segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal!

Decididos a mostrar um pouco daquilo que a nossa Beira Baixa tem de melhor a uma visita vinda do Minho que acolhemos por estes dias, aproveitámos a tarde ensolarada de Domingo para ir até Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal! A subida não foi fácil mas, como sempre, valeu bem a pena. Monsanto tem aliás esse condão. Pode-se visitar inúmeras vezes (já perdi a conta às minhas visitas a este local) que não perde a magia.

(Cliquem nas fotos para ampliar)

Esta aldeia, integrante da rede de Aldeias Históricas de Portugal, situa-se no flanco de um inselbergue, um monte que se ergue, feito ilha, numa extensa planície. Monsanto é o resultado do perfeito casamento entre os fraguedos graníticos e a as construções humanas, tanto que, se algumas das suas casas não fossem caiadas de branco, a aldeia bem poderia passar desapercebida aos olhos do viajante mais distraído. 



Esta povoação tem uma história longa, mais antiga até que Portugal, remontando possivelmente aos tempos dos nossos antepassados que os romanos baptizaram de lusitanos. Foi contudo na Idade Média, com a conquista deste território pelos cristãos, que Monsanto se começaria a definir como a povoação que hoje conhecemos. 

Monsanto desenhado por Duarte Darmas no século XVI.


Tendo o território sido doado aos templários, estes logo trataram de construir um castelo no cimo do Mons Sanctus, o Monte Santo, tendo à sua volta construído uma muralha. A importância deste local era tal que recebeu sucessivamente carta de foral de Afonso Henriques e depois do seu filho D.Sancho I e bisneto D. Sancho II. Mais tarde, já no século XVI, seria a vez de D. Manuel lhe atribuir um foral novo. Portanto, desde bem cedo, Monsanto foi sede de Concelho, subsistindo alguns vestígios desse facto. A povoação situava-se inicialmente lá no alto, à sombra da protecção do castelo.


O epíteto de aldeia mais portuguesa de Portugal deve-se a um concurso levado a cabo pelo Estado Novo no final dos anos 1930, concurso esse que se destinava a premiar a aldeia que mantivesse no seu estado mais puro a sua identidade portuguesa. Pelas próprias palavras do Secretariado da Propaganda Nacional, o concurso enquadrava-se numa estratégia de "combater por todos os meios ao seu alcance a penetração no nosso país de quaisquer ideias perturbadoras e dissolventes da unidade e interesse nacional". O prémio foi entregue a 4 de Fevereiro de 1939, faz hoje precisamente 74 anos, e consistiu num galo de prata, cuja réplica se encontra hoje no topo da chamada Torre de Lucano, uma torre sineira do século XV que domina a aldeia.

A entrega do galo de prata a 4 de Fevereiro de 1939 a representantes do povo de Monsanto pelo Presidente da República, Óscar Carmona, e pelo Presidente do Conselho de Ministros, António Oliveira Salazar. Foto Rádio Clube de Monsanto


Igreja de São Salvador, datada do século XVI.

Tendo sido sede de Concelho até 1853, Monsanto ostenta ainda sinais dessa autonomia administrativa. O exemplo mais emblemático é o pelourinho, invulgar pela sua simplicidade. É preciso notar no entanto que se trata muito provavelmente de uma reconstrução ocorrida em 1936. A peça terminal foi acrescentada posteriormente, após ter sido encontrada encastrada numa casa em 1937. Tendo um valor simbólico tão grande, merecia ser mais valorizado e não atirado para o canto de um largo onde os automóveis lhe fazem concorrência.

O pelourinho de Monsanto.

 Um grande nome das letras surge associado a Monsanto: Fernando Namora. O médico escritor exerceu aqui a sua actividade entre 1944 e 1946, período que serviu de inspiração para a sua bem conhecida obra "Retalhos da vida de um médico". A casa onde morou e a casa onde teve o seu consultório estão assinaladas, existindo junto desta última um conjunto de dois bancos de pedra corridos ainda hoje conhecidos como "bancos da paciência" destinados precisamente aos pacientes que aguardavam a sua vez.

 Casa onde esteve instalado o consultório de Fernando Namora

A subida até ao castelo, o ex-libris de Monsanto, pode ser um desafio para o menos preparados mas vale bem a pena.




Nem só as habitações se misturam com as rochas. Também os espaços reservados aos animais aproveitam os blocos da encosta na sua construção, desde galinheiros a pocilgas, como é o caso da foto abaixo. 





O ex-libris de Monsanto é definitivamente o castelo, bem camuflado no topo do monte que, já por si, é uma fortaleza natural. Compreende-se bem o porquê de a fortaleza se ter mantido inexpugnável em sucessivos cercos aos quais, com maior ou menor dificuldade foi resistindo. A destruição maior foi causada ironicamente por causas naturais. Algures durante o ano de 1815, um relâmpago atingiu o castelo, que era então usado como armazém de pólvora e de munições, provocando uma explosão que o destruiu parcialmente. 

Como não podia deixar de ser, o castelo está ligado a uma lenda que exalta a irredutibilidade e engenho do povo de Monsanto. Conta a lenda que a povoação foi cercada durante 7 anos, por um inimigo cuja identidade se perdeu no tempo. Esgotando progressivamente os seus mantimentos, viram-se os sitiados com apenas um vitelo e um alqueire de trigo. Debatendo sobre o que se deveria fazer, uma idosa sugeriu uma ideia astuciosa para transformar o desespero dos sitiados no desânimo dos sitiantes. Assim, alimentaram o vitelo com o trigo e, tendo este terminado a refeição, atiraram o pobre animal do alto das muralhas para as posições do inimigo. O animal caiu sobre as rochas e despedaçou-se, espalhando o trigo à sua volta. Vendo que os habitantes de Monsanto, após 7 anos de cerco e sabe-se lá por que providências misteriosas, ainda se davam ao luxo de lhes atirar com animais tão bem nutridos, desanimaram e levantaram o cerco. 

Assim, todos os anos, a 3 de Maio, na festa da Santa Cruz, os monsantinos sobem ao castelo em procissão, transportando potes brancos cheios de flores, que depois lançam das muralhas. Simbolizam estes potes o malogrado vitelo que salvou Monsanto.




Já sei que vão dizer "Olha! Uma seteira!". Errado! Trata-se de uma troneira, ou troeira, em forma crucetada, estrutura que surgiu para colocação das primeiras peças de artilharia, os trons. Os rasgos em forma de cruz, por cima da posição circular da peça, destinavam-se a observação por parte do artilheiro.


É por vezes difícil distinguir a fronteira entre a fortaleza feita pelo homem e a fortaleza natural...




Do alto da parte mais alta do recinto do castelo, onde outrora se ergueu a torre de menagem, a visão é arrebatadora:


Penha Garcia na encosta da crista quartzítica que alberga um impressionante depósito de fósseis (ver aqui) que podem ser visitados em rotas pedestres bem sinalizadas. Penha Garcia tem muitas outras particularidades que merecem uma visita mas... não estas que em 2009 a SIC apontou e que levou a que fosse aqui publicado um artigo.

A capela de São Pedro de Vir-A-Corça avista-se no meio de rochas e arvoredo lá bem ao fundo. Tão ou mais velha que Portugal, esta capela é também ela protagonista de algumas lendas que por aqui se contam.



 Deixando o castelo e regressando um pouco nos nossos próprios passos, avista-se ali ao lado a arruinada Capela de São Miguel, no local onde outrora se encontrava a antiga povoação de Monsanto e da qual esta capela é a única construção que ainda se mantém de pé. À sua volta descobrem-se inúmeras sepulturas escavadas na rochas, as marcas derradeiras que os antigos monsantinos deixaram na paisagem.  


(Foto tirada em 2005)



Com o Sol a despedir-se no horizonte, atrás da Gardunha, foi tempo de voltar a descer e de ver a aldeia com outra luz. Aqui ficam algumas amostras:






Já no caminho de regresso ao Fundão, um último olhar em direcção a Monsanto:


Vale bem a pena visitar a aldeia mais portuguesa de Portugal. Não concordam?

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