quinta-feira, julho 04, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Dia 3

Mapa do percurso
(clicar para aumentar)

Dia 3 - De Chollerford a Once Brewed (22km já com descontos)

[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

Depois de recuperada a mobilidade nos membros inferiores, descemos até ao rés-do-chão até à sala de refeições, uma sala alcatifada (tal como o resto da casa, ao que parece é uma regra geral pela Britânia) com aspecto antigo e muito acolhedor. Pouco depois, a nossa anfitriã (Sandra Maughan) colocava à nossa frente dois belos pratos de colesterol em forma de pequeno-almoço inglês, com tudo aquilo a que tínhamos direito.

Enquanto tomávamos o pequeno-almoço, um simpático casal australiano passou pela sala e, como acontecera no dia anterior com um casal de origem indiana que havíamos encontrado várias vezes no trilho, gerou-se facilmente uma conversa assente nas perguntas do costume (De onde são? Onde ficam hoje? Onde começaram o trilho? Vão até ao fim?). Tanto neste dia como no dia seguinte voltaríamos a encontrar estes dois rostos em diferentes locais do trilho.

Sandra Maughan, proprietária da quinta de Greencarts, dedica-se a tempo inteiro com o marido aos serviços de alojamento que, para além do Bed & Breakfast, inclui ainda um parque de campismo (que estava bastante concorrido apesar da  chuva do dia anterior) e um "Bunk house", uma zona de camaratas. Da quinta cuidam os filhos. Segundo ela, fomos os seus primeiros clientes portugueses e ela adorou-nos por sermos tão simpáticos e espectaculares (esta última parte foi uma adição livre da minha autoria).

Depois de nos ter proposto um lanche para levarmos, dado que ao longo da etapa não iríamos ter locais onde pudéssemos comprar comida, a Sandra ofereceu-se para nos levar de volta até Chollerford, para começarmos o dia com uma visita ao forte romano de Chesters, antes de nos pormos a caminho para aquela que viria a ser uma das duas melhores etapas do percurso.


O Forte de Cilurnum (Chesters)

Sem dúvida um dos melhores fortes a visitar no Trilho da Muralha de Adriano, o forte de Cilurnum foi um forte de cavalaria e um dos primeiros fortes a ser construído na Muralha de Adriano, tendo funcionado durante cerca de 300 anos, até à partida dos romanos. Em 200 desses anos a sua guarnição foi composta por uma unidade de cavalaria oriunda... das Astúrias! Situava-se numa posição estratégica importante, pois, para além da missão de vigilância da própria muralha, guardava também uma ponte, cujos vestígios na margem oposta são hoje visíveis.


Forte de Cilurnum, termas, vestígios de ponte e da Muralha (destaquei a sua orientação a vermelho). Imagem Google Maps


O forte começou a ser escavado a partir de 1843 por John Clayton, um campeão da preservação da Muralha e, por feliz acaso, então proprietário do terreno onde o forte se situa. Clayton foi aliás mais longe e comprou grandes extensões de terra, atravessados pela Muralha, com o objectivo único de impedir o seu desaparecimento, tendo inclusive reconstruído uma boa parte. Parte do espólio que recolheu encontra-se exposto no pequeno Museu vitoriano construído em 1890, ano da morte de Clayton.



Deuses, fiéis e votos cumpridos!

Uma bela colecção de aras romanas (altares), então construídos para selar pactos entre homens e deuses, isto é, para pagar promessas. Numa altura em que a Peregrinação a Fátima ou Santiago de Compostela ainda não tinham sido inventadas, os romanos prometiam fazer altares aos deuses em troca de graças concedidas. Estes altares eram depois colocados em local sagrado e, sobre eles, colocavam-se oferendas (alimentos, vinho, incenso,...) 


Um espectacular Modius, antepassado da nossa antiga unidade de medida de volume, o Moio. O termo Modius podia referir-se à medida-padrão romana correspondente a 8,7 litros ou simplesmente ao recipiente com que eram medidos os cereais. Este é o exemplar de Modius mais bem conservado que se conhece e pode bem ser um ícone de desonestidade já que, embora esteja escrito no seu exterior que a sua capacidade é de 9,5 litros, este recipiente tem na verdade capacidade para um pouco mais de 11 litros. Provavelmente destinava-se a enganar os agricultores no acto de pagamento da annona, um imposto em géneros criado no final do século III. Há no entanto quem defenda que faltam elementos neste Modius, elementos esses que ocupariam o espaço a mais em relação à medida oficial.


As casernas. O pátio era atravessado por uma caleira e na sua extremidade situavam-se os compartimentos destinados aos oficiais.


E eis as termas que serviram de modelo para a recriação do forte de Segedunum que mostrei no artigo do 1º dia de caminhada (ver aqui). Trata-se das ruínas de termas romanas mais bem conservadas do Reino Unido.


Apodyterium das termas. Era aqui que os banhistas deixavam os seus bens e vestuário antes de irem aos banhos. Pessoalmente já usei balneários em pior estado.


O Caldarium ou banho quente. Nesta altura uma visitante ao lado exclamou "Olha que giro, tinham bancos na piscina!" e, quando dei por mim, estava a explicar-lhe que não, que aquilo era o nível onde assentava o fundo da piscina e que ainda era visíveis vestígios da camada de impermeabilização nas paredes. Pela expressão que me dirigiu, das duas uma, ou o meu inglês é muito parecido com o nepalês ou deve ter pensado algo como "Deves ter um bocado de mania..!"



Do outro lado do North Tyne, avistam-se vestígios da ponte e, à esquerda, vê-se o alinhamento da morada. A ponte foi completamente desmantelada em 675 porque os saxões acharam que a igreja da vizinha Hexam fazia mais falta que a ponte. Curiosamente, respeitaram um falo romano e deixaram a pedra onde ele está gravado (ou então tiveram medo dele).


Entre a margem do rio e o forte, foi exposta uma secção da Muralha. Seria o nosso primeiro troço de Muralha do dia e o prenúncio de muitos mais!


O centro de comando do forte, o Principia, vendo-se do primeiro plano para a frente diversas divisões, entre as quais uma sala para os objectos "sagrados" da guarnição e a entrada da sala-forte subterrânea (lembram-se para que servia?), depois a Basilica, um grande espaço coberto onde o comandante podia falar para toda a guarnição e onde podiam ter lugar os exercícios de treino, e finalmente um pátio.

Porta do forte onde se pode ver o início da Muralha para Noroeste. Sendo uma das três portas duplas que abriam para a zona Norte da Muralha, o facto de se ter selado uma das passagens pode dar a entender que a dada altura as relações com os nativos do Norte evoluíram para um nível de cordialidade digno parlamento Sul-Coreano.

Terminámos a visita na cafetaria existente junto à entrada do forte (onde aprendi que quando se quer perguntar se algo está frio, como uma garrafa de água por exemplo, não se deve usar o termo "fresh" caso contrário levamos com um "What?!" acompanhado de um olhar de constrangedora expressão de estranheza) e, após termos carimbado os Passaportes do Trilho na recepção do Centro de Interpretação, iniciámos o percurso do dia com destino a Once Brewed.


Finalmente Muralha de Adriano a sério!

Após de caminharmos algum tempo no passeio junto à estrada a partir da saída do Forte de Chesters e depois por uma pequena estrada de alcatrão, depressa chegámos novamente aos prados. Deu logo para perceber que neste troço iríamos mais caminheiros que nos dois dias anteriores. Após caminharmos algum tempo junto ao fosso, vimos pela primeira vez de forma notória as marcas de um fortim de milha (Milecastle) no terreno e, imediatamente a seguir, uma grande secção da Muralha com vestígios de torres de vigia.


"On the road again, Goin' places that I've never been,..."


Eis finalmente uma bela secção da Muralha rumo a Oeste. Isto sim, já confere com o que vem nos guias turísticos!


Restos de uma torre de vigia na Muralha, a Black Carts Turret. Havia sempre duas torres desta entre dois fortins de milha e serviam tanto para vigilância como para dar alertas através de fogueiras.


Depois da torre, a Muralha continua, sempre com o fosso à sua frente.

Depois de passarmos novamente pela zona da quinta de Greencarts, continuámos a subir pelo trilho, sempre junto à Muralha, chegando finalmente a um ponto emblemático do Trilho. Trata-se do "Limestone corner", literalmente o Canto de Calcário, que marca o ponto mais a Norte do Império Romano

Bom, em abono da verdade convém dizer que houve um período de 20 anos em que a Muralha de Adriano foi abandonada, tendo uma nova muralha de turfa e madeira sido mandada construir mais a Norte (um pouco acima da actual cidade de Glasgow) pelo imperador Antonino Pio. Esta Muralha de Antonino, tinha uma extensão de 60km (metade da Muralha de Adriano) e demorou o dobro do tempo a ser construída (12 anos) apesar de também ter envolvido 3 legiões no processo. No entanto, a partir de 160 d.C., seria também ela abandonada e a Muralha de Adriano voltou a ser ocupada. 

Chegada ao "Limestone Corner" (ponto onde o fosso deixa de se ver na foto)! A partir daqui, a Muralha deixa de seguir para Noroeste e passa a ter uma orientação geral oés-sudoeste.

O Forte de Brocolitia e o Templo de Mitra

Pouco depois do "Limestone Corner" chegámos ao Forte de Brocolitia, ou de Carrawburgh. À semelhança de Vindobala (ver artigo anterior), do forte propriamente dito pouco há para ver. A sua muralha Norte foi destruída durante a construção da Estrada Militar e apenas se distingue a elevação que corresponde à plataforma do forte. O primeiro a fazer aqui escavações foi John Clayton, no século XIX, tendo decorrido outras campanhas já no século XX, que trouxeram à luz do dia um templo que se concluiu ser dedicado ao deus Mitra, um deus de origem oriental.

Outra grande descoberta de Clayton neste local foi o Poço de Conventina. Este poço faria parte de um santuário dedicado a esta deusa indígena aquática e, dentro dele, Clayton descobriu 13.487 moedas, aras e instrumentos usados em cerimónias religiosas. Exceptuando as moedas, que terão sido atirados para o poço em jeito de oferenda à deusa (vem de longe a nossa prática de atirar moedas para as fontes e poços), o resto terá sido aqui escondido após o Édito de Tessalónica que no final do século IV instituiu o cristianismo com religião oficial do império, abolindo todas as outras. 


Parte da plataforma do forte e a sua actual guarnição.

Vista aérea do Templo de Brocollitia sendo visíveis a estrada que aqui passa novamente por cima da Muralha e, na parte inferior da foto, o templo de Mitra. Imagem Google Maps

O templo de Mitra é um local relevante singular. O culto a este deus terá tido origem no Médio Oriente e tornou-se extremamente popular, sobretudo entre os soldados da legiões romanas, responsáveis pela sua difusão no império. Compreende-se se tivermos em conta que é um culto que exalta os valores da verdade honra,  disciplina e bravura, mas também impõe o auto-sacrifício como via para o auto-aprimoramento. Uma filosofia bastante diferente, portanto, do significado pouco coloquial que hoje se atribui ao termo "mitra". 

Este templo foi destruído, provavelmente por cristãos, e mais tarde reconstruído, antes de ser destruído uma segunda vez e em definitivo.


O Templo de Mitra, com réplicas dos altares que aqui foram descobertos.


Momento em que um caminheiro reza a Mitra para que o poderoso deus alivie o peso da mochila, afaste bolhas, tendinites e touros furiosos desta jornada e já agora sugira uma chave vencedora para o próximo sorteio do Euromilhões. Para incluir algum conteúdo cultural nesta legenda, acrescento que era sobre os estrados laterais que os fiéis seguidores de Mitra se instalavam para participar nos rituais do culto ao deus que dera origem ao Mundo após matar o Touro Primordial. A flora nasceu do corpo morto do bovino, do seu sémen surgiu a vida animal e do seu sangue surgiu o outro elemento fundamental do Mundo: o vinho. O templo estava geralmente pouco iluminado, evocando o subterrâneo onde Mitra matara o Touro.



Nada como algum engenho para impressionar os fiéis: um dos altares tem uma cavidade posterior onde era colocada uma lamparina ou lucerna para iluminar os raios à volta da cabeça de Mitra.

Cumpridas as rezas a Mitra e apreciados os altares, despedimo-nos de Brocolitia e seguimos em frente, passando por cima do riacho que nasce dos domínios da deusa Conventina para atravessar em seguida a estrada. 

Foi nesse preciso momento que um grupo de senhoras aparentando estarem na casa dos 50 se aproximou, vindo em sentido contrário, e nos abordou. Com ar de grande cansaço, uma delas perguntou simplesmente -"Ainda falta muito?". -"Para Newcastle? Ainda falta um bocadinho, sim.", respondi gerando algumas risadas, ao que a senhora rectificou, dizendo que afinal queria saber se faltava muito para Chollerford. Após as animarmos dizendo que já não faltava muito, perguntaram-nos para onde íamos e, quando soube que o nosso destino era Once Brewed, a mesma senhora que nos inquirira abriu os olhos e exclamou -"Vocês vão apanhar grandes subidas!". Agradecemos a informação e seguimos em frente, por um descampado a perder de vista, deixando as nossas interlocutoras prosseguir também o seu caminho.

Momento de passagem pelos domínios da deusa Conventina.


Prados a perder de vista mas sem Muralha.

O ataque das vacas!

Ao passarmos perto da Quinta de Carraw, assistimos a uma situação inusitada envolvendo um binómio homem-cão e uma manada de vacas que pastava passivamente no prado. O homem, que vinha na nossa direcção, tinha acabado de entrar no prado quando as vacas avistaram o cão de que este se fazia acompanhar com o auxílio de uma trela. De imediato todas se precipitaram em corrida para eles e, quando o homem olhou para trás, constatou que todas as vacas se encontravam atrás dele, olhando para fixamente para o cão. Acto contínuo, quando o homem olhou para elas, todas as vacas dispersaram como se de gazelas se tratassem, apenas para se voltarem a concentrar novamente e em passo de corrida atrás do homem e do cão.

Um pouco inquietos com a situação, decidimos dar uma ajuda ao chegar junto dos perseguidos, passando entre estes e as vacas enquanto agitávamos no ar os nossos bastões, o que levou as vacas a dispersar de forma desordenada novamente. Convencidos que as vacas já se teriam apercebido que não valia a pena continuar a perseguição, até porque muitas fugiam à nossa frente, continuámos descontraidamente o nosso caminho.

Pouco depois, as vacas que fugiam diante de nós decidiram fazer meia volta e, contornando-nos a alguma distância, foram juntar-se às suas restantes companheiras para, novamente em corrida, seguirem o homem bem de perto. "Curiosidade em relação ao cão.", pensámos até que, algumas cercas mais à frente, encontrámos um aviso que dizia "As vacas ficam nervosas com cães. Se se fizer acompanhar de um e as vacas o perseguirem, largue o cão e ponha-se em segurança!".
O ataque das vacas!


O início dos "Crags" do Whin Sill

Meia hora depois da Quinta de Carraw, chegámos finalmente ao ponto em que a Estrada Militar deixa de se sobrepor à Muralha devido à crescente irregularidade do relevo, desviando-se para Sul, só a voltaríamos a ver no final da etapa, ao ter de desviar para Sul para chegar ao nosso alojamento. 

Entrando numa zona mais ondulada do Trilho, voltámos a ver a Muralha aqui e ali, assim como algumas torres. Era uma espécie de aperitivo para o que estava para vir e que iríamos encontrar mal começassem os "Crags", a sucessão de montes cortados de forma natural na sua face Norte, pertencentes ao grande conjunto rochoso de origem magmática chamado de Whin Sill, que tornaram esta zona da Muralha virtualmente inexpugnável.


Durante uma pequena subida, surge mais um troço da Muralha com uma torre.


Podemos dizer que este é o início "oficial" do Trilho pelos "Crags". Uma vez que se tornou desnecessário continuá-lo, o fosso termina subitamente. Estávamos a começar a melhor parte do Trilho!



Subindo mais um pouco, até outra torre, avista-se já a ondulação dos vários montes na paisagem.


Uma pequena floresta que deve dar bastante jeito aos caminheiros em dias de vento.


Ao chegarmos a Sewingshields, encontrámos o primeiro Fortim de Milha bem visível do Trilho! Trata-se do Milecastle 35 que, por se encontrar no topo de uma escarpa, não tinha a usual porta para Norte.


A seguir a Sewingshields, a Muralha é substituída por um muro feito com pedras tiradas desta. Os alicerces estão escondidos, à espera de rever luz do dia, mas o muro ajuda a dar uma ideia do traçado da Muralha ao longo do Whin Sill.


O Trilho é extremamente fácil de seguir, tendo a linha da Muralha (neste caso, do muro) como referência mas o desgaste da passagem de caminheiros também dá uma grande ajuda. No entanto, por motivos de conservação do que ainda está enterrado, é pedido aos caminheiros que evitem seguir em fila e que evitem caminhar em zonas do solo sem vegetação. Essa é aliás uma das razões pelas quais se desaconselha a caminhada no Inverno. O solo empapado fica muito mais mole e o impacto nos vestígios arqueológicos ainda enterrados é maior. 


O melhor comentário que eu posso fazer a esta foto é que dispensa comentários. Como tal, não vou perder tempo a escrever nesta legenda e vou já passar à próxima parte do relato.


O forte de Vercovicium (Housesteads), simplesmente o melhor forte do Trilho

Housesteads é um dos pontos altos do Trilho da Muralha de Adriano. Este forte, que outrora teve uma guarnição de 800 soldados e junto dele um povoado (vicus) é o forte romano mais bem conservado do Reino Unido, sendo também um dos melhores exemplares de fortes romanos da Europa.

Situava-se numa posição imponente, sobre uma elevação que dominava uma passagem no Whin Sill mas, apesar da sua aparente defensabilidade, foi destruído 3 vezes, a primeira vez em 197, a segunda em 296 e a terceira em 367. Apesar desses períodos turbulentos, a paz parece ter sido predominante à volta do forte, o que potenciou o crescimento do povoado. Neste povoado foi feita uma descoberta arqueológica macabra. Sob o soalho piso de uma das casas, os arqueólogos encontraram os restos mortais de um casal. Concluíram que estes tinham sido assassinados e os cadáveres escondidos.

Actualmente são visíveis vários edifícios no interior do perímetro do forte, sendo os celeiros um dos mais interessantes a par das latrinas. Como de latrinas já falei o suficiente nos artigos anteriores, desta vez fico-me apenas por esta referência.

Quando no dealbar do século V Roma chamou os legionários para combater noutras zonas do Império que estava então na sua curva descendente, os auxiliares ficaram. Constituídos essencialmente por indígenas, estes militares optaram por ficar junto das suas famílias. Os civis mudaram-se para o interior do forte e o vicus exterior foi abandonado. A partir daí, não se conhece mais sobre a história do forte.


A passagem de Knag Burn e, para lá dela, o Forte de Housesteads. Na passagem encontrámos um casal de japoneses almoçando, aos quais perguntámos onde era a entrada do forte mas, com a comunicação dificultada por meio Mundo de distância, só obtivemos informação sobre a localização do estacionamento. 




Vista aérea do Forte de Housesteads. Distinguem-se o celeiro, à direita destes a zona de casernas, depois por baixo o hospital e à direita o Principia ou edifício de comando e, finalmente, mais abaixo vê-se a casa do comandante (Praetorium). As latrinas situam-se no canto inferior direito do forte. No exterior distinguem-se os vestígios do vicus. Foto Google Maps

A Porta Norte do forte. No exterior foi construída uma rampa para permitir o acesso de carros de transporte ao forte.


As casernas do forte preenchiam todo o espaço do forte que não era ocupado pelos edifícios centrais e por uma ou outra oficina.


Os celeiros, tinham paredes reforçadas para conterem o peso dos cereais sem desabar e piso sobre pilares, para não permitir acumulação de humidade e para protecção contra roedores.


A casa do comandante do forte, com vista para o vicus e para os domínios romanos a Sul. 


Parte do vicus, povoado formado devido à aliciante perspectiva de comércio com os soldados do forte. Muitos dos soldados, embora inicialmente não lhes fosse permitido casar, acabaram aqui por formar família.


Ninguém consegue ficar indiferente ao forte, nem que seja para avaliar a comestibilidade da sinalética.

Depois da visita ao Museu e ao forte, parámos para saborear o lanche que nos tinha sido preparado em Greencarts. Aqui e ali começámos a ver algumas gotas de chuva a cair e percebemos logo que o dia não ia acabar tão bem como tinha começado. Por isso carimbámos os passaportes na caixa existente no exterior do museu e com a alma gastricamente renovada, voltamos a fazer-nos ao Trilho. Ainda havia alguns quilómetros a cumprir.

Mais fortins de milha e... a chuva!

A partir de Housesteads, o caminho faz-se à vista da "Muralha de Clayton", o troço reconstruído por John Clayton no século XIX. A Muralha entra por uma floresta e, logo à saída desta, encontra-se mais um fortim, este o número 37 e o único com restos do arco de uma das suas portas. A seguir a este fortim, o Trilho da Muralha de Adriano encontra-se com outro trilho nacional vindo de Norte: o Penine Way, seguindo como um só ao longo da Muralha durante vários quilómetros.

Por cima de nós o céu começou entretanto a escurecer e, alguns minutos depois, abateu-se sobre nós um aguaceiro que nos fez pensar que talvez tivesse sido boa ideia trazer bóias, para além de impermeáveis. Tendo sido impossível recolher fotografias de alguns pontos relevantes da Muralha, nomeadamente a passagem conhecida como "Sycamore Gap", conseguimos ainda apreciar outro fortim extremamente bem conservado, o número 39, situado logo a seguir a um lago, o Crag Lough.



A Muralha de Clayton e, ao longe, os "Crags" por onde tínhamos passado umas horas antes.


A porta norte do fortim nº37. Uma imagem emblemática desta secção do trilho. A porta foi mais tarde estreitada para reforçar a segurança do fortim.

Vista para os "Crags" e para o "Bromlee Lough"


Junto ao lugar onde outrora se ergueu o fortim de milha nº38, dele apenas se percebem hoje algumas irregularidades no solo, encontra-se a Quinta Hot Bank. À passagem fomos atentamente vigiados por duas sentinelas que não arredaram pé.


O Milecastle 39, logo a seguir ao Sycamore Gap, com as casernas individualizadas. Trata-se de um dos melhores fortins de milha da Muralha, tendo sido escavado e parcialmente restaurado nos anos 1980. Por outro lado, a única arvore existente no Sycamore Gap (não fotografado devido a um problema atmosférico que era o seguinte: a elevada precipitação) é conhecida como a "Árvore de Robin Hood", devido às filmagens que aqui foram feitas para o filme "Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões", protagonizado por Kevin Costner na sua fase pré-apocalíptica.


Finalmente em Once Brewed... sem jantar

Chegámos por volta das 20h40 à pousada da Juventude de Once Brewed, onde iríamos passar a noite. Logo ao lado sabíamos que havia um pub, o Twice Brewed, e pensámos em ir aí jantar. A história à volta destes dois nomes (Once Brewed, Twice Brewed) é curiosa. Segundo nos contara nessa manhã a Sandra, antigamente havia neste local não um mas dois pubs, um ao lado do outro. Os clientes começavam a beber num deles e depois passavam ao próximo para apanhar nova bebedeira. "They got once brewed  and then twice brewed", tinha-nos contado.

Infelizmente, nessa noite não conheceríamos o Twice Brewed pois, segundo o funcionário que se encontrava na recepção da pousada, o pub tinha parado de servir jantares às 20h30. Ofereceu-nos no entanto uma alternativa: um take-away na pequena cidade de Haltwhistle, não muito longe dali, que fazia entregas. 

A Pousada da Juventude e, ao fundo da Estrada Militar, o Twice Brewed.

Não tendo outra alternativa, ligámos para o restaurante para encomendar o jantar, de acordo com o folheto que o jovem da recepção da pousada nos tinha fornecido, mas do outro lado recebemos uma má notícia: o motorista tinha tido um acidente e nessa noite não haveria serviço de entregas. O jantar acabou por ser constituído por barrinhas de cereais e chocolate, bem regado por um belo refresco e leite achocolatado, tudo obtido nas máquinas de vending da pousada.

Após um belo banho, estendemos a roupa para esta secar e fomos dormir. Pessoalmente, não me lembro daquilo com que sonhei mas deve ter girado à volta de um bem gorduroso pequeno-almoço inglês.

A Seguir: Uma divindade romana que ainda recebe oferendas e a mulher que quase enfiou o carro nas silvas para nos dar indicações sobre o caminho


[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

terça-feira, julho 02, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Dia 2

Mapa do percurso
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Dia 2 -  De Heddon-on-the-Wall a Chollerford (36km porque achámos que 23 era coisa de meninos)


[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

Após uma noite bem dormida, apesar da luz do dia já nos entrar pela clarabóia pouco depois das 4 da manhã, preparámo-nos para o nosso 2º dia de caminhada, um dia que sabíamos que iria ser muito mais interessante que o anterior. Depois de um pequeno-almoço reforçado, mais à british, despedimo-nos da nossa bem disposta anfitriã e pusemo-nos a caminho.


Paula Laws, gere a tempo inteiro e praticamente sozinha o Bed and Breakfast da Houghton North Farm e, quando é preciso, ainda dá uma ajuda ao seu marido no trabalho da quinta.



O casario ao redor da quinta, que inclui uma pequena escola actualmente a servir de moradia, tem alguns pormenores interessantes como este.



Uma vez que já tínhamos visitado Heddon-on-the-Wall no dia anterior, optámos por seguir um caminho que nos permitiria voltar ao trilho sem ter de ir à aldeia, poupando assim algum tempo.


Um bonito atalho para regressar ao Trilho da Muralha de Adriano


A Estrada Militar

Pouco depois, chegámos à estrada B6318, mais conhecida como a Estrada Militar (Military Way), que basicamente consiste no maior atentado alguma vez feito à Muralha de Adriano já que vários dos seus quilómetros foram construídos sobre a própria Muralha. Isto aconteceu no Levantamento dos Jacobitas de 1745, no século XVIII, quando uma questão de sucessão à revolta dos escoceses católicos contra os ingleses protestantes, procurando o regresso do rei exilado Jaime II (VII de Inglaterra).


A "Military Way", actual B6318, foi construída em 1752 e muitos dos seus quilómetros estendem-se sobre a própria Muralha de Adriano.



Vestígios da Muralha no talude da estrada


Na altura, havendo uma gritante falta de estradas que permitissem ao exército governamental movimentar-se de forma responder mais eficazmente às investidas dos rebeldes, o general Wade mandou que se construísse a Estrada Militar num eixo vital: Newcastle - Carlisle. Sendo uma estrada empedrada, aproveitou logicamente a melhor fonte de matéria prima disponível: a Muralha de Adriano, e foi sendo continuamente utilizada até aos nossos dias, na forma da "nacional" B6318.

A nossa permanência na Estrada Militar foi fugaz já que, após algumas dezenas de metros apenas, a sinalização com a avelã (o símbolo dos National Trails) nos orientou para umas pequenas escadas de madeira, que nos fizeram transpor um muro de limite de propriedade para um prado. Nesse momento, experimentámos um dos aspectos que fazem deste trilho uma pequena maravilha para o caminheiro e que seria omnipresente até à meta final: dentro do prado o trilho havia sido assinalado pela passagem de um corta-relva. Foi pois por esta novidade no trilho que chegámos ao próximo forte da Muralha.


Um trilho com piso verdadeiramente "gourmet"

Vindobala, o forte que ainda espera pela luz do dia

Estavam decorridos apenas 2km quando chegámos à quinta de Rudchester, construída sobre parte do forte romano de Vindobala. Não há muito para ver neste forte que permanece oculto sob a terra. Apenas se vêm as irregularidades do terreno que denunciam a plataforma onde se situava.


Nesta imagem do Google Maps é possível ver os contornos do forte de Vindobala, que estaria também saliente na parte Norte da Muralha, aqui substituída pela estrada. O Trilho é visível contornando a parte Sul.



E é este o aspecto do forte. O que falta deve ser completado com recurso à imaginação do observador. Em alternativa pode-se sempre dar uma vista de olhos ao painel informativo presente no local. Ora vejamos:

Um olhar mais treinado conseguirá perceber as diferenças entre o aspecto actual do forte e aquele que terá sido o seu aspecto original.

Este forte terá sido ocupado durante 300 anos, praticamente até ao momento em que os romanos abandonaram a Britânia, e os seus últimos ocupantes terão sido os soldados da primeira coorte dos Frisiavónios, tribo da região que corresponde actualmente à zona de fronteira entre a Holanda e a Alemanha. Embora tenha sido alvo de escavações em 1897, 1902 e 1924, escavações essas que permitiram localizar alguns dos edifícios mais importantes do forte, as investigações seguintes concentraram-se principalmente no vicus, o povoado que se desenvolveu fora do forte (ler artigo anterior). 

Actualmente, o forte espera por melhores dias e, estando tão perto de Heddon-on-the-Wall, esta aldeia só teria a ganhar com a musealização deste local. 


Até à Estalagem de Robin dos Bosques

Após a apreciação possível do forte de Vindobala, prosseguimos a nossa caminhada para Oeste, rumo àquela que seria a nossa primeira paragem num sítio icónico do trilho: o Robin Hood Inn, deliciando-nos pelo caminho com a paisagem à nossa volta (apesar de umas nuvens suspeitas começarem a tapar ocasionalmente o Sol). Não tardou muito para que atravessássemos a estrada, passando a caminhar directamente dentro do fosso da Muralha! Foi pelo fosso que chegámos ao lugar de Harlow Hill, um pequeno conjunto de casas ao redor de uma antiga igreja que hoje é usada como palheiro. 

Paisagens que prendem o nosso olhar!


Depois de atravessarmos a estrada, fomos parar ao fosso da Muralha! Ainda assim este foi cuidadosamente preparado com a colocação de lajeado para evitar que se caminhe em lama nas alturas mais chuvosas do ano, conceito que nestas latitudes é difícil de localizar em termos cronológicos.


A antiga igreja de Harlow Hill, actualmente a servir de palheiro na quinta anexa.



Depois de Harlow Hill, os reservatórios de Whittledene que com o tempo se transformaram num santuário de aves. Esta particularidade acabou por ser explorada com a instalação de mesas, bancos e de um observatório de aves, tornando muito difícil a tarefa de resistir à tentação de aqui fazer uma pausa. Felizmente, a nossa firmeza de espírito levou a melhor e prosseguimos de forma determinada no nosso caminho... até porque já estávamos à vista do Robin Hood Inn!


Um curioso apontamento no trilho, quase a chegar ao Robin Hood Inn.

Ao cumprirmos um terço daquela que seria a distância normal para a tirada do dia, chegámos diante do Robin Hood Inn, em East Wallhouses. Este é um sítio de paragem obrigatória no trilho por vários motivos. Primeiro porque se trata do 2º local, depois de Segedunum, onde se deve carimbar o Passaporte do Trilho da Muralha de Adriano. Em segundo lugar porque este é um dos poucos locais onde se pode comer uma refeição antes de chegar a Chollerford! Finalmente, porque se trata de um pub tão antigo quanto a Estrada Militar, já que abriu em 1752! Pretextos mais que suficientes para entrarmos e nos sentarmos para saborear um belo "Brownie" acompanhado por uma chávena de café.


O famoso Robin Hood Inn, um ponto de paragem obrigatória no trilho que disponibiliza um espaço de campismo gratuito nas traseiras da casa, desde que os campistas comam no pub.



O interior do pub com o elemento mais importante de todo o espaço (logo a seguir às torneiras de cerveja): a indispensável lareira.



No exterior, a caixa que guarda o carimbo (e a almofada) para carimbar o Passaporte da Muralha de Adriano. Não está fechada nem é preciso uma vez que existe por estas paragens um grande respeito por aquilo que é público, mais ainda quando está associado a Trilho. Viríamos na penúltima etapa a comprovar isso quando, a caminho de Carlisle, fizemos uma admirável descoberta no Trilho (lá chegaremos).

Infelizmente, mal saímos do pub, a chuva começou a cair com crescente intensidade, tendo sido necessário recorrer ao equipamento impermeável. Seguindo em frente, voltámos a atravessar a estrada e avistámos pela primeira vez o elemento mais impressionante da estrutura defensiva complementar da Muralha: o VallumPara sabermos do que se trata, convém abrir aqui um parêntesis de alto valor histórico-cultural para falar um pouco sobre a estrutura da Muralha de Adriano. 


A estrutura da Muralha de Adriano

O projecto inicial da Muralha de Adriano não incluía fortes. Já existiam vários situados numa linha mais distante à rectaguarda, ao longo de uma via estratégica fundamental, que os Saxões viriam depois a chamar de Stanegate (a Estrada de Pedra), que ligava as cidades de Corstopitum, junto à aldeia de Corbridge que nesta etapa iríamos visitar, e Luguvalium, a actual cidade de Carlisle. 

Esta primeira fase da Muralha pressupunha a construção de torres e fortins, estes últimos num total de 80 e construídos a cada milha romana, sendo que nos intervalos entre eles foram construídas duas torres de vigia/sinalização. Cada fortim possuía uma porta de passagem na muralha e tinha uma guarnição que podia chegar a mais de 30 soldados auxiliares. A função da Muralha não era impedir a passagem entre Norte e Sul mas sim controlá-la, sendo certamente local de cobrança de portagens para quem vinha a território oficialmente romano fazer negócios. Não sendo uma fronteira estanque, a influência romana prolongava-se muito para lá da Muralha.

Reconstrução de uma das portas do forte romano de Arbeia, na margem Sul da foz do rio Tyne, perto de Segedunum (ver artigo anterior). Foto: Roman Footprints


Mais tarde, alguns fortins foram substituídos pelos grandes fortes hoje conhecidos, que abriam em geral não uma mas até três portas (algumas duplas) para o lado Norte da Muralha, abandonando-se alguns dos fortes da rectaguarda. A guarnição dos fortes, dependendo do seu tamanho, podia incluir 500 a 1.000 soldados. Sendo fortes permanentes, para além dos habituais edifícios de aquartelamento, estábulos, casa do comandante (praetorium) e centro de comando (principia), comuns em fortes de campanha, estavam ainda dotados de equipamentos adicionais como latrinas, hospital, celeiros, termas e oficinas.

Mas para além dos fortins, fortes e torres, a Muralha incluía outras obras defensivas complementares que a tornavam ainda mais impressionante. À sua frente foi construido um fosso e, na rectaguarda, uma enorme vala com 3 metros de profundidade, ladeada por duas elevações: o VallumEntre o Vallum e a Muralha, os romanos construíram uma via militar para deslocar mais rapidamente os soldados ao longo da Muralha. 

Os sistemas defensivos da Muralha de Adriano, da esquerda para a direita: rampa, fosso, a Muralha propriamente dita, a via militar romana para deslocar os soldados ao longo da Muralha e o Vallum ladeado por duas elevações artificiais. Imagem History of England

Ainda se discute qual seria o seu propósito, havendo quem defenda tratar-se de uma estrutura de defesa para perigos vindos da rectaguarda (nem sempre a convivência com os indígenas submetidos se mantinha pacífica) ou simplesmente a demarcação física da zona militar da Muralha, para impedir a circulação de civis fora das passagens autorizadas (fortins e fortes). Com a construção do Vallum, logo após o início da construção dos fortes, o número de pontos de passagem na Muralha terá sido reduzido de 80 para apenas 15!


O castelo de Halton e o forte romano de Onnum

Como eu dizia atrás, foi portanto sob intensa chuva que continuámos a nossa caminhada mas nem por isso deixámos de nos impressionar com a visão do Vallum, mas antes disso foi necessário enfrentar pela primeira vez uma manada de gado bovino que, com elevada desfaçatez, se tinha ido instalar em pleno Trilho! 

Chuva, chuva e mais chuva. Bem-vindos a Inglaterra!


O momento em que demos de caras com o movimento bovino "Ocuppy Hadrian's Wall Trail". Com uma tremenda frieza e presença de espírito acabamos por passar por elas. Pronto eu confesso, seguimos o mesmo percurso que as senhoras que iam à nossa frente fizeram, e que evitava inteligentemente passar junto dos vitelos.



Do fundo deste Vallum, 19 séculos de História contemplam os caminheiros!

Foi já com a chuva a parar que chegámos à parte do Trilho que atravessa o portão de entrada da propriedade do Castelo de Halton, após cerca de 3/5 da distância total do percurso normal, do qual parte perpendicularmente para Sul uma pequena estrada semi-privada. Esta estrada, pela qual se pode circular ao abrigo da lei de "Right of Passage" promulgada em 2000, que permite que se possam atravessar zonas privadas, em locais previamente demarcados, para efeitos de recreio ou exercício, passa junto ao Castelo e leva até à aldeia de Corbridge mais a Sul.

O cruzamento do trilho com esta estrada fica no preciso centro do antigo forte romano de Onnum, ocupado entre 270 e 370 d.C, e cuja metade Norte, no outro lado da estrada, é já muito difícil de perceber. 

O forte de Onnum, no cruzamento do Trilho com a estrada que atravessa a propriedade do Castelo de Halton


Ora foi enquanto trocávamos o nosso calçado e meias encharcados que tomámos a decisão de ir até Corbridge ver o que se passava, aproveitando para levantar dinheiro e visitar a cidade romana. Sem termos uma noção precisa das distâncias, estávamos longe de imaginar que este desvio acabaria por acrescentar cerca de 13km ao percurso!




O Castelo de Halton, propriedade privada construída em volta de uma antiga "peel tower", uma torre medieval de vigia e sinalização construída devido às constantes incursões dos "Border Reivers", saqueadores profissionais que assolavam as zonas fronteiriças. É uma história muito interessante -havia regras específicas para o exercício deste tipo de actividade!- de que falarei em outros artigos.


Momento de convívio com um habitante local, junto ao Castelo de Halton


Corstopitum, a cidade romana sobre uma série de fortes

Após pouco mais de uma hora (e muito alcatrão) chegámos finalmente a Corbridge, uma simpática aldeia com habitantes não menos simpáticos, desde a menina que nos vendeu as sandochas do almoço e que nos acusou de sermos os portadores do mau tempo, até às senhoras mais entradotas que elogiaram o meu bastão de caminhada. Do centro da aldeia ao conjunto arqueológico de Corstopitum (ou Coria) foi questão de minutos (o tempo urgia já que, em geral, este tipo de sítios fecha às 6 da tarde e já não são admitidos mais visitantes a partir das 17h30). 

A actual Corbridge vista da cidade romana de Corstopitum

A cidade romana desenvolveu-se a à volta de uma sucessão de fortes que foram sendo construídos no local durante mais de 80 anos, tendo a estrutura urbana mantido um "enclave" militar no seu centro, quando já há muito esta zona deixaram de servir de forte. Foi nas escavações feitas no centro militar desta cidade, durante a década de 1960, que se fez uma das maiores descobertas arqueológicas da região da Muralha de Adriano: o tesouro de Corbridge (ver aqui), consistindo num cofre de madeira que continha vários objectos pertencentes a um soldado romano: uma armadura segmentada, ferramentas e armas de campanha, tábuas de cera para escrita e papiro. Algum motivo terá levado um soldado a guardar o seu equipamento ou a pedir a alguém que o guardasse e, por capricho do destino, nunca o terá recuperado. Este tesouro encontra-se em exposição no museu / centro interpretativo das ruínas.


Restos de uma fonte e, atrás dela, do aqueducto que a alimentava



Estruturas civis junto à "Stanegate" a estrada que passsava pelo centro desta cidade, ligando-a a Luguvallium, a actual Carlisle



Outra perspectiva da estrada principal, com uns belos chuveiros no horizonte.



A "sala-forte" de um antigo forte. Era uma sala segura no centro do edifício de comando e servia para guardar bens preciosos como o salário dos soldados.



Embora possa parecer que este muro terá feito parte de uma casa construída por um antepassado latino de Gaudi, ele é na verdade a consequência da construção civil por cima de estruturas militares anteriores. O muro foi construído directamente por cima do fosso do antigo forte, que entretanto fora aterrado, mas a posterior acomodação de terras acabou por torcê-lo da forma que se vê.



Dois habitantes locais que nos vigiaram com muita atenção ao longo da nossa visita à parte Sul das ruínas.

Terminada a visita já em cima das 18h, recuperámos as mochilas que havíamos deixado na recepção, retomando em seguida o caminho de regresso ao Trilho, quase 6km a Norte. Ao chegarmos novamente ao Castelo de Halton, decidimos ligar à proprietária do Bed and Breakfast onde iríamos ficar nessa noite, para a avisarmos que nos tínhamos atrasados e só chegaríamos depois das 21h30. De imediato perguntou se queríamos que nos viesse buscar mas obviamente recusámos. Aceitámos no entanto que nos viesse buscar mal chegássemos a Chollerford, uma vez que a sua quinta ficava ainda a 4km daí.


O touro, a Muralha e o campo de batalha

Foi já bastante cansados que fizemos o que restava ainda do caminho até Chollerford, num percurso que nos levou alternadamente a caminhar pelo Vallum e pelo fosso até que, no sítio de Planetrees, voltámos a encontrar vestígios da própria Muralha, estes com uma característica muito importante.

Nesta altura a menção de Vallum (à esquerda das giestas) já só nos fazia pensar em Valium, algo que teria vindo mesmo a calhar dadas as dores de pés e pernas...


...e depois, claro! Tinha feito questão de colocar escadinhas em vez de portões, para deixar a coisa mais interessante! O ar de "Tens aí a motosserra?" da Ana diz tudo.


A entrada no bosque da Stanley Plantation até foi simpática.


A saída do bosque da Stanley Plantation podia ter sido mais simpática.


Cruzando novamente a estrada, passámos ao fosso da Muralha. A visão que a partir de certa altura tivemos daí para o vale do rio North Tyne, que passava por Chollerford, insuflou um novo ânimo para o que ainda faltava da caminhada e bem útil que essa injecção provou ser!

Este "Tête-à-tête" junto ao fosso foi apenas o prenúncio de um outro que teríamos uns minutos mais à frente com uma manada liderada por um touro nitidamente viril e que fez despertar o nosso interesse por uma bonita cerca que nos fez desviar um pouco do Trilho. Quem nos visse até seria capaz de achar que estávamos deliberadamente a procurar evitar passar no raio de acção daquele garboso macho bovino. Este da foto optou por uma retirada estratégica à vista do meu bastão de caminhada que tão boa impressão havia causado junto das senhoras de Corbridge.


Não muito depois, chegámos a Saint Oswald, local onde uma igreja assinala a vitória de Oswald, rei dos Anglos (povo bárbaro vindo do actual território alemão que para aqui migrou após a partida dos romanos), sobre Cadwallon, rei dos Bretões (os celtas que já viviam nesta ilha antes da chegada dos romanos), na batalha de Heavenfield aqui ocorrida no século VII d.C e na qual a Muralha de Adriano foi um elemento táctico importante.

Logo a seguir chegámos a Planetrees, depois de mais uma vez termos atravessado a estrada agora para o lado do Vallum, dando de caras com uma boa secção da Muralha, algo que já não acontecia desde Heddon-on-the-Wall. Esta secção da Muralha foi salva da destruição por William Hutton, tido como a primeira pessoa a percorrer a pé todo o percurso da Muralha de Adriano desde o início da Era Moderna. Ao chegar aqui Hutton deparou-se com vários trabalhadores desmanchando a Muralha para utilizar a pedra na construção de uma quinta ao lado. A sua intervenção foi decisiva para convencer o proprietário destas terras a deixar intacta a secção hoje visível mas já não veio a tempo de salvar os 200m que entretanto já tinham sido destruídos.


O troço de Planetrees, salvo por William Hutton.

Este troço é importante na medida em que é a primeira secção da Muralha de Adriano para quem vem do Este que apresenta uma construção estreita (2m) sobre alicerces largos (3m), ao contrário do que acontecia em Heddon onde a Muralha tinha 3m de largura. Foi portanto algures entre estas duas actuais localidades que os romanos decidiram desistir de construir uma muralha larga, apesar de os alicerces já estarem feitos, quiçá por razões económicas ou para apressar o processo de construção.


Muralha estreita sobre alicerces largos, numa novidade na Muralha para quem vem de Este

Já perto das 22h chegámos finalmente a Chollerford e, conforme combinado, telefonámos à Sra Sandra Maughan que poucos minutos depois apareceu para nos dar boleia até à sua quinta, a Green Carts Farm, onde iríamos pernoitar. Estávamos exaustos depois de quase 40km de marcha com o peso das mochilas às costas mas tinha valido a pena.

No dia seguinte iríamos começar a caminhar pela secção mais espectacular do Trilho da Muralha de Adriano mas, antes disso, haveria ainda um forte para visitar.

Próximo capítulo: O forte mais bem conservado de todo o Trilho que entrava agora na sua parte mais espectacular!

[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

segunda-feira, julho 01, 2013

A Fuga de Gaspar!


Sai Vitor Gaspar, que fica para a história como o Ministro das Finanças que não acertava uma e que cometeu a proeza de ter dois orçamentos chumbados pelo Tribunal Constitucional, entra Maria Luísa Albuquerque, a senhora do Tesouro que, segundo consta, chega com excelentes REFERências mas não sabe nada acerca de swaps. Será que este filme vai ter sequelas? Mais alguém vai ter saudades deste Ministro das Finanças, para além dos produtores e comerciantes de café, chá preto, bebidas energéticas e outros produtos com doses cavalares de cafeína na sua composição?

CV resumido da nova Ministra das Finanças (avisem-me se encontrarem algo estranho):

Em relação à nomeação da nova Ministra, depois de ter escolhido para Ministro alguém com o currículo de Miguel Relvas, depois de ter nomeado para Secretário de Estado o Sr Franquelim Alvez, cujo nome está ligado ao escândalo BPN, a escolha da Sra Maria Luís Albuquerque, a "Senhora Swap", vem provar que Passos Coelho sabe escolhê-los a dedo. Cada tiro cada melro, Sr Primeiro-Ministro!

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