segunda-feira, maio 05, 2008

Contradições na cerimónia do matrimónio

No passado sábado estive no casamento de um simpático casal de ex-alunos e foi, digamos assim, um casamento que seguiu os procedimentos clássicos - recepção, cerimónia, copo-de-água, pelo menos até onde me foi possível assistir visto que, algures entre o primeiro e o segundo prato, tive de sair para atender a outros compromissos, todos eles em Coimbra curiosamente.

O facto de nada ser novidade para mim num casamento, visto que já assisti a uns quantos, permitiu-me adoptar uma postura mais observadora em relação a todo o conjunto de pequenos rituais que acontecem durante a celebração de um casamento.

Começo desde já por manifestar a minha indignação pela ausência de um momento alto da vertente religiosa da celebração. Sim, sim! Essa mesmo! A parte onde o padre perguntava se havia por ali alguém com intenções de objectar à realização da cerimónia por motivos que não eram do conhecimento público.

Se é certo que já nos habituamos a isso, recordo um certo casamento onde um grupo de várias pessoas se preparava para pigarrear no preciso momento em que o padre colocasse essa questão. Os ares de confusa desilusão que tomaram conta dos olhos dos membros desse grupo foram marcantes pela sua pungência. Aliás, eu só voltei a ver uma expressão assim, há bem pouco tempo, nos olhos de um amigo meu a quem informei que o Luís Filipe ia ser titular na equipa do Benfica no jogo dessa tarde.

Há, no entanto, dois momentos intrigantes que persistem inexoravelmente em todos os casamentos: o momento em que se atira arroz e o momento repetitivo em que os convidados exigem que os noivos primeiro, e os familiares e padrinhos depois, se beijem perante toda a gente.

Eu pergunto: faz sentido continuar a atirar arroz, tendo em conta o preço a que ele está? É certo que o cereal em causa serve de barómetro ao nível económico-social dos convidados bastando ver se aquilo que está a ser atirado é arroz carolino, arroz agulha ou simplesmente trinca de arroz. Posso desde já adiantar que já estive num casamento onde se atirou Uncle Ben's. Por outro lado também estive noutro onde o arroz era muito semelhante a areão.

Seja como for, faz-me confusão ver desperdiçar alimento suficiente para abastecer por largo período de tempo um pequeno país do Terceiro Mundo. Votos de abundância? Para isso pode-se passar um cheque no valor do investimento que se fez em arroz já que pelo menos assim não se estraga nada. Será mesmo um acto simbólico?

Tenho para mim que quem atira arroz é porque tem contas a ajustar com um dos noivos (os dois?) ou, pelo menos, com alguém que esteja ali por perto. Acredito que frases como "Não acredito que te casaste primeiro que eu!" ou "Sacana! Ficaste-me com ele/ela!" ou "Isto é por aquela sova que me deste em 1982" possam passar pela cabeça dos convivas. É que uma coisa seria atirar arroz em trajectória parabólica com um extremo bastante elevado no eixo das ordenadas. Outra completamente diferente é atirar arroz agulha, em trajectória tangente às cabeças dos convidados, em direcção aos olhos dos noivos.

Relativamente ao pedido insistente e repetitivo de que os noivos se beijem em público é também uma situação que não compreendo. Há aqui nitidamente uma expressão oportunista de voyeurismo que aproveita um dos poucos momentos em que é socialmente aceite. Mas para ver o quê? Estamos a falar de uma plateia que certamente assiste à TVI depois das 18h e como tal já viu tudo o que há para ver em termos de pouca-vergonha. Aliás, basta dirigirmo-nos a um qualquer relvado próximo para ter grandes possibilidades de assistir a um casal em plena prática daquilo que parece uma amálgama dinâmica e desconexa de membros e traseiros da qual saem ocasionais salpicos de saliva.

Radical seria sim gritar-se "Não beijem! Não beijem!". Aí ver-se ia algo realmente inédito e, pelo menos em certas ocasiões, tendo em conta que se está em plena refeição, seria uma benção. A ideia final será sempre "Já os vi fazer melhor!". Mas pronto, há que não perder esta oportunidade de se ser voyeur, expressar a esperança inconsciente de se poder ver algo realmente muito maroto e ainda ter uma sala inteira a aplaudir o que nos faz perceber que não estamos sós no Mundo no que às depravações diz respeito.

Pulamordedeus! A coisa podia ser tão mais simples: "Aceitas? - Aceito!", "Aceitas?-Aceito!", "Então vamos à bucha!"

1 comentário:

São Rosas disse...

Totalmente de acordo.
(este teu post, dando-lhe a volta à nossa moda, seria um tema óptimo para o blog porcalhoto, não achas? Até já adiantaste a ilustração...)

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