segunda-feira, agosto 22, 2005

Este país é uma vergonha

Não bastava estarmos na "cauda da Europa"; não bastava termos um défice gigantesco e a certeza de que só chegaremos ao nível médio europeu actual daqui a umas décadas (não importa, continuamos a gozar o maior período de férias); não bastava termos o maior número de infectados com o HIV, doentes de cancro, pacientes cardíacos a as maiores listas de espera na saúde; não bastava sermos um país triste, amorfo, ignorante, avestrudesco, sem desejos, projectos nem ambições. Não bastava já essa longa lista de traumas, complexos e incompetências, ainda temos que ver todos os santos verões a repetição desse filme de terror intitulado "Portugal a arder".

Todos os anos, lá vêm esses palhaços que ocupam os lugares de poder dizer que vão ser gastos x milhões de euros nisto, xx milhões naquilo, que mandamos vir equipamento e construir infrasestruturas, que "estamos a trabalhar", "vamos corrigir o que tem sido mal feito", etc . Eles mentem! Não acredito numa única palavra!

Todos os anos alguém pega fogo algures por razões que ultrapassam a minha capacidade de comprensão e todos os anos os nossos cidadãos automobilizados, esses exemplos de cidadania e respeito pelo próximo, atiram beatas de cigarro pela janela fora com a maior das descontracções, provavelmente enquanto ultrapassam numa curva e em traço contínuo.

Todos os anos a mesmíssima coisa.
Tenho vergonha de ser portuguesa!

6 comentários:

Caetano disse...

Sendo sincero, por vezes sinto uma enorme vontade de justiça popular em forma de cacete aplicada repetidas vezes nas zonas craniana e costal de determinados indivíduos que são invariavelmente considerados inimputáveis ou "castigados" com um desumano termo de identidade e residência.

Xamane disse...

É simples, enquanto continuarem a existir empresas privadas de aviação, estrangeiras ou nacionais que cobram mais de 4000 euros por hora de helicóptero no combate aos incêndios... é fácil de ver não? Acredito sinceramente que a questão das beatas, negligência popular etc, seja uma minoria no panorama dos incêndios. Como me dizia este fim de semana um idoso enquanto ao meu lado observava as agilosas manobras de 2 hélis num combate a um incêndio no Souto da Casa: "à 20 anos atrás não havia helicópteros nos incêndios, os autotanques eram poucos, mas os incêndios começavam de manhã e acabavam à noite, agora andam uma semana a arder..." Sintomático não?

Caetano disse...

Há 20 anos o pinhal também não estava abandonado como está actualmente e o mato não chegava à porta das casas como chega hoje. Há muitos interesses envolvidos é certo, mas a população civil persiste em alhear-se do seu dever na preservação da florestas: acessos e limpeza. Continua a ser mais fácil gritar e pedir subsídios que cortar meia dúzia de moitas.

Wolverine23 disse...

Que tal começar por punir os incendiários com penas de 5 anos no minimo de prisão, onde durante 3/4 anos têm de ir para as florestas limpa-las, assim talvez dissessem quem são os mandantes para se começar a incriminar os verdadeiros culpados;
Aqui temos duas questões: Primeiro, colocava-mos as nossas tropas a vigiar os presos detidos por este e por crimes não graves na limpeza das matas e outros problemas similares, PREVENÇÃO é a palavra. Segundo, se os verdadeiros culpados fossem incriminados, talvez, talvez estes tomassem respeito á justiça se começassem a ver os seus a serem detidos, aqui encontram-se donos de meios de combate aos incêndios (avionetas,...), donos de empresas de madeiras que beneficiam com o preço da madeira queimada, pk esta muitas vezes é cortada depois de queimada e vendida como boa (normalmente os troncos não ardem por dentro).

Depois temos a questão do abandono consecutivo das terras pelos seus proprietarios, porque as pessoas são de idade e vão morrendo ou saem de lá, depois pk os seus filhos preferem (ganham mais dinheiro) ir para Lisboa ou emigrar á procura de umas melhores condições de vida (o que é legitimo).
Assim passa a competir ao estado (miseravelmente dirigido nestas questões) tomar atitude para remediar o caso e efectuar a PREVENÇÃO necessaria para que este flagelo nacional não volte a acontecer até não haver mais nada para arder.
Do meu ponto de vista, como?
Em cada Distrito, haver a criação de um nucleo empresarial que pergunte a todos os proprietarios dos terrenos o que vão fazer com as terras que lhes pertencem, se estes não souberem ou não responderem, ficam com um prazo de 3 meses para resolver o assunto, senão o estado expropiará o terreno. INJUSTO, talvez, e não será injusto para os seus vizinhos que limpam as matas e gastam rios de dinheiro na criação de florestas de onde mais tarde esperam tirar dividendos fruto do seu trabalho. Assim este grupo empresarial da região coordenara todos os proprietários para um objectivo, têm que ser pequenas associações para se criar um movimento que faça andar o país para a frente, ah, e têm de ser as PESSOAS CERTAS á frente destas associações.

Acredito que como tu (Joana) exista muita gente que esteja revoltado com esta situação, o problema é mesmo o modo de como se faz politica em Portugal e consequentemente a forma como se comanda este pequenino Portugal, colocando sempre os seus (politicos) interesses á frente do Pais que infelizmente naufraga sem rei nem roque para um caos anunciado em muitos aspectos da nossa sociedade que são fruto da nossa indignação e revolta justificada.

Que não se perca a esperança de um futuro por nós criado melhor do que o actual presente.

PequenaJoana disse...

Eis como as coisas se fazem num país avançado (do Blog Rua da Judiaria):

"Nas conversas telefónicas diárias para Portugal é impossível não falar de incêndios. E prevenção, que raio será isso? Lembrei-me de um exemplo vivido na primeira pessoa, quando morei em Hollywood Hills, uma área de Los Angeles fortemente arborizada, quase “selvagem”, onde diariamente se dá de caras com veados, coiotes, esquilos e doninhas a caminhar calmamente nas ruas. No final da Primavera, todos os anos, passava por lá um fiscal dos bombeiros que metia uma carta nos correios, dando aos moradores um prazo de três semanas para limpar a mata em redor das suas casas. Terminado o prazo, o fiscal fazia uma nova ronda e o incumprimento do aviso dava direito a uma multa entre €500,00 e €2500,00, ou pena de prisão até um ano. Numa região onde as casas são construídas totalmente em madeira, as autoridades aprenderam há muito que levar a sério a prevenção de incêndios é a única solução aceitável. Nos anos que ali morei nunca conheci ninguém que não limpasse a mata. E tenho até algumas saudades das tardes que passei de enxada na mão, com o gigantesco contorno branco e desnivelado do letreiro de Hollywood empoleirado nas montanhas ao fundo da paisagem. "

Xamane disse...

Comparar Hollywood, sua qualidade e condições de vida com o interior profundo de Portugal, constituído pelas aldeias de velhinhos com reformas de 150E (os que as têm)não me parece muito adequado. Provavelmente a maior parte dos habitantes de Hollywood paga a quem lhe faça a limpeza da mata em volta da casa...

Mas contudo, concordo com a questão da prevenção, sim limpar o mais possível as matas, construir aceiros etc. Tudo isso ajuda a evitar e depois a combater os incêndios, mas na minha opinião não é o ponto fulcral, ou seja a prevenção deverá ter (também) outra orientação. Limpar a mata em volta da casa serve principalmente para evitar que as casas ardam, são raros os incêndios que começam nos quintais de alguém mas são muitos os que lá chegam (o exemplo do churrasco do espanhol é a excepção que confirma a regra).

Continuo a por o enfoque na questão da mão criminosa, não acredito na inocência de fogos que se iniciam com 15min de diferença uns dos outros e que distam 10 ou 20 km. Os animais que fogem em chamas de um incêndio não conseguem correr 10km. A questão do sol que bate num vidro caído na mata e que ateia um fogo...por favor...é quase um mito, é mínima a possibilidade de isso acontecer.

Enquanto houver interesses nos incêndios não há mata que resista, por mais limpa que esteja. Como é possível que o governo deixe florescer certos negócios em torno dos incêndios? Enquanto os incêndios forem o principal lucro de certas empresas eles continuarão a ser ateados. É esse o ponto fulcral. É simples, há fogo, a empresa sobrevive, não há, vai à falência, o que acham que algumas farão? É obvio! O governo ajuda requisitando os serviços dessas empresas, dando-lhes o dinheiro a ganhar. O estado deveria ser o único detentor dos meios de combate aos incêndios, é sua responsabilidade e dever equipar-se convenientemente. O que fazem milhares de soldados nesta altura do ano nas casernas? De certeza que a maior parte ou pelo menos muitos se ofereceriam para voluntariamente combater os incêndios. Em vez de submarinos porque não comprar mais helicópteros? Se é lucrativo para as empresas privadas adquiri-los significa que é compensador para o estado fazer o mesmo. Basta fazer o papel que é dele, se consegue ter os meios suficientes não precisa dos meios dos outros, anula a ´concorrência’ , elimina uma possível causa.

Não falo de um estado totalitarista que queira regulamentar o mercado em prol dos seus interesses, basta um estado que entre no mercado como todos os outros e cumpra o seu dever, o mercado naturalmente adaptar-se-á.

O problema é que os interesses também devem chegar as mais altas instâncias, daí que, como dizia a Joana, todos os anos seja a mesma coisa…

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