sábado, fevereiro 15, 2014

Sobre as cartas de amor


Há alguns anos, fui convidado a dar uma aula de processamento de texto num curso de informática na zona da Guarda. O grupo era formado por senhoras com idades entre os 40 e os 50 anos, que se estavam a iniciar nas lides dos computadores, e mostraram ser bastante interessadas e voluntariosas.

Como parte da estratégia de motivação inicial, dei o mote para a discussão das vantagens de escrever textos num computador em relação à escrita manual. Tendo recolhido uma série de ideias interessantes, decidi espicaçá-las um pouco:

-"Claro que a escrita manual tem uma grande vantagem sobre a escrita num computador. Sabem qual é?"

Fez-se silêncio durante alguns segundos, enquanto se entreolhavam com ar intrigado, após o que concluí:

-"É muito mais romântico, não acham?"

Por entre as risadas que se seguiram, uma das senhoras tomou a palavra para me dar razão:

-"É sim senhor! Quando o meu marido andava na tropa fartava-se de me escrever cartas. Eu não era capaz de as ler porque não conseguia perceber a letra dele mas adorava recebê-las!"

Imagem: Wikipédia

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Pesquisas do Katano!

Após um prolongado interregno, publicamos mais um artigo da série "Pesquisas do Katano" que, na prática, consiste numa lista de termos de pesquisa no Google que trouxeram os cibernautas ao Blog do Katano, para provavelmente em seguida carregarem no botão de retroceder, ao mesmo tempo que soltavam uma imprecação entre dentes. 

quanto tempo para por moeda no parquimetro
Fico na dúvida se esta pesquisa pretende esclarecer de quanto em quanto tempo se deve introduzir uma moeda no parquímetro ou se se prende, mais precisamente, com o tempo socialmente aceitável que se deve demorar no acto de introdução da moeda no dito cujo. A resposta mais provável a esta questão será provavelmente "Um certo tempo".

Agora é claro que, se estivermos a falar do estacionamento de superfície pago da cidade do Fundão, a coisa muda de figura. Gasta-se tanto tempo a tentar identificar um lugar de estacionamento que, quando finalmente isso for conseguido, provavelmente já acabou o horário de estacionamento pago e a questão da moeda já nem se coloca (ver "A qualidade do estacionamento pago no Fundão by EMSA-Consequi"). Por outro lado, também há quem não tenha muita sorte com os parquímetros quando estaciona em tempo útil (ver "Ah parquímetro ladrão!").

como fazer pasteis jesuitas em video
Embora não sejamos muito versados na confecção de jesuítas, estamos em condições de avançar que os ingredientes necessários são: farinha, manteiga, água, sal, ovos, açúcar, canela e uma câmara de vídeo. Não havendo câmaras de vídeo convencionais disponíveis, pode-se usar em alternativa a câmara de um smartphone. No entanto, um amigo meu já experimentou e diz que assim os pastéis não ficam grande coisa.

coelhos stressados
Esta pesquisa reincidente foi sem dúvida feita por alguém que se quis inteirar dos inquietantes eventos de Janeiro de 2008 quando um esquadrão de caças F-16 da força aérea portuguesa sobrevoou a zona de Penamacor a baixa altitude, provocando partos prematuros no gado caprino e deixando inúmeros coelhos à beira de um ataque de nervos! Podem recordar esse episódio clicando aqui e, já agora, não deixem de ler o comunicado da força aérea sobre o sucedido clicando aqui.

luxemburgo onde param os drogados
Aqui temos uma normal preocupação no planeamento de umas férias no Grão-Ducado do Luxemburgo. Também nós estivemos lá há uns tempos atrás e recordo-me bem das questões que então colocámos: "Onde é que ficam as muralhas da Cidade Velha?", "Quais são os pratos típicos?", "Onde é que param os drogados?", "Onde é que fica o Palácio Grão-Ducal?". 

Ana Malhoa a dar ao cu
Nem me atrevo. Adiante.

komo ir vestida para a serra da estrela
Talvez seja recomendável um estilo um pouco mais informal. A tendência da moda Outono/Inverno 2013/14 é o uso de saias largas abaixo do joelho e sobretudos compridos. Também se sugere o uso de vestuário com cinturas marcadas, botas de cano alto. O padrão tartan também está muito em voga nesta estação. Tenho a certeza que uma ida à Serra nesta altura com este tipo de modelito será uma experiência inesquecível.


A série completa de artigos, que inclui termos de pesquisa como "Beber água da tibórnia é prejudicial?", "como se comunicar com extraterrestres" ou "tourada que causonou morte" pode ser consultada aqui:

Pesquisas do Katano - Novembro de 2008
Pesquisas do Katano - Janeiro de 2009
Pesquisas do Katano - Março de 2009
Pesquisas do Katano - Junho de 2009
Pesquisas do Katano - Agosto de 2009
Pesquisas do Katano - Setembro de 2009
Pesquisas do Katano - Janeiro de 2010
Pesquisas do Katano - Março de 2010
Pesquisas do Katano - Novembro de 2010

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Bem-vindos ao mais pequeno estado soberano do Mundo!

Esqueçam o Vaticano, os atóis do Pacífico, San Marino, Mónaco ou até a ilha da Madeira. O mais pequeno estado soberano do Mundo situa-se no local mais improvável, ao largo do estuário do Tamisa, e tem menos de meio século de história mas é uma história tumultuosa, tendo inclusive sido palco de uma guerra civil. Sejam bem-vindos ao glorioso Principado de Sealand!

Durante a II Guerra Mundial, o governo britânico decidiu reforçar as defesas costeiras com a construção de uma série de fortalezas ao largo do estuário do rio Tamisa. Tratava-se na prática de uma série de plataformas dotadas de radares e artilharia para protecção anti-aérea e marítima, guarnecidas por algumas centenas de soldados. 

Após o fim da guerra, esses fortes acabaram por ser abandonados até que, já nos anos 60, alguns foram ocupados por estações de rádio piratas. Londres não achou piada à ideia de ver instalações governamentais ocupadas por estações de rádio ilegais e moveu uma perseguição legal  que obrigou ao seu encerramento. 

Um deles, um major do exército reformado temperamental chamado Roy Bates, decidiu não baixar os braços e mudou a sua estação, a Radio Essex, para o forte de Roughs Tower que tinha a particularidade de se situar fora do limite das águas territoriais britânicas. Não contente, declarou a independência da plataforma a 2 de Setembro de 1967 (no dia do aniversário da sua esposa), rebaptizando o forte. Nascia assim o Principado de Sealand, um território com 550m2 governado pelos príncipes Roy e Joan Bates e com constituição, moeda, passaportes, cartões de identidade, bandeira e hino próprios. Tem actualmente até uma equipa de futebol com palmarés internacional (ver aqui) obtido de forma dramática.


Eis o Principado de Sealand em todo o seu esplendor!

Dado que o príncipe Roy faleceu em 2012, a chefia do estado é actualmente assegurada pelo seu filho Michael.

Tiros, insultos e... guerra civil!

Mas nem tudo foi pacífico no processo de emancipação de Sealand. Primeiro ocorreu um incidente com uma embarcação inglesa em 1968, que levou a que fossem disparados tiros de aviso a partir da plataforma e que só não deu em nada porque os tribunais britânicos alegaram não ter jurisdição sobre um território extra-territorial. Depois houve outro incidente envolvendo um helicóptero que sobrevoou Sealand, insultando os seus moradores. Mas isto foi apenas o prenúncio de algo muito mais grave.

Em 1978, aproveitando o facto de apenas se encontrar em Sealand o príncipe herdeiro Michael, um grupo de mercenários alemães e holandeses liderados por Alexander Achenbach, primeiro-ministro de Sealand, ocupou o país e fez o príncipe refém. Foi um erro crasso. A partir de Inglaterra, o príncipe Roy Bates, então com 60 anos mas com o mesmo feitio temperamental de sempre, formou uma força expedicionária com um grupo de amigos, naquilo que foi uma mobilização sem precedentes na história das forças armadas sealandesas, e voou até Sealand num helicóptero pilotado por John Crewdson, piloto, actor e duplo de vários filmes de acção, entre eles "James Bond - Ao serviço de sua majestade". 


Os prisioneiros exibidos pelo Príncipe Roy.

Após um aceso tiroteio, Sealand foi recuperado e os ocupantes foram feitos prisioneiros, tendo sido libertados apenas 7 semanas depois, na sequência da visita de um diplomata alemão. Alexander Achenbach acabou por fundar o Governo Rebelde de Sealand, que reclama até hoje o estatuto de governo legítimo do território, a partir do exílio na Alemanha. Estabelecida a paz, estava aberto o caminho para a paz e prosperidade.





A economia de Sealand ou como adquirir um título nobiliárquico a bom preço

Embora tenha recusado uma oferta de compra por parte do site de downloads piratas Pirate Bay, Sealand encontrou outras formas de rentabilizar o território como a fundação da Haven Co (ver site), uma empresa de serviços de alojamento de sites com conteúdos não abrangidos pela legislação internacional. Após algumas peripécias que levaram ao seu encerramento, a empresa retomou a sua actividade e, numa altura em que tanto se fala nisso, promete até proteger os dados da espionagem da NSA (ver aqui). Falou-se também na possibilidade da Wikileaks mudar os seus servidores para Sealand, o que acabou por não se concretizar. Há no entanto outras fontes de rendimento.

Apesar do turismo de massas não ser viável em Sealand, é no entanto possível comprar partes do território a 19,99£ a peça na loja on line embora o stock seja extremamente limitado. Também no mesmo sítio se vendem selos postais, moedas, endereços de e-mail e merchandising diverso e last but not the least, títulos de cidadania e títulos nobiliárquicos. Assim, qualquer pessoa se pode tornar sealandês ou mesmo barão, lorde, conde ou cavaleiro de Sealand o que, em termos de utilidade prática, não é menos que os títulos nobiliárquicos que se ostentam cá pela nossa República, mas pode causar boa impressão entre os amigos. Até consigo imaginar a minha entrada na próxima festarola a ser anunciada: -"Senhoras e senhoras, eis David Caetano, filho de Luís, filho de António, filho de João, e ilustre Cavaleiro de Sealand!".

Fotos:
Brasão de Sealand e fotografia geral do território do Principado de Sealand: Wikipédia
Prisioneiros: Bob Le-Roi

Links:
Principado de Sealand - http://www.sealandgov.org/
Principado de Sealand no Facebookhttp://www.facebook.com/PrincipalityOfSealand
Governo Rebelde de Sealand - http://principality-of-sealand.eu/
Obituário do príncipe Roy (Daily Mail) (The Guardian)

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Os medos de Assunção Esteves (com vídeo e tradução)

No início do ano, a Rádio Renascença foi ouvir aquela que é a 2ª mais importante figura do Estado Português, a Sra Presidente da Assembleia da República, para saber quais eram os seus desejos e medos para 2014. O depoimento ficou registado na forma de um vídeo que só hoje tive oportunidade de ver.

Este vídeo, posso-vos dizer, consiste em 3'36'' de um tremendo exercício criativo de utilização da Língua Portuguesa, exercício esse que nos faz perceber que certas personalidades, como o ex-Presidente da República Jorge Sampaio e o treinador de futebol Manuel Machado, não são afinal tão especiais como nós julgávamos que eram.

Vi e revi o vídeo e, usando palavras da protagonista, devo dizer que inconsegui o percebimento pleno da mensagem, o que me remete de certa forma a um nível frustracional. Seja como for, como sou contra o egoísmo (especialmente no que toca à castração, seja ela pessoal ou colectiva), aqui fica o trecho mais saboroso do depoimento da senhora Presidente da Assembleia da República.




Transcrição e tradução

Para ajudar aqueles que também tiverem inconseguido o percebimento daquilo que Assunção Esteves tentou dizer, tomei a liberdade de fazer a transcrição das suas palavras (sem cortes):

O meu medo, eu formulá-lo-ia de modo abstracto, é o do inconseguimento, em muitos planos. Do inconseguimento desde logo de não ter possibilidade de fazer no Parlamento as reformas que quero fazer. De as fazer todas. Algumas estão no caminho. O inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivado da crise. Isto é, os momentos difíceis também nos dão oportunidades de sentirmos a nossa missão humana no Mundo. Mas também tenho medo que a crise não me permita até espaços de energia para ser mais criativa. Há sempre esse medo. É também o do não conseguimento.

E tenho medo do conseguimento ainda mais perverso: o da Europa se sentir pouco conseguida e de ela não projectar para o Mundo o seu soft power sagrado, a sua mística dos direitos, a sua religião civil da dignidade humana. Tenho medo do egoísmo. Tenho medo do egoísmo que nos deixa de certo modo castrados em termos pessoais e que nos deixa castrados em termos colectivos, que não permita aquilo que os franceses chamam réussir, o conseguimento. O conseguimento pessoal e colectivo. Tenho medo do não conseguimento.

O que em bom português se traduz por:

Tenho um certo receio de fazer asneira lá no meu trabalho, no Parlamento. Queria fazer por lá umas alterações que vi no programa televisivo "Querido mudei a casa" mas não sei se as vou conseguir fazer todas ,até porque o povo está sempre a ir lá chatear-me, queixando-se da crise, e tenho de estar sempre a mandá-los sair. Gostava de arranjar uma forma mais criativa de expulsar aqueles traquinas das galerias mas a instalação de cadeiras com sistema de ejecção iria pesar muito na factura da energia.

Por outro lado tenho medo que as coisas dêem para o torto sempre que o pessoal se junta em Bruxelas. Ainda por cima, por causa dos cortes no orçamento, tivemos de cortar nas bebidas energéticas e agora só temos Red Bull sem açúcar, que também dá power, é certo, mas um bocado mais soft. Por causa disso, alguns colegas começaram a organizar festarolas privadas. Há tempos, o Schäuble trouxe umas sobras da última Oktoberfest e fez uma festa lá no hotel mas não convidou o Passos Coelho. Este ficou tão irritado que até veio dizer que aquilo era um bando de eunucos e que mais depressa o desproveriam a ele das suas partes pudendas do que voltaria a apertar a mão àquele alemão ingrato.


domingo, janeiro 26, 2014

O que dirá o novo Código da Estrada sobre isto?


Ao regressar da Guarda descobri até na pacata aldeia de Malpique o trânsito está sujeito a engarrafamentos. Não sabendo bem o que dizem as novas regras do Código da Estrada sobre quem tem prioridade neste caso, optei pela regra da prevalência da superioridade numérica.

sexta-feira, janeiro 24, 2014

Há 30 anos atrás, o Mundo mudou

511px-Macintosh_128k_transparencyComemora-se hoje o lançamento do Macintosh pela Apple, o primeiro computador pessoal com ambiente gráfico monocromático, isto é, “a preto e branco”, e que permitia a interacção do utilizador com o sistema operativo através de um dispositivo apontador, o nosso bem conhecido “rato”. Um dos objectivos deste lançamento era contrariar a predominância da IBM no mercado de computadores pessoais, através do lançamento de um produto inovador.

Este computador tinha um processador de 8Mhz, memória RAM de 128K e não tinha disco rígido mas apenas um leitor de disquetes com 400KB de capacidade. Tinha também um monitor 9 polegadas integrado na caixa.

Como termo de comparação, basta pensar que actualmente o Windows 8, por exemplo, precisa no mínimo de um computador com um processador de 1GHz, 1GB de memória RAM e obviamente um disco rígido, este com um mínimo 20GB de espaço livre. Isto significa que será um computador com um processador cujo desempenho é 128 milhões de vezes superior (numa estimativa grosseira) e contendo 7813 vezes mais de memória RAM que o Macintosh. Em 30 anos, é obra! 

Apple_Macintosh_Desktop
Era exactamente este o aspecto do ambiente de trabalho do Macintosh 128K

A Apple promoveu o lançamento do computador através de um anúncio televisivo que evocava o filme “1984”, baseado no romance “Big Brother” de Orwell. Esse anúncio, que custou 1,5 milhões de dólares, foi realizado por Ridley Scott e estreou-se num dos intervalos do 18º “Super Bowl”, a final do campeonato nacional de futebol americano.



Uma das principais dificuldades de implantação que este computador encontrou foi precisamente a falta de programas adaptados a este novo tipo de ambiente gráfico. Um ano após o lançamento do Macintosh, a Apple lançou o Macintosh Office, um conjunto de programas de produtividade (processador de texto, folha de cálculo,…). 

Para anunciar esse lançamento, a Apple repetiu a estratégia usada no ano anterior, estreando um anúncio num dos intervalos do “Super Bowl”, só que desta vez o resultado seria adverso. Os utilizadores não gostaram de ser comparados a Lemmings, aquelas criaturinhas que as lendas urbanas pintaram como suicidas:



Imagens: Wikipédia

terça-feira, janeiro 21, 2014

As 25 piores palavras-passe!

A Splash Data Inc.divulgou na semana passada uma lista das 25 piores palavras-passe de 2013 e, segundo a empresa, a nota de maior destaque é a perda da liderança deste ranking por parte da palavra-passe "password", em detrimento de "123456", em relação à lista de 2012.



Este ranking da Splash Data, uma empresa que produz software de gestão de palavras-passe para uma variedade de plataformas, é elaborado anualmente com base na informação de ficheiros contendo compilações de palavras-passe roubadas, que são disponibilizados na Internet por hackers, servindo para consciencializar os utilizadores para a necessidade da adopção de palavras-passe robustas.

Ranking das 25 piores palavras-passe de 2013:

1. 123456
2. password
3. 12345678
4. qwerty
5. abc123
6. 123456789
7. 111111
8. 1234567
9. iloveyou
10. adobe123
11. 123123
12. sunshine
13. 1234567890
14. letmein
15. photoshop
16. 1234
17. monkey
18. shadow
19. sunshine
20. 12345
21. password1
22. princess
23. azerty
24. trustno1
25. 000000

Segundo a empresa, uma boa palavra-passe deve ter pelo menos 8 caracteres, devendo também empregar diferentes tipos de caracteres (pontuação, números e letras minúsculas e maiúsculas). No entanto, se as palavras-passe se revelarem demasiado complexas para serem memorizadas, pode-se em alternativa adoptar uma palavra-passe formada por palavras aleatórias separadas por espaços ou traço sublinhado (underscore) como por exemplo "sorriso_luz_saltar".

Também é importante evitar usar a mesma palavra-passe em diferentes contas/sites, de forma a limitar os riscos de segurança para o utilizador na eventualidade de uma quebra de segurança de um desses sites.

E vocês? Reconhecem nesta lista alguma palavra-passe que estejam actualmente a usar?

domingo, janeiro 19, 2014

A Serra da Estrela vestida de branco


Após o grande nevão de ontem que, segundo fonte dos bombeiros, levou a que o maciço central fosse evacuado (ver aqui), é esta a paisagem que hoje se pode ver, com a Serra da Estrela coroada de branco a dominar a Cova da Beira.


A Torre permanece escondida sob as nuvens mas consegue-se adivinhar como estarão as condições meteorológicas naquele local. É curioso pensar que o maciço central, nos últimos dias sob condições inóspitas, era até há pouco mais de 200 anos um local desconhecido que atraía a curiosidade de cientistas e exploradores, como foi o caso da Expedição Científica à Serra da Estrela de 1 de Agosto de 1881.

"1 de Agosto de 1881. Pelas 20 horas e 15 minutos, partia da Gare do Norte de Lisboa (Santa Apolónia) um grupo de 42 expedicionários entusiásticos com a expectativa de uma viagem exploratória à serra da Estrela, região ainda desconhecida, selvagem e, em grande parte, desabitada, que encerrava em si mistérios e mitos. Partiram sob a aclamação calorosa de numerosa assistência, de representantes do Conselho de Ministros, do presidente e do primeiro secretário-geral da Sociedade de Geografia de Lisboa, do director e de alguns lentes da Escola Médico-Cirúrgica e de um grande número de membros da imprensa e das escolas superiores. Partiram enérgicos, sabendo que iriam defrontar as forças dos elementos naturais e não as feras de África. As vinte e três carruagens transportavam homens agasalhados com camisolas de flanela, casacos de Inverno, duas mantas inglesas e, ainda, botas de tamanho descomunal. Eduardo Coelho, o correspondente e director do Diário de Notícias , ironizava, escrevendo já a partir da serra, que era "toda a lã de um rebanho em cima de nós! Pôr sobre isto revólver, para lobos, toucinho para as víboras"." in Diário de Notícias, 13 de Maio de 2012


Olhando para Oeste, para lá do Fundão que na fotografia surge em vista parcial em primeiro plano, a vista vai ainda para lá da Capinha, na extremidade da Serra do Meal Redondo. 


sexta-feira, janeiro 17, 2014

O Mundial de 66 como inspiração dos prisioneiros na Coreia do Norte

Em 1968, o navio-espião USS Pueblo da marinha dos EUA foi capturado pela marinha norte-coreana. A tripulação foi feita prisioneira e levada para Pyongyang, sendo amplamente usada pelo regime de Kim il Sung em filmes e fotografias de propaganda. Os prisioneiros iriam no entanto conseguir frustrar a propaganda através de uma fonte de inspiração inesperada: um filme do Campeonato do Mundo de futebol de 1966.


O USS Pueblo servindo actualmente como navio-museu em Pyongyang, capital da República Popular Democrática da Coreia do Norte


Em Janeiro de 1968, a marinha americana enviou o navio USS Pueblo em missão de espionagem. Disfarçado de navio de investigação oceanográfica, o objectivo do navio era fazer o levantamento da costa Norte-Coreana e interceptar transmissões. Os norte-coreanos acabaram contudo por suspeitar do navio e, apesar deste se encontrar supostamente em águas internacionais, abordaram violentamente a embarcação, capturando-a e aprisionando a tripulação. No processo um dos marinheiros do Pueblo morreu e outros 5 ficaram gravemente feridos.

Levados para Pyongyang, os membros da tripulação foram interrogados e depois utilizados para efeitos de propaganda, em fotografias e filmes que a Coreia do Norte difundia para mostrar a derrota dos agressores imperialistas.

A tripulação do Pueblo tentou encontrar uma forma de sabotar a propaganda norte-coreana e a inspiração chegou ao assistirem a um filme que recordava a chegada da selecção nacional de futebol daquele país a Londres cerca de um ano e meio antes, para aí participar no campeonato do Mundo de 1966 (do qual viriam a ser eliminados por Portugal, no "tal" jogo de Eusébio). O filme mostrava o autocarro que transportava os norte-coreanos a circular pelas ruas de Londres, sendo saudado por uma multidão com bandeiras da Coreia do Norte até que, a certa altura e em grande plano, surgiu nas imagens um cidadão inglês exibindo ostensivamente o dedo médio na direcção do autocarro.

Percebendo que os seus captores não conheciam o significado daquele gesto nada protocolar, caso contrário teria sido cortado do filme, os prisioneiros passaram a exibir o dedo médio em todos os registos de imagem de que eram alvo, de forma a passar a ideia de que as descrições que eram feitas da sua estadia na Coreia do Norte eram falsas. Quando foram questionados acerca do gesto, responderam que se tratava de um gesto típico havaiano para desejar boa sorte. Consta que, tendo achado piada, até alguns dos guardas acabaram por desejar boa sorte uns aos outros.


Dedo em riste por Angelo Strano (3º na fila de baixo) e Dale Rigby (último na fila de cima)

O truque acabou no entanto por ser traído pela revista Time, que numa reportagem denunciou que os marinheiros do Pueblo estavam na verdade a ser maltratados, pondo em evidência e explicando o uso recorrente da exibição do dedo médio.

A notícia acabou por chegar a Pyongyang e, obviamente, os norte-coreanos ficaram furiosos por terem sido enganados daquela forma. Por causa disso, tanto a tripulação como o seu tradutor norte-coreano sofreram na pele as represálias durante aquilo a que viriam a chamar de hell week, sendo continuamente espancados durante 10 dias.

Todos os marinheiros acabariam por finalmente regressar a casa após 11 meses de cativeiro mas só depois de os EUA terem oficialmente apresentado um pedido de desculpa pela alegada violação das águas territoriais norte-coreanas e pelas suas actividades de espionagem.




A ler:
E que tal umas férias na Coreia do Norte?
Acerca da exibição do dedo médio: Um arcebispo defunto pouco católico

quinta-feira, janeiro 16, 2014

John Beale, o agente tão secreto que nem a CIA conhecia

Raro é o dia em que os media não nos dão conta da descoberta de fraudes, mais ou menos elaboradas mas esta, da qual tive conhecimento há dias, tem contornos de tal dimensão que não sei se fique escandalizado ou se ria às gargalhadas. Provavelmente vou fazê-lo de forma alternada. Senhoras e senhores, apresento-vos o Sr John Beale, um nome a reter!



John Beale foi durante muitos anos da EPA (Environmental Protection Agency), a agência governamental estado-unidense de protecção ambiental, ocupando uma posição destacada dentro da organização. E o que fazia John Beale dentro da EPA? Embora ocupasse o cargo pomposo de senior policy advisor, como perito em alterações climáticas, e sendo o mais bem pago dentro da organização, John Beale pouco ou nada fazia, passando maior parte do tempo na sua casa de férias em Cape Cod, a ler ou andar de bicicleta.

Aos seus superiores, Beale apresentou a desculpa de trabalhar à paisana para a CIA, justificando as suas ausências com o facto de se deslocar em missões ao Paquistão para lidar com os talibãs, ao serviço dessa agência de espionagem, algo que a EPA nunca se deu ao trabalho de confirmar, tendo continuado a pagar o salário de Beale.

Em 2008, chegou a passar 6 meses fora da EPA e ainda apresentou facturas de despesas relativas a 5 viagens à California, alegando fazer parte de uma equipa, que agregava várias agências de segurança, em missão de segurança e protecção dos candidatos às eleições presidenciais desse ano. Por coincidência, os seus pais moravam na Califórnia.

Não satisfeito com isso, Beale foi mais longe já que, para as suas viagens ao serviço da EPA, inventou um problema de costas para poder viajar sempre em primeira classe, ficando depois hospedado em hotéis de 5 estrelas. Tendo horário reduzido e a regalia de viajar sempre em primeira classe, a Beale só faltava mesmo um pormenor para se sentir realizado profissionalmente: um lugar de estacionamento privilegiado, mesmo à porta da EPA, coisa que conseguiu alegando necessidades de saúde por ter contraído malária enquanto combatia no Vietname. Obviamente, Beale não sofria de malária e tinha estado no Vietname o mesmo número de vezes que no Paquistão, ou seja, nunca.

Contas feitas, estimou-se que Beale lesou o Estado em quase 900.000$. Tendo sido finalmente apanhado e julgado, declarou-se culpado e foi condenado a restituir essa verba ao Estado, assim como cerca de 500.000$ a título de compensação, sendo condenado ainda a 32 meses de prisão, pena que irá cumprir se o seu estado de saúde o permitir, digo eu.


John Stewart e o caso John Beale:



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