quinta-feira, agosto 18, 2011

Pelo Sul da Hispânia I - Gibraltar (parte 2)



Gibraltar foi de facto uma boa surpresa, tendo em conta a quantidade de pontos de interesse que foi possível encontrar em apenas 7 km2 de terra, desde a zona portuária até às zonas mais elevadas do território, o Upper Rock. Esta última parte foi constituída como Reserva Natural, sendo apenas acessível durante um horário específico do dia e mediante a aquisição de um bilhete por pessoa e por veículo. Pelo que nos foi dito, esses bilhetes têm a duração de 24h. No entanto, conseguimos prolongar, de forma bastante subtil, o seu tempo de utilização para dois dias, tendo acabado por visitar os principais pontos de interesse do Upper Rock e tendo ainda tempo para nos dedicarmos à prática do Geocaching.


No artigo artigo anterior, terminei descrevendo os túneis escavados durante do Grande Cerco (1779-1783) no coração da montanha e que praticamente ligaram uma face à outra, de forma a colocar canhões em posição mais favorável para atingir as trincheiras do exército hispano-francês.


O objectivo era, recordo, colocar canhões numa saliência na face Este mas estes acabaram por ser posicionados em aberturas ao longo da galeria principal, e a dita saliência, o Notch, só viria a ser atingido já após o fim do Cerco. Ao abrigo da cortesia militar de então, o comandante das forças hispano-francesas foi convidado pelo Governador de Gibraltar a visitar os túneis após o cessar-fogo, tendo exclamado com assombro "Estes trabalhos são dignos dos próprios romanos!".



A cidade-fortaleza subterrânea


As escavações não terminaram aqui, sendo progressivamente adaptados e melhorados os túneis. Nada que se compare no entanto ao que viria a acontecer durante a II Guerra Mundial. Temendo um ataque das Forças do Eixo a Gibraltar e dado que o Rochedo não apresentava condições de defesa contra um ataque maciço, a montanha foi transformada numa verdadeira cidade-fortaleza subterrânea. A população foi entretanto evacuada para a Grã-Bretanha, Marrocos, Jamaica e Madeira, só regressando no final do conflito.





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Na construção das defesas de Gibraltar foram escavados, por 2 companhias canadianas e 5 inglesas, cerca de 50km de túneis, com hospital, reservas de água e gerador eléctrico, o suficiente para albergar cerca de 30.000 soldados. Com nomes de ruas e sinalização rodoviária, foi construída uma rotunda maior que o Picadilly Circus para permitir aos camiões inverterem o sentido de marcha no interior da montanha. Actualmente, apenas se visita 1% dos túneis. Depois da experiência do ano passado na Linha Maginot, soube-nos a pouco.




O planeamento Britânico previu ainda a possibilidade de Gibraltar ser efectivamente tomado pelos Alemães e, à luz dessa possibilidade, foi delineado um plano secreto, a Operation Tracer, que consistia em deixar para trás 6 homens que seriam selados em secções secretas dos túneis, com condições e mantimentos para sobreviverem durante um ano, espiando as movimentações alemãs através de postos de observação bem camuflados e reportando via rádio para Londres.


Quanto ao tão temido ataque, ele de facto foi minuciosamente preparado por Berlim sob o nome de Operação Félix. Contudo, o desentendimento com o ditador Francisco Franco sobre o timming e as condições para lançar o ataque levaram ao adiamento e ao posterior cancelamento do plano, felizmente também para Portugal que era nele mencionado.


O papel de Gibraltar na II Guerra Mundial não foi no entanto irrelevante. Apesar de não ter sido particularmente atingido de forma directa, foi a partir do Rochedo que o General Eisenhower comandou o desembarque Aliado no Norte de África.


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Se em Grândola há um amigo, em Gibraltar há em cada esquina um canhão. Percorrendo a península encontram-se peças de artilharia que vão desde o século XVIII até à II Guerra Mundial, como esta bateria junto a uma das entradas dos túneis da II Guerra Mundial.




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Ex-libris de Gibraltar é no entanto esta peça de época vitoriana com um peso de 100 toneladas. Este canhão demorava duas horas a estar pronto a disparar após o primeiro alerta mas depois conseguia repetir o disparo em poucos minutos. Era orientado por telefone a partir do topo do Rochedo e o sistema de disparo era pela primeira vez eléctrico. Nunca disparou em combate real mas alguns disparos de teste durante os quais foi pedido à população de Gibraltar que evitasse sair à rua por uma questão de segurança.




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Vista da Royal Anglian Way, uma via de acesso construída pelo exército e que actualmente constitui um percurso pedestre com 600m, passando por baterias e outras estruturas abandonadas datadas da II Guerra Mundial, como um conjunto de galerias (actualmente seladas) e cozinhas. Cuidado com os bombardeiros disfarçados de gaivotas e... com os macacos!




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A Muralha de Carlos V (ver na imagem satélite abaixo) é uma muralha construída durante o século XVI para reforçar as defesas da povoação após esta ter sido saqueada por piratas turcos. Actualmente, possui uma escadaria em toda a sua extensão que permite o acesso pedestre directo à crista do rochedo. A vista a partir do muro é muito boa mas nada se compara ao impacto do que se avista ao chegarmos ao topo, directamente por cima da parede vertical do Rochedo na face Este. Vale bem os pulmões que deixamos pelo caminho durante a subida.





Ver mapa maior




Macacos de Gibraltar, os mais distintos cidadãos do Rochedo


O Llanitos (na linguagem local), macacos originários do Magrebe, são sem dúvida os habitantes mais populares de Gibraltar, podendo ser encontrados no Upper Rock em estado semi-selvagem, organizados diversos grupos num total de cerca de 300 indivíduos. Contudo, se a sua popularidade entre os turistas é elevadíssima (perdoem-me os fundamentalistas se disser que ir a Gibraltar e não ver os macacos é como ir a Roma e não ver o Papa), já entre os comerciantes locais eles são no mínimo inconvenientes e indesejados.


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Confortavelmente instalados à beira do abismo, nota-se que a estes primatas, os únicos em liberdade no continente europeu, o medo é uma cena que não lhes assiste.




Crê-se que terão sido trazidos do Norte de África pelos árabes como animais de estimação (uma lenda diz que terão passado o Estreito através de um túnel que liga os dois continentes) mas acabaram por se estabelecer pela zona, entrando tanto na tradição como na vida política do Rochedo. Reza uma supersticiosa lenda que se algum dia os macacos desaparecerem de Gibraltar, também a soberania britânica no Rochedo chegará ao fim.


Por esse motivo, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill ordenou durante a II Guerra Mundial o repovoamento do Rochedo com macacos vindos do Magrebe, uma vez que a colónia gibraltarense estava reduzida a apenas 7 indivíduos. Alguns foram também levados para a Grã-Bretanha para qualquer eventualidade de repovoamento futuro.


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Por questões de saúde da colónia de macacos, é terminantemente proibido alimentá-los, havendo multas de até 500£ para quem for apanhado a fazê-lo. Quem não parece preocupado com isso são os guias que conduzem os grupos de turistas até ao Upper Rock, sendo alguns até bem conhecidos dos próprios macacos. Tivemos oportunidade de ver um macaco ir sentar-se no chão, aos pés de um guia local, e puxar-lhe discretamente os calções para pedir um amendoim.


Embora tenham uma aparência adorável, sobretudo os mais novos, não deixam de ser animais selvagens e imprevisíveis, daí a existência de múltiplos avisos, um pouco por todo o lado, para os turistas não terem qualquer tipo de alimento visível quando estiverem junto dos macacos, sob pena de ficarem sem ele. Com enorme à vontade e descaramento, os macacos são capazes até de abrir mochilas e arcas frigoríficas nas lojas para obterem algum alimento. Nós próprios estamos em condições de afirmar que foi de facto difícil convencer um deles de que era errado cobiçar, de forma muito activa diga-se, o Calippo de laranja que a Ana transportava. A coisa resolveu-se com uma sucessão de valentes ralhetes, isto numa altura em que eu estava já prestes a colocar uma faixa branca com um círculo vermelho sobre a fronte.




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"O pára-brisas ou os cacahuetes, carais!"


Tomadas as devidas precauções, é no entanto agradável assistir às acrobacias e às proezas destas criaturas que nos fazem sentir como intrusos tolerados num território que não nos pertence.




Gibraltar, um espaço de pluralidade religiosa

Em Gibraltar, vive-se um clima de aceitação e tolerância religiosa bastante interessante, embora nestas coisas da religião o conceito de tolerância seja tremendamente relativo, sendo possível encontrar no Rochedo uma catedral católica anglicana, uma catedral católica romana, uma sinagoga e uma mesquita que vale a pena visitar.


Embora não tenha sido sempre pacífico, momentos houve de alguma convulsão religiosa em Gibraltar, aqui encontraram no entanto refúgio judeus e muçulmanos expulsos de Espanha pelo fanatismo religioso, após este território ter passado para mãos britânicas pelo tratado de Utrecht. Esse aspecto foi aliás um dos muitos argumentos dos espanhóis para a rejeição posterior do tratado, uma vez que este continha uma cláusula pela qual os ingleses concordavam em não permitir a liberdade de culto aos judeus.


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A Mesquista Ibrahim-al-Ibrahim ou ainda Mesquita Rei Fahd bin Abdulaziz al-Saud ou ainda a Mesquita do Guardião das Duas Mesquitas Sagradas (pausa para descansar os dedos) (...) é uma mesquita situada a pouca distância da extremidade Sul da península de Gibraltar e da Catedral católica romana de Nossa Senhora da Europa. A mesquita, que contém uma livraria e uma biblioteca, foi oferecida pelo rei Fahd da Arábia Saudita.


A seguir: Relato daquilo que sucede no outro lado do Estreito


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