quinta-feira, maio 02, 2013

Pelos trilhos dos Pirinéus - I

Dois anos depois, voltámos aos Pirinéus para uma breve mas proveitosa estadia, passada a percorrer trilhos belíssimos ofuscados aqui e ali pela brancura da neve, a provar a gastronomia local e ainda a descer às entranhas negras das montanhas para admirar obras de arte com dezenas de milhares de anos.

A viagem até ao vale de Vicdessos (talvez uma das regiões menos conhecidas dos Pirinéus e, por isso mesmo, pouco concorrida), foi feita de carro em absoluta tranquilidade. Como sempre acontece, detivemo-nos na histórica localidade de Tordesilhas, onde Portugal e Espanha tiveram a ousadia de dividir o Mundo (ler aqui) para um café na agradável Plaza Mayor.


Vista parcial de Tordesilhas, com as Casas do Tratado em destaque (ler aqui)


La Plaza Mayor!

Com uma hora perdida na linha invisível que separa Vilar Formoso e Fuentes de Oñoro e com a viagem feita em ritmo calmo, chegámos a Vicdessos já perto das 21h, a tempo de um belo jantar de reencontro com algumas caras que a saudade não deixara esquecer. O primeiro passeio, para desentorpecer as pernas, ficaria para o dia seguinte, após uma manhã de sono para recuperar do car lag.

Se por um lado o tempo estava excelente, por outro a neve que se via nos montes mais altos à volta liquidava à partida as intenções de fazer caminhadas em altitudes maiores, agravado ainda pelo risco de avalanches (vimos os vestígios de algumas ao longe), como a que tínhamos planeado no trilho do Caminho da Liberdade, até aos destroços de um bombardeiro Hallifax III inglês da II Guerra Mundial. Paciência!



Vista de Vicdessos e, à direita, da parede quase vertical do Pico do Risoul



Rua Principal de Vicdessos, guardada pelo Risoul. Nesta parede vertical existe um percurso-aventura, uma Via Ferrata onde, segundo nos disseram, já foi necessário ir buscar alguns aventureiros psicologicamente menos bem preparados com um helicóptero.


Ao lado de Vicdessos, na localidade de Auzat, a memória da indústria do alumínio ainda está bem viva num percurso de memória implementado no local. Vale a pena recordar a história aqui.



Pormenor de um telhado tradicional de pequenas telhas planas de lousa

Finalmente chegou o dia de fazer uma caminhada mais a sério, tendo o percurso escolhido sido o da "Soulane de Vicdessos", a vertente Sul do vale que tem normalmente uma exposição solar 8 vezes superior à da vertente Norte, com os devidos reflexos no povoamento e na vegetação. O percurso começou ao longo do pequeno rio que tem o nome da povoação de Vicdessos, antes de iniciar a subida para os 1.000 metros, cota ao longo da qual se dispõem na encosta 4 aldeias: Illier, Orus, Sentenac e Suc.

O percurso pela vertente Sul do vale, num total de cerca de 16km.



Momento de pose junto ao Vicdessos.

Restos de uma ponte após a aldeia de Arconac. Resultado da guerra, da velhice ou de uma cheia?


A subida até à aldeia de Illier fez-se por um trilho com calçada muito rudimentar, numa floresta que, como é regra nesta altura do ano, é atravessada por vários cursos de água resultantes do degelo nas montanhas. Após algumas subidas mais puxadas, chegámos finalmente à pequena aldeia de Illier, organizada no flanco da montanha, à volta de uma rua irregular.

Início da subida. O trilho 




Vista parcial (mas quase total!) de Illier onde avistámos um único indivíduo que, a julgar pelas bagagens, estava apenas de passagem.

Retemperados pela água fresca da fonte que encontrámos em Illier, seguimos pelo trilho de uma Grande Rota em direcção a Orus. Este troço em particular é tradicionalmente conhecido como o Caminho dos Nobis (Noivos). Devido à rivalidade entre povoações, quando alguém de uma aldeia se casava com alguém da outra, gerava-se uma situação algo delicada pois a escolha do local da cerimónia era sempre motivo de acesa discussão e, por vezes, de confronto físico. Assim sendo, determinou-se que os noivos se passassem a casar no caminho entre Orus e Illier, junto a uma cruz que ainda ali se encontra. Pelo que verificámos, a população de Orus conseguiu ainda assim puxar a brasa à sua sardinha, já que a cruz se encontra muito mais perto desta aldeia do que da aldeia rival

Curiosa coincidência: neste altar encontrámos um recipiente de um jogo semelhante ao Geocaching: as "cistes". Neste jogo usam-se pistas e não coordenadas GPS como no primeiro.



A cruz junto à qual, segundo reza a tradição, se realizavam os casamentos entre pessoas que não eram da mesma aldeia. 



Mais perto de Orus, encontra-se um enorme moinho abandonado mas que dá mostras de ter sido usado ainda durante o último século.


Uma inscrição na fachada principal, feita por alguém que fazia um uso algo original da escrita, que denuncia a idade do moinho: 173 anos.



Ao longe, a Ponta de Prata (2654m) destaca-se na paisagem. À direita, coberto de neve, encontra-se a passagem que percorri há dois anos para chegar a Bassies (recordar aqui).


Finalmente chegámos a Orus. Aparentemente, existe aqui um pequeno estabelecimento comercial mas, sendo Segunda-feira, estava encerrado. Cruzámo-nos aqui com alguns habitantes bastante simpáticos e, o que surpreendeu mais, foi mesmo o facto de se encontrarem várias portas e janelas escancaradas, denotando um sentimento pouco comum de segurança. Reabastecidos os cantis, continuámos em frente, deixando Orus para trás.

A praça principal da aldeia permite o estacionamento de até 4 automóveis, tem um telheiro "multifunções" sob o qual se abrigam um banco, uma caixa de correio e um telefone público sobre o qual se encontravam duas listas telefónicas.


Chegada a Orus

O centro nevrálgico de comunicações da aldeia!



... e a aldeia já lá para trás.

O percurso após Orus faz-se por uma encosta sem vegetação e que oferece uma vista privilegiada para a confluência de vales em Auzat. É também um desafio para quem tiver problemas com alturas pois fica a sensação que, com uma escorregadela, se apanha um atalho rápido para o fundo do vale! 

"Faz de conta que isto é um caminho como outro qualquer..."


Mais à frente chega-se a Sentenac, uma aldeia um pouco maior que as anteriores, na qual se cruzam alguns trilhos, sendo que o nosso percurso nos levou a atravessar toda a povoação.




Vista geral de Sentenac.


Trilhos à escolha!


Uma fonte tão rudimentar quanto fresquinha que encheu os cantis.

O curto percurso até à aldeia seguinte, Suc, foi feito por estrada de alcatrão e, não sendo propriamente um percurso interessante, serviu para mostrar que, à semelhança do que acontece em Portugal na época dos míscaros amarelos, por esta altura do ano são muitos os carros estacionados à beira da estrada que denunciam a "febre" das Morchellas esculentas, os cogumelos aqui conhecidos como "morilles".

Já a aldeia é bastante maior e mais animada que as anteriores. Entre muitas árvores, está rodeada de cerejeiras bravas, que pintam a paisagem de branco, fazendo concorrência à neve das cotas mais altas.

Vista geral de Suc.

Um dos cantinhos da aldeia. Os lírios foram uma visão frequente não só aqui mas como em todo o percurso.

Em Suc, parece haver tendência para meter atrás das grades aqueles que maltratam animais, mesmo que se trate de São Jorge, um santo tão popular na vizinha Catalunha (daí o Sant Jordi) que lhe é dedicado um feriado.

Após um pequeno circuito, regressámos a Sentenac, iniciando a descida de regresso ao ponto de partida. Este troço iria valer-nos algumas surpresas muito agradáveis, começando pela pequena igreja românica junto ao cemitério, bordejando o trilho.

A pequena igreja românica nas descida para Vicdessos.

Um pouco mais à frente, uma olhadela fortuita descobre um pequeno ponto amarelo claro no meio da vegetação. Um dos tão procurados "morilles"!! Antes que alguém pudesse dizer "O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia, quando este estava distraído a comer morilles", já o cogumelo estava apanhado. Olhando em volta, logo surgiram mais três. Juntamente com alguns outros que os nossos anfitriões tinham entretanto apanhado, iriam servir para um delicioso jantar!


Ao ataque! 



Missão cumprida!


Estes cogumelos têm como características distintas o seu chapéu cheio de alvéolos e ainda o facto de serem completamente ocos, tanto na zona do chapéu como do pé. Outro pormenor de grande importância é o facto de só poderem ser consumidos depois de cozinhados uma vez que, quando crus, contêm hemolisina, uma substância que destrói os glóbulos vermelhos! Garanto-vos no entanto que são dos melhores cogumelos que já comi.

Regressando triunfantes a Vicdessos, encontrámos logo à entrada da povoação um graffitti que expressa a singularidade cultural da região, por vezes integrando um certo sentimento residual de auto-determinação. Trata-se de uma alusão à "Língua de Oc" ou Occitano, uma língua muito semelhante ao catalão falada no Sul de França, a "Occitania" como muitos defendem. 

É falada actualmente apenas por menos de 2% da população francesa e chegou a estar em vias de desaparecimento, embora nos últimos tempos se estejam a levar a cabo algumas medidas, tímidas é certo, de preservação. É por isso que hoje em dia ainda há quem diga que "aici se parla occitan, la lenga nostra !".



Continua

quarta-feira, abril 17, 2013

Já olharam bem para as notas que têm na carteira?


Quando há alguns dias atrás pagava a minha despesa num café, o empregado que me atendeu chamou a minha atenção para o facto de a nota de 5 euros com que eu pretendia pagar ter num dos cantos duas pequenas manchas de tinta cor-de-rosa. -"Olhe que eu acho que esta nota está tintada.", disse-me ele. Embora tenha acabado por aceitar a nota, dado que as manchas era tão pequenas que levantavam muitas dúvidas sobre se realmente estariam tintadas, esta chamada de atenção revelou-se extremamente pertinente. Mas o que são afinal notas tintadas?

Muitas caixas de multibanco estão actualmente equipadas com sistemas de segurança que, em caso de abertura forçada, inutilizam as notas com recurso a tinta, geralmente magenta. As notas tingidas ficam desta forma marcadas e, de acordo com as regras não podem ser aceites como forma de pagamento, dado que serão o produto de um assalto a uma caixa multibanco.



O que se deve fazer perante notas tintadas?

Em primeiro lugar as notas tintadas não podem ser aceites como meio de pagamento. No entanto, caso tenhamos recebido uma nota e não tenhamos reparado que a mesma estava tintada, o passo seguinte será entregá-la a uma instituição bancária, Banco de Portugal ou polícia judiciária, já que estas podem ser pistas que levem à detenção dos assaltantes (A título de exemplo temos o caso de um indivíduo estado-unidense que, depois de ter assaltado uma caixa multibanco, decidiu ir investir o produto do roubo num espectáculo performativo de striptease [ver aqui]). Os bancos poderão depois trocar as notas tintadas por notas válidas, devendo a pessoa que as entregou preencher um formulário com a sua identificação.

E vocês? Já verificaram se têm alguma nota tintada na carteira?


sexta-feira, abril 05, 2013

Estranho fenómeno da natureza. Será coincidência?


Universidade Lusófona, 4 de Abril de 2013, poucas horas após o anúncio da demissão de Miguel Relvas. Sim, o raio não acertou no edifício da universidade mas sim no prédio ao lado mas nós damos-lhe equivalência.

Foto original: Wikipédia

segunda-feira, abril 01, 2013

O Trilho dos Canos de Água (PR9)

Aproveitando a estadia em Viana do Castelo e um Sábado com condições climatéricas extremamente favoráveis, decidimos trocar o binómio pós-almoço do café e jornal por uma caminhada pelo PR9, o Trilho dos Canos de Água.


Trata-se de um trilho pedestre circular, com uma extensão de 10km, que tem início e fim junto à Basílica do Sagrado Coração de Jesus, no monte de Santa Luzia sobranceiro à cidade de Viana do Castelo, percorrendo os montes próximos e tendo o seu extremo mais a Norte na passagem pela aldeia de São Mamede.

Como 10km era nitidamente coisa "para meninos", decidimos incrementar um pouco a dificuldade do percurso, começando a caminhada na cidade e subindo até ao monte de Santa Luzia pelo escadório. Foi uma proeza tremenda mas, aqui entre nós, eu acho tanto degrau junto deve ser contra a lei e talvez até contra a Convenção de Genebra e o memorando da Troika.


O escadório é acompanhado por uma caleira de água e segue paralelo à linha do funicular de Santa Luzia. Segundo fontes não confirmadas, durante a subida e impressionado com tanto degrau, um dos participantes terá afirmado: "Fico neste degrau. Deixem aqui um ramo de flores todos os anos nesta data."



No topo do escadório, que a partir de certa altura adopta bem a propósito o nome de Calvário, encontra-se uma cabine desactivada do funicular. Ali mesmo ao lado encontra-se a estação de topo e, com a inevitável imagem de grandiosidade, a Basílica. 



Partindo do painel de início do trilho, chega-se a uma bifurcação na qual optámos por tomar a via da esquerda. O trilho segue por um caminho de terra batida, entre vegetação frondosa. O único senão foram 3 motoqueiros que por ali faziam motocrosse e que não consegui fulminar com o olhar. Ficou pois no ar durante algum tempo o cheiro a combustível queimado.





Ao longo do percurso, o trilho cruza-se com várias calçadas que partem pela encosta para rumo incerto. Segundo fonte ligada à Câmara Municipal de Viana do Castelo, muitas destas calçadas serão da altura da Regeneração, no século XIX, quando Fontes Pereira de Melo, então ministro das obras públicas, implementou um programa de fomento de construção e melhoria de infraestruturas viárias. Mas serão todas?  Convém não esquecer que existiu no monte de Santa Luzia um grande povoado que foi romanizado. 


Ao fim de algum tempo, descobre-se o início da razão de ser deste trilho: as múltiplas canalizações da zona da Areosa que abastecem de água a cidade de Viana. Chegamos aos arcos de Fincão, dois arcos de aqueducto paralelos por entre os quais segue o trilho. Verdade seja dita, o que por ali não faltava era água, devido às chuvas dos últimos dias.







A partir dos arcos, eis algo completamente diferente: o percurso passa a ser feito sobre as antigas canalizações de granito até perto da aldeia de São Mamede.




O percurso passa por vários locais que têm um problema que é o seguinte: a humidade. Ora, falar de humidade é falar de cogumelos. Pois bem, cá estão eles:




De quando em vez, pelo meio da vegetação (e quando o nevoeiro desta vez o permitiu) é possível avistar o mar para lá da veiga da Areosa.



Mas nem só de caminhada se faz o percurso. Os praticantes de geocaching também têm com que ficar de barriga cheia.


Mais à frente, constata-se que é necessária a intervenção de um canalizador, visto que o excesso de água que circula dentro dos canos escapa por uma das tampas mal seladas. Senhores dos Serviços Municipalizados, aqui fica o apelo.



A dada altura, um pouco para lá do Alto do Melro, o cano de água chega ao fim, perdendo-se numa galeria mais larga que entra terra a dentro. Com ele termina também a vegetação frondosa que nos acompanhava deste o início do trilho. O local é interessante: muita água, uma paisagem que seria excelente não fosse o nevoeiro tapar-nos as vistas e uma azenha antiga que merece uma vista de olhos.







Já perto da aldeia de São Mamede, encontrámos um pacífico grupo de garranos pastando em liberdade. Dos quatro exemplares, só um pareceu mais incomodado com a presença da objectiva. Esta parte do percurso é feita novamente por alcatrão.



A aldeia de São Mamede encanta pela paz que aqui se vive. A quietude do local apenas foi quebrada por um simpático cão que decidiu acompanhar-nos na caminhada e pelos gritos da criança que, de uma janela longínqua, chamava desesperadamente por ele.








Após algum tempo, abandonamos finalmente o alcatrão e regressamos ao caminho de terra batida que atravessa a crista da serra. No caminho encontramos a peculiar Casinha dos Aviões, à qual o nevoeiro dava um ar fantasmagórico. Trata-se de uma construção inacabada que foi erguida durante a II Guerra Mundial para controlar o tráfego aéreo. Infelizmente para o empreiteiro, o conflito mundial acabou entretanto e a construção nunca foi terminada, encontrando-se hoje algo degradada. Ainda assim, vale a pena subir até ao alto da torre para contemplar a paisagem da foz do Lima, ou pelo menos assim o presumo dado que o nevoeiro nada deixou ver.






Pouco depois, nova calçada. Esta de construção muito mais cuidada do que as outras, deixando supor uma datação mais recente. Foi o prelúdio do regresso à estrada asfaltada que, passando pelo Campo de Tiro Militar, nos levaria de volta ao ponto de partida, passando pela torre de água e pela Citânia de Santa Luzia.


Feito o percurso, podemos dizer que este é um trilho interessante. Está bem sinalizado, é de baixa dificuldade e muito calmo. É  possível conhecer graças a ele alguns "cantinhos" mais escondidos dos montes à volta de Viana do Castelo. Só é pena ter alguns troços por asfalto. Há muito pouco trânsito nesses troços, é certo, mas podendo-se evitar será melhor. Por outro lado, os pés agradecem.

sexta-feira, março 29, 2013

Viana do Castelo em tons de Páscoa

A chuva finalmente parou, permitindo-me dar uma volta pelas ruas de Viana do Castelo. Foi uma simpática trégua meteorológica, sobretudo se tiver em conta o verdadeiro dilúvio que ontem complicou -e de que maneira!- a viagem. Ao passar pelo Porto, logo a seguir à ponte da Arrábida, podia até jurar que fomos ultrapassados por um dos submarinos Trident da marinha Portuguesa, mas como saiu logo a seguir para Campo Alegre, não pude confirmar qual deles era.

Por Viana, as ruas estão preenchidas pela azáfama de preparação da Páscoa, vendo-se a cor violeta um pouco por todo o lado. Deste passeio, que contou com uma pausa estratégica na lendária Confeitaria Natário, aqui ficam algumas imagens.

Num dos cantos da magnífica Praça da República, o edifício da Misericórdia e o antigo edifício dos Paços do Concelho, no qual está actualmente patente uma interessante exposição dedicada a António Manuel Couto Viana, servem de portal para a emblemática Rua da Bandeira.


Uma perspectiva diferente da Praça da República, a partir das varandas dos antigos Paços do Concelho.

A Ponte Eiffel, pela hora do lusco-fusco.


quinta-feira, março 28, 2013

Sócrates, o regresso de D.Sebastião (mas ao contrário)

Não assisti à entrevista que na noite passada mobilizou as atenções do país. Não o fiz simplesmente porque nada do que o ex-Primeiro-Ministro pudesse ter dito ou deixado de dizer me interessava. Ouvi tudo o que tinha de ouvir do cidadão José Sócrates durante o tempo em que governou Portugal, período para o qual até contribuí ao votar nele. Agora dêem-me licença que vou fazer uma pausa na escrita para ir ali fustigar-me a mim próprio com esta vareta. (...)

De Sócrates ouvi a declaração "oficial" de início da recessão ser feita quando já todos tinham percebido que o país estava em crise, tal como depois disso ouvi várias declarações anunciando o fim oficial da crise, quando todos percebiam que ela ainda estava apenas no início. Pelo meio ouvi Sócrates dizer que era anti-patriótico falar-se sequer da crise, tentando ao mesmo tempo influenciar a comunicação social para pintar um quadro de ilusória estabilidade.


Quando a economia esteve para ser revitalizada pelo Computador Magalhães, produzido pela JP Sá Couto por contrato por ajuste directo, numa altura em que a empresa teria elevadas dívidas ao fisco. A NATO tomou então parte na conspiração para fragilizar José Sócrates ao apoiar os insurgentes líbios na deposição de Kadafi.


Assisti ao anúncio de Parcerias Público-Privadas, como as que gerem agora as ex-SCUT, estabelecidas em condições que agora se afiguram como actos de gestão danosa, embora não tão danosa como o foram para a imagem do primeiro-ministro (a imagem possível de um cidadão formado ao Domingo) as sucessivas associações do seu nome a negócios menos claros. Finalmente assisti à crescente obstinação do primeiro-ministro em não abrir a porta à ajuda externa até que, de PEC em PEC, cada um deles mais austero que o anterior, e na iminência de falência, o país foi obrigado a aceitar incondicionalmente os termos impostos pelo FMI.

Enfim...! Poderia aqui passar o resto do dia a descrever tudo aquilo que ouvi da parte do nosso ex-primeiro-ministro. Basta dizer que foi suficiente, não me apetece ouvir mais nada. Confesso que quando soube que Sócrates fora contratado pela Octapharma, por bons serviços prestados, pensei que isso significasse o direito à extensão da sua ausência da vida pública portuguesa, ausência essa que fora iniciada com a fuga estratégica para o exílio dourado de Paris. Engano meu. Aí o temos novamente para se endeusar e declarar vítima de conspirações.

Fui um dos signatários da petição contra a sua entrada como comentador na RTP e achei piada aos que brandiram o estandarte mal pintado do direito à liberdade de expressão. Violação desse direito teria sido se Sócrates tivesse pedido para falar e o tivessem silenciado, como se de uma Manuela Moura Guedes se tratasse. Não foi o caso. Sócrates não pediu para falar mas foi pelo contrário convidado a colaborar com a RTP. Ora, enquanto contribuinte que sustenta a RTP com os seus impostos e taxa audiovisual, é meu o direito de contestar as escolhas e a oferta que a televisão pública faz. Não aceito, ponto final. O Socretinismo é digno de canais privados exóticos como a TVI e não de canais cuja missão seja a de serviço público.


E os "outros"? São melhores que Sócrates?

O que eu disse atrás não significa que ache Sócrates o pior da nossa classe política. É difícil atribuir esse título num campeonato no qual jogam figuras do calibre de Sócrates, Augusto Santos Silva, Miguel Relvas, Pedro Passos Coelho, Jorge Coelho, entre outros. Neste campeonato o único derrotado é invariavelmente o cidadão comum, relegado ao estatuto de mero dado estatístico, que se deixa iludir com promessas irrealistas de políticos que se vão revezando em altos cargos e se integram em teias de clientelismos e amiguismos cujas ramificações são difíceis de perceber mas que nascem de organizações cuja sigla começa por J. 

Em Portugal a classe política segue grosso modo a mesma cartilha. Promete em campanha eleitoral os antípodas daquilo que pratica mal chega ao poder e todos os políticos se assumem como donos de uma admirável infalibilidade. Quando as medidas resultam depressa enaltecem o seu mérito mas se pelo contrário algo falha, a culpa será sempre dos que os antecederam. Por esta lógica, a culpa do cenário em que hoje nos encontrámos será portanto em última análise daquele hominídeo, indeciso entre o bipedismo e o quadrupedismo que, por meio de grunhidos e demonstrações expressivas de pujança física, conseguiu o cargo não oficial de líder do seu grupo.


* traduzido do Australopitequês


Um simultâneo Persuacção / Blog do Katano

domingo, março 24, 2013

Uma bela imagem para fechar o fim-de-semana

Serra da Maúnça vista a partir da aldeia do Souto da Casa. 

Boa semana para todos!

Uma ideia simples, inteligente e inovadora!

Ao revirar o meu arquivo fotográfico, (re)encontrei esta fotografia tirada no Sudoeste de França em 2011, mais concretamente na cidade de Pamiers (recordar aqui). Na altura acabei por não a publicar mas, como o seu contexto ainda é actual (se calhar até mais do que então), faço-o agora.



O aparato retratado na foto, que me surpreendeu pelo seu ineditismo, é nem mais nem menos que uma máquina distribuidora de leite fresco, imaginada e instalada em 2010 por Roland Chapot, um produtor local que teve esta ideia inovadora para, face à queda do preço do leite, procurar uma forma alternativa de escoar a sua produção.

Assim, todas as manhãs a máquina é abastecida com leite fresco, vindo directamente da quinta de Chapot, sendo depois distribuído como numa usual máquina de vending. Os clientes inserem na máquina a quantia de dinheiro necessária (ou cartão pré-pago) e uma garrafa de vidro é automaticamente enchida e entregue.

Numa altura em que se batalha pela regeneração do nosso sector primário e as diferentes regiões procuram escoar os seus produtos endémicos, porque não olhar para soluções deste género? As boas ideias podem e devem ser seguidas.

Um menir descoberto no Fundão?



A confirmar-se a sua autenticidade, esta será sem dúvida uma excelente notícia, não só para o conhecimento da história do Concelho do Fundão como também para o conhecimento do povoamento de há milénios atrás na Cova da Beira. Numa das suas habituais saídas de campo, o olhar atento de João Barroca, funcionário da Câmara Municipal do Fundão, recaiu sobre uma rocha com um formato peculiar, que se encontrava semi-enterrada em posição vertical na berma de uma estrada rural. 

Tratando-se de uma pessoa com um interesse muito particular pela História, como aliás é bem sabido por todos aqueles que o conhecem, de imediato achou que se poderia tratar de um menir, tendo -e muito bem!- de imediato feito chegar a informação acerca do seu achado ao Museu Arqueológico do Fundão.


João Barroca ao lado do possível menir


Cabe agora aos especialistas na matéria pronunciarem-se sobre o assunto pois, se por um lado a sua forma sugere que haverá grandes possibilidades de se tratar efectivamente de um menir, haverá ainda algumas questões a clarificar, até porque a rocha tem indícios de manipulação recente. Essa é pelo menos a opinião de Manuel Calado, arqueólogo com grande interesse pela área do megalitismo e com inúmeras obras já publicadas sobre esse tema.




Para que serviam os menires?

O seu nome deriva da associação dos termos bretões men (pedra) e hir (longa) embora também sejam chamados de perafitas em Portugal. Quanto à sua função, essa é uma questão que suscita ainda grande debate, isto apesar de estes pilares rochosos poderem ser encontrados em grande número na Europa Ocidental, estando ainda celebrizados na nossa cultura em várias formas. Quem não conhece o gaulês Obélix, inseparável amigo de Astérix, que transportava sempre consigo um menir? 

Estes marcos, erguidos no final da Pré-História (a partir do 6º milénio antes de Cristo)  destacar-se-iam sem dúvida na paisagem, servindo talvez o culto da fertilidade, para marcar território ou até para demarcar locais de culto, sendo que nestes últimos casos os menires surgem frequentemente em grupo, como acontece no Alentejo, por exemplo. Há também quem defenda tratarem-se de simples manifestações artísticas. 

No concelho do Fundão, mais concretamente no local conhecido como Corgas, junto à aldeia de Donas, foi descoberto em 2008 um menir reaproveitado para estela em época muito posterior, mais concretamente na Idade do Bronze, já no 3º milénio a.C. (ver relatório aqui) Esta impressionante peça encontra-se actualmente no Museu Arqueológico do Fundão, em frente à não menos admirável estela do Telhado, encontrada no ano passado. 


Vista para a aldeia do Telhado, a partir do sítio do Souto do Senhor

Também  no ano passado e na freguesia do Telhado, mais concretamente no local chamado de Souto do Senhor, foi identificado aquilo que, segundo a equipa do Museu Arqueológico do Fundão, corresponderá a um povoado pré-histórico.

Imagem "Obelix" - The Asterix Project

terça-feira, março 12, 2013

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