quarta-feira, julho 09, 2008

A Calçada do Diabo

Faço com este artigo uma pequena incursão de cariz mais etnográfico e popular, fazendo referência a uma curiosa lenda sobre uma calçada, actualmente em vias de desaparecer, que percorre alguns quilómetros, desde o sítio conhecido como Portela até ao santuário da Senhora da Orada, junto à vila de São Vicente da Beira. Nesta vila, terá D. Afonso Henriques depositado um osso pertencente ao conjunto de relíquias de São Vicente que tinham acabado de chegar a Portugal, mas isso é outra história.




Sobre a calçada então, já ouvi duas histórias curiosas mas a que reproduzo a seguir é a mais vulgarmente escutada nas gentes de Vale de Urso.

Conta-se que certo homem havia sido encarregue de construir uma calçada no desfiladeiro que levava ao santuário da Senhora da Orada mas, perante tal desafio, ele desesperava pois sentia não ser capaz de levar tal tarefa a bom termo.

No auge do desespero, o homem ergueu a voz e jurou bem alto que seria até capaz de entregar a alma ao Diabo se este lhe construísse a calçada. Ora, não foi preciso mais para, de imediato, o Demo lhe aparecer com uma proposta tão tentadora quanto terrível: ele encarregar-se-ia de construir a calçada numa noite, antes que o galo cantasse, se o homem lhe entregasse a alma.

O Diabo, como é sabido, consegue ser tentador fazendo-se mesmo ouvir quando os homens tapam os ouvidos e, perante a perspectiva de ser aclamado como responsável de tal proeza, o pobre homem acedeu e firmou o trato.

De imediato o Diabo meteu mãos à obra e, laje após laje, a calçada ia-se desenhando na paisagem como um risco que se estende sob um lápis tão gigantesco quanto invisível.

Subitamente, o pobre homem despertou do torpor da sua ambição e deu-se conta do acto terrível que tinha acabado de cometer. Em desespero, ajoelhou-se e rezou à Virgem para que lhe perdoasse tão terrível pecado e lhe valesse neste hora tão difícil. Na sua infinita misericórdia, a Virgem apiedou-se do pobre homem e, num milagre, o canto do galo ecoou no silêncio da noite, reverbando pelo vale.

Praguejando, o Diabo desapareceu por não ter conseguido cumprir o acordo, isto quando apenas faltavam colocar duas lajes... As mesmas que, até à pouco tempo, os mais idosos apontavam e diziam "Estas o diabo não teve tempo de assentar".

Podemos dizer, em jeito de brincadeira, que este caso terá sido o primeiro e único caso da história da construção civil nacional em que a derrapagem da obra não se deu por o empreiteiro ter ultrapassado o prazo mas sim por ter sido sujeita a um prazo que ultrapassou o empreiteiro... ou um galo que cometeu fraude sobre o empreiteiro... ou algo do género.

Fotografia tirada de 2001

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