quarta-feira, março 28, 2018

O museu subterrâneo de Liège

Praça de São Lamberto, o coração de Liège. Hoje coexistem aqui o impressionante palácio dos Príncipes-Bispos, uma estação de autocarros e, do lado oposto da praça, um centro comercial. No centro, várias colunas metálicas evocam a desaparecida catedral de São Lamberto e sob a praça esconde-se o Archeoforum.



Muitos daqueles que hoje atravessam a Praça de Saint Lambert, situada no centro de Liège e dominada pelo imponente palácio dos Príncipes-Bispos, estão longe de adivinhar que sob o pavimento deste lugar se esconde praticamente toda a história da cidade

Para lá da entrada algo discreta e descendo uma série de degraus, entramos no Archeoforum, um museu subterrâneo que nos conta de maneira singular a história de Liège, desde a Pré-História, quando o espaço da actual cidade era uma larga planície pantanosa, onde o hoje desaparecido rio Legia se encontrava com os múltiplos braços do rio Mosa. Antes de falarmos no Archeoforum convém no entanto conhecer um pouco da história da cidade.


A entrada do Archeoforum


Ao lado da entrada do Archeoforum, encontra-se o memorial das vítimas do atentado no Mercado de Natal de 2011 (ver aqui)



A turbulenta história de Liège



Sabe-se pelos vestígios encontrados no local que houve presença humana desde o Paleolítico. Certamente, grupos de humanos terão aqui vindo para caçar os animais que faziam parte da vasta biodiversidade local.

É no entanto da época romana que se conhecem os vestígios de uma presença humana permanente, embora modesta, na forma de grande edifício rectangular com termas, talvez parte de uma villa. Em torno desta fixaram-se gradualmente mais habitantes, gerando um pequeno aglomerado até que, por volta do ano 700, se deu um evento que iria para sempre marcar o destino de Liège: o assassinato de São Lamberto, bispo de Maastricht.

Vendo que os fiéis vinham em grande número prestar homenagem e rezar no local onde Lamberto fora assassinado, o seu sucessor ordenou a construção de uma igreja no local, para aí serem colocados os restos mortais de Lamberto. Numa prova de que o negócio da fé é um negócio bem rentável, as sistemáticas peregrinações a este local vieram contribuir para que o pequeno núcleo de casas fosse gradualmente crescendo, até se transformar numa grande cidade.

Apesar de ter sido saqueada duas vezes pelos vikings e, como se não bastasse, ainda tivesse sofrido um raide húngaro, a cidade prosperou e tornou-se sede de bispado e um importante centro religioso e cultural, tanto que chegou a ser apelidada de Atenas do Norte. No século X, Liège torna-se capital de um principado independente, governado pelos bispos, mantendo no entanto a sua ligação ao Sacro Império Romano Germânico. A igreja de São Lamberto, agora com o palácio dos príncipes-bispos como vizinho, vai evoluir para uma grande catedral gótica no século XII.

A história do principado não foi sempre pacífica. Um bom exemplo disso foi o que sucedeu no século XV quando, num conflito criado pela sucessão do príncipe-bispo, a população da cidade escorraçou o bispo que tinha sido colocado no trono pelos pouco simpáticos vizinhos Borgonheses. O Duque de Borgonha, Carlos o Temerário, não ficou muito agradado e, por conseguinte, atacou e arrasou a cidade, deixando apenas as igrejas de pé. No entanto, em jeito de compensação, mandou fazer um relicário com a sua imagem, segurando uma cápsula onde foi guardado um osso da mão de São Lamberto. A cidade sobreviveu no entanto a esta tragédia e alguns anos depois voltou a recuperar o seu fulgor.

O principado chegaria ao fim com a Revolução Francesa, com eco em Liège onde a população abraçou de forma entusiástica os ideais revolucionários. No decorrer da chamada Revolução de Liège, a população atacou o palácio dos príncipes-bispos e arrasou a catedral. Liège, com o seu território, foi integrada no novo departamento francês do Ourthe. Após o período napoleónico, Liège passou a fazer parte da Holanda até que, pouco tempo depois, se tornou parte da Bélgica independente.


O Archeoforum, da Pré-História ao século XX


São os vestígios desta longa história que se encontram no Archeoforum que, para além do museu, que contém um espaço para exposições temporárias e sala de eventos, é também um estaleiro de pesquisas arqueológicas ainda em curso.

As primeiras descobertas foram feitas no início do século XX, durante a abertura de valas para trabalhos de saneamento. Os vestígios foram preservados e, desde então, as investigações ainda não terminaram.



Alguns objectos avulsos junto a uma fotografia das primeiras escavações arqueológicas na Praça. O aspecto de estaleiro do museu salta logo à vista.



Galeria com ilustrações que mostram o desenvolvimento de Liège ao longo do tempo



As estruturas postas a descoberto, os muros do edifício romano, o local onde Lamberto terá sido assassinado e a imponente catedral gótica arrasada em 1789, podem aqui ser admiradas. A baixa altura do tecto, que obriga os visitantes a ter cuidado em algumas passagens, foi aproveitada para aí instalar luzes coloridas que ajudam a distinguir os diferentes muros. Por exemplo, os muros romanos são assinalados a vermelho, enquanto que a catedral gótica está identificada a azul.



As luzes vermelhas seguem e assinalam o alinhamento dos muros romanos. As luzes verdes marcam a localização das construções da catedral românica dos séculos X/XI



Ao longo do percurso, devidamente explicado pelo livro-guia ou iPad entregues na recepção, encontram-se vitrinas com alguns do objectos exumados nesse local.




De forma a transmitir a noção de que a História é algo que não se resume ao estudo do passado, os vestígios expostos vão desde o Paleolítico até ao século XX. Tem-se assim a clara noção de que a musealização da História não se deve restringir de forma redutora a cronologias recuadas mas, pelo contrário, deve pôr em evidência a continuidade temporal que liga aquilo que é hoje a nossa realidade com o passado mais remoto, estabelecendo de forma clara uma ligação identitária.

O preço de entrada é de apenas 7€ e digo apenas porque, para além da visita ao Archeoforum, com um pequeno livro-guia de oferta (não o iPad, infelizmente), o bilhete ainda permite aos visitantes visitar o tesouro da catedral de São Paulo, a igreja que substituiu a catedral de São Lamberto como sede de bispado de Liège. Vale bem a pena.



São Lamberto, o santo guardado em pedaços


Perto daqui, na Catedral actual, a Igreja de São Paulo, cuja torre sineira foi construída no século XIX com materiais da torre destruída da catedral primitiva, encontram-se os restos mortais de São Lamberto dispersos em vários recipientes. Desde a arca que "contém a maior parte" do santo, segundo um guia local, até ao famoso relicário de Carlos o Temerário, que contém uma falange, e o impressionante busto-relicário que contém parte do crânio do santo.

Não é que Lamberto tenha tido uma morte tão violenta que tenha ficado em pedaços. Foi violenta, na medida em que faleceu vítima de um golpe de lança na cabeça desferido a partir do tecto mas, com o correr dos séculos, os seus restos mortais foram sendo distribuídos por relicários.

Em relação ao motivo que levou ao seu assassinato, a tradição diz que São Lamberto morreu por ter recusado reconhecer a relação adúltera do prefeito do palácio, algo equivalente entre um primeiro-ministro e um vice-chefe de estado, do reino franco da Austrásia. Na verdade, morreu porque uma família rival decidiu atentar contra a sua. Sendo Lamberto uma figura importante, tornou-se um alvo privilegiado.


Arca tumular com "maior parte" dos restos mortais de São Lamberto



Relicário de Carlos o Temerário. O duque de Borgonha é representado ajoelhado e segurando a cápsula contendo a falange de São Lamberto, sendo apadrinhado por São Jorge (a figura em pé).



O Busto-Relicário de São Lamberto, feito por um artífice de Aachen antes de 1512. Contém um pedaço do crânio do santo.



Vale a pena visitar:

segunda-feira, março 12, 2018

O maior e mais antigo castanheiro do Mundo

No artigo anterior, falei aqui sobre as tradicionais secadeiras da Serra da Gardunha, que todos os anos secavam toneladas de castanhas, recolhidas pelas gentes da Gardunha, ansiando por guardar um quinto ou um sexto do que recolhiam. Em termos de números, para se ter uma ideia mais precisa, faltou dizer que, por exemplo, a secadeira do Tormentoso processava por ano cerca de 1.000 arrobas de castanhas, o equivalente a 15.000 kg, enquanto que a secadeira nova do Carcavão processava 2 moios(*) de cada vez, algo como 1800kg!

Pode parecer excessivo à luz do povoamento de castanheiros na Gardunha que hoje vemos mas houve alturas em que nesta serra se encontravam exemplares colossais, como o castanheiro grande do Alcambar ou o Castanheiro do Moio. A revista Brotéria, publicação fundada no antigo Colégio de São Fiel, deu a conhecer muitos desses muitos desses exemplares. José Germano da Cunha fala no séc XIX de um castanheiro com 18m de diâmetro do tronco, 48 na copa, dentro do qual caberiam 36 homens em pé.

Ainda hoje, na memória dos mais idosos está ainda a forma como as pessoas se abrigavam da chuva, refugiando-se dentro dos troncos ocos dos castanheiros mais velhos. Também havia quem tentasse em jeito de brincadeira o desafio de saber quantas pessoas conseguiriam abraçar um castanheiro, ao fim e ao cabo uma forma involuntária de silvoterapia.

No Europa, o Castanea sativa distribuiu-se pela zona Ocidental do continente, assum como na bacia mediterrânica, nas zonas mais temperadas, sendo uma árvore importante para a economia de alguns países. Em Itália por exemplo, há uma associação nacional que defende e promove o cultivo de castanheiro e na comuna de Sant’Alfio, na Sicília, encontra-se aquele que será o maior e mais antigo castanheiro do Mundo e, ao mesmo tempo, a maior e mais idosa árvore da Europa: o castanheiro dos 100 cavalos (Il Castagno dei Cento Cavalli). 

Esta árvore tem uma idade estimada 3600 e 4000 anos, de acordo com a informação disponível no site institucional. O Livro de Recordes do Guiness refere-a como a árvore com maior circunferência de tronco registada, com 60m de diâmetro no tronco de acordo com a medida registada no século XVIII. Actualmente está dividida em vários troncos mais estreitos, após um incêndio ocorrido em 1923 e ateado pela população local, em protestos contra uma medida de reordenamento territorial administrativo.


O castanheiro dos 100 cavalos representado por Jean-Pierre Houel, na sua obra "Voyage pittoresque des illes de Sicile, de Malte et de Lipari, 1782. Foto: Wikipédia

O seu nome deve-se, segundo uma lenda local, ao facto de a rainha de Nápoles, Joana de Aragão, no regresso de uma expedição ao Etna, ter sido surpreendida por uma violenta tempestade que a obrigou e à sua comitiva de 100 cavaleiros a procurar refúgio dentro do castanheiro. Hoje a árvore é uma das grandes atracções turísticas da região, tendo a sua importância enquanto monumento natural de grande valor simbólico sido reconhecida pela UNESCO em 2006.


O Castanheiro dos 100 cavalos na actualidade. Foto tirada daqui

Vale a pena ler: dois milhões para reabilitar zona envolvente do Castanheiro dos 100 cavalos

(*) o moio era uma medida que tanto podia ser de volume como de peso. Pela zona NO da Gardunha, equivalia a 60 alqueires, sendo que a medida do alqueire, variava de região para região, podendo representar o equivalente a entre 11 a 15kg de peso.

quarta-feira, março 07, 2018

As Secadeiras da Gardunha

Texto publicado no Jornal do Fundão a 1 de Março de 2018.(ver aqui

Secadeira do Carvalhal, Souto da Casa


As secadeiras são uma das construções mais tradicionais da Serra da Gardunha, e foram em tempos uma engrenagem fundamental num dos aspectos económicos mais importantes da região: a produção de castanha. Funcionaram de forma intensiva até há cerca de 30 anos, altura em que os incêndios, as pragas e o corte abusivo enfraqueceram irremediavelmente os soutos. 

Várias fontes atribuem aos romanos a responsabilidade pela introdução do castanheiro na Península Ibérica mas, na verdade, o registo fóssil prova que o Castanea sativa já existia pelo menos no Noroeste peninsular há cerca de 7.000 anos. Na Gardunha, reza a tradição que os castanheiros terão sido plantados por ordem de D. Dinis, em finais do séc. XIII, sendo que os soutos, com uma extensão de cerca de 14km, depressa assumiram um papel vital para as comunidades da Gardunha. 

É fácil perceber a importância que o castanheiro terá tido na subsistência destas comunidades, à semelhança do que acontecia nas geografias onde abundava. Para além da tão apreciada e muito nutritiva castanha, que lhe granjeou o epíteto de “árvore do pão”, o castanheiro fornecia também lenha para cozinhar e para aquecimento, madeira para construção de habitações e do seu mobiliário, matéria para fertilizar os solos, material para cestaria, alfaias agrícolas e até cajados de pastores. 

Os soutos, inicialmente pertença do rei, acabaram nas mãos de grandes proprietários que daí obtinham uma parte significativa dos seus rendimentos. A tarefa da recolha da castanha, na ordem das centenas de toneladas, cabia à população assalariada que, em seguida, levava o fruto para as secadeiras onde eram colocadas a secar. Depois de seca, grande parte da produção ficava na posse do proprietário, cabendo apenas uma pequena fracção àqueles que tinham recolhido o fruto, inicialmente um sexto ou um quinto

 As secadeiras eram construções em granito ou xisto, com telhado a uma ou duas águas, consoante a sua dimensão e organização. Possuíam dois pisos e tinham em geral apenas duas aberturas: uma porta e uma janela. Adossado às secadeiras ou nas imediações destas, era comum existir um espaço de armazenamento. Separando os dois pisos encontrava-se o “caniço”, sobre o qual eram despejadas as castanhas destinadas à secagem. Tratava-se de uma estrutura em madeira, constituída por pequenas tábuas ou “ripas”, suportadas por vigas transversais. As ripas eram espaçadas entre si o suficiente para, por um lado, não deixar cair as castanhas e, por outro lado, para permitir a passagem do calor proveniente das fogueiras do piso inferior. 

 O processo de secagem demorava de duas a três semanas, sendo realizado pelo efeito do calor de fogueiras brandas, sempre com recurso a lenha de castanheiro cujo fumo, dizem, “dava às castanhas um aroma e um paladar mais adocicado”. As fogueiras eram mantidas pela vigília constante daqueles que tinham as suas castanhas na secadeira nessa altura. Já secas, as castanhas eram depois descascadas, sendo para isso colocadas em cestos próprios onde eram pisadas fosse com tamancos de madeira ou, mais recentemente, com recurso a botas cardadas. As castanhas secas, ditas “castanhas piladas”, eram depois triadas para separar as de melhor qualidade para venda. As de menor calibre ou partidas destinavam-se ao sustento da população podendo ser cozidas ou usadas no tradicional “caldudo”. 


Distribuição das secadeiras inventariadas na Gardunha. Para referência, a Penha situa-se no canto superior direito da imagem. Fonte: Google Maps


Recentemente, dedicámo-nos a fazer o seu inventário na freguesia do Souto da Casa, tendo registado sete secadeiras. Haveria certamente mais ao redor da Gardunha. Das que constam deste inventário, a mais bem conservada é a Secadeira do Carvalhal, que em boa hora foi restaurada pela Junta de Freguesia do Souto da Casa. As restantes encontram-se todas em ruínas.

sexta-feira, março 02, 2018

A cintura fortificada de Liège - O forte de Embourg



De forma depreciativa, pelo passado bélico de séculos do seu actual território, costumava-se dizer que a Bélgica era o "Boulevard Paris-Berlim". De facto, pelas suas características, o território belga sempre foi visto como a via ideal para qualquer ofensiva francesa contra a Alemanha ou vice-versa. Após a guerra franco-prussiana de 1870-71, as autoridades belgas decidiram contrariar esta tendência e reforçar defensivamente a região ao redor de duas cidades de grande importância estratégica, Namur e Liège, com a construção de cinturas de fortes ao seu redor.

Entre 1888 e 1892, foram construídos nada mais nada menos que 12 fortes ao redor de Liège, visando trancar a região a futuras invasões. Na cidade propriamente dita, foi construído um forte imponente, a Cidadela, sendo complementado com outro forte na margem direita do Mosa: o forte de Chartreuse.

Infelizmente, como a História nos ensinou, o nível tecnológico dos fortes desta região sempre chegou com uma guerra de atraso e, quando se deu a Batalha de Liège na abertura da ofensiva ocidental alemã em Agosto de 1914, as estruturas de betão simples (não armado) não conseguiram resistir à artilharia pesada germânica. Alguns fortes foram pura e simplesmente apagados da paisagem pela artilharia, sepultando as tropas que os guarneciam.

Ainda assim, a resistência de Liège durou 12 dias, muito acima do esperado pelos alemães, que contavam com uma rápida vitória no sector, garantindo um tempo precioso para que os franceses preparassem a sua defesa. O reconhecimento deste feito mereceu a condecoração de Liège com a Legião de Honra francesa.

Antes da Segunda Guerra Mundial, alguns fortes foram reconfigurados e reapetrechados e a região militar foi reforçada com 4 novos fortes. Apesar de tudo, mais uma vez, pouca resistência conseguiram oferecer à "Wermacht".

Embora os fortes apresentem hoje estados de conservação e utilização bem diferentes, decidi percorrê-los a todos, começando arbitrariamente pelo Forte de Embourg. Os restantes serão percorridos ao longo do ano.


O Forte de Embourg

A cintura fortificada de Liège. O forte de Embourg está assinalado a azul.


O Forte de Embourg visava fechar o vale do Ourthe, no sector Sul / Sudeste. Actualmente é mantido por uma associação sem fins lucrativos que realiza visitas guiadas ao seu interior, onde aliás foi implementado um museu reputado de muito interessante.



Acesso ao forte de Embourg, com alguns vestígios de defesa passiva anti-tanque


"Blockhaus" de protecção da entrada, com abertura de tiro de canhão ou metralhadora e abertura para largada de granadas (à direita)

Infelizmente, no dia da nossa visita e ao contrário do anunciado, o forte manteve-se fechado pelo que tivemos de nos contentar com uma pequena visita à parte superior das fortificações. Felizmente, nem tudo foi mau e encontrámos à porta uma habitante local, a senhora Vin Coenen, muito envolvida na gestão do forte,  que aceitou acompanhar-nos e falar um pouco sobre Embourg.

Com Vin Coenen na entrada do forte.


O ataque alemão de 1914

Os fortes de Liège e as tropas de intervalo ofereceram uma feroz resistência ao ataque alemão de 6 de Agosto de 1914, ocorrido apesar de a Bélgica ter declarado a sua neutralidade no conflito. Perante a inesperada resistência belga, os alemães foram forçados a duplicar os efectivos envolvidos no ataque e a utilisar os seus famosos canhões "Grande Bertha", com um calibre de 420mm. Ora os fortes, como disse, tinham várias limitações, entre elas, a mais grave, o facto de terem sido construídos em betão não armado, permitindo-lhes resistir ao impacto de obuses com um calibre máximo de 210mm. Escusado será dizer que o efeito do bombardeamento contínuo foi devastador. Por outro lado, os canhões dos fortes utilisavam pólvora negra, que produzia um fumo asfixiante. Após várias horas a disparar, o ar no interior dos fortes tornava-se irrespirável.

O forte de Embourg foi bombardeado sem parar durante mais de 24h, entre 12 e 13 de Agosto, acabando por se render.

A germanofobia do pós-guerra e a heróica resistência de Liège foram bem evidenciadas pelos franceses. Assim, o café dito "Viennois" foi rebaptizado de "café Liègois", para evitar referências à capital austríaca e, por outro lado, a rua e a estação de Berlim, em Paris, foram rebaptizadas de rua e estação de Liège, respectivamente e a raça canina pastor-alemão passou a ser conhecida por pastor-belga. Finalmente, à cidade de Liège foi atribuída a Legião de Honra francesa.


O ataque alemão de 1940

O forte foi o primeiro forte de Liège a entrar em contacto com as tropas alemãs, no início da batalha da Bélgica. O forte tinha dois grupos de soldados em rotação. Vin conta-nos que o seu pai estava no destacamento em repouso na aldeia ali ao lado e que, quando chegaram as notícias do ataque, recebeu ordem para retirar para uma linha defensiva longe do forte. Este ultimo acabaria por se render 5 dias mais tarde, sem possibilidades de resistir ou receber apoio. O pai de Vin acabaria mais tarde por ser capturado em França e passou vários meses como prisioneiro de Guerra na Alemanha antes de voltar a casa.

Quanto ao forte, ocupado agora pelos alemães, foi alvo de várias obras de melhoramento para o tornar mais resistente e eficaz. O que hoje se vê é o resultado desses melhoramentos.


O acesso de infantaria no maciço central superior do forte

Posição de tiro de infantaria na parte superior do forte

Espaço anteriormente ocupado por uma cúpula de artilharia


Vista do fosso e, à direita, do maciço central do forte

Uma ligação a Portugal

Ao saber que somos portugueses, Vin exclama -"Tenho excelentes recordações dos portugueses!" e conta-nos porquê. Após o regresso do pai, acabaram por deixar a Bélgica rumo ao Congo Belga (actual R.D. do Congo) onde ficaram até ao fim do conflito, após o que decidiram regressar à Bélgica. O meio de transporte escolhido foi o barco que, por proximidade e por conselho de vários amigos, decidiram ir apanhar em Luanda, o que implicava uma viagem de carro pelo interior africano. 

Ora acontece que na fronteira os amigos que os acompanhavam foram impedidos de prosseguir, obrigando a família de Vin a continuar sozinha. A dada altura perderam-se e, chegados a uma localidade cujo nome se perdeu da memória, foram acolhidos por um casal de portugueses que os convidou a jantar e pernoitar em sua casa.

Na altura com 6 anos, Vin já não se recorda qual foi a ementa do jantar. Lembra-se apenas da sobremesa: leite creme com canela. -"Os portugueses põem canela em tudo, não é? Estava tão bom, tão bom...!".

Com as indicações certas, seguiram viagem no dia seguinte e finalmente regressaram a Liège. O pai de Vin foi reincorporado no exército e destacado para Aachen, no sector inglês da Alemanha ocupada. Do que viveu ficaram-lhe poucas memórias mas bem vivas: a cidade em ruínas e a vida que levavam no quartel. "A cidade estava toda destruída. Era horrível. Mas nós, lá no quartel vivíamos bem. Tínhamos escolas, cinema, piscina,... Eram mundos diferentes."

Despedimo-nos, com alguma frustração por não podermos visitar o interior do forte mas, ficou desde logo combinado que voltaríamos quando este estivesse aberto em permanência. Ficou muito por conhecer sobre o forte de Embourg.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Serra da Gardunha - Um território de passagem

Nota - Este artigo serviu de base à crónica recentemente publicada no Jornal do Fundão. Apresenta-se aqui numa versão mais extensa e próxima da sua versão original.




A Serra da Gardunha contém muito mais que apenas a paisagem natural. Possui muitos outros rostos, outras materialidades que estão na base da nossa identidade cultural. Apesar de hoje a escala humana escapar à nossa percepção, a Gardunha sempre foi ao longo da História um território de intensa vivência e também de comunicação entre as comunidades das suas vertentes. Esta sua dimensão cultural humana entra nos domínios da história e da etnografia, aspectos que se refletem num rico manancial de património material e imaterial que hoje podemos encontrar ao seu redor. 

A existência de diferentes comunidades no perímetro da Gardunha, com a consequente necessidade de comunicação entre elas, e o próprio carácter de fronteira da Serra, sendo um lugar de passagem por exemplo dos caminhos da transumância, pressupunha a existência de uma rede de vias de trânsito que permitia atravessar a serra ou simplesmente servir de via de comunicação entre comunidades da própria serra. 

Se dos caminhos secundários hoje pouco resta a não ser a memória imprecisa da sua existência, quanto às vias principais o cenário é substancialmente diferente. Quem não conhece hoje a estrada romana que liga Alcongosta a Alpedrinha, com o seu sinuoso lajeado, ou a continuação desta de Alpedrinha para Castelo Novo? Trata-se de uma via notável que merece claramente ser preservada e valorizada, embora suceda precisamente o contrário já que sobre ela continuam a passar veículos motorizados, com consequências bem visíveis no seu estado de conservação e, não bastando isso, ainda no ano passado no segmento Alpedrinha-Castelo Novo foi realizada uma intervenção para benefício privado que a danificou seriamente.

Para além de outros troços de calçada antiga existentes ao redor de São Vicente da Beira e do Alcaide, outra via dita romana que é bem conhecida é a calçada que liga o santuário da Senhora da Orada, em São Vicente da Beira, até à portela denominada como “Cruz”, no limite entre esta freguesia e a do Souto da Casa. Também esta via foi alvo há alguns anos de uma intervenção de preservação muito sui generis que a escondeu dos olhares e hoje, em consequência do esquecimento a que foi votada, está já seriamente danificada em alguns locais. Esta calçada ainda assim era apenas uma parte de uma via que ligava São Vicente da Beira ao Souto da Casa, e que entre esta última localidade e a aldeia de Casal de Álvaro Pires evidencia ainda alguns segmentos de pavimento em zonas de maior inclinação, uma prática normal que se destinava a garantir que os veículos puxados por animais aí conseguissem ter tracção.

Para além da sua função de ligação entre comunidades no domínio mais terreno, algumas destas vias tinha também uma função de ligação ao sagrado, tornando-se caminhos de romaria ou peregrinação mais ou menos sazonais. Neste contexto em particular, a cartografia da antiga rede viária da Gardunha teve no ano passado uma importante contribuição por parte dos Caminheiros da Gardunha que, em conjunto com o Museu do Fundão e contando ainda com a preciosa colaboração de Mário Castro no que à interpretação e ao levantamento cartográfico diz respeito, identificaram no terreno e na quase totalidade da sua extensão, a via que ligava Castelo Novo ao antigo santuário de Nossa Senhora da Serra na Penha da Gardunha. O resultado deste trabalho foi dado a conhecer nas I Jornadas de Arqueologia e Património da Serra da Gardunha realizadas em Abril de 2017 no Fundão.


Vista SO do fraguedo da Penha, já no topo da escadaria

A fundação do santuário de Nossa Senhora da Penha, justificada por um milagre, remontará provavelmente a tempos medievais, acabando mais tarde por ser desmantelado por ordem bispal, possivelmente algures no início do século XVIII, na sequência de uma existência algo turbulenta. Durante este período, foi um importante local de romagem das comunidades ao redor da Gardunha, que para aí convergiam logo a seguir à Páscoa, embora em dias diferentes para evitar refregas decorrentes de rivalidades, como nos conta José Inácio Cardoso na sua Orologia da Gardunha. Esta tradição sobrevive actualmente em Castelo Novo, com a festa em honra de Nossa Senhora da Serra na Segunda-feira de Pascoela. Voltando à romaria anual à Penha pela vertente de Castelo Novo, para além de algumas descrições historiográficas, havia muitas dúvidas sobre qual o caminho que os romeiros seguiam para aí chegarem, dúvidas essas que agora parecem estar dissipadas com a identificação da via.



A escadaria da Penha

Esta, cuja passagem pelo sítio do Sameiro já tinha sido referenciada pelo Museu embora sem precisar a sua real extensão, parece ter servido também para transporte de carga entre a aldeia histórica e o casario mais ou menos disperso que existia no local conhecido como Barrocas do Mercado, como o demonstram as marcas de rodados que ficaram bem vincadas em algumas lajes pelo seu uso continuado. Desta derivava, a dada altura, um caminho que ascendia à Penha, num ziguezague de degraus e plataformas sucessivos ao longo de 350m, com alguns segmentos eventualmente pouco recomendáveis a quem sofre de vertigens. Dos acessos de quem vinha do Souto da Casa e Alcongosta conhecem-se hoje apenas alguns vestígios e há ainda muitas interrogações no ar.

Ora, acontece que a nefasta passagem do fogo pela Gardunha, não deixando de ser uma tragédia, deixou à vista muitos elementos de património que até agora estavam escondidos, inclusive alguns troços viários antigos que nos ajudam a ter uma ideia mais abrangente da rede de caminhos que percorriam a serra. Várias publicações na rede social da moda, o Facebook, deram conta do surgimento destes troços de calçada entre Louriçal do Campo e Alpedrinha, passando por Castelo Novo. Estamos, sem dúvida, perante uma oportunidade de ouro para proceder à identificação e inventariação desta rede de caminhos antigos. As vantagens que poderiam advir desta intervenção são por demais evidentes.


Troço da calçada Alcongosta-Alpedrinha que estava escondido e que o incêndio deixou à vista


Numa lógica de criação de valor turístico da Serra da Gardunha e com base nos inúmeros elementos patrimoniais atrás referidos, é hoje perfeitamente possível - e faz todo o sentido- criar itinerários pedestres permanentes com um fundo cultural, com uma temática que abranja tanto o património material como o imaterial, e cujo interesse consiga ir muito para além da paisagem natural. A rede viária antiga tem aqui também um papel importante na medida em que traria valor acrescentado a estes percursos. Para além deste factor de valor acrescentado, a sua integração na rede de percursos pedestres acabaria por ser também um importante factor de preservação, na medida em que contribuiria para os manter transitáveis.

Um bom exemplo de uma iniciativa nesse sentido é projecto “Gardunha Sacra”, um projecto que começou há 4 anos resultante de uma parceria entre o Município do Fundão, os Caminheiros da Gardunha e o GEGA, contando também circunstancialmente com o contributo de várias colectividades e instituições do perímetro da Gardunha, e que procurou definir um percurso ao redor da serra ligando os lugares sagrados de certa forma esquecidos através da rede de caminhos antigos. Esta iniciativa termina a sua primeira fase no próximo mês de Março, numa caminhada que vai ligar Alcongosta ao Fundão, avançando depois para o patamar seguinte em que se vai trabalhar no sentido de tornar o percurso permanente, associando-lhe não só publicações de suporte e divulgação como ainda meios para tornar possível que todo o percurso possa ser feito de forma autónoma sem perder o seu cunho pedagógico.

Adicionalmente, agora que a real extensão desta rede viária começa aos poucos a ser conhecida, muitos dos actuais percursos pedestres homologados poderiam e deveriam ser desviados quando possível para as vias antigas, retirando-as dos “estradões” contemporâneos nas quais foram sinalizadas. Enquadram-se perfeitamente neste contexto por exemplo a Rota da Penha, a Rota de Alpreade e até o troço do Caminho de Santiago que, apesar de ser considerado um caminho cultural histórico, atravessa a Gardunha por intermédio de um moderno, exigente e descontextualizado estradão. Seria sem dúvida mais interessante se o fizesse por calçadas antigas, seguindo certamente desta forma mais fielmente os passos dos antigos peregrinos.

Valorizar os elementos patrimoniais materiais existentes ao longo do percurso seria também uma possibilidade, destacando-os e disponibilizando informação sobre eles. Tomando como exemplo a via romana entre Alcongosta e Alpedrinha, com pouco esforço se poderia dar destaque às interessantes lagaretas escavadas na rocha existentes junto à portela ou colocar em evidência as marcas de trabalho existentes nas rochas ao longo da via, marcas essas que nos dão pistas sobre onde e como foram obtidas as lajes com que foram feitos a calçada e respectivos muros de suporte.



Marcas de trabalho de extracção de pedra certamente para abertura de passagem e pavimentação da via.




Uma das lagaretas situadas junto à via Alcongosta-Alpedrinha


As soluções para pôr tudo isto em prática existem e não é preciso inventar nada. Basta saber seguir os bons exemplos. Depois, é só uma questão de sabermos capitalizar aquilo que é o factor crucial de diferenciação, que é a conjugação do nosso património natural com o património cultural material e imaterial. A receita é bem simples: basta saber valorizar o que é nosso e que define, ao fim e ao cabo, a nossa identidade enquanto filhos da Serra da Gardunha.


quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Peculiaridades arquitectónicas de Liège

Num artigo anterior, referi que Liège tinha sido devastada várias vezes ao longo da sua História, a última delas durante a 2ª Guerra Mundial. Num dos próximos artigos irei falar sobre isso mas, para já, o que interessa é que com este passado atribulado, sobra hoje pouco das construções medievais da cidade.

No último fim-de-semana decidi ir esticar as pernas pelas ruas de Liège, à descoberta dos seus contrastes e particularidades. Comecei na Praça da Ópera e passei sucessivamente pela ilha de Outremeuse, bairro de Guillemins e regressei pelo centro histórico da cidade numa volta simpática de cerca de 9km.

Aquilo que foi perfeitamente perceptível é que a maioria das construções datam do século XVIII em diante, embora seja possível encontrar alguns exemplares mais antigos. Mas estas construções evidenciam bem o fulgor económico da cidade, a "Cidade Ardente" como é chamada, e o grande crescimento da mesma ao longo dos últimos 200 anos.

No entanto, entre inúmeros pormenores houve um que me chamou a atenção e que se encontra em praticamente todas construções do século XIX e início do século XX ou, pelo menos, nas menos modestas. Praticamente todas as construções deste período têm em comum as mesmas características e que se podem ver nas fotografias seguintes: uma abertura ao nível do solo, um respiradouro na escadaria de acesso à porta ou perto dela e um elemento que ao início me intrigou e que em geral consiste numa cavidade com um elemento metálico proeminente.





A abertura ao nível do solo servia para despejar carvão para aquecimento das casas, ou não se gabasse Liège de ser sede da região onde se descobriu pela primeira vez a hulha, ou carvão betuminoso, que possibilitou a Revolução Industrial. Os respiradouros estão associados à mesma cave para a qual o carvão era despejado e queimado e estarão certamente nesse local para permitir a entrada de oxigénio no compartimento.




Por último, o terceiro elemento remete para uma época em que as ruas estavam cheias de lama, inúmeras obras e testemunhavam um intenso tráfego de carros de tracção animal: trata-se dos "décrotteurs", literalmente os "tira-bostas".






Estes elementos encontravam-se não só à entrada das residências mas também dos edifícios públicos e permitiam a quem trouxesse as botas sujas com lama ou com o resultado do escape dos carros de tracção animal que ia ficando no chão. Claro que os mais ricos também podia simplesmente recorrer a um "décrotteur" como eram chamados os engraxadores, que não só engraxavam as botas como também removiam o que estava a mais nas solas.

Hoje em dia passam quase despercebidos sendo que a grande maioria já perdeu o seu elemento metálico e, pelo que pude perceber, muita gente desconhecce hoje o seu propósito original. No entanto são elementos arquitectónicos bastante interessantes que existem numa grande variedade de formas, mais ou menos normalizadas e que ainda hoje são capazes de dar bom jeito aos transeuntes que não costumam olhar para o chão que pisam.


















quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Não, a lei que permite a entrada de animais em restaurantes não é o 1º sinal do fim do Mundo.

Imagem tirada daqui

"Após o ribombar das trombetas celestes, o chão irá fender-se derramando sobre a terra legiões de animais famintos e sarnosos que irão invadir os restaurantes, condenando à fome e à intromissão de pêlos, em partes insuspeitas e recônditas do corpo, todos os seres humanos aí presentes.

É desta forma que é encarada nas redes sociais, esse lugar de indignações instantâneas e seguidistas, quiçá com algum exagero da minha parte, a perspectiva da entrada em vigor da lei que irá permitir a entrada de animais de companhia em estabelecimentos de restauração

A receita é sempre a mesma: a aquisição de informação fica-se pela leitura do título de uma notícia, na maior parte das vezes já inquinada por uma certa dose sensacionalismo e falta de rigor, com vista a obter "cliques", e de pronto se faz a sua partilha, juntando-lhe uma série de palavras "robustas", plenas de indignação.

Nas redes sociais, parece que as pessoas perderam a capacidade de ter um certo nível de pensamento crítico e, pior ainda, parecem ter perdido a capacidade para debater assuntos com alguma urbanidade. Basta uma opinião contrária à de alguém para este último desfilar um rol de adjetivos pouco abonatórios dirigidos a quem ousou discordar. Os exemplos são mais que muitos e poderão ter a ver com a sensação de impunidade e protecção que é dada por estarem escondidos por um ecrã.

Depois, no que diz respeito às leis, há sempre um argumento de contraditório que teima em vir à superfície: “Tanta coisa tão importante para legislar e perdem tempo com estas coisas!”. Um bom exemplo disto é a onda indignação geral, com um certo teor de islamofobia, é certo, que se gerou perante inúmeras iniciativas de ajuda a refugiados, que fugiam à guerra na Síria. O argumento principal era que “em vez de se ajudarem os sem-abrigo, estamos a trazer estas pessoas para viverem às nossas custas!”. Então muito preocupadas com os sem-abrigo, seria interessante averiguar quantas destas pessoas se mexeram desde então para os ajudar ou até, sendo picuinhas, quantas delas desviam o olhar quando passam por eles na rua para evitar dar umas moeditas.

Também parece generalizada a ideia de que a Assembleia da República dedicou dias inteiros das suas sessões à aprovação desta lei o que não pode estar mais longe da verdade. Basta ir consultar a documentação disponível no site da Assembleia da República para perceber isso, em vez de nos ficarmos com os pacotes sintéticos de indignação instantânea do Facebook.

Caros concidadãos, se acham que há coisas mais importantes MEXAM-SE! Criem petições, aborreçam os deputados que elegeram para a Assembleia da República. Não fiquem sentadinhos à espera que as mudanças caiam do céu. A cidadania, não se esqueçam, não se esgota nas mesas de voto. É, pelo contrário, um exercício que deve praticado ao longo de um período de 4 anos. Mas adiante.


O que diz afinal a lei que foi aprovada?

Voltando ao tema de abertura, o que diz afinal a lei que foi aprovada na sequência de uma proposta do PAN? 

Não, também não é isto que vai acontecer:



e não, também não vai ser o apocalipse da invasão animal com a chegada dos 4 binómios cinotécnicos do apocalipse como está a ser pintado. 



Em termos gerais, deixa de proibir taxativamente a entrada de animais de companhia em espaços de restauração, excepção feita a cães-guia como até agora acontecia, conferindo aos proprietários a prerrogativa da escolha de permitirem ou não essa entrada.

Ainda assim:

- Essa permissão ou não será dada a conhecer mediante a afixação de um dístico na entrada dos estabelecimentos (como acontecia com a permissão ou não de fumadores). Na ausência do dístico assume-se que a entrada é permitida;

- Os proprietários podem definir um limite de animais dentro do estabelecimento;

- Os animais terão de estar presos com trela curta, não podendo circular livremente

- O proprietário pode definir uma área específica para a permanência de animais em vez de permitir a sua presença em todo o espaço


Percebido? Espalhem a palavra!

Ah! Já agora, senhores donos de animais, porque há regras de civismo que são de observância obrigatória, não tentem aproveitar-se desta lei alegando que agora ninguém pode proibir a entrada de animais. Também será conveniente que os cães estejam treinados para não terem comportamentos que incomodem as restantes pessoas e animais. As regras de civismo aplicam-se a todos embora em Portugal muitas vezes tenha tristemente de ser imposto por lei.


quarta-feira, fevereiro 07, 2018

3 semanas e várias ameaças depois, eis a neve!

Depois de ter assistido a várias ameaças, a última das quais no passado Domingo (recordar aqui), desta vez nevou a sério sobre Liège e com reforçada intensidade na área onde trabalho, que fica a pouco menos de 300m de altitude mas, ainda assim, claramente acima da cota da cidade, que se fica por uns modestos 60m.

O habitual trajecto entre a empresa e a paragem onde apanho o autocarro para regressar a Liège fez-se desta vez num cenário radicalmente diferente. Se a zona já é bonita, pelos bosques de bétulas, faias e pinheiros silvestres que rodeia as estradas e as vivendas dispersas, agora com o branco da neve ficou-o ainda mais.

A neve não interrompeu o trânsito mas condicionou-o fortemente, o que tornou a normal meia-hora de viagem numa hora. Partilho aqui alguns dos "bonecos" de ontem registados entre a zona alta do Sart Tilman e o centro de Liège.

Olhando para trás, a EVS estava com este aspecto



A estrada do Parque Científico



Pormenor de um dos bosques



A recta entre o Parque Científico e a Igreja de Sart Tilman



Um caminho que desemboca na estrada



Uma das muitas vivendas que ladeiam o acesso ao Parque Científico



Pormenor de um dos vários jardins



A Igreja do Sart Tilman, um dos cenários de uma encarniçada batalha em 1914.



A Ópera Real da Valónia com a estátua de Grétry, um grande compositor nascido em Liège no século XVIII



Olhando na direcção da Catedral de Liège

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