domingo, outubro 25, 2015

Caminho Inca - O primeiro dia no Trilho!

1ª etapa: do Km82 a Llulluchapampa
Clicar para ver todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4


Finalmente tinha chegado o grande dia! Saímos do nosso hotel bem cedo para a viagem de autocarro que haveria de nos levar ao início do Trilho. Após um belo-pequeno almoço nas margens do Urubamba, foi tempo de pôr as mochilas às costas e começar a caminhar. Machu Picchu estava a poucos dias de distância e as nossas expectativas eram elevadas mas depressa percebemos que, o que nos esperava, era muito melhor do que poderíamos ter imaginado.


Como combinado, pouco passava das 4h20 da manhã quando saímos do nosso hotel para embarcar no autocarro que já estava à nossa espera. A viagem até ao início do trilho iria ainda demorar 2h pelo que aproveitámos para dormir mais um pouco, acordando apenas quando mais alguém entrava no autocarro para se juntar ao grupo.

Finalmente estávamos a caminho do Caminho Inca mas a preparação tinha começado uns meses antes, mais precisamente em Maio. Uma vez que o acesso ao trilho é bastante controlado, sendo apenas permitida a entrada diária de 500 pessoas, 200 caminheiros e, os restantes, o staff das agências que obrigatoriamente devem acompanhar os primeiros, é necessário reservar as entradas com meses de antecedência.

Optámos pelos serviços da Enigma Peru (ver aqui) e não nos arrependemos. O serviço teve muita qualidade e todo o staff foi extremamente profissional e simpático, tanto os guias como os carregadores. Sim, porque há carregadores! Dado que não há acessos para veículos automóveis, todo o material necessário para os 4 dias (tendas, material de cozinha, alimentos, etc) é transportado às costas pelos carregadores e, acreditem, é impressionante vê-los a trabalhar e a correr montanha acima com aquela carga toda. Por uma taxa extra, os caminheiros podem entregar até 7kg de bagagem aos carregadores para não irem eles tão carregados. Nós, no entanto, optámos por transportar toda a nossa carga.


Últimos preparativos nas margens do Urubamba.

A última paragem do nosso autocarro foi em Ollantaytambo (recordam-se?) para deixar entrar os últimos carregadores. A partir daí o alcatrão terminou e fizemos os derradeiros 14 quilómetros numa estrada de terra batida até Piscacucho e à estação ferroviária do mítico Km82, onde se encontra o checkpoint de entrada no Trilho.

Assim que saímos do autocarro, enfrentámos pela primeira vez os vorazes mosquitos, que nos iriam perseguir ao longo da caminhada, o que nos obrigou logo ali a fazer uso do repelente (o nosso melhor amigo ao longo dos 4 dias!). Após os últimos preparativos, assim como um belo pequeno almoço servido ali à vista do rio Urubamba, dirigimos-nos finalmente ao checkpoint  onde tivemos de mostrar os bilhetes e os passaportes. Uma formalidade que não se aplica aos residentes locais que habitam em pequenas comunidades ao longo do trilho. Com o passaporte carimbado, franqueámos o portal da ponte sobre o Urubamba. A caminhada tinha começado!


O Trilho Inca


A foto da praxe, antes do checkpoint



Passaporte carimbado e o portal de início do trilho logo ali, a apenas meia dúzia de passos

Os primeiros quilómetros do trilho foram feitos junto à margem esquerda do Urubamba, numa paisagem algo árida. Pelo caminho, foi necessário desviarmos-nos de um grupo de cavalos que transportavam carga sozinhos para um destino incerto, primeiro na ida e mais tarde no regresso, já sem carga. Foi uma visão bem curiosa.

Mais à frente, Nilo, o nosso guia,  chamou-nos a atenção para um conjunto de ruínas que se avista do outro lado do rio. Trata-se do Tambo de Sallapunku, um dos muitos locais construídos ao longo da rede de estradas do Império Inca, onde os mensageiros que asseguravam a comunicação entre as diferentes partes do Império, eram revezados. O trabalho destes mensageiros tinha várias peculiaridades de que falarei num dos próximos artigos.

Ficámos também a saber que havia ali duas estradas Incas, uma em cada margem. A nossa levando a Machu Picchu, o caminho da peregrinação, e a outra que bifurcava uns quilómetros mais à frente, levando um ramo também para Machu Picchu enquanto o outro dava acesso à selva amazónica.

Enquanto admirávamos as ruínas, um comboio passou na linha férrea junto a estas, facto que mereceu um comentário encorajador por parte de Nilo: -"Aquilo é para turistas. Vocês são aventureiros!


Um Tambo, um local onde os mensageiros Incas, os Chaskis, passavam a sua mensagem em modo de estafeta ao mensageiro seguinte. Dado que os Incas não tinham sistema de escrita, a mensagem tinha de ser memorizada. 


Pouco depois do Tambo, chegámos a uma pequena comunidade agrícola onde os habitantes aproveitam o trilho para fazer algum dinheiro extra, vendendo suprimentos aos caminheiros, junto a telheiros em colmo que convidam a parar para descansar. Também disponibilizam a utilização de WCs por apenas 1 Sole (menos de 30 cêntimos).

Ali perto, um grupo de homens trabalhava afincadamente na produção de tijolos de adobe, amassando a terra e a palha com os pés, moldando os tijolos e pondo-os a secar ao Sol.


Trabalho de produção de tijolos de adobe. A terra, palha e água são amassados com os pés antes de serem moldados.

Depois de uns minutos de pausa para hidratar, retomámos a caminhada para enfrentar a primeira subida digna desse nome. Nesta altura já tínhamos assimilado a rotina a seguir aquando da ultrapassagem por carregadores (a quem deve ser sempre facilitada a passagem). À aproximação de carregadores, o último do grupo gritava "Porter!" e ia-se passando a palavra, encostando ao mesmo tempo, sempre para o lado da montanha, para o deixar passar.

O que não estávamos à espera era que, a meio de uma subida com traçado algo estreito, nos aparecessem em sentido contrário uns quantos cavalos carregados em passo apressado, seguidos de perto pelo dono que nos gritava "Cuidado amigos!". Tivemos de encostar o mais rapidamente possível para os deixar passar e não ganhámos para o susto.


A primeira subida. Consegue-se avistar um grupo de carregadores quase a chegar à plataforma. Com as recentes leis de protecção dos carregadores, cada um só pode transportar um máximo de 25kg mas, em situação de emergência, também transportam pessoas em dificuldades.


Vencida a subida, chegámos a o primeiro conjunto de ruínas do trilho. Trata-se de Wilkarakai , um local fortificado a partir do qual se domina a curva do vale do Urubamba e a foz do rio Kusichaka. Presume-se que tenha também sido um local onde os viajantes Incas, a caminho da cidade sagrada de Machu Picchu, poderiam parar para realizar rituais religiosos.

O que este sítio tem de fantástico é a vista que oferece para uma cidade situada no fundo do vale: Llactapata, um centro de produção agrícola com cerca de uma centena de construções e que terá sido o centro de um aglomerado populacional de aproximadamente 1.000 habitantes.

Entre o local onde nos encontrávamos e as ruínas de Llacatapata, ergue-se um monte com uma pequena plataforma no topo onde eram realizados sacrifícios. Era um local que se avistava facilmente de qualquer ponto do vale o que deixa supor a importância dos rituais aí levados a cabo.

Wilkarakai (do quechua Wilka="Neto", "da linhagem" + rakai ="ruína"), o primeiro conjunto de ruínas do trilho, oferece uma vista privilegiada para a cidade de Llactapata, na confluência dos rios Kusichaka e Urubamba. (Foto: Debby Brosko)


Um altar de sacrifícios no topo de um monte entre Wilkarakai e Llactapata. (Foto: Debby Brosko)




O nosso fantástico Nilo mostrando a cidade de Llactapata (do quechua "Llacta"=cidade + "pata"=local elevado, acima da margem do rio). Nesta cidade, agora ao abrigo de leis de protecção de património, foram encontradas mais de uma centena de construções


Ainda impressionados com aquela paisagem espectacular, e após as explicações pormenorizadas de Nilo, retomámos o caminho, descendo agora para a margem do rio Kusichaka. Já não faltava muito para o acampamento de Wayllabamba onde iríamos fazer a pausa para almoço.

Descida para o vale do Kusichaka. Conseguem ver o pequeno túmulo Inca na falésia?


O primeiro acampamento

Após alguns quilómetros, atravessámos o rio por uma ponte de madeira e avistámos de imediato a sinalética do local de acampamento. Sob ela, um dos membros da equipa Enigma agitava a bandeira para assinalar que ali seria o nosso local de paragem. 

Tinham sido uns primeiros quilómetros bem quentes e poeirentos mas a salva de palmas com que fomos recebidos por todos os membros do staff foi uma bela injecção de moral. Isso e o delicioso almoço que nos foi servido dentro da tenda de refeições.

A seguir ao almoço, durante a meia-hora de descanso que se lhe seguiu, estendemos-nos ao comprido na relva para relaxar e recuperar ao máximo as forças para a continuação da caminhada. Isto porque já sabíamos que nos esperava uma dura subida. Iríamos subir mais nos últimos 4km do que nos 11km que tínhamos feito até então, tudo isto agora acima dos 3.000 metros de altitude. Nada que uma bela chávena de chá de coca não ajudasse a superar.


A chegada a Wayllabamba, local de acampamento para almoço



A interminável escadaria!

Ao sinal dos nossos guias, e após a distribuição de água (fervida, claro) para encher os cantis, pusemos novamente as mochilas às costas e retomámos a caminhada, enquanto os carregadores ficavam para trás a desmontar o acampamento. Depressa pudemos experimentar uma subida íngreme, uma amostra daquilo que iríamos encontrar durante o resto do dia. Quem não pareceu muito incomodado foram os carregadores que, a dada altura e apesar de transportarem aquela carga toda às costas, nos ultrapassaram com facilidade.

À medida que subíamos, a vegetação que se concentrava inicialmente apenas no fundo do vale foi-se alargando cada vez mais. Lentamente, os arbustos foram dando lugar às árvores e a uma floresta lindíssima, facto que contribuiu para uma significativa queda de temperatura. Em contrapartida, o trilho transformou-se numa escadaria que parecia não ter fim.

Se o nosso grupo conseguiu apesar de tudo resistir às novas condições do trilho, a mesma sorte não teve outro grupo de cidadãos estado-unidenses que encontrámos no caminho e do qual alguns elementos estavam em nítidas dificuldades, levando-nos a partilhar água com eles e a "arrastá-los" connosco.

Foi já no início da floresta que vivemos um momento algo caricato. Quando menos esperávamos, dois lamas passaram a correr e em sentido descendente pelo nosso grupo, obrigado mais uma vez a improvisar uma escapatória e alguns mesmos a deitarem-se na encosta. Logo a seguir, e por ordem de altura, 3 crianças passaram igualmente por nós em perseguição aos lamas, sendo elas próprias perseguidas pela mãe, que não parecia muito satisfeita. Refeitos do susto, a risada foi geral.



O início da subida com alguns degraus só para aquecer. O pior viria depois.



Um bem-vindo momento de pausa, um pouco antes de entrarmos na floresta.



À medida que subimos, o trilho aproximava-se cada vez mais da floresta -e que floresta!-. Na vegetação luxuriante, destacavam-se as bromélias avermelhadas a crescer nas árvores. Segundo a explicação de Nilo, é costume no Peru usar-se as flores das bromélias para enfeitas as árvores de Natal: -"Venham ao Peru no Natal. É lindo!" rematou.





Já dentro da floresta, em plena escadaria, o autor deste blogue passando por uma cidadã estado-unidense de outro grupo, em nítidas dificuldades. Logo a seguir estava o guia desse grupo já com todas as mochilas do grupo às costas, tentando incentivá-los a continuar. Quando lhes perguntámos porque se tinham metido nesta aventura responderam com indignação -"Ficámos a saber deste trilho num blogue e lá diziam que era fácil!"


A chegada ao acampamento

Foi com o Sol já posto atrás das montanhas que alcançámos finalmente o acampamento onde iríamos passar a noite e onde já tudo estava pronto para nos receber. Mais uma vez fomos acolhidos com palmas e, sinal do espírito de grupo que entretanto se foi criando, recebemos da mesma forma os restantes membros da equipa à medida que iam chegando.

Vista parcial do acampamento com a tenda de refeições em primeiro plano. À chegada, tínhamos uma bacia com água e sabonete à porta de cada tenda e, antes de jantar, pudemos descontrair com um pequeno lanche com cacau quente ou chá (mas não de coca, que à noite não se recomenda).


Depois de nos terem sido atribuídas as tendas onde iríamos dormir, foi-nos servido um pequeno lanche onde o café e o chá caíram mesmo bem, para não falar das pipocas! À hora do jantar, mais uma vez delicioso, a conversa centrou-se sobre a proeza que tinha sido vencer aquela subida e a satisfação (tal como o cansaço) era indisfarçável. Toni, o nosso outro guia, lançou o briefing para o dia seguinte e também começou a revelar o seu apurado sentido de humor. -"Amanhã vamos continuar a subir até à Passagem da Mulher Morta". O nome intrigou-nos e levou-nos a perguntar o porquê do nome ao que, sem hesitar, Toni respondeu -"Ah, isso tem a ver com a primeira vez em que fui guia."

Foi pois um serão bem animado até à hora de ir dormir, não sem que antes nos fossem dadas algumas recomendações extra, relativas ao frio que se ia fazer sentir nessa noite, tal como o retirar todas as pilhas e baterias dos equipamentos electrónicos e guardá-los junto ao nosso corpo durante a noite para o frio não os descarregar.

Apesar de ansiosos pelo dia seguinte, adormecemos facilmente, vencidos pelo cansaço da subida. O dia seguinte seria igualmente exigente mas também seria memorável.


As tendas onde iríamos dormir. O nosso "chalet" era o segundo a contar da esquerda e, como podem imaginar, tinha uma vista magnífica.


Clicar para ver todas as etapas: Dia1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4

A seguir:

Da Mulher Morta ao santuário Inca de Sayacmarca

quarta-feira, outubro 14, 2015

Caminho Inca, Parte 4 - Do tesouro de Chinchero ao ouro branco de Maras

À medida que o dia do início da caminhada pelo trilho inca até Machu Picchu se aproximava, a ansiedade ia crescendo mas íamos aproveitando o tempo disponível da melhor forma. Depois da visita ao Vale Sagrado dos Incas no ter aberto o apetite, regressámos a Chinchero e descobrimos dois locais espectaculares que mudaram radicalmente a nossa visão do Império Inca.

Ainda entusiasmados com tudo o que tínhamos visto na recente visita ao Vale Sagrado, decidimos ir explorar o planalto de Chinchero com dois destinos bem definidos em mente: Moray e Maras. Logo pela manhãzinha, saímos de Cusco conduzidos pelos Sr. Jesus, uma pessoa extremamente simpática e com uma bagagem de conhecimento exemplar que não se cansou de partilhar connosco.

A saída de Cusco fez-se por uma zona mais pobre, que já conhecíamos do regresso da viagem pelo Vale Sagrado no dia anterior. As casas amontoadas, parecendo favelas, as ruas em terra batida e o muito lixo que se acumulava aqui e ali, formavam um cenário deprimente. Segundo a nossa guia, era uma consequência do súbito e incontrolado afluxo de pessoas que procuravam fugir, não só da pobreza da zona rural, como também da insegurança provocada pela organização terrorista Sendero Luminoso, que nas zonas mais remotas do Peru continua teimosamente a existir.


Ao cenário já por si caótico do bairro pobre junta-se o caótico trânsito peruano que pode ser descrito em duas palavras: tangentes e buzinadelas.


O colorido tesouro de Chinchero

A nossa primeira paragem foi em Chinchero. Ao contrário do dia anterior, onde pouco tínhamos visto, descobrimos desta feita algo que nos tinha então passado ao lado: a actividade têxtil tradicional que as artesãs desta comunidade mantêm bem viva na forma de associações locais. Logo à entrada de um dos vários centros de produção, fomos recebidos por um simpático grupo de alpacas, camelídeos muito parecidos com os lamas mas mais dóceis, mais pequenos e com uma lã muito mais suave e, por isso, muito apreciada. A diferença reflecte-se bem no preço das peças!


Um bicho com mais simpatia que bom gosto, a crer pelo penteado.

Fomos em seguida convidados a sentar sob um dos telheiros de colmo onde uma das senhoras nos serviu um chá de folha de coca acabado de fazer (e que até soube bem dado que estava assim para o frescote) e, enquanto bebericávamos esse chá, assistimos a uma pormenorizada explicação sobre o processo de fabrico artesanal dos tecidos andinos.

Sendo já claro que provinha de lamas, alpacas e ovelhas, ficámos a conhecer os processos de corte, lavagem, com "champô inca" que, segundo ela, -"Deixa a lã bem branquinha e mantém o cabelo das senhoras sempre preto." e, finalmente, a fiação. 

Já em fio, a lã pode ser tingida com várias cores, a maior parte de origem vegetal, havendo ainda outras de origem mineral e... até animal. A cor vermelha, por exemplo, é obtida a partir da cochonilha, o pequeno insecto parasita que não serve só para tingir tecidos. Também é usado como corante alimentar (quando encontrarem um tal de aditivo "E120" no rótulo de um alimento, já sabem do que se trata) e até como corante para cosmética, como aliás a Jessica fez questão de demonstrar, esmagando um pequeno grupo de cochonilhas e passando o resultado pelos lábios. -"Por aqui é um batom bem barato e fácil de obter. Dura 24 horas ou 100 beijos!", disse-nos, provocando uma risada geral.  


Para tingir a lã é necessário que esta ferva durante algum tempo numa infusão do corante que lhe dá o tom desejado. Após a secagem, a cor torna-se permanente, por muito que a lã seja lavada.


Concluído o processo, os fios são ordenados já tendo em mente o padrão de cores que se vai dar ao tecido, usando-se para isso duas estacas cravadas no chão. Daí sai directamente para o tear, um bem diferente daqueles a que estamos habituados, visto que uma das extremidades do tear é amarrada a um poste ou uma árvore enquanto a outra é amarrada à cintura da própria tecedeira. O resultado final é um tecido colorido com padrões diversos, cujo conhecimento é transmitido oralmente de geração em geração, simbolizando sempre algo relacionado com o universo andino, material ou não.



Preparação dos fios antes da passagem ao tear.



O tear típico, bem diferente dos nossos. os padrões são obtidos intercalado os fios do conjunto, conjugando devidamente a posição das ripas de madeira. Para evitar que os fios fiquem embaraçados, usa-se um osso pontiagudo, normalmente de lama. -"Este é de um turista que não nos quis comprar nada." atirou a Jessica com ar grave.



Na explicação pormenorizada dos padrões de uma peça que acabámos por comprar (nem poderia ser de outra forma, dado o amor que temos ao nosso esqueleto), descobrimos condores, lamas, garras de puma entre outros. 


Moray, um sofisticado laboratório de investigação agrícola


Pouco depois de termos saído de Chinchero com destino a Moray, trocámos a estrada de alcatrão por uma de terra batida que percorre o planalto à vista dos montes nevados envolventes. O sítio de Moray não se avista senão de perto, dado que foi construído aproveitando algumas depressões naturais do terreno. Isso faz com que o impacto visual do sítio seja bastante forte, mesmo que saibamos o que vamos ali ver. A dimensão e organização dos vários socalcos em círculos concêntricos, num total de quatro grupos, um maior e três mais pequenos, é impressionante!

Mas pare que servia afinal este local? A hipótese mais comummente aceite é que se tratava de um laboratório agrícola, destinado a testar a adaptabilidade das várias espécies cultivadas a diferentes climas e altitudes, permitindo seleccionar as melhores sementes para as diferentes zonas do Vale Sagrado. Esta tese apoia-se em parte na diferença de temperatura que é possível registar entre socalcos do mesmo grupo.

Nestes socalcos foi construído um elaborado sistema de irrigação, cujos canais chegavam a todas as plataformas de cultivo, sem excepção.


O impacto visual do sítio é tremendo! Ampliando a foto (com um clique) é possível ver algumas pessoas junto aos socalcos, o que dá uma noção da escala.


Quanto à drenagem, o próprio solo já por si era bastante poroso, o que facilitava o processo. Ainda assim, os Incas aplicaram aqui o sistema habitual de construção dos socalcos com camadas de diferentes tipos de solos. As primeiras camadas eram de materiais que facilitavam a drenagem (pedra e areão) e sobre estas era colocado o solo fértil para cultivo.



Outra perspectiva do maior grupo de socalcos, com vista das montanhas para lá do Vale Sagrado.


O ouro branco de Maras

Deixando Moray para trás, seguimos viagem rumo a Maras, para visitar um local cuja importância sobreviveu ao passar dos séculos sendo ainda hoje fundamental para a economia local. Trata-se das Salinas de Maras, um local de extracção de sal por evaporação da água, a mais de 3.000 m de altitude!



Depois de passarmos pela pequena comunidade de Maras, chegámos à vista das Salinas por uma estrada estreita e com dois sentidos de circulação, sem qualquer barreira de protecção que nos separasse da ravina, o que fez com que alguns dos passageiros soltassem algumas expressões de inquietação quando o Sr Jesus tinha de conduzir mais próximo da berma.

As Salinas de Maras, com o Vale Sagrado em segundo plano

As Salinas de Maras funcionam ininterruptamente há já alguns séculos. Presume-se que o sal já seria aqui explorado antes da chegada dos Incas, que continuaram a actividade mas aperfeiçoando o processo, implementando um sistema de pequenos tanques escalonados. A exploração é sazonal, fazendo-se somente na época seca, de Maio a Novembro. Durante a estação das chuvas, o caudal da água destrói muitos dos tanques, obrigando à sua reconstrução antes do retomar dos trabalhos na época seguinte. 

É interessante constatar que todo este conjunto é alimentado por um pequeno curso de água que brota na zona mais alta do vale e que depois percorre o intrincado sistema de canaletas entre os tanques de extracção de sal, sendo redireccionado conforme as necessidades. A salinidade desta água resulta do contacto de um lençol freático com um depósito salino subterrâneo, gerado pelo aprisionamento de grandes quantidades de água do mar durante o processo de formação das montanhas, há cerca de 110 milhões de anos atrás. 


A nascente do curso de água que alimenta as Salinas de Maras. Na foto percebe-se bem seu o teor de sal, que quase provoca hipertensão só de olharmos para ela.

Às famílias de Maras cabe ainda hoje a responsabilidade de explorar o sal deste local, o que não quer dizer que um forasteiro não possa também aqui trabalhar. Para tal, tem de pedir autorização à comunidade local que depois decide sobre a concessão ou não de um tanque que esteja livre.

A beleza deste local, com os tons brancos e rosados (resultantes dos vários minerais que a água transporta) que contrastam com o ocre predominante no meio envolvente, é quase hipnótica.



Um trabalhador transporta o sal para o topo do vale.



Momento de pausa, tanto no pequeno abrigo como ao longe, entre montes de sal.



Os canais de circulação de água entre os tanques são aqui bem visíveis.


A postos para o Trilho!

Com as visitas ao Vale Sagrado e aos arredores de Cusco, rapidamente chegámos ao dia da véspera da nossa partida. Como combinado, ao fim da tarde fomos até à sede da agência que tínhamos contratado para nos acompanhar ao longo do trilho, para o briefing prévio.

Tratou-se do primeiro contacto com o grupo e com um dos guias, que nos deu as informações essenciais sobre o percurso e sobre como iriam decorrer as etapas. O primeiro contacto com aqueles que viriam a ser os nossos companheiros permitiu-nos perceber que ali tínhamos todos algo em comum: estávamos ansiosos pelo início da caminhada!



A seguir:


O início do trilho!

Coelho ou Costa. Afinal em que ficamos?

Lusitanos, vestidos à moda gaulesa, trocando impressões sobre a formação do próximo Governo

Nos últimos dias muito se tem debatido sobre a questão da formação do novo Governo de Portugal, nem sempre de forma informada ou adequada. Nas redes sociais, imbuídos de uma "sabedoria constitucional" inata, argumenta-se com a ilegalidade de um eventual Governo de esquerda, acontecimento que, de tão cataclísmico, poderia até levar à eliminação da selecção nacional de futebol de 11 do Campeonato da Europa. Certo é que esse cenário (o do governo de esquerda e não o da eliminação do Euro 2016) não é de forma alguma ilegal e até é bem possível que a "PaF" tenha cantado vitória demasiado cedo. O que diz afinal a lei sobre isto?


A festa da PaF, que na verdade são dois partidos

A questão da formação do novo Governo tem dado azo a uma discussão alargada, envolvendo desde os vendedores de opinião nos media clássicos e figuras destacadas da nossa sociedade, até ao opinador amador que há em cada português e que se expressa com denodo, tanto à mesa do café como nas redes sociais, embora nesta última com um vigor adjectival mais fulgurante. Infelizmente, a pedagogia e o bom senso não foram chamados para nenhum destes palcos, o que é pena e leva a que haja já quem estabeleça paralelos entre a formação do Governo e o formato das competições futebolísticas. 

Sobre isto, quero desde já aqui deixar bem claro que não acredito que o futebol tenha uma importância tal na sociedade portuguesa que a questão política e os partidos sejam vistos como competições entre equipas de futebol mas, ouvir comparações destas, faz-me sentir como se tivesse acabado de sofrer uma entrada a pés juntos, promovida por defesa-central razoavelmente bruto.

A discussão está neste momento bipolarizada: uns (à "direita") defendem que a coligação "PaF" ganhou e, como obteve a maioria dos votos, deve ter o direito de formar governo, embora minoritário, enquanto outros (à "esquerda") defendem que se o PS, o BE e a CDU se coligarem, então terão a maioria parlamentar necessária para formarem governo. A celeuma é tal que, sobre esta última ideia, José Matos Correia (PSD) lançou o conceito de governo "legal mas politicamente ilegítimo". Na minha ignorância pergunto-me o que é isso da legitimidade política que, não importando se é ou não legal, é fundamental para a formação de um governo.


O que diz afinal a lei (mesmo a que não é politicamente legítima)?

Primeiro comecemos por recapitular os resultados das eleições legislativas: a coligação PaF obteve 104 mandatos, o PS 89, a CDU 17, o BE 19 e o PAN 1. Falta ainda atribuir 4 mandatos relativos aos círculos eleitorais fora de Portugal e que poderão influenciar esta discussão até porque é possível, por exemplo, que os nossos emigrantes votem em massa na coligação.

Neste momento, será portanto correcto afirmar que a coligação detém o maior número de votos na Assembleia da República, certo? Errado. Diz a lei eleitoral da Assembleia da República, no seu artigo 22º que:

"As coligações deixam de existir logo que for tornado público o resultado definitivo das eleições, mas podem transformar-se em coligações de partidos políticos, nos termos e para os efeitos do disposto no artigo 12º do Decreto-Lei nº 595/74, de 7 de Novembro"

Significa isto que a PaF, criada para tirar partido do método de contagem utilizado em Portugal para obter mais votos, se extingue após a publicação dos resultados eleitorais. Portanto, na Assembleia da República não haverá PaF mas sim PSD e CDS que irão, à semelhança dos últimos 4 anos, trabalhar em conjunto. Os para já 104 mandatos serão portanto divididos entre estes dois partidos. Não sei como será feita essa divisão nem se já foi feita (poderei por isso estar a dizer uma asneira) mas, se se mantiver a proporção da anterior legislatura, o PSD terá 85 mandatos e o CDS 19.

Então e o que deve fazer o Presidente da República? Sobre o papel do Presidente da República na escolha do Governo, diz a Constituição da República Portuguesa (o tal papel que atrapalha tanto quem governa), na alínea f) do seu artigo 133º que

"(Compete ao Presidente da República, relativamente a outros órgãos,) nomear o Primeiro-Ministro, nos termos do n.º 1 do artigo 187.º"

Até aqui tudo bem mas o que diz especificamente esse artigo 187º no seu ponto nº1 relativamente à formação do Governo? Simplesmente isto:

" O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais. "

Nada diz especificamente sobre partidos mais votados. Apenas que o Presidente da República deve ouvir os partidos com assento parlamentar e ter em conta os resultados eleitorais na sua decisão. Ponto prévio, para já Cavaco Silva apenas teve uma reunião com Passos Coelho para lhe dizer para se entender com o resto dos partidos, não foi uma audição com vista à formação do Governo. Portanto, terá de reunir novamente com o PSD e com os restantes partidos para poder tomar uma decisão. 


"Factura do bolo-rei, talão de encomenda ao Carlos Gil,... onde é que está a lista dos partidos que tenho de ouvir?!"


Imaginem por exemplo que o PSD e o CDS (e o PAN também, suponhamos) defendem em Belém que o chefe de Governo deve ser Passos Coelho mas que, a seguir, os restantes partidos propõem o nome de António Costa. O Presidente terá então ouvido os partidos e, à luz dos resultados eleitorais, terá de convidar a formar Governo quem lhe ofereça uma perspectiva de estabilidade governativa. Se os partidos ditos de "esquerda", que obtiveram nas eleições a maioria dos lugares do Parlamento, defendem um governo liderado por Costa, qual será a decisão mais lógica?

Resta-nos a nós eleitores, tanto os que cumpriram o seu papel neste processo como os que tiveram infelizmente mais que fazer no passado dia 4 de Outubro, aguardar serenamente pelos desenvolvimentos e torcer para que, aconteça o que acontecer e, independentemente de ser ou não politicamente legítimo, que pelo menos se cumpra a lei. Já não será mau de todo.




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quarta-feira, outubro 07, 2015

Legislativas 2015: quanto tempo durará este governo?

Como geralmente acontece em noite eleitoral, apenas o 2º classificado não cantou vitória mas, convenhamos, depois dos tremendos e sucessivos tiros nos pés dados desde o início da campanha, António Costa dificilmente poderia aspirar a outro resultado. Quem não se lembra da polémica com os outdoors, que começou com aqueles que pareciam cópias made in China da capa da revista "Despertai!", por exemplo? O pior foi contudo a incapacidade em apresentar propostas que convencessem os eleitores, perdendo diariamente terreno para Passos Coelho, ao longo da campanha.

Quando no fervor do triunfo começaram a cantar o hino nacional, veio-me à memória o trauma de ouvir a imitação de um caprino a cantar o "Grândola Vila Morena" feita por Miguel Relvas no Clube dos Pensadores. Podia ter sido pior, vá lá.


Realmente as coisas não podiam ter saído melhor à PAF. Apesar dos sucessivos escândalos que atingiram o Governo, desde a revelação dos históricos "esquecimentos" do primeiro-ministro em relação às obrigações contributivas (em contraste com as regras fiscais que foram sendo impostas), aos submarinos do vice-primeiro-ministro, o mesmo que reinventou o conceito de irrevogabilidade, passando pela ministra "SWAP", o caso Relvas, as ligações perigosas a instituições bancárias falidas por gestões de bradar aos céus (o que não invalidou que o Sr. Dias Loureiro fosse apresentado como "caso de sucesso" por Cavaco Silva), entre outros , a tudo isto o casamento de conveniência PSD-CDS conseguiu sobreviver. 

Claro que o caso Sócrates acabou por ser um conveniente alívio da pressão, conseguindo até o efeito colateral de atingir António Costa, pelo seu passado de proximidade ao recluso 44 mas, ainda assim, nada diminui o demérito do PS nesta derrota. Já a forma como Seguro foi afastado do PS poderá ter contribuído para afectar de alguma forma os socialistas mas, por si só, não me parece que este episódio tenha sido relevante no despique eleitoral, voltando a ser pertinente apenas na discussão à volta das consequências da derrota.

Fantasmas... Foto: 5dias

Apesar de tudo, usando agora uma terminologia futebolística para aumentar o interesse público deste artigo, entre seguir um caminho indefinido e um caminho que, não sendo o melhor, pelo menos era um caminho, o eleitorado optou por reeleger o binómio Passos-Portas mas não deixou de aproveitar para mostrar um valente cartão amarelo, sujeitando-os a ter de governar em minoria, ao perderem mais de 700.000 votos e 25 deputados, e ficando a depender de acordos prévios com os restantes partidos para poder governar. Foi por isso a pior vitória possível, sendo os festejos manifesta e deliberadamente exagerados.  

Passando agora para os partidos da esquerda, a CDU terá ficado algo desencantada com os seus resultados que, apesar de tudo, estão em linha com a lenta subida que tem vindo a registar nas últimas eleições. A desilusão de não ter sido a alternativa privilegiada de esquerda, em detrimento do BE, acabou por se fazer sentir. O PCP desempenha uma importante função social de defesa dos trabalhadores, algo que os distingue dos outros partidos, mas não pode continuar alheio à necessidade de renovação.

Uma das estrelas da noite. Foto: Esquerda.net

Por falar no BE, o partido de Catarina Martins acabou por ser estrela da noite eleitoral ao passar de 8 para 19 deputados. Acredito até que alguns destes novos deputados, apanhados de surpresa pelos resultados, estarão a fazer contas à vida para saber quem é que vai ficar com os miúdos enquanto estiverem no Parlamento. O mérito deste sucesso recai sem dúvida na qualidade de discurso da líder ao longo da campanha mas também terá a ver com a imagem positiva que o Bloco passou no termo da última legislatura. Quem não se lembra do autêntico fuzilamento de Zeinal Bava na comissão de inquérito parlamentar, às mãos de Mariana Mortágua, por exemplo? Nada mau para um partido que chegou a ser considerado como estando em vias de extinção.

À Assembleia chegou entretanto um novo partido, o PAN. De Lourenço e Silva confesso que pouco sei, a não ser que é engenheiro civil, pratica mergulho e tem uma horta cheia de erva porque se desleixou nos últimos dias. Que este mandato sirva para trazer algum ar fresco às discussões na AR. Sendo Portugal um país que tem fobia a novidades, preferindo o conforto bipolar da alternância PSD-PS, é um feito.

André Lourenço e Silva, o rosto do PAN na AR. Foto: PAN

A abstenção voltou entretanto a subir. Depois de todos se terem regozijado pela descida desta anunciada pelas primeiras projecções, verificou-se afinal que, não só não tinha descido, como acabou afinal por bater o recorde, ultrapassando os 43%. Continua a falar-se em "necessidade de reflexão", "cativar os cidadãos" mas isso continua invariavelmente a ser apenas um discurso que fica bem e não um discurso sentido. Importante, importante é ganhar, nem que haja apenas 2 ou 3 eleitores.



Cenas dos próximos capítulos

Os próximos dias serão sem dúvida muito interessante, com o PS a procurar situar-se no novo contexto político onde toda a gente lhe pisca o olho. Tornou-se de repente a solteira mais cobiçada da aldeia. A ajudar à festa, Cavaco Silva regressou da jornada da sua jornada de reflexão, na qual não atingiu o nirvana mas conseguiu chegar a uma brilhante conclusão: terá de haver consenso.  

A nós, contribuintes, resta-nos aguardar pelo desfecho desta história, se bem que o último governo minoritário que tivemos teve vida curta, tendo sido derrubado após a recusa do PSD em viabilizar mais um famigerado programa de estabilidade e crescimento (o PEC IV). A justificação dada então por Passos Coelho foi que não era necessário cortar mais salários nem despedir mais gente mas antes aplicar a austeridade ao Estado (recordar aqui). Enquanto aguardamos, sempre podemos ir assistindo ao desenrolar do caso BES e à discussão à volta dos números do défice, sabendo que Passos Coelho já assegurou que podemos ficar tranquilos. Obviamente.

PS (Post Scriptum, entenda-se) - Cá pelo burgo, repetiu-se o resultado de 2011: 2 deputados para a coligação e 2 para o PS, com a diferença de agora o número de votos ter sido favorável aos socialistas. Eu poderia dizer que alguém da coligação meteu água e que os eleitores não acharam grande piada a isso mas abstenho-me. Isto só diz respeito à queda de popularidade do primeiro-ministro. Obviamente.

terça-feira, outubro 06, 2015

Caminho Inca, Parte 3 - O Vale Sagrado dos Incas

Ainda com alguns dias pela frente antes de começarmos o Caminho Inca, não podíamos desperdiçar a oportunidade de visitar alguns dos locais mais importantes da região de Cusco. Por isso, tanto em visitas guiadas como de forma autónoma (usando o peculiar sistema de transportes públicos da região) percorremos o planalto de Chinchero e o mítico Vale Sagrado dos Incas, onde a Via Láctea se confunde com o rio Urubamba. O que encontrámos mudou a nossa maneira de ver o Peru e os Incas.

Logo pela manhã, entrámos no autocarro que haveria de nos levar até ao Vale Sagrado. Para facilitar as coisas em termos de transporte, optámos por uma visita guiada, inscrevendo-nos numa das agências existentes perto da Plaza de Armas. O percurso iria levar-nos sucessivamente às comunidades de Pisac, Urubamba, Ollantaytambo e Chinchero, com uma primeira e breve paragem na pequena comunidade de Corao, uma povoação muito modesta, onde a maior parte das casas é construída em tijolo de adobe.


Corao, tijolos de adobe a secar ao Sol. Com tanta matéria prima à volta, construir casas fica bem em conta. 



Uma das ruas de Corao, com os inevitáveis camelídeos para turista ver e uma pequena loja.


O Vale Sagrado é o nome pelo qual é conhecida uma secção do vale pelo qual corre o rio Urubamba (ou também Vilcanota, entre outros nomes), sendo actualmente considerado o coração do Império Inca. Ao longo do Vale Sagrado, encontram-se numerosas ruínas incas o que é compreensível dado que este vale era um autêntico celeiro do império. Para uma sociedade eminentemente agrícola como era a Inca, é fácil hoje em dia compreender a importância que este vale terá então tido, sobretudo quando após vários quilómetros numa sinuosa estrada que corre entre altas montanhas, nos deparamos com este vale largo, cheio de terrenos de cultivo a perder de vista.

Para os Incas, que construíram várias cidades ao longo do vale, para além de outras estruturas, este vale terá tido um significado ainda mais profundo. De facto, os Incas acreditavam convictamente que o que viam no céu, nas grandes manchas escuras entre aglomerados de estrelas e nas próprias constelações, tinha reflexo na sua realidade imediata. Os lamas, pumas, raposas, serpentes e outros animais que viam no céu eram a fonte dos animais que caminhavam à sua volta. Sendo assim, o alinhamento quase perfeito do vale com o ramo da Via Láctea motivou a crença de que o rio Urubamba era o prolongamento ou o reflexo do grande Rio Celestial que viam no céu.

Pisac, a cidade da Perdiz


Pisac, nas margens do rio Urubamba

A actual comunidade de Pisac ou, melhor dizendo, a "vila colonial de Pisac", foi fundada pelos espanhóis no quadro da "relocalização dos índios", política levada a cabo para reorganizar o território e deslocar os indígenas para locais mais facilmente acessíveis e controláveis. A antiga cidade Inca situa-se no monte imediatamente acima da actual vila, sendo os seus socalcos agrícolas bem visíveis à distância.

Há várias teses quanto à origem do nome "Pisac" sendo que se acredita que o nome venha do quechua "P'isaq" que é o nome de uma ave semelhante a uma perdiz, havendo até que defenda que a zona urbana junto ao templo do Sol é na verdade um geoglifo que representa essa ave.


Pisac, com as suas diferentes zonas. Os socalcos dominam a paisagem enquanto as áreas edificadas se situam nos dois extremos da fotografia. Acima das construções da esquerda, sobre a pequena elevação que aí se vê, situava-se o Intihuatana, o Templo do Sol.


Aspecto do sector urbano mais a Norte (direita da foto anterior) denominado Qallaqasa. No limite dos socalcos percebe-se a muralha que delimitava a cidade.


A antiga cidade Inca, que se estima ter tido cerca de 600 habitantes, estava dividida 4 zonas edificadas distintas, para além da zona agrícola e da zona funerária. Essas 4 zonas edificadas dividem-se entre áreas de habitação, áreas de culto, armazéns e até áreas militares. Sobre a necrópole importa dizer que, para os enterramentos, foram aproveitadas as cavidades naturais de uma encosta abrupta junto à cidade, tendo até agora sido contabilizados mais de 1.500 túmulos. Nada de mais se pensarmos que a cidade foi fundada no século XV e perdurou até meados dos século XVI.



Vista da zona funerária, para a qual foram aproveitadas e alargadas as cavidades naturais aí existentes.

Como sempre acontece nas construções incas, os edifícios mais importantes tinham uma construção mais cuidada e impressionante, com pedras de maiores dimensões e sem ligante entre si, ao passo que as áreas residenciais do povo tinham uma construção mais rudimentar, em pedra pequena e barro. As paredes eram depois revestidas com adobe ou argila e caiadas de branco, podendo ter partes pintadas em vermelho ou amarelo vivo e até representações de animais.



Aspecto da Qallaqasa com construção mais rudimentar das casas.


Sector Este da cidade, avistando-se algumas construções que terão servido principalmente como armazéns. Os celeiros eram sempre construídos em locais mais expostos. Sabem porquê? Mais abaixo explico.

Terminada a visita às ruínas, fomos até à vila actual de Pisac para apreciar a mestria do trabalho de joalharia em prata, uma das artes herdadas dos povos pré-hispânicos que aqui se mantém bem viva. A prata desta região é trabalhada com um grau de pureza acima da média, fazendo dela uma referência a nível mundial. Os visitantes podem assistir aos trabalhos e depois visitar as exposições para eventuais compras, sendo seguidos -de bem perto!- por um dos vários funcionários que mantêm sempre os olhos bem abertos, não vá um dos potenciais clientes levar uma das peças e esquecer-se inadvertidamente de pagar.


Os táxis do Vale Sagrado e os deliciosos porquinhos-da-Índia

Depois de uma rápida passagem pelo famoso mercado tradicional de Pisac, voltámos ao autocarro para seguir rumo à cidade de Urubamba, onde nos aguardava o nosso almoço. No caminho deparámos-nos com os moto-táxis, pequenos veículos de transporte de passageiros que por aqui são extremamente populares. Há-os até que têm uma pequena caixa aberta à rectaguarda, sendo possível vê-los a transportar mercadorias e bagagens.



Um dos moto-táxis do Vale Sagrado, com um certo toque tunning.

No caminho, sobretudo ao passar pela comunidade de Lamay, vêem-se várias "Cuyerias", nada mais nada menos que restaurantes onde se serve um prato nacional peruano: o Cuy, isto é, o porquinho-da-Índia. Embora a ideia de comer um animal de estimação nos pareça estranha, no Peru é um dos pratos mais populares, sendo os Cuy criados como coelhos. O nosso guia, percebendo o espanto perante esta iguaria, perguntou a certa altura se tínhamos algum destes bichos como animal de estimação. Tendo recebido uma resposta afirmativa por parte de uma das senhoras presentes, retorquiu: -"Nesse caso, aconselho-a vivamente a sacrificar e comer o animal. Vai- ver que é delicioso!". A gargalhada geral que se seguiu contrastou com o ar desconcertado da senhora. Este foi um prato do qual nos abstivemos durante toda a nossa estadia no Peru.


À frente de uma das "Cuyerias" de Lamay, um homem tenta aliciar potenciais apreciadores de gastronomia peruana segurando uma espetada de... porquinhos-da-Índia. 


Ollantaytambo, a cidade inca guardada por um deus



A invulgar povoação de Ollantaytambo, caso único no Peru

Ollantaytambo seria, tal como Pisac, um centro político, religioso e administrativo, como pequenas capitais regionais na órbita de Cusco. O seu nome ainda motiva muita discussão mas duas hipóteses têm neste momento mais força: a primeira que diz que o nome virá do termo aymara (uma língua pré-inca ainda hoje falada por alguns milhões de habitantes) "Ullantawi", significando "Observatório" ou Torre de Vigia. A segunda hipótese baseia-se no nome de um general Ollanta, sendo "Tambo" um termo quechua que significa "lugar de descanso".

Para lá da impressionante construção da parte mais alta da cidade, encavalitada numa elevação, há vários outros factores que fazem de Ollantaytambo um local singular.

Em primeiro lugar, constitui o caso único no Peru de uma povoação que mantém o traçado inca da sua planta e de boa parte das construções. As ruas rectilíneas desenham a planta ortogonal original da cidade, sendo bem visível o aparelho inca de construção nas bases dos muros. É uma autêntica aula viva de História e uma janela privilegiada para a paisagem humana de há quase 600 anos atrás.



Os socalcos agrícolas


Vista da parte mais alta de Ollantaytambo, onde se situava o templo do Sol.

Em Ollantaytambo, cidade que terá tido aproximadamente 1.000 habitantes durante o império Inca, há dois antigos espaços sagrados que se destacam. O primeiro é o Templo da Água, uma fonte ceremonial dentro de um espaço fechado onde decorriam os rituais relacionados com este culto. Tem a interessante particularidade de, no solstício de Inverno (21 de Junho), os raios de Sol incidirem directamente sobre a fonte, tendo provavelmente sido palco de cerimónias religiosas associadas ao calendário Inca.



A fonte ceremonial no Templo da Água. A 21 de Junho, os raios de Sol incidem directamente sobre a bica desta fonte.

Outro local fascinante é o do observatório solar ali mesmo ao lado. Os Incas, tinham a agricultura como base da sua economia pelo que era fundamental regular a sementeira e colheita das mais de 2.000 espécies de batata e 200 espécies de milho de que dispunham, entre outros tipos de cultura (incluindo a sagrada coca). Para regular o calendário agrícola, os Incas apoiavam o seu conhecimento do clima e do tempo na observação astronómica, o que resultava na construção de observatórios. Embora com uma evidente conotação religiosa, os Incas desenvolveram os seus conhecimentos e domínio dos fenómenos astronómicos de forma notável.

Em Ollantaytambo, o observatório solar permitia, através da evolução da projecção das sombras de 3 grupos de saliências ao longo do ano, determinar a ocorrência dos solstícios de Inverno e Verão, conforme as sombras estivessem projectadas sobre os degraus da base ou sobre os entalhes da parede rochosa. 

O observatório solar junto ao templo da Água, um dos vários observatórios que existiam na cidade.

Subimos então por uma bem íngreme escadaria, ao longo dos vários socalcos, e foi curioso ver que alguns ainda hoje são cultivados, como não podia deixar de ser com "papas", isto é, batatas. Ao chegar ao topo, continuámos por um estreito caminho empedrado, em direcção ao templo do Sol e demais estruturas circundantes.



Plantação de "papas" num dos socalcos de Ollantaytambo. 


Chegados à antecâmara, detivemos-nos a apreciar a vista privilegiada para o actual núcleo da povoação e para a montanha para lá dele. Chamou-nos a atenção a forma como os edifícios pareciam desafiar a gravidade, colados que estavam ao flanco da montanha, mas o melhor foi quando o nosso guia nos chamou a atenção para a gigantesca formação rochosa que se encontrava entre as construções, olhando-nos de soslaio. Tratava-se de Tunupa, o deus Inca que fecundava a terra e a água, com o fogo celeste e as suas lágrimas, sendo também capaz de soltar o fogo que mora nas profundezas terrestres. Está ali, diz-se, enviado pelo criador de tudo, o deus Wiracocha.   



Chegados junto do templo do Sol, pelo trilho que se vê à esquerda e que, pela reduzida largura e visão privilegiada para a zona baixa do vale, chegou a provocar alguma inquietação incómoda na zona baixa abdominal de alguns dos presentes,  deslumbrámos-nos com a vista. Do outro lado da povoação, empoleirados na montanha, avistam-se edifícios empoleirados na montanha e um deus que nos olha de volta. Os edifícios que se encontram à direita deste eram armazéns, onde os cereais colhidos nas zonas agrícolas eram armazenados. A localização, sempre em local destacado, não era inocente. Destinava-se a garantir a melhor ventilação possível dos preciosos grãos, para ajudar à sua conservação.

Pormenor da foto anterior com o rosto do deus barbado destacado digitalmente. O que é espantoso e que mostra que o rosto terá tido um significado de grande importância para os Incas, é que sobre a sua cabeça foi construído um edifício, como se de uma coroa se tratasse. Mais à esquerda, noutra saliência da montanha, encontrava-se (mais) um observatório solar. Numa excessiva coincidência, eram este observatório e a "coroa" de Tunupa, juntamente com o próprio templo do Sol de Ollantaytambo, as primeiras construções deste recanto do vale a iluminar-se na manhã do solstício de Inverno.


Os construtores que não precisavam de ajuda extra-terrestre

O pouco que resta do templo do Sol consegue deixar-nos tão intrigados como impressionados, deixando à imaginação como seria o edifício caso estivesse completo. Os muros das estruturas ao redor do templo foram todos construídos com o mesmo aparelho ciclópico que tínhamos visto em Saqsaywaman (ver aqui), embora sem a mesma dimensão colossal. Grande parte destes muros foram destruídos pelos espanhóis, tendo muita da pedra sido utilizada na construção da igreja da actual Ollantaytambo. 

Reparando mais uma vez nas protuberâncias que se viam em algumas das pedras dos muros, aproveitei a deixa para perguntar sobre qual seria o seu propósito. A resposta foi pronta -"Suspeita-se que tenham servido como pontos de amarração de cordas para transporte das pedras. Isso vê-se em algumas pedras, em várias das construções incas mas, depois de colocadas as pedras, essas protuberâncias eram removidas." (recordar aqui). Aproveitando a deixa, decidi que era hora de, finalmente, ficarmos a saber a verdade. Por isso, olhei o guia nos olhos e atirei a pergunta: -"Então não foram os aliens?", ao que o guia esboçou um sorriso e respondeu simplesmente -"Não, não foram os aliens.", motivando o riso dos que estavam presentes. Pareceu-me sincero.

Do templo propriamente dito sobra apenas uma parede, na qual ainda se conseguem perceber os pumas e as chamadas "cruzes andinas" escalonadas que aqui estavam esculpidas em relevo e que depois foram picadas pelos espanhóis, no quadro da purga da idolatria. A própria parede é constituída por 6 enormes blocos de granito vermelho, separados por pedras extremamente finas do mesmo material, todo este conjunto sobre um alicerce de pedras mais finas. Segundo o nosso guia -"Esta construção destinava-se absorver a energia libertada pelos sismos, tanto em oscilações horizontais como verticais. Reparem que inclusive as paredes tinham sempre alguns graus de inclinação. Estas construções eram totalmente resistentes a sismos.".

A parede do templo do Sol, com vestígios dos relevos dos pumas e cruzes andinas nas faces de pedras que pesam dezenas de toneladas.

Ao redor do templo, blocos espalhados e irregulares corroboram a tese de que o templo do Sol estava ainda em construção quando os espanhóis chegaram. -"Os trabalhos foram interrompidos mas isso acabou por ter um lado bom, ao permitir-nos perceber mais sobre a forma como decorriam os trabalhos de construção. Sabemos que os blocos eram extraídos das pedreiras e transportados até ao local de construção, onde eram talhados, polidos e encaixados uns nos outros. Sabemos, pelas ferramentas encontradas, que usavam ferramentas de cobre,  hematita ou obsidiana para os cortes e os mesmos materiais ou até rocha de dureza igual para polir."

A questão impõe-se: de onde vieram afinal estas pedras do templo do Sol? -"Pelo tipo de rocha, granito vermelho, sabemos que terão vindo de uma pedreira que fica a 7km daqui. A rocha era grosseiramente cortada e, através de uma rampa cujos vestígios ainda existem, vinham até ao fundo do vale. Aí o rio seria certamente usado como via de transporte, sempre na época seca, com o caudal mais baixo, para permitir uma viagem menos atribulada. Para depois subir até aqui, usavam outra rampa que ainda é visível.". 

Como alguns pareciam estar cépticos, abriu um livro e mostrou uma fotografia onde se via uma pedra de algumas toneladas a ser puxada com cordas por várias pessoas em trajes tradicionais andinos. -"Um arqueólogo fez uma reconstituição para tentar perceber como eram transportadas as pedras. Pelos vistos, correu bem.". Nada descabido até porque num império com 10 a 12 milhões de habitantes e onde um imposto era pago em trabalho, era usual ter milhares de homens a trabalhar nos projectos mais importantes.


Blocos semi-trabalhados junto ao templo do Sol que contribuem para ilibar os seres extra-terrestres da responsabilidade das construções do império Inca.

Para terminar acrescentou um último pormenor: -"Vejam aqui (apontando para uma pequena pedra cilíndrica sob uma grande pedra que estava deslocada sobre o muro) este elemento. É uma pedra ainda fora do seu sítio com um cilindro que ficou esquecido por baixo dela. Servia para ajudar a mover as pedras para a sua posição final.". 

Após esta lição sobre construção inca, tirámos mais algumas fotos à paisagem e descemos novamente por entre os socalcos. Estava na hora de continuar a nossa viagem, deixando o Vale Sagrado para subir até ao planalto de Chinchero, onde nos esperava uma grande festa. 



Degrau a degrau, de regresso ao autocarro. Em sentido contrário ouvia-se apenas a respiração ofegante de quem chegava.



A caminho de Chinchero, uma vista privilegiada para a cidade de Urubamba.


Chinchero, uma festa à nossa espera


Às portas de Chinchero, pensámos ter um comité de recepção à nossa espera. Afinal não.


Ao chegarmos a Chinchero fomos surpreendidos pela agitação da festa popular que aí decorria. Subindo a custo porque, como percebemos depois, estávamos a quase 3.800m de altitude e era necessário controlar bem a respiração e dosear o esforço, caminhámos até ao largo da igreja.

Aí o colorido das bandeiras, a música, as diversões e locais de venda de alimentos (a Ana ainda provou a maçaroca de milho branco cozido) e bebidas criavam um ambiente extremamente cativante. Por todo o lado se viam os trajes tradicionais de Chinchero, onde se destacam o preto e o vermelho. Percebemos também que os trajes são aqui considerados verdadeiramente como trajes de festa e não apenas para vestir como relíquias em grupos de folclore. Ao longe, um grupo sentado ao longo de um muro partilhava uma grande garrafa de cerveja, bebendo em sequência do gargalo. Um ritual habitual, segundo o nosso guia. 

Devido à festa não foi possível visitar grande coisa em Chinchero. Ficam as fotos do colorido da festa:


A igreja de Chinchero, construída sobre um antigo templo Inca. Ainda se vê um dos muros com nichos trapezoidais de construção inca.



Uma habitante local passeando orgulhosamente o seu traje de Chinchero, diante de um muro Inca com indícios de restauro.




O bailarico ao som da banda.


Terminada a visita a Chinchero, já com o deus Inti a descer cada vez mais no horizonte, regressámos a Cusco. A Chinchero haveríamos de voltar outra vez, não para ver monumentos mas para aprender mais sobre um dos mais belos tesouros dos Andes. Isso e também para descobrirmos um local que prova o quanto os Incas estavam à frente dos europeus em termos agrícolas.


A seguir:

O tesouro de Chinchero, um centro de investigação Inca de fazer inveja e o branco que cobre um vale e que não é de neve. 

O último capítulo antes da partida para Machu Picchu




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