quinta-feira, setembro 20, 2018

Os Castros da Serra da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 8 de Agosto de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os romanos passaram pela Gardunha
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha
   - Ursos, lobos e zebros

A Penha destaca-se na crista da Serra da Gardunha

Diz a voz da tradição popular que foi entre as penedias da Serra da Gardunha que as gentes da Idanha procuraram refúgio perante a aproximação dos invasores muçulmanos, a isso se devendo a própria origem do nome de Gardunha. Embora a veracidade deste relato esteja ainda por comprovar, não deixa de ser verdade que, durante séculos e muito antes da chegada dos muçulmanos, houve quem procurasse abrigo no seio da Gardunha, não em busca de refúgio temporário, mas para aí estabelecer povoados permanentes fortemente defendidos. A estes povoados chamamos “castros” e na Gardunha conhece-se a localização de alguns.


Estes castros, também conhecidos mais a Norte como citânias ou cividades, eram povoados implantados no topo de elevações de média altitude e rodeados por algumas cinturas de muralha. Surgiram há cerca de 3000 anos no Noroeste da Península Ibérica em plena Idade do Bronze. As casas tinham uma planta circular e cobertura em colmo, estando agrupadas em núcleos familiares, separados uns dos outros por ruas de largura e traçado muito irregulares. As casas tinham um único espaço interior em cujo centro se situava a lareira. Era nesta que se cozinhava e era ao seu redor que as famílias se reuniam para comer ou para dormir.


Para além do relevo e das muralhas, também era comum reforçarem-se as defesas com com fossos e zonas de pedras fincadas, de forma a dificultar a aproximação de eventuais atacantes, fossem eles os povoados vizinhos ou não. No entanto, a localização dos castros no topo das elevações também assegurava uma função de domínio territorial, permitindo a vigilância atenta de todo o território que dali se avistava. A vigilância era muitas vezes reforçada pela construção de atalaias em locais estratégicos, para alargar o alcance visual.

Qualquer viajante que há 3000 anos passasse junto à Serra da Gardunha ou pela Cova da Beira, poderia avistar estes aglomerados de casas apinhados no topo dos montes, rodeados por impressionantes muralhas. Estas comunidades faziam da agricultura e da pastorícia as suas actividades principais de subsistência, sendo que também se dedicavam à extração mineira e ao comércio, fazendo parte de rotas comerciais que se chegavam a paragens tão longínquas como o Médio Oriente ou o Norte da Europa.

Na Serra da Gardunha, o monte de São Brás, o monte de São Roque (ou Trigais), ambos no concelho do Fundão, e o Castelo Velho, no concelho de Castelo Branco, correspondem sem sombra de dúvida a castros. Há também quem situe num castro a origem da aldeia do Alcaide. Já o lugar do Picoto, junto ao Souto da Casa, terá sido uma atalaia do castro de São Brás, permitindo-lhe estender o domínio visual até à Serra da Maúnça e para lá da Argemela, onde aliás também existiu um castro.

A Penha da Gardunha também é apontada como sendo um local onde terá existido um castro mas, quanto a nós, os vestígios aí encontrados são demasiados escassos para tal afirmação. A existência nesse local do santuário medieval dedicado à Senhora da Serra permite outra hipótese: a de aí ter existido um santuário pagão, semelhante ao do Cabeço das Fráguas entre a Guarda e o Sabugal, cujo valor sagrado terá persistido ao longo dos tempos, até ser finalmente cristianizado.

Os castros da Serra da Gardunha, juntamente com os restantes castros identificados no concelho do Fundão, são lamentavelmente ainda pouco conhecidos do público e, por isso mesmo, vítimas fáceis de atentados patrimoniais. Constituindo locais onde os valores históricos e arqueológicos se conjugam na perfeição com o valor paisagístico e natural, deveriam ser vistos como elementos estratégicos fundamentais para a valorização do território na sua oferta turística tanto cultural como natural. No concelho do Fundão tentou-se em 2004 implementar a chamada Rota dos Castros que, de grosso modo, não passou da colocação de sinalização rodoviária. Nada foi feito em concreto para valorizar os castros ou incentivar a sua preservação.

quinta-feira, agosto 23, 2018

Blegny - Descida ao coração negro da Terra

O poço nº1 de Blegny

"Vou contar-vos uma história.". É com estas palavras que António Vicente começa a visita que dali a instantes nos há-de levar ao coração negro da Terra. Estamos na antiga mina de carvão de Blegny, praticamente à vista de Liège e hoje classificada pela UNESCO como património da Humanidade. 

Estas eram uma das inúmeras minas de carvão da Bélgica (só na província de Liège contam-se mais de 80 e as escombreiras são uma marca na paisagem), concentradas sobretudo na Valónia. Foram exploradas entre o século XV e 31 de Março de 1980, tendo sido a última mina de carvão belga a encerrar na sequência da crise provocada pelo menor preço do carvão de outras paragens e pelo advento do petróleo como fonte de energia.



Escombreiras na margem oposta do Mosa, junto a Herstal


A lenda de Houllos ou a origem da hulha

O carvão era, no entanto, já conhecido desde a Idade Média, podendo ser encontrado em afloramentos à superfície. A lenda diz que o conhecimento do carvão foi dado por um anjo a um modesto ferreiro, de seu nome Houllos, que não tinha forma de acender a sua forja. O anjo mandou Houllos subir ao monte Saint-Martin, hoje no coração de Liège, e abrir um buraco com 3 pés de profundidade pois ali encontraria uma rocha negra que em seguida deveria partir e queimar na sua forja. Assim terá começado a ser usada a "houille", em português "hulha", perpetuando o nome deste ferreiro.
Alguns investigadores sugerem que o anjo da história não era um "Angelus" mas um "Anglus", um inglês, território no qual o carvão já era explorado desde o século IX. Talvez o "anjo" e Houllos fossem a mesma pessoa: um ferreiro inglês em viagem que encontrou em Liège o mineral que lhe era tão familiar.


A descida à Mina


António aproxima-se da grade do poço nº1 e chama o elevador. É um elevador de dois andares pelos quais divide o grupo. Fechada a grade, dá a ordem de descida a 30 metros e mergulhamos na escuridão. As galerias da mina descem a até 500m mas a visita só chega aos 60m. As galerias abaixo estão actualmente inundadas o que não é de estranhar pela abundância de água na região e até pelo facto de estarmos abaixo do nível do rio Mosa

Chegamos à primeira galeria e as crianças reunem-se à volta do nosso guia que faz questão de esclarecer: -"Não estudei para guia. Sou mineiro. Por isso aquilo que vos vou contar é uma história de como era a vida na mina.". Pega em seguida no capacete e mostra-o: -"Uso este capacete há 40 anos e por várias vezes me salvou a vida. Quando eu saía da mina, tirava o capacete e o que é que vocês acham que eu lhe dizia?". Uma das crianças arrisca: -"Obrigado?". Com um sorriso, António confirma que a resposta está certa e tira do bolso um pequeno pedaço de carvão dando-o ao miúdo: -"Acertaste. Aqui tens a tua recompensa. Guarda-o bem no teu bolso porque isso é muito precioso. É ouro negro". Apressa-se em seguida a sossegar as outras crianças: -"Não se preocupem. Vou precisar da ajuda de todos e por isso vai haver um pedaço de carvão para toda a gente.". 

António Vicente, revela-se um comunicador nato e, com a sua voz branda, revela um jeito especial para cativar os visitantes, especialmente as crianças. Tem uma vida ligada às minas que começou nas Minas da Panasqueira quando tinha 14 anos. Deixou depois Portugal, há mais de 40 anos, para vir trabalhar para as minas na Bélgica. Só trabalhou em Blegny já perto do fecho desta mina pois antes estava noutro complexo mineiro na Flandres. 

-"Quando entrávamos na mina todos tínhamos medo. Por isso cantávamos no elevador para espantar o medo. Estávamos debaixo da terra durante 8 horas seguidas e sabíamos bem o perigo que corríamos.", conta-nos António. De acordo com o seu relato, nas minas da Flandres onde trabalhou chegou a descer abaixo dos 1.000 metros! -"Demorávamos quase uma hora a chegar à nossa galeria. Àquela profundidade a temperatura subia acima dos 40º e por isso, mal chegávamos, tirávamos a roupa e trabalhávamos em cuecas. O calor era terrível e havia quem bebesse 10L de água durante o turno."


As condições desumanas de trabalho


A visita vai prosseguindo enquanto António mostra as estreitas aberturas em que os mineiros se metiam rastejando para extrair o carvão, antes de nos encaminhar para uma galeria que desce aos 60m. Ao mesmo tempo, vai explicando as técnicas de colocação de explosivos e demonstrando o funcionamento do equipamento pneumático de perfuração. O barulho é ensurdecedor. -"Imaginem agora, ouvir este barulho durante 8h seguidas e respirar a poeira toda, para além do calor que se sentia.". As doenças dos mineiros decorrentes das condições de trabalho são bem conhecidas e variaram ao longo dos séculos: tuberculose, ancilostomíase, antracose, artrose, surdez, nistagmo e silicose. -"Por isso é que os mineiros se podiam reformar ao fim de 25 anos de serviço", diz-nos. Ficamos também a saber que nas minas chegaram a trabalhar mulheres e crianças, antes de a legislação as ter remetido a trabalho à superfície.



Sobre os perigos é suscinto -"Podíamos atingir um lençol de água, uma bolsa de gás, podia-nos cair uma pedra em cima. Havia algumas pessoas que não conseguiam lidar com o medo e se auto-mutilavam para poderem sair da mina mas também havia um espírito muito solidário e encorajavamos-nos uns aos outros.". Os sistemas de alarme eram rudimentares mas fundamentais para quem os sabia interpretar: para o gás havia canários e mais tarde lanternas de detecção e para os desmoronamentos os ratos eram o melhor alerta pois fugiam em pânico ao pressentirem a iminência da tragédia. 

Mas os mineiros não eram os únicos a sofrer na mina. Antes da introdução das máquinas de tracção a diesel, que para além das vantagens trouxeram também o lado negativo das emissões de monóxido de carbono, eram usados cavalos: -"Entravam na mina e não voltavam a sair. Passavam aqui a vida. Quando já estavam velhos e cegos por causa da falta de luz, eram levados finalmente para a superfície e guardados em estábulos onde eram alimentados e tratados até morrerem.". 


Muitas nacionalidades mas todos mineiros

Nas minas trabalhavam várias nacionalidades: -"Éramos de várias nacionalidades diferentes mas dentro da mina não há racismo. Todos aprendemos a comunicar uns com os outros e todos dependíamos uns dos outros. Com os italianos era mais fácil porque eles falam com as mãos", brinca, mas o que é facto é que tivemos oportunidade de o ouvir falar italiano com um colega antes da visita. Um produto da camaradagem dentro da mina. -"A minha equipa era de 5 pessoas, todas de nacionalidades diferentes mas aprendemos a comunicar uns com os outros. Havia um grande espírito de camaradagem".

Os italianos eram a nacionalidade mais representada nas minas belgas, sobretudo após o fim da II Guerra Mundial, quando o seu país estava destruído e não havia emprego enquanto as minas de carvão belga estavam extremamente carentes de mão-de-obra. -"Vieram aos milhares e sofreram muito dentro das minas, coitados" confidencia-nos António. "Depois do Bois du Cazier, deixaram de vir". António refere-se à tragédia da mina de Bois du Cazier que, em 1956 e na sequência de um incêndio, vitimou 262 mineiros, 136 dos quais italianos. Na altura, um terço dos mineiros da Bélgica eram de nacionalidade italiana. 


Subida à Lavaria



Chegados ao fim da galeria, António chama de novo o elevador e desta vez subimos 12 metros acima do nível do solo, directamente para a lavaria onde a primeira visão é uma imagem de Santa Bárbara, padroeira dos mineiros. Era a ela que os mineiros vinham pedir protecção antes de descer à mina e também agradecer na saída. 



A visita termina com um espectáculo de luzes e música na lavaria e uma reflexão do nosso mineiro-guia: -"A minha vida foi passada nas minas. Vi muita coisa, boa e má, e vivi um espírito de camaradagem maravilhoso. Trabalhávamos em conjunto e quando, ao fim do trabalho voltávamos à superfície vínhamos todos negros, todos iguais. Chamavam-nos "Gueules noires" (Bocas negras) e que orgulho sentíamos de sermos assim chamados! É isso que guardo da mina, é isso que quero sobretudo partilhar, é a história que quero contar. O mau que vivi, nunca gostei de partilhar nem quando chegava a casa. Guardo para mim."



Despedimos-nos de António depois de bebermos um café, bem à maneira portuguesa. Temos de voltar a Liège e ele tem já outro grupo à espera. Vemo-lo dirigir-se para o local de início da visita com a mesma alegria e aquele brilho no olhar com que nos recebeu. No bolso leva os seus pedaços de ouro negro para dar à criançada. Vai contar mais uma vez a história.

sexta-feira, agosto 17, 2018

A cidade de Dinant, entre o belo e o surreal

Vista do centro da cidade de Dinant. Na margem oposta, a margem esquerda do Mosa, é possível ver a "Maison Leffe", que alberga o museu desta conhecida cerveja de abadia belga. Em primeiro plano, a torre sineira da Igreja de Nossa Senhora de Dinant.



Dinant é uma cidade encravada num vale cavado do rio Mosa, esticando-se ao longo das margens do rio e respectivos afluentes. Esta pequena cidade tem uma história milenar que começa entre o fim da Antiguidade e o início da Idade Média, tendo feito parte do Principado de Liège como cidade fronteiriça. Os domínios dos arqui-rivais do Principado, os Duques de Borgonha, começavam logo na margem oposta do rio Mosa, facto que sempre gerou inúmeras e até trágicos conflitos.

A cidade tornou-se célebre pela mestria do trabalho em latão e cobre pelos seus artesãos, facto que fez da cidade uma povoação riquíssima, mas este estado de graça chegou ao fim quando os "dinandiers" decidiram provocar o Duque de Borgonha e, pela calada da noite, foram à margem oposta deixar uma efígie enforcada do filho do duque. Sabendo como esta malta de sangue azul se melindra com mau gosto da ralé, foi muito má ideia. 

Não só Dinant foi cercada por Carlos o Temerário, o herdeiro do Duque, como a cidade foi totalmente incendiada e a população, a que não foi morta nos combates ou executada no rescaldo, foi obrigada a mudar-se. Acabaria no entanto por voltar, anos mais tarde, recuperando um pouco do passado glorioso da cidade, embora longe do fulgor de então.

Ainda houve mais uns quantos cercos e a cidade ainda sofreu muito nos séculos que se seguiram mas foi preciso esperar até ao século XX para que a dimensão da tragédia fosse de novo terrível. Foi em Agosto de 1914, cerca de duas semanas após a invasão da Bélgica, quando os exércitos alemães finalmente chegaram a Dinant. A defesa da cidade tinha sido confiada aos exércitos franceses (entre uns quais um jovem oficial chamado Charles de Gaulle), que aqui foram resistindo durante duas semanas às sucessivas investidas germânicas. A 23 de Agosto os alemães tomaram finalmente Dinant e em atitude de represália executaram sumariamente quase 700 civis (o mais novo tinha 3 anos, o mais velho 88) e deportaram mais de 400. 


A fortaleza holandesa do século XIX, a igreja colegial e a ponte Charles de Gaulle, assim chamada por o futuro presidente francês aqui ter sido ferido durante os combates de Agosto de 1914. A grande torre sineira com bolbo (século XVI) destinava-se inicialmente a ser construida sobre a ponte mas os receios de que esta não suportasse o peso da estrutura levaram a que fosse construída sobre a igreja colegial.



Vale a pena subir até à fortaleza, seja pela escadaria íngreme ou pelo teleférico, pois a vista é magnífica. Contudo, um dos sítios que tornam a visita inesquecível fica precisamente dentro da estrutura: trata-se do abrigo desmoronado, um abrigo de combate que tombou por inteiro durante os bombardeamentos mais recentes. O resultado é um espaço que provoca desorientação e falta de equilíbrio pela informação visual enganadora que captamos. 



Para além da sua história e dos seus monumentos, entre os quais a fortaleza holandesa do século XIX e a igreja colegial são ex-libris, Dinant é também conhecida por ser o local de nascimento de Adolphe Sax, o inventor do saxofone que está omnipresente na estatuária pelas ruas da cidade. É também aqui que se produz a Leffe, numa antiga abadia junto ao curso de água com esse nome, uma das mais conhecidas cervejas belgas.


O interior da igreja colegial de Nossa Senhora de Dinant, um templo gótico que alberga as relíquias de São Perpétuo, padroeiro da cidade.



Estátua e museu de Adolphe Sax, inventor do saxofone, na rua Sax


Por sorte, visitei Dinant no dia 15 de Agosto, um dia que é marcado por muitas e rijas festas pela Bélgica. Não só encontrei uma enorme feira tipo Feira da Ladra pelas ruas principais da cidade, numa e noutra margem do Mosa, como ainda pude assistir à "Regata das Banheiras" anual, um cortejo de jangadas alegóricas pelo rio no qual os cidadãos podem dar largas à sua imaginação.

O resultado é este:

















quinta-feira, agosto 16, 2018

Porque calaram Marine Le Pen?

0 minutos para Marine Le Pen na Web Summit de 2018
(Foto tirada daqui)

Afinal Marine le Pen já não vai participar na Web Summit 2018 como oradora. Isto acontece na sequência de toda a polémica que o anúncio do convite despoletou, com a organização SOS Racismo e o Bloco de Esquerda a consitituirem-se como as vozes de protesto mais sonantes, e o Governo português a reforçar que a responsabilidade do convite era toda da organização o evento.

Certo é que com ou sem pressão do Governo (que eu acredito que tenha havido), o convite foi mesmo retirado e Marine Le Pen já não estará presente na Web Summit 2018, levando a que tenham sido cometidas duas asneiras em vez de apenas uma

Em primeiro lugar, há que questionar o que fazia Le Pen como oradora no Web Summit visto que se trata de um evento que está ligado à Tecnologia, ao contrário por exemplo das TED Talks. Poderemos eventualmente supor que dá sempre jeito ter le Pen à mão para passar dados caso a rede Wireless falhe  mas, brincadeiras à parte, este evento tem-se sempre pautado por uma certa tendência para o mediatismo na escolha dos seus convidados. Lembrem-se que Nigel Farage foi orador em 2017 e não consta que seja grande especialista em tecnologia, sendo antes conhecido por ser muito bom em armar confusões épicas e depois fugir como se não fosse nada com ele. Que dizer também de Luís Figo e Ronaldinho?

Por outro lado, Le Pen advoga uma política de extrema-direita, na qual os nacionalistas e fascistas mais radicais se revêem totalmente. Ora, não sejamos anjinhos. Sabemos já, pelas lições de História, onde leva este caminho e temos de perceber porque é que a máxima "Fascismo nunca mais!" é mais que uma frase bonita que é moda usar por alturas do 25 de Abril, sabendo que em Portugal o fascismo foi apesar de tudo muito mais brando que noutras paragens da Europa. 

A Web Summit foi no mínimo infeliz ao convidá-la mostrando não perceber o que representa a ideia de fascismo em Portugal e, claramente, subestimou a onda de choque que o anúncio da sua vinda iria provocar. Queriam jogar com a polémica mas não esperavam que chegasse ao ponto a que chegou. 

No entanto, tinham toda a legitimidade em convidá-la para ela falar do que quisesse e certamente teria alguns fãs à sua espera, entre eles vários PNR's e saudosistas de Salazar, a quem o que fazia falta era terem realmente vivido o salazarismo. Em Portugal a Constituição proibe as organizações fascistas (pelos vistos excepto se por cosmética o nome referir "renovação" em vez de "fascismo") mas não proibe que se fale dele, contra ou a favor. É a ironia do princípio da liberdade de expressão. Dupla ironia se tivermos em conta a posição das correntes fascistas em relação à liberdade de expressão. 

Seja como for, feito o convite, não restava outra opção a Patrick Cosgrave senão assumir a responsabilidade do mesmo e mantê-lo. 

Tendo retirado o convite, a Web Summit fez de Marine Le Pen uma vítima e passou a ideia da existência de um certo nível de censura em Portugal. Se o tivesse mantido, teria sido uma excelente oportunidade para a maioria dos portugueses mostrar o que pensa do fascismo, boicotando a intervenção de Marine Le Pen ou manifestando-se contra ela, com todo o fôlego que os ventos de Abril permitissem. 

terça-feira, julho 31, 2018

Dar armas a crianças com 3 anos? Só na America

Sacha Baron Cohen já nos habituou aos seus programas televisivos e filmes que se traduzem num caldo de vergonha alheia e polémica pela forma como expõe cruamente os podres da sociedade estado-unidense, geralmente intepretando personagens com as quais engana diversas personalidades incautas que julgam estar diante de uma personagem real. O seu mais recente trabalho é a série "Who is America?" onde Baron Cohen põe a nu alguns dos lugares físicos e mentais mais obscuros de uma nação, começando por abordar a eterna polémica do livre acesso a armas e os recorrentes tiroteios nas escolas.


Sacha Baron Cohen como Erran Morad, especialista em contra-terrorismo


Fazendo-se passar por um agente anti-terrorista israelita, Baron Cohen entrevista Philip Van Cleave, presidente da Liga de Defesa dos Cidadãos da Virgínia, fazendo-o acreditar que em Israel existe um programa ao abrigo do qual as crianças são ensinadas a usar armas a partir dos 3 anos para defenderem a sua escola de muçulmanos. A reacção de entusiamo da parte de Van Cleave é ficar de queixo caído, chegando inclusive a afirmar que as crianças mais jovens "ainda não desenvolveram consciência. Ainda estão a aprender a diferença entre certo e errado" e que, por isso, "podem ser soldados muito eficazes".

O clímax desta primeira entrevista é quando Cohen consegue convencer Van Cleave a gravar um programa infantil para ensinar âs crianças como usar armas:


"Lembrem-se de apontar a boca do Cachorrinho Pistola..."



"... para o meio do homem mau"


Larry Pratt director executivo da associação dos Portadores de Armas da América, um grupo lobbyista com um discurso extremamente "musculado", é o segundo entrevistado no programa. Usando Pratt como "cunha", Cohen consegue convencer alguns senadores e ex-senadores, assim como o próprio Pratt, a participarem num anúncio de promoção do programa "Kinder Guardians", para armar crianças na escola.


As crianças de tenra idande são puras e não corrompidas por fake news ou homossexualidade


O que é interessante na retórica de Pratt, é a a forma como liga subtilmente o seu anti-islamismo aos tiroteios nas escolas, quando refere que as crianças podem conseguir reagir instintivamente ao ouvirem "Allahuh Akbar", isto apesar de esses tiroteios não serem perpetrados por extremistas islâmicos mas sim por cidadãos "com problemas mentais", ou seja, a classificação em que se encaixam todos os terroristas que não são extremistas islâmicos.

Mais uma vez, Sacha Baron Cohen consegue transmitir-nos uma visão inquietante dos Estados Unidos da América, onde os preconceitos religiosos e raciais estão profundamente enraízados na sociedade e o anti-extremismo se torna ele próprio uma forma de extremismo.

O 1º episódio da série pode ser visto aqui:


segunda-feira, julho 23, 2018

Aqui só vivem mulheres viúvas ou solteiras

Entrada Sul do Begijnhof de Bruges

São "bairros" residenciais muito peculiares pois, desde a Idade Média, a sua população é formada apenas por mulheres viúvas ou solteiras que aceitaram o seu celibato e se estabeleceram em pequenas comunidades auto-suficientes. Trata-se dos Begijnhof flamengos (Béguinages em francês) e, pela sua integridade e autenticidade, 13 deles foram inscritos pela UNESCO na lista do Património da Humanidade.

Brugge ou Bruges, conforme seja dito em flamengo ou francês, é uma cidade fora-de-série pela beleza que oferece a sua diversidade arquitectónica magnificamente bem conservada e também devido aos vários canais que atravessam o tecido urbano. Isto permite-lhe ter 3 referências na lista de Património da Humanidade da Unesco: o seu centro histórico, a sua torre-campanário e o Begijnhof Ten Wijngaerde, o bairro fundado em 1245 para albergar mulheres viúvas ou solteiras. 

Este tipo de comunidades de mulheres emancipadas surgiu em plena Idade Média, a partir do século XIII e, apesar de praticarem uma vida religiosa, não formavam ordens religiosas propriamente ditas já que, a qualquer momento, as mulheres podia decidir sair, fosse para casar ou não. Certo é que, enquanto fossem membros da comunidade, tinham de trabalhar para o sustento da mesma.



Entrada das casas da ala Norte. Todas as casas têm ainda um largo quintal nas traseiras

Em Bruges, o Begijnhof "da vinha" consiste numa trintena de casas, quinhentistas e seiscentistas, articuladas em torno de um enorme pátio central. O acesso só pode ser feito por 2 portões, os mesmos que, durante séculos, se fechavam à noite para manter as mulheres em segurança. Junto a ambos, vários letreiros apelam para que os visitantes guardem silêncio, de forma a respeitar a paz do local.  Num dos extremos do pátio, ergue-se uma igreja dedicada a Santa Isabel e o seu aspecto actual data de 1700, quando a primitiva igreja gótica foi modificada para abraçar o estilo barroco. 



Pátio central e ala Oeste

Os ares que sopraram da Revolução Francesa foram a primeira machada nos Begijnhof que, apesar de tudo, ainda foram reconstituidos no período napoleónico. Ainda sobreviveram cerca de 100 anos tendo depois conhecido sortes diferentes. O de Bruges passou a ser gerido pela ordem religiosa das freiras beneditinas em 1927, sendo fundido com o convento desta ordem erguido paredes-meias. Actualmente, a par da presença das beneditinas, ainda conserva parcialmente a sua função original, albergando mulheres laicas, algumas delas idosas.



Reconstituição de um quarto na casa-museu

O pátio central e a igreja são visitáveis de forma gratuita. Já a casa-museu, que recria uma casa típica do Begijnhof  no século XVI, é visitável pela módica quantia de 2 euros.

sexta-feira, julho 20, 2018

Como identificar falsas notícias


A comunicação social é hoje bem diferente daquilo que era há alguns anos, sobretudo pelo sucesso alcançado pelas redes sociais, de que o Facebook é um dos melhores exemplos. As redes de partilha de informação deixaram de se apoiar exclusivamente nos mass media clássicos (imprensa, rádio e televisão) e passaram a ter nas redes sociais um pilar importantíssimo. A informação propaga-se hoje a um ritmo elevadíssimo e, no meio deste turbilhão com um nível competitivo inédito, os agentes noticiosos "oficiais" debatem-se com a necessidade diária de serem os primeiros a obter e divulgar as notícias. Em consequência:

  • O tempo dispendido para validar a credibilidade dos factos apresentados na notícia é menor

  • A deontologia é muitas vezes desconsiderada face à urgência de mostrar trabalho e garantir leitores/audiência

  • Há um efeito "cascata" em que se um agente noticioso publica uma notícia inédita, validada ou não, muitos outros vão atrás e reproduzem-na, partindo do princípio que foi validada na fonte

Esta precipitação é de tal monta que, por vezes, até artigos satíricos são partilhados como sendo verdadeiros. Lembram-se de quando a cadeia televisiva RT difundiu a notícia de como a Roménia tinha enviado ajuda para o Tahiti em vez do Haiti? [Ver aqui]




Por outro lado, nas redes sociais cada utilizador tornou-se um agente noticioso não oficial, partilhando publicações que vai encontrado no seu "feed" de informações, cronologia se preferirem. O problema é que a validação da sua fiabilidade é geralmente nula e reveste-se de várias particularidades:


  • Não há obrigação deontológica de validar a credibilidade dos factos

  • As partilhas são sempre influenciadas pelas convicções e preconceitos de cada um e são motivadas, ou seja, estamos pré-condicionados para tomar como credíveis todas as notícias que vão de encontro às nossas convicções e preconceitos. 

  • As partilhas são motivadas pela necessidade viciante de obter "Likes", no fundo, de se sentir importante no seio da "comunidade virtual"

  • O fascínio do sensacionalismo, a pressa em obter "Likes", e, por vezes, uma certa preguiça, fazem com que a partilha se faça de forma precipitada, apenas com base na leitura do título e poucas vezes se lê, como sempre deveria acontecer, o corpo da notícia

  • A partilha raramente avalia as motivações políticas ou sociais de quem publicou originalmente a notícia


Todo este conjunto de factores cria o eco-sistema ideal para o surgimento e proliferação de notícias falsas ou, "como se diz em americano", as Fake News. Esta é uma praga que infesta a sociedade de informação actualmente e frequentemente ultrapassam, em termos de alcance, a verdade dos factos. Por outro lado, quando se descobre que uma notícia é falsa, o alcance do seu desmentido é irrisório quando comparado com o alcance que a notícia atingiu inicialmente. Porquê? Porque, desprovido que é de sensacionalismo, a motivação para a partilha de um desmentido é muito menor.


Cada um é responsável por aquilo que partilha!

De facto, mesmo que não sejamos autores de uma determinada notícia falsa, o facto de a partilharmos torna-nos parcialmente responsáveis pela sua existência e pelas suas consequências, que em casos extremos podem ser trágicas. 

Um caso que ficou célebre foi o do Pizzagate, nos Estados Unidos no qual, devido a um boato que se tornou viral, um homem invadiu uma pizaria e disparou vários tiros porque acreditava que esta era o local de tráfico de crianças por pedófilos ligados ao partido democrático [Ver aqui].

No Brasil, um rumor que se tornou viral, levou ao linchamento de uma mulher que tinha sido transformada numa raptora e abusadora de crianças. [Ver aqui]

As falsas notícias que mais frequentemente vejo serem partilhadas têm a ver com:
  • conteúdos raciais
  • conteúdos religiosos
  • conteúdos políticos
  • teorias da conspiração

Os actos de vandalismo de um grupo de hooligans adeptos do Basileia (na Suíça) transformou-se em supostos actos de violência por parte de muçulmanos que queriam impor o respeito pelo Ramadão em Birmingham, no Reino Unido [imagem tirada daqui]

Quando vemos uma notícia que provoca em nós uma reacção emocional, o primeiro impulso será de a partilhar imediatamente. É precisamente nesse momento que devemos ter a capacidade de refrear esse impulso e de colocar a questão fundamental: "Será que isto é verdade?"


Como identificar notícias falsas?

Quando me deparo com uma notícia partilhada que chame de alguma forma a minha atenção pelo seu título e que levante algumas suspeitas, sigo sempre o mesmo método de avaliação:
  1. Abrir e ler a notícia. O título está em harmonia com o seu conteúdo? Cita fontes? Aproveitem também para verificar a data da publicação.

  2. Analisar o site em que está publicada. É um site fiável? Qual é o sentido geral das suas publicações (pode ser satírico, política ou religiosamente tendencioso, ...)?

  3. Fazer uma pesquisa pelas fontes citadas. Existem? São quem a notícia diz serem?

  4. Procurar a notícia noutras fontes de informação, nomeadamente em sites informativos credíveis, como canais de televisão ou jornais on-line. Se não encontrarmos a notícia em nenhum deles, será bastante suspeito.

  5. Partir do princípio que a notícia é falsa e pesquisar no Google como se assim fosse. Usando o exemplo dos hooligans suíços que atrás referi, o método que usei para descobrir que se tratava de fake news foi simplesmente o de fazer uma pesquisa no Google com os termos "Ramadan riot Birmingham fake" ("Ramadão tumulto Birmingham falso")
  6. Copiar uma frase da notícia suspeita e pesquisá-la, colocando-a entre aspas, no Google
  7. Suspeitar de todas as partilhas que sejam acompanhadas de frases como "Esta publicação está a ser censurada! Partilhem antes que o Youtube ou Facebook elimine este artigo outra vez!"

Claro que nem todas as partilhas são de artigos. Muitas vezes são fotografias acompanhadas de uma descrição e é mais difícil verificar a origem desta. 

O caso bem conhecido de uma imagem partilhada com falsa descrição. Tornou-se viral por representar supostamente o êxodo de europeus para África durante a II Guerra Mundial mas, na verdade, representa a fuga de dezenas de milhares de albaneses para Itália nos anos 1990. [Imagem tirada daqui]


Diferentes imagens com a mesma credibilidade:

Uma frase atribuída a Catarina Martins e publicada no Jornal Expresso que, pelos vistos, na semana em questão foi publicado... à Quarta-feira! Uma pesquisa no Expresso on-line não deixa dúvidas quanto à não-existência desta frase.


O cartão de Fernando da Silva Pais, director da Pide, foi transformado no "cartão de informador" de Cavaco Silva


Neste cartão de membro da FNLA, a identidade de Peter McAleese foi substituída pela de Manuel Alegre


No entanto também há formas de despistar a sua credibilidade, sendo a mais simples a de fazer uma pesquisa de imagens no Google
  1. Abrir a imagem num novo separador (Botão direito do rato - Abrir em novo separador) e copiar o endereço da imagem da barra de endereços do nosso navegador
     
  2. Fazer uma pesquisa de imagens no Google, pesquisando pelo endereço da imagem. O Google vai procurar imagens visualmente semelhantes e apresentar os sites onde elas se encontram. Se os factos da partilha forem falsos, será possível encontrar na lista de resultados o seu contexto original ou o desmentido da falsa legenda.

É claro que haverá partilhas cuja veracidade será difícil de validar mesmo com todas estas etapas de verificação mas garanto que a grande maioria das falsas notícias será facilmente detectada desta forma. Dá algum trabalho mas vale a pena até porque, como referi atrás, cada um de nós é responsável por aquilo que partilha, tanto pela sua veracidade como pelas suas consequências.

Já agora, para terminar, gostava também de ter algum feedback vosso. Quais são as formas de verificação da veracidade das notícias que utilizam? Acham que esta lista é completa ou falta alguma coisa?



segunda-feira, julho 16, 2018

14 de Julho, Dia Nacional de França... na Bélgica

Liège, 14 de Julho de 2018

Liège, ou melhor dizendo a Valónia, tem uma ligação muito estreita com a França. É a consequência de uma História feita de proximidade, especialmente do período da Revolução Francesa que teve eco na chamada Revolução de Liège que, não só pôs termo ao Principado de Liège governado pelos príncipes-bispos, como ainda resultou na integração do seu território na França, com o nome de Departamento do Ourte (do nome do 2º maior rio da região: o Ourthe já que em França já existia um departamento do Mosa). De salientar que esta integração foi decidida por voto popular em 1793.


Espaço para publicação de editais públicos do Departamento do Ourte.


Devido a essa proximidade, o 14 de Julho, o dia nacional de França, é celebrado em Liège com pompa e circunstância com um grande fogo de artificio seguido de um grande arraial com música, comes e bebes à beira do Mosa, onde as bandeiras francesas se destacam.

Desta vez contudo, parece que o ânimo para a festa não era muito, quiçá devido à desilusão nacional que foi a derrota da selecção belga de futebol diante da França alguns dias antes. Isso foi visível quando, numa pausa do fogo de artifício, uma rapariga que passava gritou "Viva a França! Vivam os franceses!" e a resposta ter sido o silêncio absoluto quebrado aqui e ali por um comentário menos simpático ou uma gargalhada perante o atrevimento.


Um encontro com um clube de Castelo Branco

Seja como for, festa é festa e, sendo assim, o arraial encheu-se para o concerto que se seguiu ao fogo de artifício. Ora, coincidência das coincidências, dei de caras com um grupo de dezenas de jovens ginastas com t-shirts a dizer "Portugal". Pedido de esclarecimento atendido, fiquei a saber que se tratava de parte da representação portuguesa no Eurogym, um meeting bianual de ginástica para ginastas com idades entre os 12 e os 18 anos, que decorre esta semana em Liège, mas o mais curioso é que neste grupo estava representado o Albi Gym, de Castelo Branco, sendo que a responsável com que falei era fundanense. Para a edição deste ano são esperados cerca de 5000 jovens, sendo que Portugal é o país com a maior representação: cerca de 600 jovens atletas.

sexta-feira, julho 13, 2018

Ursos, lobos e zebros

Texto publicado no Jornal do Fundão a 5 de Julho de 2018 

Artigos anteriores: 
   - Os romanos passaram pela Gardunha
   - Os Moinhos da Serra da Gardunha
   - As Secadeiras da Gardunha
   - Serra da Gardunha - Um território de passagem 
   - Lendas da Gardunha


Urso-pardo, lobo ibérico e o misterioso zebro. Créditos das fotos e imagem no fim do artigo


A paisagem que nos rodeia apresenta hoje uma realidade muito diferente daquela que seria possível observar há vários séculos atrás. Se por artes mágicas pudéssemos por exemplo voltar à Idade Média, e a não ser que nos conseguíssemos abstrair de tudo o resto para fixar a nossa atenção no recorte familiar dos montes e vales, teríamos muita dificuldade em reconhecer a paisagem da nossa própria região. Logo à partida, a extensa mancha arbórea que por aqueles tempos cobria o território, feita sobretudo de árvores de folha caduca, era bem diferente das florestas bem mais pequenas da actualidade, ainda por cima constituídas em grande medida pela perniciosa harmonia mono-cultural de pinheiro-bravo que bem conhecemos.

A coberto dessa vegetação, viviam animais que hoje já não encontramos entre nós mas que naquela altura era muito comuns. Falamos do lobo-ibérico, do urso-pardo e do zebro, por exemplo. Se o primeiro conseguiu habitar na nossa região até há relativamente poucos anos, tendo os últimos exemplares da Serra da Gardunha sido avistados no início dos anos 1980 e estando a sua população hoje circunscrita ao Nordeste português, os restantes já há muito que deixaram de percorrer o nosso território. No entanto, de Norte a Sul de Portugal, e inclusive no concelho do Fundão, a sua memória persistiu na toponímia, que não raras vezes é uma fonte importante de pistas para desvendar o passado.

O urso-pardo terá, segundo alguns estudos, desaparecido da nossa região por volta do século XVII, tendo as suas populações sido gradualmente empurradas para Norte do país. Embora haja relatos de avistamentos esporádicos bem mais tardios no Norte de Portugal, a sua presença na Península Ibérica está hoje confinada a regiões montanhosas do Norte e Este de Espanha. Este animal cuja caça, a par da do javali, era muito apreciada pela nobreza portuguesa, foi alvo de várias iniciativas régias de protecção quando se constatou a redução da sua população, iniciativas que esbarraram, no entanto, no inconformismo das populações que viam neste animal uma ameaça às suas propriedades. Um dos objectos preferidos de cobiça dos ursos eram as colmeias e, para as proteger dos ávidos plantígrados, estas foram agrupadas e cercadas por muros altos e espessos de forma geralmente circular, os muros apiários. Estas estruturas eram popularmente chamadas de “muros”, “silhas” ou “malhadas”. 

Ora, como foi referido atrás, a toponímia guardou a memória do urso-pardo. Encontramos essa memória na aldeia de Vale d’Urso, freguesia do Souto da Casa (não confundir com Vale de Urso, Proença-a-Nova), e num local ermo noutra vertente da serra da Maúnça designado como “Vale da Ursa”. Curiosamente, não muito longe dali, situava-se uma Malhada que, por ser já antiga era designada como Velha, e que hoje persiste apenas no nome de uma aldeia. Estes topónimos não são raros em Portugal, e a estes devemos juntar os que incluem os termos “Osso” ou “Ossa”.

Eis alguns topónimos portugueses relacionados com a presença do urso-pardo: Vale d'Urso (Souto da Casa), Vale de Urso (Proença-a-Nova), Vale da Ursa (Serra da Maúnça, Proença-a-Nova e Algarve), Serra de Ossa (Alto Alentejo), Ursa (vários), etc.

Quanto ao zebro, trata-se de um animal que ainda hoje suscita alguma discussão. Que este equídeo existiu e proliferou na nossa região não há dúvidas. Discute-se sim o aspecto que teria, embora a tese que mais força tem seja a de que se tratava de um animal semelhante a um burro, de pêlo cinzento com uma faixa mais escura sobre o dorso e com focinho escuro. A sua pele, muito apreciada, era usada como bem transaccionável, como aliás é referido no foral de Coimbra e no de Pinhel, mas o zebro também era procurado pela sua carne. A pressão humana, materializada na caça abusiva e redução do seu habitat, sobretudo a partir do século XII, acabou por levar este animal à extinção ainda durante a Idade Média. No entanto, mais uma vez, a sua memória persistiu no nome de localidades como Zebras (Fundão) e Zebreira (Idanha-a-Nova).

No resto do território português, há mais ocorrências que recordam este equídeo como Zebral (Vieira do Minho), Zebras (Valpaços), Zebreiros (Gondomar), etc.


Por outro lado, a referência a este animal sobreviveu também no nome dos equídeos que os exploradores portugueses encontraram em abundância nas savanas africanas e que acharam parecidos com o zebro. Falamos das zebras, pois claro.
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