segunda-feira, julho 08, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Dia 4

Mapa do percurso
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Dia 4 - De Once Brewed a Walton (29km)

[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

A primeira coisa que fizemos ao acordar (depois do acto de vestir, obviamente), foi ir até ao refeitório tirar a barriga das misérias da noite anterior, com recurso a um bem servido prato de colesterol em forma de pequeno-almoço inglês! Já com o estômago aconchegado e tendo aguardado alguns minutos para este se adaptar a tamanha deglutição, pusemos novamente a mochila às costas e inicíámos a etapa do dia, rumo a Walton. Mal tivemos tempo para percorrer os primeiros metros quando novamente começou a chover! Já prevenidos, tínhamos saído já com os impermeáveis vestidos mas, felizmente, o tempo foi melhorando à medida que a manhã ia passando.

O desvio que havíamos feito dois dias antes até Corbridge teve como consequência uma alteração substancial de planos que resultou em não podermos visitar o sítio arqueológico e museu de Vindolandia, um dos fortes/povoações de rectaguarda da Muralha, no qual foi descoberto um conjunto de mais de 400 tabuínhas de correspondência para os soldados da fronteira. Seja como for, acredito que este será um motivo adicional bastante forte para voltarmos à região no futuro facto que faz com que a desilusão seja moderada. Agora vou repetir isto para mim próprio várias vezes até ficar convencido disso.

A primeira parte do percurso foi agradável. Novamente pelas ondulações dos "Crags" do Whin Sill, fomos caminhando ao longo da chamada Muralha de Clayton, o troço reconstruído por John Clayton e que se distingue da Muralha original pela vegetação de que está coberta. O primeiro ponto de interesse foi a chegada ao alto de Green Slack que, com apenas 345m de altura, é o ponto mais alto do percurso! 

Embora a meteorologia fosse pouco simpática, cruzámo-nos com vários caminheiros ao longo do Trilho. Entre eles encontrámos um casal, vindo em sentido contrário, que meteu conversa connosco. ficámos a saber que estavam a percorrer a "Pennine Way", um outro trilho nacional inglês, este com orientação Norte-Sul que, durante alguns dos seus 430 quilómetros(!!), se funde com o Trilho da Muralha de Adriano. Esta era já a quarta vez que o homem percorria esse trilho, estando a prever demorar agora 18 dias. Por falar em casais, durante esta etapa reencontrámos várias vezes os nossos amigos australianos, sempre com a mesma boa disposição.

A Muralha de Clayton ou a parte da Muralha de Adriano que foi reconstruída por John Clayton. Como se distingue? A Muralha de Clayton tem uma cobertura que lembra o penteado da Maria José Valério.



Uma pequena secção de muro feito sobre a linha da Muralha, usando pedra desta. O Crag seguinte já volta a ter Muralha a sério.


Aqui é perceptível a diferença entre esta secção de aparelho construtivo romano e a secção anterior reconstruída por John Clayton.

As Pedreiras

Nesta etapa passámos por várias antigas pedreiras romanas, então exploradas para construir o dispositivo da Muralha de Adriano, e duas pedreiras relativamente recentes que provocaram um tremendo impacto na paisagem: a pedreira de Cawfields e a de Walton. Em ambos os casos, a exploração desenfreada das pedreiras a partir do século XIX, nas quais se obtinham facilmente placas que era aplicadas ao pavimento das estradas, levou ao desaparecimento de "Crags" inteiros e, no processo, à perda irreparável de grandes troços da Muralha de Adriano.

Recentemente, os locais foram requalificados e transformados em zonas de lazer e repouso para os caminheiros, acabando por transformar aquilo que era um atentado numa mais-valia para o Trilho.


A chegada à antiga pedreira de Walton, encerrada na década de 1940, com o fortim de milha nº 42 em primeiro plano

O forte de Aesica (Grand Chesters)

Pouco depois da pedreira de Cawfields, chegámos ao forte de Aesica, situado em Grand Chesters. Sobre a parte Nordeste do forte foi construída uma grande quinta, tal como aconteceu com o forte de Vindobala pelo qual passámos no 2º dia da caminhada (recordar aqui). No entanto, ao contrário deste último e apesar de também ser um dos fortes menos escavados da Muralha e de ser um forte relativamente pequeno, há mais para ver aqui.

Parte da muralha do forte é bem visível e, no seu interior, encontra-se o arco da sala-forte do Principia (se não se lembrarem do que é, cliquem aqui) assim como uma pequena divisão no portão Sul onde se encontra um altar. Neste forte estiveram estacionados soldados de infantaria vindos de regiões que actualmente correspondem às Astúrias, Suíça e Bélgica.

Vista aérea do Forte de Aesica, com uma forma quase quadrada. Foi construído sobre parte do Vallum e apresenta a curiosidade de, na parte Oeste, ter quatro fossos sucessivos. Das duas uma: ou não havia muito para fazer por estas paragens e construir fossos era uma boa forma de manter os soldados ocupados e quentinhos ou os vizinhos do lado Oeste tinham muito mau feitio. Imagem Google Maps




O arco da sala-forte do Principia, o "banco" do forte.


O altar romano situado junto à porta Sul do Forte. É curioso que, não se sabendo a que deus é dedicado, seja ainda hoje objecto de depósito de oferendas por parte dos caminheiros.


O fóculo da ara, com as oferendas dos caminheiros. Aproveitámos para deixar também um pequeno contributo, fazendo ao mesmo tempo um câmbio a taxas subjectivas com duas moedas que não conhecíamos. Como o resto da viagem correu bem, partimos do princípio que a divindade não se sentiu lesada, o que é bom.

Momento de convívio com a guarnição da porta Oeste.

O fim dos "Crags" e o regresso ao trilho plano

Embora a passagem pelo forte de Aesica tenha sido feita num troço relativamente plano do trilho, pouco depois voltámos às elevações dos "Crags" na sua parte terminal. Não tardou muito para chegarmos à pedreira de Walltown, outra zona onde desapareceram "Crags" inteiros e, com eles partes da Muralha. Esta pedreira "reabilitada", que marca o fim do Whin Sill e do Parque Nacional de Northumberland, situa-se junto ao Museu do Exército Romano e ao ainda escondido forte de Magnis, locais que não visitámos por  acharmos que, ao contrário de Vindolandia, não acrescentariam muito à nossa experiência. Aproveitámos sim para fazer a pausa de almoço na cafetaria do parque de estacionamento. 

O fim da sucessão de elevações, o Whin Sill, que percorríamos desde o dia anterior, deixou-nos algo tristes mas, como viríamos a constatar depois, o dia tinha ainda algumas surpresas reservadas para nós. 


A última passagem entre os "Crags".


Mais uma pedreira que "trinchou" literalmente boa parte da elevação. A Muralha passava outrora sobre o espaço hoje vazio por cima da lagoa da foto.


O último troço da Muralha antes do fim do Whin Sill na pedreira de Walltown

Do castelo de Thirwall à ponte de Willowford

Após a pedreira de Walltown, o Pennine Way separou-se do Trilho da Muralha de Adriano rumo a Sul, reduzindo também com isso o número de caminheiros. O percurso passou a ser feito novamente entre quintas e, junto a um pequeno riacho, chegámos às ruínas do Castelo de Thirlwall, uma fortificação do século XII, construída com pedras da Muralha de Adriano, para proteger esta região contra os temíveis salteadores da fronteira. 


As ruínas do Castelo de Thirlwall. Diz a lenda que, num dos raides dos salteadores da fronteira, os criados do castelo esconderam nas suas fundações uma riquíssima mesa feita em ouro, que ainda hoje está por descobrir.


Secção do trilho após o Castelo de Thirlwall, não recomendável a caminheiros com alergia a pólens. Felizmente não era o nosso caso e pudemos soltar um "Ahhhh...!" não nasalado.


Tendo a Muralha de Adriano entretanto desaparecido a partir da pedreira, o percurso continua a ser feito ao longo do seu fosso que oferece imagens como esta. Aqui e ali, alguns coelhos, que fizeram as suas tocas nas bordas do fosso, olhavam-nos com curiosidade.



Na povoação de Gilsland, o Trilho faz uma passagem inusitada pela horta de uma das casas, cujo dono ali trabalhava arrancando algumas ervas daninhas.

A maior secção contínua da Muralha de Adriano

Logo após Gilsland, no topo da escadaria que atravessa um pequeno bosque, surgiu de forma surpreendente o Fortim de Milha nº 48 ou de Poltross Burn, mais um fortim extremamente bem conservado. O local era tão aprazível que fizemos uma pequena paragem para descansar e apreciar as ruínas. Retomando o caminho e tendo-nos encontrado com os nossos amigo australianos pela última vez no Trilho, iniciámos o percurso que seguiu ao lado da Muralha (em excelente estado) por cerca de uma milha (1,6km) até à ponte de Willowford, onde nos esperava um encontro improvável.


O Poltross Burn (Riacho de Poltross) Milecastle ou Milecastle nº48, um fortim de milha extremamente bem conservado e o único que ainda tem vestígios da escada de acesso à Muralha, para além de um forno. 



Na quinta de Willowford encontra-se uma das inscrições que identificavam o trabalho feito por cada centúria na construção da Muralha. Esta diz "CHO V / C G PILIPPI" que é como quem diz, "A centúria de Gellius Philippus, da V Cohorte (construiu isto)". 

A ponte de Willowford

A secção da Muralha que termina nos restos da ponte de Willowford é de cortar a respiração. Terminando junto ao rio Irthing, cujo curso entretanto desviou substancialmente, este troço da Muralha deixa de ter os seus alicerces mais largos, passando a ter uma espessura uniforme. 

Quanto à ponte, esta teve ao longo dos séculos de ocupação romana três configurações diferentes. Também era a partir desta ponte que, para Oeste, a Muralha deixava de ser de pedra para passar a ser feita de turfa e madeira. Só mais tarde a secção entre o Irthing e a costa Oeste passou também a ser em pedra. 


Sobre esta foto apetece resumir a descrição ao seguinte: é bonito!

Enquanto fotografávamos os restos da Ponte de Willowford, um homem vestido com uma t-shirt com o símbolo do Trilho da Muralha de Adriano aproximou-se e meteu conversa connosco. Tratava-se nem mais nem menos de Alan Whitworth, um homem cuja vida está ligada de forma indelével à Muralha de Adriano há mais de 15 anos. Tendo estado à frente da coordenação do centro de interpretação do Forte de Housesteads durante algum tempo, deu também o seu contributo na escavação, restauro e conservação da Muralha. Aliás, foi em trabalho de conservação que o encontrámos visto que estava a fazer uma das quatro rondas mensais que divide com a sua mulher, na secção da Muralha que lhe foi atribuída.

É também escritor, tendo publicado vários livros sobre História, nem todos sobre a Muralha (tem 19 títulos na Amazon), sendo que um dos últimos foi publicado após a descoberta de mais de uma centena de desenhos de James Coates, um homem que no final do século XIX percorreu a Muralha, retratando aquilo que viu. Alan percorreu a Muralha com os desenhos de Coates e conseguiu encontrar todos os locais neles retratados, compilando no livro as imagens de "antes e depois". 

A conversa estava a ser extremamente interessante mas, infelizmente, o tempo urgia dado que queríamos ainda chegar a tempo de visitar o forte próximo de Birdoswald, que fechava às 18h. Despedimo-nos mas não sem antes Alan nos ter dado algumas dicas sobre curiosidades a ver na muralha. -"Antes do forte, vão encontrar uma abertura de escoamento de água na Muralha. Dez passos depois, há um "X" gravado na rocha. Vejam o que está na Muralha, por cima desse ponto, aproximadamente à altura dos olhos.". 


Alan Whitworth, um homem com uma história de vida recente ligada à Muralha de Adriano. Um encontro que proporcionou uma conversa interessantíssima e que nos deu alguns conselhos sobre o que ver na Muralha.


Após atravessar a premiada ponte contemporânea pedonal sobre o Irthing, uma pequena subida levou-nos ao fortim de milha nº49 e a um troço de muralha com quase 500m de comprimento e em alguns locais com 2m de altura. Quase no final deste segmento, eis que encontrámos o X indicado por Alan Withworth!


Eis a bela obra de escultura de origem romana que se encontrava na Muralha. Uma representação estilizada de um órgão sexual masculino, capaz de fazer corar aquela nossa tia mais conservadora ou a Beatriz do Facebook! Este é um dos muitos exemplares que podem ser encontrados ao longo da Muralha de Adriano (como na ponte junto a Chollerford, lembram-se?).

O forte Banna (Birdoswald)

Último forte visitável digno desse nome (para Oeste há apenas mais um mas ainda por escavar e sem acesso, enquanto outros quatro já desapareceram), o forte Banna foi construído como forte de cavalaria quando a Muralha de Adriano era ainda aqui feita de turfa e madeira. Mais tarde, quando a Muralha em pedra foi construída, foi transformado em forte de infantaria. O forte continuou a ser ocupado após a partida dos romanos, tendo inclusive vestígios medievais, supondo-se que se tenha tornado um centro de poder da região, talvez exercido pelos descendentes dos soldados romanos que aqui ficaram.

A casa senhorial que hoje ali se encontra, datada do século XIX, veio substituir uma casa de quinta fortificada de época medieval, uma "bastle house" construída de forma a proporcionar defesa contra os salteadores de fronteira. Infelizmente para os moradores, ela acabou por ser incendiada durante um dos raides que sofreu.

Um dos últimos donos da casa, acolheu aqui vários antiquários e promoveu várias campanhas de escavações no forte. Gostava tanto deste local que até baptizou um filho com o nome de Oswald. 

O grande forte de Banna em Birdoswald. A vermelho indico a linha da Muralha de Adriano em pedra que veio substituir a cortina de turfa e madeira, representada a laranja. Imagem Google Maps



A quinta de Birdoswald que alberga actualmente o museu e centro de interpretação (onde vimos mais um belo bloco de pedra com um símbolo fálico gravado) para além de uma pousada da juventude.


Vista para a porta Sul do forte, guardada pela guarnição contemporânea habitual.


Vista parcial dos celeiros. Junto a eles encontra-se a basilica exercitatoria, um espaço coberto onde os soldados treinavam e que esta assinalada pela colocação simbólica de postes que eram golpeados pelas pesadas espadas de madeira de treino.



O canto Noroeste do Forte, junto à continuação da Muralha.

Até Walton, para além do fim da Muralha

Prosseguimos caminho, após o fecho do centro interpretativo, atravessando zonas nas quais eram reforçados os pedidos para se ter cuidado para não desgastar o terreno, dado que se estava a passar por cima de zonas não escavadas da Muralha. Um pouco antes de chegar à aldeia de Banks, encontrámos aquele que seria o último troço da Muralha de Adriano que veríamos no trilho, isto quando ainda faltavam duas etapas para o fim! Ainda veríamos alguns vestígios de Vallum e fosso mas o resto seria essencialmente para apreciar a belíssima paisagem da região. Entretanto, sem darmos por isso, tínhamos já saído da região de Northumberland e entrado na de Cumbria.


O caminho é por aqui! A sinalização ao longo do trilho, salvo apenas uma excepção, nunca deixou dúvidas.


Secção de Muralha e Torre de Banks. O último pedaço da Muralha de Adriano do Trilho para quem viaja para Oeste.


A partir de Banks, com mais ou menos tendinites, o percurso foi sempre feito por prados e entre quintas. Teve contudo alguns troços de alcatrão bastante perniciosos para o estado de saúde dos nossos pés.

Ao chegarmos a Walton, e enquanto eu me detinha para fotografar alguns pormenores, a Ana parou diante de um painel com informação local. Ora, se há coisa que aprendemos da nossa experiência britânica é que, parar olhando em volta com ar perdido ou parar consultando um mapa ou painel de informação é a garantia que em alguns segundos teremos um habitante local a oferecer-se para nos dar informações

Uma senhora que por ali passava, parou e perguntou logo se precisávamos de ajuda, ao que a Ana, para que a senhora não ficasse frustrada por ter parado por nada, lhe perguntou se a quinta de Sandysike (o local onde iríamos pernoitar) era de facto pela estrada que seguíamos. A senhora respondeu que sim, especificando que se encontrava a algumas centenas de metros apenas, arrancando em seguida para o centro de Walton.

Ainda não tínhamos caminhado 100 metros quando essa mesma senhora regressou no seu carro, parando ao nosso lado para confessar alguma incerteza "Pensei melhor e fiquei com algumas dúvidas mas não se preocupem. Eu vou à frente para ter a certeza!" e eis que arrancou à nossa frente, qual viatura batedora, para confirmar a presença da quinta. Mal fizemos a curva, deparámo-nos com o veículo a manobrar num beco sem saída um pouco apertado para dar meia volta, e a entrar de traseira num monte de silvas que se encontrava na berma do caminho. "Esperem aí que vou ali bater à porta desta casa para perguntar!", disse-nos, mas aí fomos inflexíveis e dissemos que não era necessário pois, se fosse preciso, nós próprios faríamos isso, agradecendo a sua enorme disponibilidade. "Eu só não quero que vocês se percam!", disse-nos antes de se despedir e desaparecer novamente rumo a Walton.

Pouco depois, chegámos à quinta Sandysike, instalando-nos nas camaratas onde, o diligente proprietário nos serviu um jantar bem regado que não poderia ter caído melhor.

 
Sai uma Shepherd's Pie, que é como quem diz um delicioso empadão, para a mesa nº1! Ao contrário da receita típica, as ervilhas foram servidas à parte e não dentro do empadão.


O dia estava fechado mas não sem antes que, no momento em que eu tentava perceber como funcionava o chuveiro (fiquei a saber que há sempre um sistema de cordel que deve ser puxado para ligar a iluminação e a maquineta que regula a temperatura da água), um outro caminheiro que entretanto chegara, não tivesse invadido a casa de banho que não estava trancada, gerando uma situação algo constrangedora para ambos. 

A seguir: Um aparato colocado estrategicamente para testar a nossa honestidade e a chegada a Carlisle!

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quinta-feira, julho 04, 2013

No Trilho da Muralha de Adriano - Dia 3

Mapa do percurso
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Dia 3 - De Chollerford a Once Brewed (22km já com descontos)

[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

Depois de recuperada a mobilidade nos membros inferiores, descemos até ao rés-do-chão até à sala de refeições, uma sala alcatifada (tal como o resto da casa, ao que parece é uma regra geral pela Britânia) com aspecto antigo e muito acolhedor. Pouco depois, a nossa anfitriã (Sandra Maughan) colocava à nossa frente dois belos pratos de colesterol em forma de pequeno-almoço inglês, com tudo aquilo a que tínhamos direito.

Enquanto tomávamos o pequeno-almoço, um simpático casal australiano passou pela sala e, como acontecera no dia anterior com um casal de origem indiana que havíamos encontrado várias vezes no trilho, gerou-se facilmente uma conversa assente nas perguntas do costume (De onde são? Onde ficam hoje? Onde começaram o trilho? Vão até ao fim?). Tanto neste dia como no dia seguinte voltaríamos a encontrar estes dois rostos em diferentes locais do trilho.

Sandra Maughan, proprietária da quinta de Greencarts, dedica-se a tempo inteiro com o marido aos serviços de alojamento que, para além do Bed & Breakfast, inclui ainda um parque de campismo (que estava bastante concorrido apesar da  chuva do dia anterior) e um "Bunk house", uma zona de camaratas. Da quinta cuidam os filhos. Segundo ela, fomos os seus primeiros clientes portugueses e ela adorou-nos por sermos tão simpáticos e espectaculares (esta última parte foi uma adição livre da minha autoria).

Depois de nos ter proposto um lanche para levarmos, dado que ao longo da etapa não iríamos ter locais onde pudéssemos comprar comida, a Sandra ofereceu-se para nos levar de volta até Chollerford, para começarmos o dia com uma visita ao forte romano de Chesters, antes de nos pormos a caminho para aquela que viria a ser uma das duas melhores etapas do percurso.


O Forte de Cilurnum (Chesters)

Sem dúvida um dos melhores fortes a visitar no Trilho da Muralha de Adriano, o forte de Cilurnum foi um forte de cavalaria e um dos primeiros fortes a ser construído na Muralha de Adriano, tendo funcionado durante cerca de 300 anos, até à partida dos romanos. Em 200 desses anos a sua guarnição foi composta por uma unidade de cavalaria oriunda... das Astúrias! Situava-se numa posição estratégica importante, pois, para além da missão de vigilância da própria muralha, guardava também uma ponte, cujos vestígios na margem oposta são hoje visíveis.


Forte de Cilurnum, termas, vestígios de ponte e da Muralha (destaquei a sua orientação a vermelho). Imagem Google Maps


O forte começou a ser escavado a partir de 1843 por John Clayton, um campeão da preservação da Muralha e, por feliz acaso, então proprietário do terreno onde o forte se situa. Clayton foi aliás mais longe e comprou grandes extensões de terra, atravessados pela Muralha, com o objectivo único de impedir o seu desaparecimento, tendo inclusive reconstruído uma boa parte. Parte do espólio que recolheu encontra-se exposto no pequeno Museu vitoriano construído em 1890, ano da morte de Clayton.



Deuses, fiéis e votos cumpridos!

Uma bela colecção de aras romanas (altares), então construídos para selar pactos entre homens e deuses, isto é, para pagar promessas. Numa altura em que a Peregrinação a Fátima ou Santiago de Compostela ainda não tinham sido inventadas, os romanos prometiam fazer altares aos deuses em troca de graças concedidas. Estes altares eram depois colocados em local sagrado e, sobre eles, colocavam-se oferendas (alimentos, vinho, incenso,...) 


Um espectacular Modius, antepassado da nossa antiga unidade de medida de volume, o Moio. O termo Modius podia referir-se à medida-padrão romana correspondente a 8,7 litros ou simplesmente ao recipiente com que eram medidos os cereais. Este é o exemplar de Modius mais bem conservado que se conhece e pode bem ser um ícone de desonestidade já que, embora esteja escrito no seu exterior que a sua capacidade é de 9,5 litros, este recipiente tem na verdade capacidade para um pouco mais de 11 litros. Provavelmente destinava-se a enganar os agricultores no acto de pagamento da annona, um imposto em géneros criado no final do século III. Há no entanto quem defenda que faltam elementos neste Modius, elementos esses que ocupariam o espaço a mais em relação à medida oficial.


As casernas. O pátio era atravessado por uma caleira e na sua extremidade situavam-se os compartimentos destinados aos oficiais.


E eis as termas que serviram de modelo para a recriação do forte de Segedunum que mostrei no artigo do 1º dia de caminhada (ver aqui). Trata-se das ruínas de termas romanas mais bem conservadas do Reino Unido.


Apodyterium das termas. Era aqui que os banhistas deixavam os seus bens e vestuário antes de irem aos banhos. Pessoalmente já usei balneários em pior estado.


O Caldarium ou banho quente. Nesta altura uma visitante ao lado exclamou "Olha que giro, tinham bancos na piscina!" e, quando dei por mim, estava a explicar-lhe que não, que aquilo era o nível onde assentava o fundo da piscina e que ainda era visíveis vestígios da camada de impermeabilização nas paredes. Pela expressão que me dirigiu, das duas uma, ou o meu inglês é muito parecido com o nepalês ou deve ter pensado algo como "Deves ter um bocado de mania..!"



Do outro lado do North Tyne, avistam-se vestígios da ponte e, à esquerda, vê-se o alinhamento da morada. A ponte foi completamente desmantelada em 675 porque os saxões acharam que a igreja da vizinha Hexam fazia mais falta que a ponte. Curiosamente, respeitaram um falo romano e deixaram a pedra onde ele está gravado (ou então tiveram medo dele).


Entre a margem do rio e o forte, foi exposta uma secção da Muralha. Seria o nosso primeiro troço de Muralha do dia e o prenúncio de muitos mais!


O centro de comando do forte, o Principia, vendo-se do primeiro plano para a frente diversas divisões, entre as quais uma sala para os objectos "sagrados" da guarnição e a entrada da sala-forte subterrânea (lembram-se para que servia?), depois a Basilica, um grande espaço coberto onde o comandante podia falar para toda a guarnição e onde podiam ter lugar os exercícios de treino, e finalmente um pátio.

Porta do forte onde se pode ver o início da Muralha para Noroeste. Sendo uma das três portas duplas que abriam para a zona Norte da Muralha, o facto de se ter selado uma das passagens pode dar a entender que a dada altura as relações com os nativos do Norte evoluíram para um nível de cordialidade digno parlamento Sul-Coreano.

Terminámos a visita na cafetaria existente junto à entrada do forte (onde aprendi que quando se quer perguntar se algo está frio, como uma garrafa de água por exemplo, não se deve usar o termo "fresh" caso contrário levamos com um "What?!" acompanhado de um olhar de constrangedora expressão de estranheza) e, após termos carimbado os Passaportes do Trilho na recepção do Centro de Interpretação, iniciámos o percurso do dia com destino a Once Brewed.


Finalmente Muralha de Adriano a sério!

Após de caminharmos algum tempo no passeio junto à estrada a partir da saída do Forte de Chesters e depois por uma pequena estrada de alcatrão, depressa chegámos novamente aos prados. Deu logo para perceber que neste troço iríamos mais caminheiros que nos dois dias anteriores. Após caminharmos algum tempo junto ao fosso, vimos pela primeira vez de forma notória as marcas de um fortim de milha (Milecastle) no terreno e, imediatamente a seguir, uma grande secção da Muralha com vestígios de torres de vigia.


"On the road again, Goin' places that I've never been,..."


Eis finalmente uma bela secção da Muralha rumo a Oeste. Isto sim, já confere com o que vem nos guias turísticos!


Restos de uma torre de vigia na Muralha, a Black Carts Turret. Havia sempre duas torres desta entre dois fortins de milha e serviam tanto para vigilância como para dar alertas através de fogueiras.


Depois da torre, a Muralha continua, sempre com o fosso à sua frente.

Depois de passarmos novamente pela zona da quinta de Greencarts, continuámos a subir pelo trilho, sempre junto à Muralha, chegando finalmente a um ponto emblemático do Trilho. Trata-se do "Limestone corner", literalmente o Canto de Calcário, que marca o ponto mais a Norte do Império Romano

Bom, em abono da verdade convém dizer que houve um período de 20 anos em que a Muralha de Adriano foi abandonada, tendo uma nova muralha de turfa e madeira sido mandada construir mais a Norte (um pouco acima da actual cidade de Glasgow) pelo imperador Antonino Pio. Esta Muralha de Antonino, tinha uma extensão de 60km (metade da Muralha de Adriano) e demorou o dobro do tempo a ser construída (12 anos) apesar de também ter envolvido 3 legiões no processo. No entanto, a partir de 160 d.C., seria também ela abandonada e a Muralha de Adriano voltou a ser ocupada. 

Chegada ao "Limestone Corner" (ponto onde o fosso deixa de se ver na foto)! A partir daqui, a Muralha deixa de seguir para Noroeste e passa a ter uma orientação geral oés-sudoeste.

O Forte de Brocolitia e o Templo de Mitra

Pouco depois do "Limestone Corner" chegámos ao Forte de Brocolitia, ou de Carrawburgh. À semelhança de Vindobala (ver artigo anterior), do forte propriamente dito pouco há para ver. A sua muralha Norte foi destruída durante a construção da Estrada Militar e apenas se distingue a elevação que corresponde à plataforma do forte. O primeiro a fazer aqui escavações foi John Clayton, no século XIX, tendo decorrido outras campanhas já no século XX, que trouxeram à luz do dia um templo que se concluiu ser dedicado ao deus Mitra, um deus de origem oriental.

Outra grande descoberta de Clayton neste local foi o Poço de Conventina. Este poço faria parte de um santuário dedicado a esta deusa indígena aquática e, dentro dele, Clayton descobriu 13.487 moedas, aras e instrumentos usados em cerimónias religiosas. Exceptuando as moedas, que terão sido atirados para o poço em jeito de oferenda à deusa (vem de longe a nossa prática de atirar moedas para as fontes e poços), o resto terá sido aqui escondido após o Édito de Tessalónica que no final do século IV instituiu o cristianismo com religião oficial do império, abolindo todas as outras. 


Parte da plataforma do forte e a sua actual guarnição.

Vista aérea do Templo de Brocollitia sendo visíveis a estrada que aqui passa novamente por cima da Muralha e, na parte inferior da foto, o templo de Mitra. Imagem Google Maps

O templo de Mitra é um local relevante singular. O culto a este deus terá tido origem no Médio Oriente e tornou-se extremamente popular, sobretudo entre os soldados da legiões romanas, responsáveis pela sua difusão no império. Compreende-se se tivermos em conta que é um culto que exalta os valores da verdade honra,  disciplina e bravura, mas também impõe o auto-sacrifício como via para o auto-aprimoramento. Uma filosofia bastante diferente, portanto, do significado pouco coloquial que hoje se atribui ao termo "mitra". 

Este templo foi destruído, provavelmente por cristãos, e mais tarde reconstruído, antes de ser destruído uma segunda vez e em definitivo.


O Templo de Mitra, com réplicas dos altares que aqui foram descobertos.


Momento em que um caminheiro reza a Mitra para que o poderoso deus alivie o peso da mochila, afaste bolhas, tendinites e touros furiosos desta jornada e já agora sugira uma chave vencedora para o próximo sorteio do Euromilhões. Para incluir algum conteúdo cultural nesta legenda, acrescento que era sobre os estrados laterais que os fiéis seguidores de Mitra se instalavam para participar nos rituais do culto ao deus que dera origem ao Mundo após matar o Touro Primordial. A flora nasceu do corpo morto do bovino, do seu sémen surgiu a vida animal e do seu sangue surgiu o outro elemento fundamental do Mundo: o vinho. O templo estava geralmente pouco iluminado, evocando o subterrâneo onde Mitra matara o Touro.



Nada como algum engenho para impressionar os fiéis: um dos altares tem uma cavidade posterior onde era colocada uma lamparina ou lucerna para iluminar os raios à volta da cabeça de Mitra.

Cumpridas as rezas a Mitra e apreciados os altares, despedimo-nos de Brocolitia e seguimos em frente, passando por cima do riacho que nasce dos domínios da deusa Conventina para atravessar em seguida a estrada. 

Foi nesse preciso momento que um grupo de senhoras aparentando estarem na casa dos 50 se aproximou, vindo em sentido contrário, e nos abordou. Com ar de grande cansaço, uma delas perguntou simplesmente -"Ainda falta muito?". -"Para Newcastle? Ainda falta um bocadinho, sim.", respondi gerando algumas risadas, ao que a senhora rectificou, dizendo que afinal queria saber se faltava muito para Chollerford. Após as animarmos dizendo que já não faltava muito, perguntaram-nos para onde íamos e, quando soube que o nosso destino era Once Brewed, a mesma senhora que nos inquirira abriu os olhos e exclamou -"Vocês vão apanhar grandes subidas!". Agradecemos a informação e seguimos em frente, por um descampado a perder de vista, deixando as nossas interlocutoras prosseguir também o seu caminho.

Momento de passagem pelos domínios da deusa Conventina.


Prados a perder de vista mas sem Muralha.

O ataque das vacas!

Ao passarmos perto da Quinta de Carraw, assistimos a uma situação inusitada envolvendo um binómio homem-cão e uma manada de vacas que pastava passivamente no prado. O homem, que vinha na nossa direcção, tinha acabado de entrar no prado quando as vacas avistaram o cão de que este se fazia acompanhar com o auxílio de uma trela. De imediato todas se precipitaram em corrida para eles e, quando o homem olhou para trás, constatou que todas as vacas se encontravam atrás dele, olhando para fixamente para o cão. Acto contínuo, quando o homem olhou para elas, todas as vacas dispersaram como se de gazelas se tratassem, apenas para se voltarem a concentrar novamente e em passo de corrida atrás do homem e do cão.

Um pouco inquietos com a situação, decidimos dar uma ajuda ao chegar junto dos perseguidos, passando entre estes e as vacas enquanto agitávamos no ar os nossos bastões, o que levou as vacas a dispersar de forma desordenada novamente. Convencidos que as vacas já se teriam apercebido que não valia a pena continuar a perseguição, até porque muitas fugiam à nossa frente, continuámos descontraidamente o nosso caminho.

Pouco depois, as vacas que fugiam diante de nós decidiram fazer meia volta e, contornando-nos a alguma distância, foram juntar-se às suas restantes companheiras para, novamente em corrida, seguirem o homem bem de perto. "Curiosidade em relação ao cão.", pensámos até que, algumas cercas mais à frente, encontrámos um aviso que dizia "As vacas ficam nervosas com cães. Se se fizer acompanhar de um e as vacas o perseguirem, largue o cão e ponha-se em segurança!".
O ataque das vacas!


O início dos "Crags" do Whin Sill

Meia hora depois da Quinta de Carraw, chegámos finalmente ao ponto em que a Estrada Militar deixa de se sobrepor à Muralha devido à crescente irregularidade do relevo, desviando-se para Sul, só a voltaríamos a ver no final da etapa, ao ter de desviar para Sul para chegar ao nosso alojamento. 

Entrando numa zona mais ondulada do Trilho, voltámos a ver a Muralha aqui e ali, assim como algumas torres. Era uma espécie de aperitivo para o que estava para vir e que iríamos encontrar mal começassem os "Crags", a sucessão de montes cortados de forma natural na sua face Norte, pertencentes ao grande conjunto rochoso de origem magmática chamado de Whin Sill, que tornaram esta zona da Muralha virtualmente inexpugnável.


Durante uma pequena subida, surge mais um troço da Muralha com uma torre.


Podemos dizer que este é o início "oficial" do Trilho pelos "Crags". Uma vez que se tornou desnecessário continuá-lo, o fosso termina subitamente. Estávamos a começar a melhor parte do Trilho!



Subindo mais um pouco, até outra torre, avista-se já a ondulação dos vários montes na paisagem.


Uma pequena floresta que deve dar bastante jeito aos caminheiros em dias de vento.


Ao chegarmos a Sewingshields, encontrámos o primeiro Fortim de Milha bem visível do Trilho! Trata-se do Milecastle 35 que, por se encontrar no topo de uma escarpa, não tinha a usual porta para Norte.


A seguir a Sewingshields, a Muralha é substituída por um muro feito com pedras tiradas desta. Os alicerces estão escondidos, à espera de rever luz do dia, mas o muro ajuda a dar uma ideia do traçado da Muralha ao longo do Whin Sill.


O Trilho é extremamente fácil de seguir, tendo a linha da Muralha (neste caso, do muro) como referência mas o desgaste da passagem de caminheiros também dá uma grande ajuda. No entanto, por motivos de conservação do que ainda está enterrado, é pedido aos caminheiros que evitem seguir em fila e que evitem caminhar em zonas do solo sem vegetação. Essa é aliás uma das razões pelas quais se desaconselha a caminhada no Inverno. O solo empapado fica muito mais mole e o impacto nos vestígios arqueológicos ainda enterrados é maior. 


O melhor comentário que eu posso fazer a esta foto é que dispensa comentários. Como tal, não vou perder tempo a escrever nesta legenda e vou já passar à próxima parte do relato.


O forte de Vercovicium (Housesteads), simplesmente o melhor forte do Trilho

Housesteads é um dos pontos altos do Trilho da Muralha de Adriano. Este forte, que outrora teve uma guarnição de 800 soldados e junto dele um povoado (vicus) é o forte romano mais bem conservado do Reino Unido, sendo também um dos melhores exemplares de fortes romanos da Europa.

Situava-se numa posição imponente, sobre uma elevação que dominava uma passagem no Whin Sill mas, apesar da sua aparente defensabilidade, foi destruído 3 vezes, a primeira vez em 197, a segunda em 296 e a terceira em 367. Apesar desses períodos turbulentos, a paz parece ter sido predominante à volta do forte, o que potenciou o crescimento do povoado. Neste povoado foi feita uma descoberta arqueológica macabra. Sob o soalho piso de uma das casas, os arqueólogos encontraram os restos mortais de um casal. Concluíram que estes tinham sido assassinados e os cadáveres escondidos.

Actualmente são visíveis vários edifícios no interior do perímetro do forte, sendo os celeiros um dos mais interessantes a par das latrinas. Como de latrinas já falei o suficiente nos artigos anteriores, desta vez fico-me apenas por esta referência.

Quando no dealbar do século V Roma chamou os legionários para combater noutras zonas do Império que estava então na sua curva descendente, os auxiliares ficaram. Constituídos essencialmente por indígenas, estes militares optaram por ficar junto das suas famílias. Os civis mudaram-se para o interior do forte e o vicus exterior foi abandonado. A partir daí, não se conhece mais sobre a história do forte.


A passagem de Knag Burn e, para lá dela, o Forte de Housesteads. Na passagem encontrámos um casal de japoneses almoçando, aos quais perguntámos onde era a entrada do forte mas, com a comunicação dificultada por meio Mundo de distância, só obtivemos informação sobre a localização do estacionamento. 




Vista aérea do Forte de Housesteads. Distinguem-se o celeiro, à direita destes a zona de casernas, depois por baixo o hospital e à direita o Principia ou edifício de comando e, finalmente, mais abaixo vê-se a casa do comandante (Praetorium). As latrinas situam-se no canto inferior direito do forte. No exterior distinguem-se os vestígios do vicus. Foto Google Maps

A Porta Norte do forte. No exterior foi construída uma rampa para permitir o acesso de carros de transporte ao forte.


As casernas do forte preenchiam todo o espaço do forte que não era ocupado pelos edifícios centrais e por uma ou outra oficina.


Os celeiros, tinham paredes reforçadas para conterem o peso dos cereais sem desabar e piso sobre pilares, para não permitir acumulação de humidade e para protecção contra roedores.


A casa do comandante do forte, com vista para o vicus e para os domínios romanos a Sul. 


Parte do vicus, povoado formado devido à aliciante perspectiva de comércio com os soldados do forte. Muitos dos soldados, embora inicialmente não lhes fosse permitido casar, acabaram aqui por formar família.


Ninguém consegue ficar indiferente ao forte, nem que seja para avaliar a comestibilidade da sinalética.

Depois da visita ao Museu e ao forte, parámos para saborear o lanche que nos tinha sido preparado em Greencarts. Aqui e ali começámos a ver algumas gotas de chuva a cair e percebemos logo que o dia não ia acabar tão bem como tinha começado. Por isso carimbámos os passaportes na caixa existente no exterior do museu e com a alma gastricamente renovada, voltamos a fazer-nos ao Trilho. Ainda havia alguns quilómetros a cumprir.

Mais fortins de milha e... a chuva!

A partir de Housesteads, o caminho faz-se à vista da "Muralha de Clayton", o troço reconstruído por John Clayton no século XIX. A Muralha entra por uma floresta e, logo à saída desta, encontra-se mais um fortim, este o número 37 e o único com restos do arco de uma das suas portas. A seguir a este fortim, o Trilho da Muralha de Adriano encontra-se com outro trilho nacional vindo de Norte: o Penine Way, seguindo como um só ao longo da Muralha durante vários quilómetros.

Por cima de nós o céu começou entretanto a escurecer e, alguns minutos depois, abateu-se sobre nós um aguaceiro que nos fez pensar que talvez tivesse sido boa ideia trazer bóias, para além de impermeáveis. Tendo sido impossível recolher fotografias de alguns pontos relevantes da Muralha, nomeadamente a passagem conhecida como "Sycamore Gap", conseguimos ainda apreciar outro fortim extremamente bem conservado, o número 39, situado logo a seguir a um lago, o Crag Lough.



A Muralha de Clayton e, ao longe, os "Crags" por onde tínhamos passado umas horas antes.


A porta norte do fortim nº37. Uma imagem emblemática desta secção do trilho. A porta foi mais tarde estreitada para reforçar a segurança do fortim.

Vista para os "Crags" e para o "Bromlee Lough"


Junto ao lugar onde outrora se ergueu o fortim de milha nº38, dele apenas se percebem hoje algumas irregularidades no solo, encontra-se a Quinta Hot Bank. À passagem fomos atentamente vigiados por duas sentinelas que não arredaram pé.


O Milecastle 39, logo a seguir ao Sycamore Gap, com as casernas individualizadas. Trata-se de um dos melhores fortins de milha da Muralha, tendo sido escavado e parcialmente restaurado nos anos 1980. Por outro lado, a única arvore existente no Sycamore Gap (não fotografado devido a um problema atmosférico que era o seguinte: a elevada precipitação) é conhecida como a "Árvore de Robin Hood", devido às filmagens que aqui foram feitas para o filme "Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões", protagonizado por Kevin Costner na sua fase pré-apocalíptica.


Finalmente em Once Brewed... sem jantar

Chegámos por volta das 20h40 à pousada da Juventude de Once Brewed, onde iríamos passar a noite. Logo ao lado sabíamos que havia um pub, o Twice Brewed, e pensámos em ir aí jantar. A história à volta destes dois nomes (Once Brewed, Twice Brewed) é curiosa. Segundo nos contara nessa manhã a Sandra, antigamente havia neste local não um mas dois pubs, um ao lado do outro. Os clientes começavam a beber num deles e depois passavam ao próximo para apanhar nova bebedeira. "They got once brewed  and then twice brewed", tinha-nos contado.

Infelizmente, nessa noite não conheceríamos o Twice Brewed pois, segundo o funcionário que se encontrava na recepção da pousada, o pub tinha parado de servir jantares às 20h30. Ofereceu-nos no entanto uma alternativa: um take-away na pequena cidade de Haltwhistle, não muito longe dali, que fazia entregas. 

A Pousada da Juventude e, ao fundo da Estrada Militar, o Twice Brewed.

Não tendo outra alternativa, ligámos para o restaurante para encomendar o jantar, de acordo com o folheto que o jovem da recepção da pousada nos tinha fornecido, mas do outro lado recebemos uma má notícia: o motorista tinha tido um acidente e nessa noite não haveria serviço de entregas. O jantar acabou por ser constituído por barrinhas de cereais e chocolate, bem regado por um belo refresco e leite achocolatado, tudo obtido nas máquinas de vending da pousada.

Após um belo banho, estendemos a roupa para esta secar e fomos dormir. Pessoalmente, não me lembro daquilo com que sonhei mas deve ter girado à volta de um bem gorduroso pequeno-almoço inglês.

A Seguir: Uma divindade romana que ainda recebe oferendas e a mulher que quase enfiou o carro nas silvas para nos dar indicações sobre o caminho


[Todas as etapas: Dia 1 - Dia 2 - Dia 3 - Dia 4 - Dia 5 - Conclusão]

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