quinta-feira, março 28, 2013

Sócrates, o regresso de D.Sebastião (mas ao contrário)

Não assisti à entrevista que na noite passada mobilizou as atenções do país. Não o fiz simplesmente porque nada do que o ex-Primeiro-Ministro pudesse ter dito ou deixado de dizer me interessava. Ouvi tudo o que tinha de ouvir do cidadão José Sócrates durante o tempo em que governou Portugal, período para o qual até contribuí ao votar nele. Agora dêem-me licença que vou fazer uma pausa na escrita para ir ali fustigar-me a mim próprio com esta vareta. (...)

De Sócrates ouvi a declaração "oficial" de início da recessão ser feita quando já todos tinham percebido que o país estava em crise, tal como depois disso ouvi várias declarações anunciando o fim oficial da crise, quando todos percebiam que ela ainda estava apenas no início. Pelo meio ouvi Sócrates dizer que era anti-patriótico falar-se sequer da crise, tentando ao mesmo tempo influenciar a comunicação social para pintar um quadro de ilusória estabilidade.


Quando a economia esteve para ser revitalizada pelo Computador Magalhães, produzido pela JP Sá Couto por contrato por ajuste directo, numa altura em que a empresa teria elevadas dívidas ao fisco. A NATO tomou então parte na conspiração para fragilizar José Sócrates ao apoiar os insurgentes líbios na deposição de Kadafi.


Assisti ao anúncio de Parcerias Público-Privadas, como as que gerem agora as ex-SCUT, estabelecidas em condições que agora se afiguram como actos de gestão danosa, embora não tão danosa como o foram para a imagem do primeiro-ministro (a imagem possível de um cidadão formado ao Domingo) as sucessivas associações do seu nome a negócios menos claros. Finalmente assisti à crescente obstinação do primeiro-ministro em não abrir a porta à ajuda externa até que, de PEC em PEC, cada um deles mais austero que o anterior, e na iminência de falência, o país foi obrigado a aceitar incondicionalmente os termos impostos pelo FMI.

Enfim...! Poderia aqui passar o resto do dia a descrever tudo aquilo que ouvi da parte do nosso ex-primeiro-ministro. Basta dizer que foi suficiente, não me apetece ouvir mais nada. Confesso que quando soube que Sócrates fora contratado pela Octapharma, por bons serviços prestados, pensei que isso significasse o direito à extensão da sua ausência da vida pública portuguesa, ausência essa que fora iniciada com a fuga estratégica para o exílio dourado de Paris. Engano meu. Aí o temos novamente para se endeusar e declarar vítima de conspirações.

Fui um dos signatários da petição contra a sua entrada como comentador na RTP e achei piada aos que brandiram o estandarte mal pintado do direito à liberdade de expressão. Violação desse direito teria sido se Sócrates tivesse pedido para falar e o tivessem silenciado, como se de uma Manuela Moura Guedes se tratasse. Não foi o caso. Sócrates não pediu para falar mas foi pelo contrário convidado a colaborar com a RTP. Ora, enquanto contribuinte que sustenta a RTP com os seus impostos e taxa audiovisual, é meu o direito de contestar as escolhas e a oferta que a televisão pública faz. Não aceito, ponto final. O Socretinismo é digno de canais privados exóticos como a TVI e não de canais cuja missão seja a de serviço público.


E os "outros"? São melhores que Sócrates?

O que eu disse atrás não significa que ache Sócrates o pior da nossa classe política. É difícil atribuir esse título num campeonato no qual jogam figuras do calibre de Sócrates, Augusto Santos Silva, Miguel Relvas, Pedro Passos Coelho, Jorge Coelho, entre outros. Neste campeonato o único derrotado é invariavelmente o cidadão comum, relegado ao estatuto de mero dado estatístico, que se deixa iludir com promessas irrealistas de políticos que se vão revezando em altos cargos e se integram em teias de clientelismos e amiguismos cujas ramificações são difíceis de perceber mas que nascem de organizações cuja sigla começa por J. 

Em Portugal a classe política segue grosso modo a mesma cartilha. Promete em campanha eleitoral os antípodas daquilo que pratica mal chega ao poder e todos os políticos se assumem como donos de uma admirável infalibilidade. Quando as medidas resultam depressa enaltecem o seu mérito mas se pelo contrário algo falha, a culpa será sempre dos que os antecederam. Por esta lógica, a culpa do cenário em que hoje nos encontrámos será portanto em última análise daquele hominídeo, indeciso entre o bipedismo e o quadrupedismo que, por meio de grunhidos e demonstrações expressivas de pujança física, conseguiu o cargo não oficial de líder do seu grupo.


* traduzido do Australopitequês


Um simultâneo Persuacção / Blog do Katano

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