Depois de um renovado pedido de desculpas (pelo menos esta parte do vocabulário foi bastante praticada), verificámos que a proprietária não só já estava bem disposta como, ainda por cima, se dava ao luxo de fazer comentários jocosos elogiando a sua destreza e rapidez ao dizer que "havia sido mais rápida que um bombeiro pois, em poucos minutos, havia saltado da cama, vestido a roupa e feito um brushing antes de descer".



A etapa que se seguiu era uma aspiração de longa data (desde pelo menos os anos 1980) a partir do momento em que li um artigo sobre a sua descoberta. Saímos pois em direcção à Gruta de Lascaux (Mais propriamente Lascaux II. Adiante explicarei porquê)!
Obra-prima da arte rupestre parietal, o local foi descoberto em 1940 por um grupo de jovens que caminhava pela floresta com o seu cão. Este, ao entrar num buraco, ficou preso nalgumas raízes pelo que teve de ser libertado pelo seu dono com a ajuda dos amigos. Ao cavar, estes verificaram que as pedras começavam a cair e produziam um som de eco. Sabendo de antemão, por ser uma descoberta frequente na zona, que se poderia tratar de uma gruta, voltaram mais tarde munidos de lanternas e desceram ao longo da pequena abertura até uma enorme sala. Caminhando com os olhos no chão, só vários metros depois decidiram apontar o foco das lanternas para o tecto e, acto contínuo, depararam-se com um desfilar assombroso de touros, cavalos e veados desenhados a três cores.
Conhecida a descoberta, aqui afluíram vários especialistas para estudar as pinturas e gravuras (aos milhares) que se espalhavam pelas várias galerias da gruta. Feitos os estudos preliminares necessários, decidiu-se preparar a gruta para a abrir ao público, algo que viria a suceder em 1948.

Sendo proibido fotografar o interior da Gruta de Lascaux II, aqui fica uma foto da National Geographic para terem uma ideia do fantástico cenário que se encontra no seu interior.
Infelizmente, o seu sucesso viria a ser o seu maior inimigo e, em 1960, as pinturas começaram a mostrar os primeiros sinais de degradação, devido à exposição ao ar com elevado teor de oxigénio que a abertura da entrada e o sistema de renovação atmosférica provocaram e também devido ao aumento de temperatura e humidade provocado pela presença em massa de visitantes.
Para salvar as gravuras foi necessário fechar de novo a gruta em 1963 mas depressa se começou a projectar uma forma de permitir que as gravuras fossem visitadas pelo público.
A solução acabou por ser a construção de um fac-simile a 200 metros da original, que reproduzisse na perfeição o ambiente e as pinturas da gruta original. Este fac-simile, Lascaux II, acabaria por abrir ao público em 1982, 11 anos depois de ter sido começado. Nele foram reproduzidas apenas duas salas, a grande Sala dos Touros e o Divertículo Axial (um nome mais pomposo para a sala onde a gruta se divide em dois corredores). Ainda assim, aqui estão representados 90% das pinturas de Lascaux.
A visita começa por duas antecâmaras musealizadas, nas quais é explicado o contexto da gruta e da sua descoberta, assim como as técnicas que foram empregues há 17.000 anos atrás para a realização das pinturas e gravuras. Passa-se depois à visita do espaço onde a gruta foi recriada ao mais ínfimo pormenor.
Ao longo da visita, num ambiente completamente irreal, um guia vai explicando todos os pormenores e descrevendo todas as cenas. É impossível sair de Lascaux sem mudar a nossa forma de encarar os nossos antepassados do Paleolítico Superior. É simplesmente fabuloso!

A saída das visitas. No solo percebe-se parte da imagem que a planta do sítio desenha e que poderá ser visto do ar: um enorme touro (Vê-se um de dois cornos representados por metal, a cabeça representada pelo cimento do piso e das escadas e, na esquerda, a extremidade do focinho representada por secções de troncos de árvore).
Antes de partir, houve ainda tempo para um curto regresso a Montignac, para dar uma volta à luz do dia pela povoação. As impressões da véspera não foram defraudadas e Montignac é realmente uma povoação muito interessante, destacando-se no meio do casario antigo o seu castelo e a igreja.
Nas ruas ainda se encontravam as decorações de uma das mais importante festas de celebração da cultura Occitana, difundida no Sul de França, onde se situa a Nação Occitana (embora a língua occitana, a Língua de Oc, não seja ensinada nas escolas). Esta festa, a Félibrée, realiza-se desde 1913 e esta foi apenas a 4ª vez que foi realizada em Montignac, razão pela qual a população se esmerou com afinco na organização e nas decorações.
Partir sabendo tudo o que haveria ainda para ver na região do Périgord e tendo visto apenas Montignac e Lascaux foi como passar o dedo pela cobertura de um enorme e apetitoso bolo de chocolate e, logo a seguir ter de fugir porque, apesar de termos a fome acirrada por uma gulodice extrema, o pasteleiro ter surgido a correr na nossa direcção com as suas más intenções expressas no rolo da massa que brandia na sua mão direita. Infelizmente teve de ser pois um compromisso nos esperava a quase 600km dali.
Ainda assim, houve ainda tempo para nos deliciarmos, a poucos quilómetros dali, com a paisagem da cidade de Terrasson, caracterizada pela sua persistente ponte medieval.
Depois de um café tomado deliciosamente e em perfeita tranquilidade numa esplanada junto ao espelho de água ainda do Rio Vézère, houve tempo para subir até à dominante abadia, através de uma escadaria de acesso às muralhas. A vista e o casario impressionaram, tal como a abundância e o excelente estado de jardins existentes no centro histórico.
Junto à abadia, fomos surpreendidos por um simpático transeunte que, apesar de estar já em nítida idade adulta, transportava consigo de forma despudorada e com evidente empatia, um ursinho de peluche de estimação.

Fizemo-nos depois novamente à estrada em direcção à região da Franche-Comté embora com a imagem persistente do bolo de chocolate no nosso espírito...
(Continua)
Foto de Lascaux: National Geographic












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