segunda-feira, outubro 12, 2009

Eleições Autárquicas - Eleições à boa maneira portuguesa

Infelizmente para Santana Lopes, nem o facto de ter sido apoiado por Carmona Rodrigues (e de ter sabido desse apoio antes mesmo de Carmona saber que ia apoiar Santana) foi suficiente para evitar a vitória de António Costa com maioria absoluta.


15 dias depois das legislativas e da "vitória estrondosa” do Partido Socialista, Portugal foi hoje animado pelas eleições autárquicas e, como tem sido tradição, vários partidos reclamaram vitória. O PSD porque foi quem conseguiu mais câmaras municipais, porque ficou com a presidência da Associação de Municípios e da Associação de Freguesias. O PS porque conseguiu maior número de votos e o maior número de mandatos, para além de ter obtido mais votos do que nas anteriores autárquicas. O CDS porque aumentou o número de votos e obteve mais mandatos. Sobram a CDU e o Bloco de Esquerda. O primeiro partido alegou estar a ser alvo de uma conspiração para a sua desvalorização mas, ainda assim, acha que conseguiu resultados importantes, enquanto o segundo lamentou a não eleição de deputados para Lisboa e Porto mas congratulou-se com o aumento do número de votos em relação às últimas autárquicas.

Em suma, tudo isto soa um bocado à conversa de alguém que acabou de ter uma refrega com outra pessoa com o dobro do seu tamanho e que se congratula por, apesar de ter sofrido sérios danos estruturais no organismo, ter conseguido ainda assim infligir escoriações com o maxilar nos punhos do adversário.


A campanha de Élio Delgado apostou arrojadamente num cartaz onde o candidato surge acompanhado pelo Homem Invisível em pessoa, que assume ter uma especial afinidade pelo Concelho de Aveiro. A aposta foi certeira e o candidato conseguiu mesmo a maioria absoluta. Isto prova que apostar em celebridades compensa, desde que estas não assumam publicamente que descascar fruta é uma seca.


Podem dizer o que quiserem do Jerónimo de Sousa mas que este cartaz lhe dá razão quando diz que o PS pisca o olho à direita, isso dá. Ana Gomes, histórica defensora dos direitos do proletariado pelo MRPP mas militante de longa data do PS, assume-se aqui descaradamente como uma mulher "às direitas" e nem o facto de aparecer à esquerda no cartaz serve de desculpa.


Seja como for, constitui um erro primário fazer-se uma leitura nacional dos resultados de eleições autárquicas uma vez que, na realidade, estamos perante um mosaico de micro-realidades muito diferentes umas das outras, cujos resultados eleitorais dependem muito mais da apreciação de desempenho individual e da ligação de certo modo afectiva aos candidatos por parte do eleitorado, passando a identificação partidária para segundo plano.

No conjunto dessas micro-realidades há casos particulares que merecem destaque. Primeiro foi o conjunto de casos insólitos que, à boa maneira portuguesa, foram acontecendo durante o dia. Desde um candidato no distrito de Setúbal que pedia, à porta do local de voto, que votassem nele, passando por outro que, lembrando que tinha prometido, caso ganhasse, oferecer uma carrinha para apoio a deficientes e resolveu “inocentemente” estacioná-la junto ao local de voto, até ao caso trágico da freguesia do Ermelo onde o candidato do PS resolveu reduzir o número de apoiantes da sua opositora, abatendo o marido desta a tiro logo de manhã. Como estamos em Portugal, tenho de perguntar: com um processo criminal “às costas”, será que este candidato ainda se vai apresentar a eleições?

Noutras bandas, falando de algumas figuras mais particulares do meio político, Valentim Loureiro foi reconduzido à liderança da Câmara de Gondomar o que motivou efusivos festejos por parte da população do município, da família Loureiro e de diversas marcas de fabricantes de electrodomésticos, para além de certos sectores da EDP.

Isaltino Morais também venceu, isto apesar de estar à espera do resultado do recurso que interpôs no processo em que foi condenado a 7 anos de prisão efectiva e perda de mandato pela prática de corrupção passiva. Fazendo minhas as palavras de Miguel Sousa Tavares, não deixa de ser paradoxal que os portugueses se queixem que os políticos são todos uns corruptos e uns vigaristas e que, perante um autarca que reconhecidamente o poderá ser, acabem por votar nele.

Mas felizmente nem todos são assim. Fátima Felgueiras foi finalmente apeada do poder que detinha desde 1997 e após um último mandato ao qual se tinha candidatado como independente na sequência do caso do “saco azul”.

Também o notável Avelino Ferreira Torres, candidato de última hora após o Tribunal Constitucional ter dado provimento ao seu recurso da decisão do tribunal de Marco de Canaveses que o dava como inelegível, foi derrotado sumariamente. Ao fim e ao cabo, é bom constatar que há certas zonas onde ainda reina algum bom senso.


Erro fatal! A perspectiva de levar, não com um, mas com 3 exemplares de Avelino Ferreira Torres foi mais do que a população de Marco de Canaveses poderia suportar e a maioria absoluta acabou por ser conquistada pelo PSD. Resta agora saber, nas duas vagas conquistadas, qual dos 3 Avelino ficará de fora. Eu aposto no de fato-macaco.


Aqui pelo burgo, Manuel Frexes ganhou novamente e com expressiva vantagem de 5 mandatos contra 2 do PS, preparando-se para iniciar o 3º mandato consecutivo como presidente da Câmara Municipal do Fundão. Na assembleia municipal os resultados foram bipolarizados mais uma vez, com a lista do PSD a assegurar 18 deputados municipais contra 11 do PS.

No calor da vitória, Frexes discursou nas escadarias do Pavilhão Multiusos frente a um grande número de apoiantes e após a tradicional introdução de parabenização aos eleitores, resolveu desancar o PS preferindo destacar a derrota destes e criticando duramente a forma como haviam feito campanha mas terminando curiosamente com um apelo à união em prol do Concelho do Fundão. O discurso foi inicialmente um pouco atribulado pois, se algumas dificuldades técnicas atrasaram o seu início, quando finalmente Frexes começou a falar, surgiu a caravana automóvel do PSD buzinando furiosamente o que dificultou bastante as tentativas de ouvir o autarca.

Com o fim das eleições autárquicas chega também ao fim um intenso ciclo eleitoral e o país regressa agora à normalidade possível e a um maior sossego. Aliás, o desassossego provocado pelas campanhas é um tema que abordarei num próximo artigo.


Apesar de o ar bronzeado sugerir que se tratava de um candidato que conhece Mundo, o eleitorado que sabe que acima de Mangualde ainda existe muito Portugal (pelo menos até Montalegre) não perdoou a ignorância e deu a vitória com maioria absoluta ao PS. Por vezes, na preparação das campanhas, dar uma vista de olhos pelo Google Maps não custa nada, senhor.


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