sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Chegada a Liège

De repente, eis-me em Liège! Trata-se de uma mudança de vida radical, na sequência de uma proposta de emprego tremendamente aliciante, tanto pelo desafio técnico que representa, como pela remuneração oferecida (que também é um aspecto mais ou menos importante). Certo é que não é todos os dias que se tem a hipótese de trabalhar para um gigante que, por exemplo, está na base das transmissões televisivas dos maiores eventos desportivos a nível mundial, desde Liga dos Campeões aos Jogos Olímpicos.






Não deixou, no entanto, de ser difícil deixar para trás a família e os amigos. Felizmente, a possibilidade de viajar com frequência a Portugal permite mitigar as saudades e também dessa forma, aliado ao facto de estes contarem com uma equipa muito sólida que torna quase insignificante a distância a que me encontro, continuar a dirigir os Caminheiros da Gardunha e participar nas suas actividades.


 Liège, Valónia e o Reino da Bélgica 




A minha primeira imagem de Liège: a estação ferroviária Liège-Guillemins, um projecto da autoria de Santiago Calatrava, arquitecto que projectou também a "nossa" Gare do Oriente


Liège é a capital económica não oficial da Valónia, uma das 3 regiões belgas federadas que compõem a Bélgica, quero dizer, o Reino da Bélgica. As outras duas são a Flandres ou região Flamenga e, mais ou menos encravada entre as anteriores, a região de Bruxelas. De forma simplista podemos dizer que a Bélgica se divide entre os que falam holandês a Norte, os que falam francês a Sul e os tipos que são de Bruxelas, mas em rigor não é bem assim. Se na Valónia predomina o francês, também o alemão é língua oficial, como reflexo da presença da comunidade germanófona da faixa oriental da região.

A Bélgica tem algumas particularidades na sua organização, e não me refiro ao facto notável e já comprovado de conseguirem sobreviver e funcionar sem Governo, como aconteceu durante 541 dias entre 2010 e 2011, batendo o seu próprio recorde anterior de 194 dias, apenas 3 anos antes, facto pelo qual já tive ocasião de felicitar alguns belgas. Não. Refiro-me à organização administrativa plasmada na Constituição que, para além das 3 regiões, define também a existência de 3 comunidades no conjunto do território: a francesa, a flamenga e a germanófona, comunidades essas com fronteiras que não coincidem com as das regiões.

Voltando à Valónia, Liège é a segunda maior cidade da região, apenas um pouco atrás de Namur, que é a capital e tem pouco mais de 200.000 habitantes. É interessante ver que apesar de a Valónia ter uma área superior à da Flandres, esta última bate de longe os vizinhos do Sul em termos de habitantes: quase o dobro! Estamos a falar de mais de 6 milhões de pessoas a falar holandês e estes números não são como os dos 6 milhões de benfiquistas em Portugal. São mesmo a sério.  

Liège é uma cidade muito peculiar em termos históricos, arquitectónicos, nos costumes e na própria organização da cidade. Tudo isto é o resultado de Liège e a sua província, estarem entalados em pleno caminho entre Paris e Berlim, o que historicamente não foi sempre necessariamente bom, e de Liège ter sido a capital de um principado independente durante mais de 800 anos.

Será sobre estes temas, e com base na minha experiência diária na cidade, que irei desenvolver os próximos artigos.


Uma rua do centro histórico da cidade

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Postal gastronómico de Liège

O ano de 2018 começou com uma drástica alteração de vida por razões profissionais mas sobre isso haverá tempo para falar mais a frente. Para já, a titulo de introdução, partilhamos aqui um postal fresquinho que dá uma boa ideia da diversidade e das peculiaridades da gastronomia da cidade belga de Liège.




quinta-feira, março 09, 2017

A peregrinação das andorinhas

As andorinhas das rochas estão de regresso à Serra da Gardunha mas, à chegada, fizeram questão de parar junto à Igreja Matriz de Castelo Novo, talvez para saudar a imagem da Senhora da Penha, antes de subirem aos domínios desta. 




segunda-feira, março 06, 2017

Argemela de novo em risco - Recordando uma reportagem de 2003

O monte da Argemela está novamente na ordem do dia pelos piores motivos, a perspectiva da destruição das suas encostas por uma exploração mineira a céu aberto que terá um impacto irremediável na paisagem e recursos hídricos. Na Internet foi já aberta uma petição dirigida aos Ministros do Ambiente e da Economia para travar este processo. Poderão encontrá-la (e assiná-la, já agora) neste link: http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT84767

Já no início deste século o local fora danificado durante os trabalhos de abertura de um caminho, que rasgou parte do sistema de muralhas do castro que ali existe e que, mais tarde, foi novamente danificado pela exploração mineira da Unizel, que ali se instalou para explorar feldspato, abrindo um rombo na encosta.

Foi precisamente na véspera do início desta exploração de feldspato que me desloquei até ao monte da Argemela para visitar as escavações arqueológicas de emergência que ali decorriam, na tentativa de delimitar o sítio arqueológico. O resultado foi a reportagem que se segue e que na altura foi publicada no portal ArqueoBeira:


ArqueoBeira - 11 de Julho de 2003
Castro da Argemela (Fundão/Covilhã)


Terminaram as escavações de emergência


Alexandre Valinho e Miguel Serra em pleno trabalho - ArqueoBeira 2003

Terminaram no passado domingo dia 6 de Julho os trabalhos de prospecção de emergência no Castro da Argemela. Estes trabalhos, inseridos no projecto dirigido pela Drª Raquel Vilaça sobre o estudo da ocupação pré-romana na Beira Interior, duraram cerca de uma semana e foram executados pela empresa de arqueologia Palimpsesto - Preservação e Estudo do Património Cultural Lda. Esta intervenção deveu-se à necessidade urgente de delimitar este importante sítio arqueológico, para evitar que a exploração mineira prevista para este monte, o pudesse vir a destruir.

Na zona, está prevista para breve uma exploração mineira a cargo da empresa Unizel. Aparentemente, sob o monte da Argemela, existe um extenso filão de feldspato, mineral que esta empresa explora também na Turquia.

Em conversa com os Drs Alexandre Valinho, Miguel Serra e Eduardo Porfírio, que dirigiu os trabalhos no local, procurámos conhecer um pouco mais a natureza dos trabalhos e aquilo que reveleram.

Vala de sondagem que colocou a descoberto parte da 2ª muralha do castro - ArqueoBeira 2003

Os trabalhos, efectuados no perímetro da "acrópole", consistiram na abertura de 5 valas de sondagem, 4 com 4mx2m e uma, esta adjacente à 1ª linha de muralha, com 8mx2m.

"Os nossos trabalhos visam essencialmente estabelecer uma linha de protecção para o castro, procurando evitar ao máximo que os trabalhos de mineração previstos para a zona, tenham impacto sobre este sítio que já foi muito maltratado" - Afirma Miguel Serra, continuando: "Na parte da muralha que pusemos a descoberto, podemos ver que esta consiste apenas em pedra sobreposta, pelo que trabalhos envolvendo maquinaria pesada ou explosivos poderiam provocar um desmoronamento. Repare que aqui (apontando para uma parte exposta) ela até já apresenta sinais de desmoronamento."


Eduardo Porfírio, director da escavação - ArqueoBeira 2003

Estas sondagens que poderiam eventualmente revelar a existência de estruturas ou vestígios nada produziram: "Essencialmente, procurámos saber se existiam estruturas fora desta linha de muralhas, o que não parece acontecer" - afirma Serra.

Sobre o castro, diz-nos Valinho que "Para além disso, seria necessário confirmar se a alegada 3ª cintura de muralha existe mesmo, ou se é apenas um talude de antigas explorações mineiras. Não deixa de ser atípico que com tanta marca de mineração, não existam informações mais concretas na memória colectiva das comunidades circundantes, acerca deste local.".

De acordo com Alexandre Valinho "Os vestígios encontrados resumem-se a alguns fragmentos de cerâmica, que apontam para uma ocupação durante o Bronze Final ou mesmo Calcolítico".

Sobre o estado de conservação do castro, as opiniões mostram cautela, procurando não alimentar demasiadas expectativas. Alexandre Valinho afirma ainda assim que "é bom ver que, pelo menos esta parte da muralha que não foi arrasada pelos bulldozers, se encontra num estado razoável." Sobre a existência de mais vestígios, afirma que "só futuros trabalhos poderão dissipar essas dúvidas." Uma cautela justificada, se tivermos em conta que o castro foi muito maltratado ao longo dos anos, com a abertura de vários caminhos por bulldozers que sistematicamente rasgaram as cinturas de muralha para a abertura de caminhos e por sondagens geotécnicas em diversas zonas do castro.


A origem

Só recentemente começou a vir a público alguma luz sobre a origem deste local que na tradição popular mistura lusitanos, romanos, visigodos e árabes em histórias de guerras, torturas e nobreza.

Os fragmentos de cerâmica encontrados e o aparelho da muralha sugerem uma ocupação que se terá situado em 3 épocas distintas, com início no Calcolítico, algures no 3º milénio a.C., não existindo no entanto provas que confirmem que essa ocupação tenha sido contínua.

Os escassos vestigios encontrados confirmam uma ocupação no Calcolítico e no Bronze Final, sendo que a muralha se pode situar pelo seu aparelho como pertencendo aos Sécs IX ou X a.C..

"A localização do castro, dominando toda a paisagem envolvente, poderá indiciar uma ocupação da Idade do Bronze, em que este tipo de localização era padrão. Na Idade do Ferro, havia uma maior preocupação em dominar principalmente o rio." - Diz Alexandre Valinho


Os atentados

O castro da Argemela foi durante muitos anos vítima da ignorância e desleixo das pessoas a quem de direito cabia zelar pela sua preservação.

Sob o solo, existem grandes riquezas minerais, facto que aliado à exploração das encostas circundantes por uma empresa de celulose, levou a que a pressão sobre o castro pusesse em risco a sua existência.

Por várias vezes, na imprensa regional, se puderam ler notícias de destruição das muralhas, à medida que sistematicamente estas iam sendo derrubadas por bulldozers que abriam caminhos.

Não sendo mencionado como sítio arqueológico no PDM quer do concelho do Fundão, quer no concelho da Covilhã, os trabalhos no local, não eram acompanhados por arqueólogos o que ajudava a que os vestígios por demais evidentes (acumulação de enormes quantidades de pedra solta e fragmentos de cerâmica) fossem simplesmente ignorados.


A classificação que tardou

O último acto de destruição no castro, no ano de 2002, fez finalmente despertar as consciências. Manuel Frexes, presidente recém eleito da Câmara Municipal do Fundão, deslocou-se de imediato ao local para averiguar in situ o resultado da destruição.

De imediato, foram accionados os necessários mecanismos que, pouco tempo depois, resultaram na classificação do Castro da Argemela como Imóvel de Interesse Municipal pela Câmara Municipal do Fundão.

Resta agora esperar que os futuros trabalhos neste local, possam trazer mais alguma luz sobre a história do castro, para que na nossa imaginação se voltem a erguer as muralhas que outrora dominaram o vale do Zêzere.

segunda-feira, janeiro 30, 2017

Pela Serra da Estrela com neve. Muita neve!

Com tudo a postos para participar numa caminhada organizada que iria percorrer o maciço central da Serra da Estrela, a notícia do adiamento devido ao agravamento das condições climatéricas foi uma tremenda desilusão. A Estrela é um território do qual conheço muito pouco para além dos circuitos turísticos habituais e estava em pulgas para ir caminhar por aqueles fraguedos, ainda por cima com neve.

Apesar das circunstâncias, o apelo da caminhada acabou por ser mais forte e, contando com a companhia do Nuno que partilhava da mesma motivação, rumámos a Manteigas bem cedinho para percorrer o vale glaciar e para assim "matar o vício".

O objectivo estava definido: subir o curso do Zêzere, pela GR-33, até perto ao Covão da Ametade e daí subir à Nave de Santo António, local onde faríamos uma pausa para descanso e almoço, reavaliando a situação para decidir se o regresso a Manteigas se faria pelo mesmo caminho ou pela crista da vertente direita do vale glaciar.

O Zêzere, sensivelmente a meio do vale glaciar.

A subida do vale glaciar não foi difícil, exceptuando a secção superior onde foi preciso vencer as barreiras que os arbustos tombados, esmagados pelo peso da neve, iam criando. Não tardou muito para que chegássemos à estrada, junto ao Covão da Ametade, e, a partir daí, ao limite da Nave de Santo António.

Após a primeira secção florestal do trilho, uma pausa para avaliar a distância percorrida desde Manteigas, no extremo do vale


A segunda secção do trilho na floresta, com as árvores a parecer dançarem sob a luz


O limiar da nave de Santo António

Entrando na Nave de Santo António, a camada de neve cada vez mais espessa reservava-nos algumas armadilhas que descobrimos da pior maneira. Por exemplo, a dada altura, a minha perna direita afundou-se na neve até à altura da virilha e -pior!- descobri que por baixo daquela neve toda havia um curso de água bem gelada. Depois da sensação de mil agulhas a espetarem-se-me no pé, depressa deixei de o sentir.

Felizmente, o pequeno refúgio da Nave de Santo António estava já perto e abrigámos-nos no seu interior, para recuperamos energias e para tentarmos tratar do problema dos pés molhados. Afinal, faltava ainda percorrer cerca de 13km e caminhar na neve com calçado encharcado não é nada agradável. A coisa remediou-se com um par extra de meias que viajava na mochila e uns sacos de plástico para congelação (irónico, eu sei) a servir de barreira entre as meias e as botas. Ainda assim, demorou algum tempo até voltarmos a sentir os pés.


O Covão da Ametade, junto à nascente do Zêzere, visto ao longe

Faltava agora percorrer a crista do vale glaciar, naquela que seria a secção mais difícil da caminhada devido à espessa camada de neve que cobria o caminho. Tratava-se de neve arrastada e acumulada pelo vento, portanto muito macia e formando uma espécie de ondas, com uma espessura à altura da nossa cintura que dificultava -e de que maneira!- a nossa progressão, até porque também não tínhamos raquetes de neve.

A solução passou por nos desviarmos do percurso previsto sempre que necessário, subindo na encosta para zonas de menor acumulação de neve, e regressar (por vezes em modo "sku") ao caminho só quando este já parecia transitável. Foram uns bem longos e extenuantes 3,5km! 

O Nuno, com os pés, canelas e joelhos bem fresquinhos, a mostrar como se abre caminho através da neve com muita determinação.

A partir da proximidade da Lagoa Seca, finalmente a uma cota mais baixa, as condições do terreno melhoraram significativamente. Tínhamos contudo gasto muita energia e tempo na luta contra a neve e ainda havia muito para percorrer. Aconteceu entretanto uma situação caricata quando, antes da Lagoa Seca, encontrámos uma placa que indicava a distância até Manteigas e, quilómetro e meio à frente, outra placa indicava que a distância até essa vila tinha aumentado... quilómetro e meio. Felizmente tínhamos a certeza do nosso rumo.


Um último olhar para trás, para a depressão da Nave de Santo António

Foi pois já sem luz que chegámos a Manteigas, com uma frescura física e uma desenvoltura de movimentos dignas de nos garantir um lugar de figurantes na série The Walking Dead. Apesar do cansaço, ficou uma sensação gratificante pelo nossa capacidade de superação, num percurso que, no meu rol de caminhadas de maior dificuldade, entrou directamente para o top-3, a par desta e desta.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Sobre os que escaparam em fumo ao Holocausto

Comemora-se hoje o 72º aniversário da libertação do campo de morte de Auschwitz pelas tropas soviéticas, data que foi escolhida pela ONU como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto".

É chocante verificar que hoje em dia, apesar do esmagador peso das evidências, quem queira apagar ou negar esta que foi uma das maiores atrocidades da História, e é por isso que é importante evocar neste dia a memória das suas vítimas. Não foi o único acto continuado de barbárie cometido durante a última Guerra Mundial, é verdade, e nem todos os seus responsáveis foram julgados como mereciam, pois até do lado dos vencedores houve criminosos de guerra que escaparam incólumes.

Por vezes é difícil sentir o peso deste episódio negro da Humanidade, sobretudo quando as pessoas desaparecidas se tornam vulgares números sem rosto, nas páginas de um livro de história. É difícil imaginar que essas vítimas foram pessoas absolutamente normais, com família, casas, empregos, sonhos e inquietações, que foram sacrificados em nome do irracional, tornados bodes expiatórios dos males das nações. Todos terão morrido com a mesma pergunta em mente: "Porquê?".

Recentemente, estive em Amesterdão e aproveitei para visitar o museu Anne Frank, talvez a mais célebre vítima do Holocausto apesar de nada ter que a distinga de todas as outras. Ao percorrer aquelas escadarias e entrar no Anexo Secreto, a secção da casa que se escondia para lá de uma porta dissimulada por uma estante com livros, e ao perceber que aquele espaço exíguo acolheu 8 pessoas durante mais de 2 anos sem nunca terem saído à rua, é impossível não sentir o peso da realidade. Isso e um enorme vazio, tão vazio como aquelas divisões que assim foram deixadas pelos nazis na sua rusga fatal.


O acesso ao Anexo Secreto, na casa de Anne Frank

Em 2005, por mero acaso, tive a oportunidade de jantar com uma sobrevivente judia da II Guerra Mundial. À medida que a conversa decorria, fiquei a conhecer a sua história e a forma como tinha conseguido escapar à perseguição: escondida no sótão de pessoas amigas. Isto em Lyon, território de "caça" do infame Klaus Barbie, a quem a História garantiu o cognome de "O Carniceiro".

- "E o resto da sua família?", perguntei eu. -"Não estavam escondidos consigo?"

Baixou os olhos para o prato e respondeu num tom mais baixo: -"Não. A minha família saiu em fumo pelas chaminés dos campos de concentração."

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Da palavra do ano aos perigosos muçulmanos, passando pelas caneladas do Pepe

"Geringonça" foi eleita a palavra do ano, numa iniciativa que a Porto Editora tem vindo a promover desde 2009 e que põe a votação um conjunto de palavras, supostamente mais usadas e recolhidas pela análise de frequência e distribuição de uso, inclusive nas pesquisas nos dicionários desta editora. Portanto, em vez de meterem também a palavra "ignorância" na lista, metem palavras de que muita gente desconhecia o significado. 

Conhecida a votação, há que dar mérito a Paulo Portas, conselheiro da Mota Engil, que no queixume do seu apeamento do poder deu visibilidade à palavra vencedora. Paulo Portas parece aliás ter o dom de fornecer palavras à Porto Editora já que, no concurso de 2013, "Irrevogável" foi uma das palavras a concurso. 

Olhando para a lista de palavras deste ano, fico surpreendido por ver "racismo" num modesto 7º lugar e por não ver "xenofobia", "terrorismo" ou "refugiado" na lista, dado que 2016 foi um ano de muita discussão à volta da questão dos refugiados e da automática e persistente conotação com o terrorismo que lhes foi feita. E que dizer da vitória de Donald Trump nas Presidenciais dos EUA, que fez da xenofobia um dos pilares da sua campanha? De repente todos os muçulmanos passaram a terroristas. 

Sempre que oiço comentários de rotulagem automática de terrorista ou, a outra tese de sanguessugas sociais, a tudo o que é muçulmano, só por se atrever a ser muçulmano e estar fora do seu país de origem, recordo-me sempre de um episódio que vivi há alguns anos.


Torcer pela vitória de Portugal, em nome de Alá

Estávamos em Junho de 2010, com o campeonato do Mundo de futebol a decorrer na África do Sul ao som das vuvuzelas. Portugal estava a poucos dias de disputar com o Brasil um jogo que decidia o apuramento para os oitavos de final da prova.

Na altura, tive de me deslocar a Castelo Branco, para uma intervenção nas instalações de um cliente da empresa onde eu então trabalhava. Como ainda tinha algum tempo, parei na área de serviço de Castelo Branco para beber um café, já que ainda não tinha atingido a quota normal de cafeína para aquela hora do dia. Enquanto bebia o café, aproveitei para ir assistindo ao resumo dos últimos jogos do Mundial que nesse momento passavam na televisão.

Foi nessa altura que entraram na cafetaria alguns indivíduos de tez mais escura, o mais velho com turbante e barba comprida. Precisamente este último quedou-se junto a mim, também a assistir ao resumo dos jogos. O futebol tem muito de irracional mas consegue ao mesmo tempo ser uma ponte entre pessoas e foi precisamente isso que aconteceu.

A dada altura o homem virou-se para mim e, num português rudimentar mas esforçado, afirmou: -"O jogo de Portugal com o Brasil vai ser um grande jogo. Quero que Portugal ganhe e vou rezar para que isso aconteça." e colocando as mãos em jeito de súplica aos céus, rematou com -"Insha'Allah!" ("se Deus/Alá quiser"). Esta interpelação acabou por ser o mote para uma breve conversa sobre futebol. 

Depois de algumas considerações mais, fiquei curioso e quis saber um pouco sobre a sua vida, de onde viera e em que trabalhava. Fiquei a saber que era paquistanês, - muçulmano, pois claro!- e que, ele e os seus filhos, tinham vindo para Portugal para trabalhar como operários de construção civil porque a vida no Paquistão era muito difícil. Perguntei-lhe estava a gostar de Portugal e há quanto tempo tinha chegado ao nosso país, ao que me respondeu afirmativamente e que chegara havia já dois anos.

Respondi-lhe de forma ligeira -"Dois anos? Então já é português!"

Instantaneamente, seu rosto abriu-se num largo e radiante sorriso e, dando-me leves mas sentidas palmadas nas costas, limitou-se a repetir -"Obrigado. Obrigado. Muito obrigado" enquanto me fitava com emoção no olhar. Pouco mais disse, limitando-se a ficar ao meu lado em silêncio, ambos olhando para a televisão. Terminei o café e despedimos-nos, desejando mutuamente felicidades.

Alguns dias mais tarde, Portugal e Brasil empataram a zero. Foi um jogo sem grande história mas que aumentou em muito as despesas da comitiva brasileira em produtos farmacêuticos, tal deve ter sido a quantidade de Hirudoid necessária para tratar das recordações, deixadas com afinco pelo Pepe, nas canelas dos nossos irmãos de além-Atlântico. Ambos os países se apuraram, felizmente.

Escusado será dizer que no fim do jogo me lembrei do Hassan, o paquistanês que viera para Portugal em busca de trabalho e de uma vida melhor, para quem ser chamado de português era um motivo de imensa satisfação.

sábado, dezembro 31, 2016

A Torre da Serra da Estrela em 1904


In Ilustração Portugueza, nº52 de 31 de Outubro de 1904 (ao que parece, numa Segunda-feira)

Salta à vista a falta de acabamento da "Torre" e a ausência de sacos de plástico e restos de trenós deixados pelos turistas.

Atendimento prioritário - O civismo imposto por lei


Entrou em vigor a lei que impõe regras de atendimento prioritário no sector privado, à semelhança do que já existia no sector público. A partir de agora, as empresas e instituições do sector privado estão obrigados por lei a dar prioridade no atendimento a idosos, deficientes, grávidas e pessoas com crianças de colo (e não crianças ao colo, que é um conceito ligeiramente diferente).

Embora já houvesse um conjunto de boas práticas em vigor em determinados estabelecimentos, como a existência de caixas de prioridade em hipermercados, o cumprimento destas regras de civismo era algo arbitrário, em função do humor e da ética de funcionários e demais clientes.

Não deixa no entanto de ser algo triste que um conjunto de boas práticas cívicas, que devia resultar da educação de cada um, tenha de ser imposto por lei. A verdaed é que esta é uma questão cultural e basta estar um pouco mais atento no dia-a-dia para perceber que a insensibilidade para com as pessoas que agora são objecto desta lei é frequente.

Lembro-me por exemplo daquela senhora que, cheia de pressa, estacionou de forma a ocupar logo dois lugares reservados a pessoas com deficiências. A única deficiência que se lhe percebia era meramente moral e talvez possamos por aí dar-lhe um desconto. Ou então aquelas pessoas que, percebendo que se encontrava uma grávida na fila para pagar, optaram por fingir que não a viram para não perderem a sua vez.

O facto de ser uma questão cultural é facilmente perceptível se compararmos a nossa realidade com a de outros países. Por exemplo, há alguns meses viajámos até Amesterdão, estando a Ana gravidíssima. A atenção e o cuidado que lhe eram sistematicamente dirigidos em transportes públicos ou estabelecimentos comerciais era de tal ordem que ela chegava a sentir-se mal por isso.

Seja como for, pode ser que esta lei sirva criar hábitos cívicos nas pessoas. Vai haver abusos? Claro que vai. Quem não se lembra dos tão emblemáticos e falados casos de pessoas que pediam crianças "emprestadas" a familiares para entrarem na Expo 98? Veja-se também os casos mencionados neste link. Creio no entanto que esta lei, com mais ou menos casos, acabará por ter um certo efeito pedagógico nos cidadãos, mesmo que venha a dar muito que falar. Só é pena ter tido de ser criada.

terça-feira, outubro 25, 2016

Os misteriosos Fornos dos Mouros da Serra da Maúnça

A crista da Maúnça, com a aldeia do Açor à direita. 

A Serra da Maúnça está condenada a servir de fronteira. Quando caminhamos pela sua crista, o mais provável é que estejamos a caminhar sobre a linha que separa o concelho do Fundão do concelho de Castelo Branco. Chegou a ser até fronteira de um terceiro, o de Sarzedas que, apesar de hoje estar incorporado no da capital de Distrito, ficou preservado na toponímia de um dos locais de maior simbolismo da Maúnça: a Eira dos 3 Termos. 

Por esta Serra passaram inúmeros soldados nos tempos das Invasões Napoleónicas e muitos não chegaram sequer a deixá-la (conta-se que de uma só vez ficaram lá mais de 200 da Grande Armée). Desse tempo sobram nomes como os "Valados", o "cemitério dos franceses" e diz-se até que o intrigante fenómeno da Eira dos 3 Termos (ver aqui) será uma herança visível desse tempo.

Há num entanto outro mistério bem menos conhecido por explicar mas a que o povo já sentenciou a idade. Trata-se dos "Fornos dos Mouros", cavidades abertas nas rochas com uma finalidade desconhecida. Num deles, o que fica no concelho de Castelo Branco, a voz popular ousou até imaginar uma cama: "a Cama da Moura".



O Forno dos Mouros, que na sua parte superior terá a "Cama da Moura".
Foto de 2005

Esta cavidade foi aberta numa rocha em forma de esporão e o seu diâmetro é de quase 50cm. No interior, forma uma câmara onde cabe uma pessoa de cócoras. A referência é a de um indivíduo com a mesma altura do autor deste blogue mas com diâmetro de cintura versão 2005.




A rocha vista de um pouco mais longe. Foto de 2005

Embora um dos "fornos" tenha apenas uma cavidade e outro tenha duas, há várias semelhanças no local escolhido para a sua implantação. Em ambos os casos existe esporão rochoso visível ao longe e situam-se também junto a uma linha de água. Quanto às aberturas, nunca estão viradas para as partes superior ou inferior do vale, tendo pelo contrário uma orientação oblíqua. Será por acaso ou terá havido uma intenção propositada?


O esporão rochoso do outro "Forno dos Mouros", visível na encosta Este.



Só de perto se percebe o grande afloramento rochoso escondido pela vegetação



As duas cavidades, de menor dimensão (dois palmos de diâmetro) sob uma depressão da rocha. Terá havido intenção nesta simetria?


Não há, como referi, uma explicação sobre o propósito destes "fornos dos mouros", tendo pelo contrário recolhido muitas expressões de surpresa e desconhecimento. Há no entanto duas teorias abalizadas sobre o assunto. Uma delas sugere que se trataria de uma espécie de "cofres" proto-históricos, portanto pré-romanos, destinados a guardar bens preciosos. A outra, mais recente, sugere que se trataria de santuários rupestres, feitos para adorar uma qualquer divindade por ora sem forma nem nome. 

No que a mistérios diz respeito, a Serra da Maúnça parece de facto não querer ficar atrás da sua vizinha Gardunha.

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