segunda-feira, julho 26, 2010

Férias 2010 - De Vilar Formoso a Montignac

Finalmente chegaram as férias e com elas a tão aguardada viagem até França. Depois de uma noite de azáfama para os últimos preparativos, a partida aconteceu às primeiras horas do dia. Inevitavelmente, cumprindo uma tradição de longa data, a primeira paragem ocorreu em Vilar Formoso para um último e retemperador café "a sério". Isto porque, em boa verdade, do outro lado da fronteira, ao contrário do combustível que é igual mas mais barato, o café é mais caro e muito mais fraquinho. Creio que se trata de algum tipo de piada espanhola cujo sentido me escapa ainda.

Se há local em Vilar Formoso que vale a pena visitar, mesmo que apenas de passagem, é sem dúvida a estação de caminhos de ferro. Trata-se de uma estação carregada de História, por onde incontáveis pessoas passaram com uma bagagem feita de esperança.

A belíssima estação de CF de Vilar Formoso.

Tanto no exterior como no interior, inclusive nas casas de banho, as paredes encontram-se revestidas de belíssimos painéis de azulejos que constituem um verdadeiro catálogo daquilo que é Portugal, desde os monumentos às localidades, passando pelas tradições. Se passarem por Vilar Formoso, dediquem alguns minutos à estação de caminhos de ferro. Vale a pena.



200 km mais à frente chega a próxima paragem: Tordesilhas. Nesta pequena cidade espanhola das margens do rio Douro, teve lugar em 1494 o tratado com o mesmo nome pelo qual Portugal e Espanha dividiram o Mundo entre si. Se hoje em dia pode parecer ridícula a ideia de ter Portugal e Espanha a dividir o Mundo entre si (Olivença não conta porque apenas é uma cidade minúscula que só é importante porque constitui um bom pretexto para pisar os calos ao vizinho), o facto é que, naquela época, Portugal e Espanha eram as duas super potências de então e advogavam-se esse direito.

Plaza Mayor de Tordesilhas

Tendo um centro histórico interessante, sem ser extraordinário, um dos seus maiores pontos de interesse são justamente as Casas do Tratado, dois palácios geminados no mais antigo dos quais terá tido lugar o intenso debate e a assinatura do Tratado de Tordesilhas.

As Casas do Tratado

Nos palácios situam-se hoje o posto de informação turística, assim como diversas exposições e o Museu do Tratado. Este evoca a memória do Mundo antes do Tratado, a Viagem de Colombo e todas as diligências e manobras diplomáticas que deram lugar a esse histórico encontro de 7 de Junho de 1494.

Compasso de Navegação, um de muitos instrumentos em exposição no Museu do Tratado.

Em paralelo às negociações centrais do Tratado de Tordesilhas decorreram também negociações para procurar normalizar as relações entre os dois países que haviam estado em guerra até 1479, guerra essa que culminara na assinatura do Tratado de Alcáçovas. Em Tordesilhas, foram feitos acertos de questões ainda em aberto, sendo uma das mais importantes o reconhecimento por parte de Castela de D. João II como Rei de Portugal.


Documento de reconhecimento de D. João II como Rei de Portugal

Em 2007, por sugestão da Espanha e Portugal, o Tratado de Tordesilhas foi incluído no Registo da Memória do Mundo, o programa da UNESCO que visa a preservação e a disseminação de documentação e livros valiosos em todo o Mundo.

A título de curiosidade, refira-se que parece não haver em Tordesilhas limite mínimo de idade para a prática da condução de veículos automóveis. Digo isto depois de ter avistado uma carrinha estilo Ford Transit em nítidas dificuldades mecânicas que, no centro da cidade, estava a ser empurrada por um grupo de crianças juntamente com o seu pai, e tendo ao volante um condutor que deveria ter cerca de 8 anos.

A viagem continuou depois pela paisagem árida do centro de Espanha, passando junto à auto-route de Burgos, celebrizada por Jerónimo e os Cro-Magnon, até à entrada em França pela fronteira de Behobie, pela antiga ponte. Aí, a Espanha fez questão de organizar um comité de despedida constituído por diversos agentes da polícia munidos de metralhadoras e ainda equipados com um dispositivo de perfuração de pneus.

Já em França, um pequeno susto: o primeiro posto de abastecimento de combustíveis indicava que o preço praticado por litro de gasóleo era de 1,50 €/l, facto que provocou alguma inquietação na comitiva pela perspectiva de apenas poder ter baguetes como alimentação para o resto da viagem. Contudo, mais à frente desfizeram-se as dúvidas com a constatação de que o preço geralmente praticado por litro de gasóleo era substancialmente mais baixo e de que o preço anterior apenas seria uma questão de orgulho.

Montignac, na margem direita do Rio Vezére

Já perto da meia-noite, chegámos finalmente ao nosso objectivo do dia: a povoação de Montignac em plena região do Périgord Noir, onde iríamos ficar instalados num pequeno hotel.

Avisadamente, prevendo a hora tardia da chegada e sabendo que não haveria ninguém na recepção do hotel, telefonámos antes para nos serem dadas as instruções essenciais para a nossa entrada no hotel, isto é, o nosso número de quarto e o código numérico que deveríamos digitar no teclado no exterior da porta do hotel para podermos entrar.

Descontraidamente, já à porta do hotel que se encontrava mergulhado na escuridão, digitámos o código e... nada aconteceu. Voltámos a digitar e experimentámos a mesma sensação de silêncio. Cerca de uma dúzia de tentativas infrutíferas depois, já com a bem presente ideia assustadora de que os bancos do carro não são rebatíveis, decidimos finalmente telefonar para a proprietária que, após alguma insistência, acabou por atender com uma inconfundível voz de quem acabara de acordar e não estava muito contente por isso.

Informada do que se passava e confirmando que tínhamos o código correcto, decidiu levantar-se, vestir-se e vir à porta para nos deixar entrar. Pouco depois, a porta do hotel abriu-se e a senhora deu de cara connosco algo confusa... "Mas... a porta não é esta! Vocês experimentaram a porta do lado?". Creio que tudo o que conseguimos responder foi "Porta do lado?? Qual porta do... Ah! Aquela...!" enquanto, como que surgida por magia, avistávamos uma porta junto à qual se destacava um reluzente teclado numérico.

Depois de finalmente instalados, não sem antes praticarmos o nosso léxico de expressões francesas de pedidos de desculpa, tivemos tempo ainda para sair (não sem antes testarmos novamente o código de abertura da porta, pois claro) para percorrer as ruas quase silenciosas de Montignac, ruas essas que ainda ostentavam as decorações de uma recente festa de inspiração Occitana.

(continua)

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