terça-feira, maio 28, 2013

31km a pé pela Gardunha!

A festa de Nossa Senhora da Orada, que acontece sempre no 4º Domingo de Maio, foi em tempos o foco de uma das romarias mais importantes da região, levando a este pequeno recanto da Serra da Gardunha inúmeros fiéis. Pelos trilhos da serra, os romeiros convergiam até ao santuário da Senhora da Orada, local reputado não só pelo milagre que teria estado na base da própria construção da ermida, mas também pela água que ali brota numa fonte, reputada de milagrosa e associada ao relato de várias curas prodigiosas. Disto falarei num próximo artigo.

Numa iniciativa "2 em 1", que serviu de continuação da preparação para o desafio que nos espera já daqui a menos de duas semanas e ainda para evocar a memória da importância desta romaria na tradição e no imaginário lendário da Serra da Gardunha, partimos da aldeia de Alcongosta, num percurso de ida e volta que nos levou a percorrer mais de 30km.


A primeira parte do percurso fez-se pela PR1 - Rota da Cereja, subindo depois até à Penha onde se fez uma primeira pausa para retemperar forças e admirar a paisagem. Uma subida pela escadaria talhada na própria rocha, por cima da famosa "gruta", permite uma excelente vista a 360º. 


Panorâmica do troço realizado, entre o posto de vigia e a Penha...


... e o troço que se segue, na continuação da crista granítica da Gardunha.

Após algumas centenas de metros, o percurso passou a ser feito por corta-mato, seguindo a linha cimeira do maciço central da Gardunha, rumo ao ponto mais elevado desta serra. Trata-se de um percurso extremamente fácil, onde as zonas planas e floridas alternam com os blocos de granito.


Rumo ao topo!


Ao longe, a Estrela (ainda com neve) parece olhar com inveja para o colorido da Gardunha.




O ponto culminante da Serra da Gardunha que, não sei bem porquê, me faz lembrar a aldeia histórica de Monsanto. A mente humana às vezes tem destas coisas.


9km depois do ponto de partida, chegámos ao cume da Serra da Gardunha. Aproveitando a pausa, discutiu-se o caminho a seguir: descer rumo a Castelo Velho e Casal da Serra ou descer para a vertente NO, rumo à Portela. Ganhou a segunda opção, não porque tivesse menos 4km que a primeira mas porque (e a partir de agora escrevo com indignação digital) "o Benfica jogava a partir das 17h".

Passadas os primeiros momentos de dificuldade em o encontrar, acabámos por descobrir o caminho certo escondido entre giestas frondosas. A partir daí, sucederam-se vários quilómetros onde a paisagem estava toda vestida de amarelo, pontilhada aqui e ali por manchas violeta de rosmaninho.



Parte do grupo perdido num mar amarelo, indiferente aos indignados apelos à continuação do percurso por parte da falange benfiquista da comitiva.

O rosmaninho quebra a monotonia da paisagem pela cor e pelo aroma inconfundível.

Finalmente, depois de um rápido reabastecimento de água na nascente do Ribeiro Frio, chegámos à Portela, encruzilhada a partir da qual parte a calçada antiga que desce até à Senhora da Orada. Diz a tradição popular que esta calçada demorou apenas uma noite a ser construída pelo mais improvável dos empreiteiros. Vale a pena recordar a lenda clicando aqui.

A calçada que há alguns anos foi enterrada vai aos poucos voltando à superfície.

Meia hora depois, cerca de 15km após o início do percurso, atingimos finalmente a ermida da Senhora da Orada onde assistimos na primeira pessoa ao milagre da regeneração energética que uma série de belas bifanas bem regadas operou em nós. Para mim o regresso a esta festa teve um significado especial pois já aqui não vinha havia mais de 25 anos.

Depois do almoço, fizemos um pequeno percurso pelo recinto que, diga-se de passagem, é um sítio belíssimo e muito bem cuidado. Como é óbvio matou-se a sede na fonte santa mas, infelizmente, por desaprovação geral, não cumpri um dos objectivos: o de mergulhar a carteira na água para verificar até que ponto esta é mesmo milagrosa.


O rancho folclórico de São Vicente da Beira diante da ermida


Dentro do santuário, perfilam-se vários ex-votos, figuras de cera que representam graças recebidas e fecham o ciclo de uma promessa feita à Senhora da Orada. Representam o objecto da graça pedida e concedida pela Santa: a cura de uma criança ou de uma parte do corpo.


Quantas recordações de romarias passadas haverá neste olhar?



A Senhora da Orada é objecto de um carinho especial por parte da população das redondezas. 


Há uma parte importante da tradição que se mantém. As famílias levam consigo as merendas e algumas acampam autenticamente no local, quer imediatamente à volta do santuário, quer nos campos circundantes.

Aqui o grupo separou-se. Maior parte regressou de carro ao Fundão mas ainda houve quem decidisse regressar a pé, subindo de novo rumo à Portela para daí descer ao longo da ribeira do Tormentoso, rumo a Casal de Álvaro Pires e, pela Rota dos Moinhos, rumo ao Souto da Casa.


Um olhar para trás mostra o vale do Tormentoso imerso também ele em amarelo.


Após vários quilómetros, finalmente o Souto da Casa surgiu no horizonte. O pior foi ter a noção que se iriam seguir alguns quilómetros de subida acentuada.

A partir do Souto da Casa, a estrada asfaltada que leva a Alcongosta foi descartada pelo desgaste que este tipo de piso provoca. A opção recaiu sobre o caminho que sobre rumo ao Picoto, local onde durante uma pausa fomos informados de resultados desportivos que nos levaram a endereçar um pensamento solidário para com alguns companheiros de caminhada que haviam regressado de carro.

O Picoto acaba por ser um local interessante, tanto pela vista que daqui se alcança como pelo facto de se tratar de um local de interesse arqueológico, provavelmente relacionado com o castro de São Brás cujas ruínas estão bem próximas.

Após 1km, o percurso acabou mesmo por ter de ser feito pela estrada, por entre pomares de cerejeira a perder de vista, até Alcongosta, a capital da cereja. 


Sobre os pomares, o céu apresentava um aspecto interessante


No meio de um vale cheio de cerejeiras, eis Alcongosta!

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