quarta-feira, março 10, 2010

De Vigo a Santiago de Compostela II - Na capital da Galiza

Relativamente à crónica da nossa viagem por terras da Galiza, uma espécie de Muito Alto Minho no qual percebemos que acabámos de entrar quando deixamos de ver lojas com atoalhados, tínhamos ficado na descrição do Parque do Castro em Vigo, um interessante parque arqueológico dedicado à cultura castreja e com vista para a Ria de Vigo.

Animados por essa injecção de cultura, fizemo-nos à estrada para Norte, seguindo o Caminho de Santiago, e sobrevivendo às curvas e contra-curvas, ao trânsito mais intenso, à fome e a uma piada sobre bonsais menos conseguida que a condutora achou por bem atirar.


A cidade de Santiago de Compostela, capital da Galiza, é uma cidade que nasceu e cresceu em torno de um túmulo, situado actualmente sob o altar-mor da catedral, e que impressiona pela monumentalidade do seu centro histórico. Em termos religiosos é uma das cidades santas do Cristianismo, tendo na Idade Média sido comparável em termos de importância a Jerusalém ou a Roma.

O túmulo do apóstolo Tiago é sem dúvida a alma e a razão de ser desta cidade mas... serão mesmo de São Tiago os restos mortais que se encontram numa elegante urna de prata sob a estátua do Santo? Diz a história escrita com a pena da fé que, depois de ter vindo evangelizar a Hispânia, Tiago terá regressado à Palestina, onde morreu supliciado. O seu cadáver terá sido trazido de volta por dois discípulos e, à falta de documentos históricos que o atestem, diz a lenda que terá sido sepultado no monte Libredón, onde hoje se situa a catedral.

Uns 7 séculos mais tarde, um eremita (ou pastor) afirmou ter avistado estranhas luzes sobre o monte. No local terá sido encontrado um conjunto de restos mortais que o clero de imediato identificou como pertencendo a Tiago e seus dois discípulos. Terá sido esta uma descoberta extraordinária tendo em conta que ocorreu num local conhecido como Campus Stellae (Campo de estelas / Cemitério)?

O que é certo é que a Cristandade assumiu que se tratava efectivamente de São Tiago e o local tornou-se um centro de peregrinação e, a pouco e pouco, em torno do pequeno templo ali erguido, começou a formar-se aquela que é hoje a cidade de Santiago de Compostela, uma cidade que vale a pena visitar.



A Catedral de Santiago de Compostela domina a chamada Praza do Obradoiro, em oposição ao Pazo de Raxoi, sede da Junta da Galiza e do Conselho Cultural. A Praça é assim chamada por ter sido o local do estaleiro das obras de construção da actual fachada da Catedral e, no seu centro, encontra-se simbolicamente assinalado o quilómetro 0 dos Caminhos de Santiago que aqui trazem todos os anos milhares de peregrinos.


Por ser um ano santo, ano de Xacobeo, pelo facto de a data em que se assinala o suplício de São Tiago (25 de Julho) coincide com um Domingo, a porta sagrada da catedral encontra-se aberta, dando acesso directo à passagem que leva à imagem do santo. As ombreiras da porta estão extremamente polidas, dando uma ideia do número de peregrinos que já as afagaram antes de se benzerem, como manda a tradição. Também a tradição manda que se abrace a imagem do santo, sendo por isso legítimo afirmar que este é um dos santos menos carentes do extenso panteão católico.


Sob o altar-mor, descendo uma escadaria através de uma estreita passagem, pode ser visitada a urna que supostamente conterá os restos do santo, no extremo de uma cripta fechada. Sobre a urna pende uma estrela, símbolo das tais "luzes" que terão levado à descoberta do corpo do santo.



Uma caminhada pelo centro histórico de Compostela constitui um excelente passeio pelo tempo. As ruas são ladeadas por arcadas e desembocam inevitavelmente na catedral. Dado o frio que estava, impôs-se uma paragem num café de aspecto muito agradável (porque também os há em Espanha!) para comer um belo de um bocadillo de "presuntio" serrano.



Entre as várias ruas de Santiago encontra-se a Ruela de Entrerruas, uma das ruas invulgar pela sua reduzida largura capaz de fazer surgir uma inquietante dúvida no espírito dos turistas que instantes antes tenham por exemplo ingerido um bocadillo de dimensões apreciáveis.


No entorno da catedral as construções monumentais são muitas, como por exemplo o imponente mosteiro de San Martiño Pinario que oferece uma vista privilegiada sobre o templo maior da cidade.


Em zona "extramuros" encontra-se um parque curioso, construído a partir de um antigo cemitério. Aqui, numa zona verde onde tivemos oportunidade de mostrar aos locais a qualidade do futebol português (se fosse em Vigo rir-se-iam de nós), após a entrada através de um majestoso portão de ferro forjado do século XIX, os trilhos serpenteiam entre blocos de compartimentos selados junto a um antigo convento. Abstraíndo-nos do lúgubre, é um local que convida à descontracção.
Ali perto, mais um marco português: o edifício do Centro Galego de Arte Contemporânea tem a assinatura de Siza Vieira.



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