quarta-feira, abril 23, 2008

Uma recordação eterna

Na última segunda-feira dia 14 de Abril morreu parte de mim, parte da minha vida.

Ao fim e ao cabo, parte de nós se esvai quando desaparece alguém que teve um papel fundamental em quem somos e povoa algumas das melhores memórias que, teimosamente resistem ao desfilar dos anos.

Dessas recordações guardo o sentimento de alguém que não esgotou o seu amor nos filhos que teve e que em todas as ocasiões não deixou nunca de me fazer sentir como se eu também fosse um, em tempos idos suportando por vezes em tom de uma impaciência efémera e depressa desvanecida, as irreverentes traquinices cúmplices de dois miúdos que sabiam ser irrequietos. A minha infância foi feliz no que lhe era permitido e ela está presente em muitos momentos.

Depois... o afastamento. Como são incompreensíveis e fúteis os motivos que muitas vezes levam as pessoas a quebrar os laços fraternos e a afastar o que nunca deveria ser afastado...! Mas assim foi durante 3 longos anos.

Finalmente, tendo finalmente um carro com que podia vencer a distância, revoltei-me contra o estado das coisas e fui visitá-la finalmente. Recordo-me da emoção que senti ao subir as escadas, o frenesim que tolhia o meu interior, até que, numa imagem que nunca esquecerei, a vi sentada à porta de casa. Pareceu-me subitamente envelhecida e frágil como se numa fracção de segundo 3 anos tivessem sido retirados ao tempo e a tivesse visto pela última vez no dia anterior.

Cumprimentei-a mas ela não reconheceu. Até que algumas palavras bastaram para reavivar todas as recordações e ela abraçou-me chorando convulsivamente. Como eu queria agora ter prolongado aquele abraço, ter também chorado por 3 anos perdidos...

Dessa tarde de domingo guardo ainda a conversa que se desfiou como que querendo condensar em si tudo o que era desconhecido e precisava de ser partilhado, as fotografias que uma após a outra ela me ia mostrando enquadradas por um sorriso de felicidade, e finalmente, a satisfação imensa, quase transcendental, que me acompanhou no regresso a casa.

É esta a imagem que sempre guardarei de ti, a expressão do carinho e do amor que sempre me soubeste dar fossem quais fossem as circunstâncias e é neste momento que gostaria de acreditar que realmente há algo mais para lá do que é material e que, nesse sítio onde eu queria tanto que estivesses, continuas a sorrir com a ternura de sempre e que tens orgulho em mim.

Obrigado tia. Adoro-te.

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