terça-feira, agosto 16, 2011

Pelo Sul da Hispânia I - Gibraltar (parte 1)

Terminadas que estão as férias, aproveito para partilhar aqui com vocês (num misto de exibicionismo puro misturado com o exercício de um certo saudosismo amargo) alguns dos locais, magníficos diga-se (Ora cá está. Exibicionismo.), pelos quais passámos.


O primeiro deles foi o enclave britânico de Gibraltar. Situado no extremo Sul da Península Ibérica, consiste basicamente num maciço rochoso que se ergue dramaticamente na paisagem, protegendo uma cidade, com cerca de 30.000 habitantes, que se espraia nas estreitas franjas planas e nas encostas baixas.




Vista de parte do centro histórico de Gibraltar a partir do Upper Rock, com as espanholas San Roque, povoação mais à esquerda fundada pelos espanhóis expulsos de Gibraltar no século XVIII, e La Línea de La Concepcíon, mais à direita, povoação que faz fronteira com Gibraltar naquilo que foi antigamente a linha das fortificações espanholas que isolaram e não raras vezes bombardearam o Rochedo.



Pertence à coroa britânica desde que foi conquistada aos espanhóis há 307 anos mas a sua história é milenar. Sendo inicialmente baptizado de Monte Calpe, umas das Colunas de Hércules, as duas montanhas que delimitavam o actual Estreito de Gibraltar e marcavam o fim do Mundo Conhecido na Antiguidade, foi rebaptizada de Djebel Tarik, "Montanha de Tarik", a partir da chegada dos exércitos muçulmanos em 711 liderados por Tarik Ibn Ziyad. No entanto, os vestígios humanos mais antigos pertencem mesmo ao nosso falecido primo Neandertal, descobertos um pouco antes dos vestígios encontrados na Alemanha no Vale de Neander.



Objecto de disputa entre o Reino Unido e Espanha, facto que levou a que só a partir da década de 1985 a Espanha tenha aceite reabrir a fronteira com Gibraltar. Actualmente, e apesar de fazer parte do Reino Unido (estatuto reforçado em referendo), a população resulta em grande parte da mestiçagem de Ingleses, Genoveses, Espanhóis, Portugueses e Marroquinos. Com a língua oficial inglesa têm vindo a rivalizar o espanhol e uma inovação recente: o "Spanglish", uma mistura das outras duas, um pouco à semelhança do que acontece por cá com o Francês e o Português na altura do regresso provisório dos nossos emigrantes. Numa das poucas praias do território foi possível ouvir um delicioso "Mira, mira! Un seagull muerto!" por parte de uma mãe que chamava a atenção do filho para uma gaivota que boiava inerte sobre a água.





Vista do Aeroporto de Gibraltar, antes de La Línea de La Concepcíon, onde a pista se cruza com a via rodoviária de ligação com a Espanha na qual existem semáforos para interromper a circulação sempre que chega ou parte um avião para o Reino Unido. Está já em construção um novo terminal para abrir o aeroporto ao tráfego internacional, assim como um túnel que permitirá a passagem do trânsito automóvel sob a pista. Este aeroporto foi construído durante a II Guerra Mundial com inertes retirados das escavações dos túneis da montanha, que a transformaram numa mega-fortaleza.



A entrada em Gibraltar é relativamente fácil mas exige frequentemente a apresentação de identificação nos postos de controlo fronteiriço. O tráfego local é intenso pelo que a maior parte dessa formalidade recai sobretudo nos veículos que não tenham matrícula gibraltarense ou espanhola. No último dia, formaram-se 4 filas para sair da península e fomos obrigados a uma espera de quase 40 minutos. no entanto, em nenhum momento foi solicitada a revista do carro pelas autoridades alfandegárias, ao contrário do que nos tinha sido dito.



Ao longe é possível avistar a costa Norte-Africana, no outro lado do Estreito. Distingue-se claramente a outra Coluna de Hércules, Djebel Musa, "A Montanha de Moisés", e, tenuamente mais à esquerda, a parte mais elevada da península de Ceuta.



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A vertente Oeste de Gibraltar, sendo bem visível o maciço com mais de 400m de altura e, à direita, o farol da Ponta Europa. A vertente Este consiste, ao contrário desta, de uma parede rochosa praticamente vertical que corta a respiração!




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Eu não disse? Só faltou mesmo aquela sensação de cortar a respiração mas é muito mais fácil senti-la se estivermos na crista da montanha e olharmos para baixo. Palavra de honra!




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A bandeira de Gibraltar com as armas conferidas pelos Reis Católicos que destacam o papel de Gibraltar como Chave do Reino e Chave do Mediterrâneo.




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A "Union Jack" flutuando sobre a Torre de Menagem do Castelo Árabe.




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Um sinal de cedência de prioridade que não deixa dúvida. Obviamente este estava em inglês mas, curiosamente, os sinais de STOP, esses, estavam em português.




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Gibraltar é o único território britânico no qual a circulação automóvel se faz pela direita. Para que os súbditos de Sua Majestade não se esqueçam disso, há avisos no pavimento junto às passadeiras a recordar os peões que o perigo vem da esquerda e não da direita.




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As típicas cabines telefónicas vermelhas britânicas encontram-se por todo o lado.




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Em Gibraltar sentimos um clima de agradável segurança. É frequente ver patrulhas policiais em circulação e, ao passear pela Main Street à noite, cruzámo-nos por 3 ou 4 vezes com patrulhas policiais individuais a pé. Foi surpreendente ver um desses polícias verificar se as portas dos estabelecimentos comerciais estavam bem fechadas. Pela janela aberta em jeito de guichet de atendimento deste posto de polícia, foi possível ver um agente imerso em documentação, sob o ar beneplácito de Sua Majestade num retrato pendurado na parede.




O território de Gibraltar é fraquíssimo em termos de recursos naturais. Sem fontes de água potável, depende de cisternas de captação de águas pluviais e de centros de dessalinização de água marinha.


A principal fonte de receitas deixou há algum tempo de ser a indústria e serviços navais para passar a ser o turismo. Sendo zona franca, encontram-se inúmeras lojas no centro que vendem tabaco e bebidas alcóolicas a baixo preço, tal como os combustíveis que estão a preços de antigamente (enchemos o depósito do veículo com gasóleo a 1,16 €/L). O resto não é particularmente barato.


A moeda oficial é a libra inglesa a par da libra de Gibraltar, de valor equivalente. O Euro também é aceite embora os comerciantes sejam algo criativos em termos de taxas de câmbio.


Existe um forte apelo de saudosismo patriótico no comércio, sendo frequente ver anúncios que procuram vender produtos e sabores dando destaque à sua origem na "homeland". Curiosamente, grande parte dos géneros alimentares frescos provêm de La Línea.


Tivesse sido confeccionado com géneros de origem inglesa ou não, o pequeno-almoço à moda "british" que experimentámos no Morrison's foi algo completamente diferente para os nossos hábitos. Um belo prato matinal composto por feijão, salsicha, bacon, ovo estrelado e batata frita, devidamente acompanhados por uma grande chávena de café, serviram para encher de tal forma que só voltámos a sentir fome a meio da tarde.


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Cascata resultante do excedente de uma unidade de dessalinização de água marinha, perto da Ponta Europa.




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Casemates Square, a praça principal no centro histórico, aberta sobre aquilo que sobrou de um conjunto de casas após o Grande Cerco de finais do século XVIII. Daqui parte a Main Street, a principal artéria comercial da cidade.


A história de Gibraltar é plena de episódios bélicos. Alternou em sucessivos combates entre árabes e espanhóis, depois entre espanhóis e espanhóis até cair em nas mãos de Inglaterra. No entanto, os espanhóis tentaram várias vezes recuperar estes 7 km2 de terreno sendo o momento mais marcante o do Grande Cerco. Durante mais de 3 anos, uma força hispano-francesa cercou e bombardeou o Rochedo por mar e terra mas a guarnição resistiu tanto às bombas como ao surto de escorbuto devido à carência de alimentos frescos. Ao todo, mais de 200.000 balas de canhão foram disparadas neste período.


A valentia e determinação da guarnição de Gibraltar de então está materializada nos Túneis do Grande Cerco. Este conjunto de câmaras e galerias foram escavadas a meio da montanha para permitir a colocação de canhões numa saliência rochosa que permitiria o fogo alinhado com as trincheiras das tropas que cercavam o Rochedo. Ao mesmo tempo, um militar britânico inventou um engenhoso sistema de báscula para que os canhões pudessem atingir, quase na vertical, as posições inimigas mais próximas.


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O sistema de báscula adaptado a um canhão numa das câmaras do Túneis do Grande Cerco.




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The Notch, a saliência rochosa (no centro da foto) que já depois do Grande Cerco, foi fortificada. É possível perceber as aberturas para canhões, ao longo da galeria principal a partir da saliência, em sentido ascendente para a direita.


A seguir: a cidade subterrânea e os habitantes mais famosos e irrequietos do Rochedo.

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