quinta-feira, agosto 25, 2011

Pelo Sul da Hispânia III - A cidade de Ceuta

 

Depois de alguns dias a avistar ao longe a costa Norte do continente africano a partir do Rochedo, facto que foi progressivamente aguçando a nossa curiosidade, decidimos ir ver o que se passava no outro lado do Estreito de Gibraltar na histórica cidade de Ceuta.

Para isso foi necessário ir a Algeciras apanhar o ferry já que a partir de Gibraltar apenas há ligação para Tânger. É impressionante a quantidade de locais que vendem bilhetes de ferry, inclusive em roulotes à beira da estrada. O número de postos de venda de bilhetes vai aumentando à medida que nos aproximamos do porto de Algeciras, sendo que as estratégias de marketing também se tornam mais agressivas, chegando a ser semelhantes àquelas que encontramos num vulgar mercado, embora aqui as marcas em transacção sejam Baleária, FRS e Acciona em vez de Naike, Pamu e Relook. Há que ter cuidado com as fraudes, sendo mais seguro adquirir bilhete num posto no próprio terminal de ferries e, de preferência, num posto de venda da própria operadora para evitar as “taxas administrativas”.

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O embarque para o ferry fez-se sem qualquer outro controlo que não fosse o da verificação de bilhetes. A partida é que demorou mais 40 minutos que o esperado, por “movitos alheios” à Baleária. No regresso houve direito a controlo das bagagens por raio-X.

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Saída do Porto de Algeciras.

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Já fora da barra do porto de Algeciras e à passagem por Gibraltar, o ferry foi seguido por dezenas de golfinhos que saltavam na ondulação provocada pela passagem da embarcação.

A viagem de ferry é extremamente confortável. Existem 3 pisos, o mais baixo onde ficam guardados os automóveis, o intermédio para a classe turística e o piso superior para a 1ª classe. Por uma questão de solidariedade optámos por nos integrar na massa humana do piso intermédio, onde existe um bar que serve café verdadeiramente merecedor desse nome –finalmente!- e uma loja Tax Free que antecipa aquilo que se vai encontrar em Ceuta.

Só se pode sair para o exterior em dois espaços situados na popa do ferry mas que, em velocidade de cruzeiro, se tornam pouco agradáveis devido ao vento e à agua projectada pela deslocação. A teimosia em imitar um comportamento claustrofóbico pode resultar aqui num penteado que lembra a Bridget Jones depois de uma viagem de carro.

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Já pertinho da costa africana, começam a distinguir-se melhor os detalhes da paisagem. A imponente Djebel Musa, a Montanha de Moisés, tem a seus pés a localidade marroquina de Beliunex. A montanha é também conhecida como Mulher Morta ou Atlante Adormecido pela forma que apresenta na sua parte mais alta. À esquerda, a pequena elevação costeira (mais clara) que constitui o início da fronteira Norte do território de Ceuta com Marrocos e onde se avista o pequeno núcleo populacional de Bezún, famoso pelas cavernas com grande número de vestígios de ocupação pré-histórica.

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Eis o primeiro lamiré sobre a cidade de Ceuta, em que se vê uma das duas pontes sobre o fosso das muralhas reais que separa o centro histórico da zona mais recente da cidade.

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À entrada do porto de Ceuta, avistam-se as torres da Catedral de Nossa Senhora da Assunção.

 

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E finalmente o desembarque para o início de (mais) uma grande caminhada urbana.

Ceuta é uma cidade com mais de 75.000 habitantes, sendo a população principalmente de origem espanhola e marroquina. A cidade orgulha-se de ser um local de tolerância religiosa, abrigando 4 principais comunidades: católica, muçulmana, hindu e judaica. Curiosa ideologia esta, sobretudo pelo facto de se tratar de um território cujos soberanos sempre foram fervorosos adeptos do Tribunal do Santo Ofício.

Em Ceuta encontram-se um pouco por todo o lado referências ao domínio português sobre a cidade que durou quase 200 anos (1415 a 1580), começando na própria heráldica da cidade, bandeira e escudo de armas e estendendo-se às construções e toponímia.

Aquando da passagem definitiva para a coroa espanhola em 1640, a cidade manteve a simbologia portuguesa. Por esse motivo, as armas da cidade são em tudo semelhantes às armas reais da coroa portuguesa, diferindo contudo na disposição dos castelos na borda do escudo. A bandeira, por seu turno, é idêntica nas cores e nas formas à bandeira da cidade de Lisboa, uma recordação do facto de a expedição que tomou a cidade aos muçulmanos ter zarpado de Lisboa.

Em termos de toponímia, encontra-se uma verdadeira referência maior à cultura lusitana, a Calle Camoens ou Camões.

 

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Escudo de armas de Ceuta na placa de indicação da Calle de los Ingenieros

 

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A bandeira de Ceuta com as cores de Lisboa e o escudo de armas semelhante ao da coroa portuguesa, flutuando ao lado da bandeira de Espanha e da bandeira da UE no Palácio da Assembleia.

Se há coisa que é desagradável na sociedade espanhola, pelo menos para mim que não vivo lá, isso é sem dúvida os horários de abertura dos monumentos devido à “hora da siesta”, que faz com que entre as 13h30 e as 17h seja difícil encontrar algo aberto.

Já com 40 minutos de atraso em relação ao esperado, devido à demora na partida de Algeciras, chegámos por volta das 12h, tendo previsto regressar ao continente europeu às 18h, ficámos com cerca de 5h para visitar a cidade. Havia ainda que encontrar o posto de turismo para obter um mapa do centro histórico, onde iríamos concentrar a nossa visita.  A própria funcionária do posto ficou sem saber muito bem o que dizer quando lhe perguntei o que havia para visitar em Ceuta em 5h.

Assim, após uma curta pausa para retemperar forças e aquietar o estômago na bonita Praça de África, seguimos em direcção ao conjunto excelentemente musealizado das ruínas da basílica tardo-romana. Trata-se de uma basílica cristã do século IV reconvertida em necrópole e sobre cujas ruínas foi construído um museu que, para além de abrigar um centro interpretativo e proteger as ruínas, ajuda também os visitantes a terem percepção da dimensão original da basílica.

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Uma das sepulturas ainda com o respectivo inquilino.

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Aspecto parcial da área da basílica.

A partir daqui… nada mais podia ser visitado, dado que eram praticamente 14h. Optámos pelo plano B e por percorrer o centro histórico a partir dos banhos árabes e, porque a ocasião o impunha, para nos estrearmos na prática do geocaching em África.

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 Banhos árabes do século XI, descobertos após a demolição de um conjunto de vivendas e restaurados de modo a devolver-lhes a sua configuração original.

 

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O centro histórico de Ceuta é essencialmente pedonal, proporcionando um passeio agradável, apesar do calor que se fazia sentir.

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Calle del Compañia del Mar, junto à marina. Uma praceta ali ao lado proporcionou um excelente momento de descontracção numa esplanada. Boas notícias! As tapas são servidas gratuitamente com as cañas e não consistem em batata frita.

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Calle Camoens ou Camões. Bonita rua mas… onde as lojas estavam encerradas, no religioso cumprimento da hora da siesta.

 

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A Plaza de los Reyes é dominada por um pórtico com as estátuas de San Fernando e San Hermenegildo, que para aqui vieram após a demolição do antigo hospital que ficava nesta mesma praça. Sob o suporte das estátuas encontra-se este curioso detalhe…

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…uma representação da moeda de 1 euro! Não sei se esta adição será uma forma de celebrar a adesão à moeda única mas não é menos verdade que em Espanha, de quando em vez, se fazem adições curiosas a monumentos históricos, como por exemplo o astronauta no exterior da Catedral de Salamanca.

Em termos comerciais, Ceuta tira bom partido da vantagem de ser uma zona franca, com carga fiscal muito mais leve do que no resto da Espanha. As grandes superfícies estavam cheias de marroquinos e vimos inclusive o caso de uma família que decidiu construir uma alegoria à torre de pisa no seu carrinho de compras com paletes de pudim flan.

Quanto à comunidade marroquina residente, essa parece não querer alinhar na instituição nacional que é a hora da siesta. As únicas lojas abertas eram mesmo as dos marroquinos que vendiam produtos com a qualidade possível e a baixo preço, chamando a atenção com avisos, pintados com marcador fluorescente em cartolinas, colocados no exterior das lojas. Entre vários que prometiam produtos electrónicos, como máquinas fotográficas digitais a partir de 40 euros (embora as mesmas fossem modelos que fizeram furor há já vários anos atrás) um cartaz em particular destacava-se, mostrando que o comerciante marroquino é um comerciante com um vincado código de honra e profundamente vinculado à vontade de querer oferecer qualidade aos seus clientes:

“No vendemos artículos chinos!”

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A espectacular Playa de la Ribera de onde se avista a cidade marroquina de Fnideq com a sua mesquita e minarete quadrangular de influência andaluza. A água é quentíssima e límpida, justificando plenamente a sua bandeira azul.

 

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As muralhas reais, melhoradas a partir das fortificações portuguesas, e o grande fosso que praticamente faz da península de Ceuta uma ilha, ligando a costa Norte à costa Sul. As fortificações são impressionantes e ajudaram Ceuta a resistir a sucessivos ataques, inclusive ao assédio dos ingleses na mesma altura em que estes conquistaram Gibraltar. Sob as muralhas existe uma rede de túneis para impedir a minagem das muralhas. No fosso é possível a passagem de pequenas embarcações.

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Aproveitando a abundância de peixe no fosso, estes imigrantes sub-saarianos dedicam-se aqui à pesca, atirando pedaços de pão de modo a atrair os cardumes e usando depois uma linha sem cana. 

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Catedral de Nossa Senhora da Assunção, construída sobre uma antiga igreja portuguesa, construída sobre uma antiga mesquita, construída sobre ruínas fenícias. Basicamente é um local onde a construção se pratica com alto entusiasmo.

As estátuas de Ceuta

Em Ceuta abundam os monumentos evocativos da sua história e das suas personalidades, sobretudo em termos de estatuária. Eis alguns exemplos das mais de 40 estátuas existentes:

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 Monumento ao regimento de artilharia de Ceuta, devidamente apontado para Marrocos.

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Não, não se trata de uma estátua relacionada com o Ku Klux Klan mas tão somente de uma estátua de homenagem à semana santa de Ceuta. Terra de tolerância, lembram-se? (Apesar do longevo Tribunal do Santo Ofício)

 

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Monumento à Constituição, que contém a transcrição do artigo 14º: “Os espanhóis são iguais perante a lei sem que possa prevalecer discriminação alguma por motivo de nascimento, raça, sexo, religião, opinião ou qualquer outra condição ou circunstância pessoal ou social”. Presumo que este artigo não tenha sido escrito pelo Tribunal do Santo Ofício.

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Um de dois exemplares idênticos, os mais icónicos de Ceuta. Representam Hércules afastando as Colunas em busca dos touros do rei Gerião, um dos seus 12 trabalhos.

Para saber mais: Ceuta Digital

segunda-feira, agosto 22, 2011

Resultado (possível) do workshop de fotografia do fim-de-semana


De forma algo inesperada em relação aos planos iniciais para o fim-de-semana, acabei por ser "recrutado" para o workshop de fotografia que este fim-de-semana teve lugar entre o Fundão e a aldeia da Barroca, junto ao Zêzere.

Partindo do Cabeço do Pião, local de outrora intensa actividade mineira, o percurso partiu da Pousada da Mina, passou pela Lavaria e pelas escombreiras, para depois terminar junto das gravuras rupestres do Poço do Caldeirão. Tratou-se de uma pequena parte do Percurso Pedestre da Rota do Mineiro que, na sua máxima estensão tem mais de 9km.

Partilho aqui com vocês uma amostra do resultado possível da recolha fotográfica.
























quinta-feira, agosto 18, 2011

Pelo Sul da Hispânia I - Gibraltar (parte 2)



Gibraltar foi de facto uma boa surpresa, tendo em conta a quantidade de pontos de interesse que foi possível encontrar em apenas 7 km2 de terra, desde a zona portuária até às zonas mais elevadas do território, o Upper Rock. Esta última parte foi constituída como Reserva Natural, sendo apenas acessível durante um horário específico do dia e mediante a aquisição de um bilhete por pessoa e por veículo. Pelo que nos foi dito, esses bilhetes têm a duração de 24h. No entanto, conseguimos prolongar, de forma bastante subtil, o seu tempo de utilização para dois dias, tendo acabado por visitar os principais pontos de interesse do Upper Rock e tendo ainda tempo para nos dedicarmos à prática do Geocaching.


No artigo artigo anterior, terminei descrevendo os túneis escavados durante do Grande Cerco (1779-1783) no coração da montanha e que praticamente ligaram uma face à outra, de forma a colocar canhões em posição mais favorável para atingir as trincheiras do exército hispano-francês.


O objectivo era, recordo, colocar canhões numa saliência na face Este mas estes acabaram por ser posicionados em aberturas ao longo da galeria principal, e a dita saliência, o Notch, só viria a ser atingido já após o fim do Cerco. Ao abrigo da cortesia militar de então, o comandante das forças hispano-francesas foi convidado pelo Governador de Gibraltar a visitar os túneis após o cessar-fogo, tendo exclamado com assombro "Estes trabalhos são dignos dos próprios romanos!".



A cidade-fortaleza subterrânea


As escavações não terminaram aqui, sendo progressivamente adaptados e melhorados os túneis. Nada que se compare no entanto ao que viria a acontecer durante a II Guerra Mundial. Temendo um ataque das Forças do Eixo a Gibraltar e dado que o Rochedo não apresentava condições de defesa contra um ataque maciço, a montanha foi transformada numa verdadeira cidade-fortaleza subterrânea. A população foi entretanto evacuada para a Grã-Bretanha, Marrocos, Jamaica e Madeira, só regressando no final do conflito.





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Na construção das defesas de Gibraltar foram escavados, por 2 companhias canadianas e 5 inglesas, cerca de 50km de túneis, com hospital, reservas de água e gerador eléctrico, o suficiente para albergar cerca de 30.000 soldados. Com nomes de ruas e sinalização rodoviária, foi construída uma rotunda maior que o Picadilly Circus para permitir aos camiões inverterem o sentido de marcha no interior da montanha. Actualmente, apenas se visita 1% dos túneis. Depois da experiência do ano passado na Linha Maginot, soube-nos a pouco.




O planeamento Britânico previu ainda a possibilidade de Gibraltar ser efectivamente tomado pelos Alemães e, à luz dessa possibilidade, foi delineado um plano secreto, a Operation Tracer, que consistia em deixar para trás 6 homens que seriam selados em secções secretas dos túneis, com condições e mantimentos para sobreviverem durante um ano, espiando as movimentações alemãs através de postos de observação bem camuflados e reportando via rádio para Londres.


Quanto ao tão temido ataque, ele de facto foi minuciosamente preparado por Berlim sob o nome de Operação Félix. Contudo, o desentendimento com o ditador Francisco Franco sobre o timming e as condições para lançar o ataque levaram ao adiamento e ao posterior cancelamento do plano, felizmente também para Portugal que era nele mencionado.


O papel de Gibraltar na II Guerra Mundial não foi no entanto irrelevante. Apesar de não ter sido particularmente atingido de forma directa, foi a partir do Rochedo que o General Eisenhower comandou o desembarque Aliado no Norte de África.


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Se em Grândola há um amigo, em Gibraltar há em cada esquina um canhão. Percorrendo a península encontram-se peças de artilharia que vão desde o século XVIII até à II Guerra Mundial, como esta bateria junto a uma das entradas dos túneis da II Guerra Mundial.




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Ex-libris de Gibraltar é no entanto esta peça de época vitoriana com um peso de 100 toneladas. Este canhão demorava duas horas a estar pronto a disparar após o primeiro alerta mas depois conseguia repetir o disparo em poucos minutos. Era orientado por telefone a partir do topo do Rochedo e o sistema de disparo era pela primeira vez eléctrico. Nunca disparou em combate real mas alguns disparos de teste durante os quais foi pedido à população de Gibraltar que evitasse sair à rua por uma questão de segurança.




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Vista da Royal Anglian Way, uma via de acesso construída pelo exército e que actualmente constitui um percurso pedestre com 600m, passando por baterias e outras estruturas abandonadas datadas da II Guerra Mundial, como um conjunto de galerias (actualmente seladas) e cozinhas. Cuidado com os bombardeiros disfarçados de gaivotas e... com os macacos!




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A Muralha de Carlos V (ver na imagem satélite abaixo) é uma muralha construída durante o século XVI para reforçar as defesas da povoação após esta ter sido saqueada por piratas turcos. Actualmente, possui uma escadaria em toda a sua extensão que permite o acesso pedestre directo à crista do rochedo. A vista a partir do muro é muito boa mas nada se compara ao impacto do que se avista ao chegarmos ao topo, directamente por cima da parede vertical do Rochedo na face Este. Vale bem os pulmões que deixamos pelo caminho durante a subida.





Ver mapa maior




Macacos de Gibraltar, os mais distintos cidadãos do Rochedo


O Llanitos (na linguagem local), macacos originários do Magrebe, são sem dúvida os habitantes mais populares de Gibraltar, podendo ser encontrados no Upper Rock em estado semi-selvagem, organizados diversos grupos num total de cerca de 300 indivíduos. Contudo, se a sua popularidade entre os turistas é elevadíssima (perdoem-me os fundamentalistas se disser que ir a Gibraltar e não ver os macacos é como ir a Roma e não ver o Papa), já entre os comerciantes locais eles são no mínimo inconvenientes e indesejados.


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Confortavelmente instalados à beira do abismo, nota-se que a estes primatas, os únicos em liberdade no continente europeu, o medo é uma cena que não lhes assiste.




Crê-se que terão sido trazidos do Norte de África pelos árabes como animais de estimação (uma lenda diz que terão passado o Estreito através de um túnel que liga os dois continentes) mas acabaram por se estabelecer pela zona, entrando tanto na tradição como na vida política do Rochedo. Reza uma supersticiosa lenda que se algum dia os macacos desaparecerem de Gibraltar, também a soberania britânica no Rochedo chegará ao fim.


Por esse motivo, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill ordenou durante a II Guerra Mundial o repovoamento do Rochedo com macacos vindos do Magrebe, uma vez que a colónia gibraltarense estava reduzida a apenas 7 indivíduos. Alguns foram também levados para a Grã-Bretanha para qualquer eventualidade de repovoamento futuro.


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Por questões de saúde da colónia de macacos, é terminantemente proibido alimentá-los, havendo multas de até 500£ para quem for apanhado a fazê-lo. Quem não parece preocupado com isso são os guias que conduzem os grupos de turistas até ao Upper Rock, sendo alguns até bem conhecidos dos próprios macacos. Tivemos oportunidade de ver um macaco ir sentar-se no chão, aos pés de um guia local, e puxar-lhe discretamente os calções para pedir um amendoim.


Embora tenham uma aparência adorável, sobretudo os mais novos, não deixam de ser animais selvagens e imprevisíveis, daí a existência de múltiplos avisos, um pouco por todo o lado, para os turistas não terem qualquer tipo de alimento visível quando estiverem junto dos macacos, sob pena de ficarem sem ele. Com enorme à vontade e descaramento, os macacos são capazes até de abrir mochilas e arcas frigoríficas nas lojas para obterem algum alimento. Nós próprios estamos em condições de afirmar que foi de facto difícil convencer um deles de que era errado cobiçar, de forma muito activa diga-se, o Calippo de laranja que a Ana transportava. A coisa resolveu-se com uma sucessão de valentes ralhetes, isto numa altura em que eu estava já prestes a colocar uma faixa branca com um círculo vermelho sobre a fronte.




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"O pára-brisas ou os cacahuetes, carais!"


Tomadas as devidas precauções, é no entanto agradável assistir às acrobacias e às proezas destas criaturas que nos fazem sentir como intrusos tolerados num território que não nos pertence.




Gibraltar, um espaço de pluralidade religiosa

Em Gibraltar, vive-se um clima de aceitação e tolerância religiosa bastante interessante, embora nestas coisas da religião o conceito de tolerância seja tremendamente relativo, sendo possível encontrar no Rochedo uma catedral católica anglicana, uma catedral católica romana, uma sinagoga e uma mesquita que vale a pena visitar.


Embora não tenha sido sempre pacífico, momentos houve de alguma convulsão religiosa em Gibraltar, aqui encontraram no entanto refúgio judeus e muçulmanos expulsos de Espanha pelo fanatismo religioso, após este território ter passado para mãos britânicas pelo tratado de Utrecht. Esse aspecto foi aliás um dos muitos argumentos dos espanhóis para a rejeição posterior do tratado, uma vez que este continha uma cláusula pela qual os ingleses concordavam em não permitir a liberdade de culto aos judeus.


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A Mesquista Ibrahim-al-Ibrahim ou ainda Mesquita Rei Fahd bin Abdulaziz al-Saud ou ainda a Mesquita do Guardião das Duas Mesquitas Sagradas (pausa para descansar os dedos) (...) é uma mesquita situada a pouca distância da extremidade Sul da península de Gibraltar e da Catedral católica romana de Nossa Senhora da Europa. A mesquita, que contém uma livraria e uma biblioteca, foi oferecida pelo rei Fahd da Arábia Saudita.


A seguir: Relato daquilo que sucede no outro lado do Estreito


terça-feira, agosto 16, 2011

Pelo Sul da Hispânia I - Gibraltar (parte 1)

Terminadas que estão as férias, aproveito para partilhar aqui com vocês (num misto de exibicionismo puro misturado com o exercício de um certo saudosismo amargo) alguns dos locais, magníficos diga-se (Ora cá está. Exibicionismo.), pelos quais passámos.


O primeiro deles foi o enclave britânico de Gibraltar. Situado no extremo Sul da Península Ibérica, consiste basicamente num maciço rochoso que se ergue dramaticamente na paisagem, protegendo uma cidade, com cerca de 30.000 habitantes, que se espraia nas estreitas franjas planas e nas encostas baixas.




Vista de parte do centro histórico de Gibraltar a partir do Upper Rock, com as espanholas San Roque, povoação mais à esquerda fundada pelos espanhóis expulsos de Gibraltar no século XVIII, e La Línea de La Concepcíon, mais à direita, povoação que faz fronteira com Gibraltar naquilo que foi antigamente a linha das fortificações espanholas que isolaram e não raras vezes bombardearam o Rochedo.



Pertence à coroa britânica desde que foi conquistada aos espanhóis há 307 anos mas a sua história é milenar. Sendo inicialmente baptizado de Monte Calpe, umas das Colunas de Hércules, as duas montanhas que delimitavam o actual Estreito de Gibraltar e marcavam o fim do Mundo Conhecido na Antiguidade, foi rebaptizada de Djebel Tarik, "Montanha de Tarik", a partir da chegada dos exércitos muçulmanos em 711 liderados por Tarik Ibn Ziyad. No entanto, os vestígios humanos mais antigos pertencem mesmo ao nosso falecido primo Neandertal, descobertos um pouco antes dos vestígios encontrados na Alemanha no Vale de Neander.



Objecto de disputa entre o Reino Unido e Espanha, facto que levou a que só a partir da década de 1985 a Espanha tenha aceite reabrir a fronteira com Gibraltar. Actualmente, e apesar de fazer parte do Reino Unido (estatuto reforçado em referendo), a população resulta em grande parte da mestiçagem de Ingleses, Genoveses, Espanhóis, Portugueses e Marroquinos. Com a língua oficial inglesa têm vindo a rivalizar o espanhol e uma inovação recente: o "Spanglish", uma mistura das outras duas, um pouco à semelhança do que acontece por cá com o Francês e o Português na altura do regresso provisório dos nossos emigrantes. Numa das poucas praias do território foi possível ouvir um delicioso "Mira, mira! Un seagull muerto!" por parte de uma mãe que chamava a atenção do filho para uma gaivota que boiava inerte sobre a água.





Vista do Aeroporto de Gibraltar, antes de La Línea de La Concepcíon, onde a pista se cruza com a via rodoviária de ligação com a Espanha na qual existem semáforos para interromper a circulação sempre que chega ou parte um avião para o Reino Unido. Está já em construção um novo terminal para abrir o aeroporto ao tráfego internacional, assim como um túnel que permitirá a passagem do trânsito automóvel sob a pista. Este aeroporto foi construído durante a II Guerra Mundial com inertes retirados das escavações dos túneis da montanha, que a transformaram numa mega-fortaleza.



A entrada em Gibraltar é relativamente fácil mas exige frequentemente a apresentação de identificação nos postos de controlo fronteiriço. O tráfego local é intenso pelo que a maior parte dessa formalidade recai sobretudo nos veículos que não tenham matrícula gibraltarense ou espanhola. No último dia, formaram-se 4 filas para sair da península e fomos obrigados a uma espera de quase 40 minutos. no entanto, em nenhum momento foi solicitada a revista do carro pelas autoridades alfandegárias, ao contrário do que nos tinha sido dito.



Ao longe é possível avistar a costa Norte-Africana, no outro lado do Estreito. Distingue-se claramente a outra Coluna de Hércules, Djebel Musa, "A Montanha de Moisés", e, tenuamente mais à esquerda, a parte mais elevada da península de Ceuta.



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A vertente Oeste de Gibraltar, sendo bem visível o maciço com mais de 400m de altura e, à direita, o farol da Ponta Europa. A vertente Este consiste, ao contrário desta, de uma parede rochosa praticamente vertical que corta a respiração!




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Eu não disse? Só faltou mesmo aquela sensação de cortar a respiração mas é muito mais fácil senti-la se estivermos na crista da montanha e olharmos para baixo. Palavra de honra!




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A bandeira de Gibraltar com as armas conferidas pelos Reis Católicos que destacam o papel de Gibraltar como Chave do Reino e Chave do Mediterrâneo.




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A "Union Jack" flutuando sobre a Torre de Menagem do Castelo Árabe.




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Um sinal de cedência de prioridade que não deixa dúvida. Obviamente este estava em inglês mas, curiosamente, os sinais de STOP, esses, estavam em português.




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Gibraltar é o único território britânico no qual a circulação automóvel se faz pela direita. Para que os súbditos de Sua Majestade não se esqueçam disso, há avisos no pavimento junto às passadeiras a recordar os peões que o perigo vem da esquerda e não da direita.




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As típicas cabines telefónicas vermelhas britânicas encontram-se por todo o lado.




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Em Gibraltar sentimos um clima de agradável segurança. É frequente ver patrulhas policiais em circulação e, ao passear pela Main Street à noite, cruzámo-nos por 3 ou 4 vezes com patrulhas policiais individuais a pé. Foi surpreendente ver um desses polícias verificar se as portas dos estabelecimentos comerciais estavam bem fechadas. Pela janela aberta em jeito de guichet de atendimento deste posto de polícia, foi possível ver um agente imerso em documentação, sob o ar beneplácito de Sua Majestade num retrato pendurado na parede.




O território de Gibraltar é fraquíssimo em termos de recursos naturais. Sem fontes de água potável, depende de cisternas de captação de águas pluviais e de centros de dessalinização de água marinha.


A principal fonte de receitas deixou há algum tempo de ser a indústria e serviços navais para passar a ser o turismo. Sendo zona franca, encontram-se inúmeras lojas no centro que vendem tabaco e bebidas alcóolicas a baixo preço, tal como os combustíveis que estão a preços de antigamente (enchemos o depósito do veículo com gasóleo a 1,16 €/L). O resto não é particularmente barato.


A moeda oficial é a libra inglesa a par da libra de Gibraltar, de valor equivalente. O Euro também é aceite embora os comerciantes sejam algo criativos em termos de taxas de câmbio.


Existe um forte apelo de saudosismo patriótico no comércio, sendo frequente ver anúncios que procuram vender produtos e sabores dando destaque à sua origem na "homeland". Curiosamente, grande parte dos géneros alimentares frescos provêm de La Línea.


Tivesse sido confeccionado com géneros de origem inglesa ou não, o pequeno-almoço à moda "british" que experimentámos no Morrison's foi algo completamente diferente para os nossos hábitos. Um belo prato matinal composto por feijão, salsicha, bacon, ovo estrelado e batata frita, devidamente acompanhados por uma grande chávena de café, serviram para encher de tal forma que só voltámos a sentir fome a meio da tarde.


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Cascata resultante do excedente de uma unidade de dessalinização de água marinha, perto da Ponta Europa.




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Casemates Square, a praça principal no centro histórico, aberta sobre aquilo que sobrou de um conjunto de casas após o Grande Cerco de finais do século XVIII. Daqui parte a Main Street, a principal artéria comercial da cidade.


A história de Gibraltar é plena de episódios bélicos. Alternou em sucessivos combates entre árabes e espanhóis, depois entre espanhóis e espanhóis até cair em nas mãos de Inglaterra. No entanto, os espanhóis tentaram várias vezes recuperar estes 7 km2 de terreno sendo o momento mais marcante o do Grande Cerco. Durante mais de 3 anos, uma força hispano-francesa cercou e bombardeou o Rochedo por mar e terra mas a guarnição resistiu tanto às bombas como ao surto de escorbuto devido à carência de alimentos frescos. Ao todo, mais de 200.000 balas de canhão foram disparadas neste período.


A valentia e determinação da guarnição de Gibraltar de então está materializada nos Túneis do Grande Cerco. Este conjunto de câmaras e galerias foram escavadas a meio da montanha para permitir a colocação de canhões numa saliência rochosa que permitiria o fogo alinhado com as trincheiras das tropas que cercavam o Rochedo. Ao mesmo tempo, um militar britânico inventou um engenhoso sistema de báscula para que os canhões pudessem atingir, quase na vertical, as posições inimigas mais próximas.


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O sistema de báscula adaptado a um canhão numa das câmaras do Túneis do Grande Cerco.




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The Notch, a saliência rochosa (no centro da foto) que já depois do Grande Cerco, foi fortificada. É possível perceber as aberturas para canhões, ao longo da galeria principal a partir da saliência, em sentido ascendente para a direita.


A seguir: a cidade subterrânea e os habitantes mais famosos e irrequietos do Rochedo.

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