quinta-feira, junho 27, 2013

No trilho da Muralha de Adriano - A chegada a Newcastle

Os últimos dias de preparação para a viagem foram de alguma ansiedade. Afinal, iríamos percorrer cerca de 140km a pé noutro país (acabaram por ser mais), por um trilho cujas condições não conhecíamos. Por outro lado, gerir o que deveríamos levar também não foi fácil, sendo certo que teríamos de carregar bagagem para duas semanas às costas.

Não havendo voos directos para Newcastle, a cidade em cujos subúrbios começa o trilho, mais precisamente a 5km a Este do centro, desembarcámos em Edimburgo, na Escócia. Uma vez que o aeroporto se situa fora da cidade, foi necessário apanhar um autocarro para o centro, até à estação de caminho de ferro. Por sorte fomos recebidos por um Sol radioso, bem diferente do que havíamos deixado em Lisboa. 

Após 30 minutos de viagem, num autocarro com bancos em cabedal, rede wireless gratuita e ecrãs que permitem irmos controlando a nossa bagagem no piso inferior, chegámos a Edimburgo. O pouco que vimos no trajecto deixou-nos fascinados. Iríamos depois voltar aqui com mais algum tempo no último dia da nossa estadia.


Chegada à estação central de Newcastle


A viagem de comboio até Newcastle  também foi muito agradável. Foi curioso ver passar um carrinho/bar pelas carruagens, isto se tivermos em conta o nosso serviço Intercidades equivalente que, na linha da Beira Baixa, disponibiliza máquinas de vending avariadas . Também foi curioso verificar o pormenor de os lugares vendidos previamente estarem assinalados, não só com a nota de "Reservado" mas também com a descrição do troço da viagem em que se encontravam reservados. Enquanto isto, pela janela iam desfilando cenários verdes e amarelos, polvilhados aqui e ali de borbotos lanudos pretos ou brancos.


Newcastle!


História, modernidade, comércio e multiculturalidade. Eis Newcastle Upon Tyne.

De há algum tempo a esta parte, vinha alimentando uma certa vontade secreta de viajar até um sítio onde, para além de não conhecer ninguém, não conhecesse a língua local. Cumpri o meu sonho. Cheguei a Newcastle onde o dialecto "geordie" chega a ser incompreensível. Se no caso do diálogo com indivíduos que pedem uns trocos ou um cigarro acaba por ser uma mais valia tremenda, já na utilização dos serviços públicos ou em qualquer pedido de informação ou diálogo de circunstância, é uma severa desvantagem. Que o diga o senhor que, numa estação de metropolitano, teve de repetir 6 vezes a sua interpelação, até que finalmente percebêssemos que nos estava a chamar a atenção para um painel publicitário de cariz bíblico. 

A cidade que apenas conhecemos como Newcastle ou, segundo Jorge Jesus, "Newcasten", chama-se na verdade Newcastle Upon Tyne, literalmente "Castelo Novo sobre o (rio) Tyne". A história da cidade começa com a chegada dos romanos que aqui construíram uma ponte sobre o rio Tyne, a Pons Aelius (assim chamada em homenagem ao imperador Adriano ou Publius Aelius Traianus Hadrianus Augustus para os amigos), e um forte para a guardar, integrado na linha da Muralha de Adriano. Como aconteceu nos outros fortes ao longo da Muralha, o comércio dos indígenas com os legionários levou à formação de uma pequena aldeia (vicus) junto a este forte, que acabou por crescer e prosperar.



Da Pons Aelius nada resta mas na zona central de Newcastle existem nada mais nada menos que 7 pontes sobre o Tyne, como a Tyne Bridge inaugurada em 1928, a 10ª estrutura mais alta da cidade e uma espécie de versão "geordie" da Tower Bridge de Londres.

Após a partida dos romanos em 410, a povoação assistiu à chegada dos Saxões, dos Vikings e mais tarde dos Normandos, uma espécie de Vikings recauchutados por uma permanência prolongada em terras francesas. Junto à ponte construíram uma nova fortificação, inicialmente em madeira e turfa, fortaleza essa que seria substituída mais tarde por um poderoso castelo em pedra, rodeado por muralhas imponentes. Este novo castelo acabou por dar o nome à cidade até aos nossos dias.

Dos tempos romanos pouco ou nada sobra actualmente no centro de Newcastle. Muita da pedra da Muralha de Adriano e do próprio forte foi reaproveitada nas fortificações normandas mas pode-se sempre percorrer a longa Westgate Road que, partindo do castelo para Oeste, segue aquele que era o traçado da Muralha, sendo possível encontrar algumas referências sugestivas em termos de toponímia. O topónimo Westgate propriamente dito, já diz respeito à porta Oeste das muralhas medievais da cidade.


Praticamente no extremo Oeste da Westgate Road é possível encontrar o que resta das muralhas medievais (séculos XIII e XIV) que envolviam a Newcastle e que foram muito úteis para manter os irrequietos escoceses em respeito em vários momentos da História. Marcam o limite entre uma zona de bares em edifícios de aspecto industrial e uma zona verde. Reparem no lixo que se avista na relva. Se por um lado se encontram copos e embalagens um pouco por todo o lado, já cocó canino é coisa que não se vê em lado nenhum. É que, para um britânico, deitar lixo para o chão ainda vá, agora deixar cocó de cão é pura falta de civismo!



Em plena Westgate Road, este pub tem o sugestivo nome de Milecastle, recordando as fortificações que os romanos construíram a cada milha (romana pois claro) ao longo da Muralha de Adriano. Serve um excelente fish n'chips e podemos escolher entre um filete panado simples e algo cujo interior é semelhante ao de um douradinho. Isto percebi logo à 4ª vez.



Ao chegar ao centro, deparamo-nos com o Black Gate, a Porta Negra, o que resta da porta principal da cidadela do castelo normando, actualmente em processo de reabilitação.


O Castelo Normando, que tem algumas semelhanças com a Torre de Londres, é uma estrutura imponente e foi cuidadosamente restaurado. Aqui avista-se a entrada original a meia altura, à qual se acedia por uma escada amovível, e sobre a qual se encontra um balcão com os típicos "mata-cães". 

Nesta fachada é possível distinguir claramente as partes mais antigas das partes restauradas, diferenciadas de forma bastante simples e inteligente.

Futebol e Chinatown

Falar de Newcastle é falar também de futebol, pois claro! Antes de enveredarmos pela Westgate, fomos espreitar St James Park e o estádio do clube de futebol local, o Newcastle United Football Club, onde há uns meses atrás o Benfica jogou no caminho até à final da Liga Europa e onde tem lugar um dos "derbys" mais renhidos da Premier League: o Newcastle vs Sunderland.

A estação de metro de St James Park é toda ela dedicada ao Newcastle United, sendo decorada a preto e branco. Encontram-se aí também várias referências às grandes figuras que passaram pelo clube, como a do nosso bem conhecido e já falecido Sir Bobby Robson, que em Portugal treinou Sporting e FC Porto.


As pegadas de Bobby Robson imortalizadas na estação de metro de St James Park, ao lado de outras pertencentes a outras figuras que passaram pelo clube local como Alan Shearer.


O estádio do Newcastle junto ao qual se encontra, entre outras, a estátua de Bobby Robson.

Sendo uma cidade multicultural com 8% de população asiática, Newcastle tem também a sua Chinatown, devidamente assinalada por um pórtico oriental. Para lá dele descobre-se que afinal esta Chinatown é apenas uma rua e, ao contrário do que acontece por exemplo em Londres (lembram-se?), os preços não são tão amigáveis para o turista que quer comer barato.

O pórtico oriental que marca o início da Chinatown de Newcastle. Para lá dele a comida não é tão barata como na Chinatown de Londres mas, em compensação, o pórtico é muito mais bonito.


A cidade industrial


Actualmente a economia da cidade assenta sobretudo no comércio e nos serviços, um cenário bem diferente daquele que levou Newcastle ao papel de protagonista da Revolução Industrial no século XIX. 

Uma rua pedonal comercialno coração de Newcastle já vazia devido ao adiantado da hora, quase 22h. Esta rua conduz do rio Tyne à zona das duas universidades da cidade. Para além de alguns transeuntes dispersos, só encontrámos alguns jovens que jogavam à bola e andavam de bicicleta. A chegada de um polícia levou a que se dispersassem imediatamente pois nada do que estavam a fazer era permitido nesta rua.

No auge da era industrial, instalaram-se aqui várias indústrias pesadas ao mesmo tempo que nas redondezas prosperavam as minas de carvão. Hoje a cidade ainda ostenta algumas feridas ambientais desse período mas ambiciona em breve tornar-se uma das cidades mais limpas do Mundo através de um plano de redução de emissões de carbono e de limpeza de zonas poluídas.

De todas as indústrias a que mais se destacou foi a indústria naval, concentrada mais a jusante no Tyne, em Wallsend (fixem este nome). Dos estaleiros da Swan Hunter & Wigham Richardson saíram inúmeras embarcações de guerra e de transporte de passageiros, destacando-se destes últimos o RMS Mauretania, em 1906 o maior paquete do Mundo, e o RMS Carpathia que ficou famoso por ter participado no resgate das vítimas do naufrágio do Titanic.


O rio Tyne, outrora a grande autoestrada e centro industrial de Newcastle.


Esta indústria foi perdendo lentamente o seu fulgor até que já neste milénio a empresa anunciou o encerramento definitivo dos estaleiros e a sua reconversão total em empresa de desenho de projectos navais.


Tudo a postos!

Feito o reconhecimento de Newcastle, voltámos para o nosso pequeno hotel em Heaton, situado aproximadamente a meio caminho entre o centro da cidade e Wallsend, onde começaríamos a percorrer o trilho no dia seguinte. Foi estranha a sensação de caminhar pela rua ainda com luz do dia quando já passava das 22h mas as noites por esta altura são muito mais curtas nestas paragens.




O hotel escolhido, aproveitando uma promoção do Booking, foi o Corner House, um pequeno hotel bem simpático com um pub no rés-do-chão. Apesar de termos demorado algum tempo a ser recebidos, o pessoal provou ser extremamente simpático. Tudo estava agora a postos para o início da grande caminhada.

Amanhã: O início do trilho e um encontro digno de Stephen King!


segunda-feira, junho 24, 2013

Agora que voltámos a casa, vamos lá relatar tudo o que aconteceu!

Finalmente de volta a casa após 15 dias excepcionais, durante os quais percorremos a pé Inglaterra de costa a costa, fomos à Escócia experimentar as sensações fortes de conduzir quase 400km com um veículo com o volante do lado errado, de enfrentar a fauna e a polícia das Highlands a horas impróprias, de viver situações dignas de Stephen King e conseguir voltar sem ter provado o infame Haggis.

Vai ser difícil deitar tudo cá para fora mas... vamos a isso! Cheers!

Latrinas das termas do forte romano de Segedunum, Wallsend - Newcastle

sexta-feira, junho 07, 2013

Muralha de Adriano, aí vamos nós!


122 d.C. Toda a ilha da Britânia encontra-se sob ocupação romana. Toda? Não. A Norte, as bravas tribos dos Caledónios resistem ainda e sempre ao invasor.

Podia ser este o mote de um álbum de banda desenhada sobre um qualquer primo escocês do Asterix mas efectivamente, em 122 d.C. o imperador romano Adriano decidiu que era hora de pôr fim à política expansionista do império, adoptando uma política de consolidação de fronteiras. 

Na ilha da Britânia, ordenou que se construísse uma muralha que, de costa a costa, separasse as regiões pacificadas sob o domínio romano das irrequietas tribos dos Caledónios que moravam nas terras montanhosas do Norte, no território da actual Escócia. O objectivo não era fechar a fronteira mas sim controlá-la, já que, embora existisse uma forte guarnição militar nos vários fortes, fortins e torres da muralha, havia pontos de passagem que permitia a circulação de pessoas e bens.
Construída em apenas 6 anos pelos legionários, esta muralha iria para sempre moldar a paisagem do Norte de Inglaterra, sendo hoje considerada Património Mundial integrada no grupo "Fronteiras do Império Romano", juntamente com as fortificações que hoje se encontram na Alemanha.

A partir da próxima Segunda-feira iniciamos a aventura de percorrer a pé os 140km do trilho da Muralha de Adriano durante 6 dias. Vai ser uma viagem pelos trilhos da História, visitando aldeias, ruínas, escavações e museus que a Muralha guarda ainda.

Acompanhem tudo, aqui no Blog do Katano!


quarta-feira, junho 05, 2013

A não perder! Festa da Cereja 2013


É já depois de amanhã que tem início mais uma edição da Festa da Cereja, um evento que se tornou já uma referência a nível nacional e no qual a Cereja do Fundão é rainha.

Ao longo de 4 dias, a aldeia de Alcongosta transforma-se para acolher os milhares de visitantes que aí poderão encontrar muita música, animação e tasquinhas com inúmeras iguarias sem qualquer respeito por dietas (como o genuíno pastel de cereja do Fundão) e um verdadeiro caleidoscópio de licores (vale a pena recordar as imagens das festas anteriores clicando aqui e aqui).

O genuíno pastel de cereja do Fundão

Receita original da Escola de Hotelaria e Turismo do Fundão, pois claro!

Mas nem só de sabores e música se vai fazer a Festa da Cereja. Na manhã de Domingo haverá um passeio pedestre que, ligando partindo do Fundão, permitirá aos participantes percorrer o belíssimo vale do Alcambar, por entre pomares de cerejeiras -a página do evento no Facebook pode ser visitada clicando aqui- e, em paralelo, irá decorrer um passeio fotográfico na zona de Alcongosta. A página deste último evento pode ser visitada clicando aqui.



Como sempre, a organização disponbiliza um serviço de transporte por autocarros, a partir do Fundão e a partir de uma zona de estacionamento junto a Alcongosta a preços simbólicos. Já agora, a CP também disponibiliza um pacote especial de transporte pela linha da Beira Baixa, o comboio da cereja, que, para além da viagem em si, inclui ainda alguns extras (ver aqui).

Em suma, não há desculpas para não ir, pois não?

PROGRAMA

Sexta-feira, 7
18.00h  Inauguração
Animação de rua – Grupo de Bombos de Alcongosta, Grupo de Bombos das Donas; Grupo de Bombos da Casa do Povo do Souto da Casa, Grupo de Cantares Ponto e Linha e Pifaradas do Álvaro – Unhais da Serra.

Sábado, 8
15.00h  Ateliers Petits Chefs
16.00h  Live-cooking Chef Nuno Bergonse
17.00h  Live-cooking Chef António Melgão
22.00h  Concerto Pensão Flor
Animação de rua – Tuna da Academia Sénior do Fundão, Grupo de Bombos do Alcaide, Grupo de Bombos da Barroca, Grupo de Cantares Nossa Senhora do Mosteiro do Freixial, Grupo de Cantares da Escola Secundária do Fundão, Grupo de Bombos dos Três Povos e Grupo de Bombos da Associação de Cultura e Lazer S. Sebastião – Barco.

Domingo, 9
9.00h    Passeio Pedestre na Rota da Cereja 
15.00h  Ateliers Petits Chefs
17.00h  Live-cooking Chef Nuno Bergonse e Chef Miguel Laffan
18.00h  SOMBRAS – Teatro de sombras para famílias
22.00h  Concerto Melech Mechaya
Animação de rua – Grupo de Cantares de Santo André, Folia Talabara – Bombos da Capinha, Grupo de Bombos da Fatela, Grupo de Cantares Associação de Solidariedade de Silvares, Grupo de Bombos do Paço – Canas de Senhorim, Grupo de Bombos Pedra e Racha – Nogueira de Cravo, Grupo de Estrelas da Gardunha e Associação de Acordeonistas da Beira Baixa.

Segunda-feira, 10
Animação de rua – Fanfarra dos Escuteiros – Valverde, Grupo de Cantares dos Três Povos, Grupo de Bombos do Castelejo, Grupo de Cantares da Barroca e Associação Cultural e Recreativa Bombos de S. Tiago (Vila Nova de Cerveira).
15.00h  Ateliers Petits Chefs
16.00h  Live-cooking Chef Miguel Laffan

16.00h  Concerto de encerramento – Banda Filarmónica Silvarense


sexta-feira, maio 31, 2013

Resumo da semana numa só imagem


Clicar para ampliar.

E aquela do sujeito que tocou guitarra enquanto era operado ao cérebro?

Nos tempos áureos da televisão analógica, a família costumava-se reunir à volta da caixinha mágica para visionar os programas de entretenimento que aí eram transmitidos. No entanto, nem tudo era assim tão passivo à volta do televisor. Havia um outro momento que agregava a família numa actividade bem mais agitada, que obrigava a algum trabalho de sincronização. Estou a falar, claro, do momento em que o chefe de família, a pessoa que, não sabendo o que era isso dos transístores percebia imenso de electricidade e electrónica, subia ao telhado para ajustar a orientação da antena, operação obrigatória após um grande vendaval ou uma mudança de emissor. No piso inferior, o resto da família formava um cordão humano de transmissão de informação que reportava para o telhado se as alterações na orientação da antena surtiam o efeito desejado. "Está pior! Agora está melhor! Melhor! Está bom!".

Foi basicamente isto que a equipa do Centro Médico da Universidade da Califórnia fez há dias durante uma operação a uma paciente chamado Brad Carter, cuja actividade de guitarrista fora seriamente limitada pela doença de Parkinson. O objectivo da operação foi a instalação de um pacemaker para controlar os tremores decorrentes da doença. Durante a cirurgia Brad manteve-se sempre consciente e, para os médicos poderem avaliar se a operação estava a surtir o efeito desejado, foi tocando guitarra enquanto lhe instalavam os eléctrodos no cérebro.

Vale mesmo a pena ver o vídeo da operação:





As melhoras, Brad!

quarta-feira, maio 29, 2013

Anexo SS, o anexo obrigatório que muitos trabalhadores independentes não incluíram na sua declaração de IRS!


Fiquei hoje a saber pelo Facebook que todos os trabalhadores independentes são obrigados a entregar com a sua declaração de IRS um novo anexo, o anexo SS. Trata-se de um anexo criado pela portaria 103/2013 de 11 de Março (ver aqui) que se destina a incluir na declaração de IRS uma declaração que, até agora, era entregue à própria Segurança Social até ao dia 15 de Fevereiro, destinada a declarar o valor dos rendimentos obtidos no ano anterior. Quem não entregar a declaração de IRS com este anexo SS até ao final do prazo, ou seja, até dia 31 de Maio, terá de pagar uma coima de 50 euros.  

Contudo, aquilo que é declarado neste novo é anexo é basicamente aquilo que já era até agora expresso na declaração de IRS, especificamente nos quadros 4 e 7 do já familiar anexo B! Ainda assim, para disfarçar um pouco o facto de se estar e preencher duas vezes a mesma coisa, enquanto no anexo B se discriminam os impostos retidos por cada uma das entidades às quais se prestaram serviços, no novel anexo SS obriga-se a discriminar o valor dos rendimentos obtidos junto de cada uma dessas entidades. Sucede que a relação entre estes dois valores pode ser obtida pelo recurso a uma simples calculadora e nem sequer tem de ser científica, o que leva à questão: para que servem os sistemas informáticos do Estado? Se a Autoridade Tributária e a Segurança Social são ambas parte do Estado, por que motivo tem de ser o contribuinte a assegurar a comunicação entre ambas, sobretudo em algo tão simples de obter por cruzamento de dados (com uma conta pelo meio)?

Os mais ridículo desta situação é que, tendo obrigatoriamente de ser entregue por via electrónica, quando se submete uma declaração de IRS sem este anexo, que -repito!- é obrigatório, não só o sistema de validação não dá qualquer erro como, passado algum tempo, a Autoridade Tributária tem a amabilidade de enviar uma mensagem como esta:  "A declaração de IRS entregue em 2013-05-03 01:03:09, foi considerada certa após validação central.". Tendo em conta que um alerta para anexos em falta não seria nada complicado de implementar, alguém poderá censurar que se diga que isto parece uma tentativa subtil de amealhar "uns trocos", através das coimas aplicadas aos contribuintes menos avisados? Mais ainda se tivermos em conta a quantidade de notícias que nas últimas horas foram publicadas sobre o assunto e que motivaram até, da parte da Segurança Social, a necessidade de publicar uma nota oficial de esclarecimento.


Enviei a minha declaração de IRS sem anexo SS. O que devo fazer?
Quem já tiver enviado a declaração sem esse anexo, pode e deve enviar uma declaração de substituição. Se o fizer até ao próximo dia 31 de Maio não pagará multa. Pode-se usar a aplicação disponível no portal da Autoridade Tributária e, na abertura da mesma, escolher a opção "Declaração pré-preenchida ou anteriormente submetida". Bastará depois acrescentar e preencher o anexo SS, submetendo depois esta nova (e agora sim completa) a declaração. É de salientar que, sendo uma obrigação para todos os trabalhadores independentes, até mesmo para os que também são em simultâneo trabalhadores dependentes, estes últimos não precisam de preencher o quadro 6 do anexo, precisamente aquele onde se discriminam as entidades às quais se prestaram serviços.

O único problema é que, com uma declaração de substituição, os processos de reembolso voltam à estaca zero.

Uma situação já vista
O caso deste anexo SS (Super Secreto como o apelidou a minha estimada Cristina Pinto) levou-me a recordar o triste caso da declaração anual de IVA, que andou nas bocas do Mundo em 2008 (ver aqui). Esta declaração não implicava mais do que o somar dos valores que tinham sido já declarados às Finanças ao longo do ano e também ela era obrigatória, apesar de pouca gente o saber. Na altura, a contestação provocada por tamanha estupidez levou a que a sua obrigatoriedade fosse descartada para a grande maioria dos trabalhadores independentes e ainda à devolução do valor das coimas entretanto cobradas a quem tinha prevaricado. Mas claro, só àqueles que tinham formalmente exigido essa devolução.

Actualização (30-5-2013, 21:50)
Perante a contestação que se fez sentir relativamente a esta pouco divulgada nova obrigatoriedade, o Governo irá prolongar o prazo para de entrega do anexo SS até 30 de Junho. Esta medida não se aplica no entanto à declaração de IRS que continuar a ter de ser entregue até ao final deste mês.


terça-feira, maio 28, 2013

31km a pé pela Gardunha!

A festa de Nossa Senhora da Orada, que acontece sempre no 4º Domingo de Maio, foi em tempos o foco de uma das romarias mais importantes da região, levando a este pequeno recanto da Serra da Gardunha inúmeros fiéis. Pelos trilhos da serra, os romeiros convergiam até ao santuário da Senhora da Orada, local reputado não só pelo milagre que teria estado na base da própria construção da ermida, mas também pela água que ali brota numa fonte, reputada de milagrosa e associada ao relato de várias curas prodigiosas. Disto falarei num próximo artigo.

Numa iniciativa "2 em 1", que serviu de continuação da preparação para o desafio que nos espera já daqui a menos de duas semanas e ainda para evocar a memória da importância desta romaria na tradição e no imaginário lendário da Serra da Gardunha, partimos da aldeia de Alcongosta, num percurso de ida e volta que nos levou a percorrer mais de 30km.


A primeira parte do percurso fez-se pela PR1 - Rota da Cereja, subindo depois até à Penha onde se fez uma primeira pausa para retemperar forças e admirar a paisagem. Uma subida pela escadaria talhada na própria rocha, por cima da famosa "gruta", permite uma excelente vista a 360º. 


Panorâmica do troço realizado, entre o posto de vigia e a Penha...


... e o troço que se segue, na continuação da crista granítica da Gardunha.

Após algumas centenas de metros, o percurso passou a ser feito por corta-mato, seguindo a linha cimeira do maciço central da Gardunha, rumo ao ponto mais elevado desta serra. Trata-se de um percurso extremamente fácil, onde as zonas planas e floridas alternam com os blocos de granito.


Rumo ao topo!


Ao longe, a Estrela (ainda com neve) parece olhar com inveja para o colorido da Gardunha.




O ponto culminante da Serra da Gardunha que, não sei bem porquê, me faz lembrar a aldeia histórica de Monsanto. A mente humana às vezes tem destas coisas.


9km depois do ponto de partida, chegámos ao cume da Serra da Gardunha. Aproveitando a pausa, discutiu-se o caminho a seguir: descer rumo a Castelo Velho e Casal da Serra ou descer para a vertente NO, rumo à Portela. Ganhou a segunda opção, não porque tivesse menos 4km que a primeira mas porque (e a partir de agora escrevo com indignação digital) "o Benfica jogava a partir das 17h".

Passadas os primeiros momentos de dificuldade em o encontrar, acabámos por descobrir o caminho certo escondido entre giestas frondosas. A partir daí, sucederam-se vários quilómetros onde a paisagem estava toda vestida de amarelo, pontilhada aqui e ali por manchas violeta de rosmaninho.



Parte do grupo perdido num mar amarelo, indiferente aos indignados apelos à continuação do percurso por parte da falange benfiquista da comitiva.

O rosmaninho quebra a monotonia da paisagem pela cor e pelo aroma inconfundível.

Finalmente, depois de um rápido reabastecimento de água na nascente do Ribeiro Frio, chegámos à Portela, encruzilhada a partir da qual parte a calçada antiga que desce até à Senhora da Orada. Diz a tradição popular que esta calçada demorou apenas uma noite a ser construída pelo mais improvável dos empreiteiros. Vale a pena recordar a lenda clicando aqui.

A calçada que há alguns anos foi enterrada vai aos poucos voltando à superfície.

Meia hora depois, cerca de 15km após o início do percurso, atingimos finalmente a ermida da Senhora da Orada onde assistimos na primeira pessoa ao milagre da regeneração energética que uma série de belas bifanas bem regadas operou em nós. Para mim o regresso a esta festa teve um significado especial pois já aqui não vinha havia mais de 25 anos.

Depois do almoço, fizemos um pequeno percurso pelo recinto que, diga-se de passagem, é um sítio belíssimo e muito bem cuidado. Como é óbvio matou-se a sede na fonte santa mas, infelizmente, por desaprovação geral, não cumpri um dos objectivos: o de mergulhar a carteira na água para verificar até que ponto esta é mesmo milagrosa.


O rancho folclórico de São Vicente da Beira diante da ermida


Dentro do santuário, perfilam-se vários ex-votos, figuras de cera que representam graças recebidas e fecham o ciclo de uma promessa feita à Senhora da Orada. Representam o objecto da graça pedida e concedida pela Santa: a cura de uma criança ou de uma parte do corpo.


Quantas recordações de romarias passadas haverá neste olhar?



A Senhora da Orada é objecto de um carinho especial por parte da população das redondezas. 


Há uma parte importante da tradição que se mantém. As famílias levam consigo as merendas e algumas acampam autenticamente no local, quer imediatamente à volta do santuário, quer nos campos circundantes.

Aqui o grupo separou-se. Maior parte regressou de carro ao Fundão mas ainda houve quem decidisse regressar a pé, subindo de novo rumo à Portela para daí descer ao longo da ribeira do Tormentoso, rumo a Casal de Álvaro Pires e, pela Rota dos Moinhos, rumo ao Souto da Casa.


Um olhar para trás mostra o vale do Tormentoso imerso também ele em amarelo.


Após vários quilómetros, finalmente o Souto da Casa surgiu no horizonte. O pior foi ter a noção que se iriam seguir alguns quilómetros de subida acentuada.

A partir do Souto da Casa, a estrada asfaltada que leva a Alcongosta foi descartada pelo desgaste que este tipo de piso provoca. A opção recaiu sobre o caminho que sobre rumo ao Picoto, local onde durante uma pausa fomos informados de resultados desportivos que nos levaram a endereçar um pensamento solidário para com alguns companheiros de caminhada que haviam regressado de carro.

O Picoto acaba por ser um local interessante, tanto pela vista que daqui se alcança como pelo facto de se tratar de um local de interesse arqueológico, provavelmente relacionado com o castro de São Brás cujas ruínas estão bem próximas.

Após 1km, o percurso acabou mesmo por ter de ser feito pela estrada, por entre pomares de cerejeira a perder de vista, até Alcongosta, a capital da cereja. 


Sobre os pomares, o céu apresentava um aspecto interessante


No meio de um vale cheio de cerejeiras, eis Alcongosta!

sexta-feira, maio 24, 2013

Palavras de Miguel Sousa Tavares foram inspiração de São Gens

Está a fazer furor a entrevista de Miguel Sousa Tavares ao Jornal de Negócios, hoje publicada, na qual o escritor comparou o presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, a um palhaço. Na entrevista, centrada no seu último livro intitulada "Madrugada Suja", MST referiu a dada altura que 

"O pior que nos pode acontecer é um Beppe Grillo, um Sidónio Pais. Mas não por via militar. Nós já temos um palhaço. Chama-se Cavaco Silva. Muito pior do que isso, é difícil.".

Quem não achou piada a isto foi o próprio Cavaco Silva, tendo já solicitado à Procuradoria Geral da República que analise as palavras do escritor à luz do artigo 328º do Código Penal, que prevê penas de 6 meses a 3 anos e multa não inferior a 60 dias para quem injuriar o Presidente da República por escrito.

Esta situação acaba por ter o seu quê de ironia e até de injustiça visto que, antes de eventualmente ter sido injuriado por MST, Cavaco Silva tinha vindo já a realizar um trabalho deveras interessante no que diz respeito ao denegrir a imagem da Presidência da República aos olhos dos portugueses. 

Há no entanto outra questão que Aníbal Cavaco Silva parece estar a desconsiderar e que é a possibilidade de intervenção divina neste caso. Se o resultado da 7ª avaliação da Troika foi, segundo ele, inspiração de Nossa Senhora de Fátima, quem nos garante que esta declaração de Miguel Sousa Tavares não terá sido inspiração de São Gens (de Roma), o santo patrono dos actores, músicos, humoristas, advogados (!!!) e... palhaços?

Imagem: Histórias com Carlitos

terça-feira, maio 21, 2013

Câmaras captam o momento em que um cão é encontrado nos escombros pela sua dona (Vídeo)

Ninguém ficou indiferente às notícias da destruição, causada ontem por um tornado, na cidade estado-unidense de Oklahoma. Estima-se que o tornado terá tido um diâmetro de 3 quilómetros e que a velocidade do vento terá ultrapassado os 320km/h, tendo ficado no limiar da classificação F5, o nível máximo na escala de Fujita, tendo causado mais de 90 mortos, para além de incalculáveis estragos materiais.

No entanto, em cenários catastróficos como este, há sempre sempre pequenos episódios que servem para reacender a esperança e o moral de quem sobreviveu à tragédia. Este é um desses casos. É esse o caso uma mulher idosa que se refugiou na casa de banho com o seu cão, aparentemente a sua única companhia, e que o perdeu quando a casa se desfez à sua volta. Enquanto relatava a experiência a uma equipa de televisão, eis que o cão é encontrado ainda vivo no meio dos escombros. Vale a pena ver!


(Clicar na imagem)


O trauma dos tornados de 1999

De acordo com as estatísticas, Oklahoma é a cidade anualmente mais atingida por tornados nos Estados Unidos. Para a história ficou o ano de 1999 quando a região foi atingida por nada menos que 66 tornados, tendo o momento mais crítico sido o período de 3 dias entre 3 e 6 de Maio, no qual se registou um tornado de nível F5, com ventos de velocidade superior a 500km/h! Curiosamente, o número de vítimas mortais foi significativamente mais baixo, tendo-se cifrado em 50 mortos.

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