sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Chegada a Liège

De repente, eis-me em Liège! Trata-se de uma mudança de vida radical, na sequência de uma proposta de emprego tremendamente aliciante, tanto pelo desafio técnico que representa, como pela remuneração oferecida (que também é um aspecto mais ou menos importante). Certo é que não é todos os dias que se tem a hipótese de trabalhar para um gigante que, por exemplo, está na base das transmissões televisivas dos maiores eventos desportivos a nível mundial, desde Liga dos Campeões aos Jogos Olímpicos.






Não deixou, no entanto, de ser difícil deixar para trás a família e os amigos. Felizmente, a possibilidade de viajar com frequência a Portugal permite mitigar as saudades e também dessa forma, aliado ao facto de estes contarem com uma equipa muito sólida que torna quase insignificante a distância a que me encontro, continuar a dirigir os Caminheiros da Gardunha e participar nas suas actividades.


 Liège, Valónia e o Reino da Bélgica 




A minha primeira imagem de Liège: a estação ferroviária Liège-Guillemins, um projecto da autoria de Santiago Calatrava, arquitecto que projectou também a "nossa" Gare do Oriente


Liège é a capital económica não oficial da Valónia, uma das 3 regiões belgas federadas que compõem a Bélgica, quero dizer, o Reino da Bélgica. As outras duas são a Flandres ou região Flamenga e, mais ou menos encravada entre as anteriores, a região de Bruxelas. De forma simplista podemos dizer que a Bélgica se divide entre os que falam holandês a Norte, os que falam francês a Sul e os tipos que são de Bruxelas, mas em rigor não é bem assim. Se na Valónia predomina o francês, também o alemão é língua oficial, como reflexo da presença da comunidade germanófona da faixa oriental da região.

A Bélgica tem algumas particularidades na sua organização, e não me refiro ao facto notável e já comprovado de conseguirem sobreviver e funcionar sem Governo, como aconteceu durante 541 dias entre 2010 e 2011, batendo o seu próprio recorde anterior de 194 dias, apenas 3 anos antes, facto pelo qual já tive ocasião de felicitar alguns belgas. Não. Refiro-me à organização administrativa plasmada na Constituição que, para além das 3 regiões, define também a existência de 3 comunidades no conjunto do território: a francesa, a flamenga e a germanófona, comunidades essas com fronteiras que não coincidem com as das regiões.

Voltando à Valónia, Liège é a segunda maior cidade da região, apenas um pouco atrás de Namur, que é a capital e tem pouco mais de 200.000 habitantes. É interessante ver que apesar de a Valónia ter uma área superior à da Flandres, esta última bate de longe os vizinhos do Sul em termos de habitantes: quase o dobro! Estamos a falar de mais de 6 milhões de pessoas a falar holandês e estes números não são como os dos 6 milhões de benfiquistas em Portugal. São mesmo a sério.  

Liège é uma cidade muito peculiar em termos históricos, arquitectónicos, nos costumes e na própria organização da cidade. Tudo isto é o resultado de Liège e a sua província, estarem entalados em pleno caminho entre Paris e Berlim, o que historicamente não foi sempre necessariamente bom, e de Liège ter sido a capital de um principado independente durante mais de 800 anos.

Será sobre estes temas, e com base na minha experiência diária na cidade, que irei desenvolver os próximos artigos.


Uma rua do centro histórico da cidade

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