A 18 de Abril e 1915, Garros foi forçado a aterrar atrás das linhas alemãs, na sequência de uma avaria no seu avião, tendo sido feito prisioneiro. Ironia das ironias, o seu mecanismo de sincronização hélice-metralhadora caiu nas mãos dos alemães que desta forma deram um salto enorme em termos de eficácia da sua força aérea. De prisão em prisão, destino acabaria por juntá-lo a Anselme Marchal num campo de prisioneiros em Magdeburgo, já em 1918. Marchal fora capturado após ter "bombardeado" Berlim com panfletos de propaganda, tendo sem sucesso tentado chegar à Rússia, acabando por aterrar, também ele, devido a uma avaria.
A 14 de Fevereiro de 1918, Garros e Anselme Marchal conseguiram evadir-se. O plano fora preparado com precisão durante várias semanas e era de uma simplicidade desconcertante consistindo em sair do campo... tranquilamente pela porta, disfarçados de oficiais alemães.
Os uniformes foram preparados com minúcia. O tecido foi obtido a partir das fardas azuis dos oficiais franceses e tingido de cinza, os botões foram esculpidos em madeira e pintados de forma a parecerem de bronze e os sabres foram feitos com paus com várias aplicações de cera. Com a ajuda dos camaradas, todos os elementos de pormenor destinados a dar realismo aos uniformes foram improvisados a partir de materiais tidos como inofensivos, que se encontravam nos alojamentos dos prisioneiros. Por baixo dos uniformes, escondiam-se roupas civis que seriam usadas mal estivessem longe do campo. Quanto aos indispensáveis documentos de identificação, esses foram forjados por um outro prisioneiro habilidoso.
Chegado o dia da fuga, Garros e Marchal saíram das garagens do campo, discutindo de forma exaltada em alemão, ou melhor, Marchal falava (era fluente) enquanto Garros, que nada percebia, apenas ouvia e acenava.
Passaram por uma sentinela, depois outra e ainda outra, sendo que nenhuma delas solicitou qualquer identificação aos dois oficiais, que reclamavam da falta de respeito dos prisioneiros e sobre como era necessário tomar medidas para endurecer a disciplina. Só a 4ª sentinela os interpelou e pediu a documentação. Marchal, que queria evitar ao máximo usar os documentos de identificação que traziam com eles, respondeu furiosamente que não iria mostrar mais os documentos, depois de o ter feito já por 3 vezes. O truque resultou e a sentinela limitou-se a fazer continência e a abrir caminho.
Dali, os dois oficiais dirigiram-se à estação de Magdeburgo a partir de onde viajaram de comboio até Colónia e daí para a fronteira. As restantes dezenas de quilómetros foram feitas durante a noite, atravessando localidades e florestas, tendo acabado finalmente por conseguir chegar à Holanda, após terem percorrido um total de mais de 500km, regressando depois a França, apresentando-se novamente ao serviço, de forma imediata.
Garros e Marchal condecorados com a Legião de Honra após o regresso a França
Roland Garros morreria a 5 de Outubro desse ano, após ter sido abatido durante um combate aéreo. Quanto a Marchal, acabaria por morrer, já depois da Guerra, em Junho de 1921, após ter sido atingido pela manivela com que punha o seu carro a trabalhar.