quinta-feira, setembro 20, 2007

Por terras dos Francos VIII


Desde que estamos aqui, a nossa antiga vida ruiu, sem que tenhamos contribuído para tal. Temos tentado, mais de uma vez, procurar a razão e a explicação, mas não o temos conseguido de modo satisfatório. Precisamente para nós, que temos 20 anos, tudo está particularmente anuviado: para Kropp, Muller, Leer e eu, para todos nós a quem Kantorek chama mocidade de ferro.

Os soldados mais velhos estão solidamente ligados ao passado. Possuem uma base, famílias, filhos, profissões e interesses já bastantes fortes para que a guerra não seja capaz de os destruir. Mas nós, com os nossos 20 anos, só temos os nossos pais e, alguns, uma amiguinha. Não é grande coisa.

Na nossa idade a autoridade dos pais está reduzida ao mínimo e as mulheres ainda não nos dominam. Fora disto não havia em nossas casas mais coisa alguma: um pouco de sonho extravagante, algumas fantasias e a escola. A nossa vida não ia mais além. E de tudo isto nada resta.

O Kantorek diria que nós nos encontrávamos precisamente no limiar da existência. É assim, efectivamente. Não tínhamos ainda criado raízes. A guerra, como um rio, levou-nos na sua corrente. Para os outros, de mais idade, ela não passa de um intervalo. Podem pensar em alguma coisa fora dela. Mas nós fomos apanhados por ela e ignoramos como isto acabará. O que sabemos simplesmente, neste momento, é que nos tornamos nuns brutos de uma forma estranha e dolorosa, ainda que muitas vezes não possamos já sentir a tristeza.

Erich Maria Remarque in “A Oeste nada de novo”, Europa-América 1929

Erich Remarque serviu no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial tendo sido ferido por 5 vezes e tendo sido reenviado outras tantas para a frente de combate. No final da guerra, impressionado pelos horrores vividos nas trincheiras, escreveu um livro no qual conta a história de um soldado alemão que vê morrer os seus valores, o seu modo de vida e finalmente os seus camaradas, acabando ele próprio por morrer.

Na sua obra, retrata o absurdo da Guerra e o estado de espírito dos soldados que tinham pura consciência de estar a combater numa luta que não era a deles.

O título da obra é extraído de um célebre e telegráfico comunicado de situação de combate na Frente Ocidental (segundo a perspectiva alemã) e é um paradigma da guerra das trincheiras: "Nada de novo na Frente Ocidental."

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