terça-feira, outubro 28, 2008

Verona de Shakespeare

Intencionalmente, na posta anterior não falei de Verona como a cidade que serviu de cenário à peça de Shakespeare Romeu e Julieta e que, desde então, a cataloga como “A cidade dos namorados”. Não o fiz por dois motivos: porque descobri em Verona imensos pontos de interesse que a tornam, por si só, um local de passagem obrigatório – afinal, ela é Património Mundial da Unesco desde 2001 – completamente à parte do lixo turístico que se propagandeia com o triste fado dos jovens amantes de famílias rivais e porque, falando ontem de História, esta história não passa de uma lenda alimentada pelos veroneses.

O enredo da peça de Shakespeare não foi, como muitos podem pensar, pensado por ele, mas sim por Arthur Brooke no seu poema narrativo The Tragicall History of Romeus and Juliet, de 1562. Ora, a dramatização desse poema na peça de título original The Most Excellent and Lamentable Tragedy of Romeo and Juliet aconteceu entre 1591 e 1597, com algum melhoramento de personagens por parte de Shakespeare. Por sua vez, Brooke inspirou-se numa história de Masuccio Salernitano de 1476, Mariotto e Gianozza, que foi ainda adaptada por Luigi da Porto em Istoria novellamente ritrovatta di due Nobili Amanti (História novamente encontrada de dois amantes nobres), que conferiu os nomes Romeus e Giulietta às personagens principais e mudou o cenário de Siena para Verona. Se há quem saiba disto, porquê tentar fazer da lenda História?

Foto 1 - Casa di Giulietta.

Ainda que alguns historiadores afirmem que existiu uma família Montecchio (suposta família de Romeu) naquela cidade, não há quaisquer registos de uma família Capuleto. A casa do séc. XIII que faz as delícias dos turistas, chamada de “Casa di Giulietta”, terá pertencido à família Cappello e não Capuleto. O próprio balcão onde estaria a Julieta na peça foi ali colocado posteriormente à contrução da casa, já que a datação é diferente (creio que mais antigo), julgando-se que este é proveniente de um palácio que existia junto ao rio. Como é que eu sei disto? Ora, estava eu confortavelmente sentada em frente ao balcão, pasmada a observar o rol de turistas que entravam disparando “flashadas” para todo o lado e fazendo fila para colocar a mão no seio da Julieta como ritual de fertilidade, quando atentei na conversa de uma guia com dois ou três turistas ingleses. Desta conversa descobri ainda que a verdadeira história não é contada, por exemplo, aos turistas japoneses, uma vez que a desmistificação do sonho de uma visita a um local tão emblemático do Ocidente os deixaria extremamente frustrados após uma viagem tão longa (vá-se lá saber as consequências de ter por perto dezenas de japoneses frustrados…).

A propaganda turística chega ao ponto de haver um suposto túmulo para esta fantasiosa Julieta, a “Tomba di Giulietta”. Um túmulo de… 1937. E paga-se 4,5 euros para o ver, o mesmo que para visitar o Museu do Anfiteatro Romano, com pedaços de História inestimáveis. Creio que é uma parte de Verona que nunca conhecerei.

A meu ver, Romeu e Julieta, Tristão e Isolda e tantos outros pares românticos do imaginário popular, bem como aqueles que nos são mais próximos e bem reais, como Pedro e Inês, servem apenas para nos relembrar, através da obscuridade dos séculos, a essência do Amor.

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