segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Primeiras impressões de Liège

Praça de São Lamberto, o local onde nasceu a cidade de Liège e que hoje é dominado pelo palácio dos príncipes-bispos. No canto inferior direito é possível ver o memorial das vítimas do atentado de 13 de Dezembro de 2011 durante o mercado de Natal.


A primeira semana em Liège foi algo estranha já que durante esse tempo nunca consegui ver a cidade durante o dia. O facto de trabalhar a mais de 7km do centro de Liège e de começar às 8h30, obrigava-me a apanhar um autocarro por volta das 7h40, antes do nascer do Sol, regressando já depois do pôr-do-Sol. Entretanto, 4 semanas depois, a luz do dia já dura mais uma hora do que há 3 semanas atrás, e a diferença começa a fazer-se sentir de forma notória.

Foi preciso, na sequência do que disse atrás, esperar pelo fim-de-semana seguinte para poder explorar a cidade à luz do dia e aprender algo sobre ela. A primeira constatação desse fim-de-semana foi que o café é em geral vendido a um preço bem puxadinho. Felizmente, andando pelas ruas deu para perceber que nem tudo é mau na cidade e as pessoas até gostam de comunicar. As primeiras frases que me foram dirigidas pelos transeuntes foram, por esta ordem, "Desculpe, tem uns trocos que me possa dispensar?", "Não tens por aí uma mortalha a mais?" e "Desculpe incomodar mas percebe alguma coisa de rum? Tenho de comprar uma garrafa mas não sei qual será o melhor."



Organização da cidade

Apesar da sua história milenar, não sobra muita coisa dos primeiros tempos da cidade e, no centro histórico, quase todos os edifícios são posteriores ao século XVI. Isto é fruto de uma história tumultuosa ao longo da qual a cidade foi destruída várias vezes, a última das quais durante a II Guerra Mundial. Sobre isto falarei em próximos artigos.

Sendo banhada pelo rio Mosa (Meuse em francês e Maas em holandês) a cidade deve muito daquilo que é hoje ao rio. A própria organização urbana da cidade foi definida pelo Mosa. Se recuarmos até aos primórdios da Idade Média, a zona à volta do núcleo onde se desenvolveu a cidade ainda era uma área pantanosa onde se espraiavam vários braços do rio. Muitas das ruas da actual Liège seguem escrupulosamente o curso de alguns desses braços que, ao longo dos séculos, foram sendo aterrados e transformados em vias de circulação terrestre.

Comparação entre um mapa da área de Liège no final da presença romana exposto no museu Curtius e o mapa actual de Liège via Google Maps

À volta do centro histórico de Liège, desenvolvem-se bairros com diferentes identidades. Os mais característicos serão provavelmente o bairro Hors-Chateau (literalmente, "fora do castelo"), com os seus típicos e bem bonitos becos sem saída, e o bairro de Outremeuse (literalmente "Ultra Mosa", "Além do Mosa") situado na grande ilha no meio do rio e que se intitula a si próprio como República Livre de Outremeuse.

Vista do bairro de Outremeuse, a partir do centro histórico de Liège


Falando novamente do centro de Liège, ao andar pelas ruas, fica-se com a nítida sensação que a cidade está em processo de renovação. Muitas casas devolutas do centro estão a ser recuperadas e vários espaços estão a ser devolvidos à fruição dos cidadãos. Parece que há uma nova cidade a tomar lentamente o lugar antes ocupado por outra menos interessante. Infelizmente, durante a noite é complicado perceber os detalhes arquitectónicos por força da falta de iluminação ou da sua pouca eficácia no que diz respeito ao evidenciar de edifícios mais importantes. 

Não me pareceu apesar de tudo uma cidade insegura, pelo menos nas zonas em que já caminhei. Houve até uma altura em que fiquei bem impressionado quando, ao entrar em áreas de ruas mais estreitas a deambulações tantas, as senhoras que ali estavam àquela hora da noite me dirigiam todas um cordial "Boa noite" pontuado com um sorriso.

Em termos de limpeza, encontra-se pouco ou nenhum lixo pelas ruas. As pessoas parecem respeitar escrupulosamente essa regra básica de civismo e, a ajudar, encontram-se papeleiras e contentores, estes uns cones muito engraçados com as cores da cidade, um pouco por todo o lado. As ruas ficam sim cheias de lixo no dia da recolha semanal de lixo doméstico. Então as pessoas deixam os seus sacos à porta, amarelos para lixo indistinto e azuis para garrafas de plástico, embalagens tipo PET e embalagens metálicas. Cada zona tem o seu próprio dia para recolha e os sacos, com o símbolo da cidade vendem-se em qualquer supermercado, sendo que para os cidadãos residentes em Liège são gratuitos.



Falando das lojas, os horários também se estranham ao início. No que diz respeito ao comércio dito "tradicional", a abertura é em geral entre as 8h00 e as 8h30 da manhã e o fecho entre as 18h00 e as 18h30. Só os supermercados do tipo "Carrefour Express" se mantêm abertos até às 20h00, e destes há às dezenas. Para lá disso, é sempre possível recorrer às lojas de conveniência geridas por asiáticos que, essas, fecham muito mais tarde. Ao Domingo, as lojas abrem embora num horário mais reduzido mas, nesse dia, vale mesmo a pena fazer compras no grande mercado junto ao rio mas sobre ele publicarei um artigo em breve. Bem o merece.

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