Lusitanos, vestidos à moda gaulesa, trocando impressões sobre a formação do próximo Governo
Nos últimos dias muito se tem debatido sobre a questão da formação do novo Governo de Portugal, nem sempre de forma informada ou adequada. Nas redes sociais, imbuídos de uma "sabedoria constitucional" inata, argumenta-se com a ilegalidade de um eventual Governo de esquerda, acontecimento que, de tão cataclísmico, poderia até levar à eliminação da selecção nacional de futebol de 11 do Campeonato da Europa. Certo é que esse cenário (o do governo de esquerda e não o da eliminação do Euro 2016) não é de forma alguma ilegal e até é bem possível que a "PaF" tenha cantado vitória demasiado cedo. O que diz afinal a lei sobre isto?
A festa da PaF, que na verdade são dois partidos
A questão da formação do novo Governo tem dado azo a uma discussão alargada, envolvendo desde os vendedores de opinião nos media clássicos e figuras destacadas da nossa sociedade, até ao opinador amador que há em cada português e que se expressa com denodo, tanto à mesa do café como nas redes sociais, embora nesta última com um vigor adjectival mais fulgurante. Infelizmente, a pedagogia e o bom senso não foram chamados para nenhum destes palcos, o que é pena e leva a que haja já quem estabeleça paralelos entre a formação do Governo e o formato das competições futebolísticas. Sobre isto, quero desde já aqui deixar bem claro que não acredito que o futebol tenha uma importância tal na sociedade portuguesa que a questão política e os partidos sejam vistos como competições entre equipas de futebol mas, ouvir comparações destas, faz-me sentir como se tivesse acabado de sofrer uma entrada a pés juntos, promovida por defesa-central razoavelmente bruto. A discussão está neste momento bipolarizada: uns (à "direita") defendem que a coligação "PaF" ganhou e, como obteve a maioria dos votos, deve ter o direito de formar governo, embora minoritário, enquanto outros (à "esquerda") defendem que se o PS, o BE e a CDU se coligarem, então terão a maioria parlamentar necessária para formarem governo. A celeuma é tal que, sobre esta última ideia, José Matos Correia (PSD) lançou o conceito de governo "legal mas politicamente ilegítimo". Na minha ignorância pergunto-me o que é isso da legitimidade política que, não importando se é ou não legal, é fundamental para a formação de um governo.
O que diz afinal a lei (mesmo a que não é politicamente legítima)?
Primeiro comecemos por recapitular os resultados das eleições legislativas: a coligação PaF obteve 104 mandatos, o PS 89, a CDU 17, o BE 19 e o PAN 1. Falta ainda atribuir 4 mandatos relativos aos círculos eleitorais fora de Portugal e que poderão influenciar esta discussão até porque é possível, por exemplo, que os nossos emigrantes votem em massa na coligação. Neste momento, será portanto correcto afirmar que a coligação detém o maior número de votos na Assembleia da República, certo? Errado. Diz a lei eleitoral da Assembleia da República, no seu artigo 22º que:
"As coligações deixam de existir logo que for tornado público o resultado definitivo
das eleições, mas podem transformar-se em coligações de partidos políticos, nos
termos e para os efeitos do disposto no artigo 12º do Decreto-Lei nº 595/74, de 7 de
Novembro"
Significa isto que a PaF, criada para tirar partido do método de contagem utilizado em Portugal para obter mais votos, se extingue após a publicação dos resultados eleitorais. Portanto, na Assembleia da República não haverá PaF mas sim PSD e CDS que irão, à semelhança dos últimos 4 anos, trabalhar em conjunto. Os para já 104 mandatos serão portanto divididos entre estes dois partidos. Não sei como será feita essa divisão nem se já foi feita (poderei por isso estar a dizer uma asneira) mas, se se mantiver a proporção da anterior legislatura, o PSD terá 85 mandatos e o CDS 19. Então e o que deve fazer o Presidente da República? Sobre o papel do Presidente da República na escolha do Governo, diz a Constituição da República Portuguesa (o tal papel que atrapalha tanto quem governa), na alínea f) do seu artigo 133º que
"(Compete ao Presidente da República, relativamente a outros órgãos,) nomear o Primeiro-Ministro, nos termos do n.º 1 do artigo 187.º"
Até aqui tudo bem mas o que diz especificamente esse artigo 187º no seu ponto nº1 relativamente à formação do Governo? Simplesmente isto:
"O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos
representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais. "
Nada diz especificamente sobre partidos mais votados. Apenas que o Presidente da República deve ouvir os partidos com assento parlamentar e ter em conta os resultados eleitorais na sua decisão. Ponto prévio, para já Cavaco Silva apenas teve uma reunião com Passos Coelho para lhe dizer para se entender com o resto dos partidos, não foi uma audição com vista à formação do Governo. Portanto, terá de reunir novamente com o PSD e com os restantes partidos para poder tomar uma decisão.
"Factura do bolo-rei, talão de encomenda ao Carlos Gil,... onde é que está a lista dos partidos que tenho de ouvir?!"
Imaginem por exemplo que o PSD e o CDS (e o PAN também, suponhamos) defendem em Belém que o chefe de Governo deve ser Passos Coelho mas que, a seguir, os restantes partidos propõem o nome de António Costa. O Presidente terá então ouvido os partidos e, à luz dos resultados eleitorais, terá de convidar a formar Governo quem lhe ofereça uma perspectiva de estabilidade governativa. Se os partidos ditos de "esquerda", que obtiveram nas eleições a maioria dos lugares do Parlamento, defendem um governo liderado por Costa, qual será a decisão mais lógica? Resta-nos a nós eleitores, tanto os que cumpriram o seu papel neste processo como os que tiveram infelizmente mais que fazer no passado dia 4 de Outubro, aguardar serenamente pelos desenvolvimentos e torcer para que, aconteça o que acontecer e, independentemente de ser ou não politicamente legítimo, que pelo menos se cumpra a lei. Já não será mau de todo.
Como geralmente acontece em noite eleitoral, apenas o 2º classificado não cantou vitória mas, convenhamos, depois dos tremendos e sucessivos tiros nos pés dados desde o início da campanha, António Costa dificilmente poderia aspirar a outro resultado. Quem não se lembra da polémica com os outdoors, que começou com aqueles que pareciam cópias made in China da capa da revista "Despertai!", por exemplo? O pior foi contudo a incapacidade em apresentar propostas que convencessem os eleitores, perdendo diariamente terreno para Passos Coelho, ao longo da campanha.
Quando no fervor do triunfo começaram a cantar o hino nacional, veio-me à memória o trauma de ouvir a imitação de um caprino a cantar o "Grândola Vila Morena" feita por Miguel Relvas no Clube dos Pensadores. Podia ter sido pior, vá lá.
Realmente as coisas não podiam ter saído melhor à PAF. Apesar dos sucessivos escândalos que atingiram o Governo, desde a revelação dos históricos "esquecimentos" do primeiro-ministro em relação às obrigações contributivas (em contraste com as regras fiscais que foram sendo impostas), aos submarinos do vice-primeiro-ministro, o mesmo que reinventou o conceito de irrevogabilidade, passando pela ministra "SWAP", o caso Relvas, as ligações perigosas a instituições bancárias falidas por gestões de bradar aos céus (o que não invalidou que o Sr. Dias Loureiro fosse apresentado como "caso de sucesso" por Cavaco Silva), entre outros , a tudo isto o casamento de conveniência PSD-CDS conseguiu sobreviver.
Claro que o caso Sócrates acabou por ser um conveniente alívio da pressão, conseguindo até o efeito colateral de atingir António Costa, pelo seu passado de proximidade ao recluso 44 mas, ainda assim, nada diminui o demérito do PS nesta derrota. Já a forma como Seguro foi afastado do PS poderá ter contribuído para afectar de alguma forma os socialistas mas, por si só, não me parece que este episódio tenha sido relevante no despique eleitoral, voltando a ser pertinente apenas na discussão à volta das consequências da derrota.
Apesar de tudo, usando agora uma terminologia futebolística para aumentar o interesse público deste artigo, entre seguir um caminho indefinido e um caminho que, não sendo o melhor, pelo menos era um caminho, o eleitorado optou por reeleger o binómio Passos-Portas mas não deixou de aproveitar para mostrar um valente cartão amarelo, sujeitando-os a ter de governar em minoria, ao perderem mais de 700.000 votos e 25 deputados, e ficando a depender de acordos prévios com os restantes partidos para poder governar. Foi por isso a pior vitória possível, sendo os festejos manifesta e deliberadamente exagerados.
Passando agora para os partidos da esquerda, a CDU terá ficado algo desencantada com os seus resultados que, apesar de tudo, estão em linha com a lenta subida que tem vindo a registar nas últimas eleições. A desilusão de não ter sido a alternativa privilegiada de esquerda, em detrimento do BE, acabou por se fazer sentir. O PCP desempenha uma importante função social de defesa dos trabalhadores, algo que os distingue dos outros partidos, mas não pode continuar alheio à necessidade de renovação.
Por falar no BE, o partido de Catarina Martins acabou por ser estrela da noite eleitoral ao passar de 8 para 19 deputados. Acredito até que alguns destes novos deputados, apanhados de surpresa pelos resultados, estarão a fazer contas à vida para saber quem é que vai ficar com os miúdos enquanto estiverem no Parlamento. O mérito deste sucesso recai sem dúvida na qualidade de discurso da líder ao longo da campanha mas também terá a ver com a imagem positiva que o Bloco passou no termo da última legislatura. Quem não se lembra do autêntico fuzilamento de Zeinal Bava na comissão de inquérito parlamentar, às mãos de Mariana Mortágua, por exemplo? Nada mau para um partido que chegou a ser considerado como estando em vias de extinção.
À Assembleia chegou entretanto um novo partido, o PAN. De Lourenço e Silva confesso que pouco sei, a não ser que é engenheiro civil, pratica mergulho e tem uma horta cheia de erva porque se desleixou nos últimos dias. Que este mandato sirva para trazer algum ar fresco às discussões na AR. Sendo Portugal um país que tem fobia a novidades, preferindo o conforto bipolar da alternância PSD-PS, é um feito.
André Lourenço e Silva, o rosto do PAN na AR. Foto: PAN
A abstenção voltou entretanto a subir. Depois de todos se terem regozijado pela descida desta anunciada pelas primeiras projecções, verificou-se afinal que, não só não tinha descido, como acabou afinal por bater o recorde, ultrapassando os 43%. Continua a falar-se em "necessidade de reflexão", "cativar os cidadãos" mas isso continua invariavelmente a ser apenas um discurso que fica bem e não um discurso sentido. Importante, importante é ganhar, nem que haja apenas 2 ou 3 eleitores.
Cenas dos próximos capítulos
Os próximos dias serão sem dúvida muito interessante, com o PS a procurar situar-se no novo contexto político onde toda a gente lhe pisca o olho. Tornou-se de repente a solteira mais cobiçada da aldeia. A ajudar à festa, Cavaco Silva regressou da jornada da sua jornada de reflexão, na qual não atingiu o nirvana mas conseguiu chegar a uma brilhante conclusão: terá de haver consenso.
A nós, contribuintes, resta-nos aguardar pelo desfecho desta história, se bem que o último governo minoritário que tivemos teve vida curta, tendo sido derrubado após a recusa do PSD em viabilizar mais um famigerado programa de estabilidade e crescimento (o PEC IV). A justificação dada então por Passos Coelho foi que não era necessário cortar mais salários nem despedir mais gente mas antes aplicar a austeridade ao Estado (recordar aqui). Enquanto aguardamos, sempre podemos ir assistindo ao desenrolar do caso BES e à discussão à volta dos números do défice, sabendo que Passos Coelho já assegurou que podemos ficar tranquilos. Obviamente.
PS (Post Scriptum, entenda-se) - Cá pelo burgo, repetiu-se o resultado de 2011: 2 deputados para a coligação e 2 para o PS, com a diferença de agora o número de votos ter sido favorável aos socialistas. Eu poderia dizer que alguém da coligação meteu água e que os eleitores não acharam grande piada a isso mas abstenho-me. Isto só diz respeito à queda de popularidade do primeiro-ministro. Obviamente.
Ainda com alguns dias pela frente antes de começarmos o Caminho Inca, não podíamos desperdiçar a oportunidade de visitar alguns dos locais mais importantes da região de Cusco. Por isso, tanto em visitas guiadas como de forma autónoma (usando o peculiar sistema de transportes públicos da região) percorremos o planalto de Chinchero e o mítico Vale Sagrado dos Incas, onde a Via Láctea se confunde com o rio Urubamba. O que encontrámos mudou a nossa maneira de ver o Peru e os Incas. Logo pela manhã, entrámos no autocarro que haveria de nos levar até ao Vale Sagrado. Para facilitar as coisas em termos de transporte, optámos por uma visita guiada, inscrevendo-nos numa das agências existentes perto da Plaza de Armas. O percurso iria levar-nos sucessivamente às comunidades de Pisac, Urubamba, Ollantaytambo e Chinchero, com uma primeira e breve paragem na pequena comunidade de Corao, uma povoação muito modesta, onde a maior parte das casas é construída em tijolo de adobe.
Corao, tijolos de adobe a secar ao Sol. Com tanta matéria prima à volta, construir casas fica bem em conta.
Uma das ruas de Corao, com os inevitáveis camelídeos para turista ver e uma pequena loja.
O Vale Sagrado é o nome pelo qual é conhecida uma secção do vale pelo qual corre o rio Urubamba (ou também Vilcanota, entre outros nomes), sendo actualmente considerado o coração do Império Inca. Ao longo do Vale Sagrado, encontram-se numerosas ruínas incas o que é compreensível dado que este vale era um autêntico celeiro do império. Para uma sociedade eminentemente agrícola como era a Inca, é fácil hoje em dia compreender a importância que este vale terá então tido, sobretudo quando após vários quilómetros numa sinuosa estrada que corre entre altas montanhas, nos deparamos com este vale largo, cheio de terrenos de cultivo a perder de vista. Para os Incas, que construíram várias cidades ao longo do vale, para além de outras estruturas, este vale terá tido um significado ainda mais profundo. De facto, os Incas acreditavam convictamente que o que viam no céu, nas grandes manchas escuras entre aglomerados de estrelas e nas próprias constelações, tinha reflexo na sua realidade imediata. Os lamas, pumas, raposas, serpentes e outros animais que viam no céu eram a fonte dos animais que caminhavam à sua volta. Sendo assim, o alinhamento quase perfeito do vale com o ramo da Via Láctea motivou a crença de que o rio Urubamba era o prolongamento ou o reflexo do grande Rio Celestial que viam no céu.
Pisac, a cidade da Perdiz
Pisac, nas margens do rio Urubamba
A actual comunidade de Pisac ou, melhor dizendo, a "vila colonial de Pisac", foi fundada pelos espanhóis no quadro da "relocalização dos índios", política levada a cabo para reorganizar o território e deslocar os indígenas para locais mais facilmente acessíveis e controláveis. A antiga cidade Inca situa-se no monte imediatamente acima da actual vila, sendo os seus socalcos agrícolas bem visíveis à distância. Há várias teses quanto à origem do nome "Pisac" sendo que se acredita que o nome venha do quechua "P'isaq" que é o nome de uma ave semelhante a uma perdiz, havendo até que defenda que a zona urbana junto ao templo do Sol é na verdade um geoglifo que representa essa ave.
Pisac, com as suas diferentes zonas. Os socalcos dominam a paisagem enquanto as áreas edificadas se situam nos dois extremos da fotografia. Acima das construções da esquerda, sobre a pequena elevação que aí se vê, situava-se o Intihuatana, o Templo do Sol.
Aspecto do sector urbano mais a Norte (direita da foto anterior) denominado Qallaqasa. No limite dos socalcos percebe-se a muralha que delimitava a cidade.
A antiga cidade Inca, que se estima ter tido cerca de 600 habitantes, estava dividida 4 zonas edificadas distintas, para além da zona agrícola e da zona funerária. Essas 4 zonas edificadas dividem-se entre áreas de habitação, áreas de culto, armazéns e até áreas militares. Sobre a necrópole importa dizer que, para os enterramentos, foram aproveitadas as cavidades naturais de uma encosta abrupta junto à cidade, tendo até agora sido contabilizados mais de 1.500 túmulos. Nada de mais se pensarmos que a cidade foi fundada no século XV e perdurou até meados dos século XVI.
Vista da zona funerária, para a qual foram aproveitadas e alargadas as cavidades naturais aí existentes.
Como sempre acontece nas construções incas, os edifícios mais importantes tinham uma construção mais cuidada e impressionante, com pedras de maiores dimensões e sem ligante entre si, ao passo que as áreas residenciais do povo tinham uma construção mais rudimentar, em pedra pequena e barro. As paredes eram depois revestidas com adobe ou argila e caiadas de branco, podendo ter partes pintadas em vermelho ou amarelo vivo e até representações de animais.
Aspecto da Qallaqasa com construção mais rudimentar das casas.
Sector Este da cidade, avistando-se algumas construções que terão servido principalmente como armazéns. Os celeiros eram sempre construídos em locais mais expostos. Sabem porquê? Mais abaixo explico.
Terminada a visita às ruínas, fomos até à vila actual de Pisac para apreciar a mestria do trabalho de joalharia em prata, uma das artes herdadas dos povos pré-hispânicos que aqui se mantém bem viva. A prata desta região é trabalhada com um grau de pureza acima da média, fazendo dela uma referência a nível mundial. Os visitantes podem assistir aos trabalhos e depois visitar as exposições para eventuais compras, sendo seguidos -de bem perto!- por um dos vários funcionários que mantêm sempre os olhos bem abertos, não vá um dos potenciais clientes levar uma das peças e esquecer-se inadvertidamente de pagar. Os táxis do Vale Sagrado e os deliciosos porquinhos-da-Índia Depois de uma rápida passagem pelo famoso mercado tradicional de Pisac, voltámos ao autocarro para seguir rumo à cidade de Urubamba, onde nos aguardava o nosso almoço. No caminho deparámos-nos com os moto-táxis, pequenos veículos de transporte de passageiros que por aqui são extremamente populares. Há-os até que têm uma pequena caixa aberta à rectaguarda, sendo possível vê-los a transportar mercadorias e bagagens.
Um dos moto-táxis do Vale Sagrado, com um certo toque tunning.
No caminho, sobretudo ao passar pela comunidade de Lamay, vêem-se várias "Cuyerias", nada mais nada menos que restaurantes onde se serve um prato nacional peruano: o Cuy, isto é, o porquinho-da-Índia. Embora a ideia de comer um animal de estimação nos pareça estranha, no Peru é um dos pratos mais populares, sendo os Cuy criados como coelhos. O nosso guia, percebendo o espanto perante esta iguaria, perguntou a certa altura se tínhamos algum destes bichos como animal de estimação. Tendo recebido uma resposta afirmativa por parte de uma das senhoras presentes, retorquiu: -"Nesse caso, aconselho-a vivamente a sacrificar e comer o animal. Vai- ver que é delicioso!". A gargalhada geral que se seguiu contrastou com o ar desconcertado da senhora. Este foi um prato do qual nos abstivemos durante toda a nossa estadia no Peru.
À frente de uma das "Cuyerias" de Lamay, um homem tenta aliciar potenciais apreciadores de gastronomia peruana segurando uma espetada de... porquinhos-da-Índia.
Ollantaytambo, a cidade inca guardada por um deus
A invulgar povoação de Ollantaytambo, caso único no Peru
Ollantaytambo seria, tal como Pisac, um centro político, religioso e administrativo, como pequenas capitais regionais na órbita de Cusco. O seu nome ainda motiva muita discussão mas duas hipóteses têm neste momento mais força: a primeira que diz que o nome virá do termo aymara (uma língua pré-inca ainda hoje falada por alguns milhões de habitantes) "Ullantawi", significando "Observatório" ou Torre de Vigia. A segunda hipótese baseia-se no nome de um general Ollanta, sendo "Tambo" um termo quechua que significa "lugar de descanso". Para lá da impressionante construção da parte mais alta da cidade, encavalitada numa elevação, há vários outros factores que fazem de Ollantaytambo um local singular. Em primeiro lugar, constitui o caso único no Peru de uma povoação que mantém o traçado inca da sua planta e de boa parte das construções. As ruas rectilíneas desenham a planta ortogonal original da cidade, sendo bem visível o aparelho inca de construção nas bases dos muros. É uma autêntica aula viva de História e uma janela privilegiada para a paisagem humana de há quase 600 anos atrás.
Os socalcos agrícolas
Vista da parte mais alta de Ollantaytambo, onde se situava o templo do Sol.
Em Ollantaytambo, cidade que terá tido aproximadamente 1.000 habitantes durante o império Inca, há dois antigos espaços sagrados que se destacam. O primeiro é o Templo da Água, uma fonte ceremonial dentro de um espaço fechado onde decorriam os rituais relacionados com este culto. Tem a interessante particularidade de, no solstício de Inverno (21 de Junho), os raios de Sol incidirem directamente sobre a fonte, tendo provavelmente sido palco de cerimónias religiosas associadas ao calendário Inca.
A fonte ceremonial no Templo da Água. A 21 de Junho, os raios de Sol incidem directamente sobre a bica desta fonte.
Outro local fascinante é o do observatório solar ali mesmo ao lado. Os Incas, tinham a agricultura como base da sua economia pelo que era fundamental regular a sementeira e colheita das mais de 2.000 espécies de batata e 200 espécies de milho de que dispunham, entre outros tipos de cultura (incluindo a sagrada coca). Para regular o calendário agrícola, os Incas apoiavam o seu conhecimento do clima e do tempo na observação astronómica, o que resultava na construção de observatórios. Embora com uma evidente conotação religiosa, os Incas desenvolveram os seus conhecimentos e domínio dos fenómenos astronómicos de forma notável.
Em Ollantaytambo, o observatório solar permitia, através da evolução da projecção das sombras de 3 grupos de saliências ao longo do ano, determinar a ocorrência dos solstícios de Inverno e Verão, conforme as sombras estivessem projectadas sobre os degraus da base ou sobre os entalhes da parede rochosa.
O observatório solar junto ao templo da Água, um dos vários observatórios que existiam na cidade.
Subimos então por uma bem íngreme escadaria, ao longo dos vários socalcos, e foi curioso ver que alguns ainda hoje são cultivados, como não podia deixar de ser com "papas", isto é, batatas. Ao chegar ao topo, continuámos por um estreito caminho empedrado, em direcção ao templo do Sol e demais estruturas circundantes.
Plantação de "papas" num dos socalcos de Ollantaytambo.
Chegados à antecâmara, detivemos-nos a apreciar a vista privilegiada para o actual núcleo da povoação e para a montanha para lá dele. Chamou-nos a atenção a forma como os edifícios pareciam desafiar a gravidade, colados que estavam ao flanco da montanha, mas o melhor foi quando o nosso guia nos chamou a atenção para a gigantesca formação rochosa que se encontrava entre as construções, olhando-nos de soslaio. Tratava-se de Tunupa, o deus Inca que fecundava a terra e a água, com o fogo celeste e as suas lágrimas, sendo também capaz de soltar o fogo que mora nas profundezas terrestres. Está ali, diz-se, enviado pelo criador de tudo, o deus Wiracocha.
Chegados junto do templo do Sol, pelo trilho que se vê à esquerda e que, pela reduzida largura e visão privilegiada para a zona baixa do vale, chegou a provocar alguma inquietação incómoda na zona baixa abdominal de alguns dos presentes, deslumbrámos-nos com a vista. Do outro lado da povoação, empoleirados na montanha, avistam-se edifícios empoleirados na montanha e um deus que nos olha de volta. Os edifícios que se encontram à direita deste eram armazéns, onde os cereais colhidos nas zonas agrícolas eram armazenados. A localização, sempre em local destacado, não era inocente. Destinava-se a garantir a melhor ventilação possível dos preciosos grãos, para ajudar à sua conservação.
Pormenor da foto anterior com o rosto do deus barbado destacado digitalmente. O que é espantoso e que mostra que o rosto terá tido um significado de grande importância para os Incas, é que sobre a sua cabeça foi construído um edifício, como se de uma coroa se tratasse. Mais à esquerda, noutra saliência da montanha, encontrava-se (mais) um observatório solar. Numa excessiva coincidência, eram este observatório e a "coroa" de Tunupa, juntamente com o próprio templo do Sol de Ollantaytambo, as primeiras construções deste recanto do vale a iluminar-se na manhã do solstício de Inverno.
Os construtores que não precisavam de ajuda extra-terrestre
O pouco que resta do templo do Sol consegue deixar-nos tão intrigados como impressionados, deixando à imaginação como seria o edifício caso estivesse completo. Os muros das estruturas ao redor do templo foram todos construídos com o mesmo aparelho ciclópico que tínhamos visto em Saqsaywaman (ver aqui), embora sem a mesma dimensão colossal. Grande parte destes muros foram destruídos pelos espanhóis, tendo muita da pedra sido utilizada na construção da igreja da actual Ollantaytambo.
Reparando mais uma vez nas protuberâncias que se viam em algumas das pedras dos muros, aproveitei a deixa para perguntar sobre qual seria o seu propósito. A resposta foi pronta -"Suspeita-se que tenham servido como pontos de amarração de cordas para transporte das pedras. Isso vê-se em algumas pedras, em várias das construções incas mas, depois de colocadas as pedras, essas protuberâncias eram removidas." (recordar aqui). Aproveitando a deixa, decidi que era hora de, finalmente, ficarmos a saber a verdade. Por isso, olhei o guia nos olhos e atirei a pergunta: -"Então não foram os aliens?", ao que o guia esboçou um sorriso e respondeu simplesmente -"Não, não foram os aliens.", motivando o riso dos que estavam presentes. Pareceu-me sincero.
Do templo propriamente dito sobra apenas uma parede, na qual ainda se conseguem perceber os pumas e as chamadas "cruzes andinas" escalonadas que aqui estavam esculpidas em relevo e que depois foram picadas pelos espanhóis, no quadro da purga da idolatria. A própria parede é constituída por 6 enormes blocos de granito vermelho, separados por pedras extremamente finas do mesmo material, todo este conjunto sobre um alicerce de pedras mais finas. Segundo o nosso guia -"Esta construção destinava-se absorver a energia libertada pelos sismos, tanto em oscilações horizontais como verticais. Reparem que inclusive as paredes tinham sempre alguns graus de inclinação. Estas construções eram totalmente resistentes a sismos.".
A parede do templo do Sol, com vestígios dos relevos dos pumas e cruzes andinas nas faces de pedras que pesam dezenas de toneladas.
Ao redor do templo, blocos espalhados e irregulares corroboram a tese de que o templo do Sol estava ainda em construção quando os espanhóis chegaram. -"Os trabalhos foram interrompidos mas isso acabou por ter um lado bom, ao permitir-nos perceber mais sobre a forma como decorriam os trabalhos de construção. Sabemos que os blocos eram extraídos das pedreiras e transportados até ao local de construção, onde eram talhados, polidos e encaixados uns nos outros. Sabemos, pelas ferramentas encontradas, que usavam ferramentas de cobre, hematita ou obsidiana para os cortes e os mesmos materiais ou até rocha de dureza igual para polir."
A questão impõe-se: de onde vieram afinal estas pedras do templo do Sol? -"Pelo tipo de rocha, granito vermelho, sabemos que terão vindo de uma pedreira que fica a 7km daqui. A rocha era grosseiramente cortada e, através de uma rampa cujos vestígios ainda existem, vinham até ao fundo do vale. Aí o rio seria certamente usado como via de transporte, sempre na época seca, com o caudal mais baixo, para permitir uma viagem menos atribulada. Para depois subir até aqui, usavam outra rampa que ainda é visível.".
Como alguns pareciam estar cépticos, abriu um livro e mostrou uma fotografia onde se via uma pedra de algumas toneladas a ser puxada com cordas por várias pessoas em trajes tradicionais andinos. -"Um arqueólogo fez uma reconstituição para tentar perceber como eram transportadas as pedras. Pelos vistos, correu bem.". Nada descabido até porque num império com 10 a 12 milhões de habitantes e onde um imposto era pago em trabalho, era usual ter milhares de homens a trabalhar nos projectos mais importantes.
Blocos semi-trabalhados junto ao templo do Sol que contribuem para ilibar os seres extra-terrestres da responsabilidade das construções do império Inca.
Para terminar acrescentou um último pormenor: -"Vejam aqui(apontando para uma pequena pedra cilíndrica sob uma grande pedra que estava deslocada sobre o muro) este elemento. É uma pedra ainda fora do seu sítio com um cilindro que ficou esquecido por baixo dela. Servia para ajudar a mover as pedras para a sua posição final.".
Após esta lição sobre construção inca, tirámos mais algumas fotos à paisagem e descemos novamente por entre os socalcos. Estava na hora de continuar a nossa viagem, deixando o Vale Sagrado para subir até ao planalto de Chinchero, onde nos esperava uma grande festa.
Degrau a degrau, de regresso ao autocarro. Em sentido contrário ouvia-se apenas a respiração ofegante de quem chegava.
A caminho de Chinchero, uma vista privilegiada para a cidade de Urubamba.
Chinchero, uma festa à nossa espera
Às portas de Chinchero, pensámos ter um comité de recepção à nossa espera. Afinal não.
Ao chegarmos a Chinchero fomos surpreendidos pela agitação da festa popular que aí decorria. Subindo a custo porque, como percebemos depois, estávamos a quase 3.800m de altitude e era necessário controlar bem a respiração e dosear o esforço, caminhámos até ao largo da igreja.
Aí o colorido das bandeiras, a música, as diversões e locais de venda de alimentos (a Ana ainda provou a maçaroca de milho branco cozido) e bebidas criavam um ambiente extremamente cativante. Por todo o lado se viam os trajes tradicionais de Chinchero, onde se destacam o preto e o vermelho. Percebemos também que os trajes são aqui considerados verdadeiramente como trajes de festa e não apenas para vestir como relíquias em grupos de folclore. Ao longe, um grupo sentado ao longo de um muro partilhava uma grande garrafa de cerveja, bebendo em sequência do gargalo. Um ritual habitual, segundo o nosso guia.
Devido à festa não foi possível visitar grande coisa em Chinchero. Ficam as fotos do colorido da festa:
A igreja de Chinchero, construída sobre um antigo templo Inca. Ainda se vê um dos muros com nichos trapezoidais de construção inca.
Uma habitante local passeando orgulhosamente o seu traje de Chinchero, diante de um muro Inca com indícios de restauro.
O bailarico ao som da banda.
Terminada a visita a Chinchero, já com o deus Inti a descer cada vez mais no horizonte, regressámos a Cusco. A Chinchero haveríamos de voltar outra vez, não para ver monumentos mas para aprender mais sobre um dos mais belos tesouros dos Andes. Isso e também para descobrirmos um local que prova o quanto os Incas estavam à frente dos europeus em termos agrícolas.
A seguir:
O tesouro de Chinchero, um centro de investigação Inca de fazer inveja e o branco que cobre um vale e que não é de neve.
O último capítulo antes da partida para Machu Picchu
Após dois dias no centro histórico de Cusco, decidimos que era altura de sair da cidade e enfrentar a encosta para explorar o planalto que dominava a cidade. Tínhamos como objectivo visitar dois sítios arqueológicos que sabíamos estarem ali mas, afinal, acabámos por descobrir que aquele planalto escondia muito mais que isso.
O percurso começou com a subida à "cabeça" do Puma de que a planta da antiga capital inca de Qosqo tem a forma, percorreu o planalto sobranceiro à cidade e terminou com o regresso pela antiga estrada real Inca do Antisuyu (a amarelo) que leva à actual Plaza de Armas, num circuito total de 8km entre os 3400 e 3650m de altitude.
A jornada começou com uma falsa partida. Saindo de San Blas, fomos caminhando em direcção à colina onde se situava o nosso primeiro objectivo, a cidadela de Saqsaywaman. A subida foi ficando mais inclinada até chegarmos a mais uma rua onde os passeios eram escadarias. Com o Sol já forte, chegámos ao ponto de entrada do sítio, apenas para descobrirmos que, não só não tínhamos dinheiro suficiente como, ainda por cima, não era possível pagar com multibanco. Foi pois necessário regressar a Cusco para levantar dinheiro, voltando depois a subir aquela mesma rua tipo "quebra-costas".
A partir da Plaza de Armas de Cusco, avistam-se os patamares de Saqsaywaman, no alto do monte situado para lá da igreja de São Cristóvão. Esta igreja foi ela própria construída sobre um antigo palácio Inca.
Percebeu-se então que aquela rua estreita tinha dois sentidos de trânsito, quando um carro que subia se deparou com uma pequena carrinha que vinha a descer e, acto contínuo, todos os ocupantes da carrinha saíram para a empurrar já que por si, dada a inclinação da rua, a carrinha não conseguia fazer marcha-atrás. Chegando novamente à entrada do sítio, entrámos finalmente em Saqsaywaman, a grande cidadela a partir da qual se domina o vale de Cusco. Saqsaywaman, a cidadela imperial
O recorte em ziguezague dos muros ciclópicos de Saqsaywaman.
A partir da entrada, que afinal era uma entrada secundária, um caminho levou-nos à recepção principal do sítio, onde, como é regra, os vendedores ambulantes de produtos "típicos" e as pessoas vestidas a rigor e com ovelhas bebé ao colo para a fotografia, a troco de uns soles, marcavam presença. Ao chegarmos, um homem abordou-nos oferecendo os seus préstimos como guia. Como não tínhamos grande informação sobre a cidadela, negociámos o valor e aceitámos a sua companhia, o que acabou por trazer algum valor acrescentado à visita. Já vão ver porquê.
José Luiz, o nosso guia em Saqsaywaman, junto à Porta do Sol (ao fundo à direita).
De acordo com a informação oficial, Saqsaywaman foi, durante o apogeu do Império Inca (Tahuantinsuyu), o local mais importante fora da capital Qosqo (Cusco). Foi consagrada por volta 1460 como Casa do Sol pelo 9º e maior Inca, Pachacutec embora a sua construção tenha sido apenas terminada após uma sucessão de 3 dos seus descendentes. Ao redor da cidadela foram ainda encontrados vários túmulos reais.
Convém referir que a religião oficial do Tahuantinsuyu tinha como divindade principal o Sol, sendo também adorados a Lua, as Montanhas, entre outros mas disso falarei mais em pormenor nos próximos artigos. Aqui, vários deles eram adorados já que Saqsaywaman foi um grande centro cerimonial de carácter sagrado, cumprindo funções de sede central da religiosidade Inca. Para além disso, era também um local determinante da vida política e social do Império. Ainda hoje este local é o centro de cerimónias mais ou menos escondidas, como se pode deduzir da quantidade de folhas de coca que encontramos depositadas nas cavidades das zonas religiosas.
Subsistem no entanto várias dúvidas sobre a função de várias das estruturas que nos últimos anos foram encontradas, até porque quando os católicos espanhóis aqui chegaram, fizeram questão de saquear e destruir os locais sagrados dos Incas. A própria cidadela forneceu a pedra com que se construiu a Catedral de Cusco, para além de, depois disso, ter sido a pedreira predilecta da cidade. Diz-nos José Luiz que "havia pessoas encarregadas de vender a pedra deste local. Isto chegou ao cúmulo de, já com escavações arqueológicas em andamento, se estar ainda a vender pedra por 5 ou 6 soles". A destruição de Saqsawaman foi ainda potenciada pelo facto de, perplexos com a dimensão e qualidade da construção, os espanhóis não terem acreditado que a construção tinha sido feita pelos "índios", que eram tidos como primitivos e inferiores, mas antes por obra do Demónio. Hoje em dia, como o Demónio é um conceito ultrapassado, há quem acredite que foram na verdade seres extra-terrestres os responsáveis pela construção de Saqsaywaman.
Parece já afastada a hipótese de este local se tratar de uma fortaleza, pelo menos na sua função original. Segundo José Luiz "Vocês na Europa, vêem um grande muro no alto de um monte e pensam logo que é uma fortaleza. Quando os espanhóis aqui chegaram pensaram o mesmo mas não é nada disto que se trata. Vejam os muros, o recorte em forma de relâmpago. Faz sentido que isto seja uma fortaleza? Só o terá sido durante a revolta do Inca Manco Qapac contra os espanhóis, quando ele se entrincheirou aqui mas por pouco tempo. Este sítio não era fácil de defender."
Quanto à construção do sítio, José Luiz alinha com as teses mais defendidas: terão trabalhado neste local mais de 20.000 quechuas, divididos entre tarefas de talhe, transporte e colocação dos blocos.
Enquanto falamos, Jose Luiz leva-nos até um aglomerado de rochas onde se distinguem plataformas talhadas cujo propósito se perdeu. Seriam locais para colocação de objectos de culto? Divindades? Múmias dos antepassados? Através de um corredor que se estreita cada vez mais, chegamos à entrada de um túnel toscamente talhado.
José Luiz pergunta-nos -"São claustrofóbicos? Não? Então vamos entrar e percorrer o túnel. Não temos luz mas você (apontando para a Ana) agarra a minha camisa e o seu marido agarra em si e vamos entrar.". Enquanto percorremos o túnel, completamente às escuras, explica-nos que eram passagens usadas entre diferentes áreas, sendo que o local onde tínhamos estado antes, seria uma área de acesso reservado aos sacerdotes.
A Ana a confirmar a qualidade da construção dos túneis de Saqsaywaman
Chegamos a um novo espaço aberto e depois mais um túnel. -"Este é pequeno. Não chegamos a ficar às escuras.". Em poucos segundos estamos fora e contemplamos aquilo que parece ser um anfiteatro. Trata-se do Qocha, o templo principal do culto da água, um dos cultos mais importantes no tempo dos Incas, local onde tinham lugar as cerimónias fundamentais deste culto. Para lá deste espaço avistamos um grande afloramento rochoso que nos chama a atenção. José Luiz incita-nos a continuar na direcção dessa formação geológica.
O Qocha, o templo principal do culto da água.
Chegamos assim ao Suchuna ou Rodadero. Trata-se de uma formação de andesito, uma rocha assim chamada em alusão aos Andes, que se formou pela saída e solidificação de magma, o que explica as estrias que formam a mais peculiar característica deste bloco. As estrias mais compridas têm sido usadas desde há séculos como escorregas naturais e nós também não resistimos à tentação de experimentar aquilo que o cronista Inca Garcilaso de la Vega (1539-1616) referiu como sendo um dos passatempos predilectos das crianças de então.
As estrias extremamente polidas por séculos de utilização do Rodadero formam um fantástico escorrega natural. É obrigatório experimentar, à semelhança daquilo que o cidadão português da foto está valentemente a fazer.
Depois de atravessarmos o grande espaço aberto da esplanada Maskabamba, chegamos finalmente junto das "muralhas" em ziguezague. A dimensão dos blocos de andesito, alguns pesando centenas de toneladas, é assombrosa e a perfeição do encaixe das suas formas irregulares. Só a título de exemplo, o maior bloco do conjunto mede 9 metros de altura por 5 de largura e tem um peso estimado de 360 toneladas. Um feito! Mas atenção que este tipo de construção só era empregue em locais realmente importantes. Voltarei e este tema nos próximos artigos.
Um dos blocos gigantescos dos muros inferiores de Saqsaywaman.
A única porta intacta do complexo: a Inti Punku ou Porta do Sol (do quechua Inti=Sol, Punku=Porta). Na arquitectura inca, a inclinação dos muros e as formas trapezoidais das portas e janelas não eram meramente estéticas, já que isso tornava as construções resistentes a sismos.
Vista da esplanada Maskabamba, onde anualmente se realiza o Inti Raymi, a Festa do Sol. Esta cerimónia celebra o solstício de Inverno (21 de Junho) e recria a antiga cerimónia Inca que pedia aos deuses a dádiva de boas colheitas e bom governo. O que já não é recriado é o sacrifício de lamas (havia preferência por animais de cor preta).
Entrando na cidadela subimos ao ponto mais importante, o Muyuqmarka, onde se situava o templo do Sol. Aqui erguia-se também uma torre que, segundo os cronistas, teria 4 andares e estaria inteiramente revestida de ouro. Nela situava-se um reservatório de água, com capacidade estimada de quase 50.000 litros, saindo dele uma série de canais que levavam a água às diferentes partes de Saqsaywaman. Os espanhóis destruíram estas construções até aos alicerces.
Muyuqmarka (do quechua Muyuk=circular, Marka=local) onde se erguia uma grande torre de 4 andares, num complexo que incluía ainda o Templo do Sol. Este era o sector mais importante de Saqsaywaman.
Antes de entrarmos na cidadela, despedimos-nos de José Luiz, não sem quem este nos desse umas últimas indicações sobre o caminho a seguir para chegar a outros sítios que havia ali por perto: Qenqo, o Templo da Lua e Kusilluchayoc. O objectivo inicial era ir apenas ate Qenqo mas ficámos curiosos em relação aos dois últimos e decidimos por isso prolongar o percurso.
À saída das ruínas, encontrámos um dos responsáveis pela corte da relva do sítio arqueológico de Saqsaywaman: um Lama. Serviço ininterrupto barato e ecológico.
Qenqo, o labirinto de pedra
Depois de nos termos abastecido com barrinhas de cereais artesanais numa das vendedoras em Saqsaywaman, seguimos por um caminho de terra batida até uma estrada, seguindo depois por esta até Qenqo. Antes de chegarmos a Qenqo, avistámos um conjunto de ruínas que nos chamou a atenção. Tratava-se do sítio conhecido como Qenqo Chico, o Qenqo Pequeno.
Sobre este local pouca ou nenhuma informação encontrámos para além do que vimos. O que resta de um grande muro, delimitando uma zona oval onde as construções há muito desapareceram, ficando apenas os cortes nos afloramento rochoso, alguns nichos e escadarias.
Qenqo Chico, um misterioso sítio a partir do qual se tem uma vista privilegiada para as zonas mais recentes de Cusco, incluindo o estádio Garcilaso de la Vega
As escadarias e altares de Qenqo Chico
Logo ali ao lado, encontra-se Qenqo, este sítio sim, com muito mais para contar. Este era um santuário que já existia antes da chegada dos Incas e a cuja utilização estes deram continuidade. No maciço rochoso encontram-se inúmeros canais, escadarias e cavidades, que estariam associados ao conjunto de ritos religiosos nos quais era usada a Chicha, uma bebida sagrada feita de milho e que hoje, de forma menos sagrada, se pode provar um pouco por todo o lado. Basta encontrar uma casa que tenha uma bandeira ou pano vermelho pendurado no exterior e bater à porta.
O complexo religioso de Qenqo (em quechua, "Labirinto")
Em Qenqo, destaca-se uma área semelhante a um teatro. Embora pareça um espaço semi-circular com 19 cadeiras, na verdade existia aqui uma área delimitada por um muro algo com 19 nichos onde eram colocadas representações de diferentes divindades. A dominar o espaço está um monólito tosco, provavelmente desfigurado pelos espanhóis, que deveria ter a forma de um animal, um puma ou um macaco.
O "teatro" de Qenqo e o monólito zoomórfico.
Outra perspectiva do "teatro", a partir do exterior.
Contornando o espaço, chegamos à entrada do espaço interior, feito de passagens sinuosas e salas mais ou menos largas. Neste espaço extremamente fresco encontra-se um grande altar sobre o qual se acredita que fossem feitos sacrifícios, tanto de humanos como de animais.
A prática de sacrifícios era comum durante o Império mas era sobretudo praticada com animais. Os sacrifícios humanos eram apenas realizados em situações mais extremas, quando os deuses precisavam de ser apaziguados, ou em ocasiões de grande importância, como no solstício ou no equinócio, e para os que se ofereciam ao sacrifício, isso constituía uma grande honra.
O altar de sacrifícios no interior do santuário de Qenqo, um local sagrado que seria de acesso reservado a sacerdotes.
Terminada a nossa visita a Qenqo e dado que não sabíamos exactamente qual o caminho a seguir para chegarmos ao Templo da Lua e a Kusilluchayoc, perguntámos às duas senhoras que estavam no guichet de recepção qual era o caminho. Para o templo a sua resposta foi pronta mas foi algo caricato perceber que elas não sabiam exactamente onde se situava o segundo local. Após alguma reflexão uma delas pareceu finalmente lembrar-se onde ficava mas não se coibiu de emitir um aviso "Mas olhem que isso fica ali no meio da floresta e aquilo é um bocado perigoso. É melhor não irem lá.".
Optámos por ignorar o aviso e continuar o nosso caminho, dirigindo-nos ao Templo da Lua.
Templo da Lua e Kusilluchayoc, o "Templo dos Macacos"
A partir de Qenqo, o caminho de terra batida transforma-se num trilho algo irregular que corre ao longo de uma pradaria. Como em Qenqo, Templo da Lua foi construído ao redor e sobre um maciço rochoso destacado na paisagem, contendo também grutas que foram adaptadas e onde se encontram altares, provavelmente também para sacrifícios. As características das grutas sugerem uma conotação feminina do local, sendo possivelmente um local onde decorriam rituais relacionados com a fertilidade.
Chegados ao local, subimos ao topo do maciço para nos sentarmos e descansar um bocado, afinal, o calor apertava já tínhamos algumas horas de caminhada nas pernas.
A caminho do templo da Lua.
As construções adjacentes ao maciço rochoso do templo da Lua, indiciando trabalhos de restauro.
Ao descermos, encontrámos um dos guardas que patrulham regularmente a zona arqueológica e aproveitámos para lhe perguntar o caminho até Kusilluchayoc. Com um sorriso largo, uma constante por aquelas bandas, indicou-nos um caminho que passava ali perto, delimitado por dois muros. -"É a estrada Inca. O templo dos macacos fica lá à frente, à beira dele". Seguimos até ao caminho, passando por uma seara de quinoa, o "trigo dos Incas", em cuja colheita estavam várias pessoas a trabalhar. A cor ocre da seara destacava-se -e de que maneira!- no amarelo-baço da pradaria.
A colheita em curso na seara de quinoa, a mais de 3600m de altitude.
Qapac Ñan, a Estrada Real dos Incas aqui admiravelmente conservada
Chegando a Kusilluchayoc, o cenário repete-se: um maciço rochoso, estruturas anexas, vestígios sobre as rochas e cavidades com altares. Na parte central do conjunto, numa ampla abertura, agora a céu aberto, encontra-se um monólito, semelhante ao de Qenqo no qual se encontram em relevo várias figuras: uma que poderia realmente corresponder a um macaco e algumas serpentes. As serpentes, juntamente com os condores e os pumas, faziam parte da trilogia dos animais sagrados dos Incas, sendo vistas como animais capazes de comunicar entre diferentes planos de existência, longe da aura maléfica que lhe passou a ser atribuída com a chegada dos europeus.
As estruturas exteriores do templo aqui com um tipo de construção radicalmente diferente daquilo que se encontra em Saqsaywaman e no centro de Cusco, por exemplo.
O monólito com as serpentes e o macaco (não visível) que também neste sítio se encontra em lugar de destaque mas igualmente com sinais de ter sido vandalizado aquando da purga de idolatria posta em prática pelos espanhóis.
Após as visitas, era finalmente hora de regressar a Cusco para algum descanso antes do jantar. Sabíamos que, pela lógica, se continuássemos a seguir o caminho, inevitavelmente chegaríamos ao centro de Cusco mas não conhecíamos o estado do caminho nem sabíamos se este tinha continuidade para lá do que conseguíamos ver. Um habitante local que por ali passava com uma criança aos ombros desfez as dúvidas, confirmando-nos o bom estado do caminho. Seguindo-o (dentro do possível dado que, apesar de transportar uma criança, tinha um ritmo de caminhada de fazer inveja), depressa chegámos à periferia de Cusco e, após alguns minutos, estávamos de volta a San Blas.
À chegada aos bairros periféricos de Cusco, o traçado da estrada inca muda radicalmente.
Cansados, é certo, mas fascinados com tudo o que tínhamos visto e também intrigados por não termos encontrado o menor indício dos perigos para os quais tínhamos sido avisados em Qenqo. Entretanto, o melhor ainda estava para vir.
A seguir:
O Vale Sagrados dos Incas e as cidades que desafiam a imaginação e a gravidade