quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Dos tempos do "Salta e Pilha".

Silvares (direita) e Ourondo (esquerda) a partir do Cabeço do Pião

Há cerca de 70 anos atrás, Portugal era um país essencialmente rural, no qual grande parte da sua população combatia dois ferozes adversários: o analfabetismo e a pobreza. Eram tempos em que o dia-a-dia era feito de suor, justificado pelo objectivo único de alimentar uma família numerosa e onde os membros desta, mal se livrassem do fardo da escolaridade obrigatória, cedo começavam também a trabalhar. Tempos austeros portanto, nada comparáveis aos de hoje, nos quais ousar criticar o que quer que fosse estava terminantemente fora de questão, sob pena de graves consequências pessoais e familiares. Neste contexto, à população cabia encontrar o engenho necessário para assegurar a sua sobrevivência e foi assim que surgiram “profissões” que ficaram para sempre eternizadas no imaginário colectivo da “periferia” nacional, como o contrabando das rotas transfronteiriças e o…”Salta-e-pilha”.


O “Ouro Negro”

Uma das matérias-primas mais exportadas de então era o volfrâmio (ou tungsténio se preferirem), sendo extremamente procurado devido à sua importância na indústria do armamento e tendo portanto o seu mercado sido potenciado pelas duas Grandes Guerras, principalmente a 2ª, e mais tarde pela Guerra da Coreia.

Aqui pertinho, a região das Minas da Panasqueira fervilhava de actividade, empregando famílias inteiras na exploração do minério de volfrâmio. Havia no entanto outros que trabalhavam por conta própria, à revelia da empresa que detinha a concessão da exploração de volfrâmio, a Beralt. Estes "mineiros" clandestinos operavam pela calada da noite, vasculhando valas e galerias de sondagem abandonadas pela empresa, procurando o precioso minério e jogando com a GNR um verdadeiro jogo do gato e do rato. Eram os mineiros do "Salta e Pilha".


O Cabeço do Pião

O Cabeço do Pião ainda hoje ostenta as marcas da exploração mineira sofrida ao longo dos anos, tanto legal como ilegal, chamando a atenção na paisagem pela sua gigantesca escombreira. Para o Cabeço do Pião convergia muita gente dos arredores, nomeadamente da actual vila de Silvares, das aldeias de São Martinho e da Barroca, entre outras. Curiosamente, se parte da minha família trabalhava para a Beralt, já outra parte dedicava-se ao Salta e Pilha. Foi esse o caso do meu avô materno, de seu nome Abílio Pires Gomes, único dos meus avós que nunca cheguei a conhecer.


Moleiro durante o dia, contrabandista durante a noite

Abílio era o patriarca de um agregado familiar do qual, para além da minha também falecida avó Alexandrina, faziam parte 7 filhos, 2 rapazes e 5 raparigas. Moleiro de profissão (o seu moinho ainda hoje existe na margem esquerda do Zêzere) viu-se, no início dos anos 1940, perante a necessidade de construir uma casa mais condigna para a sua família. O Salta-e-Pilha apresentava-se como a solução mais rentável no imediato. Tinha noção dos riscos: ser preso em flagrante ou sofrer um acidente podia significar deixar a sua família sem a sua principal fonte de rendimento. Ainda assim decidiu arriscar e passou a levar uma vida dupla, trabalhando no seu moinho durante o dia e, mal anoitecia, nas galerias do Cabeço do Pião, às vezes acompanhado pelo seu filho mais novo, ainda criança, e no meio de muitos outros habitantes das redondezas que se espalhavam pelo monte.

Encontrar volfrâmio não era fácil. Para além da força de braços necessária, o minério podia teimar em não se revelar atrás dos veios de quartzo. As noites podiam ser de total frustração, de suor derramado em vão, e não eram poucas essas noites!

As pedras com minério tinham de ser transportadas numa saca até Silvares ou, se fosse preciso começar a trabalhar cedo no moinho, ficaria sob as águas do Zêzere até poderem ser transportadas em segurança para casa.

Abílio e Alexandrina Pires Gomes durante a década de 1970

A separação e lavagem do minério era depois tarefa que cabia à sua esposa que a fazia num alguidar na cave. O minério era então cuidadosamente escondido na salgadeira, sob uma espessa camada de sal, que conservava nacos de carne do último porco que por eles fora criado.

Quando a quantidade guardada já o justificava, Abílio fazia-se ao caminho com aquelas dezenas de quilos às costas, sempre a coberto da noite, em direcção a Sobral de São Miguel, a quase 20km de distância, onde entregava o minério a um receptador. Em troca, recebia umas vezes dinheiro, outras vezes pregos, tijolos ou tábuas que pedia para serem entregues na obra da sua nova casa. Também alimentos eram algo que trazia ou um ocasional doce para as crianças.

A somar a todas as dificuldades, havia sempre o risco de serem surpreendidos pela GNR que por ali rondava a coberto da escuridão, à espreita de um mineiro mais incauto.


Do mergulho nocturno à prisão

Contava Abílio com um fiel e incansável vigilante, sempre atento às movimentações da GNR: rafeiro de raça, leal e abnegado como poucos, o “Manda Vir” fazia jus ao seu nome sempre que desconfiava de um uniforme. Um rosnado ou um latido era quanto bastava para que a fuga dos mineiros se desse pelo acesso oposto da galeria. Quando a ocasião assim o exigia, também punha à prova a resistência do tecido das calças dos guardas.

Foi assim naquela noite em que o aviso não foi audível o suficiente e Abílio foi surpreendido à saída da mina. No entanto a polícia não o conseguiu agarrar. Com o “Manda Vir” a puxar as calças de um guarda e com uma agilidade inata que lhe permitiu libertar-se das mãos da autoridade, Abílio fugiu pela encosta abaixo perseguido pela GNR. Chegado à margem, não hesitou: saltou para a água e atravessou o Zêzere a nado até à outra margem, sempre sob os impropérios da GNR que não se atreveu a segui-lo.

No entanto a polícia foi fechando o cerco. As pegadas e o calçado que Abílio usava, umas modestas alpargatas, foram o mote para que Alexandrina fosse interpelada em plena rua:

-“O teu homem é contrabandista? Diz a verdade!”, ao que a senhora, que sempre se gabou de apenas temer a trovoada, respondeu sem hesitar –“É lá agora…! Ele calça é os mesmos sapatos!”.

À falta de provas, funcionavam as denúncias da vizinhança. Sem precisar de ordens judiciais, a GNR interveio de forma activa em duas ocasiões. Numa, através de uma busca domiciliária onde pouca coisa escapou aos olhos e mãos dos guardas. A salgadeira, por sorte, escapou. Noutra, Abílio foi mesmo preso e levado para os calabouços onde ficou durante alguns meses. Sem confissão e sem provas, acabaria por ser libertado, regressando ao Salta-e-Pilha apenas após algumas semanas. As suficientes para deixar a poeira das suspeitas assentar.


Casa construída, fim do Salta-e-Pilha.

No fim, Abílio Gomes cumpriu o seu objectivo: a construção da nova casa. Seria esse o mote para abandonar o Salta-e-Pilha e voltar a dedicar-se em exclusivo às actividades de moleiro. Ainda voltaria às minas mais tarde, muito mais longe de casa, mas a sorte não o acompanharia desta vez na pesquisa do minério. Fica para a memória um facto admirável: quando começou a construir a nova casa, Abílio guardava na sua antiga casa 5 “contos”. Quando terminou a construção, mantinha ainda esses mesmos 5 “contos”.

A casa, recentemente restaurada e já não na posse da família, ainda hoje continua de pé na Rua do Cimo do Lugar. Imaginarão os transeuntes que por ali passam as histórias com quais foram construídas aquelas paredes?


terça-feira, fevereiro 14, 2012

Dia de São Valentim não é dia de São Valentim se não visionarmos este vídeo

Por muitos anos que passem, não consigo deixar de pensar neste vídeo sempre que chega o dia de São Valentim. Um verdadeiro clássico que evoca melancolicamente uma época na qual tudo corria tão bem a estes pombinhos, e andavam de tão boas relações, que até iam aos Açores comer um borreguinho!


Feliz dia dos coraçõezinhos!

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

O Serrano visto por um erudito em 1938*

Chegou-me às mãos muito recentemente este exemplar, da autoria de Carlos Alberto Marques, publicado pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1938. Trata-se de um estudo sobre a Geografia da Serra da Estrela, bastante completo aliás, e que tem no interior uma dedicatória que, segundo parece, será endereçada ao Cardeal Cerejeira. Digo "será" uma vez que não consegui ainda aferir a sua autenticidade.

Diz a dedicatória:
"O presente livro não é para ser lido por V. Eminência. Pretende apenas trazer-lhe à lembrança a admiração e gratidão de um seu aluno do grupo dos cinco, Vergílio, Marques de Jesus, Lopes de Almeida e X(...) Morais, que respeitosamente beija o sagrado anel." Assina Carlos Alberto Marques.

Entre temáticas várias, há uma passagem que acho deliciosa e que se prende com a caracterização do indígena serrano feito pelo autor:

"O serrano ou montanhês da Estrêla, beirão genuíno, é em geral dolicocéfalo**, de estatura média, moreno, de castanho ou pretos cabelos, de olhos negros ou escuros, robusto, do tipo rácico íbero-insular.

Astuto e activo, são-lhe inatos os sentimentos de liberdade e da independência; é de poucas falas (generosamente se abre excepção para a tagarelice feminina e do rapazio das escolas) e bastante impulsivo; rude no trato, é franco e fiel; ousado até à temeridade, é algo persistente; leva uma vida infra-humana, lutando contra o clima e pobreza das terras, acarinhando estas e os gados e desprezando a política; fundamentalmente religioso, vê e adora Deus nas grandes altitudes e nas tempestades, apreciando as festas religiosas e rezando, em família, apenas à noite; quando pragueja e blasfema é animal supersticioso; vive muitos anos e morre de cansaço; é sóbrio na alimentação mas bebe muita água ou muito vinho, quando o há; tem pouco cuidado com o vestuário e é desleixado com o cabelo e com a barba; não teme a noite nem os caminhos e habita sem constrangimento todo o lugar que não tenha chuva nem vento."

* - O Dr Américo Rodrigues teve a gentileza de partilhar comigo alguma informação adicional sobre o autor deste estudo de geografia, a qual novamente agradeço. Diz-me no seu e-mail: "Carlos Alberto Marques foi professor do Liceu da Guarda durante muitos anos. Era professor de Geografia. Julgo que era natural da zona do Sabugal. A obra que refere está editada pela Assírio & Alvim, que editou também uma obra sobre a Bacia Hidrográfica do Côa."

** Dolicocéfalo - Que tem o crânio com comprimento maior que a largura.

"Brennt Athen"?

Hoje Atenas está a arder. Vítima por um lado da corrupção e irresponsabilidade criminosa dos políticos que governaram o país durante as últimas décadas e, por outro, vítima de parceiros que sob a máscara da solidariedade, estão a aproveitar a situação para encher ainda mais os bolsos, obrigando o país a medidas de austeridade que fazem as nossas parecer bem suaves.

Portugal não é a Grécia, felizmente, mas é impossível não estarmos solidários para com um povo que enfrenta uma crise que ameaça começar a deixar a esfera do social e do económico para se tornar uma crise humanitária.

Suprema ironia esta se tivermos em conta que se trata do berço da Europa e do berço da Democracia.

* A 23 de Agosto de 1944, perante o avanço dos Aliados, Hitler deu ordens ao Governador Militar de Paris, Dietrich von Choltitz, para arrasar a capital de França. Após uma sequência de eventos pouco clara, diz-se que Choltitz terá deliberadamente recusado destruir a cidade, mesmo após um telefonema de Hitler que lhe perguntou exasperado: "Brennt Paris?" ("Paris está a arder?").

Foto: Chariweb

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Uma reportagem com mais 100 anos... e um bonsai com mais de 100 anos!

O Luís, do Tomar, a Cidade, voltou a surpreender-me com uma pérola da revista Ilustração Portugueza, neste caso do nº217 de 18 de Abril de 1910.

A sua página 506 é dedicada à "Exposição Japoneza de Londres", exposição que decorreu em 1910 em White City, Londres, na sequência da vontade do Imperador em passar uma boa imagem do Império do Sol Nascente aos olhos do Ocidente, e cobria uma área de 22.550 m2. Para além desta área de exposição, foi também reservada uma outra área de mais de 20.000 m2 para aí instalar 2 jardins japoneses. Para os construir foram trazidas árvores assim como arbustos, pontes e até rochas do Japão!

Nas fotos da Ilustração Portugueza, é possível ver um desses jardins e um bonsai, este avaliado em 1.000 libras e tendo então mais de 100 anos! Será que ainda existe?

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Os radares que perseguem os veículos automóveis e não só...

Não se assustem! É apenas mais um sketch do incorrigível Rémi Gaillard, no qual o humorista se disfarça de radar de controlo de velocidade, controlando tudo o que se move. Para não variar, o sketch termina com a sua detenção. A ver e... gargalhar!

terça-feira, janeiro 24, 2012

Como identificar um maçom. O vídeo indispensável para os dias que correm!

Nos tempos que correm, muito se tem falado da maçonaria e da promiscuidade entre esta e a política. Ora, se em geral a opinião pública desconhece o que diabos é um maçom, esta tem por outro lado a certeza de que se trata de um indivíduo pernicioso, com um gosto por vestuário extremamente duvidoso, e que até pode ser portador de perigosíssimas doenças contagiosas.

Não sabendo quem são, quantos são nem onde estão, e sabendo que todos os dias nos podemos cruzar com um maçom na rua, ou até mesmo no elevador, importará pois esclarecer o cidadão comum sobre qual a melhor forma de identificar um maçom. Os sinais são inconfundíveis e foram recriados com extremo rigor pelos Monty Python neste sugestivo sketch que vale a pena visionar com atenção.


Perante isto, posso afirmar com todo o rigor de que estou certo de que aquele indivíduo, completamente desnudado e extremamente calmo, com quem nos cruzámos numa rua de uma aldeia, numa amena noite de 2005, era sem dúvida um maçom!

E eis que começa um novo e mui aliciante desafio...


"Sem memória, o mais inteligente dos homens nada é porque com nada se identifica."
João Bénard da Costa - 10-6-2008

De há uns anos a esta parte, mais precisamente desde 1998, tenho-me envolvido de forma crescente nas "guerras" em prol da defesa e divulgação do património histórico da Beira Interior. Fi-lo na forma de sites, um dos quais, actualmente em stand by, acabou por me valer o convite para a participação como orador em jornadas de arqueologia, e ainda na forma de projectos de investigação, um dos quais redundou na realização de uma exposição temporária que visitou sucessivamente a aldeia que foi objecto do projecto, a sede de freguesia e, finalmente, a sede do concelho.

A partir de ontem, é com imenso orgulho que me vejo perante um novo desafio, tendo sido escolhido para desempenhar o cargo de Presidente da Sociedade Trebaruna - Amigos do Museu do Museu Arqueológico do Fundão. Esta Sociedade, fundada em 2010, tem como missão coadjuvar o M.A.F. nas suas actividades, tendo no entanto a autonomia necessária para ter a sua própria agenda de actividades, no sentido de envolver a população do concelho do Fundão nas causas da cultura e do património histórico. Trata-se ao fim e ao cabo de uma plataforma que deverá ser capaz de despertar consciências para a importância do conhecimento e da preservação do património. O simples facto de suceder no cargo a um "monstro" da cultura como é o Mapone, um homem que merece desde há muito a minha admiração, ajuda a elevar ainda mais a responsabilidade inerente a este cargo.

Por outro lado, enche-me a satisfação o facto de poder contar com uma equipa formada por pessoas que têm tanto de admirável como de voluntarioso, em quem sei que posso confiar a 100%. À Leonor, ao Bruno, ao João, ao Fernando, à Ana, ao Mário e à Berta renovo os meus agradecimentos por terem aceitado acompanhar-me neste projecto. Não menos satisfeito fico por poder colaborar de perto com a equipa do M.A.F. que, pelo trabalho que têm desenvolvido, são sem dúvida um motivo de orgulho para o concelho do Fundão.

Agora é tempo de deitar mãos à obra!

Sociedade Trebaruna no Facebook: www.facebook.com/strebaruna

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Um conto sobre plágio (vídeo)

Com base no "Um Conto de Natal" de Charles Dickens, a Biblioteca da Universidade de Bergen, na Noruega, produziu este vídeo onde, de forma divertida, aborda a questão do plágio e as consequências deste.

Um vídeo para ver, rir e... reflectir!


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