sexta-feira, setembro 21, 2012

Macau é um país?

Longe vão já os meus tempos de frequência do ensino primário, uma etapa que, modéstia à parte, foi cumprida com notável desempenho, apesar do risco de desenvolvimento de uma certa agorafobia dado, que numa sala preparada para 30 alunos, eu partilhava o fascínio da aprendizagem com 5 ou 6 colegas.

Eu tinha aquilo que se pode caracterizar de síndrome do comportamento obsessivo pós-período curricular (tentei inventar algo pomposo e isto foi o melhor que consegui). Mas de que se tratava afinal este síndrome do comportamento obsessivo pós-período curricular? Basicamente nisto: sempre que conseguia acabar mais cedo as tarefas de que a professora me incumbia, pedia licença para me dirigir à biblioteca da escola, ou seja, o armário mais moderno da sala no qual se encontravam dispostos os livros da escola. Aí, devorava (salvo seja) o atlas que lá se encontrava, memorizando o nome dos países, as suas capitais e respectivas bandeiras. As bandeiras dos países tornaram-se para mim uma espécie de teste de Rorschach no qual, ao contrário de qualquer pessoa mais desavisada que nelas via apenas um rectângulo colorido, eu via um país, uma capital e imaginava a sua localização num planisfério.

Ora, precisamente no último fim-de-semana, vi a minha sensibilidade para as questões de geografia e geo-política seriamente feridas quando mostrava o castelo de Castelo Novo a uma ilustre visitante minhota. Ao subir a escadaria de acesso à torre de menagem, um grupo de jovens, talvez perto dos 16 anos de idade, discutia de forma acessa sobre esta temática e uma pergunta atirada para o ar captou a minha atenção:



- "Mas afinal Macau é o quê? É um país, não é?", questão que motivou alguns risos entre os jovens. É claro que eu fingi-me indiferente e até fiz questão de o dizer: "Eu não ouvi nada!", passando por eles com ar verdadeiramente indiferente, como se estivesse extremamente concentrado e fascinado no efeito que os líquenes estavam a ter sobre o material ligante nas juntas das pedras de granito que compõem a torre.

Após alguns minutos, e já revigorados pela vista e pelo ar fresco, regressámos pelo mesmo caminho onde ainda se encontrava esse grupo de jovens que discutia ainda sobre a mesma temática. Desta vez, apesar da falta de conhecimentos, notava-se uma nítida vontade de aprender: -"Mas então vamos lá ver. A Guiné e isso tudo, eram colónias, certo? Então e agora são de quem?". "Pertencem a Macau!", pensei eu. Pensei mas não disse, já que outra questão bem mais importante me veio à mente: que raio de geração Morangos com Açúcar / Casa dos Segredos é esta, que nem sequer conhece o Mundo em que vive? 


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