quarta-feira, agosto 12, 2009

Por Entre Douro e Minho - A Citânia de Briteiros

Os últimos dias foram passados em périplo por terras de Entre Douro e Minho, tendo a ocasião sido aproveitada para visitar alguns locais e sítios arqueológicos relevantes da região. Os castros, povoações muralhadas da Idade do Ferro (cerca de 500 a.C.), mereceram alguma atenção, com 2 deles (entre muitas dezenas!) a serem visitados: Briteiros e São Lourenço - Esposende. Os próximos artigos irão abordar o que de mais relevante visitámos.


A Citânia de Briteiros

A Citânia de Briteiros situa-se entre Braga e Guimarães, junto à localidade de Salvador de Briteiros e é em conjunto com a Citânia de Sanfins, em Paços de Ferreira, um verdadeiro ícone da cultura castreja na Península Ibérica.

O local onde se encontra o castro, que era o centro político da tribo dos Brácaros, cujo território estava compreendido entre o Douro e o Lima, à chegada dos romanos, foi ocupado desde tempos mais remotos, facto comprovado pela descoberta de vários vestígios pré-históricos.

Quanto ao castro, terá tido ocupação efectiva a partir do séc. II a.C. e até ao séc. III d.C., tendo sido fortemente romanizado a partir do séc. I d.C., como é possível comprovar tanto pelos vestígios encontrados nas escavações como pelas construções quandrangulares que se encontram um pouco por todo o lado.


As mais de 150 habitações da Citânia, defendida por 4 linhas de muralha, organizam-se a partir do cruzamento de duas ruas principais lajeadas, a partir das quais se desenvolvem outras ruas secundárias. O tecido habitacional está dividido em pequenos conjuntos familiares que, na época, eram fechados de forma a garantir alguma privacidade. Numa das ruas era canalizada água que provinha de uma nascente situada dentro da povoação e que a levava até ao sector dos banhos.

No topo da Acrópole, o ponto mais alto da Citânia, encontram-se duas habitações reconstruídas sob a direcção de Martins Sarmento, arqueólogo cujo nome está intimamente ligado à Citânia e que começou a escavá-la em finais do séc. XIX. Pelo que se sabe hoje, as casas estão mal reconstruídas (as paredes deveriam ter cerca de 1/3 da altura das casas, e o telhado de colmo deveria ser mais alto e mais inclinado) e desajustadas do contexto envolvente. Aparentemente, o próprio Sarmento não terá ficado muito contente com o resultado final destas.

Junto às casas reconstruídas encontra-se algumas inscrições rupestres, uma delas dando conta do nome do proprietário de uma da casas: Camalo. Perto dali, várias sepulturas medievais e um cruzeiro atestam a existência de um santuário ou ermida entretanto desaparecido.



Muitas das casas circulares apresentam um aparelho construtivo helicoidal, visível nesta fotografia. A necessidade de espaço terá levado à construção das estruturas tipo "pata de caranguejo", uma espécie de vestíbulo da habitação. O espaço do átrio, área comum para a qual desembocavam todas as outras casas desse núcleo familiar era também lajeado.


Mais isolada surge a enorme Casa do Conselho onde teriam lugar reuniões de cariz governativo. Sendo esta a capital política dos Brácaros (Callaeci Bracari) é de supor que aqui tivessem lugar reuniões com os chefes dos restantes castros da tribo. Também se tomariam aqui decisões de cariz administrativo local. Junto à parede vê-se um largo banco corrido em pedra e é sem dúvida irresistível imaginar os vários líderes aqui sentados em acesa discussão sob um enorme telhado de colmo e à luz de uma lareira.



Interessantíssimo é sem dúvida o edifício dos banhos. Este edifício, o único edifício balnear conhecido até às escavações de 2006, estava dividido em 4 secções: o átrio onde se encontra um tanque de água fria alimentado pela nascente dentro da povoação, uma sala intermédia que serviria de vestiário e para adaptação térmica do corpo à sala seguinte, da sauna, à qual se acedia rastejando por uma pequena abertura semi-circular na base da chamada Pedra Formosa, uma impressionante laje pentagonal. A última secção consistia no forno que produzia o calor e o vapor de água. Este último era obtido pelo derramar de água sobre pedras aquecidas.

Na foto seguinte, um cidadão completamente anónimo e voluntarioso, disponibilizou-se para, perante o cepticismo de que foi alvo e à custa da limpeza do próprio vestuário, exemplificar a passagem dos banhistas pela Pedra Formosa, neste caso saindo da sala da sauna.


O propósito dos banhos é ainda alvo de discussão. Se o geógrafo e historiador grego Estrabão refere que estes povos tomavam banho "à maneira grega", isto é, fazendo sauna e depois mergulhando em água fria (neste caso seria nos tanques do átrio do balneário), isto com o único propósito de limpeza e relaxamento corporal, já outros autores sugerem um propósito cerimonial iniciático. Os banhos poderiam ser um local onde se contactava com os deuses, sendo as visões propiciadas pela inclusão de centeio (afectado muitas vezes por um fungo de características alucinogénicas) ou mesmo de alguns cogumelos.

Fica aqui a descrição que João Aguiar faz de um banho dos Brácaros na sua obra "Uma Deusa na Bruma", à luz da segunda teoria:

"(...) os banhos (...)lavavam os corpos, mas eram também um santuário consagrado a Nábia e serviam, em certas ocasiões, para lavar as almas, permitindo por vezes, àqueles suficientemente fortes para o suportar, um contacto directo com os deuses. (...)

Saíram da cidade pela porta nobre e desceram o morro. Em torno dos edifícios dos banhos, comprimia-se uma pequena multidão, os pais dos rapazes que seriam iniciados nessa manhã. (...) A espera foi longa e fatigante e eles tinham os estômagos quase vazios. De tempos a tempos, saíam os iniciados, em grupos de dois, completamente nus e trazendo as marcas da experiência por que haviam passado: uns cambaleavam, como que entontecidos, com o olhar vago; outros choravam; outros, ainda, caminhavam aos sacões, agitados por um riso nervoso. (...)


A Segunda Câmara era muito semelhante à divisão anterior e também tinha, como ela, bancos de madeira. Única diferença: estava saturada de vapor de água, uma névoa morna que se colava à pele. No lado oposto ao da entrada, a parede, feita de um só bloco de pedra, mostrava uma abertura pequena, de arco redondo, rente ao chão. (...) Para entrar na Primeira Câmara, um de cada vez, era preciso sentar-se no chão e introduzir as pernas em primeiro lugar; depois, agarrando-se com as duas mãos ao entalhe escavado na pedra, por cima da abertura, impulsionava-se o resto do corpo para dentro.


(...)A Câmara de Iniciação era um compartimento muito menor do que o anterior e não tinha bancos. Tinha, em compensação, no lugar oposto ao da abertura da entrada, um recesso rectangular. Aí, sobre uma grelha de ferro, estendia-se uma grossa camada de seixos certamente trazidos da beira-mar; por baixo, ardia uma fogueira cujo fumo se escapava pela parte de trás, que era aberta, mas não visível para quem se encontrasse no interior.


À altura do tecto, havia um largo orifício que, destapado, servia para observar o que se passava na Câmara e tinha ainda outra finalidade: quando os dois rapazes entraram, um acólito lançou através dele um largo punhado de grãos de centeio; e, após breves instantes, verteu uma certa quantidade de água proveniente da fonte do santuário. Ao contacto com as pedras aquecidas, a água transformou-se quase instantaneamente em vapor, o pequeno recinto encheu-se novamente de bruma espessa que carregava o cheiro activo do centeio."


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