segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Serra da Gardunha - Um território de passagem

Nota - Este artigo serviu de base à crónica recentemente publicada no Jornal do Fundão. Apresenta-se aqui numa versão mais extensa e próxima da sua versão original.




A Serra da Gardunha contém muito mais que apenas a paisagem natural. Possui muitos outros rostos, outras materialidades que estão na base da nossa identidade cultural. Apesar de hoje a escala humana escapar à nossa percepção, a Gardunha sempre foi ao longo da História um território de intensa vivência e também de comunicação entre as comunidades das suas vertentes. Esta sua dimensão cultural humana entra nos domínios da história e da etnografia, aspectos que se refletem num rico manancial de património material e imaterial que hoje podemos encontrar ao seu redor. 

A existência de diferentes comunidades no perímetro da Gardunha, com a consequente necessidade de comunicação entre elas, e o próprio carácter de fronteira da Serra, sendo um lugar de passagem por exemplo dos caminhos da transumância, pressupunha a existência de uma rede de vias de trânsito que permitia atravessar a serra ou simplesmente servir de via de comunicação entre comunidades da própria serra. 

Se dos caminhos secundários hoje pouco resta a não ser a memória imprecisa da sua existência, quanto às vias principais o cenário é substancialmente diferente. Quem não conhece hoje a estrada romana que liga Alcongosta a Alpedrinha, com o seu sinuoso lajeado, ou a continuação desta de Alpedrinha para Castelo Novo? Trata-se de uma via notável que merece claramente ser preservada e valorizada, embora suceda precisamente o contrário já que sobre ela continuam a passar veículos motorizados, com consequências bem visíveis no seu estado de conservação e, não bastando isso, ainda no ano passado no segmento Alpedrinha-Castelo Novo foi realizada uma intervenção para benefício privado que a danificou seriamente.

Para além de outros troços de calçada antiga existentes ao redor de São Vicente da Beira e do Alcaide, outra via dita romana que é bem conhecida é a calçada que liga o santuário da Senhora da Orada, em São Vicente da Beira, até à portela denominada como “Cruz”, no limite entre esta freguesia e a do Souto da Casa. Também esta via foi alvo há alguns anos de uma intervenção de preservação muito sui generis que a escondeu dos olhares e hoje, em consequência do esquecimento a que foi votada, está já seriamente danificada em alguns locais. Esta calçada ainda assim era apenas uma parte de uma via que ligava São Vicente da Beira ao Souto da Casa, e que entre esta última localidade e a aldeia de Casal de Álvaro Pires evidencia ainda alguns segmentos de pavimento em zonas de maior inclinação, uma prática normal que se destinava a garantir que os veículos puxados por animais aí conseguissem ter tracção.

Para além da sua função de ligação entre comunidades no domínio mais terreno, algumas destas vias tinha também uma função de ligação ao sagrado, tornando-se caminhos de romaria ou peregrinação mais ou menos sazonais. Neste contexto em particular, a cartografia da antiga rede viária da Gardunha teve no ano passado uma importante contribuição por parte dos Caminheiros da Gardunha que, em conjunto com o Museu do Fundão e contando ainda com a preciosa colaboração de Mário Castro no que à interpretação e ao levantamento cartográfico diz respeito, identificaram no terreno e na quase totalidade da sua extensão, a via que ligava Castelo Novo ao antigo santuário de Nossa Senhora da Serra na Penha da Gardunha. O resultado deste trabalho foi dado a conhecer nas I Jornadas de Arqueologia e Património da Serra da Gardunha realizadas em Abril de 2017 no Fundão.


Vista SO do fraguedo da Penha, já no topo da escadaria

A fundação do santuário de Nossa Senhora da Penha, justificada por um milagre, remontará provavelmente a tempos medievais, acabando mais tarde por ser desmantelado por ordem bispal, possivelmente algures no início do século XVIII, na sequência de uma existência algo turbulenta. Durante este período, foi um importante local de romagem das comunidades ao redor da Gardunha, que para aí convergiam logo a seguir à Páscoa, embora em dias diferentes para evitar refregas decorrentes de rivalidades, como nos conta José Inácio Cardoso na sua Orologia da Gardunha. Esta tradição sobrevive actualmente em Castelo Novo, com a festa em honra de Nossa Senhora da Serra na Segunda-feira de Pascoela. Voltando à romaria anual à Penha pela vertente de Castelo Novo, para além de algumas descrições historiográficas, havia muitas dúvidas sobre qual o caminho que os romeiros seguiam para aí chegarem, dúvidas essas que agora parecem estar dissipadas com a identificação da via.



A escadaria da Penha

Esta, cuja passagem pelo sítio do Sameiro já tinha sido referenciada pelo Museu embora sem precisar a sua real extensão, parece ter servido também para transporte de carga entre a aldeia histórica e o casario mais ou menos disperso que existia no local conhecido como Barrocas do Mercado, como o demonstram as marcas de rodados que ficaram bem vincadas em algumas lajes pelo seu uso continuado. Desta derivava, a dada altura, um caminho que ascendia à Penha, num ziguezague de degraus e plataformas sucessivos ao longo de 350m, com alguns segmentos eventualmente pouco recomendáveis a quem sofre de vertigens. Dos acessos de quem vinha do Souto da Casa e Alcongosta conhecem-se hoje apenas alguns vestígios e há ainda muitas interrogações no ar.

Ora, acontece que a nefasta passagem do fogo pela Gardunha, não deixando de ser uma tragédia, deixou à vista muitos elementos de património que até agora estavam escondidos, inclusive alguns troços viários antigos que nos ajudam a ter uma ideia mais abrangente da rede de caminhos que percorriam a serra. Várias publicações na rede social da moda, o Facebook, deram conta do surgimento destes troços de calçada entre Louriçal do Campo e Alpedrinha, passando por Castelo Novo. Estamos, sem dúvida, perante uma oportunidade de ouro para proceder à identificação e inventariação desta rede de caminhos antigos. As vantagens que poderiam advir desta intervenção são por demais evidentes.


Troço da calçada Alcongosta-Alpedrinha que estava escondido e que o incêndio deixou à vista


Numa lógica de criação de valor turístico da Serra da Gardunha e com base nos inúmeros elementos patrimoniais atrás referidos, é hoje perfeitamente possível - e faz todo o sentido- criar itinerários pedestres permanentes com um fundo cultural, com uma temática que abranja tanto o património material como o imaterial, e cujo interesse consiga ir muito para além da paisagem natural. A rede viária antiga tem aqui também um papel importante na medida em que traria valor acrescentado a estes percursos. Para além deste factor de valor acrescentado, a sua integração na rede de percursos pedestres acabaria por ser também um importante factor de preservação, na medida em que contribuiria para os manter transitáveis.

Um bom exemplo de uma iniciativa nesse sentido é projecto “Gardunha Sacra”, um projecto que começou há 4 anos resultante de uma parceria entre o Município do Fundão, os Caminheiros da Gardunha e o GEGA, contando também circunstancialmente com o contributo de várias colectividades e instituições do perímetro da Gardunha, e que procurou definir um percurso ao redor da serra ligando os lugares sagrados de certa forma esquecidos através da rede de caminhos antigos. Esta iniciativa termina a sua primeira fase no próximo mês de Março, numa caminhada que vai ligar Alcongosta ao Fundão, avançando depois para o patamar seguinte em que se vai trabalhar no sentido de tornar o percurso permanente, associando-lhe não só publicações de suporte e divulgação como ainda meios para tornar possível que todo o percurso possa ser feito de forma autónoma sem perder o seu cunho pedagógico.

Adicionalmente, agora que a real extensão desta rede viária começa aos poucos a ser conhecida, muitos dos actuais percursos pedestres homologados poderiam e deveriam ser desviados quando possível para as vias antigas, retirando-as dos “estradões” contemporâneos nas quais foram sinalizadas. Enquadram-se perfeitamente neste contexto por exemplo a Rota da Penha, a Rota de Alpreade e até o troço do Caminho de Santiago que, apesar de ser considerado um caminho cultural histórico, atravessa a Gardunha por intermédio de um moderno, exigente e descontextualizado estradão. Seria sem dúvida mais interessante se o fizesse por calçadas antigas, seguindo certamente desta forma mais fielmente os passos dos antigos peregrinos.

Valorizar os elementos patrimoniais materiais existentes ao longo do percurso seria também uma possibilidade, destacando-os e disponibilizando informação sobre eles. Tomando como exemplo a via romana entre Alcongosta e Alpedrinha, com pouco esforço se poderia dar destaque às interessantes lagaretas escavadas na rocha existentes junto à portela ou colocar em evidência as marcas de trabalho existentes nas rochas ao longo da via, marcas essas que nos dão pistas sobre onde e como foram obtidas as lajes com que foram feitos a calçada e respectivos muros de suporte.



Marcas de trabalho de extracção de pedra certamente para abertura de passagem e pavimentação da via.




Uma das lagaretas situadas junto à via Alcongosta-Alpedrinha


As soluções para pôr tudo isto em prática existem e não é preciso inventar nada. Basta saber seguir os bons exemplos. Depois, é só uma questão de sabermos capitalizar aquilo que é o factor crucial de diferenciação, que é a conjugação do nosso património natural com o património cultural material e imaterial. A receita é bem simples: basta saber valorizar o que é nosso e que define, ao fim e ao cabo, a nossa identidade enquanto filhos da Serra da Gardunha.


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