalidade com a projecção e popularidade como é o futsal, habituada a ser disputada entre Sporting e Benfica.

À chegada ao Fundão, já perto da meia-noite, várias centenas de fundanenses fizeram questão de marcar presença junto à Câmara Municipal para receberem a equipa com um grande e merecido aplauso. Aqui ficam algumas imagens da festa:

À espera.


A chegada dos campeões I


A chegada dos campeões I


A chegada dos campeões I


A chegada dos campeões I


"Hoje a nação é o Fundão"


A aclamação com uma dedicatória particular


Todos fizeram questão de registar este momento memorável

Vídeos:



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