segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal!

Decididos a mostrar um pouco daquilo que a nossa Beira Baixa tem de melhor a uma visita vinda do Minho que acolhemos por estes dias, aproveitámos a tarde ensolarada de Domingo para ir até Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal! A subida não foi fácil mas, como sempre, valeu bem a pena. Monsanto tem aliás esse condão. Pode-se visitar inúmeras vezes (já perdi a conta às minhas visitas a este local) que não perde a magia.

(Cliquem nas fotos para ampliar)

Esta aldeia, integrante da rede de Aldeias Históricas de Portugal, situa-se no flanco de um inselbergue, um monte que se ergue, feito ilha, numa extensa planície. Monsanto é o resultado do perfeito casamento entre os fraguedos graníticos e a as construções humanas, tanto que, se algumas das suas casas não fossem caiadas de branco, a aldeia bem poderia passar desapercebida aos olhos do viajante mais distraído. 



Esta povoação tem uma história longa, mais antiga até que Portugal, remontando possivelmente aos tempos dos nossos antepassados que os romanos baptizaram de lusitanos. Foi contudo na Idade Média, com a conquista deste território pelos cristãos, que Monsanto se começaria a definir como a povoação que hoje conhecemos. 

Monsanto desenhado por Duarte Darmas no século XVI.


Tendo o território sido doado aos templários, estes logo trataram de construir um castelo no cimo do Mons Sanctus, o Monte Santo, tendo à sua volta construído uma muralha. A importância deste local era tal que recebeu sucessivamente carta de foral de Afonso Henriques e depois do seu filho D.Sancho I e bisneto D. Sancho II. Mais tarde, já no século XVI, seria a vez de D. Manuel lhe atribuir um foral novo. Portanto, desde bem cedo, Monsanto foi sede de Concelho, subsistindo alguns vestígios desse facto. A povoação situava-se inicialmente lá no alto, à sombra da protecção do castelo.


O epíteto de aldeia mais portuguesa de Portugal deve-se a um concurso levado a cabo pelo Estado Novo no final dos anos 1930, concurso esse que se destinava a premiar a aldeia que mantivesse no seu estado mais puro a sua identidade portuguesa. Pelas próprias palavras do Secretariado da Propaganda Nacional, o concurso enquadrava-se numa estratégia de "combater por todos os meios ao seu alcance a penetração no nosso país de quaisquer ideias perturbadoras e dissolventes da unidade e interesse nacional". O prémio foi entregue a 4 de Fevereiro de 1939, faz hoje precisamente 74 anos, e consistiu num galo de prata, cuja réplica se encontra hoje no topo da chamada Torre de Lucano, uma torre sineira do século XV que domina a aldeia.

A entrega do galo de prata a 4 de Fevereiro de 1939 a representantes do povo de Monsanto pelo Presidente da República, Óscar Carmona, e pelo Presidente do Conselho de Ministros, António Oliveira Salazar. Foto Rádio Clube de Monsanto


Igreja de São Salvador, datada do século XVI.

Tendo sido sede de Concelho até 1853, Monsanto ostenta ainda sinais dessa autonomia administrativa. O exemplo mais emblemático é o pelourinho, invulgar pela sua simplicidade. É preciso notar no entanto que se trata muito provavelmente de uma reconstrução ocorrida em 1936. A peça terminal foi acrescentada posteriormente, após ter sido encontrada encastrada numa casa em 1937. Tendo um valor simbólico tão grande, merecia ser mais valorizado e não atirado para o canto de um largo onde os automóveis lhe fazem concorrência.

O pelourinho de Monsanto.

 Um grande nome das letras surge associado a Monsanto: Fernando Namora. O médico escritor exerceu aqui a sua actividade entre 1944 e 1946, período que serviu de inspiração para a sua bem conhecida obra "Retalhos da vida de um médico". A casa onde morou e a casa onde teve o seu consultório estão assinaladas, existindo junto desta última um conjunto de dois bancos de pedra corridos ainda hoje conhecidos como "bancos da paciência" destinados precisamente aos pacientes que aguardavam a sua vez.

 Casa onde esteve instalado o consultório de Fernando Namora

A subida até ao castelo, o ex-libris de Monsanto, pode ser um desafio para o menos preparados mas vale bem a pena.




Nem só as habitações se misturam com as rochas. Também os espaços reservados aos animais aproveitam os blocos da encosta na sua construção, desde galinheiros a pocilgas, como é o caso da foto abaixo. 





O ex-libris de Monsanto é definitivamente o castelo, bem camuflado no topo do monte que, já por si, é uma fortaleza natural. Compreende-se bem o porquê de a fortaleza se ter mantido inexpugnável em sucessivos cercos aos quais, com maior ou menor dificuldade foi resistindo. A destruição maior foi causada ironicamente por causas naturais. Algures durante o ano de 1815, um relâmpago atingiu o castelo, que era então usado como armazém de pólvora e de munições, provocando uma explosão que o destruiu parcialmente. 

Como não podia deixar de ser, o castelo está ligado a uma lenda que exalta a irredutibilidade e engenho do povo de Monsanto. Conta a lenda que a povoação foi cercada durante 7 anos, por um inimigo cuja identidade se perdeu no tempo. Esgotando progressivamente os seus mantimentos, viram-se os sitiados com apenas um vitelo e um alqueire de trigo. Debatendo sobre o que se deveria fazer, uma idosa sugeriu uma ideia astuciosa para transformar o desespero dos sitiados no desânimo dos sitiantes. Assim, alimentaram o vitelo com o trigo e, tendo este terminado a refeição, atiraram o pobre animal do alto das muralhas para as posições do inimigo. O animal caiu sobre as rochas e despedaçou-se, espalhando o trigo à sua volta. Vendo que os habitantes de Monsanto, após 7 anos de cerco e sabe-se lá por que providências misteriosas, ainda se davam ao luxo de lhes atirar com animais tão bem nutridos, desanimaram e levantaram o cerco. 

Assim, todos os anos, a 3 de Maio, na festa da Santa Cruz, os monsantinos sobem ao castelo em procissão, transportando potes brancos cheios de flores, que depois lançam das muralhas. Simbolizam estes potes o malogrado vitelo que salvou Monsanto.




Já sei que vão dizer "Olha! Uma seteira!". Errado! Trata-se de uma troneira, ou troeira, em forma crucetada, estrutura que surgiu para colocação das primeiras peças de artilharia, os trons. Os rasgos em forma de cruz, por cima da posição circular da peça, destinavam-se a observação por parte do artilheiro.


É por vezes difícil distinguir a fronteira entre a fortaleza feita pelo homem e a fortaleza natural...




Do alto da parte mais alta do recinto do castelo, onde outrora se ergueu a torre de menagem, a visão é arrebatadora:


Penha Garcia na encosta da crista quartzítica que alberga um impressionante depósito de fósseis (ver aqui) que podem ser visitados em rotas pedestres bem sinalizadas. Penha Garcia tem muitas outras particularidades que merecem uma visita mas... não estas que em 2009 a SIC apontou e que levou a que fosse aqui publicado um artigo.

A capela de São Pedro de Vir-A-Corça avista-se no meio de rochas e arvoredo lá bem ao fundo. Tão ou mais velha que Portugal, esta capela é também ela protagonista de algumas lendas que por aqui se contam.



 Deixando o castelo e regressando um pouco nos nossos próprios passos, avista-se ali ao lado a arruinada Capela de São Miguel, no local onde outrora se encontrava a antiga povoação de Monsanto e da qual esta capela é a única construção que ainda se mantém de pé. À sua volta descobrem-se inúmeras sepulturas escavadas na rochas, as marcas derradeiras que os antigos monsantinos deixaram na paisagem.  


(Foto tirada em 2005)



Com o Sol a despedir-se no horizonte, atrás da Gardunha, foi tempo de voltar a descer e de ver a aldeia com outra luz. Aqui ficam algumas amostras:






Já no caminho de regresso ao Fundão, um último olhar em direcção a Monsanto:


Vale bem a pena visitar a aldeia mais portuguesa de Portugal. Não concordam?

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Um dos mapas de Amorim Girão e Fernandes Martins que é uma verdadeira relíquia

Numa parede da biblioteca do Instituto Politécnico da Guarda encontra-se exposta uma verdadeira relíquia que há dias me chamou a atenção. Trata-se de um mapa intitulado "Ásia Política" e que refere em cabeçalho fazer parte da série de "Mapas de Amorim Girão e Fernandes Martins".


Alfredo Fernandes Martins formou-se em Ciências Geográficas na Universidade de Coimbra em 1940, tendo tido Amorim Girão como seu professor, e tendo também ele acabado por ficar na FCUP como professor. Ambos acabaram por formar uma dupla que se destacou em investigações e publicações. Este mapa é um de uma série que pretendia mostrar os 5 continentes física e politicamente mas que acabou por ficar incompleta, tendo apenas sido publicados 7 mapas.

Sobre estes mapas escreveu a certa altura Orlando Ribeiro, o "pai" da Geografia em Portugal, que "dois tipos de mapas murais podem ser utilizados no ensino: os que a isso forem destinados, obedecendo a requisitos de simplicidade e de clareza, e os mapas especializados que permitam extrair-se-lhe imagens de conjunto que o professor possa facilmente comentar e o aluno compreender. Os mapas de Amorim Girão e Fernandes Martins são os únicos aproveitáveis mas nada existe quanto a Portugal. Os alunos continuam a ter debaixo dos olhos mapas de Portugal com as bandeirinhas das batalhas pregadas em cima das vilas e cidades e os montes de areia, arrumados a um canto, que pretendem figurar as montanhas".

Este mapa mostra portanto o puzzle político da Ásia nos anos 1950, mas não só. Os autores preocuparam-se também em incluir dados demográficos e económicos que, à luz dos conceitos actuais, são extremamente curiosos.

Olhando por exemplo para a Rússia ou, melhor dizendo para a "República Socialista Federal dos Sovietes", Moscovo surge referida de forma bem aportuguesada como "Moscóvia", sendo pelo ponto que a representa perceptível que possui menos de 1 milhão de habitantes.


Mais a Sul encontramos a Índia, então ainda com as referências às cidades de Damão, Diu e ao território de Goa como possessões portuguesas.




Uma última curiosidade é o que surge no canto inferior direito do mapa: os dados económicos da Ásia na forma dos principais produtos produzidos. Entre aquilo que já sabemos da tradição asiática, ficamos a saber que, naquela época, um dos principais recursos económicos da Índia e da China era, mais que café, tabaco, cacau, borracha ou açúcar...o ópio!



Subscrição de carta aberta contra o (des)Acordo Ortográfico

Está em curso nas redes sociais uma iniciativa contra o famigerado Acordo Ortográfico, cuja polémica parece ultimamente ter arrefecido, em parte porque a sua entrada em vigor foi para já adiada com um original "cada um escreve como quiser". Essa polémica teve eco em outras paragens atlânticas: no Brasil optou-se também pelo seu adiamento para 2016, enquanto que em Angola, como país predominante dos PALOP que se preze, foi rejeitada (pelo menos para já) a adesão ao mesmo.

Quanto a esta iniciativa, trata-se de uma carta dirigida ao Ministro da Educação e Ciência que, para já e ultrapassados os 1.000, tem como objectivo chegar aos 4.000 subscritores.

Quem quiser aderir à lista de signatários da carta aberta poderá fazê-lo nesta página:
https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dG13TnlWRk10UXd0cDJvZTViS0picWc6MQ#gid=0

A carta encontra-se disponível nesta página:
http://fr.scribd.com/doc/119430003/Carta-a-Min-Educ-Nova


quarta-feira, janeiro 23, 2013

Paisagem matinal pintada de branco

Apesar do frio cortante que se fazia sentir, foi extremamente gratificante sair de casa esta manhã e admirar o manto branco que pintava todos os montes ao redor da Cova da Beira, até onde a vista alcançava. Obviamente que, na viagem entre o Fundão e Caria, os destaques maiores eram a Serra da Estrela e a Serra da Gardunha. Tendo-se ficado apenas pelas cotas mais altas, ainda não foi desta que voltámos a ver um nevão como o de há 3 anos. Lembram-se?

O maciço central da Serra da Gardunha forma uma coroa branca sobre o monte de São Brás e sobre a cidade do Fundão.

A "Cidade-neve" da Covilhã desta vez teve de ver a neve à distância... embora curta. A Serra da Estrela vestiu-se de branco.

Mais um aspecto da Serra da Estrela

sexta-feira, janeiro 18, 2013

O Armstrong não foi o único a meter-se no doping...

 ... senão vejam bem. Na página da Eurosport onde se encontra o momento televisivo mais aguardado dos últimos tempos, o momento em que o ex-ciclista Lance Armstrong confessa à famosíssima Oprah que o seu tipo sanguíneo durante o Tour de France era O-RH Cortisona EPO ++, é possível, passado o choque inicial do visionamento do vídeo, ver um pequeno anúncio gráfico animado promovendo o Open da Austrália.

Ora, a slides tantos, é possível ficar a saber que, o Open da Austrália é um evento extremamente atractivo pelo facto de 3 gigantes irem disputar nada mais, nada menos, que um TÍTELO. Isso mesmo. Um títelo. Alguém deveria fazer um controlo anti-doping na equipa portuguesa da Eurosport também... Pelo sim, pelo não.



quinta-feira, janeiro 17, 2013

Um improvável encontro em Londres


A visita a Londres foi um dos bons momentos do ano de 2012 e, como não podia deixar de ser, teve os seus episódios caricatos. Não vou falar da molha que apanhámos à chegada enquanto procurávamos pela pousada da juventude onde iríamos ficar, até finalmente alguém nos dizer que já tínhamos passado por ela. Também não vou falar (novamente) do agente que no aeroporto controlava os passaportes/cartões de identificação e que, quando pegou no meu cartão de cidadão, olhou para a foto, para mim, para a foto novamente e me pediu que tirasse primeiro os óculos e depois a barba. Também não vou falar do sucesso que fizemos quando, no primeiro café que encontrámos, nos encostámos ao balcão e, com um inglês perfeito pedimos "un cafe solo, por favor". Nada disso.

Vou sim falar da coincidência de um encontro num local improvável: a Chinatown.

A Chinatown é o bairro onde se concentram lojas e restaurantes asiáticos. Há para todos os gostos, de chineses a tailandeses, de japoneses a indonésios e, quer-me parecer, ainda de países que nem sequer sabia que existiam. Dado que comer em Londres é algo que não é propriamente barato, acabámos por escolher esta zona para jantar dado que o preço médio das refeições é aqui bem mais barato.

Andávamos nós, numa qualquer noite, à procura de um restaurante quando, a montras tantas, nos deparámos com um letreito manuscrito em letras garrafais, anunciando que naquele estabelecimento havia buffet livre a 4,5£ por pessoa. Ora, turista pelintra que se preze, nem por sombras consegue ficar indiferente a uma mensagem destas que toca fundo no coração e no estômago. 

O nome do restaurante era "Mr Wu" e não era nada de especial em termos de decoração mas parecia ser limpinho.  Acabámos por entrar e guiados por um dos empregados e escolhemos uma mesa encostada a uma das paredes. O pessoal do restaurante era quase todo ele asiático. A excepção era um homem de bigode, um pouco calvo vestido com fato e gravata, que ia dando orientações ao restante pessoal, ao mesmo tempo que verificava se estava tudo bem e se nada faltava.

Depois de escolhermos as bebidas, "atacámos" o buffet e fomos guarnecendo o prato, discutindo as opções disponíveis. Quando nos fomos sentar, o tal homem que parecia ser o chefe de sala e que nos ouvira conversar, veio ter connosco e, num surpreendente e descontextualizado português dirigiu-nos um "Bom proveito!", retirando-se em seguida.

É claro que no final fomos falar com ele e ficámos a saber que o Sr. Cruz, era um emigrante português do Tortosendo (Covilhã)! Como emigrante que se preze, ao qual nasce uma nova alma quando algo lhe sugere uma ligação à terra natal, quando lhe dissemos que éramos do Fundão, fez um rasgado sorriso e estendeu-nos a mão "São cá dos meus! Gosto muito do Fundão. Ainda na semana passada estive de férias e fui lá ao mercado!". O Mundo é mesmo pequeno...

Próximo artigo revivalista: Um tripulante que prometeu um strip, atropelamentos, cargas policiais, tentativas de suicídio ou... as nossas férias nas Canárias.


quarta-feira, janeiro 16, 2013

Águas Radium, as ruínas da "febre da radioactividade"

Junto à localidade de Quarta-feira, perto da estrada que liga Caria (Belmonte) à belíssima aldeia histórica de Sortelha, ergue-se um imponente edifício de granito hoje em ruínas mas que, no seu apogeu, foi um importante centro de turismo e termalismo: o Hotel Serra da Pena. Contudo, aquilo que no início constituiu a razão da sua instalação e do sucesso, acabou por ser também aquilo que levou ao seu encerramento: a radioactividade das águas do local. No último Domingo estivemos por lá e registámos algumas fotografias que aqui partilhamos com vocês.

As ruínas do hotel Fraga da Pena.

A carcaça de uma máquina a vapor dá um certo encanto ao local. Será da época do hotel ou terá sido para aqui trazida para servir de decoração à loja de velharias/antiguidades que chegou a funcionar no edifício onde antes era a recepção, já muito depois do hotel ter fechado?

A tradição oral diz que o hotel terá tido origem pela acção de um conde espanhol, um tal de Dom Rodrigo (assim ficou conhecido por estas paragens), que nestas águas terá encontrado a cura para a grave doença de pele de que padecia a sua filha. No entanto, outra versão é contada por Maria Adelaide Salvado num artigo intitulado "As nascentes termais do interior da Beira - o caso das Águas Radium". Segundo ela, a descoberta das propriedades curativas destas águas aconteceu quando um engenheiro de minas alemão, que por aqui vivia e prospectava ao serviço de um espanhol de nome Enrique Gonsalvez Fuentes, quiçá o tal "D.Rodrigo" que o povo recorda, descobriu que o consumo desta água aliviava as dores provocadas por uma úlcera gástrica de que padecia.

Estávamos então no início dos loucos anos 1920 e, por esta altura, os elementos radioactivos eram considerados benéficos para a saúde. Um pouco por toda a parte, as empresas que comercializavam água engarrafada, procuravam que as suas águas fossem classificadas como águas radioactivas já que essa referência trazia prestígio e, por consequência, mais procura. Esta corrida sôfrega ficou conhecida como "febre da radioactividade".

A zona da recepção, a meio caminho entre a estrada nacional e o hotel.

Situadas muito próximas das minas de urânio da aldeia de Quarta-feira, exploradas desde 1910, foi pois com naturalidade que, em 1920, foram descobertas as propriedades radioactivas destas águas que brotavam de 3 nascentes então denominadas, muito a propósito, em documentos técnicos como "nascentes Curie", em referência à cientista francesa responsável pela descoberta do rádio, o elemento químico radioactivo. Há inclusive quem acredite que a própria Marie Curie por aqui teria estado durante 4 meses, uma vez que das minas saía muito urânio para os laboratórios de Paris da empresa francesa que as explorava. Ora, era nestes mesmos laboratórios que a cientista, duas vezes Prémio Nobel, trabalhava.

O hotel e as termas terão sido construídas pouco depois, tendo em 1922 sido obtido o alvará para a exploração das nascentes. A água não era apenas usada para o termalismo. Era também engarrafada para venda, com bastante sucesso, com o nome de Águas Radium, tendo mesmo sido consideradas como uma das mais radioactivas do Mundo, num congresso em Lyon, no ano de 1927. 

O edifício principal.


Em segundo plano o edifício principal e, em primeiro plano, uma adição de trabalhos recentes.

Bastante procurado, o hotel chegou a ter 90 quartos e capacidade para 150 pessoas. As suas águas, cuja nascente do Chão da Pena chegou mesmo a ser chamada de Milagrosa, eram procuradas para o tratamento de doenças dermatológicas, reumatismo, gota, hipertensão, colite, edemas, problemas do sistema circulatório, problemas renais, perturbações nutricionais, problemas gastrointestinais, entre outros.

Entre todas as suas características químicas, destacava-se a presença de sais de rádio e de radão, o gás bem conhecido por estas paragens e que justifica até recomendações oficiais para o arejamento frequente das casas, de modo a evitar a sua acumulação no interior das habitações.



Elementos arquitectónicos peculiares.


Aspecto de uma das portas laterais do edifício principal.


Escadaria lateral de acesso ao edifício principal.

Zona de captação de águas e lamas radioactivas. A água escorria pelas caleiras do chão, depositando a lama que depois era recolhida e usada para os tratamentos.


O complexo era inicialmente explorado pelo já citado Enrique Gonsalvez Fuentes mas as instalações termais foram entretanto arrendadas até 1940 à Sociedade Águas Radium Lda, de capitais franceses. (In)felizmente, começaram a surgir alguns alertas durante a década de 1930, acerca das possíveis consequências nefastas da radioactividade para a saúde. Contudo, o golpe fatal aconteceria durante a II Guerra Mundial, quando o Mundo tomou conhecimento, graças aos estudos no campo da energia atómica, das terríveis consequências que a radioactividade poderia ter para a saúde.

O Hotel numa altura em que ainda operava

Hotel Serra da Pena, finais dos anos 1940

O complexo foi entretanto vendido no seu todo a investidores ingleses mas, pouco depois, a frequência das termas começou gradualmente a decrescer, até ao seu definitivo encerramento em 1945, mantendo-se apenas o hotel em funcionamento. Este viria a falir no início dos anos 1950, sendo abandonado, enquanto, ali ao lado, a exploração mineira continuaria até 1961, acabando também por encerrar.


As clarabóias colocadas no solo do terraço, sobre os espaços de banho, fabricadas pela empresa londrina Haywards Ltd, uma empresa de painéis de vidro com raízes num loja de corte de vidro fundada em 1783 por um senhor chamado Samuel Hayward que teve, nada mais, nada menos que 26 filhos. A empresa acabou por encerrar nos anos 1970.


A zona de banhos... radioactivos, pois claro.


Os vestígios ainda existentes dão bem uma ideia do luxo que terá caracterizado o hotel Serra da Pena, neste caso no vestíbulo à entrada daquilo que era provavelmente a sala de jantar


Detalhe dos pavimentos do mesmo vestíbulo.


Mais tarde leiloado em Lisboa, o complexo foi adquirido por um investidor da região, que na altura tinha intenção de aqui instalar um hotel de luxo. No entanto, acabaria por vender o conjunto ao seu irmão que idealizou um projecto algo megalómano de construção de um  hotel, com piscinas, campos de golfe e termas. Contudo, exceptuando algumas intervenções menores no local, os trabalhos nunca chegaram verdadeiramente a arrancar e o futuro destas ruínas permanece incerto.

O edifício principal no qual apenas restam as paredes.


Outro aspecto do interior do corpo mais alto do edifício principal.





O único e imperturbável morador do local reside na cave, no antigo espaço de captação das águas


Sinalética rodoviária, junto à estrada.


O local tem feito nos últimos anos parte do imaginário das gentes desta região, havendo muita gente que recorda as suas brincadeiras nas ruínas do hotel e os mais idosos não esquecem os tempos em que inúmeras pessoas afluíam ao local para descansar ou usufruir das propriedades "curativas" do local. O espaço está arruinado e muitos são os grafitis por ali existentes, muitos hoje em local de acesso impossível mas é possível ainda sentir o luxo e a vida que noutros tempos aqui tiveram palco. É um local que vale a pena visitar... mas com cuidado. Já agora, levem a vossa própria água para o caso de terem sede.

Fontes (citadas com a devida vénia e agradecimento e cuja consulta se aconselha para mais informações / fotos): Restos de Colecção, Aerograma

Foto Água Radium: Restos de Colecção
Fotos antigas cedidas por Luís Ribeiro

Agradecimentos: À Ana, à Inês e ao Pipinho (Filipe Quinaz para os amigos) que fizeram deste um excelente dia, ao Jorge Portugal pelas dicas e ao Luís Ribeiro pela cedência das fotografias.

segunda-feira, janeiro 14, 2013

A culpa é do cão do dono?

Numa altura em que novamente os ataques de cães de raças tidas como perigosas estão na ordem do dia, e como sempre acontece perante estas notícias, vem-me sempre à memória um episódio no qual me vi envolvido durante a minha meninice.

Tinha eu a saltitante idade de 11 anos quando, num infeliz final de dia, fui atacado por um cão que pertencia à família havia já vários anos. O Leão era um rafeiro de médio porte (que, à escala própria da minha idade de então, me parecia bastante grande) que nascera de uma cadela, a Farrusca, que havia sido recolhida, já adulta e em estado semi-selvagem, pelo meu homónimo tio-avô.

Vivi com os meus avós durante 4 anos, convivendo portanto com o Leão durante todo esse tempo. Ele era um cão algo temperamental mas sempre dócil com as crianças. Aliás, permitia até que eu e o meu primo Alexandre nos sentássemos no seu dorso, transportando-nos até se cansar. No entanto, vários cães menores da aldeia foram alvo da sua fúria, alguns de forma fatal. Várias foram as queixas e os pedidos para que o Leão fosse abatido. Houve até quem tentasse fazer justiça por suas próprias mãos, como já muito mais tarde acabariam por confessar. Por exemplo, furioso pela morte do seu cão de estimação, um habitante da aldeia viu um dia o Leão passar perto da sua casa. Chamou-o e atirou-lhe um pedaço de pão no qual havia vertido algumas gotas de veneno. O Leão aproximou-se da oferenda, cheirou-a e, com uma descarada impertinência, levantou a pata traseira e acrescentou os seus próprios fluidos ao já embebido pedaço de pão, partindo em seguida.

Naquele fatídico fim de tarde, algures em Setembro, penso eu, eu estava na brincadeira com o resto da miudagem, na costumeira algazarra irrequieta. O Leão aproximou-se e ficou estático junto a mim, enquanto as brincadeiras prosseguiam. De repente, sem pré-aviso, atirou-se rosnando à minha perna esquerda. Fechou a mandíbula junto ao meu joelho, sacudiu algumas vezes e, tão inesperadamente como atacou, largou-me e partiu.

A minha primeira preocupação foi pedir aos meus amigos que nada dissessem ao meu avô pois ele de imediato mandaria abater o Leão. Abalado, fui para casa com uma estranha falta de força na perna e entrei discretamente no meu quarto. Aí, subi a perna das calças para, ingenuamente, averiguar se o ataque tinha deixado algum hematoma. Para meu horror, à minha frente destapou-se um buraco enorme na perna, através do qual conseguia avistar uma importante parte do tecido muscular daquela zona, e mais além!

Claro que foi impossível continuar a ser discreto. Em aflição fui a correr avisar os meus pais que, de imediato me levaram ao Hospital do Fundão onde fui suturado com cerca de uma vintena de pontos.

Quanto ao Leão, que no regresso do hospital se dirigiu ao carro de rabo a abanar, acabou mesmo por ser abatido. Creio que parte da minha meninice morreu no dia em que mo comunicaram pois, a única coisa que consegui sentir para além da tristeza, foi um enorme sentimento de culpa, por ter contribuído para a morte de um amigo de muitas brincadeiras, isto apesar de durante muito tempo ter sofrido  de cinofobia e, ainda hoje, carregar as marcas físicas desse episódio.

É legítimo culpar um cão? Um cão não se rege por princípios de moralidade, não tem noção de certo e de errado. É por norma o reflexo da forma como os donos agem (e não agem) perante ele. O Leão era, na sua essência um cão de rua, o chefe da matilha e portanto territorial. Naquele dia, a algazarra de meia dúzia de miúdos no seu território não lhe caiu bem, ou talvez não tenha concordado com o facto de eu estar a brincar com outros que não ele. Agiu de acordo com os seus instintos. Não devia ter perdido a vida por isso.

Chegando ao caso do Zico...

Nos casos de ataques de  cães de que vou tendo conhecimento na comunicação social, fico sempre com a sensação de negligência por parte dos donos. Este caso do Zico é paradigmático: para além de todas as considerações sobre se o meio familiar era ou não disfuncional, o cão vivia confinado a um espaço reduzido. Por outro lado, as declarações de relativização da importância do cão ("Ele já era para ter sido abatido há um ano!" e "Não tínhamos condições para manter o cão!") realçam que o mesmo era tido como um objecto sem valor pela família.

Entretanto há também interrogações que ficam no ar: por que motivo tinha aquela família aquele tipo de cão, sobretudo quando eles próprios admitem que não tinham condições? Abater o dito vai impedir que esta família volte a ter um cão? Em que circunstâncias decorreu o ataque? Há muita coisa que ainda se desconhece sobre este episódio. Para já, e infelizmente, a única coisa que se pode fazer é lamentar a perda de uma vida.
É claro que dificilmente o cão escapará ao abate, até porque, dado o seu historial, não acredito que uma família queira adoptar este cão e deixá-lo aproximar-se de crianças.

Creio que já é altura de legislar de forma mais dura sobre esta matéria, agravando as sanções sobre a posse ilegal de cães de raças ditas perigosas e sobre os requisitos obrigatórios para poder ter um deles. Mal treinado, mal tratado, um cão pode tornar-se perigoso mas, tal como acontece em relação às armas, perigoso mesmo é o seu dono não conhecer a relação causa-efeito que existe entre o gatilho e o cano e ainda considerá-la apenas mais uma peça do mobiliário lá de casa, colocando em risco todos os que o rodeiam.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Episódios de apoio técnico à volta da barra de espaço

O universo do apoio técnico é fértil em situações que facilmente ganham um lugar na eternidade da memória graças aos seus contornos inusitados capazes, por exemplo, de elevar um leitor de CD à categoria de suporte para copos ou de dar vontade própria a um teclado, que subitamente desata a introduzir espaços num texto  antes que a utilizadora consiga perceber que, inadvertidamente, pousou o farto material mamário em cima das teclas, isto após uma chamada de atenção dos técnicos que já haviam sido convocados ao local para resolver este intrigante mistério que já durava há muito. 

Bom, se a primeira pertence à galeria dos clássicos do género, perdendo-se nos mitos urbanos do apoio técnico, já esta última história do teclado autónomo é bem real e foi-nos contada por um dos leitores deste blog, que guarda boas mamórias, perdão, memórias dos seus tempos de técnico itinerante.




Ora, foi precisamente à volta da tecla de espaço, "space bar" para os amigos, que ocorreram as duas últimas situações caricatas de apoio técnico em que me vi envolvido, ambas relativas ao mesmo processo. Telefonicamente, eu ia dando instruções para as utilizadoras introduzirem alguns parâmetros num comando. Um desses parâmetros era simplesmente " @", ou seja, "espaço, arroba". Basicamente, foi isto que aconteceu:

Situação 1:

Eu - Agora introduza "espaço" e "arroba", e faça OK.
Srª X - Em maiúsculas ou minúsculas?
...

Situação 2:

Eu - Agora introduza "espaço" e "arroba", e faça OK.
Srª Y - Já está!
Eu - Muito bem, agora vamos testar. Já funciona?
Srª Y - Não! Continua sem dar nada.
Eu - Introduziu os parâmetros onde eu disse, certo?
Srª Y - Sim! Tal e qual!
Eu - Ok, então vamos rever novamente para ter a certeza que ficou tudo como deve ser. Abra novamente a janela e diga-me o que lá tem.
Srª Y - Então, onde o senhor disse, eu pus: "E", "X", "P", "A", "Ç", "O" e o símbolo da arroba.
...



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